quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Uma história de piratas...

Um destes dias recebi do leitor José Azevedo e Silva um e-mail que publico neste post. É uma história e um apelo e diz respeito a um episódio com piratas ocorrido em 1925.
Envolve a lancha canhoneira "Macau", na altura comandada pelo Primeiro Tenente João Vaz Monteiro de Azevedo e Silva (1896-1954), pai de José Azevedo e Silva que nasceu em Macau a 29 de Setembro de 1925 tendo regressado a Portugal com poucos meses de vida. Esta história, ocorrida no ano em que ele nasceu, é portanto aquilo que ele ouviu contar ainda criança em conversas de família.
Não obstante a vitória reclamada pelas tropas portuguesas em 1910 sobre os piratas que 'infestavam' o delta do Rio das Pérolas com sucessivos ataques em mar alto e às ilhas da Taipa e Coloane, a verdade é que esse feito serviu apenas para atenuar, ainda que de forma significativa o flagelo. Os actos de pirataria continuariam até praticamente à década de 1950. São inúmeros os casos ocorridos. O que José Azevedo e Silva relata é de 1925 e nunca antes ouvira falar...
A canhoneira "Macau" (na imagem acima na doca das Oficinas Navais em Macau) fez serviço de patrulha no território no início do século XX.  A embarcação foi encomendada aos estaleiros Yarrow & Co. Ltd., de Glasgow (Escócia), tendo sido entregue à Marinha portuguesa em 1909. Foi o navio Nº 60 do Regimento de Sinais da Armada e utilizou o distintivo “C.T.A.X.”, como indicativo do Código Internacional de Sinais.
A embarcação seria abatida ao efectivo da Armada a 15 de Agosto de 1943, sendo entregue aos responsáveis militares japoneses da força expedicionária que invadiu a China, por troca com 10.000 sacos de arroz. Passaria a navegar com o nome "Maiko". Em 1949 seria capturada por militares chineses, passando a integrar a frota da marinha da China sob o nome “Wu Fang”.
"Quando o delta do rio das pérolas era ainda infestado por piratas que atacavam as embarcações mercantes que cruzavam a zona era fundamental o trabalho de fiscalização e prevenção de embarcações como a canhoneira "Pátria" e a lancha Canhoneira "Macau". Numa ocasião um barco pirata atacou uma embarcação de comércio e levou de refém todos os passageiros que não tinham calos nas mãos. Os que tinham mãos calejadas eram considerados pobres e como não tendo dinheiro para resgates eram deixados seguir. 
As freiras pertenciam a uma missão católica sediada num antigo templo chinês situados na região de Macau. Não tendo dinheiro para resgates o Superior da Missão pediu auxílio ao Governo de Macau que decidiu destacar a lancha canhoneira "Macau" para libertar as freiras tentando não usar a força de forma a não colocar a vida das reféns em risco. Depois de detectado o refúgio dos piratas o comandante da "Macau", Tenente Azevedo e Silva, foi até ao local, falou com eles e conseguiu convencê-los que aquela senhoras eram pobres vivendo de esmolas e de mãos postas pediam a Deus que protegesse os homens cá na terra.
O apelo foi bem sucedido e as freiras libertadas. Como forma de recompensa, o superior da missão ofereceu ao tenente Azevedo e Silva dois leões de pedra que guardavam a entrada do templo. O comandante recusou tão caro presente mas o padre insistiu... e a oferta foi aceite pelo Imediato da canhoneira. Azevedo e Silva acabaria por aceitar um disco de pedra redonda - com cerca de 80 cm de diâmetro - com dragões esculpidos dos dois lados.
Aquando a morte do meu pai, a minha mãe e os meus irmãos, concordámos em oferecer esta peça ao Museu da Marinha que a teve exposta na Sala do Oriente. Anos mais tarde, com o encerramento desta sala, perdeu-se um pequeno quadro que continha a descrição destes factos. A quem porventura possa ter mais informações sobre estes factos solicita-se que enviem para: macauantigo@gmail.com de forma a poder fornecê-las à direcção do museu e assim solicitar aquela instituição para voltar a expor a peça.

João Vaz Monteiro de Azevedo e Silva (1896-1954)
Militar da Marinha, comandou os navios "Diu" e a canhoneira "Macau" em Macau e a "Bartolomeu Dias" na Índia. Casou em 1905 com Laura Avelar Lopes de Carvalho tendo tido quatro filhos.
Em meados de 1923 embarcou na lancha-canhoneira "Macau" onde esteve até Setembro de 1925 ainda que com uma diligência na canhoneira "Pátria" entre 1 e 23 de Outubro de 1925, ano em que foi promovido a 1º Tenente. Em 1926 terminou a comissão em Macau.
De regresso a Portugal foi responsável pela Direcção das Pescarias, director da Biblioteca de Marinha, professor da Escola Naval e da Escola Náutica e membro da ”Comissão Permanente de Direito Marítimo” tendo contribuído para a elaboração de leis ainda hoje em vigor. Foi ainda juiz no Tribunal de Marinha e membro do Instituto Superior Naval de Guerra.
Em 1935 foi promovido a Capitão-Tenente da Marinha de Guerra e em 1940 a Capitão-de-Fragata. Terminou a carreira militar com a patente de Capitão-de-Mar-e-Guerra. Morreu a 24 de Dezembro de 1954.
Condecorações (Ordem Militar de Avis): Grau de Comendador, com Decreto de 21 de Novembro de 1947; Grau de Grande-Oficial, decreto de 27 de Setembro de 1954.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ainda a Fonte dos Amores

Existe na taipa uma inscrição num muro com a designação Fonte dos Amores. A actual configuração do muro - já sem a fonte - dá para perceber como era a fonte... original.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O.K. Hit Songs

A propósito do Dia Mundial da Rádio - celebra-se anualmente a 13 de Fevereiro pois foi nesta data que a United Nations Radio emitiu pela primeira vez, em 1946, um programa em simultâneo para um grupo de seis países - escolhi para tema deste post a "O.K. Hit Songs"
Muito popular nas décadas de 1950 e 1960 a O.K. Hit Songs era uma revista mensal de pequeno formato que incluía as músicas - letra e acordes - que eram sucesso na época e às quais, por norma, só se tinha acesso através da rádio ou das jukebox em alguns cafés. Tinham a vantagem para os leitores não só de poder aprender a letra mas também, para os que tocavam piano ou guitarra, de poder reproduzir os grandes sucessos musicais. Registada em Hong Kong cada exemplar da publicação custava um dólar de Hong Kong sendo a revista impressa em Macau.


Na época os Beatles eram um dos grupos mais populares. Refira-se a este propósito que por certo muitos habitantes de Macau se deslocaram a Hong Kong a 9 de Junho de 1964. Nesse dia os Beatles deram um concerto no Princess Theatre em Kowloon. Este concerto teve a particularidade de não contar com a presença de Ringo Starr. Internado num hospital de Londres foi substituído na bateria por Jimmy Nicol. Relatos da época indicam que o concerto não esgotou, algo raro por aqueles dias de beatlemania.
Para saber mais sobre a história da rádio em Macau sugiro a leitura deste post.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A primeira Av. do Coronel Mesquita


 
Antes da conclusão, por volta de 1918, da avenida que liga a baía da Praia Grande ao Porto Interior - denominada Av. Almeida Ribeiro (San Ma Lou), havia um troço de arruamento, entre a Praia Grande e o Largo do Senado, que se denominava Av. do Coronel Mesquita. Na fotografia acima, tirada aquando da demolição do edifício onde veio a ser construído o BNU (fotos abaixo), pode ler-se o nome da antiga avenida.
A Avenida de Almeida Ribeiro foi construída por fases e o último troço completou-se  em 1918 com a demolição da casa do rico comerciante Lin Lian, possibilitando estabelecer o cruzamento da Av. de Almeida Ribeiro com a Rua da Praia Grande.
Nota: actualmente a av. Coronel Mesquita vai desde a zona do edifício Hoi Fu até ao Porto Interior.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lorcha Amasona: 1863

Relação da tripulação da lorcha Amazona num total de 65 pessoas em 1863... 
um dos vários tipos de embarcações que sulcavam as águas do delta do rio das pérolas.
A "Lorcha Macau" num projecto de construção de 1988

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Igreja da Natividade de Nossa Senhora / S.S.M.V. Mariae Nascenti

em cima: fotomontagem (clicar para ver em tamanho maior)
A igreja que é hoje a Sé catedral de Macau começou por ser uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Natividade. Em 1623 foi reconstruída em taipa (composto de terra e palha) mas só cerca de 200 anos mais tarde foi construído um edifício em tijolo e pedra (ilustrações abaixo) sendo consagrada com catedral em 1850. Com o violento tufão de 1874 o edifício ficou gravemente danificado.
O projecto de reconstrução foi então confiado ao arquiteto macaense José Tomás d'Aquino. Já no século XX, em 1937, a catedral foi novamente reparada, mantendo muitos dos traços da anterior reconstrução.
É uma igreja de grandes dimensões, decorada com vários altares laterais, púlpitos de mármore e vários vitrais com imagens do nascimento da Virgem Maria e dos Doze Apóstolos. Nos altares laterais, podem-se ver as imagens do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora de Fátima, de Cristo Rei, de S. João Baptista (padroeiro da Cidade de Macau), de S. José e de Santa Teresa do Menino Jesus.
A Igreja da Sé é uma das várias existentes em Macau e está incluída na Lista dos monumentos históricos do "Centro Histórico de Macau" sendo classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lara Reis e a moradia "Sol Poente"

"Neste edifício legado pelo rotário Fernando Lara Reis à Santa Casa da Misericórdia foi instalado por iniciativa do Rotary clube de Macau o primeiro centro de luta anti-cancerosa nesta cidade no dia 15 de abril de 1951."
A lápide numa das paredes da moradia denominada Sol Poente testemunha a sua utilização depois da morte do proprietário. E ao que consta foi a primeira clínica do género em toda a China.
Nessa data o governador, Comandante Albano Rodrigues de Oliveira, assistiu à cerimónia de abertura da clínica. Pedro José Lobo era o provedor da SCM e também esteve presente, como se pode verificar abaixo em duas imagens reproduzidas pela revista Mosaico nesse ano.
Em 1988 o edifício passou a a albergar a sede da Cruz Vermelha que ali esteve durante muitos anos. Por volta de 2014 o edifício foi readquirido pela SCM que ali tenciona instalar uma creche.
O edifício fica na Av. da República.
Pelo blogue existem diversos posts sobre Lara Reis e o seu legado, como este.
As fotos actuais são da autoria de Bessa Almeida.
 O registo fotográfico da inauguração em 1951 nas páginas da revista Mosaico.
Fernando Lara Reis, nascido em Leiria em 1892 morreu a 14 de Janeiro de 1950 no Hospital Conde S. Januário, com 57 anos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O Português Inquieto

Kunal Basu, escritor nascido em Calcutá (Índia), publicou em 2011 o romance histórico "The Yellow's Emperor Cure" que um ano depois saiu em Portugal com o título "O Português Inquieto", traduzido do inglês por Miguel Romeira.

A acção começa por decorrer em Lisboa no final do século XIX e daí segue para a China com passagem por Macau.
Sinopse:
Lisboa, 1898: António Maria, jovem médico e afamado playboy, descobre que o seu pai está a morrer de sífilis, a terrível praga que afecta todas as camadas da sociedade. Órfão de mãe desde criança, António não se conforma com a ideia de perder o pai tão cedo. Determinado a encontrar a cura, parte para Pequim, na esperança de que a medicina tradicional chinesa tenha a resposta que teima em escapar ao Ocidente. Sob a orientação do Dr. Xu, António inicia-se naquela prática ancestral. Contudo, esta não vai ser a sua única revelação a Oriente. Quando conhece a sedutora e independente Fumi, ele apaixona-se pela primeira vez. Mas à sua volta, a violência eclode. A Rebelião dos Boxers ameaça todos os estrangeiros a viver no país. António terá de decidir-se rapidamente entre a fuga e a permanência na China, a sua segurança pessoal e a possível cura para a doença. E há ainda Fumi, o amor a que ele não tenciona renunciar e que o leva a questionar tudo, alterando irreversivelmente o rumo da sua vida.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Uma multa de dois taeis em 1849



A 1 de Fevereiro de 1849, o governador João Maria Ferreira do Amaral ordenou a aplicação de uma multa de dois taeis a todo o chinês que fosse encontrado a jogar, nas ruas da cidade quer como jogador ambulante quer com banca fixa.
Só no final desse ano seria publicado o primeiro regulamento sobre o jogo em Macau, nomeadamente a primeira licença oficial para exploração do fantan. Isto não obstante o facto de em meados do século XIX já existirem cerca de duas centenas de casas de fantan.
Os chineses não tinham moeda corrente (existiam as moedas de cobre para uso diário, as chamadas sapecas, com um buraco quadrado no meio), sendo a prata usada como moeda.
A unidade de prata usada como moeda era o tael de prata ou liang – 兩 (mandarin pīnyīn: liǎng; cantonense jyutping: loeng).
Um tael equivaleria a uma onça de prata: 37,72 gramas.
A unidade monetária chinesa (tael) foi adoptada posteriormente como moeda oficial da China de 1889 a 1912.  O tael subdividia-se em 10 mazes (ou fzyns), 100 condorins, 1000 sapecas.


Título do livro publicado em 1793 (imagens ao lado):
"Diccionario Universal Das Moedas Pesos e Medidas Assim Metallicas Como Ficticias, Imaginarias, Ou De Conta, E Das De Fructos, Conchas, &C. Que Se Conhecem Na Europa, Asia, Africa, E America A Que Se Ajunta Huma Noticia Das Moedas Dos Judeos, Gregos, e Romanos, e dois mappas dos pêzos das principaes cidades de commercio, das medidas d'extensão reduzidas a palmos, covados, e varas, e das de capacidade, assim para secos como para molhados."

O livro não tem autor, tendo sido impresso em Lisboa na Officina de Simão Thaddeo Ferreira em 1793.
Trata-se muito provavelmente de uma tradução assinada por "hum natural de Lisboa".
Na introdução lê-se que "He este livro como a continuação ou segunda parte do Tratado das partidas dobradas, reimpresso no anno passado de 1792".


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Atracções turísticas em 1908

Macao
40 miles south west of Hongkong One steamer SS Heungshan 1,055 tons daily to and from Hongkong and two steamers to and from Canton give easy communication with both these centres. Travellers to the East should not leave Hongkong without paying a visit to Macao. This historical and Portuguese Colony founded in 1557 is sufficiently important and interesting to deserve a portion of the tourist's time. The approach to Macao is exceedingly beautiful and has often been spoken of as a miniature Bay of Naples. A day may be pleasantly spent in visiting the following places:
- The Praia Grande, a beautiful promenade on sea front with Fort San Francisco and Public Gardens at the ancient Fort Bom Parto and magnificent Hotel Boa Vista on an eminence at the west end.
- The Gardens and Grotto of Camoes named after the distinguished and famous Portuguese poet who wrote the Lusiad there.
- The facade and ruins of the Jesuit Church of San Paulo which was burnt down in 1835.
- The Barrier of Porta do Cerco the place of demarcation between Portuguese and Chinese Territory so tragically associated with the murder by the Chinese of Governor Ferreira do Amaral on 22nd August 1849.
- The Guia Fort with Chapel and Lighthouse enclosed the latter being the first Lighthouse in the Far East From this point a magnificent panoramic view can be obtained of the city the islands surrounding country and waterways.
- The Avenida Vasco da Gama The picturesque Montanha Russa on the outskirts of the city beyond Flora Gardens overlooking the bathing beach of Areia Preta.

Texto extraído de um anuário publicado em Hong Kong em 1908

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Biografia de Manuel da Silva Mendes: pré-venda

Até ao próximo dia 20 de Março está disponível em pré-venda a Biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931) figura incontornável da história de Macau na primeira metade do século XX. O objectivo da campanha é angariar fundos para fazer face ao custo total da edição. Ao subscrever a campanha cada apoiante terá o seu nome impresso no livro e ,de acordo com o valor doado, terá ofertas e condições especiais para aquisição de exemplares.
Para os que se pretendam associar à iniciativa sem ser através desta campanha, podem fazê-lo através de transferência bancária. Neste caso, os valores incluem os portes de correio, recebendo em casa o livro sem custos adicionais. Tal como na campanha, também neste caso terão o nome incluído na lista de apoiantes. Após a transferência devem enviar e-mail com nome, morada e valor transferido para jbotas@gmail.com
Preços por exemplar: 
Portugal: 20€
Resto da Europa: 25€
América: EUA/Brasil/Canadá 50€
Ásia: Macau/China/Hong Kong/Austrália 55€
Dados para transferência bancária:
João Francisco Oliveira Botas
BPI - Banco Português de Investimento - Rua Tenente Valadim, 284, Porto - Portugal
Bank Account 0010 0000 31544840001 79
IBAN: PT50 0010 0000 3154 4840 0017 9
BIC/SWIFT: BBPIPTPL

A biografia será publicada no primeiro semestre de 2017, ano em que se assinala o 150º aniversário do nascimento de Manuel da Silva Mendes.


Nascido em 1867 na aldeia de S. Miguel das Aves (Santo Tirso/Famalicão) Manuel da Silva Mendes estuda direito em Coimbra e abraça a causa antimonárquica muito antes da implantação do regime republicano. No ano em que se forma como bacharel, 1896, publica “Socialismo libertário ou Anarquismo”, considerada uma obra ímpar que o torna conhecido e reconhecido. A política ‘empurra-o’ para Macau onde chega em 1901 como professor de português e latim no liceu inaugurado poucos anos antes e onde vai ser colega de Camilo Pessanha e Wenceslau de Morais.
Em Macau exerce ainda as funções de advogado, juiz e procurador e toma assento como vogal no Conselho da Província, Conselho colonial, Tribunal Administrativo e Fiscal e de Contas, Conselho de Instrução Pública, etc. é nomeado presidente do Leal Senado e alegadamente terá recusado o convite para ser governador em 1915.
Será também em Macau que se apaixona pela civilização e cultura chinesas, com destaque para a filosofia, pintura e porcelana, tornando-se um dos maiores especialistas e coleccionadores de arte chinesa. Uma parte do seu vasto espólio ficou em Macau, a terra adoptiva e que ‘escolheu’ para morrer em 1931.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Ainda o filme "Silêncio" de Martin Socrsese

Já por aqui abordei o filme "Silêncio" que está em exibição nas salas de cinema. A acção decorre no século XVII (ca. 1640), e conta-nos a história de um missionário português envolvido na aventura espiritual da conversão dos povos orientais, o qual acaba por apostatar, após ter sido sujeito às mais abomináveis pressões das autoridades japonesas, para evitar que um grupo de fiéis seja por ordem delas torturado até à morte.
Antes de chegar ao Japão, a sua viagem leva-o a Goa, depois a Macau e, finalmente, a Nagasáqui e Edo, em etapas que pouco a pouco o transportam a esse Oriente hostil, onde no entanto já se contam alguns milhares de convertidos à fé católica.
Aí descobre, na luta contra as pessoas e o ambiente adversos, a verdadeira fé, liberta de todo o aparato externo, eclesiástico ou mundano. E aí acaba por experimentar a derradeira solidão, que é o destino daqueles que quebram a comunhão com o que mais profundamente marca a sua identidade.

Rodado totalmente em Taiwan o filme inclui uma cena que se passa no interior da antiga igreja Mater Dei (de que hoje só resta a fachada conhecida como Ruínas de S. Paulo) - onde é recebida a notícia de que o padre Cristóvão Ferreira renunciou à fé depois de ter sido torturado no Japão - a que se segue uma outra onde os protagonistas descem a escadaria da igreja. Esta última cena, onde se recria não só a escadaria como também o Largo da Companhia de Jesus e a cidade de Macau na época, foi feita nos estúdios CMPC de Taipé/Taiwan.
O filme é baseado no livro de Shusaku Endo, editado em 1966. E esta não foi a primeira vez que foi adaptado para o cinema. Em 1971 surgiu o filme japonês Chimnoku. E em 1996 foi o português João Mário Grilo que realizou Os Olhos da Ásia.
O autor do livro, nascido em Kobe (Japão) em 1923, foi convertido ao catolicismo - baptizado - com apenas 11 anos. Formou-se em literatura francesa em 1949. Escreveu vários romances, incluindo de âmbito histórico e este "Silêncio" é considerado um dos mais importantes. Recebeu vários prémios ao longo da vida, sendo mesmo um dos mais galardoados escritores japoneses e foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Morreu em 1996.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo Chinês | 春节快乐 | Happy Chinese New Year | KUNG HEI FAT CHOI | GONG XI FA CAI

A partir do dia 28 de Janeiro - dia de Lua nova - entramos no novo ano chinês que este ano é dedicado ao galo. Dizem os entendidos que os nascidos sob o signo do galo têm talento para contornar os problemas e se adaptar às situações e gostam do luxo e da extravagância. É a mais importante festividade do povo chinês carregada de tradições muito antigas.
Os panchões, cartucho de pólvora revestido a papel vermelho típico das festividades chinesas, foi durante mais de um século uma das principais indústrias de Macau. A maior parte da produção era exportada, em especial para as comunidades chinesas espalhadas pelo mundo (Austrália, EUA e Canadá, sobretudo). 
Por Macau, tal como na China, os panchões são usados em ocasiões especiais como inaugurações, casamentos e no ano novo chinês. A imagem acima é da década de 1980 e refere-se à Praia de Hác-Sá, um dos locais autorizados para a queima.
To all readers: 恭喜發財!祝您雞年行大運!
A todos os leitores: um feliz ano novo lunar

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Macau em 1974/75: fotos de Per Lander



Neste post publico um conjunto de 12 fotografias tiradas em Macau pelo sueco Per Lander em 1974/1975 e a quem agradeço a partilha das memórias.
Na época a mulher de Per estudava mandarim em Pequim mas como a China só permitia a entrada de estrangeiros em condições muitos especiais, o casal tinha de se encontrar em Hong Kong, o que aconteceu pela primeira vez em Dezembro de 1974. Nesse ano, na altura do Natal/Passagem de ano, aproveitaram para visitar Macau. 
As palavras são de Per Lander: "My former wife was then studying the Chinese language in Beijing. At that time China was a closed country and I was not permitted to visit her there, so we had to meet in Hongkong, the first time 1974." 
Per e a mulher voltariam a encontrar-se em Macau no ano seguinte.

Ao lado, uma imagem da Rua da Barra, já muito perto do Beco do Lilau.

Rua da Barra; à dta, acesso à capitania dos portos, antigo quartel dos mouros.
E como era Macau em meados da década de 1970 aos olhos de Per Lander? Eis a resposta: "In the mid 1970's, it was a big change to come to Macau from Hongkong. Compared to Hongkong everything looked very old and worn, and the pace was much slower. And not a single scyscraper in sight, as far as I can remember! The most striking, however, was that Macau seemed to be much more influenced by the portuguese, than Hongkong by the british. In Macau the chinese and the portuguese cultures had melted together, creating what looked like a unique macanese culture. The old houses had an architectural style clearly influenced by the portuguese. Even many people looked like a blend of a chinese and a portuguese. This was a big difference from Hongkong, where the british seemed to keep a clear distance to the chinese majority. There was of course the casino - Macau's main source of income - but that was
not dominating the overall impression of the city. We stayed only one night in Macau, at a fantastic old hotel called Bela Vista. We had a balcony with balustrade where we sat at night sipping portuguese wine and admiring the view of a bay, some island with a few lights and beyond that the ocean. It felt like the world´s end".

Troço da Rua Conselheiro Ferreira de Almeida, pouco depois da zona do Tap Seac
Calçada de Santo Agostinho
Troço da Avenida da República
Cruzamento da Rua Francisco Xavier Pereira com a Av. Coronel Mesquita
Calçada de Sto Agostinho
Troço da Rua Cons. Ferreira de Almeida na zona do jardim lou Lim Ioc
Na Av. Almeida Ribeiro

Rua de S. Domingos, muito perto da igreja com o mesmo nome


Rua de N. Sra. do Amparo: zona dos tin-tins (ferro velho) no antigo bazar chinês

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Evento de solidariedade com antigo jogador de Macau

Recebi de Rui Ferreira, o n.º 2 na foto da equipa militar abaixo, o seguinte pedido:

"Fomos campeões de Futebol da Associação de Macau durante as épocas de 1970/71/72. Os jogadores Sousa (1), Rui (2), Ramos (3), Lemos (4), Cardoso (5), Capitão Rodolfo (6) e mais tarde Figueiredo (GR) e Moura, todos representaram/ jogaram pela selecção de Macau até 1972/73 (alguns só até 1970). Alguns de nós tiveram como seleccionador/treinador Joaquim Pacheco, que muito inovou os métodos de treino/jogos da selecção.

Nessas épocas pontificava na Seleção o Guarda Redes Joaquim Sousa (1), que foi considerado, pelas suas atuações ao serviço da equipa militar e da seleção de Macau, o melhor guarda-redes da Ásia. Creio que até à data nunca passou por Macau um atleta/guarda-redes com a carreira e o perfil técnico dele. Tinha sido campeão nacional de Juniores pelo FC Porto. Quando chegou a Portugal foi cedido ao Varzim FC (campeão), Guimarães, Boavista (provas da UEFA) e Sanjoanense. Como treinador orientou vários clubes do distrito de Aveiro. Deixou o futebol profissional para seguir uma carreira como empresário industrial na área do calçado. 
Atualmente com 69 anos de idade vive em Portugal, em S. João da Madeira. Há cerca de 2 anos teve um acidente cardiovascular seguido de AVC, foi hospitalizado e só após vários meses de tratamento está a conseguir uma recuperação muito lenta das lesões/sequelas que este tipo de doenças deixam (pouca movimentação/autonomia dos membros do corpo do lado direito).
Pelo que aconteceu ao nosso Sousa e porque cada vez mais ele necessita de apoio e força anímica dos amigos para vencer a doença, um grupo de futebolistas (colegas/adversários) dos campeonatos nacionais de futebol e os ex-militares futebolistas das seleções de Macau, vão homenageá-lo no próximo dia 25 de Fevereiro, pelas 19h30, em S. João da Madeira, no restaurante Mutamba. Durante a homenagem vamos passar fotos/diapositivos e Power Points das várias etapas da sua carreira desportiva.
Neste sentido, gostaríamos de vos pedir colaboração de modo a reunir tudo o que se relacionasse com a sua carreira desportiva: publicações, artigos e fotos das épocas de 1969/70/71, que creio que poderão obter e enviar para: Rui Ferreira - Rua Carvalheiro, n.º 188 4405-734 Vila Nova de Gaia – Portugal Tlf: +351 227 133 624

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Hong Bao/Lai Si/ Lai See: uma tradição milenar

Com a chegada do Ano Novo Lunar - este ano o Ano do Galo a partir da Lua Nova do dia 28 de Janeiro - chega também um das tradições mais antigas da China: a doação de envelopes vermelhos para familiares, amigos e funcionários com dinheiro no seu interior.
São denominados em mandarim como 'hong bao' (envelopes vermelhos), em cantonense como 'lai see' (sendo útil), e em português como lai si. Os pequenos envelopes vermelhos, com as mais diversas ilustrações, representam um gesto de agradecimento, amizade e reconhecimento.
Os envelopes vermelhos (Lai Si) são utilizados nesta época para oferecer dinheiro; a tradição diz que os mais velhos devem oferecer aos mais novos, os patrões aos empregados, os pais aos filhos, os casados aos solteiros, etc... Uma das origens históricas deste ritual remete para o pagamento a compensação de dívidas antes de iniciar o novo ano.
Não há um valor indicativo para quanto se oferece e, claro, varia de acordo com as épocas. O ritual é em tudo semelhante às ofertas de prendas no Natal no mundo ocidental, sendo que neste caso evidencia-se o sentido prático do povo chinês que considera que assim o destinatário do lai si saberá melhor o que fazer com o dinheiro recebido.
Existem muitas explicações sobre as origens desta tradição. A mais amplamente aceite remonta à dinastia Qin (221-206 aC) quando os idosos atavam moedas numa corda vermelha, chamada 'ya sui qian', que significa 'para repelir a velhice'. Depois dos monges chineses inventarem a impressão no século IX dC as moedas foram substituídas por envelopes vermelhos, a cor que na cultura chinesa é considerada a mais auspiciosa.
São várias as interpretações sobre quem deve dar e, naturalmente, quem recebe. Por norma a oferta é feita, pelos casados e mais dotados financeiramente, aos familiares directos, em especial às crianças, solteiros ou idosos. Também é costume a oferta ser feita pelos superiores hierárquicos aos subordinados como forma de reconhecimento pela dedicação ao trabalho. Ao nível laboral, também é costume a partilha de lai si's entre colegas de profissão. Outro aspecto muito praticado na China e em Macau é os clientes oferecerem envelopes com dinheiro aos funcionários de lojas ou restaurantes que costumam frequentar, bem como aos profissionais que lhes prestam serviços, directa ou indirectamente, e que por norma recebem salários mais baixos: empregadas domésticas, motoristas, etc... Em suma, é entendido como um reconhecimento e a valorização dos serviços bem-prestados.
PS: a oferta de lai si's também é muito habitual nos casamentos, ganhando neste caso contornos, leia-se valores, muito diferentes...

sábado, 21 de janeiro de 2017

Silva Mendes e as Figuras em Cerâmica de Shiwan


colecção de figuras de cerâmica de Shiwan do Museu de Arte de Macau foi pertença de Manuel de Silva Mendes (1867-1931), advogado português estabelecido em Macau e grande apaixonado por esta cerâmica produzida na província de Guangdong.
Nos primeiros anos do século XX, Silva Mendes visitou muitas vezes Shiwan/Shek Wan para ficar a conhecer a cerâmica local e depressa se tornaria no primeiro coleccionador e especialista na matéria. Na década de 1920, Silva Mendes encomendou uma série de figuras em grande escala a Pan Yushu (1889-1936) e a Chen Weiyan (?-1926), os mais famosos mestres de cerâmica de Shiwan naquela época. Antes da versão final das obras, Pan Yushu realizava modelos em pequena escala para que MSM pudesse avaliar e tomar uma decisão.

Para além da cerâmica de Shiwan, Silva Mendes foi ainda colecionador e peças Ming e Qing.
Shiwan situa-se na cidade de Foshan no sul da província de Guandong. Durante o século XVI, novas técnicas cerâmicas foram apresentadas aos habitantes de Shiwan, por emigrantes vindos das províncias centrais da China. Uma das características fundamentais desta cerâmica é a variedade cromática dos vidrados, sendo o branco, o vermelho sangue de boi, e o azul os mais frequentes. Destacam-se ainda os ricos e complexos efeitos obtidos à semelhança, mas subtilmente diferentes, dos vidrados produzidos nos fornos Jun, Guan, Ge, vermelho de bronze e celadon.
Os artistas de Shiwan descobriram posteriormente que ao usar o barro para as zonas corporais das figuras e o vidrado apenas para as vestes, podiam conferir aos personagens representados uma grande expressividade. Esta característica fundamental conduziria, em finais da dinastia Qing, ao apogeu artístico desta cerâmica.
As figuras esculpidas foram inúmeras e, a maior parte, eram personagens do teatro, da ficção e do folclore. Nos finais da dinastia Qing e início do século XX, assiste-se a uma grande diversificação temática: foram incluídas figuras históricas e heróis do povo, para finalmente surgirem as pessoas anónimas, os bustos, os nus…
Actualmente, junto ao rio Dongping, está instalado o Museu da Cerâmica. É ali que funciona desde os inícios do século XVI o forno imperial Nanfeng, o mais antigo do género ainda em laboração. Em 2001 foi proclamado como uma relíquia histórica e cultural e registado em 2002 no “Livro Guiness dos Recordes”.