terça-feira, 2 de setembro de 2014

Corpo de Polícia composto por civis: 1849


Na sequência do assassinato do gov. Ferreira do Amaral, a 22 de Agosto de 1849, passado pouco tempo, o Conselho do Governo (iria comandar os destinos de Macau até 30 de Maio de 1850) convoca a 1 de Setembro de 1849 todos os cidadãos que, "ou por cauza da idade, molestia, ou qualquer outro motivo estejam dispensados do Batalhão Provisório"; e determina que os "referidos cidadãos se appresentem amanhã ao meio dia aos Srs. Commandantes da Polícia."
 A ilustração do assassinato no jornal Illustrated London News de 1849
 O combate de Passaleão foi a resposta ao assassinato do gov. Ferreira do Amaral.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Museu Luís de Camões por L. Gonzaga Gomes

“O Museu Luís de Camões é assim denominado por se encontrar situado no Jardim da Gruta de Camões, decerto um dos mais aprazíveis locais de Macau. Está instalado em vetusto palacete, um dos raros exemplos de construção arquitectural dos meados do século XVIII, que sobrevive ao camartelo inexorável do incessante progresso.
Foi dono, tanto deste edifício como do amplo parque que o rodeia, o abastado negociante, Manuel Pereira, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real do Conselho de Sua Majestade, Conselheiro da Fazenda, Comendador das Ordens de Cristo e da Senhora da Conceição de Vila Viçosa, um dos fundadores da Casa de Seguros de Macau e seus Vice-presidente e Tesoureiro. Tendo-se radicado nesta cidade, aqui constituiu família, casando três vezes e aqui faleceu em 10 de Março de 1826, tendo sido sepultado na igreja do extinto Convento, hoje Quartel de S. Francisco.
Entretanto, como os chineses não consentiam a estadia permanente dos comerciantes estrangeiros, nem dos seus barcos, em Cantão, foi-lhes permitido, finda a época das transacções comerciais nesse porto, isto é, de Outubro a Março, domiciliarem-se em Macau, em moradias que os portugueses lhes alugavam, não obstante a terminante proibição em contrário do Vice-rei da Índia.
Tinha, assim, Manuel Pereira o seu palacete alugado à Companhia das Índias, inglesa, quando, em 1792, chegou a Macau Lorde George Macartney, primeiro embaixador enviado pelo Rei da Inglaterra à corte do Imperador K’in-Long (1736-1795 AD).
Servia o palacete de Manuel Pereira de residência ao Superintendente da Comissão Selecta da referida Companhia das Índias e, nas suas amplas salas luxuosamente mobiladas e com fina e requintada elegância, se aposentou o ilustre enviado de S. M. B. Jorge III, quando, em 1794, regressara, exausto e acrimonioso da corte do Filho do Céu, pelo acabrunhante desaire da sua gorada missão.
Lorde Amberts consumiu, também, merencoriamente, nas salas desse palacete, amargas horas de decepção, pois, infrutuosa foi, igualmente, a missão de que fora incumbido, em 1816, pelo mesmo Jorge III, junto de Ká-Heng (1796-1821). Ora, já em 1883, se aventara a ideia de se adquirir esse palacete para ali se instalar um museu colonial.
Em 1885, propuseram-se os jesuítas franceses comprar o palacete e o parque, para instalarem ali um sanatório. Embora o Comendador Lourenço Marques, que era, nessa ocasião, seu proprietário, por ser matrimoniado com a filha do Conselheiro Manuel Pereira, pudesse ter vendido o imóvel por belo preço, preferiu cedê-lo ao Estado, apenas por $30 000 patacas, ou seja metade da oferta proposta pelos jesuítas franceses. A transacção foi efectuada, no governo de Tomás da Rosa, e sancionada pelo, então, Ministro da Marinha e Ultramar, o escritor Manuel Pinheiro Chagas, evitando-se destarte a consumação de um sacrilégio que a História não teria perdoado, porquanto, foi na chamada “gruta”, que encabeça um morrozito, transformado em edénico jardim pelos ingleses, seus arrendatários, que, segundo a tradição, Luís Vaz de Camões, o poeta máximo da Lusitanidade, se acolhia, fugido da materialidade mundanal e da afanosa veniaga que ia pelo incipiente burgo para, solitário e meditabundo, se entregar à evocação das esplendorosas gestas nacionais, fixando-as em imperecíveis e rutilantes estrofes que vieram a constituir “Os Lusíadas”, a Bíblia sagrada da Pátria Portuguesa.
O palacete em questão sofreu, no seu interior, profundas modificações, devido às obras que houveram de se fazer, no decurso do tempo, para o adaptar às necessidades de diversos serviços que foram ali, subsequentemente, instalados: Depósito de Material de Guerra, Repartição das Obras Públicas, Repartição das Obras dos Portos, Imprensa Nacional, e, finalmente, após apropriados restauros, aberto ao público, em 25 de Setembro de 1960, em cerimónia integrada nas Comemorações Henriquinas. Tal como se encontra, presentemente, o Museu Luís de Camões compõe-se de um vestíbulo e onze salas”.
Luís Gonzaga Gomes, in "Boletim do Instituo Luís de Camões", Vol. VII, nº 3, Outono de 1973

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Cheng Yu-Tung: o 'rei' do ouro

Começou sua carreira como joalheiro e é hoje um dos homens mais ricos da Ásia, com uma fortuna avaliada em 16 mil milhões de dólares americanos, feita à base de dois dos bens mais valorizados da China: ouro e imóveis. Aos 86 anos, Cheng Yu-Tung é o patriarca de uma família de Hong Kong que detém uma panóplia de negócios, desde o Hotel Carlyle de Nova Iorque até à cadeia de concessionárias da Ferrari na China. O magnata controla também a rede de lojas Chow Tai Fook (existem várias destes estabelecimentos em Macau), considerada a maior rede de ourivesarias do mundo. Só a abertura de capitais desta rede, em meados de Dezembro, resultou num encaixe financeiro de dois mil milhões de dólares americanos. (…)
Cheng Yu-Tung começou a carreira profissional em 1940, aos 15 anos, quando fugiu do Sul da China, então ocupada pelos japoneses, para Macau. Segundo uma biografia de 2003, a viagem de Cantão para Macau, que se manteve neutral ao longo da II Guerra Mundial, foi cheia de peripécias. Cheng terá escapado de um ataque de bandidos antes de ver a sua bicicleta roubada por soldados japoneses. A chegada a Zhuhai foi feita a pé. Na fronteira com Macau, o jovem teve que se espremer num barco lotado, sendo depois acolhido por Chow Chi-Yuen, um amigo da família, que era dono de uma loja de artigos de ouro chamada Chow Tai Fook (expressão que pode ser traduzida como “boa sorte” em cantonês). Cheng casou-se com a filha de Chow em 1942 e mudou-se em 1946 para Hong Kong. (…) O ouro desempenha um papel importante na cultura chinesa. Para além de ser visto como presente tradicional, é mais valorizado do que o dinheiro.
Excerto de um artigo publicado no JTM de 1 Janeiro de 2012

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Fauna

Manual de identificação de aves (residentes e migradoras) de Macau. De Leonel Barros que tb fez o Guia ilustrado de cobras venenosas de Macau e das Ilhas de Taipa e Coloane em 1978 (edição CIT). 

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sabia que...

... o planisfério chamado de Cantino (do italiano Alberto Cantino), concluído em Lisboa em 1502, é a primeira das cartas europeias a dar certa noção de realidade à representação da costa oriental da Ásia (e da China, claro).

sábado, 23 de agosto de 2014

A Galáxia Pessanha

Há poucos dias foi lançado o livro “Correspondência, Dedicatórias e Outros Textos : Camilo Pessanha”, [333 páginas] editado em parceria pela Biblioteca Nacional de Portugal/Universidade Estadual de Campinas , do Brasil, com a organização, prefácio, cronologia e notas de Daniel Pires.
Daniel Pires, antigo residente em Macau, professor e probo investigador com uma longa e honrosa folha de serviços dedicados à cultura portuguesa, recoloca Camilo Pessanha no centro de uma galáxia de problematizações estéticas , históricas, literárias e filosóficas. Vale a pena recordar que já tinha editado, entre outras, a “Homenagem a Camilo Pessanha”, em 1990, “Camilo Pessanha, Prosador e Tradutor”, 1992, “China: Estudos e Traduções”, 1993 , “Espólio de Camilo Pessanha”, 2008, ou a monumental obra “A Imagem e o Verbo: Fotobiografia de Camilo Pessanha”, de 2005. É, sem dúvida, um enamoramento antigo.
Na dedicatória a Ana de Castro Osório, aposta em Janeiro de 1916, no livro “Esboço Crítico da Civilização Chinesa”, de J.A. Morais Palha, cujo prefácio assinou, Camilo Pessanha escreve melancolicamente sobre essa “tumultuária farândula de imagens exóticas que desde há vinte e dois anos me tem enchido, nos confins do mundo, os olhos tristes de exilado”. Mais do que autobiográficas estas palavras podem ser uma das chaves para uma hermenêutica grande de sentidos, porque o verdadeiro sentido do mundo está, como dizia Wittgenstein, fora do mundo.
Pouco estimado, escassamente lido e arredado do mundo das leituras escolares, Camilo Pessanha reemerge com uma impressionante força estética na sinologia portuguesa do fim de século. Só um grande pensador dos costumes e da existência consegue sobreviver ao esmagamento do ‘pathos’ comunitário. A lucidez devastadora com que pensa uma realidade com energias depressivas, especialmente no circuito confidencial do mundo epistolar, vulnerabiliza-o porque inviabiliza a sua capacidade de resiliência perante a vida aberta, “distrair a atenção e fatigar o espírito” porque como dirá a Carlos Amaro, em 1909, de “Macau lhe direi a permanente dor surda da minha alma, dor quase adormecida enquanto os meus olhos se distraem, de dia, nos espectáculos em que vão repousando”. A comunidade interpretante é muito conservadora e movente, e no dizer de Habermas, segue sempre a autoridade da tradição. E Pessanha não deixa escapar o que realmente sente : “mantenho o mais impassível desdém pelos julgamentos da opinião pública (à qual até teria um certo gosto de vaidade em escandalizar, se a minha obscuridade mo não impedisse) – com tantíssimos bandalhos que tem nela voto de qualidade”.
Os textos inéditos e a arrumação da correspondência, sem esquecer a cronologia da sua vida e obra, permitem-nos escrutinar com mais segurança o quadro mental de Camilo Pessanha e o raro fulgor desta incompreendida inteligência em Macau. Daniel Pires refere que a “correspondência de Camilo Pessanha permite-nos ainda aferir a forma como perspectivava Macau. A sua vivência na cidade provocava-lhe sentimentos ambivalentes: por um lado, amplo prazer por usufruir da pluriforme cultura chinesa; por outro, desconforto e rejeição por se tratar de um meio ‘mesquinho’, conserva dor, claustrofóbico e ancilosado, propício à intriga e à maledicência”.
Numa carta endereçada a Carlos Amaro, em Março de 1912, Camilo Pessanha confidencia-lhe que “em quase vinte anos de Macau, fui-me adaptando ao meio, por um trabalho penível, embora em parte inconsciente, que me incapacitou para ser qualquer coisa fora daqui. São quase vinte anos de estudo, mais ou menos assíduo, da língua chinesa, dos costumes chineses, da arte chinesa. A língua, principalmente desde que cheguei aqui a última vez, há três anos, tenho-a estudado brutalmente, - no furor de me absorver no que fosse, para ver se conseguia distrair-me de tantas desgraças a que não posso dar remédio e que são a minha obsessão”. De resto, interroga-se, “escrita chinesa, poesia chinesa, arte chinesa, de que poderiam servir-me fora daqui?”, numa alusão clara ao enorme vazio cultural português sobre o Oriente e a China, não mencionando sequer os estudos sinológicos. Mas, não enjeitaria uma aventura escolar fora do perímetro de Macau, “consta-me, finalmente, que vão ser criadas cadeiras de português em Xangai e Hong-Kong. Aceitaria ainda, em última extremidade a de Xangai, desde que fosse sofrivelmente paga e me deixasse tempo para advogar perante o consulado, que como naturalmente sabe, é também tribunal para os residentes de nacionalidade portuguesa, que ali são em grande número, macaístas e chineses oriundos de Macau”.
O “Relatório sobre a actividade pedagógica das Irmãs Canossianas”, redigido por uma comissão que integrava Camilo Pessanha, Eduardo Cirilo Lourenço e Fernando Celle de Meneses, tem um alto valor simbólico porque nos revela a forma, umas vezes subtil e outras vezes mais à bruta, como o recém formado estado republicano, em Macau, se assenhoreou da vertente providencialista e assistencialista até então cometida aos organismos religiosos. Não menosprezando o contributo dos outros dois membros, é identificável, no documento, a estrutura argumentativa da racionalidade de Pessanha. Estes dois textos já estavam sinalizados para integrar o quarto volume dos “Documentos para a História da Educação em Macau” (os outros três volumes foram editados entre 1996 e 1998, pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude), que infelizmente não chegou a sair.
Foto de 1915 em Macau
Mas a verdadeira novidade é a transcrição da acta de uma sessão secreta do Conselho de Governo, no dia 23 de Junho de 1904. Para além do Governador Martinho de Montenegro, estiveram presentes o Bispo de Macau, D. João Paulino de Azevedo e Castro, o Juíz de Direito substituto, Camilo Pessanha, o capitão-de-mar-e-guerra Albano Branco, o tenente-coronel Francisco Santana, Alfredo Lello, Luís Gonçalves Forte, Olímpio de Oliveira, Eduardo Marques e José Gomes da Silva.
Mas o que tinha motivado essa sessão secreta? “O Vice-Rei de Cantão tinha pedido há tempos ao Governo provincial a captura e, em seguida, a extradição do mandarim Pui-Keng-Fôc”. Camilo Pessanha declarou-se desassombradamente contra a extradição, “apaixonadamente hostil à concessão das extradições pedidas pela China, as quais entende deverem dificultar-se quanto possível”. Todos os outros vogais do Conselho de Governo votaram favoravelmente o pedido de extradição, incluindo o Bispo de Macau, “Ministro de uma religião de amor”, porque pesou mais a estratégia política regional para a sobrevivência do Território do que verdadeiramente a defesa dos direitos humanos, que se consubstanciavam na vida do mandarim.
Já tinha publicado esta história no antigo semanário “Tribuna de Macau”, em 1995, (sem suspeitar da acta secreta e da intervenção de Camilo Pessanha), porque ela se tinha transformado num pequeno incidente internacional. O mandarim opiómano tinha sido posto a ferros na Fortaleza do Monte e depois extraditado, com a soleníssima promessa de não ser maltratado ou condenado à morte. Pouco tempo passado após a extradição, um jornal inglês da colónia vizinha, o ‘Hongkong Telegraph’ noticiava a execução sumária do mandarim e invectivava os portugueses por não respeitarem os tratados e o direito internacional. A reacção do governo de Macau, lê-se na correspondência oficial, foi “enérgica”, “indignada” e “muito dura”. Camilo Pessanha ficou com a sua reputação ainda mais em alta e Macau com água e víveres, que deixaria de ter se não tivesse havido a extradição. Por estas e por outras, Pessanha lançou este anátema , “aquilo não é uma colónia, nem é uma cidade; é uma montureira, material e moral”.
Deixo um desafio a Daniel Pires, a reedição em fac-símile de “Kuok Man Kau Fo Shu” de José Vicente Jorge e Camilo Pessanha. Era outra cereja em cima do bolo! Não obstante o caminho já percorrido, ainda estamos longe de conhecer a galáxia Pessanha.
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 15.02.2013

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sur le dialete portugais de Macao: 1892

José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo, mais conhecido por Leite de Vasconcelos (1858-1941) foi linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo.
Em 1892 escreveu "Sur le dialete portugais de Macao: exposé d'un mémoire destiné à la 10ème session du Congrès International des Orientalistes".
António Feijó e Camilo Pessanha contribuem para este congresso realizado sob a égide da Sociedade de Geografia com alguns textos enviados pelo cônsul de Portugal em Cantão.
Estavam previstas 76 comunicações mas uma epidemia fez com que o congresso não se efectuasse.
Ainda assim, muitas das publicações acabariam por ser editadas.
Sugestão de leitura:
António Feijó e Camilo Pessanha no Panorama do Orientalismo Português, de Manuela Delgado Leão Ramos. Edição Fundação Oriente. 2001

O livro "analisa os aspectos orientalistas destes dois autores portugueses que foram os mais geniais intérpretes da linguagem poética chinesa. A sua obra encontra-se assim contextualizada na tradição orientalista, na sua vertente sinológica, em Portugal e Macau e, ainda, no mais vasto campo europeu.
Este estudo enriquece com uma faceta portuguesa a mais ampla reflexão teórica sobre o Orientalismo que continua a ser um tema de grande actualidade desde a Teoria da Literatura à História e Teoria das Ideias."

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Selos porteados

Quando a correspondência era colocada no correio, sem franquia, ou com franquia insuficiente, o destinatário para receber a dita correspondência tinha de pagar os portes que não tinham sido pagos pelo  remetente.
 
 
 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Avô da malta!

Embora a diáspora seja imensa e se encontre espalhada, a bem dizer, pelos “quatro cantos” do mundo (e como já sabem onde houver um ou uma Macaense, há um prato de minchi com a sua “marca” caseira, ou um bolo “Menino” ou outra qualquer especialidade da gastronomia secular de Macau) é em Lisboa, que temos um daqueles que por todos é sobejamente conhecido, por exímio cozinheiro, e por todos denominado de “o Avô”!
António Sebastião Francisco Xavier Lobato de Faria da Silva ganhou esta alcunha de “Avô” entre os amigos da Escola Primária e Liceu de Macau - por ter uma madeixa de cabelos brancos de nascença -. Na família, contudo, é tratado por Tonim e ainda há quem o conheça pelo nome do falecido Pai Tranquilino!
O nosso homem é um divulgador da culinária Macaense, em Lisboa, pois todas as semanas confecciona pratos da nossa culinária, na Casa de Macau, desde finais da década passada. Da sua cozinha privada em Almada, por outro lado, têm saído os mais diversos pratos da pura cozinha macaense para todas as bocas que a queiram provar e digo-vos por vezes não tem mãos para as encomendas.Ele, em parceria com o Nando Conceição e as respectivas esposas, é bom não esquecer, têm gerido a “cozinhação” e têm dado um relevo enorme e divulgado a cultura de Macau através do que têm feito em prol da gastronomia de fusão, como agora se apelida, a culinária é a bem dizer um dos factores de maior preponderância na cultura de qualquer país ou terra!
Ainda em Macau e logo após os estudos liceais, foi para a tropa e depois directo para trás dos balcões do Banco Nacional Ultramarino, um trajecto muito comum nos jovens desses anos 70, tendo-se reformado muito jovem e decidido com a esposa, acompanhar o casal de filhos, mais de perto nos seus estudos em Lisboa, já em finais de 1999. Mas ainda antes de partir para a Europa, frequentou vários cursos, na Escola de Hotelaria, em Mong-Há, como amante que era dos tradicionais “petiscos” da sua terra Natal, sempre na
mira de um dia poder matar saudades deles lá longe! O Avô, agora de facto com a idade de o vir a ser (Avô de verdade!) é um verdadeiro amigo dos tempos de escola e como tal é-me difícil traçar um perfil sem ter de o beneficiar.
Apesar do seu ar circunspecto para quem não o conheça, por vezes bem sisudo, digo-vos sem pestanejar, que é um bom coração e um amigo do seu amigo, praticante de desporto, ténis, natação quase todos os dias (este é o seu segredo do aspecto jovem que ainda aparenta).Até há uns pares de anos ainda passeava muito na sua moto, que suponho já tenha posto de lado devido aos afazeres que o volume enorme de encomendas lhe provocam no dia-a-dia!
Filho de uma família católica tradicional e numerosa, de macaenses de gema, a sua Mãe, D. Maria octogenária, que Deus lhe dê muita saúde, a qual suponho ter sido a sua fonte de inspiração, na aprendizagem desde muito novinho na altura em que habitavam numa das “casas museu” do Tap Seac, (no 95 B) dos pratos que agora, semanalmente põem na mesa da vivenda da Almirante Gago Coutinho perto da rotunda do (outrora) relógio ou aeroporto da Portela.Sem nos podermos esquecer, do seu Pai, conhecido e distinto e dedicado funcionário do BNU, quase toda sua carreira profissional, tendo também participado, se bem me lembro, nas famosas e espectaculares récitas do então Adé (José dos Santos Ferreira) no D. Pedro V, o Sr. Tranquilino! António Silva, de Macau, este sim é o verdadeiro embaixador da cultura gastronómica de Macau, no século XXI.
Texto da autoria de Luís Machado publicado no JTM de 9-2-2011

sábado, 16 de agosto de 2014

Envelope de 1903

Envelope/carta enviado de Macau em 1903: alusivo ao Chinese Imperial Post. De Macau a Lisboa demorou exactamente um mês a chegar. De 19 de Outubro a 19 Novembro segundo carimbos dos correios.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"Sagres": 1987


1987: One more episode is achieved in Aviation History between Portugal and Macau. The “Sagres” - a Mooney Super 21 (M-20E), CS-ALG, connects Portugal to Macau, recalling the aerial raid by Brito Pais and Sarmento Beires. Two pilots, Maj. Jorge Cruz Galego and Armando Leal, and the mechanic Álvaro Mendes composed the crew. 
Sagres departed Tires aerdrome on January 10, 1987 and landed in Macau 27 days later (February 6, 1987) in a small improvised compacted runway which was prepared in the Concordia reclaimed area next to the Karting Track in Coloane Island. After landing and on behalf of the 3 aviators Jorge Cruz, read the following Luis de Camões statement: “esta é a minha ditosa pátria minha amada- sentiu-o aqui Camões e nós compreendemo-lo”. 
Days later, on attempting a return flight to Lisbon, Portugal, the airplane experienced a forced landing just to the northwest of Macau, following a technical failure.
Once practically recovered, "Sagres" became a point of attraction exhibited in Granja Municipal Park in Coloane Island located pretty much close to the place this "beauty" first landed in Macau, after a long aerial raid adventure...
The original a/c propeller was somehow "repaired" and forwarded to Hong Kong where is now exposed in the portuguese "Lusitano" club.
Total flight time: 65h30m in 27 days.
Night time: 40h45m.
Number of landings: 23.
Ground distance: 8150 NM = +/- 15000 KM.
Text/photos: Carlos Fragoso Costa
More about this here
http://macauantigo.blogspot.com/2009/05/raid-aereo-lisboa-macau.html

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Homenagem a Morrison em 1955

A 1 de Agosto de 1955 cerca de 50 ingleses de Hong Kong, a maioria estudantes, deslocam-se a Macau onde prestam homenagem junto ao túmulo do Reverendo R. Morrison, no aniversário da sua morte. A Morrison deve-se, por exemplo, a tradução da Bíblia para chinês, isto numa época em que os chineses estavam proibidos, sob pena de morte, de ensinar a sua língua a estrangeiros.
Na 1ª imagem o testemunho de uma homenagem em Julho de 1934 e na 2ª uma fotografia de 1907.
 A capela no cemitério protestante

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Miguel José D'Arriaga (1776-1824) - Segunda parte

Foi com os portugueses que a história de Macau teve a sua maior evolução, após a ocupação da região, no século XVI, com a fundação de um entreposto comercial entre o Oriente e o Ocidente e a inicial permissão dos chineses. Em 22/06/1802 chegou a Macau, como Ouvidor (autoridade da Coroa Portuguesa que superintendia todos os ramos administrativos públicos), Miguel José d’Arriaga, filho da mais alta estirpe das Ilhas, formado em Coimbra, fidalgo e Cavaleiro da Ordem de Cristo, Conceição e Torre Espada, do Conselho de Sua Majestade. Homem extremamente culto havia trabalhado como juiz, por algum tempo, em Lisboa, no Bairro da Ribeira (9/5/1800).
Nas terras do Oriente, sua personalidade respeitosa e dinâmica capacidade governativa deram-lhe logo fama. Fundou uma escola de pilotagem, uma fábrica de pólvora, um colégio para missionários, uma Casa de Seguros, criou um batalhão provincial de infantaria, mandou alguns chineses estudar em Coimbra e estimulou outros a matricularem seus filhos nessa mesma Universidade. Promoveu no pequeno espaço macaense a igualdade de direitos civis, aboliu o imposto das SISAS (imposto sobre as transacções comerciais), estimulou e desenvolveu o comércio marítimo entre os portos da Ásia, Portugal e Brasil. Fomentou a emigração chinesa para esse país no intuito de levar a cultura do chá para terras sul americanas. Diplomaticamente, apaziguou litígios entre Inglaterra e China e marcou definitivamente sua presença na história de Macau com o episódio da queda da pirataria chinesa do século XIX.
Naquele tempo quando se fazia da pirataria modalidade de vida, Cam-Pau-Sai, o Tigre dos Mares, aterrorizava o Mar da China. Arriaga, contrariamente à posição das anteriores autoridades portuguesas que faziam vista grossa a essa actividade, porque esta mantinha distraída e em constante sobressalto a autoridade chinesa e com isso interferia pouco nas decisões macaenses, resolveu encarar o assunto de outra forma. Declarou a pirataria um crime e com a comparticipação de três mandarins mais interessados, montou uma potente armada às suas próprias custas e dos cofres do Estado para acabar com tal situação. Empenhou-se nessa tarefa de corpo e alma. Ele próprio dirigia os preparativos. Muitas vezes trabalhava como calafate, para dar exemplo e estimular a actividade dos operários. Pronta a esquadra, lançou-a ao mar, ligeira, resoluta, combativa. Mas aos primeiros embates viu-se só. Fugiram os chineses apavorados. Tiveram os portugueses que lutar e subjugar o inimigo, cercando-o na embocadura do rio Hiang-San. Miguel Arriaga, mostrando destemor e respeito pelo vencido foi até Cam-Pau-Sai sem escolta e com a rendição, tomou com ele o chá da boa amizade. Para os mandarins foi um grande milagre que transformou o Ouvidor num venerável homem, pelos chineses respeitado e admirado. Benévolo, o açoriano intercedeu pelo ex-pirata junto ao Imperador que o aceitou como funcionário.
Subjugado mais pelo nobre carácter de Arriaga e em agradecimento ao tratamento e confiança nele depositados, Cam-Pau-Sai ofereceu-se para combater uma esquadra pirata que não se rendera e que ainda fazia estragos. Desconfiado, o Imperador do Celeste Império não aceitou a oferta e resolveu enviar uma armada chinesa, que foi de logo desmantelada. Mais uma vez o Ouvidor foi procurado e outra vez Arriaga recomendou a que aceitassem a oferta de Cam-Pu-Sai. O que de facto ocorreu. Derrotados os piratas, levou-os para Cantão, onde foi recebido com triunfo e ovação.
Quando Miguel José d’Arriaga morreu (13/12/1824), minado por doença prolongada, após ter ficado exilado em Cantão devido a intrigas e invejas palacianas e ter voltado a Macau em glória, como queriam os macaenses, com honrarias e reconhecimento reais pelo grande trabalho feito nessa parte do mundo português, foi pranteado por todos que viram nele o exemplo de homem enérgico e de carácter, o filantropo e grande estadista que serviu de modelo e orgulho para todo o Português.
Artigo de Maria Eduarda Fagundes - Uberaba, 6 de Janeiro de 2007

A seguir, excerto de um texto do Capitão José do Nascimento Moura.

(...) Arriaga, que para alguns passou por ser o Marquês de Pombal de Macau, descendia de uma família nobre da ilha do Faial e foi tio-avô do primeiro Presidente da República Portuguesa, Dr. Manuel de Arriaga, Filho de José de Arriaga Brun da Silveira e de D. Francisca J.B. da Câmara, foi cursar leis na Universidade de Coimbra, concluindo a sua formatura em 1800, tendo 24 anos de idade.
Pelo favor da Corte e pelos seus merecimentos pessoais ascendeu no mesmo ano ao cargo de Juis do Crime do Bairro da Ribeira, em Lisboa, sendo pouco depois promovido a desembargador da Relação da Índia, com o cargo de Ouvidor de Macau e tendo superintendência sôbre Alfândega, Câmara, Fazenda, Orfãos, Confrarias, Capelas, Defuntos e Ausentes.
Tendo chegado a Macau em 28 de Julho de 1802, e tmando posse do seu cargo, imediatamente se revelou "um digno ministro, honra dos togados e coluna forte da glória nacional", como disse José Inácio de Andrade, onze anos depois da sua morte. Arriaga, que "sabia que a justa distribuição dos prémios e das penas é a melhor acção do govêrno sôbre o povo, servia-se desta principal mola do coração humano para animar a virtude e o mérito e obrigar o interêsse particular a promover o interêsse público".
Amante da justiça e tendo no mais alto grau a dignidade da sua profissão e o orgulho da pátria a que pertencia, tinha a meúdo a frase que bem se podia pôs diante de todos os governantes portugueses: " Os favores dados à incapacidade são roubos, feitos ao merecimento, e as recompensas dadas a quem serve a Pátria são dívidas que o Govêrno para por elas".
Sem descurar por um instante o que mais lhe cumpria, Arriaga, pelo ano de 1805, levou os chineses a reconhecerem e a respeitarem a nossa soberania, fazendo julgar pela nossa justiça um caso de assassínio em Macau, na pessoa de um chim, feito por um siamês. Quando o almeirante Drury quis ocupar Macau, o pretexto de defender esta nossa colónia dos franceses, foi Arriaga quem conseguiu que aqueles retirassem com uma provocada ameaça dos chineses, e que êstes, por fim, em número de 80.000, que se achavam dispostos a marchar sõbre Macau, desistissem do seu seu intento.
Infestando os mares da China e ameaçando a própria dinastia chinesa o célebre pirata Can-Pau-Sai, foi Arriaga quem combinando e preparando o ataque que o havia de fazer render-se, aprestou os navios, e do seu próprio bolso mandou construir duas canhoneiras para tal fim. No encontro de Arriaga com os mandarins e Can-Pan-Sai, para tratar da rendição, o Tigre do Mar - como era conhecido, - dirigindo-se a Arriaga disse-lhe: "Grandes motivos me fazem render e tratar convosco da minha capitulação para entrar na classe dos "Colaos", como me prometeste pelo Imperador.
Mas confesso-vos que o principal foi conhecer o fulcro da alavanca destruidora do meu poder. Já vos vi; estou satisfeito. Devo muito à natureza e à minha assídua aplicação; mas em tudo me achop convencido por vós". E voltando-se para os mandarins; "Tendes por experiência de 14 anos visto quão poderos e vigilante foi o meu sceptro: sabeis agora da minha bôca que o valor português foi quem o destruiu. Aqui me tendes: espero que metrateis como homem livre e destemido".
Arriaga, segundo descreve Andrade, era "dotado de presença cavalheiresca e gentil, de uma fisionomia onde se compadeciam os índices do génio com os da maior bondade do coração e de maneiras tão urbanas como sedutoras", conciliava o respeito com a familiaridade, sendo a sua casa o asilo de todos os malfadados. As suas dávidas a albergues, a viúvas e orfãos; a vacinação, de que pela primeira vez se fês uso na China quando as epidemias devastavam a população; a distribuição de alimentos, quando a fome batia à porta dos desamparados, e outros actos de generosidade e filantrofia, sobretudo quando as tempestades açoutavam a colónia e deixavam sem asilo as suas vítimas, fizeram-no adorado pelos pobres e humildes.
Deles disse, na sua conferência no Instituto de Macau, intitulada "Silhouettes portugais d´Asie", o meu venerando amigo e erudito escritor e investigador histórico Padre Regis Gervais (Eudore de Colomban) a quem Macau tanto deve, e a quem o nobre Portugal, por ele tão exaltado na imprensa nacional e estrangeira, tem em aberto uma dívida de gratidão que cêdo ou tarde tem de ser paga:
"Ce latin de haute souche et d´education privilégiée, fut le Ricci civil de la Chine au 19 siécle; et l´Histoire qui l´oublie, devrait inscrire son som dans fastes les plus memorables que l´Europe a dressés en Asile depuis Marco-Polo.Car son rôle social dans ces contrées de tourmente chronique ne se borna pas à rehausser le bon renom portugais, mas encore à révéler aux Jaunes la science do pouvoir rayonnant d´un barbares d´Europe, que n´etait pas comme les autres. L´on parle beaucoup et avec raison à Macao de l´energie civique du lieutenante de Mesquita qui, avec une poignée de volontaires, mit en fuite une armée d´envahisseurs; I´on vante aussi la fermeté du gouverner Amaral qui paya de industrie d´Arriaga sa douce bonhomie qui lui gagne tous les coeurs, et qui le dispense, pour remporter haut la main les plus belles victoires, de verser son propre sang et celui d´un peuple ombrageux qui avait appris à l´aimer. Oh! si l´idée venait un jour aux édiles de cette cité, d´élever une statue à ce grand citoyen, nous serions tous fiers de le désigner du doigt aux passants et de leur dire: Ce fut Arriaga, dernier champion en Chine de l´homeur Européen."