sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Casa Garden: um pouco de história

Postal do início do século XX: "palacete da quinta da gruta de Camões e depósito de material de guerra"
A Casa Garden é um dos mais notáveis exemplares do património arquitectónico macaense de raiz europeia. A sua edificação remonta à segunda metade do século XVIII (1770), tendo sido inicialmente propriedade de uma família da aristocracia portuguesa (Manuel Pereira). Alugado mais tarde à britânica Companhia das Índias Orientais, foi sucessivamente local de apoio à estada em Macau de embaixadas à Corte Imperial e sede de diversos organismos da Administração de Macau. A partir de 1969 e até quase ao final da década de 1980 albergou o Museu Camões. No final do séc. XX tornou-se a sede da delegação em Macau da Fundação Oriente. Inicialmente tinha 2 pisos mais cave.
 
Governador Melo Egídio na inauguração do Museu em 1980 e interior do museu.
A zona onde se encontra a gruta começou por ser propriedade da Companhia de Jesus. Quanto estes foram expulsos - em Macau em 1762 - passou para a posse do Senado (Leal). Pouco depois (ca. 1800) o conselheiro Manuel Pereira comprou-a para dali fazer um espaço/casa de veraneio, a chamada Casa Garden construída em 1770. Foi tb sede da Companhia Inglesa das Índias Orientais (e embaixada oficiosa dos britânicos); alugada pelo Leal Senado já que não era permitido aos estrangeiros ter propriedades em Macau (ou na China). A companhia das índias orientais tinha ainda alugados outros espaços, p.e., na Praia Grande; a da quinta era uma espécie de residência para acolher as visitas mais importantes. O local era bastante aprazível e ficava, à época, distante do que seria o 'rebuliço' que se vivia para os lados do delta do rio. Enquanto os ingleses ali estiveram fizeram um grande jardim tal como era prática na época (até vieram de propósito jardineiros de Inglaterra). Tinha exemplares de espécies de várias partes por onde eles passaram até chegar a Macau..


Nas imediações fica o cemitério protestante. Data de 1815, ano em que foi cedido/vendido uma parte da propriedade aos ingleses para o construírem (os protestantes não podiam ser enterrados em cemitérios católicos). Passou depois para as mãos do genro de M. Pereira (Lourenço Marques) ca. de 1833 quando a companhia das índias orientais foi extinta. Foi L. Marques que depois a vendeu ao governo de Macau ca. 1885 por 30 ou 35 mil patacas
A primeira vontade do governo em adquirir o espaço data de 1880 e por iniciativa do cap. do Porto de Macau, João Scarnichia. Os franceses também estavam interessados, mas a autorização do governo de Lisboa chegaria em 1885.
As romarias do 10 de Junho à gruta começaram em 1923. Entre 1969 e 1989 a Casa Garden funcionou como museu. Nesse ano foi vendida (escritura de 15 de Maio) à Fund. Oriente por 15 milhões patacas. Uma das últimas requalificações do jardim é de 1991 e da autoria do arquitecto paisagista Rodrigo Dias. Deverá ter sido por essa altura que foi colocada aquela calçada à portuguesa bem como a escultura (à entrada)
Em suma, a Casa Garden foi: residência de Verão, sede da Companhia das Índias Orientais; armazém de material de guerra e das obras públicas, repartição das Obras dos Portos, Museu Camões e sede/sucursal da Fundação Oriente.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Corridas de galgos: desde 1963

O Canídromo é o nome pelo qual ficou conhecido o que começou por chamar-se "Campo Desportivo 28 de Maio", nome que surgiu após as obras de remodelação do espaço aquando das comemorações do "duplo centenário" em 1940. Com o início da Guerra do Pacífico o estádio, leia-se o interior das bancadas, foi utilizado para albergar milhares de refugiados. Os espaços em terra à volta da pista de atletismo e do campo foram utilizados para cultivar hortaliças e criar animais para consumo doméstico.
O Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. LTD., foi inaugurado, às 16h30 horas do dia 28 de Maio (Sábado) de 1963 tendo presidido à cerimónia o Encarregado do Governo, Tenente-Coronel Carlos Armando da Mota Cerveira. Foi nessa noite que se iniciaram as primeiras corridas de galgos, um evento único em toda a Ásia. O preço de entrada era de uma pataca para a Tribuna do Público e três Patacas para a Tribuna dos Sócios. No total realizaram-se 10 corridas nessa noite. Eis a lista dos vencedores.
1 - Lucky Stake ............. 350 Jardas
2 - Canidrome Stake .....450 "
3 - Macau Stake ............450 "
4 - London Stake ...........450 "
5 - Australia Stake .........350 "
6 - America Stake ........ 450 "
7 - Paris Stake ............. 450 "
8 - Berlin Stake ............ 525 "
9 - New York Stake .......450 "
10 - Washington Stake .450 "


1965
 Anos 70
 Anos 30
Postal da década de 1940
Num outro post expliquei que nesta entrada estão três datas:
1940 (inauguração), 1140 (Fundação de Portugal) e 1640 (Restauração)
Publicidade no Anuário Comercial e Industrial de 1963
1995
 
Uma aposta nas corridas em 1974

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Impressões e Recordações

Quem pretender fazer a história da primeira metade do século XX em Macau não pode ignorar este nome maior da sociedade macaense: Manuel da Silva Mendes (1867-1931). Formado como bacharel (advogado) em Coimbra em 1896 cedo se juntou aos movimentos que lutavam contra a monarquia e defendiam a implantação da república. Um sonho que só viu concretizado já em Macau onde chegou em 1901 para leccionar no Liceu. Desses anos ficou o livro “Socialismo Libertário ou Anarchismo: História e Doutrina” e a curiosidade aguçada pelo Oriente em geral e pela China em particular.
De espírito multifacetado, foi professor e reitor do Liceu, advogado e juiz. Teve ainda tempo para se dedicar ao estudo da filosofia taoista (deixou obras notáveis neste domínio) e para se embrenhar nos exigentes meandros da arte chinesa, como erudito e coleccionador. Entre as múltiplas obras de arte que coleccionou destaque para a chamada cerâmica de Shec Wan/Shiwan. No início do século XX, Silva Mendes visitou diversas vezes esta região do Sul da China conhecida pela produção cerâmica. Interessou-se de tal modo que junto dos fabricantes locais encomendou peças únicas tornando-se assim o primeiro coleccionador do mundo a estudar esta forma de arte. A sua valiosíssima colecção particular constitui o espólio mais significativo do desaparecido Museu Luís de Camões e hoje pode ser apreciado no Museu de Arte de Macau. A propósito, refira-se que até há bem pouco tempo no átrio da exposição permanente no museu surgia o ano de 1876 como sendo o do nascimento de Silva Mendes quando na verdade foi em 1867. Morreu em Macau em Dezembro de 1931... há 82 anos.
Silva Mendes viveu em Macau cerca de três décadas (metade da sua vida) e escreveu em diversos jornais e revistas. Luís Gonzaga Gomes (seu aluno no Liceu de Macau) foi dos primeiros a aperceber-se da importância dos seus artigos e começou por reuni-los nas páginas do jornal “Notícias de Macau” (e nos livros “Colectânea de Artigos de MSM”) nas décadas de 1940 e 1960. Em 1979 a professora Graciete Batalha seleccionou o que considerou serem os seus textos mais significativos no livro "Macau impressões e recordações".
Para além dos textos e obras de arte, Manuel da Silva Mendes acabaria por deixar como seu legado ao território a casa que construiu de raiz na encosta da Guia, uma construção de estilo neoclássico. Na toponímia local ficou a homenagem numa rua e numa travessa com o seu nome.
PS: Muito mais há para dizer sobre a vida e a obra de Silva Mendes mas terá de ficar para uma próxima oportunidade. Estou nesta altura a finalizar a sua biografia pelo que qualquer contributo (fotos, documentos, testemunhos....) é bem-vindo e pode ser enviado para o e-mail macauantigo@gmail.com
O Tao Te Ching, da autoria de Lao Tze, é uma das obras fundamentais do taoísmo. Curioso este livro editado pela Imprensa Nacional em 1908 mas com a indicação "conferência realizada no grémio militar de Macau em 3 de Janeiro de 1909". 
Casa Silva Mendes. Construção de estilo neo-clássico que integra alguns elementos de inspiração militar, apresentando um aspecto geral sólido e imponente.

Edifício classificado de Interesse Arquitectónico, localiza-se na Colina da Guia e é actualmente sede do Instituto Internacional de Tecnologia de Software da Universidade das Nações Unidas.
Nota: artigo publicado no JTM de 30.1.2014

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"Revista Colonial": 1922

Nesta edição de Fevereiro de 1922 (imagens acima) inclui-se um artigo de 3 páginas da autoria de J. L. Marques intitulado "Origem da Colónia Portuguesa de Macau na China" e outro artigo da autoria de Silvestre Santa Martha, que aborda temas sobre as finanças, receitas orçamentais, administração e   economia de Macau na época, bem como alguns aspectos geográficos e  históricos. Ocupa página e meia e inclui uma fotografia da Praia Grande
Nos números de Maio e Junho de 1922 há também artigos sobre Macau, com o  título "O padroado do Oriente": excertos de  conferencia dada pelo  Bispo de Macau na Sociedade de Geografia. Cada um ocupa cerca de 3 páginas. A revista mensal foi criada na década de 1910.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

"O Presente e o Futuro de Macau" por Jaime do Inso

Num pequeno texto assinado por Jaime do Inso e proferido na 2ª Conferência da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL, onde ele era sócio), ficam-se a conhecer alguns dados gerais sobre o território no início do século XX. A palestra intitulou-se “O presente e o futuro de Macau” e viria a ser publicada no Boletim nº 3-6 da SGL em 1920.
Beco do Bambu. Foto Lawrence Aberhart
“2 avenidas, 139 ruas, 20 largos, 3 praças, 35 calçadas, 115 travessas, 99 pateos, 4 rampas, 80 becos, 6 escadas, 1 ramal, 1 adro, 1 mercado, 1 ilha, 3 povoações, 5 estradas, e 1 horta; e apezar de todas as contrariedades que pesam sobre a colonia, manifesta-se uma certa tendencia para aumentar o número de edificações. Pelo mesmo Recenseamento, referido a 10 de Fevereiro de 1910 (data de ano novo china), a população total da Província, Macau e dependências, incluindo-se nestas as ilhas de D. João e Vong-Cam é de cerca de 75.000, cabendo 56.000 a parte terrestre e 19.000 a marítima. Em números redondos, 3.600 são portugueses, 71.000 chinezes e 244 estrangeiros, cabendo só ao concelho de Macau, respectivamente, 3.500, 62.700 e 240, ou sejam um total de cerca de 66.500, dos quais 17.000 formam a população marítima do porto de Macau. Dos portugueses, 2571 são macaistas, 134 naturaes doutras colonia e 896 da metrópole; mas se descontarmos deste numero as forças de guarnição de terra e mar quasi exclusivamente compostas de portugueses reinoes como dantes lá nos chamavam, resta-nos uma minoria de poucos centos de portugueses europeus que quasi na totalidade desempenham cargos do governo."

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Ano Novo Lunar no início do séc. XX

 Fotografias de José Neves Catela
No livro “Macau”, editado pela Imprensa Nacional em 1950, Francisco de Carvalho e Rêgo (1898-1960), dedica um capítulo ao início do século XX no território (ele chegou a Macau em 1908). Chamou-lhe “Macau… há quarenta anos” e daí retirei um excerto sobre as festividades do ano novo lunar.
José Neves Catela fotografou Macau durante quase duas décadas e fê-lo de tal forma bem que as fotos que seleccionei bem podiam ter sido usadas no livro de Francisco de Carvalho e Rêgo. Ora reparem...  
"O ano novo chinês era muito festejado e por todas as ruas se viam as bancas de ‘clu-clu’, jogo que era explorado por gente de poucos recursos, onde todos, desde as crianças aos velhos, arriscavam a sorte.
Era à meia-noite da antevéspera que o governador da colónia dava início à festividade, jogando uma parada de cem patacas num ‘fantan’ instalado num velho edifício, que hoje já não existe, e que estava situado a meio da Rua das Estalagens.
Então, a população da colónia andava no ‘Bazar chinês’ em vaivém constante, dos ‘fantans’ para as bancas de ‘clu-clu’ e destas para os restaurantes chineses, sempre comendo pevides e frutas cristalizadas.
Duravam cinco dias, estes festejos e todos se julgavam na obrigação de jogar, fosse o que fosse: era costume! Mas a vida era fácil e o dia de amanhã pouco ou nada preocupava aqueles que julgavam que tudo era eterno e sempre gozado em leito de rosas."

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dança do Leão e Dança do Dragão

Dança do Leão: década 1970
Tal como acontece como muitos aspectos da cultura chinesa, também as origens e características da Dança do Leão diferem de região para região. No que ao Sul diz respeito (a que pude testemunhar em Macau) esta dança serve para exorcizar espíritos maléficos e para invocar sorte e felicidade. Daí que seja muito habitual haver destas danças durante as festividades mais importantes, como o ano novo lunar ou na inauguração de espaços comerciais. O leão do Sul distingue-se pela vasta variedade de cores, pela cabeça com grandes olhos, um espelho na testa e um chifre.
O Leão é um animal que não existia na China (existiam tigres) e a dança está ligada a uma lenda da Dinastia Tang  (618 – 907 a.C.). O ritmo musical é marcado por um gongo, pratos e um tambor. No espectáculo o Leão é manuseado por duas pessoas, mas pode ser apenas por uma.
Desfile do Dragão junto ao hotel Lisboa: década 1980
 Dragão com 238 metros no Ano Novo Lunar do Cavalo (2014) no Largo do Senado.
Em cima foto de Manuel Cardoso. Em baixo foto de António Sotero
A Dança do Dragão remonta à Dinastia Han (206-220 a.C.). Começou por estar ligada aos rituais para desejar boas colheitas. Na dança, o dragão é formado por três partes: cabeça, corpo e cauda. Quanto mais comprido for o dragão mais homens são necessários. A própria dança segue um ritual. Por exemplo, só começa depois do 'pintar'/'benzer' dos olhos do dragão que normalmente é feito pela mais alta individualidade presente na cerimónia. A explicação é simples: a alma do dragão depende dos olhos e o dragão só é considerado vivo depois desta cerimónia.
Quem já assistiu à dança por certo reparou no homem que segura um mastro com uma bola na ponta. Esta bola está sempre à frente do dragão e tem por função dirigir a dança. É a chamada "bola do dragão" (com que ele brinca). O ritmo da dança é marcado por vários tambores sendo que em nenhum momento o dragão deixa de se movimentar.
Nota: Com este post não se pretende dar uma explicação exaustiva sobre o tema (não me referi, por exemplo ao simbolismo do leão e do dragão na cultura chinesa), mas apenas retransmitir os conhecimentos e experiência que adquiri durante os anos que vivi em Macau.
Gov. Nobre de Carvalho 'dá vida' ao Dragão no ano novo lunar de 1974. Foto de JR