segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Escuteiros: desde 1911

Este ano comemoram-se os 100 anos dos escuteiros em Portugal. Recorde-se que foi Álvaro Machado, então governador de Macau, que no seu regresso a Portugal deu o mote para o surgimento dos primeiros grupos de escuteiros em Portugal em 1913. Antes, em 1911, originou a sua formação em Macau.
Nos aterros da Praia Grande: década 1940
 1948
Década 1960 frente à casa de Sun Iat Sen. Foto JD
1988: no Tap Seac
Um encontro em Portugal em 1981 recorda o ano da criação dos escuteiros em Macau: os primeiros em todo o território português de então.

domingo, 8 de setembro de 2013

Guerra dos Boxers... incidente em Macau

Notícia do "Diário Popular" com o título "O que se passou em Macau":
«O Diario de Noticias publicou hontem um telegramma do seu correspondente em Londres referindo um ataque dos boxers a Macau, que produziu, como era natural, certa impressão.
Ora o que é certo, é que teve tão pouca importancia o que se passou náquella nossa colonia, que o respectivo governador, apesar do seu muito zelo, nada communicou ao governo. O sr. ministro da marinha, porém, entendeu telegraphar para Macau pedindo informações. E o sr. Horta e Costa respondeu que um pequeno grupo de chinas tentou no ultimo domingo á noite surpreender a sentinella das portas do Cerco. Chamada aguar da, esta correu sobre os chinas, que debandaram immediatamente.
O conhecimento errado que o commandante da Zaire teve do facto, fez com que désse o signal de alarme, havendo por isso grande movimento de forças, que promptamente tomaram posições, segundo um plano de defesa da cidade, recentemente elaborado pelo chete do estado maior.A promptidáo com que as forças tomaram posição produziu optimo effeito em toda a colonia, que assim se via garantida, effeito que os jornaes inglezes assignalaram. Até á data da communicação official, 17, a tranquillidade era completa em Macau e seus arredores.
O governo de Macau attribue o facto a vingança de uns chinas, por prisões effectuadas no porto por motivo de trangressáo do regulamento respectivo. Accrescenta a informação, que houve tumultos ao norte de Korwloon, (Korwloon ou, á portugueza, Kaulun?) entre a força reformista imperial, e que ha dias foram violadas sepulturas de portuguezes no cemiterio christão de Cantão. A este respeito foi feita reclamação ao vice-rei de Cantão, o qual ordenou que fossem feitas as necessarias reparações nas sepulturas, demittida a auctoridade local e executados quatro chinezes que commetteram a profanação.»
A Guerra dos Boxers foi um conflito ocorrido na China entre 1899 e 1900. Um grupo nacionalista que lutava contra a presença dos estrangeiros na China estava inconformado com a forma como o poder político lidava com o que denominava de "intervenção imperialista" no país e criou uma sociedade secreta, conhecida como “A Sociedade dos Punhos Harmoniosos e Justiceiros” (daí o nome boxers), para lutar contra os imperialistas do ocidente. O movimento teria início em Shandong.
Começaram por realizar actos de vandalismo ao cortar linhas telegráficas, destruir linhas de caminho-de-ferro e perseguir os missionários cristãos. Essa onda de violência teve de algum modo repercussões em Macau como se pode verificar pelo teor da notícia acima publicada.
A 12 de Agosto de 1900 chega a Macau um Corpo Expedicionário para reforçar a capacidade militar de defesa do território.
O aumento das hostilidades fez com que países como a Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão, Itália e Rússia formassem um exército (com cerca de 20 mil homens) para os combater, nomeadamente em Pequim, o principal foco dos conflitos. Essa 'invasão estrangeira' - ocorrida no final de maio de 1900 - provocou uma reacção dos rebeldes e bairro das embaixadas ficou isolado. O cerco a Pequim duraria 45 dias.Para acalmar a situação as chamadas nações imperialistas conseguiram negociar uma série de exigências em troca da preservação dos territórios. A 7 de Setembro de 1901, a Paz ou Protocolo de Pequim oficializou os acordos que puseram fim à Guerra dos Boxers. Derrotado, o governo chinês viu-se obrigado a pagar uma pesada indemnização em ouro, permitir a entrada de mais embarcações estrangeiras nos portos do país e ficou proibido de importar armamento. 
Ainda não era desta que os estrangeiros eram expulsos da China, mas o movimento nacionalista estava em marcha e iria marcar de forma profunda a história da China no século XX.

Emissão de moedas em 1992


Novas moedas de uma e cinco patacas foram postas em circulação nos primeiros dias de Janeiro de 1992 pela Autoridade Monetária e Cambial de Macau, através do Banco Nacional Ultramarino. O anverso da moeda de uma pataca representa a ermida e o farol da Guia com indicação do valor em caracteres chineses e em português. A moeda de cinco patacas apresenta no anverso as ruinas de São Paulo e um junco chinês, contendo a indicação do valor em português e em caracteres chineses. 
Ambas as moedas apresentam no reverso a palavras Macau e respectivos caracteres chineses, para além de um morcego (simbolo chinês da felicidade) e da indicação do ano de cunhagem. As moedas en cupro-niquel têm limites máximos de tiragem de 80 milhões de exemplares para as unidades de cinco patacas e de 150 milhões de exemplares para as de uma pataca.

sábado, 7 de setembro de 2013

Os livros não morrem

Em Setembro do ano passado, nos 10 anos passados sobre a morte de Monsenhor Manuel Teixeira, a Revista Macau publicou um artigo da autoria de Inês Dias que a seguir se reproduz.
“O homem é pó, a fama é fumo e o fim é cinza (…) só os meus livros permanecerão (…) e é essa é a minha consolação.” Em Setembro completa-se uma década desde que Macau perdeu um padre, um historiador, um homem das letras, um excêntrico. O padre Manuel Teixeira fez jus à sua célebre frase deixando um valioso contributo para o estudo da documentação histórica, religiosa e cultural de Macau. São mais de 130 livros, outras centenas de cartas e estudos dedicados à história da presença dos portugueses em Macau e no Oriente
Manuel Teixeira não se restringiu apenas ao papel de sacerdote. É considerado uma verdadeira instituição da cidade e quem passar pela história de Macau terá de passar obrigatoriamente pelas mais de 50 mil páginas escritas pelo homem que dedicou uma vida à pesquisa, análise e organização de dados. “Não criou muito mas investigou e publicou. Fez muito o trabalho dos copistas da Idade Média, fazendo chegar até nós dados valiosos”, refere a historiadora Beatriz Basto da Silva.
A imagem icónica de um homem de batina branca e longas barbas da mesma cor a atravessar a Ponte Nobre de Carvalho – inaugurada em 1974, a primeira ligação fixa entre a península e a ilha da Taipa – até pela imprensa internacional foi imortalizada. Este trajecto diário Macau-Taipa-Macau era cumprido religiosamente e servia de momento de reflexão. Só uma trombose, sofrida na década de 1990, que o deixou paralisado temporariamente, viria a por termo a esta travessia.
Homem ávido por caminhar e explorar o território, conhecia-o de ponta a ponta.  A sua obra Toponímia de Macau é prova disso. “Vem comigo passear por essas ruas que eu te contarei a sua história como amável guia turístico” é o convite que o padre faz aos leitores no seu prefácio.
Edição de 1982
O “Monsenhor Macau”, como alguns lhe chamavam, transmontano de nascimento mas macaense de coração, conservador, nacionalista, apaixonado pela história e pela vocação imperial de Portugal, nasceu a 15 de Abril de 1912 em Freixo de Espada à Cinta. O dia em que nasceu faz parte da história universal, como o próprio fazia questão de frisar. “No dia em que eu nasci sucedeu o maior desastre marítimo da História. O navio [Titanic] que nem Deus podia afundar foi afundado como material tão leve como o gelo. Por via disto em Macau quase toda a gente conhecia o dia e o ano do meu aniversário”, referiu na sua coluna Coisas e Loisas, uma rubrica regular que assinava no Seminário Transmontano.
A sua irmã Benvinda de Jesus Teixeira recorda o momento em que o menino Manuel decidiu seguir a vida religiosa: “Um dia, passou junto da loja um missionário que lhe perguntou se ele queria ir para Macau para ser missionário. Abandonou o banquinho onde estava sentado e correu para casa dizendo ao pai que queria ir para Macau para ser padre. O pai duvidou logo daquela vocação repentina”.
Concluída a instrução primária na sua terra natal, lá partiu o menino Manuel a 16 de Setembro de 1924 em direcção a um Oriente misterioso, a bordo do D´Artagnan dos Messageries Maritimes, navio tão grande e viagem tão longa – mais de 16 mil quilómetros percorridos em quase dois meses – capaz de abarcar os sonhos e aventuras de qualquer rapaz de 12 anos. “Cheguei a Macau numa segunda-feira, 27 de Outubro de 1924, vindo de Hong Kong no vapor Sui-Trai. Éramos cinco rapazes naturais de freixo de Espada à Cinta”, recordava no artigo O Seminário do Meu Tempo, no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau. O Seminário de São José, então a grande escola missionária de Portugal no Oriente, foi a sua casa e a sua família durante os dez anos que se seguiram.
Foi uma década numa instituição que lhe providenciou protecção e educação, mas  ao mesmo tempo afastava-o da realidade de uma Macau que só veio a conhecer depois de transpostos os muros da instituição. Apesar do ambiente austero e da disciplina férrea, depressa se integrou, adaptou e fez amigos, dada a sua conhecida capacidade natural de se aproximar do outro. Era estudioso, interessado e com uma memória prodigiosa. Como boas recordações guardava a amizade dos outros seminaristas que consigo vieram de Freixo de Espada à Cinta e do seu professor predilecto, Régis Gervaix. Professor de francês e de grego e autor da Histoire Abregée de Macao, despertou no seminarista o gosto pela investigação histórica.
No dia 29 de Outubro de 1934, é ordenado sacerdote pelo bispo D. José da Costa Nunes na Igreja do Seminário de São José. A 1 de Novembro desse mesmo ano celebrou a sua primeira missa na igreja de São Domingos, passando depois a ser pároco de São Lourenço até 1946.
Uma vida dedicada às letras
Com apenas 22 anos não só começa a caminhada do sacerdócio como assume a direcção do Boletim Eclesiástico de Macau – cargo que ocupou até 1947 -, publicação que se tornou internacionalmente conhecida graças aos seus trabalhos e aos contributos de outras figuras como os historiadores José M. Braga e Charles R. Boxer. Em 1942, fundou a revista mensal O Clarim.
ArquimínioRodrigues da Costa, bispo de Macau entre 1976 e 1988, refere que Manuel Teixeira “não fazia rodeios na sua escrita”. “Censor cáustico de costumes e atitudes, nunca poupou quem lhe merecesse reparos, fosse quem fosse. Mas sabia também enaltecer os méritos das pessoas”, relembra. O padre colaborava ainda com a imprensa local, onde escrevia colunas regulares, como aconteceu, na década de 1990, no Macau Hoje. As suas opiniões chegaram também a meios de comunicação do estrangeiro. Colaborou, por exemplo, com o italiano Observatore Romano, com o diário de Hong Kong South China Morning Post e com o português Mensageiro de Bragança.
Das suas investigações surge, em 1965, a obra A Imprensa Periódica no Extremo-Oriente, pretendendo, como refere na introdução, “preencher a lacuna” existente na história do jornalismo português em Macau.
O professor
A par das suas funções obrigatórias decorrentes do sacerdócio, trabalhou ainda como professor no Seminário de São José (1932-46 e 1962-65), na Escola Comercial Pedro Nolasco (1962-64) e no Liceu Infante D. Henrique (1942-45 e 1964-70). Luís de Castro Machado, seu antigo aluno, recorda como era o contacto diário com o sacerdote. “Por graça demos-lhe a alcunha de ‘Irmão Manuel da Pêra Branca’, que veio a adoptar como pseudónimo para colaborações na imprensa escrita da época”, conta. O antigo aluno recorda sobretudo as iniciativas de Manuel Teixeira de promover  visitas ao centro de leprosos de Ká Ho, em Coloane. “Na altura, a vila piscatória de Ká Ho era a zona ‘fora-dos-limites’ para o cidadão comum, mas isso não era factor impeditivo para que nós apoiássemos os leprosos e seus familiares que lá viviam, muito carenciados de tudo, especialmente de carinho humano.”
Professor de latim no Seminário de São José e no Liceu de Macau, usava uma didáctica a que chamava “o método do desafio”: era uma espécie de competição, em que interrogava dois estudantes e o que ganhasse amealhava pontos que contavam para as classificações finais. O método resultava e os alunos aprendiam com entusiasmo o latim.
A arte de ensinar e aprender também mereceu a sua atenção para uma detalhada investigação. O seu livro A Educação em Macau, publicado em 1982, relata a história da educação portuguesa e luso-chinesa e, segundo o historiador António Aresta, vem “retirar a história da subalternidade de nota de rodapé”.
Vista sobre a Ilha Verde: década 1920
Defensor da História
O próprio reconhecia que só era feliz quando escrevia. O seu legado escrito começou ainda nos anos de 1930, quando publicou os primeiros artigos históricos no Boletim Eclesiástico. O facto de ter à sua disponibilidade todos os arquivos da Diocese de Macau facilitou o seu trabalho de investigação. Escreveu sobre a vida de cada padre que viveu na cidade nos passados 400 anos, e para tal feito consultou os arquivos de todas as paróquias e de cada igreja. Os 16 volumes de Macau e a Sua Diocese é, na opinião do próprio, uma das suas obras mais importantes, “pois a história da Igreja de Macau está intimamente ligada à história civil do território, tornando-se difícil dissociar estas duas realidades”.
As obras Os Militares de Macau e Toponímia de Macau foram premiadas em 1981 e 1983, respectivamente, com o prémio História da Fundação Calouste Gulbenkian.
O amor que a história de Macau sempre lhe inspirara é sublinhado por Eduardo Francisco Tavares, um antigo seu aluno, que recorda como o padre salvou um valioso arquivo no auge dos acontecimentos do 123, em 1966. “A 3 de Dezembro de 1966, desce o Padre Teixeira do 3.º andar do seminário de São José numa atitude pouco usual. Perguntei-lhe onde se dirigia tão apressadamente. Com voz preocupada respondeu-me: ‘Olha rapaz, vou salvar Macau!’ Não eram almas que o padre queria salvar, mas os documentos históricos que estavam a ser queimados no Largo do Senado no episódio histórico do 123.”
O Monsenhor passou três dias e três noites consecutivas a resgatar os documentos e conseguiu pôr a salvo outros tantos, impedindo que os prejuízos fossem mais graves para a história de Macau.
Passagem por Singapura
Em 1948, Manuel Teixeira partiu para Singapura como superior e vigário geral das Missões Portuguesas de Singapura e Malaca. Como pároco da igreja de St. Joseph na cidade-estado tinha sobre a sua asa cerca de mil “católicos de confissão”, como frisava.
Homem frontal e sem medos, não hesitou em confrontar o icónico primeiro-ministro e fundador da República de Singapura Lee Kuan Yew, durante uma homília em que Manuel Teixeira encorajava os fiéis a não darem ouvidos à política de um filho único.
Em 1959, ainda em Singapura, celebra as suas Bodas de Prata mas recusa o jantar que lhe é oferecido pelos seus paroquianos. Em vez disso,  sugere que com esse dinheiro se crie o Fundo dos Estudantes Pobres (St. Joseph Church Book Fund) para “eles poderem comprar os livros e uniformes”.
Ao longo de 14 anos em Singapura (1948-1962) mostrou mais uma vez a sua vertente de escritor, ao fundar a revista Rally e o boletim paroquial Stop, Look and Go, ambos em Inglês. Regressou a Macau em 1962, já com 50 anos, deixando para trás a cidade onde afirmava ter vivido dos “momentos mais felizes” da sua vida. No mesmo ano passa a ser Capelão do Convento de Santa Clara, começa a exercer funções docentes no Colégio de S. José (1962-65) e na Escola Comercial Pedro Nolasco (1962-64). Entre 1964 e 1970 é professor de Religião e Moral e de Latim no Liceu Nacional Infante D. Henrique. A par das restantes responsabilidades, assume o cargo de director dos Arquivos de Macau (1976-80) e do Boletim do Instituto Luís de Camões. Traz o hábito de beber o que chamava de “chá da Escócia”. A historiadora Beatriz Basto recorda servir-lhe, nas muitas visitas de Monsenhor a sua casa, a sua ementa preferida de bananas e uísque.
O regresso à terra
“Eu tinha resolvido não mais regressar à metrópole devido ao choque violento que recebi no dia 25 de Abril com a chamada ‘exemplar descolonização’”, confessou quando decidiu abrir uma excepção em 1988 e regressar a Portugal para gozar licença graciosa, já que não tinha férias desde 1972.
Em Janeiro de 1994, meses antes de completar 82 anos, Monsenhor Manuel Teixeira deu entrada no hospital Conde de São Januário vítima de uma trombose e subsequente paralisia facial periférica. Durante dez meses mudou-se para o “melhor hotel de Macau”, como chamava ao hospital. Apesar da sua saúde se encontrar fragilizada não deixava de celebrar missa todos os dias, às sete da manhã, na igreja de Santa Clara, no Colégio de Santa Rosa de Lima.
Finalmente foi forçado a regressar definitivamente a Portugal em 2001. A sua principal preocupação então era o seu espólio que não queria abandonar. Reuniu-se com Beatriz Basto da Silva e Isabel Rasquinho e entregou-lhes tudo quanto possuía. Todo o material foi parar ao Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, onde estão catalogados cerca de 4000 manuscritos, monografias, livros, fotografias e cartas. Todas as peças estão inventariadas e disponíveis para consulta através do catálogo online da biblioteca do Centro.
Na Biblioteca Central de Macau, na Sala de Macau, podem ser consultadas as monografias da sua autoria ali conservadas. São 133 títulos, editados entre 1937 e 1999, e mais as suas colaborações com as publicações locais.
Durante os três anos em que esteve em Portugal continuou a escrever. Fernando Vinhais Guedes encontrou-o no lar de Chaves, em Santa Marta, instituição que ajudou a construir em 1980 com uma doação de 75 mil contos (cerca de 3,75 milhões de patacas). O amigo lembrava-se da sua “frontalidade às vezes grosseira” e do seu “sentido de humor”. “Apareceu-me sentado numa cadeira de rodas, com ar combalido de quem tinha sofrido um AVC. Perguntei-lhe: ‘Como vai o homem de Freixo de Espada ao ombro?’, ao que Monsenhor respondeu comovido: ‘Você é daqui? Ai meu Deus! Que bom! É trasmontano, é bom homem!’”
O “homem do desporto”, como o padre chamava ao amigo, passou a ir visitá-lo diariamente. “Todos os dias o visitava para falarmos de Macau. Esse era o assunto de eleição.” Recebia muitas visitas, incluindo as do ex-governador de Macau Rocha Vieira e a da sua mulher, Leonor Rocha Vieira, a quem Monsenhor chamava de “Santa Leonor”.
Pouco a pouco, Monsenhor e Vinhais Guedes começaram a fazer pequenas caminhadas à volta do “Pentágono”, nome que deram ao jardim do lar. Esses passeios passaram a ser complementados com cerca de dez minutos de bicicleta estática, apesar da resistência de Monsenhor que se queixava: “Não quero que me vejam! Agora anda aqui um velho a pedalar, a pedalar, e não sai do sítio!” Durante os fins-de-semana iam para os montes ver os pinheiros que o lembravam da sua terra natal “onde nunca quis regressar”, apesar de Vinhais Guedes se ter oferecido para o levar.
Apesar da difícil adaptação inicial do Monsenhor, o amigo garante que houve momentos “de grande satisfação”, especialmente durante a homenagem que lhe foi prestada em que “parecia estar nas nuvens”. A 2 de Março de 2002, numa iniciativa promovida pelo Semanário Transmontano, Monsenhor Manuel Teixeira recebeu comovido a homenagem dos transmontanos. Estiveram presentes governadores civis, os bispos de Vila Real e de Bragança e ainda cerca de 20 Câmaras da região. As escolas flavienses também participaram. A sua idade avançada não o impediu de proferir a palestra “Os Padres Transmontanos no Oriente” durante a cerimónia.
Durante o seu discurso, relembrou a importância dos padres transmontanos no Oriente e classificou-os de “exemplos admiráveis”. A lista era longa, mas teve de encurtar a homenagem porque, nas suas palavras “se me referisse a todos, nunca mais me calava”. Escolheu como exemplos o padre Coroado e o padre Francisco  Teixeira, apelando ao reconhecimento das sua obras e sugerindo a sua canonização.
No final da cerimónia, Monsenhor recebeu a Medalha de Perpétua Homenagem (a primeira de uma edição limitada de 200 exemplares) com a inscrição da conhecida frase do monsenhor: “O Homem é pó, a fama é fumo, o fim é cinza. Só os meus livros permanecerão.”
Monsenhor Manuel Teixeira morreu a 15 de Setembro de 2003, aos 91 anos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Glossário do dialecto macaense

Com o sub-título "Notas linguísticas, etnográficas e folclóricas". Livro da autoria de Graciete Nogueira Batalha (1925-1992). 
Foi editado em 1988 pelo ICM. Trata-se de uma reedição fac-similada da obra com o mesmo título editada em separata na Revista Portuguesa de Filologia (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra - Instituto de Estudos Românicos) vols. XV (1971), XVI (1974) e XVII (1977), Coimbra, 1977.
Ao longo de 338 páginas é apresentado um estudo etimológico e uma breve história de mais de setecentas palavras do dialecto de Macau - o patuá - que, segundo a autora, foi trazido para Macau no século XVI já com uma estrutura definida.
Excerto de declarações da autora à Revista Macau em 1987:
"Verdadeiramente é uma língua que já não existe. É esse crioulo antigo, hoje conhecido apenas por pessoas de certa idade que se recordam de o ouvir falar na infância ou por ex-residentes de Xangai ou de Hong Kong que nunca estudaram português e conservam ainda, mais ou menos, a fala tradicional.
Em Macau designa-se modernamente por patoá (do francês patois) o que o antigamente se chamava língu maquista, isto é, o velho dialecto colonial ou crioulo que aqui se enraizou e aqui foi transmitido de pais a filhos durante trezentos anos até ao século passado, quando começou a declinar, tendo sido usado como linguagem familiar mesmo nas casas mais distintas. Foi usado também pelos chineses que vieram a comunicar mais assiduamente como os macaenses e ainda pelos servidores e soldados africanos e asiáticos de várias procedência trazidas no séquito dos portugueses, e depois por seus descendentes aqui nascidos e criados pelos séculos fora.
Não podemos esquecer, na formação do dialecto, esse contingente de acompanhantes africanos e asiáticos, entre os quais se contavam também muheres não europeias que para aqui vinham como companheiras, e muitas como esposas, dos antigos «moradores». Esse contingente foi decisivo na formação do crioulo macaísta."

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Deep Night: espionagem e mistério

O romance "Deep Night" (Soho Pres, 2008) de Caroline Petit (norte-americana a residir na Austrália) transporta-nos para o período da Guerra do Pacífico em Macau. A história começa a 8 de Outubro de 1941 em Hong Kong, cerca de dois meses antes da invasão e ocupação japonesa. A autora baseou-se no espólio de Jack Braga (que está na Biblioteca Nacional da Austrália) para obter dados sobre a vida no Território nessa época. Acrescenta ainda no livro que Jack foi um combatente activo da pseudo-ocupação japonesa em Macau tendo ajudado a criar uma rede de espionagem no Território. Leak Kolbe é a protagonista desta história de ficção. Jack Braga é bem real. No seu site sobre o livro pode ler-se...  "a story about Leah Kolbe and what happened when Hong Kong fell to the Japanese on 25th of December 1941."
Caroline Petit was born in Washington D.C., raised in Maryland and now lives in Melbourne, Australia. She is a graduate of Chatham College in Pittsburgh and also holds advance degrees from Johns Hopkins University, the London School of Economics, and the University of Melbourne's School of Law. The Fat Man's Daughter is her first novel (2005).
Mapa de Hong Kong e Kowloon mostrando o 'parco' sistema de defesa em 1941
 Desfile de tropas em Macau: da exposição "Macau during the sino-japanese war"
Leah Kolbe has taken over her father's notorious antiquities business in Hong Kong after he died mysteriously. Now the Japanese have occupied most of mainland China and threaten the British Crown Colony of Hong Kong. When the Japanese launch a surprise attack, Leah's fiancé, Jonathan Hawatyne, becomes a prisoner of war. Escaping internment by the Japanese, Leah makes it to Macau, arriving destitute - everything stolen, including her shoes. She finds a job at the British consulate and is accepted into local Portuguese society. When asked, Leah agrees to become a British spy and to take a Japanese armaments manufacturer as a lover, putting her life in constant peril. The information he reveals is invaluable to the embattled Chinese and the American Air Force in Chungking. Leah longs for the end of the war and the end of her moral compromises. She hopes against hope that Jonathan will be among the survivors of the brutal regime the Japanese established in Hong Kong. But when the war is over, Leah discovers the world of peace is a complicated place to navigate. From Caroline's webpage

Reconnecting with beautiful antiques dealer Leah Kolbe and her fiancé, Jonathan Hawatyne, Petit's sequel to The Fat Man's Daughter opens with a scene of Hong Kong splendor, complete with Ernest Hemingway at the Peninsula Hotel, setting the stage for the loss to come when the start of the second Sino-Japanese War in 1937 sends Jonathan into battle - right in the middle of a movie date. Heart-broken, Leah prepares for starvation on watery congee, but after Hong Kong surrenders manages to escape by boat. Landing in Macau's with nothing, she finds work with the British Consulate and then is recruited by a man named Benjamin Eldersen to get close to a Japanese businessman, the son of an ammunition and steel manufacturer. Espionage hijinx ensue, and Jonathan's gone missing. Throughout, readers are meant to feel Leah's anguish for Jonathan, but her interior life remains stubbornly two-dimensional. Still, the melodrama pulls readers through the streets of Hong Kong and Macau during a tempestuous period, making this war-time romantic suspenser a pleasant enough escape.

“A colorful portrayal of the cruelty and deprivation of war, it's peppered with vividly portrayed historical personages (among them newly married Ernest Hemingway and Martha Gellhorn), and it stars a plucky protagonist who continues to land on her feet.”  
Booklist
“The melodrama pulls readers through the streets of Hong Kong and Macau during a tempestuous period, making this war-time romantic suspenser a pleasant enough escape.” Publishers Weekly

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Banda da guarnição: 1908

Boletim Oficial: Setembro 1908. Poucos anos antes (1883), Adolfo Loureiro escrevia no seu Diário de Viagens: "(..) ao pôr do sol fui ao jardim público, onde tocou a banda do corpo de polícia, por ser quinta feira. É toda composta de indígenas de Goa, que executam muito sofrivelmente músicas clássicas, peças italianas e composições escolhidas.”
Nas imagens: um recorte do Boletim Oficial de Setembro de 1908 com o programa semanal da "banda de música da guarnição de Macau" e um postal do início do século XX onde é visível a mancha verde da vegetação do primeiro jardim público de Macau.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

D. José da Costa Nunes: cidadão benemérito

Em 1964 o Leal Senado da Câmara de Macau 'fez' de D. José da Costa Nunes “cidadão benemérito de Macau”. A seguir reproduz-se o discurso da proclamação do antigo bispo de Macau.
D. José da Costa Nunes partiu então, para a Europa, com o propósito de apresentar à Santa Sé a resignação da dignidade episcopal. Forçado, porém, a aceitá-la, veio ao seu arquipélago natal, sendo sagrado bispo, na igreja matriz da cidade da Horta, no dia 20 de Novembro de 1921. No 4 de Junho do ano seguinte, fazia a sua entrada solene na diocese, Macau, realizando uma obra do mais notável apostolado. Ainda hoje, a sua acção de grande bispo missionário é recordada com a maior admiração, nesta nossa província do Oriente, a tal ponto que, muito depois da sua retirada de Macau para ir ocupar lugares de hierarquia eclesiástica mais alta, continuou sempre a ser ‘o nosso bispo’.
Para enumerar apenas algumas das suas obras materiais mais importantes, o Sr. D. José restaurou o Colégio de Santa Rosa de Lima, confiando em 1932 a direcção deste estabelecimento às Franciscanas Missionárias de Maria; inaugurou a nova e artística igreja de Santa Clara; cuidou da abertura duma Escola Chinesa (P’ui-Ching) e melhorou a Escola Portuguesa, ambas anexas à Casa de Beneficência; em 22 de Maio de 1938, inaugurou a Sé Catedral de Macau, restaurada; inaugurou em 13 de Outubro de 1935 a nova igreja da Penha; restaurou o Paço Episcopal; o seu interesse por quanto se ligasse com matéria de instrução à juventude até se traduziu na leccionação de português em escolas laicas como fosse o Liceu de Macau. Deste seu interesse e do carinho que lhe mereciam as crianças nasceu o facto de uma das escolas da cidade, que era então uma escola municipal, vir a ser denominada ‘Escola Infantil D. José da Costa Nunes’.
Reabriu em 1923 as Casas Canossianas de Timor; espalhou por toda esta ilha uma bem montada rede de catequistas e inúmeras igrejas, a principiar pela igreja matriz de Díli, inaugurada em 3 de Outubro de 1937; fundou o seminário menor de Nossa Senhora de Fátima, de Soibada; concluiu, em Singapura, os dois modernos edifícios, Medeiros e Nunes Buildings; construiu o grandioso edifício onde se acha instalada a Escola de Santo António, em Singapura; ergueu, na mesma cidade, uma boa residência e capela para as Irmãs Canossianas; mandou erigir, em Malaca, uma ampla escola; fundou, em Macau e Singapura, a Acção Católica e as Conferências de S. Vicente de Paulo; etc.
Um dia, célere correu nesta terra a notícia de que Sua Eminência breve partiria destas plagas. De facto, em sucessão do Patriarca das Índias, D. Teotónio Vieira de Castro, o Sumo Pontífice Pio XII elegeu o Sr. D. José da Costa Nunes, em 11 de Dezembro de 1940, Arcebispo Metropolitano de Goa e Damão, Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais e Arcebispo titular de Cranganor. Tomou posse da sua arquidiocese em 18 de Janeiro de 1942.
Durante 11 anos, D. José da Costa Nunes governou a histórica e gloriosa igreja metropolitana de Goa, realizando uma acção apostólica que encheu do maior prestígio o nome de Portugal no Oriente, rasgando à vida do Patriarcado das Índias Orientais as mais vastas perspectivas. Foi o grande impulsionador da causa de beatificação do apóstolo de Ceilão, Venerável Padre José Vaz, sacerdote goês, cuja causa de novo introduziu em Roma. O culto de S. Francisco Xavier teve também, durante o pontificado de D. José da Costa Nunes, um incremento valioso. O mesmo se pode dizer da forma como promoveu a educação e preparação do clero missionário. Tornaram-se célebres as suas Cartas à Juventude, publicadas no órgão oficial da arquidiocese.
Em 1953, após meio século de intensa actividade apostólica no Oriente Português, o Patriarca D. José da Costa Nunes pediu a sua resignação. Em homenagem ao grande Prelado Missionário, que incarnava perfeitamente o espírito de dilatação da Fé da nossa Pátria, o Papa Pio XII concedeu a Rosa de Ouro à cidade de Goa, em Setembro de 1953 e foi ainda nesse ano de 1953, em Fevereiro, que Sua Eminência, talvez sentindo-se para sempre ligado a esta terra, onde afinal tivera passado quase 43 anos da sua vida missionária, aqui voltou em romagem de saudade. E aqui foi recebido com um alvoroço como até então não havia memória. Aos 16 de Dezembro desse mesmo ano, a Santa Sé aceitou-lhe a resignação e, conservando-lhe o título pessoal de Patriarca, elegeu-o Arcebispo de Odessa e Vice-Camerlengo da Santa Sé. Passou, por isso desde então, a residir na Cidade Eterna, vindo a ocupar, mais tarde, a presidência da Comissão Pontifícia para os Congressos Eucarísticos Internacionais. Posteriormente, foi nomeado Consultor das Sagradas Congregações Romanas da Disciplina dos Sacramentos, da do Concílio, da dos Religiosos, da Fé, e da dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários. Também é membro da Comissão Central Preparatória da Concílio Ecuménico. 
Desde a sua chegada a Roma, o Sr. D. José da Costa Nunes fez-se rodear de tal prestígio pelo seu talento e dinâmicas qualidades de organizador, que, em todos os Consistórios, desde então efectuados, o seu nome esteve apontado para ascender à sagrada púrpura.”

O acordo entre Macau e Cantão: Setembro 1920

(...) se até à subscrição do Protocolo Preliminar de Lisboa, em 26 de Março de 1887, e ao sequente Tratado de Amizade e Comércio subscrito em Pequim em 1 de Dezembro de 1887 e ratificado em 28 de Abril de 1888, a "Questão de Macau" foi preenchida essencialmente pelo problema da determinação e reconhecimento pela China do título da presença dos Portugueses em Macau, desde esse momento e até à 1ª metade do nosso século a mesma questão significou diferentemente o problema da delimitação marítima e terrestre de Macau, problema deixado em aberto precisamente pelo Artº 2 do Tratado de Pequim. Efectivamente, quase todos os momentos de mais acentuada controvérsia nas relações luso-chinesas têm na base problemas afins ou são dominados pela preocupação de definir os limites do Território: as negociações conducentes ao acordo oficioso firmado pelo Cônsul Cinatti e o Vice-Rei Li Hang Chang (1890) com vista à utilização das águas do Porto Interior, a polémica sequente ao incidente da apreensão do vapor Tatsu Maru em 1908, as Conferências intergovernamentais de Hong Kong em 1909, as múltiplas disputas decorrentes das obras do Porto de Macau que cumularam na dramática crise solucionada momentaneamente pelo acordo regional subscrito em Setembro de 1920 pelo Governo de Macau e pelo Governo Militar de Cantão, reacendida em Setembro de 1921 e prolongada para lá do termo da própria Conferência de Washington em circunstâncias que não cabe aqui desenvolver. 
 
 
 
 

A questão dita "dos limites de Macau" tornou-se assim a cause célèbre da política externa portuguesa no Extremo Oriente, catalisada simultaneamente por considerações de prestígio histórico e pela convicção de que a solução do problema dos limites despoletaria uma reacção em cadeia que, passando pela liberdade de construção de novo porto e pela concretização da projectada linha férrea Macau-Cantão, acabaria por trazer ao território o desafogo económico de outras eras, libertando-o do estigma da dependência das receitas do jogo e da exploração do ópio.
Não cabe nesta sede desenvolver a definição exacta do problema dos limites, e tão pouco expender ad nauseam usque os termos complexos da argumentação debitada por cada uma das partes em prol dos seus interesses. Importa, sim, notar que na abertura da 2a década do século XX o Governo Português se encontrava num impasse, sem possibilidade visível da solução de uma questão tida como vital, desencantado já - pela via dolorosa dos termos que conduziram à solução da crise de 1920 - de que a mudança de regime ocorrida em 1912 na China pudesse de algum modo alterar a rigidez monolítica do ditame que os mandarins de Pequim ou de Cantão sempre invocaram ao considerar as pretensões portuguesas no território: que Macau era território chinês ocupado pelos Portugueses, circunscrito à península do mesmo nome e totalmente desprovido de águas territoriais.
Perdida a grande oportunidade de se sentar à mesa do festim que as potências armaram na China depois da Guerra dos Boxers, desiludido também de conseguir da Inglaterra um apoio decisivo que esta potência, constrangida pela "diplomacy of imperial retreat", já não estava disposta a arriscar, o Governo Português agarrar-se-ia empenhadamente a todas as oportunidades que a nova situação do pós-guerra parecia sugerir em termos de uma interferência da comunidade das potências vencedoras no desenlace da "Questão de Macau".
Este estudo lida assim com um dos momentos em que mais alto subiram, tanto os temores como as esperanças, na solução do problema dos limites a um nível que extravasou o simples plano das relações bilaterais: a Conferência Internacional convocada para tratar da redução dos armamentos navais e terrestres, e das questões referentes ao Extremo Oriente, vulgarmente conhecida como a Conferência de Washington. A génese da Conferência de Washington deve ser buscada numa situação que - no elenco das grandes questões das relações internacionais da 1ª metade do século XX e entre as muitas resultantes da presença estrangeira em território chinês - se sobrepõe a qualquer outra pelas profundas repercussões na história moderna da China: a chamada "Questão de Shandong".
Excerto de um artigo da autoria de António Vasconcelos de Saldanha subordinado ao tema "A 'questão de Macau' na Conferência de Washington (1921-22)