sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Uma terra começa com duas famílias

É um período frequentemente esquecido quer na historiografia ocidental, quer na chinesa. Macau não dava por este nome antes da chegada dos portugueses, mas a verdade é que desde o século XIV que a pequena península no Sul da China já era habitada. A documentação que existe é parca, mas suficiente para que os historiadores acreditem num passado com origens em Fujian. Eram apenas duas, mas atrás delas vieram mais quatro. Dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China, dois clãs oriundos de Fujian descobriram a pequena península que, mais tarde, viria a dar pelo nome de Macau. As famílias Sam e Ho fugiam às convulsões que se registaram por altura da transição da Dinastia Yuan para a Dinastia Ming.
Chegadas ao território foram, pouco tempo depois, seguidas no exemplo por outros quatro clãs – Hoi, Tcheong, Lam e Tchan, também eles oriundos de Fujian. A documentação recolhida aponta, porém, para algumas contradições em torno de quem terão sido os pioneiros. O historiador e professor Jorge Morbey explica que os documentos antigos da família Ho indicam que os clãs Tin, Pou, Lou e Kai já se tinham fixado no território. A família Kai instalou-se na zona da Praia do Manduco, à entrada do Porto Interior. Os membros deste clã não eram agricultores; dedicavam-se à pesca e ao comércio, pelo que lhes seria conveniente a localização escolhida. Já as famílias Ho e Sam tinham a agricultura como modo de vida e optaram pela zona de Mong Ha, dando assim origem à aldeia com o mesmo nome, também referenciada com a denominação ‘Long T’in Tch’un’.
Na década de 1960, a investigadora e professora Ana Maria Amaro dedicou especial atenção àquela que terá sido a primeira zona habitada de Macau, a par da ocupação da Praia do Manduco. “Foi com base em dados recolhidos em muita tradição oral, que existia ainda na altura, que a professora Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias”, especifica Jorge Morbey. 
A investigadora “teve a oportunidade de entrevistar alguns elementos entroncados nessas primeiras famílias”, detentores de registos que publicou no Boletim do Instituto Luís de Camões, nos anos 1960. “A tradição oral não é propriamente algo muito firme, especialmente quando a história passou a ser investigada com base em documentação escrita”, ressalva Jorge Morbey. “Mas há razões para acreditar que essa tradição oral era fundada em documentação existente em ‘tchok pou’, os repositórios de arquivos das memórias das famílias”, acrescenta.
O professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau encontrou, há alguns anos, um ‘tchok pou’ que lhe foi apresentado como pertencendo à família Ho. O achado aconteceu “nas traseiras de uma oficina de reparação de motociclos” na Avenida Coronel Mesquita. “O ‘tchok pou’ é uma espécie de altar em que se veneram os mortos e em que estão depositadas as pequenas tabuletas e inscrições, informações várias de gerações e gerações da mesma família.”
Jorge Morbey fotografou o ‘tchok pou’ que encontrou mas não pode afirmar que seja o original do séc. XIV, apesar dos séculos que aparenta ter. “Poderá ter sido a construção de um para substituir outro que já estaria em estado avançado de degradação.” De qualquer modo, trata-se de um repositório que é atribuído a uma das primeiras famílias que se fixaram em Macau, cuja genealogia anterior ao século XIV ainda é possível determinar no local de origem.
Da história à lenda
Ana Maria Amaro, nas conversas mantidas com descendentes dos primeiros clãs, teve também a oportunidade de ver documentação e objectos vários atribuídos aos antepassados pioneiros. Os estudos sobre esta época não abundam, uma “distracção” que, nota Jorge Morbey, se regista tanto na historiografia portuguesa, como na chinesa, onde é vulgar “referenciar o início de Macau com a chegada dos portugueses”.
Os dados que foi possível recolher levam os historiadores a acreditar que são os clãs de Fujian que dão início ao primeiro ciclo económico do território, o da agricultura e da pesca. “As zonas iniciais de Macau eram a agrícola em torno da antiga aldeia de Mong Ha e uma outra, piscatória, que é anterior, na região da praia do Manduco, que já funcionava como abrigo de pescadores que não estavam radicados em Macau mas que, quando as condições do tempo eram desfavoráveis, ali se abrigavam.” Em Mong Ha ainda é possível encontrar o primeiro templo da deusa Kun Iam, “um templo pequeno, muito curioso, que antecedeu em dois ou três séculos” um outro de maior envergadura que existe naquele local.
Vestígios históricos à parte, a origem da aldeia de Mong Ha deu origem a uma lenda que Luís Gonzaga Gomes registou na obra ‘Curiosidades de Macau Antiga’. O autor explica que, num “terreno árido e deserto nas poucas choças que ali, então, existiam,” viviam vários aldeões, na sua maioria dos clãs Sam e Ho, oriundos de Fujian, que formaram uma pequena povoação. Mal se instalaram no povoado, continua Gonzaga Gomes, “trataram de edificar um pequeno santuário, o ‘Ho Si Tchok Tch’i’, que ainda hoje existe em bom estado de conservação nas vizinhanças da aldeia de Mong Ha, a fim de poderem ali render culto aos seus antepassados, não se poupando, também, os seus esforços para lavrar a terra circunjacente”. As diligências foram, no entanto, inúteis, que “o chão era maninho e nada mais produzia se não sarças e estevas”. Assim sendo, os Sam e os Ho estavam prestes a abandonar a terra quando avistaram “no meio da gandara o rabo dum dragão vagabundo”. Um “rouco fragor” apavorou os aldeões e, ao mesmo tempo, um “tremendo abalo convulsionou o solo e uma coluna de negro vapor surgiu da terra”.
Resultado final da passagem do rabo do dragão: “o chavascal abaixara de forma a transformá-lo numa depressão bastante extensa, cuja terra se dessemelhava da primitiva, pois era negra e húmida”. Os habitantes de Mong Ha constataram, tempos depois, que era extremamente fértil. A influência do dragão está na origem da denominação ‘Long T’in Tch’un’ que, descodifica Gonzaga Gomes, significa a “aldeia das várzeas do dragão”. (Curiosidades de Macau Antiga, ICM, 1996)
Recuar ainda mais
De regresso aos factos históricos, desde 1972 que se conhecem vestígios da passagem do Homem pelo território que datam do Neolítico. Os estudos feitos permitem perceber que houve duas fases distintas na pré-história de Macau: a primeira terá cerca de seis mil anos, sendo que a segunda terá acontecido sensivelmente dois mil anos depois, refere Jorge Morbey.
As investigações várias que foram sendo feitas desde então pela Sociedade de Arqueologia de Hong Kong permitiram descobrir, na ilha de Coloane, vestígios pertencentes a esses primeiros ‘habitantes’, alguns deles em exposição no Museu de Macau. Em 2006, a equipa da região vizinha encontrou indícios que a levam a acreditar na existência de uma habitação primitiva e de uma zona para armazenamento, o que faz do achado um local único em relação a escavações arqueológicas semelhantes na zona do Delta do Rio das Pérolas. Não obstante as várias descobertas das últimas décadas e a qualidade da equipa que esteve em Macau a conduzir as operações, Jorge Morbey entende que o existe é “muito pouco” para que existam “indicações seguras se essas peças resultam de uma estadia transitória ou se, de facto, correspondem a um povoamento que foi continuado”.
Hoje em dia, “é muito difícil explorar esse período da história em termos arqueológicos”. A composição da cidade não ajuda à tarefa, dada a sua densidade demográfica e arquitectónica, salienta o historiador, pelo que, à excepção da ilha de Coloane, não é possível fazer escavações noutros pontos do território que permitam perceber o que foi feito destes ‘habitantes’ do Neolítico.
Estátua de Jorge Álvares (inaugurada em 1954). Primeiro europeu a aportar à China em 1513. Há 500 anos...
Assim, para a história fica a certeza de que há seis mil anos já havia gente por estas terras. E ficam também os registos que dão conta das primeiras famílias a escolherem viver em Macau, desde sempre local de abrigo de tempestades e outras intempéries
Artigo da autoria de Isabel Castro publicado na Revista Macau em Junho de 2010.
NA: a selecção de imagens é da minha autoria não vinculando a autora do artigo e a publicação.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Os 'peloteiros' de Macau

O casino Jai Alai ficava junto ao Terminal do Porto Exterior e surgiu pouco depois do hotel Lisboa, em meados da década de 1970. Era conhecido pela 'pelota basca' que ali se jogava num campo interior 'gigantesco'. Um jogo espanhol importado via Filipinas.
A “Sociedade de Pelota Basca de Macau S. A. R. L.” foi criada em 1971 e no ano seguinte assinava a concessão do jogo por um período que ia até 1989. O primeiro jogo ocorreu a 15 de Junho de 1974. O casino começou a funcionar no ano seguinte, encerrando então o casino do Estoril que passou a funcionar apenas como hotel. O Jai Alai tinha, além de bares, restaurantes e casino um espaço para espectáculos apreciável realizando-se eventos para o grande público como a eleição da Miss Macau.
Numa brochura turística da década de 1980 pode ler-se:
“A spectacular stadium with a capacity of 5,000, where the fastest ball game in the world is played seven days a week. Jai-Alai, know as Basque Pelota, is played each night of the week (starting 7.30 p.m.), Saturdays and Sundays. when there are matinée performances (from 2 p. m.). The game takes place in the Jai-Alai Palace located on Macau´Outer Harbour near the hydrofoil terminals. Admission is 1 pataca. Boxes are 18 patacas for six persons. Bar, snack-bars and restaurants facilities are available in the stadium”
Feito o enquadramento, segue-se um artigo da autoria de Luís Machado sobre este jogo em Macau.
Um título algo estranho (o mesmo que escolhi para este post) para uma crónica, comentarão os leitores, mas é precisamente de um desporto invulgar que vamos falar hoje. Um desporto já com muitos séculos de existência, originário lá para as bandas dos Pirenéus, numa zona que dá pelo nome de “País Vasco” para uns e “Basco” para outros dependendo de que lado estão, se de Espanha ou de França. Um País sem Nação (ou será uma Nação sem País!?), nem passaporte, para os seus cidadãos, mas que luta há muito pela sua autonomia, por vezes de uma maneira bem sangrenta.
O desporto característico deste País, a “Pelota” (ou bola em português), foi em tempos exportado para vários continentes e chegou a Macau através duma empresa própria que deu o nome ao edifício que ainda hoje o mantém “Jai-Alai”. Foi precisamente no outrora Palácio da Pelota Basca, em Macau que nos meados dos anos 70 (do século passado), jogadores famosos, recrutados no País de origem – Espanha, vieram para Macau, demonstrar e fazer com que as apostas neles gerassem lucros para os empresários que neles confiavam. Foi “sol de pouca dura” podemos agora afirmar, pois ao fim de 10 anos, desmontaram-se as redes que protegiam o público da parede e do campo com cerca de 200 metros de comprimento, onde os jogadores arremessavam a bola contra este muro a velocidades estonteantes de mais de 180Mph ou seja 290Km/h.
Destes peloteiros, conforme nos foi recordado por um ainda jovem macaense que se empenhou afincadamente nestas “lides” – o Carlos Rosário, para os amigos “Charlie” alguns ficaram, enfeitiçados pelas nossas belezas locais, casaram e constituíram família. Outros partiram para outras zonas de Jogo, como Miami, na Florida, para Argentina ou Filipinas, locais onde também é muito popular este desporto.
Nomes grandes como o treinador Zabala, que conseguiu pôr alguns jovens de Macau a atirar a “pelota” de borracha maciça com toda a força contra a parede sendo um deles chinês de Macau de nome, Chiang Ngok Kuan e outro da grande família Manhão, o Henrique “Quinho”, o Morais “Cóque” cujo Pai, o Sr. “Moraissi” foi também figura de destaque como fisioterapeuta, bem conhecido de todos os desportistas com “mazelas” e Bombeiro reformado.
Tempos idos que fizeram vibrar aquele Palácio e as cabeças destes nossos conterrâneos, apesar de por vezes terem de ir receber tratamento á enfermaria anexa, pois as bolas nem sempre acertavam nos “cascos” capacetes que deveriam proteger das boladas perdidas!
O nosso amigo Charlie, ainda se recorda destes tempos áureos da sua carreira de “peloteiro”, com imenso prazer, não pela fortuna, que nunca ganhou, nem pouco mais ou menos, mas sim pelos bons momentos de convívio e camaradagem que viveu com os seus parceiros ou rivais nas contendas nocturnas e pelas ovações do público que era muito nesses tempos e quase enchia a plateia. Recorda-se muito bem do seu treinador, que apostou neles e os pôs a competir com os verdadeiros campeões da arte, que eram nomes grandes na época – Larrea, Adurriaga, Sotto, Gandiaga, Perez, Alberdi, Goitia, Ibarola, Garay, Medina, Echeta, Orbea, Manu, Echaniz, Tano, Ibañez - entre muitos outros nomes famosos vindos directamente do País Basco, para aqui jogarem e encantarem!  
Diga-se que este desporto, foi transformado em “jogo”, onde as apostas recaíam nos jogadores ou nas equipas, pois havia jogos singulares e por equipas. Pois foi exactamente aí é que “a porca torceu o rabo” quanto a nós e para os apostadores, havia sempre muita desconfiança e suspeitas de ser um espectáculo “montado” para fazer com que a “casa” ganhasse sempre!
Jogos em que o factor humano (ou mesmo animal no caso dos cavalos e dos cães) deixam sempre uma réstia de dúvidas aos apostadores asiáticos, ou seja, por causa do estado físico dos jogadores com problemas de lesões mal curadas etc., ou mesmo do foro do “dopings” que por vezes eram detectados nos animais com mais frequência. Talvez essa tenha sido a principal causa do insucesso ou o “busílis” do problema deste desporto com apostas a dinheiro em Macau, uma modalidade que até já teve honras de ter figurado como de demonstração olímpica. Para os “peloteiros” formados na “cantera” local e ainda para os que se naturalizaram macaenses pela via do casamento sem esquecer aqueles que partiram e deixaram muitos corações dilacerados, especialmente das nossas jovens, vai um abraço muito especial.
Artigo de Luís Machado publicado no JTM de 12-10-2011

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Macau por Thomas Allom (1804-1872)

Thomas Allom nasceu em Londres. Era arquitecto mas distinguiu-se com ilustrador. Trabalhou nas empresas Virtue & Co. e Heath & Co., tendo ilustrado diversos livros e foi "artista topográfico", tendo estagiado no atelier de Sir Francis Goodwin. Foi também membro fundador do Royal Institute of British Architects, colaborou com Sir Carles Barry nos planos arquitectónicos do edifício do Parlamento inglês e expôs na Royal Academy of Arts, tornando-se conhecido pelos seus trabalhos topográficos utilizados para ilustrar narrativas de viagens. August Borget e William Alexander foram alguns dos seus mentores e cuja influência se reflecte no que pintou.
Do que se conhece da sua vida, sabe-se que gostava de viajar mas não terá nunca ido ao  Extremo Oriente. No máximo terá andado pelo que é hoje a Turquia. Curiosamente, os seus quadros dessas paragens (Macau e China, p.e.) são dos mais conhecidos hoje em dia. 
Em cima o trabalho de Allon e em baixo o original de Borget sobre o templo da Barra.

Qualquer semelhança entre estas duas imagens não é mera coincidência. E este não é exemplo único.

Allon não terá posto os pés na China nunca mas são dele as ilustrações do livro "China Illustrated, its Scenery, Architecture, Social Habits, Etc". (1845, prefácio de 1843) do reverendo George Neweham Wright, publicado pouco depois da primeira Guerra do Ópio. Nesta obra podem encontrar-se, por exemplo, "The Pr(a)ia Grande, Macao" (imagem em baixo), "Façade of the Great Temple, Macao", "Chapel in the Great Temple, Macao", "Macao, from the Forts of Heang-Shan", "Dinner Party at a Mandarin's House", "Festival of the Dragon-Boat, 5th Day of the 5th Moon". Também ilustrou "China Illustrated (1843-1847), só mais um exemplo. Thomas Allom morreu em Barnes em 1872.
Gravura representando a Baía da Praia Grande, ca. 1835. Gravado por W. H. Capone, a partir de um desenho de Thomas Allon, com base num esboço feito pelo Tenente White.
Thomas Allom (13 March 1804 – 21 October 1872) was an English architect, artist, and topographical illustrator. He was a founding member of what became the Royal Institute of British Architects (RIBA). He designed many buildings in London, including the Church of St Peter's and parts of the elegant Ladbroke Estate in Notting Hill. He also worked with Sir Charles Barry on numerous projects, most notably the Houses of Parliament, and is also known for his numerous topographical works, such as Constantinople and the Scenery of the Seven Churches of Asia Minor, published in 1838, and China Illustrated, published in 1845.
He was born in Lambeth, south London, the son of a coachman from Suffolk. In 1819, he was apprenticed to architect Francis Goodwin for whom he worked until 1826. He then studied at the Royal Academy School. His designs for churches shown at exhibitions in 1824 and 1827 aroused considerable interest, and he later designed many buildings in London, including a workhouse in Marloes Road, Kensington (1847), the Church of Christ in Highbury in 1850, the Church of St Peter's in Notting Hill in 1856, and parts of the elegant Ladbroke Estate in west London. Further afield his works included workhouses at Calne, Wiltshire (1847) and in Liverpool, design of the William Brown Library also in Liverpool, (1857–1860), and the tower of St. Leodegarius Church, Basford near Nottingham (1860). He also worked with Sir Charles Barry on numerous projects, including the Houses of Parliament and the remodelling of Highclere Castle.
However, Allom is chiefly known for his numerous topographical works, which were used to illustrate books on travel. From the 1820s onwards, he travelled extensively through the UK and mainland Europe. In 1834 he arrived in Istanbul, Turkey, and produced hundreds of drawings during journeys through Anatolia, Syria and Palestine. The results of this expedition were published in 1838 in Constantinople and the Scenery of the Seven Churches of Asia Minor published in two volumes with text by Robert Walsh. Emily Reeve's Character and Costume in Turkey and Italy, published in London in 1840, was also illustrated with engravings by Allom. He is also remembered for numerous illustrations of China, published in China Illustrated in 1845. He also provided illustrations for "Family Secrets" by Mrs Ellis (1841) and E W Brayley's "A topographical history of Surrey" (1850).
Allom suffered from a heart condition in his later years, and although he only retired in 1870, his artistic and architectural output slowed during the 1860s. He designed Holy Trinity Church, Castelnau (in south west London) in 1868 – his local church to which he contributed £50 towards the cost of its construction. In 1865 was commissioned to design a mausoleum for former MP George Dodd in West Norwood Cemetery. Allom died aged 68 in Barnes.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cine-teatro diocesano

José Miguel Encarnação explicou no jornal O clarim de 3-12-2010 a história deste cine-teatro. A criação do CDMCS acontece após uma deslocação do então bispo de Macau, D. Arquimínio da Costa, a Tóquio, em 1974, onde participou numa reunião sobre o futuro dos Órgãos de Comunicação Social (OCS) na Ásia. Nesse encontro definiram-se algumas linhas de acção, que foram posteriormente adoptadas por cada diocese, dentro das suas capacidades logísticas e financeiras.
A chegada ao território da irmã Maria Pia e o empenho do padre Américo Casado foram a chave para a concretização das referidas linhas de acção em Macau, cujo resultado foi a criação, em 1975, do CDMCS, também conhecido por Centro de Comunicação «Shalom».
A rádio foi a primeira aposta dos mentores do projecto. Foram montados dois estúdios, sendo produzidos diariamente programas em português e chinês, cuja transmissão era feita em cadeia com rádios de Macau, Hong Kong e da China continental.
Em 1982, a irmã Maria Pia decide remodelar a sala de cinema da diocese, – construída em 1971 com o auxílio financeiro dos cristãos americanos, – reabrindo ao público com um novo nome: Cineteatro de Macau. A estreia aconteceu em Junho de 1982 com o filme "Somewhere in Time". Tinha capacidade para mil espectadores.
Dois anos mais tarde, em 1983, era inaugurado o vídeo-clube «Shalom» e, em 1985, o CDMCS estreava-se na produção de programas televisivos e de outros formatos audiovisuais. Como prova do reconhecimento do Governo pelo trabalho efectuado pelo Centro, este foi convidado a integrar a Comissão de Classificação de Espectáculos. A par da rádio, do cinema e da televisão/vídeo, eram publicados regularmente pequenos impressos de carácter pastoral e litúrgico. Na década de 1990 o cine-teatro foi ampliado passando a incluir mais duas pequenas salas de projecção de filmes
No final da década de 1970, ainda antes de 'nascer' o cine-teatro
Peça de teatro - Mofina Mendes - no Cineteatro Diocesano. Foto de Teresa Nolasco

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

W. H. Auden em Macau: 1938


O poeta viajante Wystan Hugh Auden (1907-1973) - inglês naturalizado americano em 1946 visitou 27 países, o que para a época é considerável. Em 1938 viajou para a China e passou por Macau, tendo ficado hospedado no hotel Bela Vista. Ele e Christopher Isherwood (1904-1986) foram desafiados pelos seus editores a escrever um livro sobre o Extremo-Oriente. "A escolha do itinerário ficou ao nosso critério", recordariam mais tarde. E foi o "rebentar da guerra sino-japonesa que nos fez optar pela China". Saíram de Inglaterra em Janeiro de 1938 para um viagem de seis meses. No final escreveram "Journey to War" editado em 1939 pela Faber & Faber. Às notas de diário de Isherwood foram acrescentados os sonetos de Auden. Um desses sonetos intitula-se precisamente "Macao".

A weed from Catholic Europe, it took root
Between the yellow mountains and the sea,
And bore these gay stone houses like a fruit,
And grew on China imperceptibly.

Rococo images of Saint and Saviour
Promise her gamblers fortunes when they die;
Churches beside the brothels testify
That faith can pardon natural behaviour.

This city of indulgence need not fear
The major sins by which the heart is killed,
And governments and men are torn to pieces:

Religious clocks will strike; the childish vices
Will safeguard the low virtues of the child;
And nothing serious can happen here.



"Erva daninha da Europa católica"... Assim começa esta olhar poético de um inglês sobre Macau – que classifica como ''city of indulgence" – no final da década de 1930 onde o jogo e o pecado não são esquecidos. Frontal, de humor, por vezes, sarcástico, Auden foi também autor de óperas e de peças de teatro. Este seu poema foi reeditado ao longo dos tempos com ligeiras alterações.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Exportação de biombos de Macau: séculos XVI - XVIII


"De Macau para o Resto do Mundo: A Exportação Portuguesa de Biombos (Séculos XVI-XVIII)". 
A partir do século XVI, a expansão comercial portuguesa na Ásia fez com que chegassem cada vez mais à Europa produtos orientais. A curiosidade pelo “Outro” e o fascínio pelas suas manifestações artísticas estimularam a demanda de produtos chineses e japoneses, fenómeno esse que teve um impacto profundo na cultura dos países receptores.
O objectivo da nossa comunicação é estudar os biombos orientais no conjunto das mercadorias exportadas anualmente de Macau para Portugal (através da Índia), para as Filipinas e para a América. A análise de alguns exemplos dessas obras de arte permitir-nos-á averiguar quem foram os proprietários desses objectos, quais os seus gostos e inquietudes, e qual teria sido o seu processo de encomenda.
Conferência a cargo de Alberto Baena Zapatero(CHAM-FCSH-UNL/UAç) no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau
21 de Janeiro de 2013 -|18h - Av. Berna UNL/FCSH - Torre B Sala T9, piso 3

sábado, 12 de janeiro de 2013

Boletim Oficial: 12 Setembro 1838


A revolução de 1830 em França originou uma corrente de opinião favorável a um liberalismo mais puro, que não dependesse da vontade do monarca e que fosse reconhecida a soberania do povo através da representação em assembleia nacional, com poderes constituintes. 
O seu efeito político em Portugal foi a revolta de Setembro de 1836 e o restabelecimento de um 'misto' das constituições de 1822 de 1826. 
Será em Abril de 1838 que Portugal passa a ter o terceiro texto constitucional e que só foi publicado no "Boletim Official do Governo de Macao" a 12 de Setembro de 1838. 
Seguem-se alguns excertos desse texto constitucional relacionados com Macau...

(Nota: clicar sobre as imagens para ver em tamanho maior)
No artigo primeiro pode ler-se "A Nação Portuguesa é a associação política de todos os Portugueses."
2. O território português compreende: 
Na Europa, as Províncias de Trás-os-Montes, Minho, Beira, Estremadura, Alentejo, o Reino do Algarve, e as Ilhas Adjacentes da Madeira, e Porto Santo, e dos Açores;
Na África Ocidental. Bissau e Cacheu, o Forte de S. João Baptista de Ajudá na Costa da Mina, Angola e Benguela, e suas dependências, Cabinda e Molembo, as Ilhas de Cabo Verde, as de S. Tomé e Príncipe, e suas dependências;
Na África Oriental, Moçambique, Rios de Sena, Baía de Lourenço Marques, Sofala, Inhambane, Quelimane, e as Ilhas de Cabo Delgado;
Na Ásia, Salsete, Bardez, Goa, Damão, Diu, o estabelecimento de Macau, e as Ilhas de Timor e Solor.
§ único - A Nação não renuncia a qualquer outra porção de território a que tenha direito.
3. A Religião do Estado é a Católica Apostólica Romana.
4. O Governo da Nação Portuguesa é Monárquico-hereditário e representativo.
5. A dinastia reinante é a Sereníssima Casa de Bragança, continuada na Pessoa da Senhora Dona Maria II, actual Rainha dos Portugueses. (...)
As Províncias Ultramarinas poderão ser governadas por leis especiais segundo exigir a conveniência de cada uma delas.
§ 1.° - O Governo poderá, não estando reunidas as Cortes, decretar em Conselho de Ministros as providências indispensáveis para ocorrer a alguma necessidade urgente de qualquer Província Ultramarina.
§ 2.° - Igualmente poderá o Governador geral de uma Província Ultramarina tomar, ouvido o Conselho do Governo, as providências indispensáveis para acudir a necessidade tão urgente, que não possa esperar pela decisão das Cortes, ou do Poder Executivo.
§ 3.° - Em ambos os casos o Governo submeterá às Cortes, logo que se reunirem, as providências tomadas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Círculo Cultural de Macau: década 1950

O Círculo Cultural de Macau (CCM) surgiu em 1950, tendo como presidente Pedro José Lobo, e agitou a vida do território ainda mal refeita da Guerra do Pacífico que terminara cinco anos antes. Editou uma revista ao longo de vários anos, organizou palestras, exposições, conferências... editou livros e levou grandes artistas do mundo da música a actuar na sala de espectáculos de excelência, à época, o Teatro D. Pedro V, mas não só. Ficaram famosos os "ciclos de conferências" organizados pelo CCM no "Salão nobre do Leal Senado da Câmara de Macau", em 1953, por exemplo.

Entre as muitas exposições Henrique Manhão recorda-se da "exposição de trabalhos do pintor macaense Luis Demée na secretaria do antigo Liceu Nacional Infante D.Henrique, situado na avenida Conselheiro Ferreira de Almeida. Luis Demée, que se formou em Belas Artes em Portugal, regressou a Macau por pouco tempo. Foi um dos júris do segundo concurso “Miss Macau”, de que foi vencedora a senhorinha Oliveira Coelho, que no mesmo ano participou no concurso nacional de beleza em Lisboa, conquistando o título de Miss Simpatia."
Em Setembro de 1950 foi editado o primeiro número da revista Mosaico. De periodicidade mensal era uma publicação trilingue dedicada à história e cultura locais. Nela colaboraram nomes como José Neves Catela, Carlos Estorninho, Marques de Oliveira, Graciete Batalha, Pe. Fernando Herberto Maciel, José Silveira Machado, Luis Gonzaga Gomes, Capitão Pimentel Bastos, Lígia Pinto Ribeiro, José Maria Braga, Charles Boxer, António Nolasco, entre outros. O último número foi editado em 1957.
A revista Mosaico era vendida na firma Oriente Comercial na Avenida Almeida Ribeiro, na livraria Po Man Lau no Largo do Senado e na livraria Seng Kuong, perto do Teatro Capitol.
Entre os livros editados destaco, a título de exemplo, "Monumentos nacionais existentes na província de Macau" do major Acacio Cabreira Henriques, em 1956; e "O plano de fomento em Macau e as obras levadas a efeito nos últimos três anos 1951-1954".

A primeira edição. Órgão e propriedade do Círculo Cultural de Macau. Organ and property of the Macao Cultural Circle. Vol. 1, Nº 1. Setembro de 1950. September - 1950. 
Com 131 pags. Brochado. Ilustrado. Publicação em línguas chinesa, portuguesa e inglesa.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A voyage round the world: Macau em 1836

Em 1832, Andrew Jackson, presidente dos E.U.A., agindo com base no parecer do Secretário da Marinha, Levi Woodbury, enviou Edmund Roberts como "agente especial do governo", com poderes para negociar tratados de amizade e comércio com os países da Ásia. Roberts esteve pelo menos duas vezes em Macau: Outubro de 1832 e Junho de 1836. No decorrer da viagem negociou tratados com o Sultão de Mascate (Omã) e com o Rei do Sião (Tailândia). Após o regresso aos Estados Unidos e a ratificação dos tratados pelo Senado, Roberts foi mandado de volta, em 1835, a Mascate e ao Sião para a troca das ratificações.
Esta obra (editada em 1838) foi escrita pelo cirurgião (Ruschenberger) do navio que levava Roberts. São mais de 500 páginas. O capítulo 36, intitulado Sketches in China é dedicado a Macau com um total de 8 páginas.
Além de Mascate e do Sião, outros países visitados durante a viagem e descritos nesta obra incluem: Brasil, Tanzânia, Índia, Sri Lanka, Indonésia, China, Vietname, México, Perú e Chile. O próprio Roberts não viveu para completar sua missão. Morreu em Macau a 12 de Junho de 1836.
Vista sobre o "forte do monte" que neste postal do final do século 19 é denominado "castle".
Como era então Macau nessa época? Eis alguns excertos sobre a geografia, usos e costumes que o cirurgião reteve na memória. Há ainda uma parte de resumo histórico.
"Junho de 1836. The appearance of Macao from the roads, there is something to remind one of Rio de Janeiro, without there being any thing, wich is particulary semblable. (...) It is clean, and there is an air of snugness, wich gives an appeaence of the unmolested retirement of those, who fly here at certain seasons, from the drudgery of business and the confinment of the close factories at Canton. (...)
The houses are built on a curve (referência à Praia Grande), following the sweep of the shore, with a broad terrace in front; they are two stories high, in the Portuguese style, with large windows for ventilation, shaded by Venetian shutters. (...) Penetrating the town from the playa, we find the streets crossing each other irregularly, now rising abruptly and again descending, and roughly paved with broken pebbles. (...) There is a Portuguese governor and a garrison of about 200 men, kept in good discipline; but the Chinese have also their mandarins, who exercise all the various functions of office. (...)
The population is estimated of 2500, of wich 2000 are chinese. (...) It is a favourite resort for invalids from all partes of India. (...) The Portuguese have preserved their national foundness for music and society. The piano and the guitar are heard from the houses in almost every street at night. (...)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Serviço de Obras Públicas

A história da DSSOPT está intimamente ligada à história de Macau, cujo desenvolvimento e progresso estão espelhados nas inúmeras obras e empreendimentos realizados ao longo dos séculos.
Desde os finais do século XVII, Macau tornou-se num porto internacional famoso, embora a sua posição de porto internacional tenha sofrido impactos devido a factores prejudiciais, nunca tendo, porém, o seu desenvolvimento progressivo parado. Na metade do século XIX Macau impôs-se como um porto internacionalmente reconhecido. De vila piscatória, Macau tomou um rumo para se tornar numa cidade urbanizada e com a formação gradual do centro da cidade aumentaram consequentemente as necessidades de obras públicas, tais como a abertura de novos arruamentos e obras de aterro, tendo estas atribuições sido da responsabilidade do "Serviço de Obras Públicas".
Décadas 1920-30 - entroncamento das ruas do Campo e Pedro Nolasco
As funções do Serviço de Obras Públicas foram-se progressivamente ampliando, de acordo com as necessidades emergentes da evolução do própria região. Assim, em 1867, o Serviço de Obras Públicas tinha a seu cargo as obras municipais, as obras militares e as fortificações; a inspecção, a direcção e a construção dos edifícios públicos, das ruas, pontes, cais, estradas, etc.; a reparação e a conservação das obras; a medição e a concessão de terrenos para construções; a ingerência nos alinhamentos e nas condições de conveniência pública no que respeitava aos edifícios particulares; a informação acerca de todos os requerimentos e processos sobre reedificações ou edificações novas; o levantamento de cartas e as sondagens; os contratos, concessões de empreitadas e as compras de materiais; o estudo sobre as condições técnicas, arquitectónicas e económicas de todas as obras.
Em 1869, foram adicionados às funções do Serviço de Obras Públicas o esgotamento de pântanos, a canalização de rios, a exploração de solos, etc. Oito anos depois, passou a superintender e administrar os jardins públicos. Em 1892, passou a ter a seu cargo os estudos, a construção e a conservação de estradas, as pontes, as obras hidráulicas, tanto de Portugal como de Macau, incluindo as irrigações, os edifícios públicos, a agrimensura, os telégrafos, os faróis, as minas, as pedreiras e os estudos geológicos. Nos finais do terceiro trimestre de 1900 as atribuições do Serviço de Obras Públicas tornaram-se mais claras, tendo sido determinado que ficassem exclusivamente a cargo da Direcção das Obras Públicas a emissão de licenças para construções e reparações em Macau de edifícios de qualquer natureza, devendo esta Direcção gerir, momentaneamente, tudo o que se relacionasse com concessões, direcção e fiscalização de obras e a sua execução, em harmonia com as leis e regulamentos das obras públicas então em vigor. Catorze anos depois foi aprovado "o Regulamento Orgânico da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau", tendo a mesma sido dividida em quatro secções permanentes que tinham a seu cargo, respectivamente, "os Edifícios Públicos e Particulares", "a Viação e o Saneamento", "as Obras Hidráulicas e Outras Obras" e "a Conservação de Viação, Jardins e Matas".
Década 1940: RTOP

 Vista de outra fachada - rua do Campo - do edifício na década de 1950-60
Com a chegada do ano de 1920, devido à melhoria das relações entre Macau e a China Continental, o ritmo de desenvolvimento da cidade de Macau nesse período acelerou-se. Das quatro secções subordinadas ao Serviço de Obras Públicas aumentaram-se para cinco secções cujas atribuições incidiam respectivamente nos "Edifícios Públicos e Particulares", nas "Viação e Saneamento", nas "Arquitectura e Viação Civil", na "Conservação de Jardins e Matas" e nos "Serviços de Electricidade e Fiscalização Técnica das Indústrias Eléctricas". Depois, as atribuições foram ampliadas, responsabilizando-se pela construção de obras públicas e monumentos em Macau, e pelos serviços postais e serviços de telegrafia, telefone e rádio, etc. Até ao ano de 1930, as funções dos Serviços de Obras Públicas estavam subdivididas. Na estrutura da altura, havia oito secções que tinham a seu cargo os assuntos inerentes às diversas obras públicas de Macau.
Década 1960
Anos 20-30
Na realidade, acompanhando a evolução da sociedade e tendo em atenção as diferenças da época, a estrutura dos diversos órgãos do Governo de Macau era constantemente alterada por forma a se adaptarem às necessidades de gestão do Governo. Os órgãos administrativos que se encarregavam exclusivamente das obras públicas tiveram antes e depois designações diferentes: "Serviços de Obras Públicas", "Direcção das Obras Públicas", "Repartição Técnica das Obras Públicas", "Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes", etc. Em Outubro de 1964, "o Regulamento Orgânico da Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas e Transportes" foi aprovado, a "Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes" foi reestruturada, tendo então sido criada a "Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas e Transportes". No ano de 1981, o Governo procedeu a uma grande reforma da estrutura orgânica, tendo em consequência, sido criadas cinco Secretarias-Adjuntas que supervisionavam os diferentes Serviços funcionais, pretendendo-se que a estrutura orgânica fosse mais especializada com vista a responder ao desenvolvimento acelerado da sociedade e economia da altura. A "Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas e Transportes", a "Direcção dos Serviços de Programação e Coordenação de Empreendimentos", a "Direcção dos Serviços de Correios", entre outros Serviços, estiveram sob a tutela da "Secretaria-Adjunta para o Ordenamento, Equipamento Físico e Infra-estruturas", tendo a "Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas e Transportes" nesse ano sido elevada à categoria de "Direcção dos Serviços de Obras Públicas e Transportes".
Em Setembro de 1984 e em 1989 a "Direcção dos Serviços de Obras Públicas e Transportes" foi reestruturada, tendo então sido nela incorporada a "Direcção dos Serviços de Programação e Coordenação de Empreendimentos". No ano seguinte, foi criada oficialmente a "Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes" e a "Secretaria-Adjunta para o Ordenamento, Equipamento Físico e Infra-estruturas" a ela subordinada mudou a sua denominação para "Secretaria-Adjunta para os Transportes e Obras Públicas". Em seguimento de transição da soberania à China e a criação da Região Adminitrativa Especial de Macau da República Popular da China em 20 de Dezembro de 1999, adoptou-se um novo nome chinês mas com a mesma designação portuguesa.
Texto do site da DSOOPT

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Fragmentos do Oriente

A macaense Alda Carvalho Ângelo (falecida em 2010) viveu cerca de 30 anos em Macau antes de partir rumo ao Brasil. Foi aí que em 1965 publicou o livro "Fragmentos do Oriente" (contos, viagens, culinária) e que dedicou-o à sua mãe Cândida Maria dos Remédios Carvalho, falecida em Macau em 14 de Janeiro desse ano.
Excerto
(...) Vamos, então, dar um passeiozinho pelo convés? – sugeri ao Leitor Amigo, meu companheiro de viagem, com quem eu palestrava desde a saída de Hong-Kong sobre a história de Macau. – Vamos! — me respondeu ele — Estou curioso por conhecer a terra, depois que teve a gentileza de me pôr a par de sua história.
O Sui Tai, como eu dizia, tinha diminuído a marcha, deixando entrever cada vez mais os contornos da cidade iluminada a luz elétrica, os globos elétricos projetando sua luz sobre as barracas de banho, denotando que os banhistas ficavam até bem tarde, a beira-mar, deleitando-se com a brisa marítima ou banhando-se na água,
- Venha ver a cidade. — convidei meu companheiro. – Venha! Olhe ai! Estamos passando pelo porto exterior.
- Como é linda a cidade assim de longe! - exclamou ele.
- Estamos, neste momento, na foz de dois rios. — expliquei.
- A cidade é, então, banhada por dois rios?
- Sim, ela está privilegiadamente situada no delta comum de dois rios: Chu-Kiang (rio de leste, ou rio da Pérola) e Si-Kiang (rio de Oeste). O Chu-Kiang é também chamado de Rio de Cantão. Macau está a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, a capital do Sul, a capital da grande província de Kwang-Tung.
- Macau é uma ilha?
- Não, ela é uma península. É  ligada por um pequeno istmo - o istmo da Porta do Cerco - ao distrito de Heóng-Sán (montanha aromática). E, como vê - apontei para as ilhas em volta - Macau é cercada de ilhas: a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane e, mais ao sul, a de D. João e a de Vong-Kâm…
- E qual a população?
- Em 1950, isto é, segundo o censo do ano de 1950, a população era de 187.772 habitantes, sendo a maioria chinesa.
Nesse instante, o barco seguia em linha reta, paralelo à baía da praia grande, em toda sua extensão, tomando a direção da Avenida República, preparando-se para contornar a “meia laranja”.

Porto Interior. Década 1950. Foto de Lei Iok Tin
- Olhe aí a ermida da Penha! - chamei a atenção do meu companheiro. - A ermida da Penha está situada no cume da Colina da Barra. É aí que se encontra a imagem de Nossa Senhora da Penha, venerada ainda hoje como naqueles tempos pelos nossos primeiros navegadores. No sopé dessa mesma colina está o Pagode da Barra, freqüentado principalmente pela gente do mar (pescadores chineses), onde se venera uma das mais importantes divindades da China, a “Rainha do Céu”, a deusa A-Má, donde proveio o nome de Macau. - Leitor Amigo me escutava com interesse. - Não acha você, Leitor Amigo, curioso, como homens tão diferentes e de religiões tão opostas tenham escolhido o mesmo local para venerar cada qual seus santos preferidos?
- Curioso, sim.
- Você tem que conhecer a gruta da Penha. Tem que subir até ao alto da colina e de lá desfrutar os mais belos panoramas.
- Devo ir na parte da manhã ou da tarde?
- Na parte da manhã, você verá o maravilhoso nascer do sol, verá dezenas e dezenas de
barcos de pesca deslizarem-se suavemente por sobre as ondas, as velas desfraldadas, afastando-se do porto…
- E na parte da tarde?
- Na parte da tarde, verá outro maravilhoso panorama. O pôr do sol, o belíssimo pôr do sol macaense… os barcos de pesca, regressando para o porto, carregados de peixes de todos os tamanhos e feitios …
- Tenho que subir até lá…
- Mas agora vamos descer — atalhei — Vamos descer e preparar-nos para o desembarque. Já estamos chegando.
- Já?!
- Já!
De facto, o barco estava a poucos metros do cais, depois de passar pela Fortaleza da Barra, pela doca e rumado reto ao longo do Porto Interior. Dirigia-se lentamente para o ancoradouro.
Nesse instante, o relógio do salão batia dez horas. Meia hora depois, eu me despedia do Leitor Amigo.
- Magnífica viagem. — exclamou ele. — Inda nos encontraremos?
- Acho que sim. — respondi.
- Algo me diz que nossos caminhos não tardarão a se cruzar novamente… (...)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Património de origem portuguesa no mundo"...


O arquitecto e historiador de arte Walter Rossa foi o coordenador do volume dedicado à Ásia da obra “Património de Origem Portuguesa no Mundo: Arquitectura e Urbanismo”. A colecção completa foi dirigida por José Mattoso e publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2010. 
Nascido em 1962, Walter Rossa é docente do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia e investigador do Centro Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Para além da actividade nas áreas da arquitectura e planeamento, tem-se dedicado à investigação em Teoria e História da Arquitectura e do Urbanismo, em especial nos domínios da urbanística, da cultura do território e do património do universo português, tendo já publicado diversos livros.
Em entrevista concedida por “e-mail” ao JTM, o investigador refere que o Oriente seria “algo diferente” sem o legado luso e refere que o património listado em Macau está bem conservado, quando comparado com outros lugares do continente asiático.
- Macau é um desses casos com mais bens listáveis?
Em Macau quase se esgotaram os bens mais antigos, enquanto no que diz respeito aos mais recentes foram mais os que ficaram de fora do que os que foram incluídos. Tudo isso está explicado de forma mais ampla nos textos introdutórios do volume e de cada uma das subdivisões regionais.
- Quantas entradas tem o volume dedicado à Ásia? Destas, quantas abarcam o património de Macau?
O volume abarca 130 locais divididos em cinco áreas geográficas, dos quais estão integradas um total de 326 entradas, sendo que algumas dizem respeito a mais do que um edifício ou conjunto edificado. Macau tem 45 entradas, incluindo a relativa ao conjunto.
- No caso de Macau, como analisa o estado de conservação do património de origem portuguesa?
De uma maneira geral como boa, em termos relativos (com os demais na Ásia) como excelente. Os principais problemas levantam-se ao nível dos contextos.
- As igrejas são parte significativa desse património. Que outros itens surgem listados?
No que diz respeito aos itens de origem mais antiga poderemos acrescentar aos edifícios religiosos os de carácter militar e, aqui e ali, um ou outro palácio, ou seja, arquitectura civil. Mas quando avançamos no tempo, em especial a partir de meados do século XIX, contamos também com excelentes exemplares de equipamentos e espaços públicos, habitação colectiva, moradias, etc. Importa, contudo, chamar a atenção para um tipo de bens que normalmente não é tido em linha de conta e que é fundamental, não só porque é estruturante e o mais duradouro: o urbanismo.
- Um dos edifícios referenciados é o Casino Lisboa. Face ao esfuziante surgimento de outros casinos e edifícios em seu torno, acha que poderá permanecer como um dos ícones da cidade?
A minha resposta é positiva, mas obviamente sujeita ao plebiscito daqueles a quem compete, no dia-a-dia, essa decisão, ou seja, aos macaenses. Não continuam eles a considerá-lo como um ícone da cidade? Não é ele uma das imagens mais recorrentes da representação externa de Macau?
Excertos de uma entrevista realizada por Paulo Barbosa publicada no JTM de 9-2-2011