quarta-feira, 22 de junho de 2011

Novo livro de Ana Maria Amaro

Porque Macau não é nem nunca foi só jogos de casino...
A apresentação do livro "Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau" 2ª parte - I volume", decorre dia 22 de Junho na DECM - Av. 5 de Outubro, 114 Lisboa.
Foto de João Botas - Macau, Jardim de Camões, 2009
Prefácio que a prof. Ana Maria Amaro me convidou a escrever para o livro...
“Macau é uma recordação agridoce”*
Em Outubro de 2010 ao receber o convite para escrever este prefácio a minha primeira reacção foi de total surpresa. "Não se terá enganado", escrevi eu na resposta à Prof. Ana Maria Amaro, contrapondo que existiriam pessoas mais habilitadas já que me faltava “engenho e arte” para tão árdua empresa.
E agora? Como se escreve um prefácio? Ainda para mais de um livro escrito por uma professora catedrática jubilada?... Segundo Confúcio, reconhecer que não se sabe já é saber alguma coisa. Por agora, nem tudo estava perdido.
Ultrapassado o impasse e aceite o convite veio-me à ideia a imagem da capa do livro "Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau", uma gravura-aguarela (século XIX) de motivos chineses - representa um grupo de chineses jogando chiquia (bater a andorinha - ta yin) - muito colorida com traços de contorno a preto. Já tinha estado com aquele livro nas mãos ainda nos meus tempos de juventude em Macau mas será que o tinha na minha mini biblioteca dedicada a Macau? Infelizmente, tinha outros dois livros da sua autoria, mas esse não.
Eu e a autora vivemos em Macau em épocas distintas e com idades bem diferentes. Ela entre 1957 e 1972 já adulta. Eu na década de 1980 ainda adolescente. Ainda assim, algo nos ligava: o Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde ela foi professora e eu fui aluno. E o fascínio por Macau e pela sua história.
Foi por causa disso quem em 2007 escrevi um livro sobre a história do Liceu e em 2009 criei o projecto Macau Antigo: http://macauantigo.blogspot.com, um blog onde Ana Maria Amaro é uma presença constante devido ao seu trabalho em prol da divulgação da cultura macaense.
Ou seja, sabia quem era e o que tinha feito, mas não conhecia Ana Maria Amaro. E foi desta forma que a ‘descobri’ como Presidente do Instituto Português de Sinologia. No final de 2009 realizei uma série de 25 entrevistas para o Jornal Tribuna de Macau a convite do seu director José Rocha Dinis. A ideia era assinalar o 10º aniversário da transferência de soberania de Macau, ocorrida em Dezembro e 1999. O critério utilizado na selecção dos entrevistados era muito simples: pessoas que se tivessem destacado na vida cultural do território e que vivessem na altura em Portugal. Por vicissitudes diversas muitas das entrevistas foram feitas via e-mail. A de Ana Amaro foi disso exemplo.
Numa longa entrevista amplamente ilustrada com fotografias da época fornecidas pela própria, abordaram-se diversos temas, nomeadamente os seus livros. Perguntei sobre os que tinha escrito e sobre os que ainda queria escrever. Eis algumas respostas:
Tenho dois livros por publicar com muito mais informação e um terceiro que está no prelo e é uma continuação do 1º volume de ‘Jogos e Brinquedos (...)’ que foi publicado em 1976 e mostra como eu ocupava o meu tempo em Macau para além das aulas.”
Instada a mencionar qual o seu livro preferido, respondeu assim: “Merecem-me especial destaque os dois que estão inéditos à espera de editor ou de apoios financeiros das Fundações interessadas em estudos sobre Macau/China."
A entrevista foi lida e os apoios chegaram. Era mais um exemplo acabado daquilo que me levou a enveredar pelo jornalismo ainda adolescente, ainda em Macau: relatar factos, intermediar, alertar consciências... fazer a diferença. Hoje, tenho a sorte (e espero que também o mérito) de fazer aquilo que gosto e a mesma ilusão de juventude: a de que aquilo que faço serve para alguma coisa. Aqui está, portanto, a razão do convite que me foi feito para escrever estas linhas. É uma honra mas é ainda maior a responsabilidade. Em especial para um ‘analfabeto’ nos domínios da Antropologia ou Etnografia.
A presente edição é a continuação - se assim se pode dizer - do livro publicado em 1976 pela Imprensa Nacional de Macau. Apesar de muitas vezes persistir a informação de que o livro foi editado em 1972 (p.e., na Biblioteca Nacional), na verdade esse número corresponde ao ano em que a autora regressou a Portugal e o livro “foi deixado na gráfica”. Preciosismos à parte, certo é essa edição esgotou poucos anos depois e que hoje só se consegue encontrar numa daquelas livrarias/antiquário a 50 euros cada exemplar!
É nessa primeira edição que ‘aparece’ o “lárgà sarangum”, luta de papagaios. Recordo, a propósito, um excerto de um texto desse ilustre macaense, Henrique Senna Fernandes, recentemente desaparecido do mundo dos vivos:
"(...) Outro passatempo existia no Verão que era a largada do papagaio de papel também chamado o ‘sarangong’, preso à linha, esta de antemão preparada e tratada por uma massa de farinha, gema de ovo e vidro em pó que a tornava cortante. Assim se desafiava outro papagaio para um despique que se reduzia em ver quem cortava a linha do outro. Era o excitante ‘corta-corta’ que tanto entusiasmo produzia entre adolescentes e adultos que o céu de Macau, nas tardes prolongadas de verão, se enchia de ‘papagaios’ de diversas cores, para lutas renhidas. Empregavam-se estratégias, era uma pugna leal, havia verdadeiros campeões que eram galardoados pela admiração geral. Nisto se consumia a boa gente de Macau, num passatempo saudável e inocente, que traduziu bem a época ligeira e despreocupada em que se vivia, com a certeza de que o dia de amanhã seria igual ao dia de hoje."
Nesta edição do século XXI não aparece o ‘sarangong’ mas estão lá centenas de exemplos de jogos e tradições populares macaenses. O trabalho de campo foi todo feito em Macau durante os mais de 15 anos que a autora ali viveu e trabalhou como professora. “Depois em Portugal levei alguns anos em trabalho de Biblioteca. Os conteúdos são todos novos e ilustrados, grande parte, a cores. Acabei de o redigir em 1998.” Mais de uma década se passou e finalmente esta obra de recolha etnográfica exaustiva (dividida em dois volumes com cerca de 600 páginas) vê a luz do dia. Uma luz que me ajudou a esclarecer partes da realidade que conheci em Macau há cerca de 20 anos.
Recordo-me de ficar intrigado ao ver junto à pequena muralha da Praia Grande, junto ao antigo Liceu, aquele jogo de xadrez (de peças pretas e vermelhas) com que os ‘velhotes’ matavam o tempo debaixo das acácias rubras. Hoje sei que se tratava do ‘Cheong Kei’, um jogo de origem milenar, inspirado na estratégia de guerra. Diferente do xadrez ocidental.
Nas muitas pesquisas e contactos que tenho feito para colocar conteúdos no blog Macau Antigo temas como as tradições da comunidade macaense (aqui incluo todos) têm despertado muito interesse e participação activa dos leitores. Foi assim que fiquei a saber um pouco mais sobre por exemplo o ‘talu’ e o ‘bafá’. O ‘bafá’ é um jogo de cartas muito em voga em Macau até às primeiras décadas do século XX, hoje praticamente esquecido. Já o ‘talu’ era jogado com dois paus, um que batia no outro, mais pequeno e afiado das pontas, como se de um lápis se tratasse. Ganhava o que conseguisse bater no pau sem ele cair ao chão, atingindo uma determinada distância em passos. Este jogo terá chegado a Macau pela mão dos jesuítas no início do século XVIII e manteve-se vivo até ao início do século XX. Em Portugal era conhecido por bilharda.
Muitos dos jogos e tradições abordados neste livro ou já desapareceram dos hábitos do quotidiano ou estão em vias disso muito por causa da diáspora do povo macaense e da voragem do tempo. Também por isso, este livro é imprescindível. Até para os que, ainda vivos, já quase os esqueceram. Cabe à actual geração de macaenses tudo fazer para não deixar morrer estas marcas da sua identidade ímpar no mundo.
E foi justamente sobre os macaenses que Ana Maria Amaro iniciou a sua paixão pela etno-história do Território. “Esse amor foi-se construindo à medida que fui conhecendo e compreendendo essa terra fascinante”.
No início na década de 1960, com base em dados recolhidos na tradição oral que na altura ainda existia e também nos ‘chôc pou’ das famílias Sam e Ho (manuscritos transmitidos de geração em geração e dos quais constam acontecimentos de várias épocas), Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias a habitar a cidade dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China. Se tivermos em conta que é habitual fazer-se um paralelismo entre o ‘início’ de Macau com a chegada dos portugueses...
Há quem viva num país que não o seu sem nunca o conhecer realmente. Não é o caso de Ana Maria Amaro. “A história de Macau assim como a história da China servem-me de suporte à etno-história que é aquilo que eu gosto de estudar.” (...) Foi assim que nasceu “o desejo de perceber onde estava e não me sentir analfabeta e surda, isto é, não saber ler nem compreender o que os chineses escreviam e diziam.”
E foi assim que começou por se interessar... pela flora local. “Foi o primeiro trabalho que eu publiquei sobre esse assunto depois de ter identificado algumas das espécies da flora local foi um artigo no Boletim Eclesiástico da diocese de Macau por insistência de Monsenhor Manuel Teixeira. O nome desse artigo era "Relíquias Botânicas de Macau", no qual comecei por dizer que ‘não só as pedras nos falam do passado mas também o mundo verde para quem souber e quiser entende-lo’. A partir dos vestígios de buxo, violetas, tabaco, trepadeiras de betelo consegui localizar casas antigas de famílias abastadas macaenses já desaparecidas”
Estava dado o primeiro passo de uma longa caminhada à descoberta da realidade de uma cidade que embriaga o mais incauto viajante ou morador tal é a multiplicidade de sons, cores e cheiros em que se desdobra. Ana Maria Amaro não só apreendeu essa realidade de uma forma ímpar como nos deixou em várias obras (livros e artigos) o traço da sua passagem por Macau. Nestes textos retrata-se uma Macau de outros tempos que praticamente desapareceu e que importa perpetuar.
De tão extensa que é a lista, refiro apenas alguns exemplos: Ano novo chinês em Macau (1960), Contribuição para o estudo da flora médica macaense (1965), Pun Tchói (1966), Alguns aspectos do artesanato em Macau (1967), O velho templo de Kun Iâm em Macau (1967), Adivinhas populares de Macau (1975), Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau (1976), Um jogo africano de Macau: a chonca (1980), Três jogos populares de Macau: chonca, talu, bafá (1984), Os macaenses como grupo: alguns dados antropobiológicos (1987), Filhos da Terra (1988), O traje da mulher macaense (1989), Aguarelas de Macau, 1960-1970: cenas de rua e histórias de vida: um olhar retrospectivo, um olhar de saudade (1998), etc.
«Ana Maria Amaro é um nome incontornável entre os que se dedicaram a investigar a história de Macau e da China. Chegou em 1957 "com os restos do tufão Glória" e regressou a Portugal em 1972 mas nunca cortou a sua relação com o Território, "essa terra fascinante" onde iniciou a carreira docente.»
Foi esta a introdução da minha entrevista a Ana Maria Amaro há cerca de um ano. Uma entrevista que impediu este livro de ficar escondido na gaveta. Uma gaveta onde está, também à espera de ser publicada “a minha tese de Doutoramento sobre Medicina Popular de Macau”. São cerca de três mil páginas dactilografadas onde estão as várias técnicas e “mezinhas” (cerca de 600 receitas à base de plantas) usadas pela população chinesa e luso-asiática ao longo dos séculos. Fica o alerta para quem tem responsabilidades na preservação e divulgação da identidade cultural macaense.
*Ana Maria Amaro na resposta à minha pergunta “o que é para si Macau?” em entrevista publicada no Jornal Tribuna de Macau a 8 de Janeiro de 2010
João F. O. Botas, no final de Novembro de 2010 em Portugal. Ou será Macau?
Jornalista e autor do blog Macau Antigo
Informações adiconais neste link
http://macauantigo.blogspot.com/2011/04/jogos-brinquedos-e-outras-diversoes-de.html

terça-feira, 21 de junho de 2011

Homenagem a Jorge Cavalheiro

Uma organização conjunta entre os antigos alunos de Jorge Cavalheiro, o Instituto Internacional de Macau (IIM) e o Instituto dos Estudos Europeus de Macau (IEEM) vai promover na próxima sexta-feira, pelas 18h30, um encontro com o professor Jorge Cavalheiro. Jorge Cavalheiro, ainda docente da Universidade de Macau, vai deixar brevemente o território e em definitivo. Mas antes, os seus antigos aluno prepararam-lhe uma homenagem que passará pela reedição do livro “Da Cadeirinha ao Automóvel, da Sampana ao Jactoplanador”, publicado em 1990 numa edição dos CTT, e uma oferta de outro seu livro “Guia Histórico-Cultural de Macau”, com Celina Veiga de Oliveira, a quem compareça ao evento.
O professor, que viveu os momentos históricos de cinco décadas do território, dará uma “última aula simbólica” aos seus antigos alunos. Jorge Cavalheiro chegou criança a Macau e, no território, foi cicerone dos antigos presidentes da República Portuguesa, Mário Soares e Jorge Sampaio. Participou ainda na realização do Museu de Macau e partiu para o Japão ensinar português na Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto. Em 1999, recebeu a Medalha de Mérito Cultural, concedida pelo então governador Vasco Joaquim Rocha Vieira. Exerceu funções no Instituto Cultural de Macau e escreveu vários manuais de língua e cultura portuguesas.
Notícia do HojeMacau de 20-6-2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Inéditos de Sun Yat Sen

A Universidade de São José (USJ) vai publicar correspondência entre Sun Yat-sen e o antigo governador de Macau Carlos da Maia, anunciou vice-reitor da Universidade de São José (USJ). “Temos um conjunto, tanto de cartas como de documentação relativa à intervenção decisiva de Sun Yat-sen no conflito de 1922, onde houve uma greve geral e envolveu conflitos em Macau até mais violentos do que o próprio ‘1,2,3’”, disse Ivo Carneiro de Sousa ao Hoje Macau, avançando ainda que a ideia daquele instituto é “avançar com a publicação dos documentos no próximo ano, entre Maio e o final de 2012”. Carneiro de Sousa frisou que as publicações focam o cruzamento entre “a República Portuguesa de 1910 e a República chinesa”. De acordo com o académico, o material que vai ser publicado dá “outra visão do homem político” que foi Sun Yat-sen, considerado o “pai da república chinesa”.
O advento faz parte de uma série de iniciativas da USJ para assinalar os 100 anos da Revolução Republicana chinesa que arrancou quinta-feira com a conferência “1911-2011: Da revolução às reformas – Caracterizando os paradigmas de transição ‘made in China’”.
Durante dois dias o evento reuniu 17 académicos de Macau, do Continente, Nova Zelândia, França e Estados Unidos para debater “os seis paradigmas de transição da China republicana”. Segundo Ivo Carneiro de Sousa, a iniciativa inseriu-se na estratégia de investigação científica da USJ de tentar compreender os novos territórios do processo de globalização “tomando a China como um exemplo-chave de uma potência emergente”.
Excerto de notícia assinada por Filipa Queiroz publicada no HojeMacau de 20-6-2011

sábado, 18 de junho de 2011

Tap Seac: um pouco de história

Tap Seac significa em chinês Torre de Pedra. Segundo o padre Manuel Teixeira: “Por este nome é conhecida a área da cidade situada de um e outro lado da rua do T’ap Seac, área esta mais ou menos limitada” pelo muro Leste do Cemitério de S. Miguel na “Rua da Esperança, parte da Estrada de Adolfo Loureiro, parte da Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida e parte da Estrada do Cemitério”
O campo Tap Seac ia até à parte Norte da Avenida Vasco da Gama, onde existia a rua da Flora que mais tarde deu a rua Ferreira do Amaral, quando a avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida foi construída em 1895. Tal deve-se à necessidade de fazer o saneamento da zona de S. Lázaro, após uma epidemia de peste que no ano anterior aí fortemente se fizera sentir. Essa zona tinha más condições sanitárias e fora a mais afetcada, numa altura em que começava a ser bastante populosa e com alguma indústria.
Tap Seac em 1949. Foto Jack Birns

A várzea que englobava o Tap Seac era um foco de peste, onde proliferavam os insectos, o que também para ali trazia os pássaros e as flores, que por lá cresciam, disfarçadamente enfeitavam e coloriam aqueles campos lodosos.
As obras da construção da rua foram dirigidas por Abreu Nunes, mas feitas sem permissão do Governo Português e para amansar as reprimendas de Lisboa, sendo José Ferreira do Amaral Ministro da Marinha, foi dado o seu nome à rua com o título de avenida; ele que nunca visitou Macau e em 10 de Junho de 1891 propusera a venda das colónias portuguesas. As casas do Tap Seac no lado da avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida são de 1903 e continuaram a ser edificadas até ao segundo decénio do século XX. Aí encontramos um conjunto de edifícios com características neoclássicas e inseridos no Património da Unesco. Sofreram uma remodelação nas décadas de 70 e 80 do século XX e foram distinguidas com o primeiro prémio da PATA em 1982.
O campo do Tap Seac era um lugar pantanoso e nele existiu uma colina com três enormes rochedos sobrepostos e que pela sua forma se assemelhavam a um pagode, por isso conhecida pela Colina do Pagode ou do Rochedo. A várzea já tinha sido aterrada quando em 1905, as rochas foram dinamitadas e no terreno deu-se início à construção de um campo que contava na parte Sudeste com um poço. No início, esse campo era onde as crianças vinham colocar os seus papagaios a voar, como nos conta o escritor Henrique Senna Fernandes, sendo algumas dessas crianças do Asilo dos Órfãos e Idosos que em frente se situava e depois, quando aí foi colocado o Liceu passou a ser campo de recreio dos alunos desse estabelecimento de ensino.
O Liceu Infante D. Henrique em Macau andara a saltar de lugar em lugar e após ter sido instalado em 1894 no Convento de S. Agostinho, em 1900 passara pela Calçada do Governador e em 1917 foi transferido para onde é hoje o edifício conhecido como Hotel Bela Vista. O edifício do Tap Seac foi construído pela Santa Casa da Misericórdia no princípio do século XX para servir inicialmente como asilo para idosos e orfanato da Santa Casa da Misericórdia. A 20 de Abril de 1923, o governo comprou à Santa Casa o edifício da Boa Vista para o transformar de novo em hotel e o edifício do Asilo para ser o Liceu, onde começou a haver aulas em 1924.
No ano seguinte à mudança do Liceu para aquele lugar, foi construído o Edifício da Caixa Escolar, na parte Sul do campo plano do Tap Seac. De características neoclássicas, o edifício tinha à sua frente os campos desportivos. O campo maior foi pelado até aos anos 90 e depois, passou a ter relva sintética e servia para a prática de futebol e de hóquei em campo. Existiam outros três campos mais pequenos em cimento; um para basquete e vólei, outro também para essas duas modalidades e por fim um terceiro, um ringue para hóquei em patins, andebol e futebol de cinco. Os campos encontravam-se entre duas ruas cheias de trânsito, a avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida para os veículos que se dirigiam para Norte da cidade e a rua Ferreira do Amaral para os que se dirigiam em sentido contrário. Em 2005, esses campos, que tinham uma ocupação diária plena e constante, foram destruídos. Aí apareceu uma praça com calçada à portuguesa e por baixo um parque de estacionamento, com um túnel que desviava o trânsito da praça do Tap Seac para quem viajava para Norte. Assim um troço da avenida Conselheiro Ferreira de Almeida passou a ser pedonal e ficou inserido na praça. Também as árvores desapareceram da praça e hoje esta conta na parte Sul com um edifício envidraçado, mas ainda sem funções.
Anexo ao Liceu de Macau, na Av. Conselheiro Ferreira de Almeida (onde hoje funciona a Direcção dos Serviços de Saúde), foi inaugurado a 30 de Dezembro de 1934, um Ginásio que, para além das práticas desportivas, serviu para a realização de animadas festas e bailes. O ginásio foi desafectado e no edifício passou a funcionar o Dispensário Anti-Tuberculoso e um Posto Oftalmológico.
O Liceu Infante D. Henrique, que no Tap Seac funcionava desde 1924, saiu do edifício em 1958, e foi remodelado para os Serviços de Saúde de Macau. Voltou a estar em obras entre 1988 e 1991 quando foi demolido e construído um moderno edifício, para o mesmo fim. Já em 2005 foi de novo remodelado e passou a ser as instalações do Instituto Cultural.
A seu lado o Centro de Saúde e a Biblioteca Central e continuando na fileira de edifícios históricos, que eram moradias de habitantes ricos da cidade, o Arquivo Histórico e o Centro de Arte Moderna. Ao lado, no conjunto de quatro moradias hoje encontra-se, numa delas, instalado o Centro Ricci com a sua biblioteca e noutra, a Orquestra de Macau.
Foi com uma nova visão urbanística que o engenheiro Abreu Nunes, com o saneamento da várzea do Tap Seac, resolveu um problema para a saúde pública e preparou a cidade para se expandir para o campo que até então predominava na península de Macau.
Artigo da autoria de José Simões Morais, investigador, publicado no JTM de 10-6-2011
Nota: ao longo do blog existem centenas de imagens de locais e edifícios referenciados neste artigo pelo que sugiro uma pesquisa por palavras-chave. Por exemplo: caixa escolar, aterros, várzea, património. conselheiro Ferreira de Almeida, etc.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Grande Prémio: 1959 (video)

As filmagens e edição são de Hércules António e o vídeo tem duração de 20 minutos. Agradecimentos ao Projecto Memória Macaense do Rogério P. D. Luz (Brasil).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau: 22 de Junho


Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau. Apresentação da II parte - 1 Volume, de Ana Maria Amaro, 22 de Junho, às 18 horas, da Delegação Económica e Comercial de Macau, Av. 5 de Outubro, 115 Lisboa.
Com a presença da autora e dos jornalistas João Paulo Meneses e João Botas.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Pav. Octagonal / Santa Rosa / etc...

fotografia/postal da década de 1950
Ao fundo (na rua de Santa Clara), vê-se a igreja de Santa Rosa (à direita) foi inaugurada em 1936. No final da década de 1950 sofreu remodelações (novos pisos) e aquela cúpula que se vê â esquerda, desapareceu. O edifício em primeiro plano é conhecido por pavilhão octogonal/biblioteca chinesa/八角亭圖書館/ Pak Kok Ting.
Foi construído em 1927 (em betão) sob  projecto do arquitecto chinês Chon Kuan Pui. Começou por ser utilizado como salão de chá e restaurante (Café Francais). Num anúncio de 1937 aparece a referência de localização como "pavilhão de rádio"). O primeiro proprietário terá sido um cidadão macaense que depois o vendeu (década 1940) ao empresário Ho Yin, na época vice-presidente da Associação Comercial Chinesa. O edifício seria doado à referida associação quando esta decidiu, em 1947, criar uma biblioteca pública chinesa, inaugurada em Novembro de 1948 pelo governador Albano Rodrigues de Oliveira. Fica (ainda hoje existe) no cruzamento da Praia Grande/rua do Campo a caminho do Clube Militar.
Mais fotografias (de várias épocas) neste link:

segunda-feira, 13 de junho de 2011

IIM atribui Prémio Identidade 2011

Os órgãos sociais do Instituto Internacional de Macau deliberaram atribuir, para o ano de 2011, o Prémio Identidade, ex-aequo, a “Macanese Families” e ao Projecto Memória Macaense”, ambas páginas electrónicas, criadas e mantidas respectivamente pelo Emérito Prof. Henrique d’Assumpção e Rogério da Luz.
Muitos dos participantes do último Encontro das Comunidades Macaenses tiveram oportunidade de apreciar a apresentação da página digital “Macanese Families”, feita pelo Prof. Henrique António d’Assumpção, mais conhecido por “Quito”. Encontra-se nela incluída a genealogia das famílias macaenses e bem assim informações variadas, de natureza cultural e histórica. O sistema está concebido de modo a permitir a actualização do registo das famílias macaenses, desde que a informação chegue ao administrador do projecto. Pelo alcance da iniciativa que visa perpetuar o registo e a memória de pessoas e dos legados históricos e culturais de Macau, o IIM considerou ser oportuno prestar homenagem a este projecto, em boa hora criado pelo Emérito Prof. Henrique d’Assumpção.
O outro premiado, Projecto Memória Macaenses (PMM), foi criado em 2003, e mantido desde então por Rogério dos Passos Dias da Luz, que jovem emigrara para o Brasil. Foi dos primeiros projectos, dessa natureza, a ser colocado no espaço cibernético, especialmente dedicado a Macau. Como o título sugere, trata-se de “...uma iniciativa pessoal e independente, tendo como objetivo, como o próprio nome diz, a memória macaense. Falar e mostrar imagens daquele Macau, com o qual o seu autor se identifica, pelas suas origens, formação, a vivência familiar, os tempos de escola e das amizades, e pela saudade que bate no peito e faz chorar por aqueles belos tempos que muita história, cada macaense, tem a contar. Neste ano, o IIM decidiu dar igual reconhecimento ao Projecto Memoria Macaense pela obra desenvolvida, ao longo de anos, a qual, de forma desinteressada e dedicada, serviu de instrumento para manter ligados os macaenses, disseminados pelos quatro cantos do mundo.
Em anos anteriores e desde 2003, o IIM tinha atribuído este Prémio a várias instituições designadamente a Diocese de Macau, Santa Casa da Misericórdia, Universidade de Macau, etc., pela sua contribuição para a preservação da identidade macaense.

domingo, 12 de junho de 2011

Largo do Senado: postal década 1950

A Coca-cola e a Pespi tinham acabado de 'chegar' a Macau. Os painéis publicitários são bem visíveis tendo ao fundo o hotel Central. À esquerda, junto a tabacaria Filipina e ao cinema Apollo um anúncio à marca de cigarros Chesterfield. Logo a seguir, a mercearia Soi Cheong. No meio da praça a estátua do herói macaense, o coronel Nicolau Mesquita. Dia soalheiro, quase sem carros, sem semáforos ou passadeiras. Um triciclo passa frente ao edifício dos Correios e Telégrafos. Os outros estão estacionados logo a seguir. Um retrato de Macau na década de 1950...

sábado, 11 de junho de 2011

Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau

“Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau“, II parte - I volume, de Ana Maria Amaro.
A apresentação do livro será feita pela autora e ainda por por João Paulo Meneses e João Botas na Delegação Económica e Comercial de Macau (av. 5 de Outubro, Lisboa) no dia 22 de Junho, pelas 18h.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

"Dia di Portugal"

Non têm cristám qui non sabe
Quim sã Luís di Camões.
Non têm posia más suávi
Qui posia di Camões.

Camões sã unga letrado
Bêm capaz di Portugal;
Naçám já ficá falado,
Di sala atê quintal.

Camões, "Príncipe di Péta",
Diverá sã grándi hóme.
Su ôlo já cai na Cêta,
Ele sã já passá fome.

Quelóra vai Portugal,
Camões já ficá cholido;
Buli co corte rial,
Na grádi ficá capido.

"Lusíadas" sã su glória,
Sã honra di nôs cristám.
Ali têm tánto estória,
Di nôs-sua grándi naçám!

Índia Camões já vai
Macau, cavá virá vêm.
Na grádi torná já cai,
Tánto consumiçám têm.

Na Goa buli co guéra,
Na Macau posia fazê.
Cavá torná vai su tera,
Más trabalo já sofrê.

Poema da autoria de José dos Santos Ferreira (Adé), de 1967 e publicado no livro do P. Manuel Teixeira "A Gruta de Camões em Macau" editado em 1999 pela Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Romagem à gruta de Camões (desde 1923)

A tradicional romagem à Gruta de Camões é uma interessante característica da vida cultural, educacional e social de Macau, instituída pelo governador Rodrigo José Rodrigues em 1923.
O Padre Manuel Teixeira refere que a “iniciativa partiu dum patriota exaltado e fervoroso cultor de Camões, o Governador Rodrigo José Rodrigues, que logo no primeiro ano da sua chegada a Macau convidou as escolas e as forças armadas para irem à gruta homenagear o épico. E, caso único na história destas romarias, foi ele que enalteceu o vulto imortal do poeta e a sua emoção foi tão profunda que desatou a chorar, tendo de interromper o discurso”.
Rodrigo Rodrigues (1879-1963), foi uma invulgar figura de político, (médico militar do quadro colonial, com comissões em Cabo Verde (1903) e Índia (1904-1910), reitor do Liceu de Goa, ministro do interior, governador civil, deputado, autor de vasta bibliografia, bastante ostracizado pelo Estado Novo) que merece ser resgatada do esquecimento.
Desde então a romagem à Gruta de Camões ficou institucionalizada ao mesmo tempo que se legitimou a presença histórica de Luís de Camões em Macau. Camões esteve em Macau, sem dúvida, e o recente livro de Eduardo Ribeiro vem reforçar essa tese, aduzindo uma argumentação tão inteligente quanto historicamente segura. Gostaria de evocar a romagem à Gruta de Camões realizada no ano de 1937.
O governador Artur Tamagnini Barbosa cometeu a António Maria da Silva, Chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico, a tarefa de proferir uma conferência sobre a vida e a obra de Luís de Camões, no dia 10 de Junho de 1937, no cenário bucólico da Gruta, perante a mocidade escolar, o professorado, os convidados e as autoridades da Província.
António Maria da Silva evoca a constelação de valores do seu tempo: “Graças a Deus, Portugal vai regressando ao seu antigo apogeu, desde que passou novamente a tomar como lema da sua nacionalidade a Fé e o Patriotismo, a Religião e a Pátria. Devemos incontestavelmente este nosso regresso à Fé e ao Amor de Deus ao facto de sermos guiados por esse homem extraordinário que se chama António de Oliveira Salazar, português de raça e católico de alma e coração. Camões nunca separou a sua Pátria do seu Deus; Camões nunca imaginou que Portugal pudesse ser grande, sem o auxílio do Alto”. António Maria da Silva será, bastantes anos volvidos, deputado na V legislatura da Assembleia Nacional, em Lisboa. Essa interessante conferência é publicada nas línguas portuguesa e chinesa, em 1937, com o insólito título de “Sumário dos Luziadas”. A versão chinesa foi revista por Chu-Pui-Chi, letrado da Repartição Técnica do Expediente Sínico.
Excerto de artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 9-6-2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

IIM: Prémio Jovem Investigador 2011

Com o objectivo de incentivar entre os jovens investigadores, estudantes e professores, o gosto pela investigação, especialmente em questões de interesse para a RAEM, o Instituto Internacional de Macau cria o "Prémio Jovem Investigador 2011" destinado a galardoar o melhor trabalho de investigação científica. Este ano, poderão candidatar-se investigadores ou grupos de investigação nas seguintes áreas: Economia e Gestão; e História de Macau. Um prémio monetário no valor de 25.000 $Mop será atribuído ao trabalho vencedor em cada uma das áreas. São admitidos a concurso todos os alunos, professores ou investigadores das instituições de ensino superior registadas em Macau, e quaisquer licenciados, ou graduados, com idade até 30 anos, completados até 31 de Dezembro de 2011. O regulamento poderá ser obtido na sede do IIM (Macau) ou no site www.iimacau.org.mo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Adivinhas populares maquistas

Os membros da comunidade macaense ligados a famílias mais antigas hão-de lembrar-se das adivinhas populares que entravam, naturalmente, nas conversas “maquistas” dos nossos avós. Ainda muito miúdo, deleitava-me a ouvir a avó Paquita “papiar” com as amigas no casarão do Tap-Siac ou em casa da “tia” Bernardete, na Rua do Campo. Nesses círculos entravam poucos homens, entre os quais o Olímpio, filho da Bernardete, todos animados conversadores. As horas de ócio eram abundantes, estimulando aquelas amenas cavaqueiras, de que faziam parte adivinhas cheias de “chiste”, produzidas num contexto predominantemente lúdico. Danilo Barreiros, no seu estudo sobre o dialecto português de Macau, deu-se ao trabalho de reunir algumas dezenas dessas adivinhas, publicando-as, em 1943 e 1944, na revista Renascimento (n.º 6 do volume III e n.º 1 do volume IV), de que foi empenhado redactor desde o seu lançamento. Graciete Batalha e Ana Maria Amaro também contribuíram para a sua divulgação. Numa altura em que se fazem louváveis esforços para a valorização da “lingu maquista”, pareceu-me oportuno trazer para este espaço uma selecção dessas adivinhas, cuja grafia então usada também se respeita:

1 Filo dale mãi
Mãi berá.
Sã cuza? Sã: sino

2 Mãi dale filo
Filo dale mãi.
Sã cuza? Sã: pilão

3 Eu cô vôs,
Vôs cô eu,
Bulí, bulí
Chuchú na mêo.
Sã cuza? Sã: tranca

4 B – A – ba, primero letra
L – I – li, divinhaçan;
Quim querê sabê minha nome
Botá ôlo na chan.
Sã cuza? Sã: balichan (balichão)

5 Ung-a lorcha
Tem cinco atai tá rémá
Sã cuza? Sã: pê cô sapatu
(pé com sapato)

6 Eu nacê
Minha mãi morê.
Se non quêro crê
Preguntá cô minha tia.
Sã cuza? Sã: figuéra (bananeira)

7 Cêo riva,
Cêo basso,
agu na mêo.
Sã cuza? Sã: coco

8 Compadre vai,
Compadre vem.
Sã cuza? Sã: onda

9 Ung-a ancusa
Cabeludo,
Abri perna
Metê tudo.
Sã cuza? Sã: meia

10 Ung-a vêlo muito vêlo
Tem tanto barba;
Tudo dia cêdo cêdo sai fóra
Passiá tudo casa casa,
E vai escondê na canto canto
Sã cuza? Sã: vassôra (vassoura)

11 Nicotico
Tem pê
Tem bico.
Filo de Nicotico
Non tem pê,
Non tem bico.
Sã cuza? Sã: galinha e ôvo
(galinha e ovo)

12 Ung-a nhame
Tem sete buraco.
Sã cuza? Sã: cara

13 Eu nacê pra ficá princeza,
Cô corôa de imperatriz;
Ladrão rubá tambén pra mi,
Já rubá tambén minha rubin.
Sã cuza? Sã: romã

14 Metê seco,
Tirá mulado,
Branco, grosso
E pendurado.
Sã cuza? Sã: macaran (macarrão)

15 Quim fazê nada lográ
Quim lográ non pôde olá,
Quim olá lôgo churá.
Sã cuza? Sã: sepultura

16 Ung-a ezercito
de 56 soldado
e 6 capitão,
cô ung-a bandéra de cristão.
Sã cuza? Sã: rosário

Mais adivinhas poderão ser divulgadas neste espaço. Peço a quem as tenha, herdadas dos avós, que mas faculte, dado o interesse na compilação de mais textos como estes do nosso patuá.
Artigo da autoria de Jorge A. H. Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, publicado no JTM de 07-6-2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mapa postos aduaneiros e portos: 1901

Planta da colónia portugues ade Macau e dos seus portos internos e externos com indicação dos postos aduaneiros chineses modernamente estabelecidos desenhada por M. Azevedo Coutinho, capitão do exército, 1870, modificada segundo as condições actuaes da colónia, 1901.
Algumas curiosidades:
- depois da Porta do Cerco, na zona a cor de rosa (onde estão assinalados diversos postos fiscais chineses), está a seguinte legenda: "limite da nossa ocupação proposta pelo actual governador" (ofício nº135 de Setembro de 1905);
- torneado a amarelo representa-se o território chinês;
- fortalezas/fortes portugueses assinalados a vermelho;
- ilha de Ko-Ho ou de Co-Lo-An;
- ilha de Tai-Vong-Cam ou da Montanha;
- ilha da Lapa ou dos Padres e junto as ilhotas do Bugio Grande e Bugio Pequeno;
- as duas ilhas da Taipa (Grande e Pequena) já assumem um só nome;
- assinala-se a ligação por terra (istmo) à ilha Verde;

sexta-feira, 3 de junho de 2011

"O Tenebroso"

Equipa de atletismo, 1935 (da esquerda, fila de trás) Frederico Pedruco, Joaquim Collaço, Alberto Cortiço, João Coelho, Delfim Carvalho (King Kong), António Collaço; (filas da frente) Paulo Rocha, Nino Santos, César Amarante, Luís Collaço, Fernando Morais, José Cortiço, Manuel Rego e Vítor Souza.
Cecília Jorge publicou um artigo sobre este Grupo Desportivo na Revista Macau em Novembro de 1994 (II Série nº 31) que a seguir se reproduz e de onde tiveram também origem as imagens.
“O Tenebroso” era formado por jovens simpáticos, uma mão-cheia de atletas que deixaram boas recordações aos que ainda se lembram dos seus brilharetes desportivos durante quase uma década. Falar nas memórias do Piolho (Luís Gonzaga Collaço) e não referir “o Tenebroso” seria imperdoável. Nele alinharam o Collaço e mais dois irmãos, Joaquim e António, este último considerado um dos mais completos atletas do seu tempo: quer no atletismo, quer no futebol.
O Grupo Desportivo O Tenebroso foi fundado em princípios dos anos 30, por Manuel de Jesus (o Manecas), na altura subchefe da PSP. Os rapazes treinavam-se na zona da “avenida” (Vasco da Gama), passando posteriormente para o chamado “bairro da Cadeia”.
Muitos deles (como o famoso Cheiney Airosa) eram ex-membros do Sporting Clube de Macau, e havia também grande rivalidade entre estes e a Associação Desportiva Macaense (ADM), dirigida pelo Vaz, então dono da Leitaria Macaense. Aliás, o próprio fundador do “Tenebroso” a dada altura largou o grupo – abandonando a camisola dos “T” – e foi a correr fundar outro não menos conhecido: o “Argonauta”, cuja sede se manteve até há poucos anos na rua do Campo.
Portanto, grupos desportivos havia uns quantos, numa alegre desorganização, e com falta de tudo, horários, disponibilidade, equipamento. Longe estavam ainda os tempos das associações de estrutura rígida, com regulamentos, calendários, subsídios oficiais e campeonatos. Para além do “T”, Luís Collaço lembra-se que havia na altura, o grupo desportivo da Polícia (a reunir portugueses e chineses), o da Artilharia de Campanha e o da Infantaria, no quartel de São Francisco. Dos chineses, os mais conhecidos eram os de Kong Caio do bairro de São Lázaro) e o de San Kiu, do bairro do mesmo nome.
Jogava-se muito, e jogava-se bem e com gosto, recorda, insistindo no civismo que marcou sempre os desafios de futebol e a grande mágoa que lhe causa agora contrastar essa época com a actualidade – sobretudo porque nunca deixou de ler os jornais, ver televisão e ouvir rádio – e verifica que, além de se engalfinharem, os jogadores se voltam contra o árbitro, chegando a vias de facto.
Equipa de futebol com os troféus da época de 1935-36
Sem taças ou medalhas, na altura jogava-se futebol apenas por amor à camisola e pelo gosto de triunfar. Equipamento e bolas também não havia, e muitas vezes foi sina do “Tenebroso” jogar com um simples calção branco e a camisola de alças, depois já ornamentada com o “T” da praxe, quando começaram a ter nome… Até que um dia, alguém de posição e posses, pela grande simpatia que lhe despertava aquele grupo de bons atletas “rafeiros”, se lembrou de lhes custear um equipamento completo: calção, camisola, peúgas e, melhor que tudo, sapatilhas e bolas de futebol. Vestiu e calçou quer a primeira, quer a segunda divisão do “Tenebroso”. Adolfo Jorge, o advogado, fê-lo por interposta pessoa, mas fê-lo pela representatividade de Macau, porque oito ou nove dos jovens do grupo já integravam a selecção nos jogos com Hong Kong.
“Combinavam-se” jogos e os campeonatos anuais, não só de futebol, mas também de atletismo, e o “Tenebroso” foi vitorioso praticamente anos a fio, tendo perdido apenas duas ou três vezes o título de campeão até se desmembrar, depois da Guerra, com a saída de vários jogadores. Os árbitros eram convidados na véspera do encontro ou escolhidos na altura, e fosse qual fosse a arbitragem, os jogadores respeitavam-na. Mas havia dois mais respeitados: o Chico Constando e um tal cabo Santos, do quartel da Infantaria.
Os encontros dos macaenses com a tropa eram renhidos e bem disputados no recinto, mas independentemente do resultado, a rapaziada acabava com palmadas nas costas e numa valente jantarada na messe, sendo convidados para comer o “rancho” com os militares.
Em atletismo, o “Tenebroso” marcou também pontos nas provas disputadas tradicionalmente na Páscoa. Das medalhas é que ficaram por vezes apenas recordações, tal como em 1935: tendo ganho as estafetas nos 800, 400, 200 e 100 metros, Fernando Morais, Vítor Souza, Manuel Rego e Luís Collaço ainda hoje estão por saber o que foi feito das medalhas respectivas…
Com o desmantelamento do “Tenebroso” depois da Guerra, Collaço ainda participou num grupo desportivo nos seus tempos de funcionário das Obras Públicas. Sabendo-se que são necessárias duas equipas para disputar um jogo de futebol, e tendo formado, no caso, duas equipas igualmente representativas daquela repartição do Estado, avançou-se com uma solução brilhante: uma era a equipadas “Obras Públicas” e outra, a das “Públicas Obras”.
Mas das especificidades do desporto de então, “falam” hoje melhor as fotos…

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Calçada do Botelho

Nas placas das ruas observa-se um fenómeno (quase de ficção científica) que evoca mundos paralelos. Em baixo (nas referidas placas de azulejo azul e branco), e em português, lê-se a consagração de um herói, de um bispo, de um escritor, de um acontecimento, ou, enfim...! de um topónimo. Em cima, em caracteres chineses, uma significação totalmente diversa.
É pois que, por exemplo, a tradição portuguesa decidiu preservar o apelido Botelho, numa calçada que parte do Porto Interior e desemboca no largo da igreja de Santo António. Ao certo não se sabe quem terá sido o tal Botelho que deu nome à calçada (Botelhos contam-se por milhares em terras de Vila Real e Trás-os-Montes e igualmente por Macau). Provavelmente terá sido um rico negociante do século XVIII. Para os chineses, porém, tal figura nunca existiu. Os caracteres sínicos que designam o nome da estreita viela, informam tão-somente que se trata da “Calçada da Barreira de Areia”. Tal designação tem a ver com as obras de restauração de um cais efectuadas na segunda metade do século XVIII, a instâncias da comunidade chinesa a fim de reparar um local de acostagem danificado pelos tufões, situado, mais ou, menos, no sitio onde hoje se ergue a ponte Nº 22 , para a qual o governo da altura não possuía orçamento suficiente para restaurar, tendo por isso que confiar o trabalho ao empenhamento dos privados.
Excerto de artigo de João Guedes publicado no JTM de 17-5-2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sabia que...

... a primeira experiência de rádio em Macau data de 26 de Agosto de 1933 com a estação “CQN-Macau”. Foi a primeira do então Império Colonial e até mesmo da metrópole, já que a Emissora Nacional só começou a funcionar em Fevereiro de 1934. À “CQN” sucedeu em Maio de 1938 a “CRY-Macau” e meses depois, em Setembro, a “Rádio Polícia XX9”, pertença da corporação e com um pequeno emissor que só era utilizado fora do expediente daquela força policial. Funcionava na esquadra nº 2, junto ao canídromo.
Com o aparecimento do Rádio Clube de Macau  (RCM) em Maio de 1941, extinguiram-se a CRY e a Rádio Polícia. O RCM teve um papel muito importante durante a Guerra do Pacífico. Funcionava numa pequena sala junto à torre do relógio do edifício dos Correios. Tinha apoio do governo mas era privada. Ainda assim, ao serviço da ideologia do Estado Novo. Emitia programas em inglês, português, cantonense e japonês. No âmbito dos noticiários terá utilizado, para além das já mencionadas, o francês e o alemão. A razão é simples. Ir de encontro às diferentes comunidades estrangeiras de refugiados.
Pelos microfones do RCM passaram nomes como Francisco de Carvalho e Rêgo, Evaristo Fernandes Mascarenhas, José de Sousa Lourenço, padre Fernando Leal Maciel, tenente Alberto Ribeiro da Cunha, Bernardino de Senna Fernandes, tenente Virgílio Abrantes Pereira, Carlos Lun Chou, Cassiano da Fonseca, entre outros.Uma nota final para a estação XKRA sobre a qual pouco se sabe. Surgiu em 1939 na banda dos 200,7 metros em 1380 quilociclos por segundo. Emite programas às 14h e às 20 horas a partir da Ilha da Lapa, operada por uma locutora de Cantão. Com uma potência de 100 watts, “destinava-se a dinamizar o comércio de Macau, numa iniciativa da comunidade local dos negócios”. A fim de evitar as operações de pirataria, contrabando e outras ilegalidades, na época era proíbido instalar emissores privados em Macau. A ilha da Lapa (frente ao Porto Interior) pertencia a Portugal mas só em teoria.
Em Outubro de 1941 é adquirida uma nova antena que faz com que as emissões do RCM pudessem ser captadas em todo o Extremo Oriente, “chegando mesmo a alcançar o Alasca e a Nova Zelândia”.

terça-feira, 31 de maio de 2011

sábado, 28 de maio de 2011

28 de Maio de 1949

Comemorações do 28 de Maio... em 1949 na varanda do edifício do Leal Senado

Vista panorâmica: década de 1970

Vista de Macau a partir do Monte da Guia: início da década 1970. Destaca-se o hotel Matsuya, o edifício residencial dos CTT, o hotel Lisboa, o hospital s. Januário, etc...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Grémio/Clube Militar: 141 anos

Uma imagem do início do século XX quando a baía da Praia Grande ia junto ao então denominado Grémio Militar (só passou a chamar-se Clube em 1954). Está nesta altura a comemorar os 141 anos de existência. Foi fundado em 1870. No blog existem diversos post's relacionados com esta instituição. Como este, por exemplo:
http://macauantigo.blogspot.com/2009/03/clube-militar-desde-1870.html

Esta última imagem, também do início do século XX, é de Mam Took e faz parte do arquivo do IICT.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ilha verde: convento

Postal do início da década de 1930

Foto do jornal Hoje Macau
O convento da Ilha Verde, com cerca de 180 anos de história, é um edifício de estilo típico do sul da Europa. Está há vários anos abandonado e há planos para a sua recuperação. A colina da Ilha Verde está incluída na lista dos sítios classificados da RAEM.

Vista da ilha Verde a partir da Fortaleza da Monte cerca da década de 1930/40
Nesta época já ligada por istmo o que aconteceu nos primeiros anos do século XX
informações adicionais sobre a história da ilha Verde neste link
Também conhecida por Ilha dos Diabos a Ilha Verde (que no início do século XX passou a ser uma uma península) tem uma história pouco conhecida. À semelhança do convento que ali existe há quase 200 anos. Ou do quartel militar que ali existiu. Terá sido erguido pelos jesuítas. Depois da sua expulsão do território (nos tempos do Marquês de Pombal), foi ocupado por privados e pela Igreja Católica. O edifício, actualmente ao abandono, é considerado “monumento de interesse cultural”. Segue-se o artigo da autoria de Gonçalo Lobo Pinheiro publicado no HM de 23-02-2011.
(...) De acordo com o arquitecto Francisco Vizeu Pinheiro, em declarações ao jornal Hoje Macau o monumento em causa “pode ser o que resta da presença jesuíta na Ilha Verde”.
Se assim for, este convento terá muito mais que 180 anos. “A existência daquele património tem de ser mais antiga do que a data avançada pela DSSOPT”, disse o arquitecto.
A 18 de Setembro de 1883, o escritor Adolfo Loureiro descreveu, aparentemente, o monumento: “A Ilha Verde, pequeno cone que emerge das águas, e onde existe uma casa pertencente ao seminário ou à mitra, é um soberbo bloco de granito onde no entanto a árvore do pagode conseguiu introduzir as suas raízes pelas fendas da rocha, vestindo a penedia de um manto de verdura”, escreveu no seu documento “No Oriente, de Nápoles à China”.
Os anais da história descrevem que os jesuítas, comandados por Alessandro Valignano, ocuparam a Ilha dos Diabos – como era conhecida naquele tempo -, no início do século XVII, quando esta era habitada por “malfeitores e gente fugida” por forma a não ser, entre várias justificações, ocupada pela China. “Era lugar de pouca segurança quando o Colégio de São Paulo decidiu ali se instalar para local de veraneio e retiro. Há quem defenda que foi uma forma de garantir que os chineses não a ocupassem”, referiu Vizeu Pinheiro.
Depois de muito negociado, em 1624 os Jesuítas começaram a erguer capelas, conventos e casas no sentido de ter uma alternativa ao Colégio de São Paulo que estava sediado em Macau. O livro “A Pedra de Afinidade Conjugal” de Luís Gonzaga Gomes relata que “a Ilha Verde fora, primitivamente, escolhida pelos jesuítas para lhes servir bem como aos estudantes do seu Colégio de São Paulo, de estância de repouso e de recreio, durante a estação calmosa, tendo esta ilha sido, em diversas épocas, causa de vários distúrbios políticos, alguns de certa gravidade, e de complicadas questões judiciais, que são do conhecimento de todos aqueles que andam familiarizados com a acidentada história desta Colónia”.
Com a expulsão dos jesuítas em 1762, baseada no quadro político português encetado pelo Marquês de Pombal durante o século XVIII, a supressão da Companhia de Jesus fez com que todos os edifícios por si erguidos ficassem ao abandono, como foi o caso do Colégio de São Paulo ou da Igreja da Madre de Deus. Nesse momento todos os edifícios acabaram ocupados pelas autoridades portuguesas, muitos tendo sido utilizados como quartéis militares.
Depois disto, a história dilui-se um pouco. Alguns documentos referem que, na década de 50 do século passado, o convento agora degradado seria propriedade do Seminário de São José que o arrendava, em parte, ao Governo da Colónia. “Sabe-se que passou por mãos privadas até chegar a ser um seminário diocesano da Igreja Católica”, explicou o arquitecto Vizeu Pinheiro.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Barbearia Kac Lan

Aos poucos Macau vai perdendo elementos que a distinguem e que fazem da cidade um local único. É imperativo preservar as memórias, materiais e imateriais, individuais e colectivas... o património natural e edificado... É esse código genético irrepetível que torna Macau um caso ímpar. Não salvaguardá-lo ou deixá-lo contaminar-se é deitar tudo a perder. O cluster do turismo local, qual rio, da nascente até à foz, tem múltiplas valências e velocidades. Se por vezes a corrente forte, por outras, assoreia junto às margens. Esquecer a essência da história do território é diluí-lo enquanto produto e destino turístico. Esta minha pequena reflexão (que já tem mais de 20 anos) vem a propósito de uma notícia recente do JTM e que vos convido a ler num pequeno excerto.
«Arranjar e pintar as unhas já é uma modernice trazida pelo galopar da evolução. Quando a Barbearia Kac Lan abriu as portas na Avenida Almeida Ribeiro, em Outubro de 1960, “fazer a barba e cortar cabeças” eram as especialidades da casa. Lá fora os ventos sopravam mais devagar e raros eram os apitos de carros. “Até jogar à bola se podia”, recorda o senhor Cheah, um dos fundadores. Meio século corrido, as fechaduras da barbearia selaram-se ao final do dia cinzento de sábado. Acompanhámos as últimas horas de um lugar onde as palavras foram quase sempre (bem) substituídas por gestos.
As gargalhadas de Cheah, 71 anos, vão continuar na Rua Camilo Pessanha, mas a história fica para sempre atrás dos azulejos azuis, a meio caminho entre os Correios de Macau e o Banco Nacional Ultramarino. “Andei por aqui durante 50 anos e seis meses”, contabiliza, acentuando as sílabas finais de cada palavra. A deambular pelos mosaicos brancos, muito pequeninos, Cheah deixa escapar recordações. “Todas as mulheres dos governadores foram nossas clientes”, afiança.
As cadeiras antigas – cobiçadas “até pelo Instituto Cultural, que já nos pediu uma” – dão lugar a um rodopio de clientes. “Aquelas de couro castanho e ferro nos pormenores são só para os homens”, descreve. Um cliente português, com os seus trinta anos, ajeita-se no assento antigo, enquanto vai perdendo umas camadas de cabelo. “Gosto da disponibilidade, simpatia e experiência” que os barbeiros da casa revelam, justifica, despreocupado com o rumo do penteado. “Quando cheguei, há treze anos, toda a gente me falava nos ‘velhos’, não num tom pejorativo mas carinhoso, por isso decidi experimentar”. Ficou fiel aos modos e às tesouras da Barbearia Kac Lan, mesmo com alguns problemas de expressão pelo meio. “Começam a falar em chinês e não param”, conta, em maré de boa disposição.»
Excerto de artigo da autoria de Raquel Carvalho de 16-05-2011 do JTM; fotos JTM.