quarta-feira, 13 de julho de 2011

Associação dos Macaenses: desde 1996

«Associação fundada em Macau no ano de 1996, por Luiz Frederico da Silva Pedruco, José Joaquim Monteiro Júnior e Mário Alberto de Brito Lima Évora, uma organização sem fins lucrativos, norteada pelo ideal da solidariedade entre os Macaenses, da defesa da sua identidade cultural e da dignificação a presença da comunidade macaense, dentro e fora de Macau. E no âmbito da realização destes fins, também nos propomos à realização de acções de beneficência. Somos também uma associação sem fins políticos. Não obstante a importância da participação cívico-política da Comunidade na vida pública de Macau, afirmamo-nos como um espaço comum onde se podem congregar as mais diversas sensibilidades e tendências políticas, segundo o princípio do respeito pelas diversas formas de legítimo exercício da cidadania de cada um. O nosso lema é, por isso, “Uma Casa para Todos”.»

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

'Semana de Macau' no Seixal

De 18 a 23 de julho decorre no Seixal a "Semana de Macau", “um evento que evoca a cultura e a gastronomia macaense com um programa de actividades a ter lugar nas águas da baía e na frente ribeirinha do Seixal”, organizado pela Associação Naval Amorense em parceria com o Turismo de Macau.
O programa do evento inclui passeios e uma regata em barcos bragão, demonstrações de artes marciais, percussão e gastronomia típica de Macau, no restaurante Cacilheiro do Tejo.
Ao mesmo tempo, o evento servirá para mostrar as potencialidades da baía do Seixal para actividades ligadas à náutica de recreio, turismo ambiental e desportos não poluentes. A iniciativa é apoiada pelo município do Seixal e Junta de Freguesia de Amora.
Programa:
18 de Julho (2ª feira): 16 horas
Barcos Dragão na baía do Seixal
Tocá Rufar
Dança do Leão e Artes Marciais
Gastronomia Macaense (Cacilheiro do Tejo)
19 de Julho (3ª feira): 16 horas
Barcos Dragão na Baía do Seixal
Gastronomia Macaense (Cacilheiro do Tejo)
20 de Julho (4ª feira): 16 horas
Barcos Dragão na Baía do Seixal
Gastronomia Macaense (Cacilheiro do Tejo)
21 de Julho (5ª feira): 16 horas
Barcos Dragão na Baía do Seixal
Gastronomia Macaense (Cacilheiro do Tejo)
22 de Julho (6ª feira): 10 horas
Barcos Dragão na Baía do Seixal
Gastronomia Macaense (Cacilheiro do Tejo)
23 de Julho (sábado): 10 horas
Regata de Barcos Dragão
Taca Rufar
Dança do Leão e Artes Marciais
Gastronomia Macaense (Cacilheiro do Tejo)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Nós era mais a Ilha da Lapa

Enquanto em Xangai se assistia ao primeiro congresso do PCC, por Macau o que fazia notícia em português era a disputapelas águas territoriais com Cantão. Há 90 anos quis-se mostrar aos vizinhos que a lusa “proverbial paciência” tinha limites.

A hoje lendária fundação do Partido Comunista Chinês não foi contada há 90 anos na imprensa portuguesa publicada em Macau – ou, pelo menos, não consta das notícias que sobreviveram em arquivo. Ficaram os registos de um semanário que, no Verão de 1921, tentava provar os direitos de Portugal sobre a Ilha da Lapa: a guerra no Continente era apresentada como um incidente que se prestava “muito belamente” à falta de quem desse explicações sobre os “litigantes de má fé” chineses.
Em língua portuguesa publicava-se à época O Liberal, o “semanário republicano independente” que andava em campanha para as legislativas portuguesas. A informação era dada numa coluna com o título ‘Notícias’ – é entre o texto “São muitos espertos!” (ainda sobre as eleições, escreve-se “mas voz que defenda os  interesses de Macau... é o defendes”) e a necrologia que, em Julho de 1921, se faz a primeira referência à China. Em quatro parágrafos, entalados entre uma breve sobre os anúncios do Boletim Oficial e uma notícia sobre o lançamento de um novo jornal chinês, O Macau, que se fala do novo hino da república da China.
“Coube ao nosso amigo Revdo. Pe. Filipe Van Lau, missionario do Padroado português no Extremo-Oriente a honra de compor a musica (á europeia) do Hino Novo da República Chinesa, do qual recebemos e penhoradamente agradecemos a oferta de um exemplar [sic]”, destaca O Liberal. A canção, explica-se, estava já aprovada pela comissão nomeada pelo Governo da província vizinha e pelos conselheiros europeus. “Espera-se uma união geral em breve do Governo do Sul com o do Norte para este [hino] ser adoptado oficialmente por um decreto do Presidente de toda a República da China”, dizia-se.
Mas o padre Van Lau, “músico distinto”, também compôs um canto militar que, na mesma altura, estava “ressoando entre as tropas nessa guerra” que dividia o Continente. Já lá vamos: é preciso esperar um ano para O Liberal descrever o movimento das tropas do fundador da República Popular da China, Sun Yat-sen. Findas as eleições em Portugal, o semanário embrenhou-se na disputa pelas águas do Porto Interior e Ilha da Lapa: “E como o momento é dos mais propícios para esclarecer os factos em questão, na próxima semana tentaremos de provar os nossos direitos (...)”. A matéria acabou por tomar quatro edições, com honras de primeira página e o propósito assumido de noticiar a “confirmação plena dos direitos de Portugal aos territórios que ha seculos aqui adquiriu [sic]”. Águas sem brandos costumes 1 de Outubro de 1921. O Liberal insurge- se contra a “insolente provação” de um “torpedeiro chinês, ou coisa que o valha”, que na tarde de 23 de Setembro se retirou das “nossas águas”, em “obediência á ordem terminante e cominatoria que pelo Governo de Macau lhe foi dada”. A “certa hora e no mesmo dia” a Administração portuguesa demonstrou aos “vizinhos que nem sempre a nossa proverbial paciência se havia de abusar”. O jornal estava certo de que “poucos instantes faltavam para um sério rompimento” nas “garantias institucionais” quando “certas entidades inglesas, fundando-se no receio de que tal rompimento fosse o início de uma deflagração na China acorreram instar com o nosso Governo que suspendesse a resolução”. Mas por cá entendeu-se que “acima de tudo estava o prestígio do nome português” e chegou-se à conclusão de que “os conflitos (...) só se evitariam quando Portugal e a China acordassem na fixação definitiva dos limites dos respectivos territórios”.
O Liberal assumia que “toda a população macaense” sabia “muito bem que as peripécias que periodica e sistematicamente de desenrolavam nas nossas aguas são provenientes não só da brandura dos nossos costumes, como de uma certa falta de cuidados de aproveitar o momento propício para alcançarmos dos vários governos cantonenses e do de Pekim a confirmação plena” da alçada de Portugal sobre a Ilha da Lapa e das águas do Porto Interior. “E há-de ser nesta tragica e prolongada fita que os milhões destinados ás obras do porto desaparecerão, pois outro não é o fim das provocações que nos fazem os chineses de Kuangtung, que só nos devem amizade e simpatia (...)”, profetiza o semanário. As “atenções e auxílio” que os portugueses dedicaram à China, “tanto nos ataques aos piratas do mar que lhe assolavam as regiões do litoral, como na derrota dos corsários holandeses que em Macau tentaram estabelecer-se para com mais facilidade se assenhorarem de Kuantung”, era um dos aspectos destacados para dar provas da boa vontade lusa. Para tentar provar os direitos sobre a Ilha da Lapa, O Liberal recorda o tratado de 1887 assinado entre a China e Portugal para frisar que, desde o princípio do século XVII, a Cidade do Santo Nome de Deus tinha as ilhas dos Ladrões, Taipa, Coloane, Montanha e Sam Chao. “Quando nos apossámos de todas as ilhas, com a aquiescencia das autoridades chinesas, encontravam-se as mesmas deshabitadas servindo apenas algumas de refúgio aos piratas que no territorio chinês de Kuantung exerciam as suas proezas [sic]”, lê-se. Mais: já em 1711, o Leal Senado protestava “contra as chicanas do mandarim de Hian-chan que não desistia de nos disputar as propriedades que possuiamos do outro lado do rio”.
Os portugueses, defende-se no artigo, nunca abandonaram “por completo a Ilha da Lapa” e o que importava saber era que “os chineses nada mais teem sido que uns litigantes de má fé”. O Liberal deu ainda à estampa um artigo publicado no Diário de Notícias, em que se falava da “tentativa de violação dos tratados comerciais” com o pomposo título “Macau cobiçado pela China”.
“Macau que está sob o nosso domínio há mais de quinhentos anos, ainda não tem esgotos, nem água canada (...). A que ali se consome vem-nos da Lapa, uma das ilhas em litígio diz-se, mas de facto na posse da China!... E foi nessa ilha (...) que forças chinesas dispararam sobre a nossa gente (...)”, lamenta-se no texto.
“A acção chinesa, muito ao contrário do que parecia à primeira vista, obedece certamente a um plano. Disputam-nos palmo a palmo...os nossos direitos. E, sem nos vencerem pela força, desarmam-nos com a sua velha e reconhecida habilidade diplomática”, critica o articulista. A guerra na China seria, de resto, uma situação que se prestava “muito belamente para que não seja fácil encontrar quem dê explicações que satisfaçam”. “Se Pekim tivesse força para impor o castigo dos indisciplinados, também a teria para dominar a revolução do Sul, onde Sun Iat Seng se faz proclamar presidente da República Chinesa”, vaticina. O caso do domínio das águas era dado como para “sempre insoluvel”.
Avançamos um ano. 23 de Março de 1922. Batalha de Freitas, ministro português, veio a Cantão para negociar uma solução amigável entre as duas partes. O Liberal não gostou: “Há uns meses que se apregôa que as negociações vão em bom caminho e se anuncia que a solução será honrosa em todos os sentidos para Portugal, e até hoje... nada!”, quando, “no dizer da imprensa estrangeira”, se estava perante “um quebracabeças sino-português”. O semanário defendia a demissão do ministro por “auxiliar aquela negociata dos CINCO MILHÕES em favor do Governo rebelde de Cantão, que é o mesmo que auxiliar este Governo rebelde a derrubar o Governo legalmente constituído junto do qual ele, Batalha de Freitas, representa o nosso paiz!!!”. Para o jornal, na altura, era “impossível” “antever o verdadeiro resultado” das lutas pelo poder. A partir de Abril, o semanário começa a reservar nas suas edições duas colunas, em média, para dar conta das movimentações das tropas . “Telegramas de Pekim referem-se a uma conferencia realizada em Paotingfu (...) a fim de se tentar um acôrdo entre Wu Pei-fu e Chang Tso-lin para a reunificação da China. Mas, qualquer que fosse o acôrdo efectuado, ter-se-ia ainda um outro problema a resolver: a questão da Presidencia, que Sun Yat Seng cobiça e a que Chang Tso-lin igualmente aspira”, lê-se em primeira página.
A 15 de Abril a situação política era dada como “agitada” já que “grande excitação reinou em Cantão durante alguns dias por parecer inevitável um combate”. Semanas mais tarde, escrevia-se que Chang “incorreu na cólera celeste por haver criado, com os seus ambiciosos movimentos, o presente estado de incerteza e inquietação”, que provocava “o protesto do corpo diplomático e a execração do público”.
A guerra civil foi decretada a 21 de Abril de 1922, por telegrama da Reuteurs. Estava a umas 12 milhas de Pequim, “fazendose ouvir o troar dos canhões numa grande área”. Sun Yat-sen havia transferido o quartel e estado em Cantão para “fiscalizar as finanças e a organização militar”, na província onde soldados, “bem como muitos leaders, se vão convertendo, pela força das circunstâncias, em ladrões e bandidos”. Assim se escrevia em português a história da China, sem referências a partidos, nem a programas para derrubar o poder da classe capitalista.
Artigo da autoria de Sónia Nunes publicado no jornal Ponto Final de 1-7-2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vista parcial centro cidade: 1968

Cruzamento da San Ma Lou / Av. Inf. D. Henrique/ Av da Praia Grande
Hotel Riviera, BNU, Sé, Correios, Leal Senado, hotel Central, hotel Kuok Chai, ruínas S. Paulo, Fortaleza do Monte, etc...
Foto de AJMN Silva.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Koon Nam: 1953-1996

Koon Nam Tea House, located at 126 Rua de Cinco de Outubro, was established in 1953. Its predecessor was Kam Long Tea Salon, whose sole proprietor was Mr. Lio Bak. Sustaining large losses, Liao had the creditor’s rights of the teahouse transferred, and Mr. Lei In Sek took over the business. Koon Nam Tea House was operated by two groups from Hong Kong -‘Koon Hoi’and‘Tak Nam’- and these gave rise to the name Koon Nam Tea House.
The Koon Nam Tea House operated for more than two generations but closed down in 1996 due to the sharp increase in the price of local real estate. Saddened by the closure, Mr. Chan Weng Lam hired more than 30 of the original employees of the teahouse and opened a restaurant called Koon Nam Him, which is now located on Avenida do Almirante Lacerda.
Text by IACM
Koon Nam na Rua 5 de Outubro 
A Casa de Chá Koon Nam, localizada no n.º 126 da Rua Cinco de Outubro, foi fundada em 1953. A sua predecessora foi o Salão de Chá Kam Long, cujo proprietário exclusivo era o Sr. Liao Bak. Sofrendo um grande prejuízo, Liao transferiu os direitos sobre a casa de chá para o Sr. Lei In Sek, que tomou conta do negócio. A Casa de Chá Koon Nam foi gerida por dois grupos de Hong Kong - os grupos Koon Hoi e Tak Nam - que deram origem ao seu nome.
A Casa de Chá Koon Nam funcionou ao longo de mais de duas gerações mas encerrou em 1996 devido ao rápido aumento dos preços da propriedade em Macau. Entristecido pelo encerramento, o Sr. Chan Weng Lam contratou mais de 30 dos empregados originais da casa de chá e abriu o restaurante Koon Nam Him, localizado presentemente na Avenida do Almirante Lacerda.
A arquitectura da Casa de Chá Kun Lam é muito similar à adjacente Casa de Chá Dai Long Fong. O edifício tem quatro andares, sendo que os três inferiores eram usados para o negócio enquanto o superior servia de dormitório aos empregados, para além de oficina. O dono era meticuloso quanto aos utensílios usados na casa de chá: em cada mesa havia um fogão de barro vermelho colocado sobre um pequeno estrado em cima do qual estava um bule de latão, para além de um escarrador ao lado de cada assento. Antes da casa de chá abrir diariamente, o pessoal fervia água usando uma grande caldeira, colocando os recipientes para cozinhar o dim sum no seu interior. Logo que a água e o dim sum estavam prontos, eram servidos aos clientes.
Os chás mais comuns naquela época incluíam os chás “Oolong”, “Shoumei”e“Puer”, enquanto que o pãozinho de porco assado (Cha Siu Pao) era um dos pratos mais populares servidos. Esta casa de chá oferecia ainda outras especialidades muito apreciadas como ovos salgados, dumplings de galinha, dumplings de peixe e de carne. No início do seu funcionamento, servia ainda pastéis tradicionais. Os festivais e ocasiões importantes eram motivo para a preparação de ricas especialidades tradicionais diversas, como Bolos da Lua por ocasião do Festival do Bolo Lunar, pudins por ocasião do Ano Novo Chinês e Bolos do Dragão e da Fénix para celebrar casamentos chineses.
Texto do site do IACM

domingo, 3 de julho de 2011

Ruas nomes e duas revoluções do século XX em Macau

A proclamação da República Portuguesa em 1910 foi a convulsão política que depois das guerras liberais do século XIX mais efeitos produziu em Macau. Não admira por isso que a “Rua Nova D`El Rei” constituísse a primeira designação a abater pelas novas autoridades republicanas que com pompa e circunstância retiraram a antiga placa rebaptizando a via com o nome de “5 de Outubro”, data da revolução que pôs fim à dinastia de Bragança.
A mudança de regime levou também a que alguns anos depois a antiga “Rua do Asilo”, rebaptizada de “Eduardo Marques” (último governador monárquico de Macau) tivesse sido mais uma vez alterada. Para os republicanos aquele era um nome a obliterar, embora acima das disputas ideológicas da Metrópole devesse estar em consideração a figura de um governador de uma colónia longínqua, que, justa ou injustamente, é que deveria escolher quem deveria figurar na toponímia local. Neste caso o consenso ocorreu e conduziu a uma conclusão. A edilidade decidiu dividir a via em partes iguais; uma manteve a designação monárquica de Eduardo Marques, a outra passou a designar-se rua da Emenda (!...). Bom acordo e boa saída para o impasse!...
Dos heróis e dirigentes republicanos não ficou muito. Apenas Carlos da Maia (1914-16) se perpetuou em placa toponímica, mas não em consequência directa de ter sido um dos heróis da Rotunda, mas sim pelo facto de dois anos depois ter assumido o governo de Macau, tendo sido considerado por muitos como um dos administradores de maior mérito da colónia portuguesa da China. Isto segundo a maior parte dos historiadores e académicos que se debruçaram sobre a história do século XX de Macau e que se costumam repetir uns aos outros através das gerações.
Que governou bem Macau é verdade, agora se foi o melhor, ou não é que não se sabe, e em minha opinião nunca se poderá saber. Enquanto o historiador Mons. Manuel Teixeira quase o endeusa, A.H. De Oliveira Marques, reconhece as suas qualidades e as dificuldades que enfrentou em plena 1ª Primeira Grande Guerra Mundial no Extremo Oriente, mas não deixa sobre ele juízos de valor.
Seja como for, a revolução republicana deixou marcas na toponímia. Mas mais marcas iria deixar o golpe de 28 de Maio de 1926. De facto, Macau, fosse qual fosse a posição que tomava perante o desfile triunfal do marechal Gomes da Costa de Braga até Lisboa, não podia deixar de homenagear esse militar cujos estudos primário e secundário tinham sido feitos em Macau. Sendo assim, as autoridades locais atribuíram o nome do antigo aluno do seminário de S. José à rua principal de um novo bairro que passou a ter a designação de “28 de Maio”. Todavia, reconhecendo a força dos novos destinos de Portugal, Macau ignorou o facto do prestigiado militar ter sido devorado pela própria revolução que desencadeara, decidindo conceder-lhe mais, ou seja atribuir à enorme avenida que bordejava os novos aterros do Porto Exterior o seu nome. À outra parte foi concedido o topónimo do emergente Ministro das Finanças, Oliveira Salazar, que pouco tempo depois assumiria os destinos de Portugal governando em ditadura pelos quarenta anos seguintes. Curiosa atribuição já que a avenida Gomes da Costa bordejava uns arredores com mais bairros de lata do que casas de alvenaria, enquanto Salazar dava nome à via que começava no antigo Palácio das Repartições junto à estátua de Jorge Álvares e terminava no rio como se fosse uma via que tinha sido aberta para conquistar novos horizontes. A metáfora não era despicienda. O “Estado Novo” tinha bem em conta a simbologia e Salazar era o chefe a quem tudo se devia segundo os seus próceres daqueles tempos.
Entre a revolução republicana de 1910 e a proclamação do Estado Novo em 1926 muita tinta correu em Portugal. Desde a “Monarquia do Norte” do capitão Paiva Couceiro, ao “Movimento das Espadas”, passando pelas revoltas do Arsenal e um sem número de sublevações triunfantes, ou frustradas. Nenhuma delas registou efeitos particulares em Macau, para além das mudanças de governadores (facto que, aliás, o Território desde sempre esteve habituado). Nesse período porém, apenas um nome teve direito a ser perpetuado na toponímia macaense e foi o de Sidónio Pais. Personalidade singular na história da “Primeira República”. Sidónio Pais, cujo consulado foi efémero, nada teve a ver com Macau. No entanto, o Território decidiu (sabe-se lá porquê? E seria interessante averiguar) mudar o nome da Estrada da Flora (pleno do lirismo que lhe era concedido pelas árvores frondosas que a ladeavam) pelo do ditador português transformando a via em avenida, através dos bons ofícios do governador Tamagnini Barbosa, um militante republicano que mais do que os monárquicos tinha como inimigo convicto o Partido Democrático de Afonso Costa.
A última convulsão nacional que influiria na toponímia macaense foi a revolta dos capitães de 25 de Abril de 1974. No entanto, ao contrário de todas as outras, as mudanças políticas registadas em Portugal não implicaram a imposição de nomes de novos heróis. Bem ao contrário, o 25 de Abril de 1974 limitou-se apenas a eliminar os da “Revolução de Maio” sem impor nenhum dos seus. Assim, ao contrário de Portugal, onde as ruas e avenidas das “Forças Armadas”, “25 de Abril”, “Liberdade” e quejandos substituíram os topónimos dedicados a Salazar, Américo Tomás e outros pelas cidades e vilas do país, em Macau tudo se processou de forma diferente.
Gomes da Costa e Salazar foram trocados pelo topónimo inócuo de “Amizade”. Eis pois que, 36 anos passados sobre o 25 de Abril apenas duas figuras da revolução democrática portuguesa de 1974 foram dignas de merecer topónimo, ou seja a colmatar lacunas restam apenas o nome de Mário Soares concedido, mais, ou menos à pressa (na eminência de uma visita oficial deste Chefe de Estado a Macau) a parte da antiga avenida Salazar por ocasião da sua primeira visita a Macau naquela qualidade e o de Ramalho Eanes, vencedor do 25 de Novembro de 1975, concedido ao largo de Coloane nas faldas do quartel que aquele antigo presidente comandou como capitão nos idos de 1960.
Antes da “história”, ou seja antes do primeiro cadastro oficial que data de 1869 os lugares de Macau não eram conhecidos por nomes famosos, nem designações reais, nem mesmo por acontecimentos (...)“
“Personalidade singular na história da “Primeira República”. Sidónio Pais, cujo consulado foi efémero, nada teve a ver com Macau. No entanto, o Território decidiu (sabe-se lá porquê? E seria interessante averiguar) mudar o nome da Estrada da Flora (pleno do lirismo que lhe era concedido pelas árvores frondosas que a ladeavam) pelo do ditador português transformando a via em avenida.”
A atentar no Boletim Oficial de segunda-feira, 2 de Agosto de 1869, as ruas, becos, travessas, pátios, escadas e calçadas possuíam topónimos inócuos que iam desde os animais (Faisão, gaivota, leitão, Pombo, Rato) aos vegetais (amêndoa, amora, magnólia, feijão, etc.), passando pelos substantivos sem conotações controversas (mainato, ópio – este poderia ser controverso, mas enfim!... -, rota, lampião, etc.). Quanto a figuras históricas o cadastro referido ressalvava apenas Coelho do Amaral, governador e autor de uma estrada entre Mong Há e as Portas do Cerco e Ferreira do Amaral, igualmente governador, assassinado em 1849 ao serviço de Portugal por um bando de sicários junto ao templo da Flor de Lótus, e ainda a rainha D. Maria II, mais o poeta Bocage e duas ou três figuras de relevo da história nacional.
Desde esse cadastro antigo, porém, a fisionomia da cidade alterou-se. Os conceitos modernos impuseram-se e o traçado urbano, cada vez mais emaranhado e regurgitante passou a exigir maior atenção das autoridades de modo a poderem entender-se com o desenvolvimento massivo da urbe. Em suma, Macau deixava de ser uma aldeola para se tornar numa verdadeira cidade que passava a exigir direcções postais e números de polícia, capazes de permitir aos carteiros entregar cartas e encomendas e aos oficiais de diligências da Justiça recensear os cidadãos. É que em 1869 Macau possuía já 529 vias públicas.
A partir da segunda metade do século XIX, Macau começou a sofrer importantes alterações da sua fisionomia em todas as frentes. Aterros sucessivos conquistavam o Porto interior fazendo com que o cais avançasse desde a rua do Amparo até aos actuais limites mais de quinhentos metros, a Ocidente. A Norte, depois das intervenções sucessivas feitas a partir da década de 70 do século XIX construindo a ligação entre a cidade e as portas do Cerco, outras obras foram sendo feitas, culminando com a construção do dique que ligou Macau à ilha Verde (implementa pelo Governador Conselheiro Borja) e posteriormente, com a intervenção de fundo de Horta e Costa sobre os pântanos de Mong Há em 1900.
Neste contexto, a toponímia de Macau fica desadequada das realidades emergentes, levando a que o governador Sérgio de Sousa nomeasse uma comissão destinada a “determinar e fixar de um modo definitivo os nomes de todas as vias públicas da cidade”. A decisão do almirante Sérgio é compreensível já que para além da construção de novas ruas, o antigo traçado tinha sofrido sucessivas alterações toponímicas, enquanto as novas vias continuavam por nomear, resultando deste facto os mais diversos inconvenientes, como a própria comissão reconhecia.
Artigo da autoria de João Guedes, jornalista/investigador, publicado no JTM de 14-6-2011

sábado, 2 de julho de 2011

"Solmar" celebra 50 anos

O restaurante Solmar, que hoje (1 Julho) assinala 50 anos, é bem conhecido das "gentes" de Macau, mantém-se como ponto de encontro no centro da cidade e guarda no silêncio das paredes muitas decisões políticas que poderão ter marcado a cidade. Entre os seus fundadores, contam-se nomes como Carlos Assunção, o primeiro presidente da Assembleia Legislativa de Macau, Pedro Lobo, ilustre representante da comunidade macaense, ou Roque Choi, um elo de ligação entre as comunidades chinesa e portuguesa.
Mas é ao longo dos anos, com fundadores e seus descendentes, com a comunidade e, como explicam alguns "filhos da terra", muito escárnio e maldizer, que o Solmar ganhou fama e conquistou um espaço na vida social da cidade. 
"Um grupo de três macaenses está sentado a uma mesa em amena cavaqueira. Quando saírem vão todos 'má linguá' (falar mal uns dos outros)", diz um cliente habitual, com algum exagero próprio do que eram as pequenas cidades onde todos se conheciam. Retirando o exagero que possa existir quando se associa o Solmar à má língua local, não deixa de ser verdade que o restaurante ficou conhecido por ser um dos "pontos estratégicos" na luta do poder em Macau quando a comunidade macaense afrontou o então Governador Almeida e Costa. E na gastronomia local o restaurante também já teve a honra, em setembro de 2010, de ser entronizado como "confrade extraordinário" da Confraria da Gastronomia Macaense a par dos restaurantes chineses Fat Siu Lau e do Long Kei, sendo que este último não resistiu à pressão dos preços do imobiliário.
Meio século depois de aberta a porta pela primeira vez, com 33 empregados e alguns, como o cozinheiro chefe Ieong Choi Yun e o chefe de mesa Sam Veng Yun, há, respetivamente, 43 e 42 na casa, Edith Silva, filha de um dos sócios fundadores, recorda que o espaço é conhecido como a "Gazeta de Macau".
Edith Silva sublinhou também que o restaurante "faz parte da comunidade" e que, coisa rara nos dias de hoje com a especulação imobiliária, "há 50 anos está implantado no mesmo edifício". Depois de tantos anos de porta aberta, Edith Silva diz haver vontade de continuar a servir a comunidade e não partilha a opinião daqueles que acham que o espaço muitas vezes serviu para maldizer. "Quando o meu pai e os outros sócios fundaram o Solmar foi para que os macaenses tivessem um ponto de encontro. Não sei se era para dizer mal
dos outros, mas para espalharem a notícia. E hoje continua a ser um ponto de encontro e já não existem muitos onde fazê-lo", disse. Edith Silva reconheceu, no entanto, que muitas das políticas de Macau foram desenhadas ou pensadas à mesa do Solmar e recordou que, quando ela própria foi deputada, "muitas das coisas que se sabiam era no Solmar". "No tempo de Carlos Assumpção (...) muitas coisas eram aqui negociadas à mesa do Solmar", concluiu, garantindo estar pronta para mais 50 anos, assim tenha saúde para isso.
Artigo da autoria de José Costa Santos, Agência Lusa, Macau a 1 de Julho de 2011
NA: Local de tertúlia, mexericos e conspirações domésticas surgiu em 1961 e depressa se tornou numa ‘instituição’ de Macau como se pode verificar no artigo do José Costa Santos da Agência Lusa.
Nos primeiros anos era frequentado essencialmente por portugueses da então 'metrópole' e macaenses mais abastada. Na ementa destacava-se, entre outros, a famosa a “galinha africana”. Ainda hoje funciona na av da Praia Grande, quase em frente ao hotel Metrópole. Na imagem um anúncio publicado no jornal O Clarim na década de 1960.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Colóquio: "Camões pelo mundo"

No próximo dia 3 de Julho no auditório Casa-Memória de Camões, em Constância, decorre o colóquio "Camões pelo Mundo".
11h00 -«Sinais de Camões em Constância» - Ana Maria Dias
15h30 -«De Constância à Índia –Astronomia de Os Lusíadas» - Máximo Ferreira
16h30 -«Camões na China - Macau» - Eduardo Ribeiro
Eduardo Ribeiro, jurista há muito radicado em Macau, tem-se dedicado ao estudo da presença do autor de “Os Lusíadas” no território e do qual tenho dado conta aqui no blog.
O colóquio integra ainda as intervenções de Ana Maria Dias, presidente da Casa-Memória e de Máximo Ferreira, presidente da Câmara local.
NA: tema controverso, a presença ou não de Camões em Macau (terá chegado cerca de 1556), tem levado  Eduardo Ribeiro a investigar o tema. Já publicou “Camões em Macau – uma certeza histórica” mas as pesquisas prosseguem, segundo o próprio, pelo que em breve deverá haver novidades.Como é domingo, é uma boa sugestão de passeio e cultura pela "vila poema", perto de Chamusca, distrito de Santarém.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sun Yat Sen evocado em Lisboa

A vida e obra de Sun Yat Sen, fundador da República na China, foram evocados em Lisboa, num colóquio organizado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), realizado a 22 de Junho 2011, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de portugal, onde funciona a delegação do IIM.
Foram oradores os Professores António Vasconcelos Saldanha, catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, e Ming K. Chan, da Universidade de Stanford.
O tema do colóquio foi "Sun Yat Sen - a fundação da República na China e Macau" e as comunicações subordinaram-se aos títulos "Macau visto pelas duas Repúblicas" e " The Luso-Macau connections in Sun Yat Sen´s modern Chinese revolution", dando lugar a um animado debate, no final do qual foram sugeridas novas pistas para trabalhos de investigação sobre este tema, especialmente no que respeita ao papel de Macau na formação e afirmação política daquela grande figura da China moderna.
Texto e imagens do IIM

terça-feira, 28 de junho de 2011

Adivinha maquista: correcção

A propósito de http://macauantigo.blogspot.com/2011/06/adivinhas-populares-maquistas.html - 'Adivinhas Populares Maquistas" - recebi de um leitor a seguinte nota que a seguir transcrevo. Diz Carlos Lemos que a adivinha nº 3 não tem a solução correcta de acordo com o que a avó lhe contou. No primeiro post a versão apresentada era esta:
Eu cô vôs,
Vôs cô eu,
Bulí, bulí
Chuchú na mêo.
Sã cuza? Sã: tranca
Segundo Carlos, a resposta correcta é ' linha e a agulha' e não tranca. Assim, portanto:
Iou (agulha) co vos (linha);
vos (linha) co iou (agulha);
buli buli ( a linha que vai mexer)
e chuchu na meo (a linha e enfiada no buraquinho da agulha).
«Ora para quem não sabe, a adivinha pode ter outro significado (assim um pouco 'sujo') como o nosso Padre Mendes (do Seminário S. Jose de Macau) pensou. Quanto à historia das 'rotadas' (spanked by ratan stick) é o seguinte :
Escrevi num papelinho esta adivinha acima mencionada que a minha avó me ensinou quando eu tinha 8 anos. No dia seguinte levei esse papelinho para a escola (Seminario de S. José - Macau) e durante o recreio mostrei o papelinho a um colega (Manuel Basilio). Nesse momento aparece o Sr. Padre Mendes que tirou o papelinho da mão do Basilio. Depois de ter lido o que estava escrito, ele perguntou-me o que era. Respondi que era uma adivinha. O padre Mendes volta-se para mim e diz: "Vais adivinhar quantas rotadas é que vocês vão apanhar?" Depois de um curto silêncio, o Basilio respondeu: "Duas". Apanhámos 5 rotadas cada um.»
Carlos (Naio) de Lemos
NA: Obrigado Carlos pelo seu contributo.
O colégio de S. José em 1962

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ilha Verde: um pouco de história

Na Breve Memória Documentada acêrca da Soberania de Portugal na Ilha Verde, do Governo da Província de Macau, (Imprensa Nacional, de 1922, Macau) consta o seguinte:
“A porção de terra que outrora constituiu a chamada ainda hoje, aliás impropriamente, Ilha Verde, está situada em frente da extremidade sul e do lado ocidental do istmo da Península de Macau, confrontando pelo norte com a extinta fortaleza de Passaleão, pelo sul com as montanhas da Lapa, por leste com o rio do Porto Interior e por oeste com a montanha de Pac-san”. Esta descrição foi feita na Conservatória do Registo Predial da Comarca de Macau, em 19 de Maio de 1886. “Dessa mesma descrição consta ainda que a dita ilha mede mil metros  de circunferência, mais ou menos, sendo calculado o seu valor venal
em dez mil patacas.” “A sua área aproximada em 1884, época em que foi calculada, era de 92:970 m². Atualmente (1922), porém, a sua área é de 141:867 m² sendo as suas confrontações, com mais rigor, as  seguintes: Ao norte, com o canal existente no rio do Porto Interior e que fica situado entre a antiga Ilha Verde e uns terrenos para norte que, na baixa-mar, ficam a descoberto; ao sul, com a bacia do Patane; a oeste, com a parte norte do Porto Interior; a leste, finalmente, está ligada há muito à parte setentrional da Península de Macau, quase no ponto de formação do istmo, por uma estrada construída sobre o antigo dique criado pelos aterros em grande escala formados, naturalmente, pela acessão de aluviões fluviais, utilizados mais tarde por trabalhos de arte.
É hoje (1922) portanto, e já há bastante tempo, um terreno completamente integrado e incorporado no território da península, constituindo com esta um todo indiviso e sem a mínima solução de continuidade. Esta incorporação, note-se bem, data de uma época anterior à celebração do Tratado de Amizade e Comércio entre Portugal e a China, de 1 de Dezembro de 1887.”
O dique da Ilha Verde começa entre as avenidas do Almirante Lacerda e de Artur Tamagnin Barbosa em frente à Estrada do Arco e termina na Estrada Marginal da Ilha Verde, à porta do Aquartelamento da Ilha Verde. Parte desta Avenida era outrora conhecida pela designação de Estrada do Dique da Ilha Verde. Dá-se o nome de Istmo da Ilha Verde à área situada a Leste da Ilha Verde, entre o Canal dos Patos e a Bacia Norte do Patane; trata-se de terreno quase todo conquistado ao mar e nele se acha o Bairro da Ilha Verde. Em chinês esta área chama-se Chéng Chau (Qing Zhou em mandarim), a mesma designação que tem a Ilha Verde propriamente dita. Atualmente situada na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, deixou
de pertencer à de Sto. António como indica o padre Manuel Teixeira.
 Duas fotografias do início do século XX da autoria de Mam Took. Espólio IICT
No que já foi uma ilha, e agora se situa no extremo Noroeste da península de Macau, há uma pequena colina com 57 metros denominada ainda hoje como Ilha Verde. Este tufo verde, que se mistura com um fundo de prédios, chama a atenção para quem se encontra na zona do Porto Interior. Antes da chegada dos portugueses a Macau esta pequena ilha era agreste e feita de um aglomerado de rochas. Sendo refúgio de chineses era conhecida como a ilha dos Diabos. Sir Andrew-Ljunstedt, um sueco que passou por Macau e que deixou An historical Sketch of the portuguese Settlements in China ou Esboço histórico dos Estabelecimentos Portugueses na China (editado em Boston, 1836) escreve acerca da Ilha Verde: “Era um rochedo com montões de pedras, num deserto tristonho, onde se reuniam vagabundos, ladrões e desertores. O terreno podia ser beneficiado e convertido num estado florescente, só com a perseverança de homens, que se prestassem de boa vontade e sem cessar a tratar do seu melhoramento, e ao mesmo tempo fossem bastante opulentos para prover os meios necessários. Os jesuítas encarregaram-se desta tarefa. Eles possuíam em Macau um Seminário e um colégio para os fins de propagar a religião na China e no Japão. Neste célebre centro de ciência, crescia constantemente o número de professores e de estudantes e os meios de alojá-los comodamente escasseavam.”

 Mapa de 1912 destcando-se à esquerda a ilha Verde já ligada pelo istmo
Em 1603 ou 1604, a Companhia de Jesus, pelos padres Alexandre Valignano, Visitador dos Jesuítas e Valentim de Carvalho S.J. reitor do Colégio de S. Paulo, tomou posse da pequena ilha que se situava no meio de um dos ramos do rio Xi (Oeste) entre as margens da península de Haojing (nome que Macau tinha nos registos chineses) e da ilha da Lapa. Era uma ilha inóspita a que, por troça, se deu o nome de Ilha Verde. Mas a verdade é que em poucos anos tal aglomerado rochoso, tornou-se num verdejante e agradável recanto para dias estivais, como relata a professora Ana Maria Amaro.
No primeiro quartel do século XVII, os jesuítas que já haviam fundado em Macau o Colégio de S. Paulo, começaram a cultivar uma parte da Ilha Verde, transformando-a numa quinta de recreio e nela edificando uma capela dedicada a S. Miguel. Esse recanto verde chamou a atenção de dois magistrados chineses, Tcheong U Lam e Ian Kuong Iâm que, em 1751, na sua monografia de Macau escreveram: “Actualmente os sacerdotes estrangeiros construíram residência e semearam diversas plantas e plantaram também árvores de fruto nesse sítio que passou  a ser um local para passeio e distracção dos habitantes de Macau.”
Artigo da autoria de José Simões Morais, investigador, publicado no JTM de 21-6-2011

domingo, 26 de junho de 2011

Da sampana ao jactoplanador...

"Da cadeirinha ao automóvel, da sampana ao jactoplanador". A 1ª edição é de 1990. Foi reeditado pelo Instituto Internacional de Macau em 2011, numa tiragem limitada e a propósito de uma homenagem ao prof. Jorge Cavalheiro. O Prof. chegou aos 9 anos a Macau e por lá tem estado até agora altura em que regressa às origens. No entanto garante que esta partida "não é um adeus, mas um até já".
Foto Arquivo JTM

Em Abril de 2011, com Jorge Rangel, presidente do IIM

quinta-feira, 23 de junho de 2011

24 Junho - Dia de Macau

“Quando o padre jesuíta Rho disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente às forças invasoras holandesas, no dia 24 de Junho de 1622, Dia de São João Baptista, iniciava-se a história que originou o Dia de Macau: Oitocentos soldados holandeses desembarcaram na praia de Cacilhas, hoje região do reservatório, para tentar tomar Macau. Sessenta europeus e noventa macaenses tiveram que retroceder das areias de Cacilhas diante da sua inferioridade numérica. Os sinos tocavam insistentemente, as senhoras refugiavam-se em São Paulo e os tesouros foram guardados no Seminário. A cidade do Nome de Deus estava desprotegida. A maior parte dos portugueses viajara para o estrangeiro, comum naquela época do ano. Os holandeses, felizmente, não sabiam disso.
Avançando com cautela, sofreram pesado bombardeio de canhões da cidadela do Monte e um tiro disparado pelo padre jesuíta Rho acertou, em cheio, aquele vagão de pólvora. Isto desconcertou as forças invasoras. Dirigiram-se então ao cume da Ermida da Guia onde foram detidos pelas forças lideradas por Rodrigo Ferreira. O golpe final aos holandeses deu-se com a junção de dois grupos de combate de Macau que os atacaram quando se dirigiam a outra elevação. Em debandada, os holandeses ainda foram atacados pela população local. No combate final em Cacilhas, os holandeses, derrotados, jogaram-se ao mar na tentativa de alcançar os barcos. Muitos se afogaram e um dos barcos, superlotado, afundou-se. Dizem os registos portugueses que cerca de 350 holandeses morreram em combate ou afogados. Do nosso lado, os mortos foram 4 portugueses, 2 espanhóis e vários negros, para uma batalha que durou cerca de duas horas.
Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após os combates, foram todos à Catedral para uma solene acção de graças, tendo o Senado e os moradores feito votos de comemorar este dia daí em diante, cuja salvação da cidade foi atribuída a São João Baptista. Conta a lenda que pelo seu manto, foram desviados os tiros dos inimigos". 
Este dia foi, até 1999, feriado em Macau. Macau continua a ser Macau, mas o seu dia deixou de ser evocado....
A partir de "Macau Histórico" de C.A Montalto de Jesus.
Cerimónia militar a 24 de Junho de 1940 junto ao Monumento da Vitória (a tratar com maior detalhe num próximo post) no dia de Macau (evocando a vitória sobre os holandeses nesta data em 1622). Ao fundo, o Quartel da Flora.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Novo livro de Ana Maria Amaro

Porque Macau não é nem nunca foi só jogos de casino...
A apresentação do livro "Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau" 2ª parte - I volume", decorre dia 22 de Junho na DECM - Av. 5 de Outubro, 114 Lisboa.
Foto de João Botas - Macau, Jardim de Camões, 2009
Prefácio que a prof. Ana Maria Amaro me convidou a escrever para o livro...
“Macau é uma recordação agridoce”*
Em Outubro de 2010 ao receber o convite para escrever este prefácio a minha primeira reacção foi de total surpresa. "Não se terá enganado", escrevi eu na resposta à Prof. Ana Maria Amaro, contrapondo que existiriam pessoas mais habilitadas já que me faltava “engenho e arte” para tão árdua empresa.
E agora? Como se escreve um prefácio? Ainda para mais de um livro escrito por uma professora catedrática jubilada?... Segundo Confúcio, reconhecer que não se sabe já é saber alguma coisa. Por agora, nem tudo estava perdido.
Ultrapassado o impasse e aceite o convite veio-me à ideia a imagem da capa do livro "Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau", uma gravura-aguarela (século XIX) de motivos chineses - representa um grupo de chineses jogando chiquia (bater a andorinha - ta yin) - muito colorida com traços de contorno a preto. Já tinha estado com aquele livro nas mãos ainda nos meus tempos de juventude em Macau mas será que o tinha na minha mini biblioteca dedicada a Macau? Infelizmente, tinha outros dois livros da sua autoria, mas esse não.
Eu e a autora vivemos em Macau em épocas distintas e com idades bem diferentes. Ela entre 1957 e 1972 já adulta. Eu na década de 1980 ainda adolescente. Ainda assim, algo nos ligava: o Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde ela foi professora e eu fui aluno. E o fascínio por Macau e pela sua história.
Foi por causa disso quem em 2007 escrevi um livro sobre a história do Liceu e em 2009 criei o projecto Macau Antigo: http://macauantigo.blogspot.com, um blog onde Ana Maria Amaro é uma presença constante devido ao seu trabalho em prol da divulgação da cultura macaense.
Ou seja, sabia quem era e o que tinha feito, mas não conhecia Ana Maria Amaro. E foi desta forma que a ‘descobri’ como Presidente do Instituto Português de Sinologia. No final de 2009 realizei uma série de 25 entrevistas para o Jornal Tribuna de Macau a convite do seu director José Rocha Dinis. A ideia era assinalar o 10º aniversário da transferência de soberania de Macau, ocorrida em Dezembro e 1999. O critério utilizado na selecção dos entrevistados era muito simples: pessoas que se tivessem destacado na vida cultural do território e que vivessem na altura em Portugal. Por vicissitudes diversas muitas das entrevistas foram feitas via e-mail. A de Ana Amaro foi disso exemplo.
Numa longa entrevista amplamente ilustrada com fotografias da época fornecidas pela própria, abordaram-se diversos temas, nomeadamente os seus livros. Perguntei sobre os que tinha escrito e sobre os que ainda queria escrever. Eis algumas respostas:
Tenho dois livros por publicar com muito mais informação e um terceiro que está no prelo e é uma continuação do 1º volume de ‘Jogos e Brinquedos (...)’ que foi publicado em 1976 e mostra como eu ocupava o meu tempo em Macau para além das aulas.”
Instada a mencionar qual o seu livro preferido, respondeu assim: “Merecem-me especial destaque os dois que estão inéditos à espera de editor ou de apoios financeiros das Fundações interessadas em estudos sobre Macau/China."
A entrevista foi lida e os apoios chegaram. Era mais um exemplo acabado daquilo que me levou a enveredar pelo jornalismo ainda adolescente, ainda em Macau: relatar factos, intermediar, alertar consciências... fazer a diferença. Hoje, tenho a sorte (e espero que também o mérito) de fazer aquilo que gosto e a mesma ilusão de juventude: a de que aquilo que faço serve para alguma coisa. Aqui está, portanto, a razão do convite que me foi feito para escrever estas linhas. É uma honra mas é ainda maior a responsabilidade. Em especial para um ‘analfabeto’ nos domínios da Antropologia ou Etnografia.
A presente edição é a continuação - se assim se pode dizer - do livro publicado em 1976 pela Imprensa Nacional de Macau. Apesar de muitas vezes persistir a informação de que o livro foi editado em 1972 (p.e., na Biblioteca Nacional), na verdade esse número corresponde ao ano em que a autora regressou a Portugal e o livro “foi deixado na gráfica”. Preciosismos à parte, certo é essa edição esgotou poucos anos depois e que hoje só se consegue encontrar numa daquelas livrarias/antiquário a 50 euros cada exemplar!
É nessa primeira edição que ‘aparece’ o “lárgà sarangum”, luta de papagaios. Recordo, a propósito, um excerto de um texto desse ilustre macaense, Henrique Senna Fernandes, recentemente desaparecido do mundo dos vivos:
"(...) Outro passatempo existia no Verão que era a largada do papagaio de papel também chamado o ‘sarangong’, preso à linha, esta de antemão preparada e tratada por uma massa de farinha, gema de ovo e vidro em pó que a tornava cortante. Assim se desafiava outro papagaio para um despique que se reduzia em ver quem cortava a linha do outro. Era o excitante ‘corta-corta’ que tanto entusiasmo produzia entre adolescentes e adultos que o céu de Macau, nas tardes prolongadas de verão, se enchia de ‘papagaios’ de diversas cores, para lutas renhidas. Empregavam-se estratégias, era uma pugna leal, havia verdadeiros campeões que eram galardoados pela admiração geral. Nisto se consumia a boa gente de Macau, num passatempo saudável e inocente, que traduziu bem a época ligeira e despreocupada em que se vivia, com a certeza de que o dia de amanhã seria igual ao dia de hoje."
Nesta edição do século XXI não aparece o ‘sarangong’ mas estão lá centenas de exemplos de jogos e tradições populares macaenses. O trabalho de campo foi todo feito em Macau durante os mais de 15 anos que a autora ali viveu e trabalhou como professora. “Depois em Portugal levei alguns anos em trabalho de Biblioteca. Os conteúdos são todos novos e ilustrados, grande parte, a cores. Acabei de o redigir em 1998.” Mais de uma década se passou e finalmente esta obra de recolha etnográfica exaustiva (dividida em dois volumes com cerca de 600 páginas) vê a luz do dia. Uma luz que me ajudou a esclarecer partes da realidade que conheci em Macau há cerca de 20 anos.
Recordo-me de ficar intrigado ao ver junto à pequena muralha da Praia Grande, junto ao antigo Liceu, aquele jogo de xadrez (de peças pretas e vermelhas) com que os ‘velhotes’ matavam o tempo debaixo das acácias rubras. Hoje sei que se tratava do ‘Cheong Kei’, um jogo de origem milenar, inspirado na estratégia de guerra. Diferente do xadrez ocidental.
Nas muitas pesquisas e contactos que tenho feito para colocar conteúdos no blog Macau Antigo temas como as tradições da comunidade macaense (aqui incluo todos) têm despertado muito interesse e participação activa dos leitores. Foi assim que fiquei a saber um pouco mais sobre por exemplo o ‘talu’ e o ‘bafá’. O ‘bafá’ é um jogo de cartas muito em voga em Macau até às primeiras décadas do século XX, hoje praticamente esquecido. Já o ‘talu’ era jogado com dois paus, um que batia no outro, mais pequeno e afiado das pontas, como se de um lápis se tratasse. Ganhava o que conseguisse bater no pau sem ele cair ao chão, atingindo uma determinada distância em passos. Este jogo terá chegado a Macau pela mão dos jesuítas no início do século XVIII e manteve-se vivo até ao início do século XX. Em Portugal era conhecido por bilharda.
Muitos dos jogos e tradições abordados neste livro ou já desapareceram dos hábitos do quotidiano ou estão em vias disso muito por causa da diáspora do povo macaense e da voragem do tempo. Também por isso, este livro é imprescindível. Até para os que, ainda vivos, já quase os esqueceram. Cabe à actual geração de macaenses tudo fazer para não deixar morrer estas marcas da sua identidade ímpar no mundo.
E foi justamente sobre os macaenses que Ana Maria Amaro iniciou a sua paixão pela etno-história do Território. “Esse amor foi-se construindo à medida que fui conhecendo e compreendendo essa terra fascinante”.
No início na década de 1960, com base em dados recolhidos na tradição oral que na altura ainda existia e também nos ‘chôc pou’ das famílias Sam e Ho (manuscritos transmitidos de geração em geração e dos quais constam acontecimentos de várias épocas), Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias a habitar a cidade dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China. Se tivermos em conta que é habitual fazer-se um paralelismo entre o ‘início’ de Macau com a chegada dos portugueses...
Há quem viva num país que não o seu sem nunca o conhecer realmente. Não é o caso de Ana Maria Amaro. “A história de Macau assim como a história da China servem-me de suporte à etno-história que é aquilo que eu gosto de estudar.” (...) Foi assim que nasceu “o desejo de perceber onde estava e não me sentir analfabeta e surda, isto é, não saber ler nem compreender o que os chineses escreviam e diziam.”
E foi assim que começou por se interessar... pela flora local. “Foi o primeiro trabalho que eu publiquei sobre esse assunto depois de ter identificado algumas das espécies da flora local foi um artigo no Boletim Eclesiástico da diocese de Macau por insistência de Monsenhor Manuel Teixeira. O nome desse artigo era "Relíquias Botânicas de Macau", no qual comecei por dizer que ‘não só as pedras nos falam do passado mas também o mundo verde para quem souber e quiser entende-lo’. A partir dos vestígios de buxo, violetas, tabaco, trepadeiras de betelo consegui localizar casas antigas de famílias abastadas macaenses já desaparecidas”
Estava dado o primeiro passo de uma longa caminhada à descoberta da realidade de uma cidade que embriaga o mais incauto viajante ou morador tal é a multiplicidade de sons, cores e cheiros em que se desdobra. Ana Maria Amaro não só apreendeu essa realidade de uma forma ímpar como nos deixou em várias obras (livros e artigos) o traço da sua passagem por Macau. Nestes textos retrata-se uma Macau de outros tempos que praticamente desapareceu e que importa perpetuar.
De tão extensa que é a lista, refiro apenas alguns exemplos: Ano novo chinês em Macau (1960), Contribuição para o estudo da flora médica macaense (1965), Pun Tchói (1966), Alguns aspectos do artesanato em Macau (1967), O velho templo de Kun Iâm em Macau (1967), Adivinhas populares de Macau (1975), Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau (1976), Um jogo africano de Macau: a chonca (1980), Três jogos populares de Macau: chonca, talu, bafá (1984), Os macaenses como grupo: alguns dados antropobiológicos (1987), Filhos da Terra (1988), O traje da mulher macaense (1989), Aguarelas de Macau, 1960-1970: cenas de rua e histórias de vida: um olhar retrospectivo, um olhar de saudade (1998), etc.
«Ana Maria Amaro é um nome incontornável entre os que se dedicaram a investigar a história de Macau e da China. Chegou em 1957 "com os restos do tufão Glória" e regressou a Portugal em 1972 mas nunca cortou a sua relação com o Território, "essa terra fascinante" onde iniciou a carreira docente.»
Foi esta a introdução da minha entrevista a Ana Maria Amaro há cerca de um ano. Uma entrevista que impediu este livro de ficar escondido na gaveta. Uma gaveta onde está, também à espera de ser publicada “a minha tese de Doutoramento sobre Medicina Popular de Macau”. São cerca de três mil páginas dactilografadas onde estão as várias técnicas e “mezinhas” (cerca de 600 receitas à base de plantas) usadas pela população chinesa e luso-asiática ao longo dos séculos. Fica o alerta para quem tem responsabilidades na preservação e divulgação da identidade cultural macaense.
*Ana Maria Amaro na resposta à minha pergunta “o que é para si Macau?” em entrevista publicada no Jornal Tribuna de Macau a 8 de Janeiro de 2010
João F. O. Botas, no final de Novembro de 2010 em Portugal. Ou será Macau?
Jornalista e autor do blog Macau Antigo
Informações adiconais neste link
http://macauantigo.blogspot.com/2011/04/jogos-brinquedos-e-outras-diversoes-de.html