sábado, 19 de junho de 2010

Dia de Macau: 24 de Junho ou 10 de Abril?

Em conversa informal com a Historiadora Beatriz Basto da Silva tida há poucos dias a propósito de Macau, dizia ela que embora o Dia de Macau seja comemorado a 24 de Junho (dia de S. João Baptista e em que no ano de 1622 o Padre Rhó segundo rezam as crónicas da época conseguiu o tiro certeiro sobre os holandeses expulsando-os de vez) a verdade é que o Dia da Cidade também poderia (ou deveria) ser comemorado a 10 de Abril. Foi nessa data no ano de 1583 que Macau recebeu do Vice-Rei da Índia, D. Duarte de Menezes, o foral/ título de cidade.
Mas tb aqui - como noutros temas ligados aos primeiros anos da chegada dos portugueses a Macau - existem diferentes versões.  Há quem defenda que a elevação de Macau à categoria de cidade só ocorreu em 1586 com o foral de Santa Cruz de Cochim, concedido pelo vice-rei da Índia. Alguns autores consideram a data de elevação ocorrida em 1583, sendo 1586 apenas a data da confirmação.
Com o foral de Santa Cruz de Cochim de 10 de Abril de 1586 concedido pelo Vice-Rei da Índia, D. Duarte de Menezes, são conferidos ao Senado amplos poderes tanto a nível político como administrativo e judicial. As regalias e os privilégios eram iguais às da cidade de Évora. Posteriormente foram reconhecidas e confirmadas por foral régio de 18 de Abril de 1596. Esta instituição afirmava-se, então, como um órgão governativo por excelência da cidade de Macau que manteve uma ampla autonomia relativamente ao governo da metrópole durante mais de dois séculos.

A pender a balança para o ano de 1583 está o facto de ter sido nesse ano criado o Leal Senado. Presidido pelo Governador do Bispado ou pelo Capitão-de-Terra (com assistência do Ouvidor) era constituído por dois juízes, três vereadores e um procurador da Cidade. Foi ainda criada um primeiro grupo de guarda para garantir a segurança pública. A eleição do Senado era feita de três em três anos pela população; entendendo-se aqui população como os portugueses comerciantes e não só, que aqui residiam. Em questões mais sérias e de cariz mais delicado era convocado o Conselho Geral, onde se reuniam em assembleia os ex-senadores, o capitão-de-terra, o clero e os cidadãos em geral deliberando sobre as medidas necessárias a tomar.ecordo que o jesuíta ficou para a história quando desferiu de um canhão da fortificação do Monte para o sopé da colina da Guia, no sítio chamado de Praia de Cacilhas (sim, ali era uma praia) e a que ainda hoje os chineses chamam “Ho Lan Iun”, a propósito da incursão holandesa, nas imediações da actual Avenida Sidónio Pais, local onde foi erigido um monumento, o da “Vitória”... mas que se chegou a chamar de Campo dos Arrependidos, isto por causa dos holandeses que na refrega ficaram literalmente aos papéis e sem saber para onde ir...

Mas voltando ao Padre Rhó... (e sugerindo que visualizem o que foi o ataque holandês na imagem de cima...),
Estávamos em meados do século XVII e o gesto deste homem mudou para sempre o rumo da história. Rhó acertou em cheio na carroça do paiol dos invasores holandeses que transportavam a pólvora para os seus canhões e musquetes e com os quais pretendiam tomar de assalto (mais uma vez, já antes o tinham tentado e outros se lhes seguiram) um dos mais importantes portos dos mares do Sul da China em plena época áurea do comércio da prata.
Aos primeiros sinais de ataque os sinos tocaram a rebate os civis protegeram-se como puderam nomeadamente nas igrejas e os militares saíram para a rua. Ainda segundo relatos da época os maiores tesouros, nomeadamente religiosos, foram transportados para a igreja de S. Jose.
A ajudar Rhó estiveram os militares portugueses comandados por Rodrigo Ferreira. O golpe final aos holandeses deu-se com a junção de dois grupos de combate de Macau que os atacaram quando se dirigiam a outra elevação. Em debandada, os holandeses ainda foram atacados pela população. No combate final em Cacilhas, os holandeses tentaram alcançar os navios mas, cansados e feridos, muitos afogaram-se e um dos barcos, superlotado, afundou-se. Dizem os registos portugueses que cerca de 350 holandeses morreram em combate ou afogados. Do lado das forças 'macaenses' o balanço foi de 4 portugueses, 2 espanhóis e vários negros mortos, para uma batalha que durou cerca de duas horas.
Praia Grande: ilustração de 1843
Pela tão grande desproporção de forças em combate, a vitória foi considerada um milagre. Após os combates, foram todos à Catedral para uma solene acção de graças, tendo o Senado e os moradores feito votos de comemorar este dia daí em diante, cuja salvação da cidade foi atribuída a São João Baptista.
Imagem inédita datada de cerca de 1900:
 vista sobre a baía da Praia Grande

Templo Na Tcha: desde 1888

As duas primeiras imagens são de cerca de 1900 e esta é uma das primeiras vezes que estão a ser vistas publicamente. Retratam o Templo Na Tcha (nas traseiras das Ruínas de S. Paulo). Um curioso templo situado no coração da cidade cristã, mais um exemplo da sã convivência entre portugueses e chineses ao longo dos mais de 450 anos de presença prortuguesa em Macau.
Este templo fica na Travessa da Encarnação e foi construído pouco antes destas imagens serem feitas, em 1888. Muito 'recente' se tivermos em conta que existe um outro templo em Macau dedicado também a Na Tcha (considerado um Deus irreverente de acordo com a tradição chinesa). Fica na Calçada das Verdades, em chinês, Na Tcha Ché Hong, data do ano de 1676... 212 anos antes. Terá sido o primeiro a ser construído em Macau.
Ao lado esquerdo do templo, fica o que restou (o “Troço") da Antiga Muralha de Defesa construída em 1570. O material utilizado era o chunambo, com propriedades 'elásticas', e daí que resistisse de forma tão eficaz às balas de canhão dos invasores estrangeiros, nomeadamente holandeses.
O Templo é formado por uma única divisão (8,4 m x 4,51 m). O alpendre dá acesso ao templo propriamente dito, que mede apenas 5 m de profundidade. O edifício está pintado em tons de cinzento, com poucas ornamentações, à excepão de algumas pinturas decorativas por baixo do alpendre da entrada. O telhado é de duas águas ao estilo tradicional yingshan, tendo a cumeeira uma altura máxima de 5 m. O alpendre da entrada é uma estrutura de estilo xieshan, com um telhado suspenso de duas águas e beirais de pontas levantadas. À semelhança de outros templos chineses, as decorações de figuras de animais em cerâmica que adornam a cumeeira servem de guardiões do templo e completam a ornamentação do telhado.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Hotel Estoril: souvenir

Lembrança entregue aos clientes hospedados no Hotel Estoril na década de 1960: trata-se de um conjunto de selos avulsos datados dos anos 50 e 60.
O Hotel Estoril - ainda hoje existe embora há largos anos ao abandono - foi inaugurado em 1963 e foi o 1º casino da STDM depois de ter ficado com a concessão para explorar os jogos de fortuna e azar em Macau em 1962. A desginação provém do irmão 'gémeo' que existia em Portugal.
                            

Cinema em Macau: pequenos contributos

É um tema sobre o qual tenho colocados diversos post's e que suscita muito interesse dos leitores. Respondendo aos que perguntaram onde ficava exactamente o cinema Roxy - a propósito de um post recente - a resposta obtida junto de duas pessoas (Diamantino Correia e António Cambeta) que o conheceram foi esta:
"O cinema Roxy ficava no Porto Interior na rua do Visconde Paço de Arcos. Isto é, tomando como referência o velho hotel Kuoc-Chai, ficaria 500/600 metros depois à direita, já bem perto da Rua do Guimarães." Consultei o mapa da época e confirma-se as referências geográficas... mesmo sem GPS.
Acrescenta Cambeta que ainda se recorda que "havia também no Porto Interior o cinema Kam Seng que ficava na Rua Almirante Sérgio bem perto da Praça Ponte e Horta."
Diamantino corrobora: "Conheci essa sala, não pelo cinema, mas sim por uns espectáculos tipo "strep-tease" que uma suposta companhia de Hong Kong ali realizava." 
Li ainda há pouco tempo que uma outra sala de cinema do Território que ficou conhecida no final da década de 1920 foi a do então recém-inaugurado Hotel President (mais tarde Central como se vê na imagem). Tinha uma capacidade para 400 pessoas e, apesar de novinha em folha (ao que parece distinguia-se da concorrência por não ter ratazanas...) não rivalizava, por exemplo, com o Cinema Vitória, o melhor da época, apesar do menor asseio.
Pelo que se pode ler na imprensa da época o Vitória tinha umas grandes sucessos de Hollywood fruto de uma acordo com um distribuidor em Hong Kong enquanto o cinematógrafo do President passava mais documentários e 'gazetas' com imagens aéreas locais. Diamantino Correia, antigo militar em Macau, recorda que o Vitória "foi a única sala em Macau que passou filmes em 3D, tecnologia que agora está fazendo grande furor nomeadamente no campo da TV. Ali vi, além de outros, o inesquecível 'Casa de Cera' do grande artista do terror Vincent Price."Mas também o Vitória iria ser transformado em "salão de dança e demais entretenimentos" no final da década de 1930 passando a chamar-se Palácio da Fortuna. Mas essa história fica para depois...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

"Recordar Macau" esta 6ª feira no Museu do Oriente

A exposição "Macau, sentir o património" é o mote para recordar Macau. A Drª Beatriz Basto da Silva, historiadora, falará da sua vivência naquele território durante longos anos.
A palestra decorre no Museu do Oriente esta 6ª feira a partir das 18h30.

Restaurante Long Kei...

um ícone nas arcadas do Largo do Leal Senado... mas também conhecido por Lung Kei ou Lung Kee.
Vem este post  a propósito a notícia de que uma dos espaços comerciais mais antigos do Largo do Senado vai fechar para dar lugar um qualquer franchise que para o caso pouco interessa saber.
Certo é que com o encerramento do Long Kei é mais uma memória histórica de Macau que se apaga. Neste caso, na esquina com a Travessa do Barbeiro. Mas outros exemplos têm surgido nos últimos tempos. Há poucos meses um outro restaurante, de características semelhantes, o Diamante na Rua da Estalagem, tb fechou as portas.
Na imprensa local tem-se escrito que o restaurante foi inaugurado em 1945 mas a verdade é que encontrei referências bem anteriores, ao início do século XX, nomeadamente num postal da época que aqui reproduzo. Para um Território que está na lista da Unesco como Património Mundial o "laisser-faire laisser-passer" do Governo deixa muito a desejar...
Na rede social da internet FB foi criado um grupo - "Amigos do Long Kei" - que chama a atenção para o caso (e de onde retirei algumas imagens para ilustrar este post). Foi criado pela Casa de Portugal em Macau (curiosamente o restaurante é e sempre foi de gastronomia chinesa com alguma incursão pela cozinha macaense: o pato e a barbatana de tubarão estão entre as iguarias de eleição) e na altura em que escrevo tem mais de 500 membrros. Aqui fica a trasncrição.
O Restaurante Long Kei no Largo do Leal Senado é um ícone daquela zona de Macau. Consta que vai fechar para ser substituido por um qualquer franchise "de plástico", como outros que tem invadido o centro da cidade, roubando-lhe a sua identidade. Esta destruição do coração de Macau não pode continuar!
位於澳門噴水池的龍記酒家係該區的地標。近日傳出龍記結業的消息,指其可能像市中心其他被侵佔的商號一樣,遭到是但一間毫無質量的「膠」經銷公司所取代。這種盜取澳門身份認同,摧毀澳門心臟的行為必需立刻停止!
Long Kei Restaurant, located in Senado Square, is an icon of that area of Macau. It is said that it will be closed down and replaced by a big fast food franchise. Long Kei, like many other traditional restaurants and shops of the city center, cannot survive to the power of the big franchises and global brands. With their closure goes part of this city's own identity, and, in this case, part of its gastronomic heritage, since Long Kei's cuisine is considered one of the best in town and some of their recipes are unique. Is this the way of the future?
... talvez um último suspiro ou um sinal de esperança de uma revolta aparente de uma sociedade que vive muitas vezes enturpecida.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Voltar a Macau": esta 4ª feira no Museu do Oriente

Exibição do odcumentário "Voltar a Macau" esta quarta-feira, 16 de Junho de 2010, a partir das 18 horas, no Museu do Oriente, Avenida Brasília, Doca de Alcântara.
Um olhar sobre Macau, 10 anos depois de regressar à soberania chinesa. Em 20 de Dezembro de 1999, Macau regressou à soberania chinesa sob a designação RAEM-Região Administrativa Especial de Macau, gozando de um elevado grau de autonomia pelo período de 50 anos. Tradição e modernidade, sob o olhar atento da China é a nova realidade de Macau que pretendemos descobrir, encarar e divulgar neste programa, que será o repensar do que foi feito.
Quem não puder estar presente... já no próximo dia 24 de Junho a RTP Memória passa o documentário às 22h30 (hora portuguesa.)
Ficha técnica: Produção e Realização Rui Nunes; Autoria: António Aresta, Celina Veiga de Oliveira, Rui Nunes. Origem: Portugal - 2009.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Postais 'avulso' da década de 1980

Canídromo
Farol e Ermida da Guia
Largo do Senado
Ponte Nobre de Carvalho
Quartel dos Mouros
Rua do Campo
Hotel Lisboa

Cinema Roxy: anos 50

It was a complimentary ticket offered by Roxy Entertainment Company for Teatro Roxy. The ticket becomes invalid if an unauthorized change or after its expiration date. However, the expiration date on this ticket is missing (Note: Calvin Chan translation; thanks)
                           
"Bilhete especial para polícias, soldados e marinheiros até à graduação de cabo, quando uniformisados."
O cinema Roxy ficava no Porto Interior (julgo que ficava na rua do Visconde Paço de Arcos. Isto é, tomando como referência o velho hotel Kuoc-Chai, ficaria 500/600 metros depois à direita) e foi criado na década de 1940. Existiam bilhetes de 1ª e 2ª classes. A prática de praticar preços mais baixos aos polícias e militares (não oficiais) era habitual e até já me contaram muitos casos de militares que 'namoravam' as funcionárias da bilheteira e lá conseguiam o bilhete à borla... As legendas em chinês eram projectadas num ecrã ao lado do ecrã principal. A propósito de preços de bilhetes recordo que no início do cinema em Macau (começo do séc. XX) havia preços especiais para quem visse a sessão por trás da tela.... Um dia destes conto isso. Eram os tempos do anima/cinematógrafo... E existiam vários. No Teatro D. Pedro V, na Rua do Hospital, etc...
O "Roxy" à direita na imagem

segunda-feira, 14 de junho de 2010

"Macau em Palestras" - 18 Junho no Museu do Oriente com Beatriz Basto da Silva

Beatriz Basto da Silva é a oradora convidada da segunda de uma série de palestras organizadas no âmbito da exposição de fotografia de Carmo Correia, Macau, Sentir o Património, patente na Galeria Sul até 11 de Julho.
Dar a conhecer as vivências de quem nasceu em Macau e de quem ali viveu durante longos anos é objectivo deste ciclo de palestras cujo ponto de referência será quer o conjunto das imagens expostas ou apenas aquelas que mais tenham marcado os convidados.
Beatriz Basto da Silva nasceu na Anadia e fez a vida profissional em Macau desde 1970 até quase ao fim da administração portuguesa. Foi professora e directora da Escola do Magistério Primário, directora do Arquivo Histórico de Macau, deputada e membro do Conselho de Administração da Fundação Macau.
Texto do site www.museudooriente.pt
"Macau em Palestras": dia 18 Junho, às 18h30 na Galeria Sul do Museu do Oriente.
Imagem do Palácio do Governo na década de 1970

sábado, 12 de junho de 2010

Postais: década 1950

Ruínas de S. Paulo e entrada do Bairro Tamagnini Barbosa
Casa de Sun Yat Sen
Templo de Kun Iam Tong
Pav. Octogonal no Jardim de S. Francisco
Vista parcial da cidade

1984: vista do Liceu...

Photo by Chris Pollard
... a partir da Rotunda Ferreira do Amaal do Liceu Nacional Infante D. Henrique que aqui funcionou entre Outubro de 1958 e Janeiro de 1986. 

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Couto Viana: 1923-2010

No post anterior coloquei um texto de homenagem a Couto Viana escrito por quem o conheceu de perto nos anos que viveu em Macau, entre 1986 e 1988, e onde exerceu funções no Instituto Cultural. Um texto como só a Professora Beatriz Basto da Silva sabe fazer, e bem.
Couto Viana deixou-nos a nós, vivos, por estes dias, aos 87 anos. Foi poeta, dramaturgo, encenador, actor, ensaísta, escritos, contista... Macau entrou-lhe na alma e brotou nas suas palavras em obras como No Oriente do Oriente (1987), Até ao Longínquo China Navegou (1991); Não há outra mais Leal (1991). Na "Antologia de Poetas de Macau" podem encontrar-se alguns dos seus poemas.
Aqui pelo blog - se a memória não me atraiçoa - fazendo uma pesquisa por Miguel Torga poderão encontrar uma fotografia destes dois grandes nomes da cultura portuguesa... em Macau.
Em Março de 2007, António Manuel Couto Viana proferiu uma conferência na Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa, cujo texto foi publicado em 2008, sob o título O Poeta no Oriente do Oriente (Col. “Mosaico”, Instituto Internacional de Macau).
Trata-se de um texto da natureza autobiográfica, ainda que a partir de uma história que é contada na 3ª pessoa, protagonizada por uma personagem apenas designada como “Poeta”, mas a que, num poema a pretexto da gruta de Camões, acrescenta o nome próprio como identificação: “António sou (tenho o teu nome) / E escravo, também, da poesia. / Para ela é que estendo, em cada dia, / A mão à minha fome.”
                             
No site da Sociedade Portuguesa de Autores pode ler-se a propósito do seu percurso de vida:
"O poeta da Távola Redonda _António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo, em 24 de Janeiro de 1923. O Teatro Sá de Miranda era propriedade de sua família e lá começou a dar os primeiros passos na arte de representar e estreou a sua primeira peça de teatro infantil, "A Rosa Verde". Em 1946, foi viver com a família para Lisboa onde conheceu Sebastião da Gama, David-Mourão Ferreira e Vasco Lima Couto. David-Mourão Ferreira, conhecedor da sua paixão pelo teatro, levou-o para o Teatro Estúdio do Salitre onde se estreou como actor, figurinista e encenador. Em 1948, estreou-se na poesia com o livro "O Avestruz Lírico" e desde então publicou dezenas de obras. Entre 1950 e 1954 dirigiu, com David-Mourão Ferreira, Luiz de Macedo e Alberto de Lacerda, os cadernos de poesia "Távola Redonda". Mais tarde dirigiu a revista cultural "Graal" e fez parte do conselho de redacção da revista "Tempo Presente" (1959-1961). O culto do passado está presente em toda a sua obra poética, em oposição ao neo-realismo que era na época a corrente literária dominante. Couto Viana fez parte da direcção do Teatro de Ensaio (Teatro Monumental), Companhia Nacional de Teatro e foi empresário e director do Teatro do Gerifalto, onde apresentou dezenas de peças para crianças. Encenou óperas para o Círculo Portuense de Ópera, Companhia Portuguesa de Ópera (Teatro da Trindade), foi mestre de arte de cena do Teatro Nacional de S. Carlos e orientador artístico da Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra. A sua obra foi distinguida com vários prémios e foi condecorado pelo Governo Português e pelo Governo Espanhol."
Biografia resumida
António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, 24 de Janeiro de 1923 - Lisboa, 8 de Junho de 2010) foi um encenador, tradutor, poeta, dramaturgo e ensaísta português.
Recebe, muito novo, como herança do avô, o Teatro Sá de Miranda (Viana do Castelo). Em 1948, publica o primeiro livro de poemas O Avestruz Lírico. Entre 1949 e 1951, dirige a revista infanto-juvenil Camarada. Foi empresário e director do Teatro do Gerifalto, companhia onde se estrearam nomes como Rui Mendes ou Morais e Castro. Esteve sempre ligado a companhias de teatro para a infância. Entre 1950 e 1960 dirigiu a publicação de várias revistas literárias e de cultura, tais como os cadernos de poesia Graal, Távola Redonda e Tempo Presente.
Encenou e dirigiu as companhias de ópera do Teatro Nacional de São Carlos, do Círculo Portuense de Ópera e da Companhia Portuguesa de Ópera. Viveu dois anos em Macau, entre 1986 e 1988, onde foi docente do Instituto Cultural.
Viveu os últimos anos na Casa do Artista e continuando a escrever e a publicar. Tem mais de uma centena de livros publicados e a sua poesia está traduzida em francês, inglês, espanhol e chinês.
Foi condecorado com a Banda da Cruz de Mérito, Grão Cruz da Falange Galega, o Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique e a medalha de Mérito Cultural da Cidade de Viana do Castelo.

"Não há Despedida" - in memoria Couto Viana

Este texto, em homenagem ao poeta Couto Viana, foi escrito quando partiu de Macau, onde viveu algum tempo. Agora partiu para a eternidade. Não existe despedida para quem deixa, como ele, a marca da escrita, tão profunda.
"Não cabem aqui os poemas acabados de fazer, que me mostrava ainda com a tinta fresca, os apontamentos que pedagogicamente apunha em textos que me dava a ler, as dedicatórias em verso ou prosa, quando nos oferecia os seus livros. Se passava à nossa porta, nas intermináveis deambulações sempre a pé, de certeza subia e, na mão, lá vinha mais um poema e outro e outro.
Percebi assim, com a humildade do aluno frente ao mestre, a maravilha que é a criação poética no seu mais elevado expoente. Couto Viana, simplesmente, respira a realidade e devolve-no-la com o valor acrescentado da estética. Tudo é emoldurado por essa natureza impressiva do poeta, tudo na Vida o inspira e extasia. No meu espírito passei a ter pelo poeta a reverência que , até então só tinha pelo genial Robert Schumann, também ele pronto a beber a inspiração do mundo da criança, nas "Cenas Infantis", a inspiração das coisas simples e a grande fonte criativa que é o sofrimento, produzindo as belíssimas peças do "Carnaval", onde a Alegria e a Tristeza se animam num diálogo doloroso de máscaras. É produção fértil, generosa, infinita!
Ler Couto Viana a ouvir Schumann é, para mim, um pedacinho do paraíso! Couto Viana faz da Vida um hino lírico de composições-apontamento, onde perpassa a graça e alegria, o desconcertante, o pitoresco ou a coita de amor à maneira medieval, merencórica e triste. Impulsiona-o, quase a contra-gosto, a realidade, que o agarra para que a molde em poesia, porque na sua alma de poeta cabe inteira, e porque, como ele próprio diz "Morre sem alma quem esconde a voz" (Soneto Agudizante III - Nado Nada).
Voz que lhe vem dos ancestrais, como o apelo de uma cruzada, acordando nele o cavaleiro que luta infatigável e imperativamente por ideais nobres. Um desses ideais o fervor da sua alma portuguesa, manifesta-se sofridamente no momento em que se cortam para sempre as amarras da nau portuguesa que ia a "trato" a Macau.
Macau foi o porto a que cada um de nós, os que tivémos a felicidade de ali viver, ficámos para sempre ligados; não há determinações administrativas que apaguem os laços de quem viu e viveu Macau com o coração.
António Manuel Couto Viana sem largar as raízes de árvore antiga, antes a adensou de ramagens novas, fruto de uma mocidade interior, infinitamente bela e surpreendente, que nos envolve e devolve a beleza da nossa própria juventude.
O Poeta soube encontrar a simbiose entre os leques de seda preciosa da China, e o brilho dourado das arrecadas minhotas, soube perceber a riqueza da troca de valores, iniciada há séculos, quando as caravelas iam ao extremo-oriente com missionários e especiarias, para voltar de lá com pérolas, cetins, lacas e chá! E escreveu, derramando a alma, primeiro extasiada, depois tão dorida. Trabalhou, com o fim de estruturar a actividade dramática no Território de Macau, ao lado do chinês Shi Lee Chou, professor do teatro, propondo ambos a criação de um organismo denominado Teatro Oficina de Macau.
A sua facilidade de comunicação e lhaneza de trato grangeou-lhe a amizade de outros chineses com quem o vi trocar cartões de visita com o seu nome em português, mas também em chinês: Wai Pok Man, um nome cheio de significado a que dedica a primeira das "Orientais", com legítimo orgulho.
As figuras típicas locais fascinaram-no. Já o demonstara bem na obra "No Oriente do Oriente", feita com os modelos à vista. Agora envolvida com delicadeza, à maneira de preciosa aguarela, protege do esquecimento a "pei-pá-chai" (3º. poema) reduzida à condição de simples número, explicando em nota, o decadente costume. O trabalho (2º. poema), as festividades chinesas (4º. poema), as superstições e seus enquadramentos (6º. e 7º. poemas) gravou-os com o cinzel do sentimento, para sempre. A Ásia entrara-lhe na vida com os
alvores da infância - fala frequentemente do fascínio do Oriente distante - e era seu destino recolher no sangue minhoto, por jus a ter Macau como terra sua, uma gota de sangue, de sofrimento, de amargura, lembrada no 6º. poema. A essa filiação, se juntaram as experiências que, como português e como poeta, evoca nas duas Chinas (Continental, Formosa), no Sião, na Malásia, Índia, Singapura.
Também eu própria me senti mais portuguesa, melhor portuguesa, depois de ver os vestígios e imaginar os nossos antepassados nessas paragens. A experiência dos ancestrais é uma herança rica, inesgotável, que bem faria a todos os portugueses conhecer (8ª. poema).
A Pátria das "Armas e Barões Assinalados", a alma das fortalezas, o rasto das caravelas, a luz do Farol da Guia iluminando gentios, tudo se esbate no pulsar angustiado do poeta a quem tudo parece que perece. Bebeu intensamente o lado exuberante da aculturação que o português acarretou pelo mundo fora, em Macau tão visível, e manifestou esse encontro com o exótico, sem deixar uma só vez de o ver com a sua alma lusa, genuína, magistral. Por isso lhe doi a hora da partida. Doi-lhe como um abandono de um filho.
Mas, querido Amigo, a sua capacidade de converter a saudade em poesia leva-o a resignar-se cristâmente, eu sei. São seus esses versos com que acabo:
Nasce a ogiva da pedra quando a mão
Obedece ao destino de uma ideia.
O mar é nau se houver navegação.
O vinho e o pão sagraram-se na Ceia.
Quando a espada me abriu o coração,
Fortaleceu-me de aço veia a veia.
Ultrapassei, em riste, o Cabo Não,
Para haver horizonte na epopeia.
Sigo solene como um ritual,
A caminho da pátria prometida
(Sempre dentro de mim, de Portugal),
Pedaços a pedaços reunida,
do Sangue celebrado no Graal,
da vida gloriosa além da vida.
( In: "Estado Estacionário" )
Coimbra, 8 de Junho de 2010 - Dedicado in memoria por Beatriz Basto da Silva

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Vivendas Taipa: desde 1921

Estas casas em tom esverdeado - o que usava na época mesmo em Macau, enquadrava-se na paisagem verdejante e tornavam-nas mais frescas face à exposição solar - foram construídas em 1921 para residência dos funcionários superiores das Ilhas, oriundos de famílias macaenses. Têm traços de arquitectura portuguesa com uma ou outra adaptação a Macau.
Na década de 80, os Serviços de Turismo recuperaram-nas e, em finais dos anos 90, foram alvo de profundas obras de restauro devido ao seu valor arquitectónico e transformadas  em espaços museológicos: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa para Exposições e Casa de Recepções. A abertura ao público ocorreu a 5 de Dezembro de 1999.
Na última imagem pode perceber-se porque se chamava Avenida da Praia à zona onde foram construídas. Dos aterros do Cotai já no século XXI só restou uma pequena nesga de área fluvial frente a estas casas que não pude visitar em 2009 já que estavam em fase de reparações.

A 15 de Janeiro de 1921 inicia-se a construção de casas de habitação para funcionários públicos na ilha da Taipa. Foi por "arrematação em hasta pública" conforme B.O. nº2 desse ano.
Foto publicada no "Anuário de Macau" de 1927:
ao fundo à esq. a Igreja de N. Srª. do Carmo.