quinta-feira, 22 de julho de 2010

1949: revista Time Life

Noutro post já coloquei algumas fotografias da grande reportagem de Jack Birns (fotografia) e Roy rowan (texto) para a revista Time Life em 1949. Em breve adicionarei mais informação sobre estes dois jornalistas e a sua passagem pelo Sul da China e Macau numa época especialmente conturbada. Nota: nem todas as fotografias foram publicadas naquela edição de Agosto de 1949.

3º Grande Prémio de Macau: 1956

O terceiro Grande Prémio de Macau testemunhou a construção da bancada central em betão, que englobava 10 "boxes" e uma lotação para 300 pessoas. A prova de 77 voltas foi ganha por Douglas Steane num Mercedes 190 SL, com um avanço superior a duas voltas sobre os seus rivais mais próximos.
Texto do site da organização da prova.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Macau no "Memorial do Convento" de Saramago

Macau marca presença no Memorial do Convento (1982) livro já traduzido para chinês. Nesse romance histórico o narrador fala dos sucessos das navegações portuguesas no século XVIII. No cap. VII pode ler-se: “Chegou há dias a nau de Macau que se esperava, tendo partido daqui há vinte meses, onde isso vai [...], e fez feliz jornada apesar de ser larga a vigem que fica Macau muito para lá de Goa, terra de tantas bem-aventuranças, a China, que excede a todas as outras nos regalos e riqueza, e os géneros todos quanto pode ser baratos (...)”
A tradução para chinês teve direito a um prémio - o mais importante da China para tradução de obras estrangeiras - e foi feita ainda antes de Saramago receber o Prémio Nobel.

The Defences of Macau

The Defences of Macau: Forts, Ships and Weapons Over 450 Years. Livro da autoria de Richard J. Garrett editado em Junho de 2010 pela Hong Kong University Press.
Resumo: The forts built from the early seventeenth century onwards, the ships that defended Macau's waters, the weapons that armed the facilities and the soldiers and sailors who manned them all are carefully detailed in The Defences of Macau. These forts, cannon and small arms were a familiar part of society for hundreds of years, and a significant part of Macau's heritage. Macau is fortunate in having so many artifacts remaining, but very little research has been done on them. Richard Garrett, a retired civil engineer and an expert in antique weapons, addresses this gap by identifying many rare and unique weapons. More than 200 illustrations, many in colour, serve as a visual record of what has survived. Some of the forts are included among Macau's World Heritage sites. Many visitors and those interested in the history of the region will be interested in these forts and arms that remain in relative abundance in Macau. The book will also appeal to those scholars specialising in military and arms history.
Richard Garrett was educated at Dulwich College and Trinity College, Cambridge. He is an Honorary Research Fellow at the University of Hong Kong's Centre of Asian Studies, and a member of the Arms and Armour Society, the Society for Army Historical Research and the Ordnance Society. He started collecting antique firearms in 1965 and has written many articles on antique weapons.
Para quem se interessar pelo tema aqui fica mais uma 'dica'. Em Setembro de 1964 foi publicado um artigo de 17 páginas no Journal of Southeast Asian History,  Intitula-se "The Defences of Macao in 1794: A British Assessment" e é da autoria de J. L. Cranmer-Byng.
Canhão na Fortaleza do Monte

Postal Fortaleza do Monte:anos 70

terça-feira, 20 de julho de 2010

Macau em palestras - Museu do Oriente - 23 Julho

23 Julho - 18h30 - Galeria Sul
Ana Paula Laborinho é a oradora convidada para a 3ª de uma série de palestras organizadas no âmbito da exposição de fotografia de Carmo Correia, "Macau, Sentir o Património", patente na Galeria Sul do Museu do Oriente até 12 de Setembro.
Dar a conhecer as vivências de quem nasceu em Macau e de quem ali viveu durante longos anos é objectivo deste ciclo de palestras cujo ponto de referência será quer o conjunto das imagens expostas ou apenas aquelas que mais tenham marcado os convidados.
Ana Paula Laborinho é, desde o princípio do ano, presidente do Instituto Camões. Anteriormente desempenhava as funções de professora auxiliar do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa bem como de investigadora do Centro de Estudos Comparatistas da mesma faculdade. Em Macau, foi presidente da Direcção do Instituto Português do Oriente, entre 1996 e 2002, tendo sido agraciada em 1999 com a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Macau.
NA:Texto da página web do Museu do Oriente

Breve Monografia de Macau

O Instituto Cultural do Governo da RAEM procedeu na semana passada no Teatro D. Pedro V, ao lançamento de Breve Monografia de Macau, de Yin Guangren e Zhang Rulin, obra bem conhecida dos estudiosos da História de Macau.
Esta nova tradução de Jin Guo Ping, a partir da versão preparada por Zhao Chunchen e publicada em 1988 em Cantão e, mais tarde, já revista e anotada, em Macau pelo então Instituto Cultural de Macau, e a que o tradutor acrescentou centenas de notas, vem colmatar uma significativa lacuna, já que há muito se encontra esgotada a primeira versão em língua portuguesa, da responsabilidade de Luís Gonzaga Gomes*.
A Breve Monografia de Macau foi redigida durante o período Qianlong por dois letrados e funcionários chineses encarregados dos assuntos de Macau que aproveitaram as frequentes vindas à cidade, entre 1744 e 1746, para recolher informações pormenorizadas sobre a história, a geografia, a organização social e as actividades económicas do pequeno estabelecimento português.
Se, por um lado, revela, de forma bem clara, que Macau desde sempre constituiu motivo de preocupação e de debate para as mais diversas instâncias políticas e administrativas chinesas, por outro, apresenta testemunhos excepcionais sobre a visão chinesa dos portugueses de Macau, materiais importantíssimos para os estudos, hoje tão em voga, sobre as recíprocas imagens luso-chinesas.
Com esta edição, o leitor de língua portuguesa passa a dispor da mais importante fonte chinesa para o conhecimento dos primeiros 200 anos da presença dos Portugueses em Macau.
A partir de um texto publicado no site do ICM em Julho de 2010. 

Reproduzo em seguida um excerto de um artigo publicado no jornal Ponto Final a 28 de Junho último.
Traduziu Fernando Pessoa e outros autores e textos grandes da língua portuguesa antes de encontrar uma parede de mais de dez anos: “Monografia de Macau”, documento que deu trabalho e se arrastou no tempo. Agora, a meio do mês de Julho, Jing Guo Ping estará em Macau para apresentar o resultado. Em entrevista ao PONTO FINAL, por telefone e a partir de Pequim, fala de uma obra que considera essencial.
(...)
- Este foi um trabalho que se arrastou no tempo.
J.G.P. – É um livro que levei dez anos a traduzir, só terminei nos últimos meses. Já houve uma versão portuguesa, de Luís Gonzaga Gomes. O livro é muito citado mas o conteúdo é pouco usado, porque é pouco legível. Mas não podemos culpar Luís Gonzaga Gomes disso, porque houve de facto dois trabalhos: primeiro paleografia [estudo de textos manuscritos antigos e medievais], porque ele traduzia a partir de uma versão chinesa sem pontuação, era muito difícil. E depois ainda traduzir para português. Ele não teve o conhecimento suficiente de paleografia, por isso a tradução dele – embora o português seja correcto – não se percebe, é muito difícil.
- Mas esta nova edição é uma ideia antiga, que vem de trás.
J.G.P. – Há muito tempo que se tem a ideia de fazer uma nova versão. As sucessivas direcções do IC sempre têm prestado muita importância a uma nova edição deste livro. Ainda na administração portuguesa, comecei a traduzir e anotar, não só traduzir. Esta deve ser a edição mais actualizada, mesmo em termos de edições chinesas, porque houve duas edições modernas, uma na China Continental, outra pelo IC, mas desta vez traduzi a partir de uma edição chinesa publicada em Cantão. Também pus muitas notas novas a partir de fontes portuguesas e chinesas. Esta nova versão tem à volta de duas mil notas.
- E continua a ter notas de Rui Loureiro, historiador português, conforme estava previsto?
J.G.P. – Não, é tudo feito por mim. O texto foi corrigido pelo professor Rui Loureiro, mas o Luís Ferreira teve um papel decisivo, porque levámos quase dois anos na revisão do texto já corrigido pelo professor Rui Loureiro, primeiro com uma revisora oficial do IC e depois directamente com o doutor Luís Ferreira [do Instituto Cultural]. Foram quase dois anos a definir a última versão.
- Mas temos a informação de que a tradução estava pronta há vários anos e que se foi retardando a publicação do livro sem motivo aparente.
J.G.P. – A minha versão, com as correcções do professor Rui Loureiro, já está concluída há vários anos. Só que no último momento fiz grandes remodelações na minha tradução. Não se pode culpar o IC por atrasar isto, eu próprio tenho dado retoques na versão original e tudo isso levou a quase 11 anos de trabalho.
- Recorreu à versão de Luís Gonzaga Gomes?
J.G.P. - Li alguma coisa do Gonzaga Gomes, mas para fazer bem a minha tradução afastei-me dela o máximo possível. Para quem não saiba chinês, talvez a versão dele sirva de alguma coisa. Mas para quem saiba chinês, a tradução dele é muito deficiente, quase não se percebe nada. Por isso é que normalmente se cita muito o título, mas o conteúdo é pouco utilizável.
- A sua tradução vem acabar com essa limitação?
J.G.P. - Pelo menos o português foi bem corrigido. O problema do Gonzaga Gomes foi que ele tinha um português bom, mas traduzia a partir de um texto chinês não muito bem interpretado, daí a confusão toda. Na minha versão, pelo menos quanto à compreensão do texto em chinês, não deve haver problema. Depois, o português foi corrigido por dois portugueses, portanto também não deve haver problema.
- Como classifica este livro?
J.G.P. – Acho que talvez seja o livro mais importante da história sistematicamente escrita de Macau. Só existe um livro assim, que é “Monografia de Macau”.
Ainda na mesma edição o jornal publica um artigo sobre o tema da autoria de Helder Beja.
O Instituto Cultural edita em Julho, com nova tradução para português de Jing Guo Ping, “Monografia de Macau”, documento escrito pelos mandarins Ying Guangren e Zhang Rulin. Falámos com o tradutor que visitará a RAEM e espreitámos a primeira versão portuguesa da obra, da responsabilidade de Luís Gonzaga Gomes.
O que nos agarra logo são as ilustrações. “Monografia de Macau” (‘Ou-Mun Kei-Leok’ em cantonês), documento datado de 1751 e vertido pela primeira vez para português por Luís Gonzaga Gomes (1907-1976), nos anos 1950 do século passado, está “esgotado há vários anos”, de acordo com a livreira Cristina Lai, mas ainda se encontra na Biblioteca Central da RAEM. Agora, conhecerá nova edição do Instituto Cultural (IC), com tradução de Jing Guo Ping (ver entrevista nestas páginas) e lançamento previsto para 15 ou 16 de Julho, na Livraria Portuguesa.
Ying Gaungren e Zhang Rulin são os nomes dos dois mandarins – diferentes dos grafados por Gonzaga Gomes mas aqui actualizados com a ajuda da historiadora Tereza Sena – que escreveram, ainda na primeira metade do século XVIII, “uma série de relatórios sobre as gentes de Macau, os seus costumes, a fauna, a flora”, explica a investigadora.
O livro traduzido pelo sinólogo Gonzaga Gomes, com prefácio de 22 de Junho de 1950, está salpicado de desenhos que vão dos mapas do território à imagem de jesuítas, dos meios de transporte aos estrangeiros de Macau, conforme publicamos nestas páginas. Neste que é um “documento fundamental para a compreensão da história de Macau”, como o classifica Tereza Sena, encontramos passagens sobre os forasteiros em geral e os portugueses em particular. O capítulo “concernente aos estrangeiros de Macau” começa assim: “Escrevendo sobre os estrangeiros de Macau, temos a dizer que os há de várias espécies. (…) Os primeiros que erigiram casa foram os lóng-kei (Portugueses). Os que disputavam o comércio aos Portugueses, mas mais tarde passaram a entender-se bem com eles, a fim de poderem implorar o trato, foram os Holandeses. Os que se utilizavam de Macau para refúgio de criminosos fugitivos foram os Japoneses”.
O excerto da tradução do filólogo macaense que aqui deixamos é compreensível. Até que ponto é exacto, desconhecemos – e essa foi, ao longo dos anos, a questão que pairou sobre este trabalho. “Essa tradução, embora tenha sido a primeira e muito importante – até porque feita por alguém que consultava as fontes dos dois lados, portuguesas e chinesas – foi criticada por não ser muito exacta, por ter algumas falhas”, prossegue Tereza Sena.
O livro que agora será editado é, garante, o resultado de um projecto cujo manuscrito traduzido por Jing Guo Ping foi entregue em 2001. “Por algum motivo que desconheço – e que acompanhou um vazio de edições por parte do IC – o livro nunca foi editado”. A historiadora diz ainda que “sendo um documento fundamental, não se percebe que tenha demorado todos estes anos” a ver a luz. “Fico contente por saber que vai finalmente acontecer”, refere.
À data, além da nova tradução, era suposto fazer uma edição crítica da versão de Gonzaga Gomes, e ainda incluir anotações do historiador português Rui Loureiro. Conforme conta Jing Guo Ping na entrevista que publicamos, os planos terão sido alterados. Mantém-se ainda assim o modelo de edição anotada e que actualiza a obra a partir das novas versões dadas à estampa em língua chinesa.
Também Carlos Marreiros, que conhece bem a obra e o trabalho do seu primeiro intérprete para português – que a seu tempo terá lugar na série de fotobiografias que o Albergue conta arrancar em breve, com os retratos da vida de Carlos d’Assumpção e José Vicente Jorge – considera Gonzaga “o maior sinólogo de Macau, mas que naturalmente tinha falhas”, até porque a escrita de “Monografia de Macau” é “muito poética e susceptível de enganar, tem vários aspectos de erudição”. E conclui que “Gonzaga Gomes era bom mas era um autodidacta”.
O arquitecto que, aquando da passagem pela presidência do IC avançou com o projecto de “verter para um chinês mais moderno, e com notas de pé de página” a referida obra, considera-a “uma das mais interessantes sobre Macau, um livro notável” do qual também destaca as ilustrações. Já sobre a nova tradução de Jing Guo Ping, alguém que “sabe muito de português e que vive em Portugal há mais de 20 anos”, o responsável pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia considera-a “uma óptima notícia”.
Trabalho difícil
O próprio Luís Gonzaga Gomes – autor da tradução para o chinês de “Os Lusíadas, contados às crianças”, do “Resumo da História de Portugal” e dos “Vocabulário Cantonense-Português” e “Vocabulário Português-Cantonense” – admite as limitações da sua empresa no prefácio de “Monografia de Macau”. Define o livro como “uma raridade bibliográfica”, de que à data eram conhecidas pouquíssimas cópias, e através dos exemplares que possuía “não foi possível reconstruir certos caracteres que, devido à incúria do seu primitivo possuidor, se encontram delidos pela voracidade das traças”. Também as últimas páginas do segundo volume se encontravam “quase que ilegíveis (…), muito enxovalhadas e roídas pela bicharia”.
E depois dá conta de uma das principais contrariedades, que Jing Guo Ping também assinala: “Os caracteres desta obra, redigida no obsoleto estilo erudito, seguem-se uns atrás dos outros sem um único sinal de pontuação a facilitar a compreensão do texto (….). A cada passo, topa-se com um poema intercalado, a meio do texto, e ninguém desconhece quão difícil é traduzir para uma língua europeia, versos chineses com as mirabolantes imagens criadas pela fértil fantasia dos poetas nativos e as suas gongóricas citações mitológicas e históricas, num desconcertante alarde de exótica erudição”.
É esta “insuficiência de conhecimentos sinológicos” reconhecida e que coloca o trabalho “longe da perfeição” que Jing Guo Ping conta suprir com a nova tradução.
*A alusão à obra de L. G. Gomes é esta: Monografia de Macau / por Tcheong-Ü-Lâm e Ian-Kuong-Iâm. Tradução de chinês por Luís G. Gomes. Editada pela Repartição Central dos Serviços Económicos, Secção de Publicidade e Turismo, 1950. Este livro é tb conhecido pelo título Ou-Mun Kei-Leok.
Aomen Jilue - Uma Monografia de Macau - é, pois, um relatório sobre Macau, escrito por dois delegados do Imperador, Yin Guan-ren e Zhang Yulin (primeira edição 1751). A obra incluia poemas que tinham a dupla função de testemunho dos relatos e embelezamento do texto. Os temas dos poemas englobam descrições de viagens e embaixadas dos oficiais enviados aos países asiaticos com os quais a China mantinha relacções na época (o reino de Champa, Malaca, Vietname, Java, Filipinas e outros estados tributários) ou encontros e trocas culturais com os povos que aqui aportavam vindos do Grande Oceano Ocidental (Portugal, Espanha, Holanda...).
LGG foi um ilustre macaense. Nasceu em Macau em 1907 e faleceu na sua terra em 1976. Personagem plurifacetada, dotada duma enorme sensibilidade para a arte e literatura, postulou, toda a vida, uma simplicidade franciscana. Filólogo por excelência, foi, durante duas décadas, Professor do Ensino Primário e Director da Escola Pedro Nolasco da Silva, assumindo-se, desde muito novo, como um esclarecido conhecedor da língua e da cultura chinesa.
Tradutor e intérprete de reconhecido mérito, verteu, em língua chinesa, "Os Lusíadas, contados às crianças", elaborou o "Resumo da História de Portugal", o precioso "Vocabulário Cantonense-Português", assim como o "Vocabulário Português-Cantonense".
A ele se deve também a tradução (1945/6) para a língua portuguesa do conhecido livro "Ou Mun Lei-Leok", de autoria de Tcheng U Lám e Jan Kuong Iâm, dois altos funcionários chineses que no século XVII visitaram Macau e elaboraram pormenorizado levantamento sobre a administração, os usos e os costumes dos residentes estrangeiros.
Musicólogo de eleição, exerceu durante vários anos as funções de Director da Emissora de Radiodifusão de Macau, a par de outras como as de Conservador do Museu Luís de Camões (Macau), por si instalado na década de cinquenta, fundador e Director do Boletim do Instituto Luís de Camões (9 vol.), dos Arquivos de Macau (12 vol.), Tesoureiro do Grupo de Amadores de Teatro e Música, Secretário do Círculo de Cultura Musical, Chefe de Redacção da Revista "Renascimento", Secretário do diário "Notícias de Macau", etc.
A par da vida cultural, Luís Gonzaga Gomes, que nunca negava a sua prestimosa colaboração, foi também Secretário da Associação e da União Desportiva Macaense, Presidente do Rotary Club de Macau, etc., bem revelado do seu altruísmo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Moeda prata 100 patacas: 1979

Emissão especial comemorativa do ano chinês da 'Cabra':
no verso as 'armas' do Leal Senado

domingo, 18 de julho de 2010

Fotografias ca. 1938-40

Largo do Leal Senado
Vista da Penha
Porto Interior
Residência do Bispo e Igreja da Penha
Juncos

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Porta do Cerco: um século em imagens

Álbum de fotografias de 1910 (2ª parte)

Na legenda original "uma rua típica" que não consegui identificar
Como entretanto consegui obter mais detalhes sobre este tema http://macauantigo.blogspot.com/2010/05/album-de-fotografias-de-1910.html, aqui fica a 2ª parte de um primeiro post com o mesmo título mas com informação mais detalhada. No total o álbum é composto por 30 fotografias.
A saber: Praia Grande, the barra temple, entrance to the barra temple, pavilion in the barra temple, the praia grande from the governor's residence, an old street, fisching fleet, inner harbour, a summer sunset, vasco da gama avenue, road near military hospital, entrance to the kuan yam temple, the kuan iam temple, a typical macau street, ruin of san paulo cathedral, the military hospital, bella vista road, view from road below the guia lighthouse, panoramic view of the city, entrance to the avenida vasco da gama, the governor's residence, camoen's gardens, the guia lighthouse, in a chinese landscape garden, the macao hotel, camoen's square and sant antonio's church, praia grande from the military club, scenes on the quays, innner harbour, landing fish outer harbour.
Quando a Praia Grande 'chegava' mesmo em frente ao Grémio/Clube Militar
A estrada de acesso ao Hospital Militar Conde S. Januário
Rua da Bella Vista
Farol da Guia
Largo Camões e Igreja de Santo António
Vista da Chácara Leitão a partir da Guia
Palácio do Governo
Tribunal/Palácio Repartições e Correios
O "Macao Hotel" na Praia Grande
Porto Interior
Barcos de pesca no Porto Exterior

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tin-Tins

 
Durante largas décadas do século passado, as ruas de Macau foram frequentadas por vendilhões que transportavam sobre o ombro uma vara de bambu, com um cesto de verga em cada extremidade, recheado de produtos vários. Ficou célebre o longo grito que entoavam, enquanto circulavam nas ruas: “San-mai-lau-tong-lau-tit”.

O vendilhão transportava numa das mãos uma chapa quadrada de metal (geralmente em ferro), com meio centímetro de espessura por 11 centímetros de comprimento. Com o auxílio de dois dedos e um pedaço de fio, era preso um pequeno martelo igualmente de metal. À medida que circulavam pelas ruas, os vendilhões iam dando pancadinhas na chapa com o martelo, produzindo um som muito semelhante a “tin-tin”, expressão que ainda hoje é adoptada para designar os vendedores de rua.
Outros “tins-tins”, ao invés da vara de bambu com cestos pendurados nas extremidades, limitavam-se a transportar com eles um saco a tiracolo de lona. Estes ecoavam uma ladainha diferente, mas igualmente vulgar nas ruas macaenses: Sau-mai-cam-ngá-gau-keang-yok-kam-sau-piu”. Traduzida à letra, a expressão reza mais ou menos assim: Recolho dentes de ouro, óculos, jade, ouro, relógios de pulso, pulseiras, etc.”.
Outros, mais modestos, recolhiam garrafas vazias, latas de conserva e baldes. Na época do frio, por vezes, compravam animais de “estimação”, tais como cães e gatos, para serem revendidos a bom preço nos restaurantes chineses.
Havia também quem se dedicasse à compra de mobiliário velho (sobretudo em pau preto), a fim de ser restaurado e posteriormente vendido a melhores preços nas lojas/residências dos próprios vendilhões.
Negócio comum era também a compra e a venda de artigos de louça, tais como jarras, objectos de porcelana, bem como cachimbos para o consumo de ópio, em bambu ou metal. De tudo um pouco se vendia. Até medicamentos fora do prazo de validade...
Nos dias de hoje, os “tin-tins” continuam a marcar presença nas ruas históricas de Macau. Os produtos expostos nas barracas ambulantes ou nas mantas de lona espalhadas na calçada à portuguesa, esses, vão-se adaptando aos tempos que correm. Mas há uma tradição que se mantém fiel ao passado: os preços ainda se regateiam.
Texto de Leonel Barros publicado no Jornal Tribuna de Macau
Em suma, os tin-tins são lojas (ou apenas venda ambulante) de artesãos e/ou negociadores dos mais variados objectos de arte, quinquilharias, ferro-velho com uma presença secular em Macau. Estas lojas situam-se nas ruelas em redor do centro histórico de Macau. Tem especial relevo a zona da Rua dos Mercadores, traseiras do Mercado de S. domingos, Rua 5 de Outubro, Rua de Tercena, Rua dos Ervanários, etc... - em direcção ao Porto Interior. Naturalemente, nestes quarteirões existe outro tipo de comércio (alfaiatarias, latoarias, etc) e, claro está, não podiam faltar os establecimentos de sopa de fitas ou casas de chá. Percorrer esta parte de Macau é parar no tempo.
Escreve Leocardo no seu blog Bairro do Oriente - de onde as imagens foram retiradas, ficando aqui o agradecimento - o seguinte:
"Tintins", uma zona de Macau compreendida entre a Rua dos Mercadores, nas traseiras do Mercado de S. Domingos, e a Rua Cinco de Outubro. Sem ter bem a certeza, suspeito que esta zona foi baptizada de "tintins" pelos portugueses devido aos sao mai lou, um tipo de vendedor ambulante que colectava de porta em porta objectos que as pessoas não queiram, e revendia-os. Para chamar a atenção usava uma espécie de gongo que fazia um estridente barulho de "tin-tin-tin"."  
António Cambeta, português há várias décadas radicado em Macau, acrescenta:
"SAO MAI LOU, que traduzido literalmente quer dizer "(Apanhar SAO, comprar MAI homem LOU) Homem que recolhe e compra coisas velhas.A Alfaiataria do meu velho Amigo António Manuel, que ainda é vivo,graças a Deus, e foi o meu primeiro alfaiate em Macau, fica situada na Rua Nossa Senhora do Amparo, o seu letreiro diz, U SENG que é o nome da alfaiataria, IONG FOK traduzido literalmente quer dizer ROUPA PARA ESTRANGEIROS. Toda essa Rua e a rua paralela era e é cinhecida pelo zona dos Tins Tins, somemente nessa zona, embora, posteriormente tivessem aberto algumas lojas de antiguidades da na Rua 5 de Outubro e travessas adjacentes. Em chinês essa zona é chamada de LAN KUAI LAU. 

Coleccionismo em Macau

A palavra colecção deriva do latim "Collectiône" e significa acto ou efeito de juntar, de reunir objectos da mesma natureza formando um conjunto, um ajuntamento, uma colectânea. Contudo, coleccionar não é apenas o acto de reunir objectos, mas também uma forma de "construir" sentidos e conferir significados. É um acto criativo e criador de identidade.
O Desejo
As tradições mais recentes do coleccionismo remontam, em Macau, no seio da comunidade portuguesa e macaense, a uma época anterior ao início da Primeira Grande Guerra Mundial, época em que “floresceu em Macau a mania dos coleccionadores de arte chinesa” (1) . Em 1911, o último imperador abdica do trono, a dinastia Manchú entra em colapso e a República é proclamada por Sun Yat Sen, em Nanquim. As convulsões político-sociais obrigam ao êxodo de importantes dignitários imperiais que fogem através de Macau e vendem as suas preciosidades, inundando o mercado local de antiguidades chinesas.
Relatos da época descrevem que por toda a cidade havia peritos a fazer considerações sobre obras de arte chinesa. Os "sói-hák" (2) ou “soi-disant”, andavam de porta em porta a vender objectos supostamente de grande valor artístico.
As casas das famílias macaenses viram-se repletas de chinesices. As arcas, as vitrinas, os armários, as mesas de sacrifício, as paredes e os móveis abarrotavam de objectos, bonecos, cerâmicas, vidros e bronzes.
As descrições dos interiores das casas, apesar de ligeiramente romanceadas, atestam a moda que se gerou e em alguns casos deu origem à constituição de colecções capazes de fazer história. A casa de Vicente Jorge, um dos maiores coleccionadores da época, era descrita da seguinte forma: “(...) Não existe sala nenhuma daquele vasto edifício, que não esteja a regurgitar de ceramos e de objectos representativos de todos os ramos da arte chinesa. Não obstante ter de lutar com a falta de espaço, o Sr. Jorge consegue dispor os objectos da sua colecção com apurado gosto” . (3)
À medida que avançamos no século XX, a China depara-se com uma série de guerras civis. A situação não pára de se agravar até 1945.
Nesse contexto de guerra, as falências sucediam-se. As dificuldades de importação fizeram disparar os preços e tornava-se necessário negociar para sobreviver. Nas tendas de bricabraque da Travessa do Armazém Velho, onde se vendia um pouco de tudo, os preços eram bastante mais acessíveis. Era aí que muitos coleccionadores compravam e vendiam as suas peças. Uns por necessidade, outros por curiosidade, todos acudiam às tendas capazes de satisfazer as mais diversas necessidades... Esta prática acabaria por se tornar num verdadeiro passatempo desenvolvendo, em alguns casos, o desejo de coleccionar.
Preferências
Em todos os lugares de “cavaco” se falava de bronzes, pedras de jade, porcelanas, barros e quejandos. As peças mais apreciadas eram as da dinastia “Han” e “Song”, enquanto que as da época Ming eram tidas como peças modernas; as obras dos últimos reinados da dinastia Qing, como as do reinado de Kang Xi e Qinglong, eram naquela época tidas como vulgares e pouco apreciadas. As cerâmicas eram também um dos tópicos de conversa mais apreciados. Os ânimos exaltavam-se em considerações comparativas entre as famílias “azul”, “verde”, “rosa”, sendo o “sangue de boi” menos apreciado. Por ser uma arte superior, a pintura não motivava tantas discussões, constituindo uma espécie de monopólio de uma elite. Os gostos iam desde os cristais da Bohémia, aos vidros antigos, às porcelanas chinesas, aos objectos de esmalte, aos bronzes”. Era comum entre os grandes coleccionadores a ideia de que em Macau não existiam grandes colecções, nem públicas, nem privadas, e que o museu era paupérrimo.
O Roteiro
O roteiro do coleccionador passava pelos "ferro-velhos" que expunham as suas "safadas mercadorias” (4) na feira que ficava situada no largo do templo de Lin Kai (hoje Largo do Bazar), ou na rua Almirante Sérgio. As casas de penhores do bairro chinês eram também lugares de visita obrigatória. No entanto, a aquisição de objectos de reconhecido interesse e valor fazia-se em lojas com tradição na venda de objectos artísticos. Era o caso da Hón-Ku-Tchái, que com o início da guerra se terá estabelecido na Rua do Jogo ou das Estalagens, da loja Sôi-Tche'éong, na Rua Central, e da Tâk-Tch'eong situada na Rua do Hospital Kéang-U, propriedade do conhecido A-meng, grande conhecedor de cerâmica chinesa. Só assim se completava o roteiro do coleccionador. Os mais exigentes deslocavam-se ainda a Cantão, Xangai ou Hong Kong.
Falsificações
Todos os que se iniciassem nesta actividade sem conhecimentos em arte chinesa corriam o risco de serem ludibriados, dada a perfeição dos métodos de falsificação de peças artísticas:
"São donos de firmas que enterram objectos de bronze novos para se deixarem corroer e por uma concreção que lhes dê um ar de venerada antiguidade, a fim de serem vendidos só pelos seus netos; são bordados recentemente saídos das mãos de veneráveis bordadeiras que passam pelo fumo para adquirirem o tom de velharia; são peças de porcelana que astutos tanganhões conseguem restaurar com tal meticulosidade que só chegam a traírem-se pelo seu sonido rouco, vazio de vibrações; pinturas com selos forjados de autores e possuidores célebres, etc.…" (5)
Deste modo, tornava-se difícil adquirir um conhecimento profundo sobre antiguidades chinesas. Além disso, a arte da emulação era, na China, já muito antiga. Era comum entre artistas e artesãos a produção de obras de arte ao estilo de outros artistas e outras épocas: "os ceramistas antigos aporem nas suas obras de arte, marcas propositadamente metamórficas, existindo assim peças de cerâmica fabricadas no reinado de Iông-tchên com marca do reinado anterior de Hong-Hei, etc..” (6)
Detalhe da casa de Camilo Pessanha - Desenho de Carlos Marreiros
Coleccionadores
As principais colecções de arte chinesa constituídas antes da Segunda Guerra Mundial, em Macau, foram as de Camilo Pessanha, Silva Mendes e José Vicente Jorge. Destas três, só duas se conservaram praticamente intactas: a de Camilo Pessanha e a de Manuel da Silva Mendes; só a colecção de Manuel da Silva Mendes permaneceu em Macau.
Casa de José Vicente Jorge cerca de 1940
José Vicente Jorge
Oriundo de uma família estabelecida em Macau, pelo menos, desde o século XVII e que se celebrizou dado ao grande envolvimento na vida cultural da cidade, José Vicente Jorge (1872 –1948) viveu desde cedo em ambiente propício ao desenvolvimento das suas aptidões culturais.
A Colecção do Dr. José Jorge era, segundo Gonzaga Gomes, "(...) sem dúvida das três a mais rica e mais numerosa" (7). O seu palacete era "(...) um verdadeiro e valorosíssimo museu pletórico de incalculáveis preciosidades, que nenhum estrangeiro ilustre de passagem por esta colónia deixa de visitar” (8)
José Vicente Jorge reuniu uma colecção de cerca de 10.000 peças. Ele próprio escreveu e publicou ainda em vida um catálogo referente à sua vastíssima colecção –mais tarde, reeditado pelo Instituto Cultural, incluindo uma vasta biografia escrita por Pedro Barreiros. José Vicente Jorge é considerado o grande impulsionador das restantes colecções existentes, sobretudo a de Camilo Pessanha, do qual era amigo. Conheceram-se em 1903, no Liceu Central, onde ambos leccionavam. Aí leccionava também o outro grande coleccionador, Manuel da Silva Mendes.
Consta que Vicente Jorge apoiava Camilo Pessanha nas suas traduções de poesia chinesa e que, por sua vez, Camilo Pessanha ajudava Vicente Jorge no refinamento do português.
José Vicente Jorge chegou a fazer parte da Direcção do Museu Luís de Camões, cargo para o qual foi nomeado a 12 de Outubro de 1911.
A Colecção de José Vicente Jorge, constituída ao longo de 50 anos, era composta por peças dos principais ramos da arte chinesa – cerâmica, bronze, Jade, pintura, caligrafia, escultura, gravura, esmalte, laca, bordado e mobília.
Na sequência da II Grande Guerra Mundial, a colecção de José Jorge conheceu o seu fim. Segundo o P.e. Manuel Teixeira foi, pelo menos em grande parte, vendida para os EUA e a restante, segundo Pedro Barreiros, dividida pelos seus filhos.
Camilo Pessanha
Em 10 de Abril de 1894, Camilo Pessanha chegou a Macau. Para o início da sua colecção, muito contribuiu a relação com José Vicente Jorge, que se lhe julga ter incutido e apurado o gosto pelos objectos de arte chinesa no decurso das muitas visitas que Pessanha lhe fazia. (9)
A colecção que Camilo Pessanha reuniu, para mais tarde oferecer ao estado português, era constituída por 61% de Pintura Chinesa, num total de “220 obras de pintura e caligrafia englobando obras de pintura e caligrafia”, entre as quais se destacam os trabalhos de Su Liupeng, Yu Qilin, Ren Bonian, Wang Xizhi, Ma Yuan Yu, Gai Qi, Zhang Um, Zhiyun nushi e Shao Mi. Era uma colecção centrada em representações de carácter litúrgico, designadamente em personagens do panteão budista, seguida de representações de paisagem e incluindo ainda um grande número de obras de caligrafia. (10) 
Ao que se sabe, Camilo Pessanha gastou grande parte do seu património na aquisição de objectos de arte chinesa. Depois da sua morte surgiram na imprensa de Macau anúncios dando conta da venda dos objectos chineses por ele coleccionados.
“(..) excluindo os objectos que fizeram parte das doações que o poeta em alturas diferentes fez ao estado português, os objectos remanescentes alimentaram, ao que parece uma loja de antiguidades, aberta pelo seu filho, João Manuel propositadamente para vender o espólio do pai”. 11
De facto, na sequência da exposição Colecção de Camilo Pessanha, que teve lugar no Palácio do Governo, em 7 de Fevereiro de 1915, as cerca de 125 peças de arte exibidas foram oferecidas ao Governo Português, nomeadamente ao Museu de Arte Nacional (Museu das Janelas Verdes). Mais tarde, em 1925/6, seriam oferecidas mais 220 peças da Colecção de Camilo Pessanha também ao Governo Português, desta feita ao Museu Machado de Castro, em Coimbra – para onde os objectos da primeira doação tinham sido entretendo enviados.
Silva Mendes
Silva Mendes (1867 -1931), advogado e professor do Liceu de Macau, chegou a esta cidade em 1901, para se tornar num dos primeiros homens a dedicar-se a coleccionar e a estudar a arte da província de Guangdong.
O espólio que reuniu durante a sua vida em Macau integra uma vasta colecção de Cerâmicas de Shiwan, uma grande colecção de Pintura Chinesa de Cantão, cerâmicas do Palácio do Governo, desenhos e aguarelas de Chinnery, Wattson, Borget, Lam Qua, entre outros.
Por ocasião da morte do professor, a sua colecção foi posta à venda. Os jornais de Macau reclamaram ao governo a necessidade e a importância da aquisição desse espólio. Foi, então, constituída uma comissão para a avaliação da colecção (12), mas concluiu-se que o governo não dispunha do capital necessário para concretizar a aquisição. Os membros da comissão sugeriram que fossem recolhidos os fundos necessários junto de capitalistas chineses locais e que a colecção fosse doada ao Museu Luís de Camões (13). Assim seria (14) .
A colecção de Manuel da Silva Mendes tendo sido adquirida em 1932, por forma a integrar o espólio do Museu Luís de Camões, foi a única entre as grandes colecções da sua época que permaneceu na cidade de Macau. Desde então os responsáveis pela “casa das musas” nunca mais deixaram de insistir na sua vocação artística; e é por isso que hoje existe um Museu de Arte. Apesar da colecção Silva Mendes constituir, ainda hoje, grande parte do espólio do Museu de Arte de Macau, ele foi entretanto enriquecido através de aquisições e doações.
No ano de 1959, o "Museu Luís de Camões", com todo o seu espólio, foi transferido para o Leal Senado de Macau, que ficou responsável pela sua conservação e administração, mediante um subsídio anual concedido pelo governo (15). Em 1989, por falta de instalações, o Museu acabou por ser encerrado. A construção do Centro Cultural de Macau, que inclui uma área museológica, acabou por solucionar o problema. Sob a designação de Museu de Arte de Macau, foi inaugurado em 1999, o Museu que herdou todo o espólio do antigo Museu Luís de Camões, incluindo a colecção de Manuel da Silva Mendes. A cidade de Macau ficou desta forma dotada de um Museu exclusivamente dedicado à Arte, viu-se definitivamente transformado o panorama museológico e a memória colectiva da cidade.
Artigo da autoria de Margarida Saraiva, Mestre em Planeamento e Políticas Culturais Europeias, Montfort University, Leicester, Inglaterra, 12-07-2010
1. PE. TEIXEIRA, Manuel, in “O Clarim”, 17 de Abril de 1977 3. Gomes, Gonzaga, “Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge”, in Renascimento no. 2, 1943, p. 490.5. Idem, p. 488.7. GOMES, Gonzaga, “Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge”, in Renascimento no. 2, 1943, p. 490.9. JORGE, José Vicente, “Notas sobre a Arte Chinesa”, 1995, ICM, Macau.12. Portaria Provincial no 813, Boletim Oficial da Colónia de Macau, Março de 1932.
2. agentes que iam “desencantar peças de grande antiguidade em longínquas aldeias”, GOMES, Gonzaga, Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge, in Renascimento no. 2, 1943, p. 489.
4. Idem, p. 487
6. Idem, p. 488.
8. Idem, p. 490.
0. RIBEIRO, José Diogo, “Camilo Pessanha, Coleccionador de Arte Chinesa”, in Revista de Macau, III Série no 2, Julho de 2000, p 71.
11.Idem, p 73.
13. Relatório da Comissão nomeada para a Aquisição da Colecção de Manuel da Silva Mendes, 1932.
14. Livro de Actas das Reuniões da Direcção do Museu “Luís de Camões”, Acta no 5 de 18 de Julho de 1933.
15. Portaria Provincial no 231, Boletim Oficial da Colónia de Macau, 4 de Outubro de 1958.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

‘Viagem’ a partir de uma fotografia com António Conceição Júnior

Parte-se de uma fotografia. Um tempo a sépia. O pai no liceu aos 16 anos, os seus colegas, os professores, um passado vivido apenas por uma memória visual. Mas o sentido de pertença por uma imagem e por um impulso antigo muito presentes, no dobrar de uma esquina da memória. “Eu cresci com esta fotografia”, afirma António Conceição Júnior como se aquela recordação não fosse apenas papel, mas o desenrolar de uma vivência real e palpável com todos os seus sentidos.
“Macau tem uma continuidade, Macau é o fio”, refere Conceição Júnior, “as pessoas apanham o comboio na estação que for.” E continua, “se estão descoladas foi porque não apanharam o resto da viagem.” Estas são as palavras que reflectem sobre o acto contínuo do tempo, com as suas coincidências e factos, sem distinções entre presente e passado.
No seu desenrolar, os nomes saltam com toda a sua importância: Pessanha, Mendes, Gomes, Jorge. Os apelidos da biografia de uma cidade a acontecer. As personagens de uma enorme importância para a vida cultural de Macau. Sem esquecer o de Conceição, pai e filho, que formam o núcleo da espiral de um ciclo de acontecimentos que ocorreram após o simbólico momento congelado no tempo, a fotografia tirada no pátio do Liceu Infante D. Henrique, por um autor desconhecido. Vivia-se a história de Macau e com ela rola esta crónica de coleccionadores.
O próprio instante da fotografia é incerto. Se a fotobiografia de Camilo Pessanha refere o momento situado em 1921, Conceição Júnior marca-o no ano lectivo de 1925-26, pela referência do seu pai, o primeiro à esquerda, nascido em 1910. O poeta da ‘Clepsidra’ morreu no dia 1 de Março de 1926 e os protagonistas têm um ar demasiado veraneante para que o momento possa ter ocorrido nesse ano, o ano em que o BNU se mudava para as suas instalações actuais. Talvez seja lógico pensar que a imagem traz o final do ano lectivo anterior, com as taças e os prémios de toda uma época e o início das férias. Mas Macau é sempre um mundo tropical onde tudo é possível. Por detrás de Camilo está o jovem Luís Gonzaga Gomes. Sentado ao seu lado vemos Manuel da Silva Mendes e do outro lado da mesa dos troféus, no segundo lugar, está José Vicente Jorge, apoiado na cadeira. São eles as referências de uma visita guiada. O que têm em comum? Todos ousaram transpor a barreira da língua e ocupar um ponto na comunidade chinesa, compreendendo o chinês e estabelecendo ligações profundas com ela, numa procura pelo conhecimento da cultura local. Facto notável numa sociedade colonial pouco receptiva à aceitação de outras formas de assumir o quotidiano, com a sua zona cristã bem delimitada, que não se aventurava em conhecer o outro lado. Ainda hoje assim acontece. A viagem começa em Camilo Pessanha, não o poeta excêntrico, que lhe trouxe a fama, mas o advogado, de raro brilhantismo, o juiz e sobretudo o professor de Filosofia, História, Geografia, Português, Literatura e Direito admirado pelos alunos, figura central no mundo cultural, político e cívico da plataforma de Macau, à qual abordou em 1894. Tomando aí posições fundamentais no relacionamento entre portugueses, macaenses e chineses. Com a compreensão do idioma abandonou desde logo a postura eurocêntrica da maioria dos seus contemporâneos, levando-o desde logo a traduzir, de forma livre, poemas do tempo dos Ming (1368 a 1628). Talvez resida aí o rumor dessa poesia que viria a criar mais tarde. Na voz de Conceição Júnior vivem-se as histórias de Pessanha, as suas casas, na Sidónio Pais, na Praia Grande, na actual sede do Banco HKSB e, principalmente, o gosto pela arte que partilha com Silva Mendes, que fortalece toda uma relação de amizade. O Palacete da Flora a ir pelos ares com uma colecção rara de que hoje não se conhece o rasto. O espólio de Silva Mendes, o homem que vindo do Porto, em 1900, ainda hoje tem uma presença preponderante na arte do território. Mendes foi o primeiro europeu a coleccionar peças de qualidade com as características da cerâmica de Shek Wan, reconhecendo-a como um dos mais refinados exemplos da arte chinesa, encomendando diversas peças durante toda a sua vida, que podem ser vistas nos dias de hoje no Museu de Arte de Macau. E uma ligação ao presente começa então aqui.
Juiz multifacetado, professor e reitor do liceu, advogado, magistrado, presidente do Leal Senado, Manuel da Silva Mendes foi um dos intelectuais mais representativos da história de Macau, dedicando-se ainda ao estudo da filosofia taoista e flutuando nos enredos da arte chinesa, como erudito e coleccionador. A colecção valiosíssima de Silva Mendes viria a formar grande parte importante do espólio do Museu Luís de Camões, situado no que é agora a Casa Garden, que foi instalado, com grande competência e conhecimentos da arte chinesa, por um seu aluno, Luís Gonzaga Gomes, um dos símbolos de Macau, no lugar do diálogo, da harmonia e da tolerância. Nascido em Macau em 1907, sinólogo fervoroso, viria a traduzir para chinês “Os Lusíadas contado às crianças”, entre muitas outras obras escritas. Profundo auto-didacta, acabaria por ser o professor de língua chinesa, defendendo sempre a importância do seu ensino junto da comunidade de língua portuguesa. Facto que raramente teve repercussão. Aí se aprofunda a ligação a António da Conceição num tempo com todas as cores no jornal Notícias de Macau, situado no local preciso da actual Tribuna de Macau, a que viria a juntar-se o nome de Deolinda da Conceição, mãe de Conceição Júnior, como a primeira jornalista do território. E as imagens continuam, o Hotel Riviera, os anos a correrem, o Museu Luís de Camões, as peças de Silva Mendes sem rasuras a caminharem para a actualidade e, finalmente, a memória da família de José Vicente Jorge, também um sinólogo e grande coleccionador de arte chinesa, que se viria a mostrar no prelo nas suas “Notas sobre a Arte Chinesa”. As memórias passam ainda pelo seu palacete, por cima do Lilau, também ele repleto de obras de arte, com o seu rico jardim, um espaço vivido por dentro pelo condutor desta viagem. Pelas suas funções de intérpretes, professores e diplomatas, estas personagens da história foram a peça-chave da mediação cultural entre os dois mundos: o português e o chinês. Contribuindo para um entendimento, muitas vezes difícil, de forma exemplar. E pergunta-se pelo valor que tens estas memórias? “Têm o valor que as pessoas quiserem encontrar nelas”, responde Conceição Júnior, o homem do leme. “Pessoalmente penso que é uma questão intimista, no sentido que têm um valor muito subjectivo na medida em que na vida actual a objectividade tem cifrões.” É nesse idioma do cifrão que se fala na arte como se tudo começasse ser criado agora, onde se ouve sempre sussurro das indústrias criativas. Conceição Júnior responde: “Isso passa pela força do desconhecimento, pela ausência de memória, uma memória colectiva. Quando não se acede a essa memória provavelmente animam-se pensando que são as pioneiras de uma coisa que já foi pensada por gerações”. Haverá ligação ao passado, actualmente, numa comunidade tão diversa? Que significado poderão ter estes nomes que passaram pela história de um território sob o cunho português? Haverá importância para outro lado do trampolim, por entre os resquícios da “zona cristã”, nesta idade de casino?
António Conceição Júnior aponta: “Há um fenómeno de ruptura com a continuidade histórica, que não tem a ver com a transição, mas sim com os novos migrantes”. Assegurando que “neste momento é de uma imensa importância encontrar pontes entre as comunidades, não só sobre o actual mas também sobre passado. Porque só podemos saber para onde vamos se soubermos quem fomos, para finalmente sabermos realmente quem somos. Quem somos nós, afinal, as gentes de Macau?
Artigo de António Falcão publicado no jornal Hoje Macau de 13-07-2010