quinta-feira, 13 de maio de 2021

Aguarelas de Io Fong 姚豐

Nascido em 1950 na china continental, Io Fong / 姚豐 foi viver para Macau ainda menino tendo ali completado o ensino primário e secundário. 
Formou-se no Instituto de Belas Artes de Guangzhou - onde foi discípulo de He Lei - e em Macau aprendeu pintura com os grandes mestres do território como Leong Wai Man, Lok Cheong, Tam Chi San e Kuan Man Li. Aprendeu a técnica da aguarela com o mestre Wang Zhaoming. É um dos vários artistas de renome no território no domínio das aguarelas
Para este post seleccionei apenas algumas das suas muitas obras, a maioria aguarelas.
Antigo Hotel Cantão na Rua Nova do Comércio (esq.) e Rua do Guiumarães (dta)

Travessa das Calhandras

Travessa das Virtudes

Arco comemorativo (Dia da China) no Porto Interior

Calçada de S. Lázaro

Casa do Mandarim

Largo do Senado / Correios

Fachada da Igreja Mater Dei

Templo de Ma (Barra). 1990

quarta-feira, 12 de maio de 2021

"China and Portugal" no "Tokio Times" a 12 Junho 1880

Na edição de 12 de Junho de 1880 o jornal "Tokio Times" publica dois artigos com referências a Macau. Um deles, o que escolhi para este post é sobre a problemática da época, a disputa da soberania de Macau entre "China and Portugal", tendo por base vários artigos de outros jornais da região. 
Aqui fica um excerto:
More than three centuries ago in the year 1557 a few Portuguese traders took up their residence at Macao. They had already settled on some of the neighboring islands but Macao offered many advantages and soon became an important trading station. At that time the China seas and rivers were infested with pirates. The Chinese government then in a most feeble condition and for a long time the marauders conducted themselves pretty much as they liked pillaging and destroying to their heart's content. So numerous and powerful had they become and so weak were the authorities that the latter instead of punishing were sometimes glad to make terms with them. The pirates on one occasion even went so far as to blockade the port of Canton. The Chinese then knew little of foreigners and the pirates imagined that the foreign traders would be a valuable and easy prey. So the native adventurers began to molest the Portuguese. But they found that the foreign devils were not to be overcome so readily and they soon had reason to regret having molested them.
The early Portuguese were hardy and daring men and they decided on making short work with these pirates. Manning and arming a few vessels they succeeded in raising the blockade of Canton and cleared the seas of the buccaneers. The foreigners thus rendered an service to the Chinese who thankful for such protection were probably glad to see Macao rise into strength and importance. The subsequent history of the settlement is pretty well known. The city grew and prospered. The ruins of stately churches and public buildings evidence former grandeur. But its glory has departed. Its trade has also ceased and the terrific typhoon of September 1874 laid great part of the place in ruins.
Baía da Praia Grande. Foto da época - ca. 1870 - de Lai Afong
Não incluída no artigo referido

Macao is most beautiful situate, so beautiful indeed does it seem from the water it has been spoken of as a miniature Naples and Bowring described it as the Gem of the Orient earth and open sea.
Macao is rich in historical associations. It was here Camoeus composed the Lusiad, one of the noblest national epics and the gardens in which the great poet labored his masterpiece are carefully kept and shown with pride to the visitor. Even now there is a kind of mediæval and religious aspect about the place which seems to transport one centuries back. The wearied and debilitated of Hong Kong find the quietude and pleasant climate Macao an agreeable change and frequent visits are paid it during the hot summer months. But Macao, beautiful as it still is, and prosperous as it once was, is associated with an infamy that will never be forgotten. The old traffic - the slave trade in another name - had its home here. Ignorant Chinamen were sedneed from their villages often indeed openly kidnapped and brought to Macao where they were contined in barracoons till taken board the coolie ships to be despatched to distant. The horrors of the voyage were often as great as sufered by African slaves during the middle passage when they arived at their destination it was only to further and continued cruelties. (...) Attention is just now attracted to Macao in of a dispute about it between the governments of China Portugal. The sovereignty over the ancient foreign settlement has never been properly determined. For nearly centuries that was until 1818 a small annual rental an admission of China's authority over it. In that however the Portuguese governor refused to make the payment and his refusal it is said led to his being murdered by the Chinese. The Portuguese soldiers then attacked Chinese in the neighborhood; no rent has since been paid and Portugal claims the place as her possession. Chinese however have never admitted the claim and just refused the request of Portugal to formally announce latter's supremacy over Macao. It is a very old dispute but it is not strange that it should have cropped at the present time.
The London and China Express says It is difficult to understand why Portugal has made claim at all. We are afraid that our London contemporary notwithstanding that it devotes its special attention matters relating to China is not very far seeing in present instance. In view of a probable war China and Russia it is of very considerable importance know whether Macao belongs to China or Portugal. We already pointed out that during such a war Russia would have the right, as she probably has, the naval power to blockade the Chinese ports which for the time it might be or even years would put an end to all foreign trade .
Macao is Chinese territory as China has always contended - and against this contention there exists no international agreement - it may be blockaded. But if Macao belongs to Portugal it would remain an open port and the only one in China. The only maritime outlet for the foreign trade of vast empire it would rise into an importance which even its palmiest days it never approached. It will be seen therefore that the question of the sovereignty over Macao is of the utmost importance not only to the governments immediately concerned but possibly to all connected with Chinese trade; and that it is of the greatest consequence Portugal to obtain an acknowledgment of her claims. The present diplomatic dispute involves general tradal interests and its progress will be carefully watched, Shangai Courier."

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Documentos para o Projecto para Obras dos Portos

Velha aspiração de Macau (desde o século 19) as obras dos portos só se iniciaram já na segunda década do século 20. Visavam fazer face ao assoreamento constante do delta do rio das pérolas junto ao território de forma a que fosse navegável por embarcações de maior calado, diminuindo a dependência de Macau face a Hong Kong que tinha um porto de águas profundas, algo que Macau nunca teve.
Veja-se esta notícia - excerto que transcrevi para o português actual - publicada no jornal O Macaense a 7 de Dezembro de 1882:
"Macau acha-se nas condições de um enfermo que está em risco de morrer asfixiado. 
Já hoje o vapor de Hong-Kong encontra dificuldades para sair do cais, amanhã não poderá entrar no porto interior, outro dia os juncos chinas de cabotagem não poderão também entrar, e mais tarde, nem os barcos dos pescadores poderão vir a esta cidade por falta de água. 
Assim acabará o porto de Macau, e com ele cessará de existir Macau, como cidade marítima e comercial.  Esta catástrofe não se fará esperar por longo tempo, se continuar a mesma incúria do governo. O assoreamento do porto cresce a olhos vistos. 
Todos acham necessário um pronto remedio, todos lamentam e clamam. O governo, porém, conserva-se mudo e quedo. Nada se tem ainda feito para remover este mal ou para o atenuar ao menos."

Em 1883 o governo de Lisboa envia o engenheiro militar Adolfo Loureiro para Macau a fim de estudar a questão. Dessa viagem resulta logo em 1884 o livro "O Porto de Macau / Anteprojecto para o seu melhoramento", mas as obras demorariam muito mais tempo.
O grande obstáculo era a estimativa do custo: 2.250.000$000 - dois milhões, duzentos e cinquenta mil reis. Só em 1903 Lisboa decide avançar mas ainda assim com muitas limitações face ao projecto inicial. Circunstâncias várias fizeram com que parte significativa das obras se fizessem entre o final da década de 1910 e o fim da de 1920.

A empreitada foi adjudicada à empresa holandesa Netherlands Harbour Works com vasta experiência no oriente, nomeadamente no Canal do Suez e em Hong Kong. O plano de melhoramentos abrangia não só a península como também a ilha da Taipa, mas em especial a zona da Areia Preta, a nordeste, e o Porto Exterior, a sudeste. Em 1918 foi criada a Missão de Melhoramentos dos Portos de Macau , com o objectivo de se iniciarem de imediato as obras do Porto Interior
As obras de aterro do Porto Exterior tiveram início em Maio de 1923. Incluíram o aterro junto à porta do Cerco junto ao Istmo Ferreira do Amaral onde foi construído um campo de corridas de cavalos. Já o aterro desde a Areia Preta até ao Templo de Tin Hau, na Colina D. Maria II, e ao longo da Travessa da Praia, a sudeste do sopé da Colina da Guia, até à zona Este da Praia Grande, seria o Porto Exterior, cuja obra ficou completa em 1926.
Uma das dragas usadas nas obras
Nem tudo do que foi projectado terminou executado como se pode verificar nos mapas
Um exemplo entre os muitos livros publicados na altura sobre esta empreitada de Justino Henrique Herz.
Obras dos Portos de Macau: Serviços Hydrograficos e Subsidiarios, Relatorio de 1925 Macau: Typ Mercantil de N.T. Fernandes & Filhos, 1930

domingo, 9 de maio de 2021

"Voyage of the United States Frigate Potomac"

"Voyage of the United States Frigate Potomac: Under the Command of Commodore John Downes, During the Circum-Navigation of the Globe, in the Years 1831, 1832, 1833, and 1834". Publicado em 1835 o autor deste relato de viagem da primeira metade do século 19 com passagem por Macau é Jeremiah N. Reynolds. 
A embarcação é a Potomac dos EUA que entre os anos de 1831 e 1834 fez a "circum-navegação do globo".
Excerto:
The town of Macao is in latitude 22 13 north longitude 113 46 east. The city of Canton is about sixty miles further inland in the direction of north northwest The whole bay or estuary is thickly studded with rugged and barren islands.
Macao is on the west side of the entrance built on a peninsula which is almost an island being joined to the main by a very narrow isthmus across which is erected a barrier or wall about two miles north of the town being the limit prescribed to the ceded territory to prevent any intercourse between the Portuguese and the liege subjects and citizens of the Celestial Empire.
This barrier was constructed in fifteen hundred and seventy three and the heaviest penalties were threatened to those who passed it in either direction. These restrictions however have gradually fallen into disuse and are not at all regarded at present. This site for a commercial establishment was ceded to the Portuguese as a recompense for an essential service they had rendered the Emperor of China. About the year fifteen hundred and thirty eight a pirate of notorious daring and success having under his command a considerable naval force took possession of this peninsula and was thereby enabled to block up the southern ports of China and even extended his audacity so far as to lay siege to Canton In this extremity the neighbouring.
Mandarins applied for assistance to the Portuguese who had an establishment at Sancian an island on the coast with several ships of war in the harbour which were instantly despatched against the pirates. The Portuguese proved victorious and raised the siege and pursued the piratical chief as far as Macao where he put a termination to his own existence.
His band however or a nautical banditti of a similar class long continued to infest the islands coasts and rivers in the neighbourhood even until the year eighteen hundred and ten when they were effectually subdued by the joint efforts of the Portuguese English and Chinese.
When the Emperor of China was informed of the service which the Portuguese had rendered him on this occasion he bestowed on them the Peninsula of Macao as a mark of his gratitude. They had long wished to establish themselves upon a footing more solid than the one they had at Sancian and now proceeded with avidity to build a town on their new territory which soon became very flourishing being most advantageously situated for prosecuting a trade with Japan It is defended by three forts.
The approach to Macao from the sea is very beautiful in trie daytime and is not without its charms by a brilliant moonlight It was midnight when the frigate came to anchor in the road.
The following morning brought with it novelty if nothing more. The fleet of little boats were all in motion. The land around seemed broken into a thousand hills covered with stinted verdure Macao though distant looked beautiful and highly picturesque. Every thing was new to the beholder and strikingly characteristic of a foreign land. One reason perhaps why China and every thing connected with it imparts the idea of wonderful is that each stranger who visits this country is previously determined to be astonished at every thing he sees and hears nor will strange things be wanting. Early in the morning an officer was sent to communicate with the authorities of the town of Macao and while he was still absent on that duty the Potomac's anchor was weighed and her sails loosed. (...)

sábado, 8 de maio de 2021

Canton Frowns on Portugal's Macao Colony: 1932

Telex da agência noticiosa Associated Press de 2 de Abril de 1932 e depois reproduzido em vários jornais um pouco por todo o mundo. O título em português é: "Cantão desaprova a colónia portuguesa de Macau". Em baixo o excerto em inglês e a tradução que fiz do mesmo.
Canton Frowns on Portugal's Macao Colony
Canton, April 2 (AP). The Canton government is beginning to get vicious about Macao, the Portuguese colony a hundred miles down at the mouth of the Canton river. 
Macao has long been the oriental gamblers' paradise but Canton has announced its determination to forge a 'ring of steel' round the colony so as to 'curb that wicked city's influence upon South China'.
Lives on Gambling
Macao has been a colony hanging on to the skirts of China for 400 years, being given to the earliest Portuguese navigators in return for fighting pirates that then infested the South China sea.
Macao lives solely by opium and gambling monopolies which are auctioned in public annually.
The Chinese is a born gambler and flocks there to try his luck at fan-tan, to smoke a pipe of opium in quiet and peace, and enjoy the free and easy life generally. 
Hong Kong is only four hours away by steamer and every Sunday excursion steamers unload mobs of passengers, out to try their luck on the tables. (...)
Now Macao is adding to its attractions dog racing, with a thin are. the new sport is going like wild-fire, to the disgust of the government in Canton which has warned that any Chinese known to patronize the dogs will be branded a traitor and deprived of his civil rights. (...)
Casa de jogo de Fan Tan ca. 1910/20 (imagem não incluída no artigo)

É cada vez maior a ira do governo de Cantão com Macau, a colónia portuguesa a 160 quilómetros de distância na foz do rio Cantão. Macau é há muito o paraíso dos jogadores orientais, mas Cantão anunciou a sua determinação em forjar um "anel de aço" à volta da colónia, de modo a "refrear a influência daquela cidade perversa no Sul da China". 
Viver de jogos de azar 
Macau foi uma colónia que se manteve à margem da China durante 400 anos, sendo dada aos primeiros navegadores portugueses em troca da luta contra os piratas que então infestavam o mar do Sul da China. 
Macau vive exclusivamente dos monopólios do ópio e do jogo, que são leiloados anualmente em público. 
O chinês é um jogador nato e vai lá para tentar a sorte no fan-tan, para fumar um cachimbo de ópio em paz e tranquilidade e desfrutar de uma vida livre e fácil. 
Hong Kong fica a apenas quatro horas de viagem de vapor e todos os domingos estas embarcações trazem multidões de passageiros, para tentar a sorte nas mesas de jogo. (...) A mais recente atracção de Macau são as corridas de cães. O novo desporto está ao rubro para desgosto do governo de Cantão, que advertiu que qualquer chinês conhecido por patrocinar os cães será rotulado de traidor e privado de seus direitos civis. (...)

sexta-feira, 7 de maio de 2021

O "Relógio da Cidade"

Excerto do Archivo Pittoresco:
Numa das torres da cathedral ha um relogio que se pode chamar monumental porque commemora elevação do senhor D Pedro v ao throno dos maiores. Quando em Macau se festejou este fausto, o bispo D Jeronimo suscitou a lembrança d'uma subscripção para compra e collocação de um relogio que utilisasse a todos os habitantes da cidade porque a cathedral está edificada na parte mais alta da povoação. A idea foi logo acceita e applaudida e em pouco tempo subiu a subscripção a quasi 1 500 patacas ou um conto e quinhenos mil réis. Concorreram com patacas os subditos portuguezes residentes em Cantão e os de Hong Kong com 223 e os habitantes de Macau com o restante.
(...) O relogio foi expressamente feito em Inglaterra pelo acreditado fabricante Thwaites & Reed á vista da planta e perspectiva da torre obsequiosamente e com muito primor tirada pelo macaense C. A. Osorio, que com C. V. da Rocha, depois mui intelligentemenle dirigiu os trabalhos da collocação do mesmo relogio. Foi collocado na torre nos fins do anno passado e devia bater pela primeira vez horas á meia noite de 31 de dezembro, isto é, no solenne momento de começar o novo anno 1858. 
O relogio tem gravada a seguinte inscripcão commemorativa: R.P. V. - AD MDCCCLVII - PME. Ou seja... REGNANTE PETRO V - ANNO DOMINO MDCCCLVII - Populus MACAENSIS EREXIT.
"O plano do accressimo da torre de Santo Agostinho foi ja aprovado e a obra está ajustada. O relogio chegado de Inglaterra é igual em tudo ao da Sé Cathedral com mostradores transparentes que hão de ser illuminados de noite: de sorte que em poucos mezes esperâmos que este melhoramento esteja introduzido na cidade."
A pequena notícia é de uma edição de 1866 do Boletim do Governo de Macau.
Perspectiva do Largo da Sé no início do século 20 e no início do séc. 21

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Macao: A Spot of Schizophrenia In the Far East

Macao: A Spot Of Schizophrenia In the Far East.
Under the wary eye of China, a tiny Portuguese outpost thrives on Western ways. Gambling, strip shows, wheeler-dealer trade make it Asia's fastest-growing economy. Will China let it survive? (...) Here in the Far East is a place that logically doens't exist. A corner of ancient China that Peking doesn't want. A Portuguese outpost where hardly anyone speaks that language. An economy abandoning fish and firecracker for toys and TV's. A society that thrives on gambling but frowns on vices of the flesh. A place where some Communists are campers and some coolies are capitalists. Macao, nevertheless, has survived against reason for more than four centuries and it seems destined to go right (...) Casino's are Macao biggest money maker, ranking on profits of up to 200 million dollars each year. (...)
Only a few trusted insiders of the Sociedade de Turismo e Diversoes de Macau, usually called "the Syndicate", know how many people gamble here, how much they bet and what happens to the money. (...) Few local people frequent the casinos. Government employes are not allowed to bet at the tables except on certain holidays, and low salaries keep most others away. But residents raiser huge sums at weekend greyhound and horse races at the annual Macau Grand Prix that sends powerful Formula One racing cars roaring along roads filled the other 364 days by slow-paced pedicabs. (...)
Plenty of nudity is displayed at Crazy Paris strip shows in the Orient's oldest European-style theater.
Macau: local esquizofrenia no Extremo Oriente.
Sob o olhar atento da China, um pequeno posto avançado português prospera com métodos ocidentais. Jogos de azar, shows de strip-tease e comércio de revenda fazem desta economia a de mais rápido crescimento em toda a Ásia. Será que a China o continuará a permitir? (...) Aqui no Extremo Oriente existe um lugar que pela lógica não deveria existir. Um canto da China antiga que Pequim não quer. Um posto avançado português onde quase ninguém fala essa língua. Uma economia que vai trocando a indústria da pesca e dos panchões pelo fabrico de brinquedos e televisores. Uma sociedade que prospera no jogo, mas desaprova os vícios da carne. Um lugar onde alguns comunistas são campistas e alguns coolies são capitalistas.
Contra todas as probabilidades Macau, no entanto, sobreviveu durante mais de quatro séculos e parece destinada a dar certo (...) Os casinos são os maiores produtores de dinheiro de Macau, obtendo lucros de até 200 milhões de dólares por ano. (...) Apenas algumas pessoas e confiança da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, normalmente designada por "o Sindicato", sabem quantas pessoas jogam, quanto apostam e o que acontece ao dinheiro. (...) São poucos os residentes que frequentam os casinos. Os funcionários públicos não podem apostar, excepto em certos feriados, e os baixos salários mantêm a maioria dos outros afastados. Mas os habitantes locais arrecadam grandes somas nas corridas de galgos e cavalos no fim-de-semana do Grande Prémio de Macau, que leva até ao território carros de Fórmula 1* que rugem pelas estradas ocupadas os restantes 364 dias do ano por lentos riquexós. (...) Muita nudez é exibida nos shows de strip do Crazy Paris no mais antigo teatro de estilo europeu do Oriente.**
Excertos de um artigo da "U.S. News & World Report", 1981
Guy Lesquoi com as dançarinas na década de 1980; o homem que Stanley Ho (STDM) foi buscar à Europa e que se manteve 15 anos à frente do espectáculo.***
* referência às provas desportivas motorizadas; o que mais se aproxima da descrição são os carros da Fórmula 3 e ainda assim a primeira prova só aconteceu em 1983.
** espectáculo que se estreou em 1979 no Teatro D. Pedro V onde esteve em exibição durante vários anos até se mudar para o Hotel Lisboa (sala Mona Lisa) - imagens acima não incluídas na revista referida. Actualmente está patente no Grand Lisboa.
*** Em breve publicarei post sobre a história deste espectáculo.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Sun Yat-Sen em Macau: Maio de 1912

Sun Yat Sen está ligado a Macau por diversas formas e em diferentes fases da sua vida. Passou por Macau pela primeira vez com 12 anos, em Maio de 1878, para apanhar o barco que o levaria até ao Hawai ao encontro do irmão de seu pai. Em 1892, com 26 anos e terminado o curso de medicina, decide vir estabelecer-se em Macau. Escreverá assim: "Acabado o curso de medicina, comecei a exercer a profissão em Macau e em Cantão. Foi em Macau que iniciei a minha carreira a e a minha vida de revolucionário. Ao longo de vários anos, quando não tinha aulas sempre viajava entre Hong Kong e Macau fazendo propaganda revolucionária sem medo nenhum."
Começa a trabalhar, como médico, no Hospital Kiang Wu. Reside no prédio n.º 19 do Largo do Senado e abre consultório no n.º 48 da Rua de Estalagens, praticando medicina europeia, fundando ainda uma Farmácia chinesa, recentemente restaurada e aberta ao público.
Fundada a República na China, em 1911, sendo ele dos fundadores, Sun Yat Sen, voltaria a Macau em Maio de 1912 onde foi alvo de uma grandiosa recepção. Dessa visita existem pelo menos três registos fotográficos: um no Grémio Militar, outro no hospital Kiang Wu e ainda no Yui Yuen, o Pavilhão Iong Sam Tóng da residência de Lou Kao ou Lou Lim Iok (hoje Jardim Lou Lim Ieoc), onde Sun Iat Sen esteve hospedado duas noites.
Esta última é a imagem acima. Na primeira fila, sentados, à esquerda, podem ver-se Camilo Pessanha e, ao centro da foto, ao lado do Dr. Sun Yat Sen, a mulher do Governador de Macau, e o próprio governador, Álvaro de Melo Machado. Do lado esquerdo do Dr. Sun, a filha mais velha, Sun Wan e Francisco Hermenegildo Fernandes, um dos seus grandes amigos macaenses.
No Grémio Militar a 25 de Maio de 1912

terça-feira, 4 de maio de 2021

Padre Joaquim Guerra: 1908-1993

As "Quadras de Lu", conhecidas entre as obras chinesas com o nome de "Primavera-Outono", são uma selecção de documentos dos arquivos oficiais de Lu, referentes aos anos 722 a 481 anteriores à nossa era e compostas por Confúcio. 
O padre Joaquim Guerra - nome chinês 戈振東 - nasceu no Fundão, entrou na Companhia de Jesus em 1925 e foi para a China em 1933, onde ensinou Filosofia no Seminário de Macau, cursou Teologia na Faculdade Pontifícia de Zikawei, em Xangai e em 1940 começou os seus estudos de Chinês. Regressado do Norte da China, trabalhou na Missão de Shiuhing, de onde foi expulso em 1951. Após vários meses de prisão, passando a trabalhar em Macau, onde abriu escolas e centros sociais. Regressou a Portugal em 1959 com problemas de saúde. Foi integrado na Equipe de Emergência enviada à América Latina durante dois anos e meio. Regressado a Portugal, foi professor de Chinês no Instituto de Línguas Africanas e Orientais durante cinco anos e, a partir de 1973 iniciou a tradução dos Clássicos Chineses.
Tradutor de diversas obras clássicas do Oriente e autor de outras, Joaquim Angélico de Jesus Guerra nasceu na aldeia de Lavacolhos (Fundão) em 1908. Integrou a Companhia de Jesus em 1925 e partiu para uma missão em Xangai, na China, em 1933, acabando por passar no Oriente a maior parte dos seus 85 anos.
Em 1951, o regime expulsa-o da China, onde escapou à condenação à morte por três vezes. Depois, em Macau, dividiu-se em actividades de natureza social e docente. Regressou a Portugal para leccionar língua e cultura chinesa no Instituto de Línguas Orientais, de 1965 a 1970, mas continuaria a passar pelo Oriente e a aprofundar a sua obra. Morreu em 1993, em Lisboa, depois ter sido atropelado em Toronto, no Canadá. Entre os seus trabalhos destacou-se um dicionário e a tradução inédita da obra clássica de Confúcio.
Numa entrevista dada em 1992 (publicada na Separata da "Asianostra: Revista de Cultura Portuguesa do Oriente",n.º 1, Maio, 1994) afirmou: “No meio da minha vocação missionária é que veio a minha vocação para jesuíta. Quando me encontrava já no noviciado, a providência de Deus trouxe de Macau, também para jesuíta o Padre Pedro Hui, tio do conhecido advogado Philip Xavier. Foi ele quem me ensinou os primeiros rudimentos de cantonês”.
Sobre a viagem que o levou ao Oriente em 1933: “Embarcamos no D’Artagnan II, com destino a Shanghai, juntamente com muitos outros missionários e missionárias. Em Singapura, na Missão Portuguesa, preveniram-me de que talvez não fosse mesmo para Shanghai pois era muito necessário um Professor de Filosofia no Seminário de Macau. E de facto, ao chegar a Hong Kong, o Padre António Maria Alves, SJ, homem dos cinco continentes, pôs-se-me de joelhos a pedir ajuda. E fiquei no Seminário de S.José dois anos a ensinar Filosofia, Matemática, etc.”.
A guerra sino-japonesa do final da década de 1930 levaram-o novamente a Macau:
Edição de 2004
"Em plena Guerra, atravessando o campo de batalha, regressei a Macau para ensinar, uma vez mais Filosofia, por dois anos. Deixe-me contar-lhe só um episódio. A certa altura da viagem, desesperado, digamos, mais pela sede do que pela fome, pedi a uma mulher que estava a vender, para me preparar um chá. Mas, quando a vi buscar água no rio que eu via pejado de cadáveres e eu me encontrei a beber o chá assim preparado, é que pude avaliar como um homem em necessidade perde ou pode perder a sensibilidade”.
Terminada a guerra regressou à China e ali viveu mais alguns anos até que, depois da chegada ao poder dos comunistas em 1949, seria preso, julgado e condenado à morte. Acabaria por ser solto e contou essa aventura no livro  “Condenado à Morte”, editado em 1963.
Solto na China voltaria a Macau onde fundou o “Colégio Estrela do Mar” em 1955. (ainda hoje existe na Rua do Padre António)
Anos depois volta a Portugal mas já na década de 1970 surge uma hipótese de voltar a Macau:
“Em Janeiro de 1973 a Editorial Verbo de Lisboa, pediu-me algumas traduções dos Clássicos Chineses para a sua Biblioteca Integral de Clássicos Mundiais (…) Correspondi com gosto. Pensei que a melhor maneira de o conseguir era com outros. E para isso tinha de regressar a Macau. Pedi a vários chineses e ao meu amigo Luís Gonzaga Gomes para nos lançarmos à tradução. Mas todos se negaram. Até o famosíssimo Cónego André Ngan, que escrevia como o Padre António Vieira, me respondeu : ‘ ah! esse chinês antigo não é para mim. Isso ultrapassa-me’. Não sei se era por modéstia ou se era por respeito à cultura chinesa”.
Desse seu trabalho resultam por exemplo: “Livro dos Cantares”, 1979; “Escrituras Selectas”, 1980; “Quadras de Lu e Relação Auxiliar”, 5 volumes, 1981-1983; “Quadrivolume de Confúcio”, 1984; “As Obras de Mâncio”, 1984; “O Livro das Mutações”, 1984; “A Prática da Perfeição”, 1987.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Macau Trotting Club / Macau Jockey Club

No folheto turístico Macau Travel Trade Handbook de 1981 refere-se:
"Horse Trotting” – The Macau Trotting Club has already opened its first harness racing track in Asia on the historical Island of Taipa. All horses purchased in Australia and New Zealand have attained a standard of 2 minutes 14 seconds for the mile. The oval-shaped track is five furlongs in length and 80 feet wide with inner and outer track. The track is 20 feet wider than tracks used overseas, thus allowing more room for overtaking. 
The five-storey stand has a capacity for 15,000 people with restaurants seating 1,5000. Parking facilities are available for 750 cars and 40 tour buses. Public admission tickets cost 3 patacas.
On the day of the races, the Trotting Club will provide transportation to amd from the track at the bridge terminal near the Statue of Governor Ferreira do Amaral, just in front of the main entrance of Hotel Lisboa."
O Macau Trotting Club foi fundado em 1980
Denomina-se Macau Jockey Club desde 1989


domingo, 2 de maio de 2021

Carta de Portugal e suas colonias: 1873


Carta de Portugal e suas colonias, 
Coordenada por Hugo G. de Lacerda*
official de cavallaria (...), Lisboa, 1873

* Exerceu por duas vezes o cargo de Governador de Timor (subordinado a Macau): 1873 a 1876 e 1878 a 1880.

sábado, 1 de maio de 2021

"Calçadas" em 1883 nas "ruas do bairro chinez"

Esta informação consta de um relatório do director das Obras Públicas publicado em Janeiro de 1883. Dá conta das ruas que entre 1881 e 1882 passaram a ter calçada à portuguesa em vez de serem cobertas de terra.
"Tem melhorado consideravelmente a viação pública em Macau. Uma grande parte das ruas do bairro chinez, que eram ainda há pouco uns verdadeiros lameiros quando chovia, estão actualmente calçadas."
Dos topónimos referidos apenas um mudou de nome no início do século 20. A rua Nova d'El-Rei passou a chamar-se Rua de 5 de Outubro. Em baixo a rua da Felicidade onde se pode ver o restaurante Tai San Yuan.