domingo, 4 de fevereiro de 2018

De "Princess Margaret" a "S.S. Macau"

The Princess Margaret was built in 1931 by Wm. Denny of Dumbarton for the LMS (London, Midland & Scottish Railway) route from Stranraer to Larne. She was 325ft long, 2838 gross tons, and carried 1250 passengers, with 107 first class berths, and 54 second. Her speed was 20.5 knots. She also ran some coastal cruises and trips to Bangor from Larne. In 1939, on the appearance of the new Princess Victoria, she was transferred to the Heysham-Belfast route, returning to Stranraer when the new ship was requisitioned for war service. She was reconditioned after the war, being converted to burn oil in 1952. She passed to CSP (Irish) when the railways were nationalised, and was withdrawn in 1961, when the new Caledonian Princess arrived. She was sold to Shun Tak of Hong Kong, renamed Macau, and used to the port of that name.
A embarcação "Princess Margaret" foi construída em 1931 pela Wm. Denny of Dumbarton para a rota LMS (London, Midland e Scottish Railway), ligando Stranraer a Larne. Com 325 pés de comprimento, pesava 2838 toneladas e transportava 1250 passageiros (com 107 camarotes de primeira classe e 54 na segunda classe. Atingia de velocidade máxima os 20,5 nós. Fez ainda alguns cruzeiros costeiros e viagens para Bangor a partir de Larne. Em 1939, com o surgimento de uma nova embarcação com o mesmo nome, foi transferida para a rota Heysham-Belfast, retornando a Stranraer quando o novo navio foi requisitado para o esforço de guerra. Depois da segunda guerra, em 1952, foi alvo de profundas remodelações incluindo o motor que passou a ser alimentado a óleo (antes era a carvão). Entrou então ao serviço da empresa irlandesa CSP quando as ferrovias foram nacionalizadas.
Em 1961, com a construção da nova embarcação Princess Caledónia, foi retirada da circulação e vendida à empresa Shun Tak, de Hong Kong, (e à STDM) que após alguns trabalhos de transformação, a rebaptizou de "Macau" passando a assegurar (a partir de Novembro de 1964) as ligações entre Hong Kong e Macau (com a duração de duas horas e meia), onde atracava já no novo cais do Porto Exterior (construído em betão), a par dos mais rápidos e também recém chegados, hydrofoil. Operou até à década de 1980, numa altura em que a frota de jetfoil aumentou proporcionando uma oferta mais ampla e viagens muito mais rápidas (ca. de 1 hora).

Dois anúncios de meados da década de 1960:
- no de cima, em inglês, surge o prefixo S.S., que significa "Steaming Ship", ou seja, embarcação a vapor";
- no de baixo, em português, surge o prefixo P/V, provavelmente, "paquete veloz".


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Fu Tak Iam, primeiro magnata do jogo

Antes de Stanley Ho deter o monopólio do jogo em Macau Fu Tak Iam foi o primeiro magnata dos casinos. Também conhecido como “capitalista chinês”, o homem que nasceu pobre em Foshan, financiou a construção do Cais 16, no Porto Interior, tendo sido dono do Hotel Central, para onde trouxe o famoso jogo Bacará. A sua família acaba de criar uma fundação em Macau.
A família de Fu Tak Iam, também conhecido como Fu Tak Yung ou Fu Laorong, acaba de criar em Macau uma fundação com o nome daquele que foi o primeiro magnata do jogo no território, até ter perdido o monopólio para Stanley Ho, no início da década de 60.
Esta quarta-feira foi publicado o despacho em Boletim Oficial que determina a criação da fundação. Esta tem como finalidade “o desenvolvimento de acções na área da educação, cultura, saúde e investigação tecnológica”, podendo ainda “desenvolver outras actividades de natureza social e de beneficência”.
A fundação arranca com um capital inicial, em numerário, de dez milhões de patacas, podendo vir a ter, em seu nome, três imóveis que a família detém em Macau, localizados na avenida da República e na Colina da Penha. Tal acontecerá se a Direcção dos Serviços de Finanças autorizar “a isenção do pagamento de imposto de selo devido pela sua eventual transmissão”.
A família de Fu Tak Iam segue assim o exemplo de muitos outros magnatas ao criar uma fundação. O próprio Stanley Ho tem uma entidade em seu nome, tal como Henry Fok, o empresário de Hong Kong que, em 1961, ajudou a fundar a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), em parceria com o próprio Stanley Ho, Ip Hon (ou Yip Hon) e Terry Ip Tak Lei.
Fu Tak Iam, nascido em 1894 em Nanhai, Foshan, na província de Guangdong, tem uma história semelhante à de tantos empresários ricos: nasceu pobre. “Conta-se que, ainda novo, já mostrava ser empreendedor, tendo começado a cozinhar amendoins na sua aldeia que depois ia vender à cidade”, disse ao HM o jornalista João Botas, autor de vários livros sobre a história de Macau.
Numa altura de maiores dificuldades financeiras, Fu Tak Iam partiu com o pai para Hong Kong, onde trabalhou na indústria naval. “Ainda jovem meteu-se numa briga o que o levou à prisão durante dez meses. Depois de cumprida a sentença regressou a Guangdong. Foi aqui que deu início ao primeiro negócio na área dos penhores. Estava-se no final da década de 1920”, apontou João Botas. A luta pela concessão do jogo em Macau começou no ano de 1930, tendo perdido a aposta para Hou Heng, cujo consórcio incluía vários sócios. Segundo João Botas, “pagavam 1.4 milhões de patacas por ano em troca do exclusivo do jogo” no hotel que, na altura, se chamava President, e que mais tarde viria a chamar-se Hotel Central, localizado na Avenida Almeida Ribeiro.
Hee Cheong detinha o hotel President, que abriu portas em 1928. O seu sócio, Huo Zhi-ting, era amigo de Fu Tak Iam. “Os dois começaram a explorar o jogo em Cantão e Shenzen, em 1935.” Quando o contrato de concessão de jogo atribuído a Hou Heng chegou ao fim, Fu Tak Iam voltou a lançar-se nessa aposta. Para isso, “juntou-se a um dos homens de negócios mais ricos de Macau, Kou Ho-ning, nascido em 1878, com um longo historial na indústria do jogo, nomeadamente do fantan, desde o início do século XX e ainda na área das casas de penhor”.
Os dois amigos decidem então estabelecer a empresa Tai Heng (Tai Hing) que ficaria com o monopólio do jogo, a partir de Janeiro de 1937, mediante o pagamento de 1.8 milhões de patacas. A empresa adquiriu também o hotel President, que em 1937 passar-se-ia a chamar Hotel Central, tendo “acrescentado alguns andares”. “Conta-se que Kou Hou Neng entrou apenas com o dinheiro, deixando a parte operacional do negócio a Fu Tak Iam”, lembrou João Botas.
Segundo informações da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), a empresa instalou no Hotel Central um casino, onde foi introduzido o Bacará, jogo que ainda hoje é bastante popular. Ainda de acordo com a DICJ, “a companhia Hou Heng foi considerada inovadora dado as suas introduções a benefício dos serviços fornecidos pela indústria do jogo e pelas respectivas instalações complementares”. Esta “remodelou e decorou, de forma sumptuosa, os seus casinos oferecendo, complementarmente, espectáculos de ópera chinesa bem como comes e bebes gratuitos incluindo frutas, cigarros e aperitivos, e adquirindo a favor de clientes bilhetes de barco”.
O início da II Guerra Mundial e a invasão da China pelos japoneses acabaria por trazer muitas oportunidades ao negócio de Fu Tak Iam, pois Macau era administrado por portugueses e serviu de porto seguro a muitos refugiados chineses. “O Japão invadiu a China e começam a chegar cada vez mais chineses a Macau, aumentando o número de clientes. Estavam criadas as condições para o negócio prosperar”, disse João Botas, que lembrou também o apoio que o magnata do jogo deu nesta fase, com parcerias estabelecidas com a Associação Tong Si Tong e o hospital Kiang Wu.
Também o historiador Camões Tam recorda estes tempos de prosperidade para o empresário, por contraste à miséria e à fome que se viviam nas ruas da pequena Macau. “Quando a maior parte do território chinês estava ocupado pelo exército japonês, muitas pessoas ricas vieram para Macau e acabavam por ir para o casino jogar nos tempos livres, porque não havia muito mais para fazer.”
João Botas lembra, contudo, que há um outro lado da história. “Existem relatos de Fu Tak Iam ter colaborado com os japoneses, tendo sido condenado à morte, no pós-guerra, pelas autoridades da China continental. Uma outra sentença veio a declará-lo inocente. Aspectos típicos dos tempos difíceis vividos em Macau durante a guerra”, referiu o jornalista.
Estamos em 1945 e a II Guerra Mundial chega ao fim. A 10 de Fevereiro, Fu Tak Iam estaria a fumar ópio “como passatempo” junto ao templo de Kun Iam quando foi raptado, tendo sido exigidos nove milhões de patacas pelo resgate.
João Botas conta que há várias versões desta estória, sendo que o resgate acabaria por custar 500 mil patacas. Além disso, Fu Tak Iam perdeu parte da orelha direita. De acordo com Camões Tam, o Governo português interveio no caso, tendo enviado Ho Yin, pai do ex-Chefe do Executivo, Edmund Ho, para lidar como o caso na qualidade de intermediário. “Aí Fu Tak Iam foi libertado, mas claro que perdeu imenso dinheiro”, ironizou Camões Tam.
Na fotobiografia da autoria de Celina Veiga de Oliveira sobre Carlos D’Assumpção, intitulada “Carlos D’Assumpção – Um homem de valor”, há uma referência a este rapto, uma vez que o advogado macaense estava em início de carreira quando apresentou um recurso em 1954 no Tribunal da Relação de Goa contra a condenação de Lei Peng Su, antigo soldado do partido Kuomitang, acusado de raptar Fu Tak Iam.
De acordo com um texto de Celina Veiga de Oliveira, publicado no jornal Ponto Final, “depois de pago um resgate avultado e libertado o empresário, a polícia [de Macau] acabou por deter um antigo soldado do Kuomintang, Lei Peng Su, acusando-o de liderar a quadrilha de sequestradores”. Este foi condenado a 18 anos de prisão, mas Carlos D’Assumpção, com apenas 25 anos, recorreu desta decisão.
Não foi apenas em roletas e fichas de jogo que investiu Fu Tak Iam. Refeito do episódio do rapto, o empresário investiu numa companhia de navegação marítima, a Tak Kee Shipping & Trading Co. Ltd. O seu dinheiro financiou na totalidade o Cais 16, uma estrutura de cor amarela que ainda hoje se situa ao lado do empreendimento Ponte 16, da Sociedade de Jogos de Macau.
Em 1948 o Cais 16 passou a atracar o barco Tai Loy, que à época era “a mais moderna embarcação nas ligações marítimas entre Hong Kong e Macau”, recordou João Botas.
O período áureo de Fu Tak Iam estava, contudo, prestes a chegar ao fim. Em 1950 o empresário mandou alguns dos seus filhos para tomar conta dos seus negócios em Hong Kong, tendo-se mudado para a região vizinha nessa altura, bem como o seu sócio, que morreria em 1955. Apesar da mudança para Hong Kong, Fu Tak Iam perderia a concessão de jogo para Stanley Ho apenas em 1961, quando a STDM se chegou à frente com o pagamento de 3.16 milhões de patacas anuais. Segundo o historiador Camões Tam, Stanley Ho oferecia condições mais vantajosas à Administração portuguesa e era, além disso, casado com uma portuguesa, Clementina Leitão Ho.
“Um assistente demitiu-se da empresa de Fu Tak Iam e convenceu Stanley Ho a cooperar com ele e a concorrer para a obtenção da licença de jogo. E conseguiram.”
Clementina Leitão Ho terá tido um papel importante neste processo, tendo sido discutidas previamente algumas condições para a concessão do monopólio de jogo. “Foram-lhe dados alguns avisos e foram criadas condições, como o estabelecimento de uma rota entre Macau e Hong Kong, a criação de infra-estruturas e a concessão de subsídios para acções de caridade. Stanley Ho oferecia condições mais vantajosas [para a obtenção da licença]”, explicou Camões Tam. O historiador João Guedes tem outra versão: não só Stanley Ho dispunha de outras garantias como a Administração portuguesa estaria descontente com as contrapartidas dadas por Fu Tak Iam. “Ele não vivia cá, vivia em Hong Kong, e por isso é que lhe é retirado o monopólio do jogo, porque ele investia o dinheiro que ganhava aqui em Hong Kong. O Governo português decidiu retirar a concessão e entregá-la a Stanley Ho. Este era casado com uma portuguesa e tinha garantias.”
Segundo a DICJ, a concessão atribuída à companhia Tai Heng chegava ao fim a 31 de Dezembro de 1961, tendo o governador Silvério Marques. Este decidiu aprovar uma lei nesse ano que acabaria por regular a concessão pela via do concurso público. A STDM “acabou por sair vencedora, ficando permitida a explorar, em regime de exclusivo, casinos e a venda das lotarias Pou, Shan e Pacapio”. Em 1960, um ano antes de ver a concessão de jogo ir por água abaixo, Fu Tak Iam morre em Hong Kong com 66 anos de idade, tendo deixado 16 filhos.
Na antiga colónia britânica, a empresa fundada por Fu Tak Iam continuou a prosperar, tendo investido na banca e na hotelaria. O seu filho mais velho estabeleceu, em 1973, o hotel Furama, que tinha 33 andares e que ficou conhecido pelo seu restaurante panorâmico, chamado La Ronda, e que foi demolido em 2001, contou João Botas.
João Guedes recorda-se deste espaço. “Lembro-me de ter ido almoçar muitas vezes ao hotel, um dos melhores em Hong Kong, que tinha um dos melhores restaurantes.” O jornalista, autor de vários livros sobre a história de Macau, lembra que a família de Fu Tak Iam “nunca foi de Macau”, à semelhança dos magnatas que sempre investiram no território. “Os investimentos em Macau são feitos por gente de Hong Kong. O Stanley Ho nunca viveu aqui, no período da II Guerra entre 1939 e 1945 viveu aqui, mas depois mudou-se logo para Hong Kong. Eles devem continuar a ser muito ricos em Hong Kong, e de certeza que continuarão a ter coisas em Macau.”
Hoje em dia a família continua a ter os imóveis já referidos, além de uma antiga casa, localizada junto à residência do cônsul de Portugal em Macau, que foi vendida a um cidadão de Hong Kong. Aí existiram “duas pedras gravadas em 1952 em memória dos seus pais”, apontou João Botas. O ano passado* o neto de Fu Tak Iam, Adrian Fu, criou uma fundação com objectivos semelhantes em Hong Kong.
Stanley Ho é amplamente conhecido por ser o grande impulsionador da economia de Macau, mas pouco se sabe sobre aquele que terá sido o primeiro grande empresários dos casinos no território.
“Só agora é que se começam a fazer alguns estudos sobre isso, de resto não existe nada sobre essa época do sector do jogo. Em português não se escreveu nada sobre Fu Tak Iam, de certeza absoluta”, disse João Guedes.
O historiador Camões Tam considera que “há quatro reis dos casinos em Macau”, tendo Fu Tak Iam sido o primeiro. E a sua importância mede-se não apenas pelas patacas que investiu na luta pela concessão. “Não sabiam apenas como gerir os casinos mas tinham conhecimentos de como desenvolver a economia e a cidade. Antes de ter os primeiros casinos, nos anos 30, Macau era uma cidade muito pequena, mas depois da gestão [destes empresários], Macau tornou-se uma verdadeira cidade do jogo, com uma indústria propriamente dita, e tornou-se mais próspera. Foi uma verdadeira reviravolta na história de Macau.”
A condecoração portuguesa
O “capitalista chinês” chegou a ser condecorado pelo Governo português com o grau de Oficial da Ordem Militar de Cristo “aquando da visita a Macau do Ministro do Ultramar no verão de 1952”, disse João Botas. A condecoração foi atribuída pelo comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues.
Artigo da autoria de Andreia Silva publicado no Hoje Macau de 2.2.2018
Nota do autor deste blogue:* a Fundação foi criada em 2007.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Antologia do Conto Ultramarino: 1972

Esta "Antologia do Conto Ultramarino" foi coordenada por Amândio César e editada pela Editorial Verbo em 1972 sendo o nº 85 da colecção Livros RTP.
Conotado com o regime político da época, Amândio César, foi professor, jornalista, contista, poeta e ensaísta.
Ao longo de 284 páginas encontramos contos "dos melhores especialistas da literatura do período colonial, com recolha de alguns dos mais representativos contistas que escreviam nas ex-colónias portuguesas de Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Estado da Índia (Goa, Damão e Diu), Macau e Timor.
Na contra-capa pode ler-se "Na produção dos nossos contistas do Ultramar podem encontrar-se páginas da melhor literatura. Os contos recolhidos por Amândio César no presente volume, cujos autores se estendem de Cabo Verde a Timor, bem o ilustram e justificam a sua divulgação."
Assim, temos nesta antologia autores de Cabo Verde, Guiné S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Estado Português da Índia, Timor e Macau. Este último inclui o conto 'O calvário de Lin Fong' de Deolinda da Conceição (1914-1957) e 'História do pequeno Afat', de Wenceslau de Moraes (1854-1929). Dos dois autores é ainda apresentada uma biografia.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Os alfaiates Domingos e Manuel

Não obstante a voragem dos tempos, a mudança de hábitos e o preço das rendas existem pequenos negócios locais que ainda vão resistindo. Outros pura e simplesmente sucumbiram...
Foto de Ou Niar-le na Macao Magazine
Domingos Cheong é alfaiate desde 1963. Foi por essa altura que abriu a alfaiataria com o seu nome na então zona nobre da cidade, frente à Estátua de Jorge Álvares junto ao Palácio do Governo e ao tribunal. Na época a avenida chama-se Dr. Oliveira Salazar hoje é a Dr. Mário Soares. Mudaram-se os tempos mas o aspecto da loja manteve-se praticamente inalterado e mal se entra evidencia-se o cheiro dos tecidos.
O Senhor Domingos como era conhecido era a comunidade portuguesa (uma parte importante da clientela) estudou no colégio D. Bosco. Aos 16 anos começou a interessar-se pela arte da costura e foi durante três anos aprendiz de um alfaiate italiano. Para trás ficaram os difíceis anos da guerra do Pacífico.
Entre os clientes que passaram pelas mãos do Sr. Domingos (actualmente octogenário) contam-se personalidades como  Adriano Moreira (então Ministro do Ultramar), os antigos presidente da república portuguesa, Mário Soares e Jorge Sampaio, e os governadores, Nobre de Carvalho, Almeida e Costa, Pinto Machado e Rocha Vieira.
Outra das alfaiatarias com tradição no território é a do Sr. António Manuel Brito Lai que abriu ao público no início de 1964. Situada no nº 25 da Rua Nossa Senhora do Amparo, no seu letreiro pode ler-se: "U Seng (António Manuel) Iong Fok (roupa para estrangeiros). 
Tal como acontecia com a loja do Sr. Domingos, os principais clientes do Sr. António Manuel eram os portugueses, em especial os militares. Com a transferência de soberania os clientes portugueses diminuíram mas surgiram outros, nomeadamente chineses do continente com forte poder de compra.
António Manuel Brito Lai (com 83 anos em 2014) tirou o curso de alfaiate no Colégio de D. Bosco, secção chinesa, Instituto Salesiano. Ao jornalista Hélder Fernando explicou (JTM Maio 2014) que “também aprendíamos ofícios muito úteis. No meu caso aprendi a ser alfaiate e gostei desde o início, foi um padre italiano que me ensinou”. Na loja são abundantes as fotografias que recordam várias décadas de negócio. “Os primeiros clientes eram quase todos tropa e polícias, queriam calça, casaco, camisa, aprendi a fazer tudo”, recordou, acrescentando que "os soldados ganhavam pouco, quando a malta não pagava, não fazia mal, eu falava com o sargento e ele descontava no salário dos soldados que não tinham pago.”
António Manuel confessa ainda que gostou muito de trabalhar com os portugueses e ainda hoje quando regressam a Macau o visitam. “Muitos amigos antigos já não estão em Macau, mas quando vêm de visita, telefonam e vamos conviver recordando os velhos tempos”
Um outro António, de apelido Cambeta, foi um dos primeiros clientes. Diz que "embora com uma idade bem avançada, o meu amigo António Lai continua jovial, sempre muito atencioso, e tem imenso prazer em falar o português".
António Manuel e António Cambeta em 2014. Foto AC.
António Manuel. Foto JTM
In 1963, a young man opened a shop to provide made-to-measure men’s suits in a site rented from the government in downtown Macao. “It was so quiet then. Nobody walked past.” Fifty years later, that young man, Domingos Cheong, is a sprightly 80-year-old who visits his shop every day. The shop, Alfaiataria Domingos, has become one of the most famous tailor’s in the city. Above the counter hang photographs and thank-you notes from his most famous clients. They include seven Portuguese governors and leading members of the government, including President Mario Soares. He has fitted many of the city’s most famous Chinese, including Ho Yin. “I never consider retiring,” he said in an interview. “My children do not ask me to. I am like a ship that is travelling in a straight line. It follows its own path.” His life and his tailor’s shop have become part of the history of Macao.
Hardship and war
Cheong was born in Macao in 1933, the eldest of four children. His father was a businessman who died when Cheong was in his teens. He studied at the Salesians of Don Bosco Catholic school. At the age of 16, Cheong made his first suit and became an apprentice to an Italian teacher; he studied under him for three years.It was a time of war and hardship: a full stomach, a roof over your head and survival were the priority. After the Japanese occupation of Hong Kong in December 1941, Macao’s population tripled to 450,000 – a record level. While many found a place in schools, public buildings and private homes, thousands had to live on the streets and in parks and public spaces.
As a resident, Cheong and his family had enough to eat. But thousands starved to death. “Every morning we saw the bodies lying on the pavement. Everyone was looking for food.”
After the war, most of the refugees returned to the mainland or Hong Kong or went overseas. The city returned to calm and peace. For a young man like Cheong, job opportunities were few and the pay was low. It was worlds away from the Macao of 2013.
Opening the shop 
It was in 1963 that Cheong opened his tailor’s shop on the Avenida Doutor Mario Soares, a few metres from what is now the headquarters of the Luso International Bank.
He rented two storeys in a government building. On the ground floor, he displayed the materials and made the fittings; on the second floor, he and his employees made the suits. It was a good location, within walking distance of the Governor’s office and the main commercial area. It was a brave decision. Then, as now, tailor-made suits were a luxury product bought by only a small proportion of the population. He had plenty of competition, in Macao and in Hong Kong. The colony then had a population of only 260,000.
The Sociedade de Turismo e Diversoes de Macau (STDM) had just won the gambling franchise and was about to build the Hotel Lisboa. The number of tourists to the city was limited; no-one could enter from the mainland. “It was very hard at the beginning. There were few people here. We were open every day. There were no Saturdays or Sundays.”
His first big catch was Dr Adriano Moreira, Minister of the Overseas Provinces from 1961–63 under the Estado Novo regime of Antonio de Oliveira Salazar. He went on to become one of the most important Portuguese political figures in the second half of the 20th century.
He was president of the Democratic and Social Centre and represented them in Parliament from 1979. For decades, he was a professor at the Technical University of Lisbon.
The shop has a signed picture of Dr Moreira dated 25 September 1964, when he received his suit. It was a breakthrough for Cheong. Moreira passed his name to other members of the Portuguese leadership and the colonial government.
The first time Cheong made a suit for a governor was in 1966. He made outfits for a total of seven governors, including Nobre de Carvalho (November 1966–November 1974) Vasco de Almeida e Costa (June 1979–May 1986), Pinto Machado (May 1985–July 1987) and Vasco Joaquim Rocha Vieira (April 1991–December 1999). “For their fittings, I went to the Governor’s residence. It was a mark of respect. There would be two–three fittings per suit.”
Another client, in October 1974, was Antonio de Almeida Santos, who worked as a lawyer in Mozambique from 1953 to 1974 and returned to Lisbon to become Minister of Inter-territorial Co-ordination, followed by other ministerial posts. Cheong’s most famous client was Mario Soares, who was Prime Minister of Portugal for a total of four years in the 1970s and 1980s and then President from March 1986 to March 1996. He negotiated the country’s entry into the European Economic Community and is one of the best-known Portuguese leaders across Europe.

A photo of a smiling Soares hangs over the counter in Cheong’s shop.
“These Portuguese clients were very careful. They were not arrogant but kind and humble,” he said. “They were all very polite to us, including Soares. I liked them all.” So Cheong became the first choice not only for the governors and visiting Portuguese politicians and officials but also other members of the colonial administration. He also had many prominent Chinese customers. The best known was Ho Yin, popularly known as the ‘Chinese governor of Macao’ and the city’s most prominent businessman from the end of World War II until his death in December 1983.
“Ho Yin was a good friend. I did many suits for him when he needed them,” he said. “He was very modest and liked to talk to me. He was a peaceful man, who enjoyed good relations with both Chinese and Portuguese.” In recent years, he has had clients from the mainland. Many wealthy people from there come to Macao to enjoy the casinos, the restaurants and the high-quality shopping.
Style of working
Cheong has a work routine common among many Chinese of his generation – working every day, with few holidays. If a client is in town for only a few days, this can mean working around the clock to finish the order in time. Over the last 20 years, however, he has taken some holidays. The material for the suits is imported. The United Kingdom used to be the principal supplier; now it is Italy. Sometimes he visits these countries to see the suppliers. He has four children, of whom two live in Hong Kong and two in Macao.  “I did not want them to follow in my footsteps as a tailor. The profession is too hard. I did not consider any of them as a successor. I wanted them to study at university. There is so much more choice now. They are making their own way.” He himself enjoys excellent health, which he attributes to a good diet and a regular lifestyle. He does not smoke, drink or gamble: “I am not free to do it.”
In Macao Magazine

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Antiga muralha na colina de S. Jerónimo


Pormenor da Praia Grande no final do séc. 19 (1880) onde se pode ver o Grémio Militar, o Quartel de S. Francisco e a bataria rasante 1º de Dezembro. Mas o maior destaque vai para o que mal se vê (pelo menos à primeira vista): um troço da antiga muralha da 'cidade-cristã'. Do lado direito, onde está o arvoredo do Jardim de S. Francisco ainda se pode ver de forma parcial um antigo edifício que pertenceu ao convento de Sta. Clara e seria depois ocupado pelas forças militares.
Década 1980
Começa precisamente a partir do canto de S Francisco com a futura Rua Nova à Guia em direção ao hospital Militar de S Januário, na colina de S Jerónimo. Por mais incrível que pareça uma parte deste troço da muralha ainda lá está, servindo de separação entre os terrenos do hospital e os que foram concessionados para a construção de casas ao longo da Estrada de S. Francisco. Em cima, junto ao Hospital, foi demolida para terraplanar o local, existindo um relatório sobre o assunto elaborado pelo projectista e encarregado da obra, o Capitão de Infantaria graduado Henrique Augusto Dias de Carvalho (um dos fundadores do Grémio Militar em 1870), fundador da Lunda, cidade que viria a ter o seu nome, e grande estudioso e escritor sobre aquela parte do Nordeste de Angola.
Planta de meados do séc. 17 atribuída a Barreto de Resende (a vermelho as muralhas)
No final do séc. 18 a cidade cristã, onde viviam os portugueses, estendia-se deste o portão da muralha na Rua do Campo, a norte, ao sopé da Colina da Penha, a sul. As casas distribuíam-se densamente por toda esta área, ao sul da Colina da Penha, incluindo a Colina da Barra. Subsistia a paisagem natural ao sul da Colina da Penha, em que campos e aldeias se entrelaçavam. Ao norte do portão da muralha, na Rua do Campo, ficava a área onde os chineses se aglomeravam. Campos cultivados bem ordenados ocupavam a parte central desta área fora da cidade. A Ilha Verde, que emergia do mar, aparecia isolada. A antiga Porta do Cerco (à esquerda na imagem) constituía um símbolo importante na definição do território de Macau.
Parte da antiga cerca do Convento de Santa Clara na rua Nova à Guia (acesso ao colégio de Sta. Rosa); imagem do séc. XXI

domingo, 28 de janeiro de 2018

Largo do Senado e Praia Grande: final década 1960

Postal ilustrado de Macau no início da segunda metade da década de 1960
Pode ver-se em primeiro plano parte do Largo do Senado numa perspectiva tomada a partir do Hotel Central - com os Correios ao centro e vista parcial da Santa Casa da Misericórdia à esquerdal; ao fundo, ao centro, o início da construção do Hotel Lisboa por volta de 1967; destaque ainda para o edifício Rainha D. Leonor, o Liceu (vê-se parte do ginásio) e a Escola Comercial cuja inauguração acontecera pouco tempo antes, em 1966. Em termos toponímicos, a Travessa do Roquete fica do lado esquerdo e a Av. Almeida Ribeiro do lado direito.

sábado, 27 de janeiro de 2018

A moradia Skyline

Segundo a arquitecta Ana Tostões, "A moradia Skyline é o único caso de vivenda moderna concebida de acordo com volumes cúbicos, brancos e de recorte preciso. Baixos‐relevos de gosto art déco valorizam este conjunto singular, onde a expressão moderna é assumida com radicalidade."
O arquitecto José Manuel Fernandes considera a moradia como "das mais exemplares do desenho purista do modernismo".

 Perspectiva actual (séc. 21) na Estrada D. João Paulino.
Concebido pelo arquitecto M. M. Creig, o edifício foi construído em 1934 e enquadra-se na corrente modernista.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A imprensa de língua portuguesa no Oriente

A obra "A imprensa de língua portuguesa no Oriente", da autoria de José Augusto dos Santos Alves é uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal, com o apoio da Fundação Oriente, que será disponibilizada este mês.
Através da análise do percurso dos jornais portugueses – O Portuguez na China, O Procurador dos Macaistas, O Solitario na China, A Aurora Macaense, a Chronica Constitucional de Goa, o Echo da Lusitania, O Encyclopedico – Jornal d’Instrucção e Recreio, e O Investigador Portuguez em Bombaim –, nas terceira e quarta décadas do século XIX, traça-se não apenas a história da imprensa periódica de Macau, Goa e Bombaim, e dos seus posicionamentos políticos e sociais, como a dos próprios espaços geográficos em que se inserem.
Segundo o autor, a obra visa "caracterizar e avaliar as conexões entre ideias, imprensa e poder, entre comunicação e informação, e as estratégias seguidas no espaço geográfico nacional, ultramarino incluído, a partir, no caso em apreço, de uma fonte primordial de pesquisa: o periodismo de língua portuguesa no Oriente no período mediado entre 1835 e 1845".

Nota: Quando os navegadores portugueses inauguraram a rota marítima entre a Europa e o Oriente levaram consigo a língua portuguesa que aos poucos ganhou estatuto de língua comercial na costa africana e em alguns portos do Oriente, nomeadamente em Macau. Além do comércio, os portugueses foram os primeiros a promover a difusão do cristianismo pelas regiões onde passaram levando consigo missionários jesuítas, franciscanos, dominicanos que tiveram um papel decisivo na difusão da língua portuguesa.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

2018 é o Ano da Gastronomia de Macau

Sabia que 2018 é o Ano da Gastronomia de Macau?
Durante todo este ano Macau celebra a sua recente designação como cidade membro da Rede das Cidades Criativas da UNESCO, na área da gastronomia, com inúmeras actividades e iniciativas.A propósito do tema recordo hoje uma edição de 1986 intitulada "Petisquera saboroso di Macau" (em português e inglês) da autoria da Direcção dos Serviços de Turismo de Macau que reúne cerca de duas dezenas de receitas da gastronomia macaense apresentadas no II Concurso de Cozinha Macaense em 1985.
"A riquíssima cozinha tradicional de Macau é fruto de uma experiência culinária, aperfeiçoada e apurada ao longo de vários séculos. Apesar da influência predominante das cozinhas Portuguesa e Chinesa, a culinária macaense poderá ser considerada também como uma das mais internacionais da Ásia, devido à hibridez dos seus ingredientes, alguns dos quais tiveram a sua origem nas antigas possessões portuguesas de Goa e Malaca. Um doa pratos mais populares da cozinha macaense é a «Galinha Africana», que, por exemplo, não sendo de Portugal nem chinês, mas oriundo dos antigos territórios portugueses em África, foi adaptado aos paladares distintos desta cozinha, passando a ser exclusivo de Macau."
Tendo por base este livro foi ainda publicada uma colecção de vários postais ilustrados com algumas das receitas do livro. Voltarei ao tema muito em breve.
Exemplo da receita de Lacassá de Fátima Nantes:
Ingredientes: Farinha de arroz «Mai Fan»: q.b.; Porco fumado: q.b.; Ovos mexidos: q.b.; Gengibre doce vermelho: q.b.; Rebentos de feijão: q.b.; Sal: q.b.; Pimenta: q.b.
Preparação:
Põe-se em água fria a massa de arroz até a amolecer. Corta-se depois em fios pequenos e deixe escorrer muito bem até perder toda a água. Corte igualmente em tiras finas a carne de porco fumado, ovos mexidos, gengibre doce vermelho e passe-os num tacho com óleo quente juntando os camarões, os rebentos de feijão, uma colher de chá de sal e um pouco de pimenta. À parte, frite em óleo aquecido alho bem picado. Junte-lhe a massa. Adicione os elementos já preparados e deixe a fritar durante cerca de cinco minutos.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"O Jantar Chinês" por Maria Ondina Braga


Não sei se os meus amigos já ouviram falar do Porto Interior de Macau. É como se fosse uma ou­tra cidade a balouçar no rio das Pérolas. Barcos pe­quenos e barcos grandes, ali, imensos, muito chegados uns aos outros, e as pessoas que lá vivem avançam de barco para barco como nós passeamos pelas ruas. Os barcos pequenos chamam-se sam-pans, que quer dizer três-tábuas, onde se abrigam famílias inteiras, e estão presos com varas de bam­bu enterradas na lama para que os ventos do tufão não os afundem. E os grandes, chamados juncos, são os que vão à pesca.
Ora bem, quando eu vivi em Macau, há mui­tos anos já, nos sam-pans amontoavam-se adultos e crianças quase uns por cima dos outros. E os juncos que, embora fossem barcos de pesca, serviam tam­bém de casa aos pescadores, eram conhecidos por fân-siuns, e tinham largueza.
Nesse tempo, no entanto, em Macau, todos os barcos navegavam à vela. Velas de pano remen­dado, cor de ferrugem, cor de lodo e até pretas. De qualquer modo, bonito ver essas velas desfraldadas que pareciam leques gigantes, rio fora, até ao meio do mar. Uma vista verdadeiramente extraordinária, sim, o Porto Interior, mas com um ar de velhice e de pobreza. Que nos dias de hoje é diferente. Hoje em lugar de velas, os barcos, têm máquinas a va­por.
Lembro-me de que me vieram lágrimas na primeira vez que visitei esse porto de abrigo. Numa pequena embarcação, junto ao cais, uma velha muito velha, com um menino ao colo, chupava um comprido cachimbo de água. Subiam rolos de fumo de minúsculas chaminés de lata. Num junco, ao largo, salgava-se peixe. E então um barco-loja carregado de mercadorias: sapatos de pano, te­cidos, tachos, tigelas, bules para o chá, cestos de palha de arroz, chapéus de fibra de bambu. Barco, portanto, para fazer negócio. E para que a gente do rio não precisasse de ir à cidade comprar o que lhe fazia falta. Também outro barco, este, restaurante, a cheirar a banha de porco, a picantes e a fritos. E à proa um chinês gordo a mexer com um pau novelos de massa, que em chinês se diz min, e que fer­viam num caldeirão com chouriço-china. Era a sopa-de-fita, a sopa-de-longa-vida, que até continha miúdos de galinha ou de pato. Esse barco-restaurante movia-se igualmente entre os outros, servindo, de onde em onde, por sobre a amurada, uma tigela de canja. Ou arroz chau-chau. Ou um frasco de tau-fu-mui, a que os portugueses chamavam queijo chinês. E cartuchinhos de iau-ii, choco frito com piri-piri, ainda quente, e uma colherada de molho.
Foi então que descobri, aninhado à ré de um sam-pan, um menino a desenhar com um pincel fino os caracteres da sua língua. Entardecia. O sol poente punha na cabeça do rapazinho uma chama de ouro.
Atravessei, pois, uma prancha e, em seguida, vários barquinhos, até chegar perto dele. Atento ao trabalho, porém, ele não deu por mim. A água ma­rulhava à nossa volta, escura, limosa. Uma mulher, a dona do barco em que eu me quedara, perguntou-me:
- Que quer daqui? 
Tinha uma cara larga, castanha, mal-humorada. Mostrei-lhe uma moeda:
- Vende-me esse periquito?
Foi a primeira coisa que me lembrou. Recea­va que ela me mandasse embora e não queria, de modo algum, partir sem falar com o pequeno. A verdade é que eu o conhecia do colégio. Pertencia à escola masculina, chamava-se Yu, que em português significa jade, uma pedra oriental muito preciosa e de cor verde. A mulher abriu os lábios grossos num sor­riso: - Com certeza!
Estendia a mão para o dinheiro. Escancarou depois a gaiola de vime, tirou o pássaro, entregou-mo.
O bichinho, assustado, tremia na palma da minha mão, sem tentar fugir.
Súbito, um barco, chocando com o nosso, fez-me desequilibrar. Abracei-me à mulher que ria. O passarinho, esvoaçando, foi pousar no ombro do rapaz, no barquinho ao lado.
E Yu viu-me.
- Sim-saml — gritou (sim-sam quer dizer «professora»).
E no seu português meio chinês, perguntou-me o que é que eu fazia ali.
- Vim ver-te! — respondi.
Yu mostrou os dentes todos num jeito de agrado.
- Oh, entre para a nossa casa! Para que com­prou a A-Mui o periquito? Eu podia dar-lhe um. Começou a mostrar-me o barco. Ao centro, debaixo da cobertura de colmo em forma de túnel, o quarto dele e do avô. À proa, a cozinha, a capoei­ra com duas galinhas, uma gaiola de periquitos, um canário, o casinhoto do cão. À ré, o lugar onde ele estudava e onde recebia as visitas. O sam-pan inteiro não tinha mais de três metros. A mobília do quar­to de dormir era uma esteira no chão. Na sala das vi­sitas havia um banquinho de bambu onde Yu me convidou a sentar. Entretanto a noite caíra. Yu apressou-se a acender o candeeiro de querosene e a ferver o chá. Falava sempre: que surpresa! O avô devia estar a chegar e ia gostar de me ver ali. Enquanto a água aquecia, chamou o cão e obrigou-o a fazer habilidades diante de mim. De­pois, voltando ao periquito:
- Comprou-o caro, não? A-Mui só quer di­nheiro. Tem gaiola para ele? Posso fazer-lhe uma. Gosta de cana ou de fibra de palmeira?
- Como quiseres. Igual à tua, que é bonita. Eu pago-te.
- Ora, eu não sou como A-Mui...
Baixou a voz. A nosso lado, a vizinha, debru­çada do barco, lavava na água turva o arroz do jan­tar num cesto de palha fina.
O pequeno foi guardar a minha ave na gaio­la dele, para que não fugisse. Em seguida apurou o ouvido.
- Oiço a campainha do sam-lun-ché do avô.
Sam-lun-ché é um meio de transporte usado em Macau e puxado por um chinês numa bicicleta com três rodas. Eram horas da ceia. Yu disse: - Sim-sam, janta connosco, sim? 

E logo o avô apareceu. Este também era do meu conhecimento. Quantas vezes não me levara ele a dar uma voltinha nas noites de estio? Era um ve­lho alto e magro, de cara e cabeça sem pêlo, boca larga, maçãs do rosto quadradas, gestos ágeis como se fosse jovem. Ao ver-me, o velhote mostrou-se ainda mais espantado do que o moço.
- Sim-sam aqui?
O melão da sua cabeça subia e descia em cum­primentos: - Yu! Não sabes como se recebem as pessoas? O moço foi buscar o incensador. O ancião desculpava-se: - Cheira a sujo... Maré baixa. Muita popu­lação.
Dentro em pouco o perfume purificava o ar e tomávamos chá. O incensador era um Buda de grés, e o fumo aromático passava por debaixo das pernas dobradas, gordas, do deus que tinha as mãos pousadas nos joelhos. O velho foi à cozinha. Do banquinho onde estava sentada descobri, no tecto do quarto de dormir, um Cristo de barro. - É teu, Yu?
- Sim, é meu. Fui eu que o fiz.
O avô voltava com um tabuleiro com três ti­gelas de arroz, hortaliça cozida, um ovo na minha tigela. Os dois sentaram-se no chão.
- Cozo sempre a arroz de manhã, antes de ir para o trabalho — explicou o avô — e agora é só aquecê-lo. Quanto à hortaliça, são rebentos de bambu. Cinco minutos abafados para ficarem tenros.
- Por que gastou um ovo comigo? — per­guntei. — Vim dar-lhe despesa.
- Oh, não! Para que queremos as galinhas se não para as visitas ou para os dias de festa?
A Lua subia por trás das ilhas da China. O rosto de Yu e do avô pareciam talhados em marfim. O canário começou a cantar. Era um som sua­ve e trémulo a que se juntava outro, também deli­cado, de mulher, algures.
- Nunca comi tão bem na minha vida, ami­gos! — disse eu, ao terminar.
Eles sorriram, mudos. Os meus pés calçados tocavam com intimida­de os pés deles, nus e cruzados, como o Buda. O perfume do incenso enchia tudo. Parecia que a própria Lua o aspirava, encantada. Yu levantou-se, foi pôr mais arroz numa tigela, chamou o cão, deu-lhe de comer. O velho sorvia goladas de chá. Oferecia-me mais. Era chá de jasmim.
- Yu — chamei —, guarda o periquito para ti. Só o comprei para poder chegar até aqui, afinal.
Oh, não, sim-sam. Vou fazer-lhe uma gaiola e levo-lho qualquer dia dentro dela.
O avô aprovou. Era bom ter asas em casa. Um passarinho dava sorte. A lua, agora dourada, boiava no chá, resplan­decia nos últimos fumos do incenso, brilhava nas faces pálidas de Yu e do avô, transformava as cinzen­tas águas do rio num lago de luz.
Maria Ondina Braga in "O Jantar Chinês e outros contos"

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Evocar Maria Ondina Braga, 15 anos depois

“Descobrir Maria Ondina Braga” é o título duma oportuna exposição biográfica que a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva do Museu Nogueira da Silva, em Braga, organizou no corrente mês (que é o do seu aniversário) para relembrar aquela escritora solitária e sóbria que cruzou culturas e percorreu espaços da memória lusa, flutuando entre o ocidente e o oriente e sentindo sempre o apelo da partida e o desencanto da chegada. Depois de Angola e da Índia (Goa), passou alguns anos entre nós, como professora do Colégio de Santa Rosa de Lima, na primeira metade da década de 1960. Também foi leitora de Português em Pequim e tradutora de obras marcantes de grandes vultos da literatura universal. Maria Ondina Braga (1932 – 2003) teria feito 85 anos em 2017 e em Março próximo completam-se 15 anos que embarcou na sua derradeira e definitiva viagem.

Embora naturalmente muito reservada, ainda a conheci nesse tempo em Macau, quando frequentava os últimos anos do Liceu. Todavia, só em Lisboa, anos volvidos, já depois do lançamento dos seus primeiros livros (“Eu vim para ver a Terra”, 1965; “A China Fica ao Lado”, 1968; “Estátua de Sal”, 1969; e “Amor e Morte”, 1970) e quando ela regressou a Macau, em 1991, para assistir à apresentação da 4.ª edição de “A China Fica ao Lado” e da primeira edição em chinês deste seu livro de leitura indispensável, pudemos falar mais demoradamente, sobre a cidade ainda muito provinciana que ela aqui conheceu e uma China a sair do pesadelo comunista para entrar na modernidade. E foi-nos proporcionado um novo e último contacto quando saiu do prelo, no mesmo ano, “Nocturno em Macau”, obra que também merece uma versão chinesa. (...)
Ao escrever estas linhas, lembrei-me de procurar nas minhas estantes, entre milhares de papéis mal arrumados, uma sentida homenagem póstuma que lhe foi prestada por Ana Maria Amaro, minha saudosa professora de Geografia no Liceu de Macau e depois catedrática no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), entretanto também falecida. Desse texto que ela me facultou (reformulado e publicado mais tarde no volume VII da série de “Estudos sobre a China” do ISCSP (2005), achei por bem reproduzir algumas passagens que contribuem para um melhor entendimento da personalidade da escritora:
“Conheci a escritora Maria Ondina Braga em Macau. A década de 1960 ia no seu princípio quando ela chegou. Naquele pequeno meio, onde todos os portugueses europeus se conheciam, imediatamente se fez notar. Chegara alguém estranho à terra. Alguém que foi para ver a terra, tal como o registou no seu primeiro livro sobre aquele território, publicado poucos anos depois.
Quem era? No círculo limitado das famílias de militares, chefes de serviço, meia dúzia de professores do Liceu, além de alguns membros da comunidade local de luso-descendentes, ninguém sabia. Chegara uma rapariga. Nova na terra. Morena, alta, bonita, cabelos lisos muito negros. Estava alojada no Colégio de Santa Rosa de Lima. Quem era? Donde viera? Fazer o quê? Ninguém sabia responder.
Depressa, essa mulher sozinha fez algumas amizades. Seriam amizades? E deixou-se mergulhar naquela terra desconhecida, ainda nos anos 1960 exótica terra mestiça e feiticeira. Ela ia para ver a terra. E viu-a, em pouco tempo, como poucos a viram mesmo em muitos anos de estadia.
Vivia no mundo austero das irmãs franciscanas onde as outras professoras, todas chinesas, comunicavam com ela em inglês. Fora desse mundo dava-se com outras jovens portuguesas, algumas delas professoras no Liceu local Infante D. Henrique. Eram minhas colegas naquele Liceu. E eram elas que comentavam as suas saídas nocturnas, as suas idas a Coloane, os flirts com os oficiais solteiros da guarnição. Aquele terrível malinguar de Macau.
Maria Ondina, porém, nunca se integrou nesse círculo de falsas amigas. Ouviu, sim, das colegas chinesas, histórias dum Macau profundo como a da casa assombrada: ‘a porta abriu-se, uma mão a abrir a porta, uma mão sem braços’ (Nocturno em Macau, p. 99). Também conheci essa casa; casa antiga, no ‘Largo das três luzes’, nos limites de Mong Há. Todos, ali, mudavam de passeio. Era uma ‘malissombrada’, um lugar ‘mofino’, no dizer da terra.
Nos seus livros perpassam não só essas cenas, mas também muitas outras que preenchiam as conversas das pessoas desocupadas. Os tenentes da guarnição, o ‘Solmar’, os restaurantes chineses mais pequeninos são imagens que perpassam nas páginas desse seu livro.
Aliás, neste livro, que a Maria Ondina me ofereceu, ela escreveu uma dedicatória onde o considera ‘modesto trabalho meu de ficção’. Eu, que vivi Macau nesse período, posso dizer que a ficção neste livro é apenas uma roupagem mais ou menos transparente que envolve um corpo bem real. Com nomes diferentes surgem nas suas páginas, personagens que eu conheci, tais como cenas e episódios a que assisti ou que ouvi contar. E no fundo de toda aquela fluída narração emerge a sua paixão pelo chá, a sua imensa solidão, a sua nostalgia e o seu desejo de encontrar o lugar certo para viver, que nunca era aquele onde ela se encontrava. (…)
Reencontrámo-nos em Lisboa na Embaixada da República Popular da China nos finais da década de 1970. Foi uma redescoberta e o início duma sincera amizade. Maria Ondina, diante duma chávena de chá, (eram assim os nossos convites para as nossas tardes de conversa) falava da China, de Macau e dos livros mais recentes que haviam saído bem como dos seus autores preferidos.
Alguns textos, pequenas crónicas dispersas, pouco conhecidos, são, aliás, o espelho da sua eterna melancolia de que nunca conseguiu libertar-se. Julgo que desistiu. Era a escrever que procurava sofrer menos a sua angústia de se sentir tão só e por vezes tão mal compreendida e tão mal-amada.
É habitual ouvir dizer que quem sofre traduz melhor em versos o que sente. E a Maria Ondina era uma poetisa sensível. Aliás, essa poesia reflecte-se em muitas páginas da sua obra em prosa. Mas também fez versos. Versos de que não gostava de falar por não os considerar ao nível da sua prosa. Recusava considerar-se poetisa. Apenas ficcionista. Mas a verdade é que é precisamente nesses seus poemas que toda a sua amargura se traduz, tal como nalguns textos inéditos que talvez não tenha querido nunca ver publicados. Como eu entendo esses textos! São conversas connosco, com memórias, com recordações dolorosas, com uma interrogação permanente. Numa busca de respostas nunca encontradas, com a angústia dum vazio que nada consegue preencher.”
Maria Ondina Braga foi distinguida com importantes prémios literários. Em 1994, a Câmara Municipal de Braga, sua terra natal, concedeu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade e, em 2005, instituiu um prémio literário com o seu nome. O Museu Nogueira da Silva criou nas suas instalações o Espaço Maria Ondina Braga. Um colóquio internacional foi-lhe dedicado em 2016, de que resultou o volume de ensaios “Maria Ondina Braga. (Re)leituras de uma Obra”, coordenado por professores da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade do Minho. Em 2017, uma semana do livro de Macau em Lisboa incluiu uma sessão dedicada à escritora na Biblioteca Nacional, muito bem protagonizada pelo advogado e escritor José António Barreiros. Chegou-nos, entretanto, a notícia de que está em preparação a reedição da sua obra completa.
Texto da autoria de Jorge Rangel publicado no Jornal Tribuna de Macau, 22.1.2018
Mais informações sobre Maria Ondina Braga aqui.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Carlos Coelho: 1953-2018

"Quim nunca si cunhêce Macau na tempo antigo, senti qui nádi pódi sábi qui laia di terra sã Macau." Carlos Coelho
Texto e foto: Hoje Macau 22.01.2018
O macaense e professor Carlos Manuel Coelho morreu na sexta-feira, com 64 anos, após se ter sentido mal em casa. Conhecido pelo talento com que falava patuá, a devoção à Igreja e as qualidades culinárias, os membros da comunidade macaense, ouvidos pelo HM, recordam o homem "carinhoso", "afável", bem-disposto. Filho de pai português e mãe chinesa, Carlos Coelho nasceu em Macau, no ano de 1953, e seria no território que passaria toda a infância e adolescência. Enquanto professor, tendo leccionado na antiga Escola Luso-Chinesa, que ficava situada junto ao Jardim Vasco da Gama, Carlos Coelho integrou um dos primeiros grupos de professores do ensino primário de Macau que foram enviados para Portugal, com o objectivo de terem formação pedagógica. Isto numa altura em que havia falta de quadros qualificados para ensinar português, como recorda o médico e amigo Fernando Gomes, que leccionou a tempo parcial sobre a orientação de Carlos Coelho. "Apesar dele ser cerca de 13 ou 15 anos mais velho do que eu, sempre nos demos muito bem, enquanto mantivemos um contacto próximo. Eu na altura também dava aulas em part-time de português na Escola Luso-Chinesa, onde ele ensinava, e recordo que as orientações que ele nos dava eram muito importantes", afirmou Fernando Gomes, ontem, ao HM. "Era muito bom professor. E na altura foi um dos primeiros professores locais que foram enviadas para Portugal com o objectivo de aprenderem a pedagogia para ensinar as crianças", recorda. Memória semelhante foi partilhada por Rita Santos, presidente do Conselho Regional da Ásia e Oceânia do Conselho das Comunidades Portuguesas: "Era uma pessoa muito atenciosa, e sabia-se que os alunos gostavam muito dele e das suas aulas", disse, ao HM.
Característica igualmente marcante de Carlos Coelho era a forma como conseguia expressar-se em patuá, com uma grande fluência. Foi também por este motivo que o professor foi um dos escolhidos para recitar na reabertura do Teatro D. Pedro V, em Patuá, durante a visita do então presidente português Mário Soares, em Outubro de 1993. Também nesse ano que surge o grupo de teatro Dóci Papiaçám, com vários fundadores, como Mi-guel de Senna Fernandes, o próprio Fernando Gomes, entre outros. "Quando surgiram os Dóci Pa-piacám, ele era o actor principal e ficou conhecido como uma pessoa com grande talento para o teatro. Recordo-me que participou durante três ou quatro anos de forma activa nos Dóci Papiacám", contou Fernando Gomes. Uma característica reforçada por Rita Santos: "Contribuiu muito para a preservação do Patuá, que ele gostava muito de falar, depois era simplesmente um actor natural", apontou. Além disso, enquanto membro dos antigos Serviços de Educação, onde estava ligado à área cultural, dedicou-se a dirigir o Rancho Folclórico, português. Ao mesmo tempo, dançava em part-time no restaurante Portas do Sol, no Hotel Lisboa, o então salão de festas da elite português ligada ao Governo.
Com o aproximar da Transferência da Soberania, Carlos Coelho optou por ir para Portugal, mas acabaria por regressar no início dos anos 2000. Antes, foi o principal entrevistado da TVB de Hong Kong, num programa sobre as perspectivas da comunidade portuguesa no pós-transição. Um programa que filmou o professor a deixar Macau, com as lágrimas nos olhos. "Como macaense que era gostava muito de Portugal e era patriótico, apesar de também gostar da China. Quando se mudou de bandeira, ele optou por ir para Portugal. Só que depois, acredito que não se tenha adaptado bem e acabou por regressar", lembra Jorge Fão, presidente da mesa da Assembleia-Geral da APOMAC. No entanto, Fernando Gomes acredita que mudança foi principalmente motivada pelas saudades do território, que amava: "Não acredito que ele tivesse regressado desiludido com Portugal. Ele voltou para a terra onde tinha nascido, crescido e vivido. Também não nos podemos esquecer que do clima de apreensão e incerteza com que se encarava a transição", frisou o amigo. "Regressou quando as coisas já estavam mais estáveis. Acho que foi o amor por Macau que falou mais alto, porque foi algo que ele nunca esqueceu. Em jeito de brincadeira até lhe cheguei a dizer que o amor pela ‘Mátria’ tinha sido maior do que o amor pela Pátria", acrescentou.
Quando regressou a Macau, Carlos Coelho apostou nas suas raízes e abriu um restaurante de comida macaense na zona do NAPE. Um local que ainda hoje é recordado pela qualidade da comida, apesar de ter estado aberto durante um pequeno espaço de tempo. "Era descendente de uma família que tinha muito jeito para a culinária e era por isso que ele também fazia comida muito boa. Era comida macaense e o espaço tinha muito fregueses. Nunca percebi porque fechou", recorda Xeque Hamja, membro da comunidade local.
"Ele era muito pegado à cultura macaense e tentava sempre valorizá-la, além de também valorizar as culturas portuguesa e chinesa. O restaurante oferecia comida macaense com elementos das outras culturas, mas não durou muito tempo", explica Jorge Fão.

Nota do autor do blogue: De acordo com Gonçalo Xavier a mãe de Carlos Coelho era macaense e não chinesa.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Exemplos de "consciência ecológica" no século XIX

No Boletim da Província de Macau e Timor, de 15 de Fevereiro de 1883 - Suplemento ao nº 6, Constantino José de Brito assina o Relatório da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau e Timor relativo ao Ano de 1882, datado de 30 de Janeiro de 1883. Ali pode ler-se:
"1882 - "O principal jardim da cidade é o de S. Francisco, no fundo do qual existiam os restos duma cascata a desmoronar-se, e que foi reconstruída, dando-se uma nova disposição, tendo também sido substituído na casa do guarda o madeiramento do telhado, que tinha sido destruído pela formiga branca. O jardim é cercado duma balaustrada, que também foi reparada.
Como o prédio em que o Tribunal da Procuratura actualmente funciona tinha vizinho ao jardim de S. Francisco um quintal que deixaria de ser aproveitado, apesar do governo satisfazer ao mosteiro de Sta. Clara a renda correspondente, trata-se de o reunir ao jardim para recreio do público, por isso que no quintal existem algumas árvores frondosas, cuja sombra deve ser bastante agradável, na estação calmosa. E como o jardim de S. Francisco não tem árvores desenvolvidas, mas apenas arbustos e flores, deve tornar-se digno de muito apreço o acrescentamento que vai ter e ainda seria para desejar que se lhe acrescentasse um canto do largo de S. Francisco, onde se acham uns casebres, e de modo que ficassem incluídas no jardim as duas copadas e formosas árvores que ali existem."

O Jardim de S. Francisco é tido como primeiro jardim público de Macau. Na época, existiam outros, casos do jardim do Chunambeiro, do jardim particular da "horta da Mitra, jardim da Flora e do Jardim da Gruta de Camões.
Em 1881 Tancredo Caldeira de Casal Ribeiro, "agrónomo do districto de Aveiro" é nomeado para exercer o "logar de agronomo da provincia de Macau e Timor”.
Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro (1856- ?) licenciou-se em 1897 pelo Instituto Geral de Agricultura, em Lisboa, e exerceu funções em Macau entre 1881 e 1886, tendo sido também professor no Seminário de S. José.
Entre os anos de 1883 e 1887 foram mandadas plantar pelo Governador Tomás da Rosa 60.000 árvores em Macau, a maioria na colina da Guia. Ora se tivermos em conta o recenseamento geral da população, efectuado a 31 de Dezembro de 1878 - "68.086 habitantes europeus, chinas e de outras nacionalidades" - dá praticamente uma árvore por cada habitante.
Lúcio Augusto da Silva assina o Relatório do Serviço de Saúde Pública na Cidade de Macau, Relativo ao Ano de 1882, datado de 30 de Março de 1883 publicado no Boletim da Província de Macau e Timor onde se inclui um relatório acerca da arborização de Macau pelo agrónomo Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro: 

"(...) Confiado este ramo de serviço desde há muito à direcção das obras publicas, era no orçamento d'esta repartição que estava consignada a verba para esses trabalhos, verba mesquinha e insufficiente, englobada na dos jardins publicos e portanto sujeita a ficar mais reduzida, sempre que estes reclamassem qualquer obra de maior vulto. N'estas circumstancias, para evitar difficuldades de escripturação, continuaram as despezas a ser feitas por via d'esta repartição, sendo as folhas de trabalho processadas semanalmente pelo systema ali seguido. A escacez da verba applicada á arborisação não tinha permittido que até aqui se desse o desenvolvimento que merece um ramo tão importante de serviço, porque em Macau não basta arborisar as estradas, é mister tambem povoar as montanhas agora aridas e escalvadas e que tão feio aspecto apresentam ao viajante que se dirige a Macau. É tristonha e desagradavel a impressão que se sente ao entrar na rada e mais tarde no porto quando se vêem alvejar as casas destacando entre as pequenas montanhas nuas, manchadas de espaço a espaço pelo saibro avermelhado. Foi essa a impressão que senti ao entrar pela primeira vez n'esta cidade, e dei-me por feliz, quando encarregado d'estes trabalhos, por poder contribuir, na acanhada proporção dos meus recursos, para o aformoseamento d'essas montanhas que cobertas de vegetação poderão transformar esta colonia em verdadeira Cintra do sul da China. (...)
Assim, ficamos a saber que "plantaram-se por duas vezes em julho de 1883 e março de 1884 as seguintes especies.
Pinus sinensis - 20,000 pés; Cupressus japonica - de cada uma 300 pés; Aleurites triloba;
Ailanthus glandulosa; Poinciana pulcherrima; Laurus camphora; Ficus elastica; Erytrina; e
Morus alba - 3,000 pés." 

Macau no século 19
Augusto Pereira Tovar de Lemos no Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, referido ao ano de 1885, datado de 1 de Fevereiro de 1886 com publicação no Boletim da Província de Macau e Timor escreve:
"A utilidade que resulta da arborisação, o elevadíssimo papel que ella assume na hygiene publica é tão conhecido e demonstrado que me abstenho de demorar, repetindo o que já é do dominio publico. Basta que diga que breve se devem sentir os beneficos efeitos da cultura emprehendida pelo Ex. mo Sr. Governador.
O arvoredo que, tirado d'um viveiro da quinta da Flora cuidadosamente tratado foi transplantado para varios pontos da cidade e em especial para a cordilheira que por E circunda o grande largo denominado Flora, já hoje se apresenta viçoso e bonito. A cultura é em larga escala, e entre os cinco ou seis annos lucrarão a hygiene e o aformoseamento da cidade. Aquelles montes que pela sua nudez, pelo seu granito, e rochas em pontos a descoberto impressionavam tristemente o viajante, aqueles montes que pela sua natureza mais convidavam a trabalhos de dynamite, e mais pareciam proprios a fornecer pedra para construção de casas, do que para alimentar em seu seio um vegetal qualquer, converter-se-ão em formosos cerrados bosques. O estrangeiro que visitar Macau receberá as mais gratas impressões."
Veja-se outro exemplo de "consciência ecológica" no século 19. Em 1871 é publicado pelo Leal Senado O Código de Posturas do Leal Senado e a Conservação das Árvores: 
Artigo 1. ° É prohibido prender, ou atar qualquer cousa ás arvores, que estiverem em terreno publico, ou subir a ellas; embora d'isso não provenha damno immediato, punivel pelo artigo subsequente: sob pena de $1 de multa. Art. 2. ° É igualmente prohibido varejar as mesmas arvores, atirar-lhes pedras, páus, ou cousas semelhantes, quebrar-lhes alguma haste ou vergontea, ou finalmente deterioaral-as por qualquer outro modo: sob pena de $2 de multa. Art. 3. ° Incorre no quintuplo da pena comminada no artigo antecedente, quem cortar, ou arrancar pela raiz qualquer d'essas arvores, não estando munido de licença da camara; ou quem tendo esta licença não cumprir todo, ou em parte as condições, com que ella for concedida.