sábado, 25 de janeiro de 2014

Caderneta "Maravilhas de Portugal"

A caderneta de cromos "As Maravilhas de Portugal" inclui as principais maravilhas de Portugal na década de 1960 bem como das ex colónias / províncias ultramarinas: Moçambique, Angola, Índia, Timor, Macau, Guiné, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.
Ao longo dos anos existiram diversas edições idênticas, todas inspiradas no modelo espanhol "Belezas de España" editado pela Bruguera em 1959. A primeira edição teve 15 mil exemplares. É de Junho de 1963 da editorial Ibis. A caderneta era composta por 260 cromos fotográficos acompanhados de um pequeno texto.
No que a Macau diz respeito apresenta-se uma fotografia panorâmica da Praia Grande tirada a partir do Monte da Guia, destacando-se o Convento do Precioso Sangue, os aterros da baía e o hotel Boa/Bela Vista. A imagem, originalmente a preto e branco, foi depois 'pintada', técnica muito habitual naqueles anos.
O texto, embora curto, inclui muitos erros. "Macau é uma província portuguesa na China Meridional. É constituída pela Cidade de Santo Nome de Deus de Macau e um arquipélago. Foi Fernão Peres de Andrade que em 1568 ali levantou uma feitoria com 900 homens. Em 1848 foi nomeado governador o oficial de Marinha, João Maria Ferreira do Amaral e em 1887 estabeleceu-se o tratado entre Portugal e a China que estipula Macau como território português".
A designação da cidade não inclui o termo "santo" como tantas e repetidas vezes encontramos; a cidade de Macau está numa península  e o território inclui ainda as ilhas da Taipa e de Coloane; Peres de Andrade chegou mais cedo a Macau e a data tida como sendo a do estabelecimento oficial dos portugueses é 1554; Ferreira do Amaral tomou posse em 1846 e fora nomeado governador um ano antes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Abrigos subterrâneos da Colina da Guia


A Fortaleza do Monte da Guia tem um formato trapezoidal e fica a cerca de 90 metros acima do nível do mar (o ponto mais elevado do Território). A sua construção foi concluída em 1622 tendo sido ampliada em 1638. Ocupa uma área de 800 metros quadrados e no seu interior tinha, em termos militares: quartel, paiol, torre de vigia e cisterna… e ainda a Capela de Nossa Senhora da Guia, erguida por volta de 1622, e o Farol da Guia, o primeiro farol do Extremo Oriente, construído em 1865. No monte onde está implantada a fortaleza existe uma rede de três túneis subterrâneos que, à época da Segunda Guerra Mundial, tinham a função de proteger a guarnição dos ataques aéreos. Serviam também de instalações militares com os seus próprios geradores de energia eléctrica, salas de descanso e depósitos de combustíveis e de mantimentos. O túnel mais comprido (complexo C) tem 456 metros e o mais curto (complexo A) cerca de 50 metros, atravessando a colina de Sul a Norte. O Complexo B tem 207 metros de extensão servia de armazém e tinha vigias viradas para o mar.
 

Foto de Carlos Garcia. década 1980
Desde 1975 (ano da partida da guarnição militar portuguesa) parte destes túneis foram abertos ao público, uma vez que a área deixou de ser classificada como zona de reserva militar. Até então, só no dia 25 de Agosto (dia de "Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior") e no dia do Culto dos Antepassados (ou também chamada, em chinês, de "Chong Yeong") é que era permitido a entrada de fiéis para a Capela, dedicada a Nossa Senhora da Guia. Na Cronologia da História de Macau (de Beatriz Basto da Silva) informa-se (com base num livro de A. Cação) que a 6 de Janeiro de 1913 teve início a "construção de um abrigo e bateria na Colina da Guia. Já antes tinha havido e depois voltaram a ser construídos abrigos, subterrâneos e baterias . Às duas primeiras foi dado o nome de «5 de Outubro» que depois passou a «Almirante Gago Coutinho e Sacadura Cabral» sem perder o nome inicial, por ocasião da viagem aérea ao Brasil." O facto é assinalado pela revista “Illustração Portuguesa” na edição de 12 de Janeiro de 1914 onde é publicada uma imagem com a seguinte legenda: “A companhia europeia de artilharia depois do transporte d´um canhão do Fortim da Bahia para o abrigo da colina da «Guia» sob a direcção do tenente d´artilharia sr. Farinha e Relvas no que foram empregados apenas 37 homens.”
Este fortim da Bahia era nada mais nada menos que o fortim de S. Pedro (ficava junto ao Palácio do Governo e foi demolido em 1934). A peça de artilharia foi pois transferida para a Guia onde tinham sido construídas duas posições para a artilharia que constituíram a “Bateria 5 de Outubro”, na época do início da República e em virtude da grande agitação que passava pela China. Esta bateria ficava na parte superior da colina mais próxima do Hoi-fu, tendo um pequeno túnel de ligação (que poderá ser de data posterior). 
Voltando aos túneis ou abrigos subterrâneos importa referir que se estendem em várias direcções e apesar de não estabeleceram uma ligação entre si, estão dispostos de forma a darem acesso às baterias, à fortaleza e ao então quartel.  Dos três subterrâneos, o situado por baixo do farol é o mais fácil de encontrar. É também o menos extenso e de menor desnível, atravessando a colina de Sul a Norte. À entrada, está (ainda) gravado na parede de cimento a inscrição “1931”, ano da sua construção que foi coordenada por um militar (alferes) português de apelido Cunha. Na Cronologia da História de Macau pode ler-se: “Em 1931, sob a supervisão do alferes militar português, de apelido Cunha, foram realizadas as construções de subterrâneos de grande envergadura no sopé da colina da Guia e da colina da Penha. Após o termo das obras, foram colocadas nos subterrâneos canhões de 12 e 15.5 polegadas”. Existiram ainda três canhões costeiros, com calibre de 6 polegadas e outros dois, com um calibre 4,7 polegadas. Os abrigos antiaéreos eram equipados com gerador, sala de descanso, tanque de combustível, orifícios para armas de fogo virados ao mar, bem com um elevador que dá para a bateria próxima do farol.
Na altura, a zona circundante aos subterrâneos era considerada área militar de acesso restrito existindo ao seu redor vedações de arame com a inscrição “Zona de restrição militar”. Em 1962, as tropas retiraram-se dos subterrâneos e nos meados da década de oitenta as vedações de arame foram retiradas, permitindo o acesso aos visitantes. 
O cimento necessário para a construção deve ter sido fornecido pela “Fábrica de cimento da Ilha Verde” (criada em 1887).
Vem tudo isto a propósito do facto dos túneis, cuja salvaguarda está a cargo do IACM, poderem ser visitados. O Complexo A, todos os dias (excepto à segunda-feira) entre as 10 e as 17 horas e o Complexo B, apenas ao fim de semana, entre as 15 e as 17 horas.
  
PS: Existiram túneis subterrâneos/abrigos semelhantes a estes junto às Portas do Cerco e na Colina da Penha.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Miúdos... por Lei Chiu Vang

A foto é da autoria de Lei Chiu Vang  que durante mais de 40 anos trabalhou para o jornal "Macao Daily News" (Ou Mun). Durante esse tempo captou a essência de Macau e das suas gentes, em especial nas décadas de 1960 e 1970.
Em 2003 ofereceu mais de um centena das suas fotografias ao Museu de Arte de Macau que com elas acabaria por organizar em 2004 uma exposição intitulada "Visita ao Passado - Fotografias de Lei Chiu Vang".

Natural de Xinhui (Cantão) Lei Chiu Vang foi sócio honorário da Associação Fotográfica de Macau, membro da Real Associação Fotográfica do Reino Unido, sócio da Associação de Estudo de 35mm de Hong Kong e sócio vitalício da Associação Fotográfica Chinesa de Hong Kong.
As suas fotografias são registos preciosos para a história de Macau no século XX. Morreu em Março de 2009 com 77 anos.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Hitchcok: um botânico em 1921


View of warehouses and boats in the port of Macao.
Cais dos vapores no Porto Interior (Largo da Caldeira)
 
Albert Spear Hitchcock, botanist, took many photographs while researching and collecting specimens for the Smithsonian Institution Archive in Asia, South America, and the southern United States between 1918 and 1924.  In 1921 he was in Macao. Hitchcock not only took photographs of specimens and colleagues, but while visiting these nations, he also documented skylines of bustling ports like Macau, landscapes and the lives of people in these communities.
Nas suas pesquisas o botânico Albert Spear Hitchcock viajou pela América do Sul, Estados Unidos e Ásia entre 1918 e 1924. Em 1921 esteve em Macau e, tal como nas outras paragens, registou em fotografia o que viu proporcionando-nos imagens raras como estas do território no início da década de 1920.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

"Cousas da China: costumes e crenças"

Joaquim Heliodoro Callado Crespo, oficial do exército e diplomata (1861-1921) foi o cônsul português em Cantão entre 1895 e 1900, período marcado pela conturbada vida política na China no final do século 19 incluindo a chamada "guerra dos boxers" que levou ao reforço da presença militar em Macau. Escreveu, por exemplo, "A China em 1900" e "Cousas da China: costumes e crenças", editado pela imprensa Nacional em 1898.
Na parte dedicada à “Linguagem chinesa, caracteres e imprensa”, Callado Crespo refere o nome de Nolasco da Silva (de Macau): "diz um sinólogo nosso, o Sr. P. Nolasco da Silva, nas suas lições progressivas para o estudo da língua sínica, é lacónica e difícil de entender; as letras são perfeitos camaleões que mudam de acepção, conforme são as outras letras com que vêm ligadas, o seu valor gramatical é regulado quase unicamente pela sua posição na oração, às vezes uma oração contém só as ideias principais, e a imaginação do leitor tem de suprir as ideias acessórias."
A mala do Consulado Geral de Portugal em Cantão ca. 1900-10

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Os "incidentes" de 1908 e a "questão de Macau"

António Vasconcelos de Saldanha explicou esta polémica numa conferência proferida em Macau em 1995 e da qual se extraem alguns excertos.
“Em Janeiro de 1908 o Encarregado de Negócios português em Pequim, Martinho de Brederode, alertava o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa, para o facto de os jornais chineses estarem a falar demais de e contra Macau. Brederode, atribuindo este tipo de iniciativas às movimentações de sinistras sociedades secretas, aconselhava a maior precaução, recordando também que os jornais vinham veiculando uma série de propostas enviadas por notáveis cantonenses ao Vice-Rei Zhang sobre a delicada e pendente matéria da delimitação de Macau. E o que causava apreensão era o facto de que o Vice-Rei acolhia estas iniciativas, satisfazendo a opinião chinesa com uma série de actos demagógicos e antiportugueses. O alerta de Brederode tem o interesse de adivinhar uma das mais graves crises da história de Macau, coincidente aliás com um dos mais dramáticos períodos da história da China. (…) 
O acontecimento fulcral dessa série de eventos que caracterizámos como «os incidentes de 1908», é, sem dúvida, o apresamento do navio japonês Tatsu Maru ao largo da ilha de Coloane, por suspeita de contrabando de armas. Sabe-se como esse acontecimento feriu profundamente os interesses japoneses e portugueses. Mas para além da ofensa imediata às pretensões portuguesas nas águas em volta de Macau, os efeitos do incidente Tatsu Maru iriam atingir de um modo mais grave os interesses de Portugal na China. Como justamente irá notar pouco mais de um ano passado o general Machado, Comissário português nas Conferências de Hong Kong, a solução do caso do Tatsu Maru com um humilhante pedido de desculpas da China ao Japão, teria «ferido brutalmente e sem grande necessidade o sentimento popular de uma das primeiras cidades do Império, e a férvida excitação que se seguiu encontrou, como um canal aberto por onde derivar o seu ódio contra os estrangeiros, a reivindicação dos territórios de Macau e a recuperação de direitos que se pretendiam usurpados pelos Portugueses».
Final do século XIX
(…) Se até à subscrição do Protocolo Preliminar de Lisboa, em 26 de Março de 1887, e ao sequente Tratado de Amizade e Comércio subscrito em Pequim em 1 de Dezembro de 1887 e ratificado em 28 de Abril de 1888, a «Questão de Macau» foi preenchida essencialmente pelo problema da determinação e reconhecimento do título da presença dos Portugueses em Macau pela China, desde esse momento e até à 1ª metade do nosso século a mesma questão significou diferentemente o problema da delimitação marítima e terrestre de Macau, problema deixado em aberto precisamente pelo artigo 2.º do tratado de Pequim.
«A China confirma, na sua íntegra, o Artigo 2.º do Protocolo de Lisboa, que trata da perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal. Fica estipulado que comissários dos dois governos procederão à respectiva delimitação que será fixada por uma convenção especial, mas enquanto os limites se não fixarem, conservar-se-á tudo o que lhe diz respeito como actualmente, sem aumento, diminuição ou alteração por nenhuma das partes». (…) Na raiz de todas as disputas estava uma situação nebulosa, causada pelo modo vago e impreciso pelo qual tanto o Protocolo de Lisboa como o Tratado se referiram à geografia física e política de Macau. Se o Protocolo aludia brevemente no seu texto às «dependências de Macau», o Tratado era ainda mais lacónico ao empregar o simples e impreciso termo «Macau».” 
No relatório final das conferências do segundo semestre de 1909 do Alto Comissário Régio pode ler-se: “O Governo português tem actualmente a considerar a existência de uma questão de Macau. Não se trata simplesmente de uma questão de limites afixar com maiores ou menores vantagens, desde já ou daqui a alguns anos: trata-se da perda ou da conservação de uma colónia...”

domingo, 19 de janeiro de 2014

Jane Russel e Robert Mitchum: 1951

Em 1951 (a julgar pelo carimbo em que não perceptível o mês, apenas o dia, 19) Jane Russel e Robert Mitchum enviam esta fotografia a partir de Macau para os EUA (Columbus, Ohio) onde pode ler-se:
"Dear Mr. Sanders, It's hot in here but wait until you see us in "Macao", the RKO Radio Picture directed by Josef von Sternberg. It sizzles! Bill Bendix stars with us. Regards"
Refere-se ao filme Macao. Os dois eram o 'casal' de Hollywood mais conhecido na década de 1950. A fama foi levada até à publicidade como se pode ver neste anúncio em que Jane Russel associa a sua imagem e a do filme aos aparelhos de ar condicionado.
Veja os diversos cartazes de cinema do filme aqui.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Do Asylo dos Orphaos ao ICM

O edifício número 89 da Rua Conselheiro Ferreira de Almeida onde actualmente funciona o Instituto Cultural do Governo da R.A.E.M., na Praça do Tap Seac, teve múltiplas utilizações desde a sua construção e todas elas dignas de registo para a sociedade macaense.
Começou por albergar o Asylo dos Orphaos (Asilo dos Órfãos) criado em 1900 (Boletim Oficial n.º 15 de 14-04-1900) pelo Provedor da Santa Casa da Misericórdia, Pedro Nolasco da Silva. A instituição acabaria por ser extinta por razões económicas em 1918 tendo recolhido e educado ao longo desses anos cerca de 200 rapazes. Curiosamente, um deles, Pedro Paulo Ângelo, quando fez parte da direcção da Santa Casa na década de 1930, fez renascer das cinzas o asilo. A 14 de Julho de 1931 teve início uma subscrição pública para subsidiar o projecto e em Agosto do ano seguinte os estatutos foram aprovados pela Portaria n.º 936 do Governo de Macau.
Com cerca de 10 mil patacas conseguidas na subscrição pública e o empenho de personalidades como o arquitecto Keil do Amaral e o Dr. Gustavo Nolasco da Silva foi construído um novo edifício no número 2 da Travessa dos Anjos. Deste modo, o Novo Asilo dos Órfãos seria inaugurado a 6 de Janeiro de 1933 “sob o patrocínio da Associação Pública de Protecção aos jovens Pobres e Órfãos, alimentada com cotas mensais, sessões de animatógrafo e outras representações de benefício”.
Com o edifício no Tap Seac vago no início da década de 1920 (imagem abaixo), Governo e Santa Casa entram em negociações. Na época o Liceu funcionava no antigo hotel da Boa Vista (construído em 1890, actual residência do cônsul português em Macau e Hong Kong) que era propriedade da Santa Casa. Para mudar o liceu de local o Governo compra o edifício à Santa Casa - queria voltar a reabrir o espaço como hotel) por cerca de 80 mil patacas e a escola passa a funcionar no antigo asilo no Tap Seac. Se no espaço do antigo hotel viveram nomes como Camilo Pessanha, Venceslau de Moraes e Manuel da Silva Mendes, também no ‘novo’ liceu do Tap Seac se destacaram nomes maiores da sociedade macaense (alunos e professores): José Gomes da Silva, Carlos Assumpção, Luís Gonzaga Gomes, Henrique de Senna Fernandes, entre muitos outros.
Voltando ao liceu… A mudança aconteceu a 12 de Julho de 1924 e é ali que o Liceu (criado em 1893) vai funcionar até à construção do primeiro edifício de raiz, em Outubro de 1958, na Praia Grande, onde é hoje o espaço Sintra/Banco da China.
Logo que o Liceu teve finalmente um espaço condigno (1958, na Praia Grande) o edifício do Tap Seac passou a funcionar, ao longo de várias décadas, primeiro como Repartição Provincial dos Serviços de Saúde, depois como Delegacia da Saúde e já na década de 1980 albergando os Serviços de Saúde de Macau, depois de obras de remodelação.
Um última nota para referir que toda aquela zona é composta por um conjunto de edifícios com características neoclássicas (vejam-se, por exemplo, as colunas e as arcadas nas fachadas). Os edifícios estão inseridos na lista do Património da Unesco.
É caso para dizer que se as paredes dos edifícios aqui mencionados falassem, tinham muito que contar sobre a história de Macau...
Publicado no JTM de 17.1.2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Patacas em... Timor

O Banco Nacional Ultramarino abriu a agência em Dili em Abril de 1912 e colocou ali em circulação notas de patacas da filial de Macau com o carimbo “Pagável em Timor”
A emissão feita propositadamente para Timor, com data de 1 de Janeiro de 1910 e com valores de 1, 5, 10 e 20 Patacas, foi lançada em circulação a partir de Março de 1915. Era equivalente à pataca de Macau e subdividida em 100 avos.
Mesmo depois da emissão própria para Timor, o BNU continuou a fazer circular no território, "Patacas de Macau", com indicação de circulação em Timor. Em 1958, o BNU substituiu a pataca pelo escudo à taxa de 5,6 escudos por 1 pataca, sendo equivalente ao escudo português. Curiosidades...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mapa: década 1980

Comparando com Macau do século XXI sobressaem algumas diferenças neste mapa da década de 1980: a superfície bem mais pequena que a actual (nesta altura ainda havia a baía da Praia Grande), só uma ponte a ligar a península à ilha da Taipa e o istmo Taipa-Coloane que foi 'engolido' pelo que é hoje a zona denominada de Cotai.

Istmo Taipa-Coloane

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

José M. Braga (1897-1988): Jack Braga


António Aresta, docente e investigador, publicou a 14 de Abril de 2011 no Jornal Tribuna de Macau este texto sobre a vida e a obra de José Maria Braga que o pintor Fausto Sampio retratou (imagem de cima) em 1936 na sua passagem por Macau. 
Erudito e eclético investigador da história dos portugueses em Macau e no extremo-oriente, José Maria Braga (1897-1988), assinava Jack Braga, prestou incontáveis serviços à cultura portuguesa. Natural de Hong Kong, era um “homem de grande estatura, olhos claros e brilhantes”, oriundo de uma família de pioneiros do estabelecimento da colónia britânica, onde o seu pai tinha sido director do influente “Hong Kong Telegraph”.
José Maria Braga gostaria de ter sido médico. A sua filha Maria Braga recorda esse passado: “as lágrimas deslizaram-lhe pelo rosto abaixo e nunca mais se voltou a falar sobre isso. Tinha apenas 15 anos e tinha recebido há pouco os resultados do seu exame de aptidão – fora o melhor aluno em toda a colónia de Hong Kong. Os irmãos do Colégio de S. José vieram à sua residência e deram-lhe instruções para solicitar uma bolsa de estudo para ingressar na Escola Médica. O seu pai, o ilustre J.P.Braga, chegou a casa e ordenou-lhe para não fazer o requerimento, porque se esperava que ele começasse a trabalhar e a ajudar a família. Depois de tudo, era o filho mais velho de uma família de 13 crianças”.
A família retorna a Macau no início dos anos vinte, e José Maria Braga ingressa no Seminário de S. José, na qualidade de Professor. Aqui leccionou Inglês, Literatura Inglesa e Inglês Comercial, durante vários anos, aos jovens macaenses que alimentaram a diáspora comercial em Hong Kong, Cantão, Xangai, Banguecoque, Yokohama e Tóquio. Casou em Macau com Augusta Isabel Osório da Luz, em 1924.
A memória do Padre Manuel Teixeira é preciosa: “quando chegamos a Macau em 1924, era ele um jovem professor de 28 anos no Seminário de S. José, onde ensinava Inglês e Literatura Inglesa. O único historiador que então florescia era o Padre Régis Gervaix, nosso professor de Francês, no mesmo Seminário onde leccionava Braga. Mas Gervaix foi convidado pelo Governo Chinês para professor de literatura francesa na Universidade de Pequim, para onde partiu em 1925. Jack Braga, que já desde 1920 se interessava pela história de Macau, retomou a bandeira nas suas mãos e ergueu-a triunfante. Durante uma dezena de anos, foi ele o grande historiador desta terra, como o Padre Gervaix desde 1916. Os seus trabalhos publicados em inglês tornaram Macau muito conhecido no estrangeiro. Havia outro grande historiador: Era Montalto de Jesus, que já em 1902 publicara a sua obra magistral ‘Historic Macao’, que se esgotou rapidamente. Foi Jack Braga que o levou a publicar uma 2ª edição e tratou de todos os arranjos; mas, quando esta saiu em 1926, caiu o Carmo e a Trindade; o livro foi queimado junto ao Tanque do Mainato e o seu autor condenado pelo Tribunal, vindo a morrer na miséria. Ainda espera a sua reabilitação. Ficou de pé apenas Jack Braga”.

Jack Braga com a mulher
Colabora assiduamente na comunicação social deixando aí bem vincados os seus interesses pela história, sobretudo pela história de Macau. Deixou artigos e estudos assinados no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, no Boletim do Instituto Português de Hong Kong, nos Arquivos de Macau, na revista Renascimento, no Notícias de Macau, no “Journal of Oriental Studies”, “The Macao Review” ou no “South China Morning Post”.
Dotado de uma infatigável curiosidade intelectual, como refere a sua filha Carolina Braga, “dedicava a maior parte do seu tempo livre à pesquisa histórica, depois do seu trabalho como gerente da Watco, uma empresa de fornecimento de água da China para uso em Macau. Trabalhava também nas actividades de importação e exportação”. Como consequência disso a sua obra é muito vasta, pelo que aponto alguns títulos: “Picturesque Macao”, 1926; “The Americans in Macao and South China”, 1930; “Early Medical Practice in Macao”, 1935; “A Biblioteca do Capitão C.R.Boxer”, 1938; “O Ínicio da Imprensa em Macau”, 1938; “Os Alvores da Impressão Xilográfica em Macau”, 1941; “Os Tesouros do Colégio de São Paulo”, 1942; “China Landfall: Jorge Álvares voyage to China”, 1955; “Macao: a short handbook”, 1963; “A Voz do Passado”, 1964; “O Ensino da Língua Portuguesa em Hong Kong”, 1969.
Na apresentação da obra de seu pai, José Pedro Braga, intitulada “The Portuguese in Hong Kong and China: their beginning, settlement and progress during one hundred years”, publicada no volume XII (1978), do Boletim do Instituto Luís de Camões, de Macau, (243 páginas), José Maria Braga escreveu o seguinte: “This is José Pedro Braga’s book. Nay, it it his tribute to his race, the Portuguese in China. ‘Our people’, he called them. None better than he knew the latent worth of these people. None better than he could tell of all that was best in them. None better than he understood their frailties”. Como se observa, o sentido da verdade está bem acima das emoções ou das conveniências.
do livro "short handbook"
Geoffrey Bonsall registou esta interessante particularidade para a história social e cultural de Macau: “durante a guerra do Pacífico, J. Braga e Robert Ho Tung viviam em Macau. Jack contou-me que quando Sir Robert regressou a Hong Kong após o termo do conflito, foi ele que o convenceu a legar a casa onde vivera em Macau para instalar a Biblioteca Sir Robert Ho Tung”. Um outro aspecto é revelador da sua generosidade: “estudiosos e escritores, como o versátil Austin Coates, utilizaram os seus livros e os seus conhecimentos. Muitos frequentaram a sua casa e consultaram a sua biblioteca no apartamento de Bonham Road onde a sua simpática mulher, Augusta, acolhia todos de bom grado”.
A faceta de bibliófilo merece uma nota breve.
A sua biblioteca particular estava recheada de verdadeiras preciosidades, entre livros, colecções de jornais e revistas, manuscritos, mapas, cartas, gravuras, fotografias ou pinturas. Tudo amorosamente coleccionado ao longo dos anos, por vezes em sadia competição com Charles Boxer, de quem era grande amigo.
Em 1966, na ressaca do maoísmo radical, que em Macau ficou celebrizado no 1-2-3, que trouxe grande instabilidade social e política, todo esse enorme e valiosíssimo acervo foi disputado por universidades e bibliotecas nacionais de diversos países. Acabou por ser adquirido pela Biblioteca Nacional da Austrália, a terra da família da sua mãe.
Nasceu, assim, “The Braga Collection in the National Library of Australia : The Portuguese in Asia and the Far East”, cujo Catálogo é o retrato cultural de José Maria Braga, um espírito eclético e com interesses pluridimensionais. Vale a pena folhear o Catálogo.Entre tantos espécimes valiosos registo os seguintes: uma edição de 1489, da “Cidade de Deus”, de Santo Agostinho; de Gabriel de Magalhães, a “New History of China”, de 1688; uma versão italiana, de 1682, do “Colóquio dos Simples” de Garcia de Orta.
Contam-se por centenas as monografias dedicadas à segunda guerra mundial, com especial ênfase sobre o expansionismo japonês.
A hemeroteca revela-se, também, muito importante: jornais de Macau (Voz de Macau; Macao Tribune; Notícias de Macau; União; Renascimento), jornais de Hong Kong (Hong Kong Telegraph; South China Morning Post; Sunday Examiner), jornais de Portugal (Comércio do Porto; Diário de Notícias; O Primeiro de Janeiro; O Século), e outros (O Portuguez na China; Anglo-Lusitano; The Asian Student; The China Mail).
Na colecção de pinturas, destaque para as obras de Smirnoff, Chinnery, Fausto Sampaio, Marciano Baptista, George West ou Charles Smith. E ainda, mapas antigos de Portugal, Macau, Hong Kong, Cantão, Nanquim e Pequim. Todo este manancial de informações é importante demais para ficar esquecido, subaproveitado ou para fazer esquecer o seu patrono.
Cemitério de S. Miguel por Smirnoff
No obituário que lhe dedicou o jornal de Hong Kong, “South China Morning Post”, são mencionadas algumas acções e facetas virtualmente desconhecidas: “enquanto esteve em Macau, J. Braga foi conselheiro não-oficial de vários governadores, especialmente no tocante às relações entre os governos de Macau e de Hong Kong. Foi correspondente da ‘Reuters’ e do ‘South China Morning Post’. É pouco conhecido o trabalho de J. Braga em prol dos Aliados durante a Guerra do Pacífico. Ele foi, em Macau, o oficial de ligação entre vários grupos dos Serviços Secretos, incluindo o do Governo chinês e o grupo de apoio ao Exército britânico. Foi ele quem organizou o correio clandestino que transportava mensagens vitais entre Hong Kong, Macau, Chung King e as estações radiofónicas dos Aliados instaladas atrás das linhas japonesas na China”. Uma fascinante história para ser esmiuçada com tempo.
Bem andou o governo de Macau, em 1993, através do Instituto Cultural de Macau, do Arquivo Histórico e da Biblioteca Central, ao promover uma homenagem a José Maria Braga, consubstanciada numa exposição biobibliográfica que esteve patente na Biblioteca do Leal Senado. Mas fica a sensação de que não terá feito tudo o que podia ou devia em tempo útil, sobretudo no plano simbólico. É, pois, inevitável a comparação com tudo quanto foi dispensado, e muito bem, a Charles Boxer.
José Maria Braga era académico correspondente, desde 1965, da Academia Internacional da Cultura Portuguesa. A coroa britânica condecorou-o em 1950, com o título de “Chevalier of the Order of Saint James of the Sward”. O governo português, a título póstumo, concedeu-lhe o título de Grande Oficial da Ordem do Infante D.Henrique.
Jack Braga padrinho de casamento em Macau em 1939.
Foto cedida por Candido Jorge Cuan (casamento dos seus pais)


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Recordando Lara Reis (1892-1950)

Fernando de Lara Reis nasceu em Leiria, a 28 de Dezembro de 1892, e faleceu em Macau a 14 de Janeiro de 1950. Era filho do cirurgião militar Francisco António dos Reis e de Maria del Carmen de Lara Reis. Frequentou o Liceu de Leiria entre 1902 e 1904. Fez os seus estudos no Colégio Militar, ingressando a seguir na arma de Infantaria, na qual se reformou no posto de tenente, após o desastre que sofreu na aviação, onde serviu durante alguns anos.
Seguiu depois a carreira do Magistério, tendo sido nomeado professor efectivo do Liceu de Macau, cargo este que exerceu até ao fim da sua vida. Colaborou em diversas revistas e jornais. Das frequentes e longas viagens que então fez pelo estrangeiro, particularmente pelo Extremo Oriente, ficou extensa memória escrita.
Legou à Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Leiria a sua livraria particular. Escreveu Diário de Viagens (26 vols.) e Diários da Minha Vida (2 vols.), obra ilustrada com desenhos, impressos, mapas e fotografias de diferentes aspectos dos países que percorreu.
Este fundo documental foi doado ao Arquivo Distrital em 1951 pelo médico oficial do exército António Maria de Figueiredo, que esteve em comissão de serviço em Macau e que foi o portador da obra legada pelo amigo. É constituído por correspondência, iconografia, notas biográficas, notícias de imprensa, publicações e roteiros e convites.
Algumas datas...
- decreto de 3 Junho 1919 nomeia Lara Reis como prof. do 7º grupo do Liceu de Macau
- 28 Out. 1919: toma posse como professor
- O Jornal A Voz de Macau de 12 Fevereiro e 1 Março de 1947 inclui artigos sobre LR;
- Em Junho de 1925 LR recebe louvor da "Caixa Escolar" por ter sido ele a tomar a iniciativa da construção do campo desportivo do Tap Seac;
- O Liceu de Macau teve um pavilhão na Feira Industrial de 1926 tendo contado com a colaboração de LR;
- Em 1938 mostra vontade de ir ensinar para Goa o que veio a acontecer em 1942;
- Em 1945 regressa a Macau no paquete "Colonial" em 1945, quando são permitidas as ligações marítimas após o fim da 2ª Guerra Mundial;
- Está ligado à criação do Rotary Club de Macau cuja inauguração ocorreu a 11 de Janeiro de 1947;
- Em 1949 vai a Portugal pela última vez... já doente; regressa a Macau para morrer na sua 'verdadeira' terra;
- era um exímio desenhador; gostava muito de viajar e por onde passava registava o que via em desenhos.
- doou a sua moradia - "Sol Poente" - sita na av. da República, à Santa Casa da Misericórdia para clínica anticancerosa; na mesma existe uma lápide que assinala a doação em 1951;
Dados obtidos a partir do livro "Macau e o Oriente no espólio de Lara Reis" da autoria de Orlando Cardoso.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Anúncio em branco: Janeiro 1943

Um lapso... numa edição de 22 de Janeiro de 1943 e uma raridade também porque foi por pouco tempo que existiram os Serviços Municipais de Electricidade que, quer antes, quer depois desta data, estiveram a cargo da Melco.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Portugal dos Pequenitos: postais

Portugal dos Pequenitos: Portugal de Além-Mar - Casa de Macau e Casa dos Açores
Para saber mais sobre este projecto que viu a luz do dia em 1940 sugiro a consulta de dois dos vários posts disponíveis: sugiro este e este...
Pavilhão de Macau, Pagode e Farol da Guia
Pavilhão de Macau