quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Vida e arte de Marciano Baptista

Marciano António Baptista (1826-1896), foi o melhor pintor macaense do Século XX. Embora a sua arte não tenha sido completamente ignorada ao longo da sua vida, só desde os princípios do nosso Século se tem procurado, esporadicamente, atribuir-lhe o seu verdadeiro valor.
Em Macau, na segunda década do Século XX, já as suas obras eram objecto de atenção por parte de um público mais culto. Silva Mendes, em 1914, chama-o "aguarelista notável". Em 1918, Humberto de Avelar, editor da desaparecida revista "Macau", depois de seleccionar um dos seus desenhos, classifica-o de "o melhor artista que até hoje nasceu em Macau". Dez anos mais tarde, Maria Ana Tamagnini, num artigo sobre uma exposição de arte patenteada no desaparecido Palacete da Flora - uma das primeiras em Macau-comenta que, além de George Chinnery, "outros houve que nesta terra demonstraram incontestável valor artístico como o Barão do Cercal, Marciano Baptista, etc."
Marciano Baptista nasceu em Macau a 5 de Junho de 1826. Pouco se conhece da sua infância, com excepção de que era filho ilegítimo de Manuel Joaquim Baptista e de Ana Laureana. O pai legitimá-lo-ia mais tarde.
Parece que a sua juventude foi pobre, tendo estudado, no entanto, no Seminário de S. José, então uma respeitável escola portuguesa para rapazes, de orientação católica. Sabe-se que se matriculou em Junho de 1838 na escola primária com a idade de 12 anos. Destes poucos, mas significativos, dados se pode concluir que a sua juventude foi típica de um rapaz macaense. Durante esse período, diz-se ter conhecido o artista inglês George Chinnery. Segundo a tradição familiar, a amizade de Baptista com Chinnery data da sua meninice, quando se diz que "andava sempre atrás do artista", pronto a fazer tudo o que ele lhe pedisse, inclusive misturar as cores.
Este aspecto comovente da sua juventude parece ser verídico. Daí ser fácil supor que mais tarde se tenha desenvolvido uma relação de mestre a discípulo. Posteriormente, Baptista continuou influenciado pelas pinturas do seu mestre, mesmo quando interpretava os temas com o seu próprio estilo. As obras mais tardias de Baptista são disso prova, tanto na temática como na estilística e, mais concretamente, as inscrições nas suas pinturas. Uma das agua-relas desta exposição tem a legenda "segundo Chinnery" e Baptista anunciava a sua arte em jornais de Hong Kong, nos quais se lia "Vistas de Hong Kong, Macau, etc., segundo o falecido Sr. Chinnery".
É de supor que foi depois de terminar os estudos no Seminário de S. José que começou a sua amizade com Chinnery, embora seja lógico admitir-se que tenha contactado anteriormente com o artista, quando Chinnery residia na R. Inácio Baptista, perto de S. José.
Os finais de 1830 foram para Chinnery anos de grande produção artística. Como o melhor artista laico que se estabeleceu no Sul da China até essa altura, tinha grande sucesso como retratista, especialmente entre os elementos da Companhia Inglesa das Índias Orientais, então uma força poderosa na Índia, Macau, Cantão e outras zonas do Oriente. Depois de passar por várias residências, Chinnery arrendou, finalmente, uma casa na R. Inácio Baptista, atrás da belíssima igreja neo-clássica de S, Lourenço e perto dos escritórios da Companhia das Índias Orientais, na Praia Grande. No seu estúdio, o velho artista produzia aguarelas de tamanho médio, de Macau e Cantão. Tinha um pequeno grupo de discípulos entre os expatriados, ansiosos por aprender os rudimentos do desenho e da aguarela. Depreende-se de muitos dos seus desenhos que Chinnery informalmente ensinava a (relativamente nova) técnica da aguarela, bem como as regras clássicas da pintura que tinha aprendido na Academia Real de Londres.
Foi parte desses rudimentos que Baptista absorveu. Em minha opinião, a influência da escola da paisagem inglesa do Século XIX está bem patente nas suas pinturas. É necessário tê-la em mente quando pretendermos analisar os seus trabalhos.
A segunda metade da vida de Baptista não foi a época tranquila que as suas aguarelas cheias de sol parecem transmitir. Do ponto de vista da história da China, o Século partiu-se em dois por causa da Guerra do Ópio, de 1839 a 1842. A cidade de Macau, no dizer de algumas testemunhas da época, quase chegou à ruína. Abbé Huc comenta com tristeza que Macau parecia uma cidade fantasma, cheia de mansões elegantes abandonadas, e não lhe augurava mais que um par de anos para desaparecer. Um "Diário" anónimo americano de 1857 corrobora esta opinião notando que "Macau está em estado de ruínas". Grande número de importantes crónicas, desde Abbé Huc até Montalto de Jesus nos finais do Século, atribuía à abertura de Hong Kong, como porto livre, a principal causa desta desgraça.
No que diz respeito à vida privada de Marciano Baptista, a segunda metade do Século é marcada pela sua fuga para Hong Kong. Este episódio ocorre nos finais de 1840, ou durante a década seguinte. No entanto, sabe-se que em 1857 residia, em definitivo, com a família, no n° 2 do Oswald's Terrace e que vi-veria o resto da sua vida na Colónia Britânica.
Esta mudança deve ter sido ocasionada pelas difíceis condições de vida em Macau. Montalto de Jesus deixou-nos um relato sombrio do destino que esperava os macaenses que se aventuravam na vizinha colónia. E, embora a sorte de Baptista não pareça ter sido tão triste, o certo é que também não foi fácil.
A fuga para Hong Kong foi também influenciada pelo seu casamento, em 1848, com Maria Josefa do Rosário e pela necessidade de manter a família, que crescia constantemente até nascer o último dos 12 filhos, segundo alguns testemunhos. Nas palavras duras, de Silva Mendes, "Marciano era pobre e Macau, Hong Kong e Cantão não são terras que alimentem poetas ou artistas no exercício de altas e puras realizações estéticas" 
Deste modo, encontramos Baptista como "homem dos sete instrumentos": pintor, professor de arte, desenhador, ilustrador gráfico, cenógrafo e, nos finais do Século, também fotógrafo, aparentemente.
Contudo, uma vez radicado em Hong Kong, a arte de Baptista não passou completamente despercebida. Um número limitado de referências contemporâneas, dá indícios de certo reconhecimento por alguns amantes da arte. Uma carta do China Mail de 3 de Setembro de 1857 - a 1.a referência que se conhece do artista na Colónia Britânica-dá-nos um bom exemplo, se a aceitar-mos como um testemunho: suplica ao público que ajude a manter a arte de Baptista, em vez das produções em série de artistas chineses de fraco talento. A última frase é uma referência clara aos artistas menos criativos da China Trade, que proliferavam nessa época.
Que pinturas de Baptista eram essas, tão apreciadas pela sua qualidade "artística"?
Podemos dividi-las nos seguintes grupos: 1) - Pinturas de dimensões maiores, com cenas de portos de mar e de paisagens, executadas principal-mente em aguarela; 2) - Álbuns com conjuntos de aguarelas de tamanho médio, com vistas dos "Portos do Tratado" e outros locais, uma espécie de lembrança turística; 3) - Desenhos e pinturas de cenas de rua; 4) - Pinturas ou desenhos de motivos históricos.
Para além destes tipos, sabemos que pintou cenários de teatro e forneceu desenhos a revistas. Esta divisão em grupos é feita por razões práticas, apenas para ordenar os trabalhos dispersos do artista. Numa excelente introdução de seguida publicada, Patrick Conner atribui a Baptista influências da pintura topográfica evoluída dos artistas ingleses e da estética do pitoresco, aprendida com Chinnery.
Em nossa opinião, a corrente da China Trade, mais orientada para a comercialização, teve também influência, embora em menor escala, na arte de Baptista. Podemos observá-la num estudo da sua obra, não só no estilo mas também em pormenores da sua técnica e da sua prática de produção e venda por anúncios.
Embora a paleta de Baptista fosse limitada, com uma preferência pelas cores primárias azul e vermelho, bem como pelo verde e o castanho, o artista utilizava muitas vezes o pincel à maneira típica da arte chinesa. Para escolher só um exemplo: se examinarmos a sua vista do "Bund" de Foochow, da colecção do Museu Luís de Camões, pode verificar-se como aplica uma mancha uniforme vermelha para delinear as estruturas dos edifícios, sem se preocupar com dar um efeito de três dimensões. Baptista combina esse tipo de pincela-das com a perspectiva e a cor ocidentais. Uma das suas cores mais características é o azul e torna-se difícil imaginar as harmonias subtis por ele criadas fora do ambiente oriental em que vivia. O mesmo se pode afirmar da maneira como pinta os juncos e as árvores, além da sua delicadeza de toque. Uma das actividades mais agradáveis de Baptista deve ter sido a sua ligação a artistas chineses de Hong Kong, contribuindo deste modo para um dos importantes intercâmbios entre a pintura ocidental e oriental.
Este intercâmbio, e o consequente interesse pela pintura ocidental por parte dos pintores chineses e japoneses, como é sabido, foi eventualmente importante para a evolução da pintura contemporânea em Cantão. Silva Mendes já falava da Escola Nova no Japão.
Quanto ao quarto tipo, que trata dos acontecimentos históricos, é um género típico da arte ocidental. Silva Mendes não tinha uma opinião muito positiva destes trabalhos de Baptista. Além disso, chamou ao artista "cenógrafo" e fala de uma cena pintada para o City Hall de Hong Kong, que nos seus dias era tido em grande consideração. Referia-se ao elegante Teatro Royal do City Hall, onde se apresentou pela primeira vez uma representação de teatro amador, em Novembro de 1869? Não se sabe ao certo, pois pesquisas recentes indicam o contrário. Sabe-se, no entanto, que Baptista executou um cenário nos finais de 1850 para o empresário inglês Albert Smith, impressionado pelos "talentosos desenhos" de Baptista.
Os trabalhos de Baptista agora expostos, mostram-nos um Macau em vias de extinção; não só vemos pagodes, fortalezas, edifícios chineses e europeus do Século XIX, mas também graciosos e coloridos juncos de diferentes tipos, nos rios e águas de Macau, Hong Kong e Cantão. Quando vivia em Hong Kong, sabemos que Baptista visitou a sua terra natal, pelo menos uma vez. O desenho aqui exposto do Monte da Guia em 1875, comprova-nos esse facto. Macau tinha um ano antes sido acossado pelo mais terrível tufão da sua história ao longo de 400 anos. O ambiente de saudade deste desenho, com o seu farol, forte e colina distantes, símbolos da resistência de Macau e de Baptista, diz-nos muito sobre o artista e sobre a sua arte. O artista faleceu quando residia em Caine Road, Ilha de Hong Kong, a 18 de Dezembro de 1896.
Artigo da autoria de César Guillén Nuñez na Revista Cultura nº 3, 1990


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