quarta-feira, 14 de julho de 2010

‘Viagem’ a partir de uma fotografia com António Conceição Júnior

Parte-se de uma fotografia. Um tempo a sépia. O pai no liceu aos 16 anos, os seus colegas, os professores, um passado vivido apenas por uma memória visual. Mas o sentido de pertença por uma imagem e por um impulso antigo muito presentes, no dobrar de uma esquina da memória. “Eu cresci com esta fotografia”, afirma António Conceição Júnior como se aquela recordação não fosse apenas papel, mas o desenrolar de uma vivência real e palpável com todos os seus sentidos.
“Macau tem uma continuidade, Macau é o fio”, refere Conceição Júnior, “as pessoas apanham o comboio na estação que for.” E continua, “se estão descoladas foi porque não apanharam o resto da viagem.” Estas são as palavras que reflectem sobre o acto contínuo do tempo, com as suas coincidências e factos, sem distinções entre presente e passado.
No seu desenrolar, os nomes saltam com toda a sua importância: Pessanha, Mendes, Gomes, Jorge. Os apelidos da biografia de uma cidade a acontecer. As personagens de uma enorme importância para a vida cultural de Macau. Sem esquecer o de Conceição, pai e filho, que formam o núcleo da espiral de um ciclo de acontecimentos que ocorreram após o simbólico momento congelado no tempo, a fotografia tirada no pátio do Liceu Infante D. Henrique, por um autor desconhecido. Vivia-se a história de Macau e com ela rola esta crónica de coleccionadores.
O próprio instante da fotografia é incerto. Se a fotobiografia de Camilo Pessanha refere o momento situado em 1921, Conceição Júnior marca-o no ano lectivo de 1925-26, pela referência do seu pai, o primeiro à esquerda, nascido em 1910. O poeta da ‘Clepsidra’ morreu no dia 1 de Março de 1926 e os protagonistas têm um ar demasiado veraneante para que o momento possa ter ocorrido nesse ano, o ano em que o BNU se mudava para as suas instalações actuais. Talvez seja lógico pensar que a imagem traz o final do ano lectivo anterior, com as taças e os prémios de toda uma época e o início das férias. Mas Macau é sempre um mundo tropical onde tudo é possível. Por detrás de Camilo está o jovem Luís Gonzaga Gomes. Sentado ao seu lado vemos Manuel da Silva Mendes e do outro lado da mesa dos troféus, no segundo lugar, está José Vicente Jorge, apoiado na cadeira. São eles as referências de uma visita guiada. O que têm em comum? Todos ousaram transpor a barreira da língua e ocupar um ponto na comunidade chinesa, compreendendo o chinês e estabelecendo ligações profundas com ela, numa procura pelo conhecimento da cultura local. Facto notável numa sociedade colonial pouco receptiva à aceitação de outras formas de assumir o quotidiano, com a sua zona cristã bem delimitada, que não se aventurava em conhecer o outro lado. Ainda hoje assim acontece. A viagem começa em Camilo Pessanha, não o poeta excêntrico, que lhe trouxe a fama, mas o advogado, de raro brilhantismo, o juiz e sobretudo o professor de Filosofia, História, Geografia, Português, Literatura e Direito admirado pelos alunos, figura central no mundo cultural, político e cívico da plataforma de Macau, à qual abordou em 1894. Tomando aí posições fundamentais no relacionamento entre portugueses, macaenses e chineses. Com a compreensão do idioma abandonou desde logo a postura eurocêntrica da maioria dos seus contemporâneos, levando-o desde logo a traduzir, de forma livre, poemas do tempo dos Ming (1368 a 1628). Talvez resida aí o rumor dessa poesia que viria a criar mais tarde. Na voz de Conceição Júnior vivem-se as histórias de Pessanha, as suas casas, na Sidónio Pais, na Praia Grande, na actual sede do Banco HKSB e, principalmente, o gosto pela arte que partilha com Silva Mendes, que fortalece toda uma relação de amizade. O Palacete da Flora a ir pelos ares com uma colecção rara de que hoje não se conhece o rasto. O espólio de Silva Mendes, o homem que vindo do Porto, em 1900, ainda hoje tem uma presença preponderante na arte do território. Mendes foi o primeiro europeu a coleccionar peças de qualidade com as características da cerâmica de Shek Wan, reconhecendo-a como um dos mais refinados exemplos da arte chinesa, encomendando diversas peças durante toda a sua vida, que podem ser vistas nos dias de hoje no Museu de Arte de Macau. E uma ligação ao presente começa então aqui.
Juiz multifacetado, professor e reitor do liceu, advogado, magistrado, presidente do Leal Senado, Manuel da Silva Mendes foi um dos intelectuais mais representativos da história de Macau, dedicando-se ainda ao estudo da filosofia taoista e flutuando nos enredos da arte chinesa, como erudito e coleccionador. A colecção valiosíssima de Silva Mendes viria a formar grande parte importante do espólio do Museu Luís de Camões, situado no que é agora a Casa Garden, que foi instalado, com grande competência e conhecimentos da arte chinesa, por um seu aluno, Luís Gonzaga Gomes, um dos símbolos de Macau, no lugar do diálogo, da harmonia e da tolerância. Nascido em Macau em 1907, sinólogo fervoroso, viria a traduzir para chinês “Os Lusíadas contado às crianças”, entre muitas outras obras escritas. Profundo auto-didacta, acabaria por ser o professor de língua chinesa, defendendo sempre a importância do seu ensino junto da comunidade de língua portuguesa. Facto que raramente teve repercussão. Aí se aprofunda a ligação a António da Conceição num tempo com todas as cores no jornal Notícias de Macau, situado no local preciso da actual Tribuna de Macau, a que viria a juntar-se o nome de Deolinda da Conceição, mãe de Conceição Júnior, como a primeira jornalista do território. E as imagens continuam, o Hotel Riviera, os anos a correrem, o Museu Luís de Camões, as peças de Silva Mendes sem rasuras a caminharem para a actualidade e, finalmente, a memória da família de José Vicente Jorge, também um sinólogo e grande coleccionador de arte chinesa, que se viria a mostrar no prelo nas suas “Notas sobre a Arte Chinesa”. As memórias passam ainda pelo seu palacete, por cima do Lilau, também ele repleto de obras de arte, com o seu rico jardim, um espaço vivido por dentro pelo condutor desta viagem. Pelas suas funções de intérpretes, professores e diplomatas, estas personagens da história foram a peça-chave da mediação cultural entre os dois mundos: o português e o chinês. Contribuindo para um entendimento, muitas vezes difícil, de forma exemplar. E pergunta-se pelo valor que tens estas memórias? “Têm o valor que as pessoas quiserem encontrar nelas”, responde Conceição Júnior, o homem do leme. “Pessoalmente penso que é uma questão intimista, no sentido que têm um valor muito subjectivo na medida em que na vida actual a objectividade tem cifrões.” É nesse idioma do cifrão que se fala na arte como se tudo começasse ser criado agora, onde se ouve sempre sussurro das indústrias criativas. Conceição Júnior responde: “Isso passa pela força do desconhecimento, pela ausência de memória, uma memória colectiva. Quando não se acede a essa memória provavelmente animam-se pensando que são as pioneiras de uma coisa que já foi pensada por gerações”. Haverá ligação ao passado, actualmente, numa comunidade tão diversa? Que significado poderão ter estes nomes que passaram pela história de um território sob o cunho português? Haverá importância para outro lado do trampolim, por entre os resquícios da “zona cristã”, nesta idade de casino?
António Conceição Júnior aponta: “Há um fenómeno de ruptura com a continuidade histórica, que não tem a ver com a transição, mas sim com os novos migrantes”. Assegurando que “neste momento é de uma imensa importância encontrar pontes entre as comunidades, não só sobre o actual mas também sobre passado. Porque só podemos saber para onde vamos se soubermos quem fomos, para finalmente sabermos realmente quem somos. Quem somos nós, afinal, as gentes de Macau?
Artigo de António Falcão publicado no jornal Hoje Macau de 13-07-2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Coloane: a memória dos piratas

Dia 13 de Julho é feriado municipal, nas ilhas de Taipa e Coloane. Procurando uma data marcante para a vida das ilhas, as autoridades portuguesas escolheram a que assinala a vitória sobre os piratas que se haviam instalado na ilha mais a sul do Território de Macau.
A existência de piratas na ilha, a sua posterior erradicação constituíram, de facto, um acontecimento decisivo na história da ilha e da própria presença portuguesa.
Sobre o acontecimento, monsenhor Manuel Teixeira escreveu uma monografia baseando-se em diversos documentos e jornais da época.
O problema parece ter sido levantado pela primeira vez em Maio de 1910, quando um chinês de Hong Kong comunicou ao proprietário do semanário macaense «A Verdade», a ocorrência de determinados incidentes.
No dia 5 do mesmo mês, alguns piratas haviam desembarcado na aldeia chinesa de Tong-hang, do distrito de San-neng, assaltando uma escola e levando para a ilha da Taipa 18 prisioneiros. Posteriormente os chefes da quadrilha dirigiram várias cartas aos habitantes da aldeia exigindo resgate e ameaçando com a morte dos cativos e a destruição da aldeia.
Os acontecimentos foram relatados ao advogado e director do jornal «A Verdade», Constâncio José da Silva, que posteriormente comunicou ao Governador de Macau, Eduardo Marques.
Veio a saber-se mais tarde que os reféns se encontravam em Coloane num cárcere privado, juntamente com mais 50 pessoas raptadas em várias aldeias chinesas próximas de Coloane.
Ao contrário do que se verifica nos nossos tempos, as ilhas não se encontravam tão acessíveis a quem vivesse na cidade, e era guardada por um exíguo destacamento de cerca de vinte homens que, segundo monsenhor Teixeira, «mal chegavam para guardar a fortaleza e o quartel de Ká Hó, quanto mais para patrulhar as aldeias e as montanhas» .
A situação desprotegida da ilha terá assim contribuído para que os piratas a escolhessem para seu quartel-general, actuando depois em terras da China, vizinhas de Coloane.
Os piratas ter-se-ão estabelecido progressiva e subrepticiamente ao longo dos anos, escondendo os seus intentos e apresentando-se como cidadãos pacíficos.
«Iludindo as autoridades – diz monsenhor Teixeira na sua monografia - foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas «famílias».
O autor acrescenta ainda sobre o assunto: «é de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas; se os denunciassem, sujeitavam-se a terríveis represálias. O melhor era deixá-Ios em paz. E assim se passaram dezenas de anos».
O sequestro de habitantes de Tong-hang, acompanhado do envio de uma carta pedindo resgate não foi caso único. Na sua comunicação ao Governador, Constâncio José da Silva juntou exemplos de três cartas enviadas pelos raptores em tempos diferentes à aldeia de Tong-hang e outras.
As cartas denunciam a existência entre os piratas de um grau considerável de organização denominando-se «Ang Hgui T'ong» (Sociedade de Perfeita Justiça).
É reveladora a linguagem utilizada nas mensagens enviadas às assembléias dos anciãos das aldeias em que os piratas se referem ao seu «grémio» como se de uma instituição de direito se tratasse.
Diz uma das cartas:
«Esta sociedade manteve sempre as melhores relações com as três aldeias de Tong-hang, Pac-seac e Hông-kóng, não indo jamais incomodá-Ias. Os vossos sin-teang (tipo particular de embarcação de pesca) e sampán (pequenas embarcações de vigia) têm transitado livremente sem que jamais vos hajamos feito dano a uma sapeca».
Em seguida fazem referência ao incidente do assalto à escola como uma medida de represália na sequência de um incidente anterior:
«Mas como no dia 17 da primeira lua do ano passado, tendo ido os camaradas deste grémio à aldeia de Ho-chao .e assaltado ali um negociante de apelido Chou, os anciãos das mesmas três aldeias - quem o poderia supor?! - cobiçosos do prémio com que o mesmo Chou os recompensaria, houvessem pretendido cercar e acossar esses nossos camaradas e levar-Ihes o rebanho (dos prisioneiros) para se apresentarem com este a receber o referido prémio, os camaradas deste grémio ficaram indignados à vista de um tal procedimento».
A denúncia feita pelo director de «A Verdade» pareceu no entanto decisiva para a intervenção das autoridades portuguesas.
Um primeiro passo foi dado pela polícia secreta chinesa que .foi a Coloane na tentativa de libertar os prisioneiros por meios pacíficos, mas sem sucesso.
A primeira tentativa para a resolução do problema foi feita depois da nomeação do tenente AIbino Ribas da Silva para comandante e administrador das ilhas da Taipa e Coloane.
Foi no dia 12 de Julho de 1910 que 45 soldados de infantaria foram a Coloane com a missão de capturar os piratas e libertar os reféns. O que veio a revelar-se como não sendo fácil.
O grau de organização dos piratas e a forma como estavam implantados na ilha era ainda desconhecido e só relativamente tarde foi tomada consciência detando eseu quartel-general estava naquela ilha.
A primeira tentativa resultou em fracasso em que as forças portuguesas foram obrigadas a bater em retirada.
Acontecimentos decisivos seguiram-se à suspensão das garantias constitucionais na Taipa e Coloane, decretada no próprio dia do incidente.
Logo no dia 13 a ilha de Coloane foi bombardeada, tendo participado no ataque a lancha canhoeira «Macau», comandada pelo primeiro-tenente Anselmo Mata e Oliveira, que foi mais tarde Governador de Macau.
Apesar do ataque a Coloane ter sido decisivo, obrigando os piratas a refugiarem-se nas montanhas e grutas, não significou o fim da pequena guerra que se prolongou, de facto, até dia 23 de Julho.
Os acontecimentos durante os onze dias de combates e buscas, revelaram o verdadeiro alcance da implantação dos piratas nas ilhas.
Após o bombardeamento da vila de Coloane e a fuga dos piratas, o Governador Eduardo Marques telegrafava para Lisboa informando: «piratas abandonaram todas as povoações levando quantos géneros alimentícios encontraram constando estar a quadrilha numerosa, superior a 310, em cavernas onde tem depósitos de munições».
A quadrilha acabou por ser completamente destruída mas só depois de, usando uma expressão de um dos jornais da época, «todos os pássaros terem sido expulsos do ninho».
Os acontecimentos foram acompanhados dia-a-dia pela Imprensa de Hong Kong e pelas autoridades chinesas, que elogiaram a. actuação portuguesa.
Coloane não esqueceu os acontecimentos de 1910. Fazer perguntas sobre os piratas não soa como estranho, se toda a gente sabe do que se trata e tem qualquer coisa para dizer. Nem que seja com algum humor, «familiares dos piratas. Todos são descendentes dos piratas, menos a minha família», disse-nos um comerciante da vila de Coloane.
Sobre os piratas diz-se, pelo menos a um desconhecido, muito mais do que se sabe. Um passado que se guarda, uma relíquia que se protege como pilar de uma identidade.
A sra. Cheong Tai Iao tinha cinco anos de idade em 1910. No dia 13 de Julho daquele ano, encontrava-se a bordo de uma embarcação, junto ao Pagode, acompanhada da mãe, da tia e da avó, quando os navios portugueses fizeram fogo. A embarcação em que se encontravam foi atingida e incendiou-se. Cheong Tai Iao ficou ferida sob as balas portuguesas e sua mãe morreu. Quando os portugueses começaram a disparar a avó gritou «amigos, não somos piratas».
«Quando viram os piratas,. Eles, não vieram, eles estavam cá», disse-nos a senhora Maria Teresa Xavier de Assis, viúva de um militar português dessa época.
Os testemunhos são na generalidade coincidentes. Os piratas reinavam mas, por um cento consenso pragmático. Eles tinham armas e a presença portuguesa era pouco expressiva. Quando partiam para as suas operações passavam em fila indiana, armados, pelas ruas da vila. Pouco mais era necessário acrescentar para se saber quem podia dar ordens.
Apesar do seu poder, os habitantes de Coloane sublinham que os piratas não eram agressivos para a população da ilha. Eles realizavam as suas operações sempre fora da ilha, em terras chinesas.
Os nomes dos piratas ainda hoje são recordados. Por exemplo Lam Ká Si, ou Leong Sin Yi, pirata benemérito segundo alguns, cuja antiga residência é uma casa em ruínas situada na rua dos Negociantes, na vila de Coloane. Morreu há 40 anos e ainda tem filhos em Hong Kong.
Artigo da autoria de Luís Ortet publicado na revista Nam Van nº 11 de 1 de Abril de 1985. As imagens também foram publicadas nesta revista.

Gruta em Coloane que servia de refúgio para os piratas
Antiga casa de Penhores na Vila de Coloane
Nesta casa da Rua dos Negociantes terá vivido o pirata Leong Sin Yi

sábado, 10 de julho de 2010

Testemunho de Ondina Oliveira

Ondina Oliveira (Mona), natural de S. Vicente, Cabo Verde, de nacionalidade portuguesa, de 44 anos de idade, chegou a Macau quando ainda era menina, a 3 de Janeiro de 1973, após uma longa viagem de navio (o paquete Príncipe Perfeito, na foto), juntamente com o seu pai, mãe e sua irmã que ainda estava por nascer. "O meu pai é Manuel Maria de Oliveira, natural de Portimão e a minha mãe, Olga Maria Nogueira, família Nogueira de Macau, que há muito tempo viveu no Lilau. O meu pai foi militar. Trabalhava na área da contabilidade e estava encarregado dos vencimentos dos funcionários das FSM."
A pequena Ondina com o pai e a mãe no Príncipe Perfeito em 1973
O Príncipe Perfeito foi lançado à água em 1961 e 'abatido' em 1998; pertenceu à Comp. Nacional de Navegação (era o maior e mais luxuoso da empresa) até 1976; tinha capacidade para alojar mil  passageiros; foi vendido em 1976 por 40 mil contos quanto custou 500 mil... As brochuras da época dão um ideia muito clara de que o turismo de cruzeiros deveria ter continuado como outros países o fizeram nos anos que se seguiram. 
Desembarcou em Hong Kong, onde as luzes coloridas e vivas à roda de todo o porto a deslumbraram... e onde a transferência de toda a tropa para uma outra embarcação a vapor se procedeu, com destino a Macau, onde veio a desembarcar no Porto Interior.
A noite escura e nevoenta, não a tinham animado e durante alguns meses só tinha saudades de Portugal, onde viveu durante alguns anos, após ter deixado a sua terra natal e ter ainda vivido em Angola, quando o seu pai exercia funções militares.
Não foi fácil a sua estadia em Macau, sem boas praias, a que estava habituada, cultura e gentes com mentalidades diferentes..., mas com o tempo, a tudo se habituou, com o passar dos anos foi ingenuamente aprendendo a língua chinesa e ainda o continua a fazer... são imensos os caracteres que tem que aprender, mas o idioma em si, domina-a perfeitamente.
Estudou no Liceu Nacional Infante D. Henrique na Praia Grande, demolido, e agora o terreno serve um edifício habitacional altivo e brincando muitas vezes dizia ao seu marido que a sua escola agora se tinha transformado numa discoteca, e de forma fantasiosa, quando se divertia nas caves da discoteca DD, imaginava que ainda estava na sua escola, mas agora de noite, e com outro ambiente mais divertido e sofisticado.
Cresceu e estudou sempre em Macau, tendo fixado aqui a sua residência e nunca deixado os seus laços com Portugal. Acredita na tese de ´´um país, dois sistemas´´ e ´´vida mais colorida e felicidade para todos os seres existentes´´.
Concluiu o curso de Comunicação Gráfica no Instituto Politécnico de Macau. O seu gosto pelas artes plásticas, veio então a ocupar os seus tempo livres, distraindo-se nas compras do material, afixando o papel, ou tela no tripé e começando assim a disfrutar do entusiasmo e alegria de ver nascer uma obra de traço a traço...
No terraço do prédio onde morava - Av. Dr. Rodrigo Rodrigues -
e a ver o Grande Prémio no Quartel de S. Francisco
Mona com a Praia de Hac Sá ao fundo
Pequena entrevista feita via e-mail no início de 2010...
Uma frase sobre cada década vivida em Macau?
"Macau dos anos 70 ainda estudava no liceu, anos 80 tive duas crianças, anos 90 estive a tirar o meu curso superior, na primeira década do séxulo XXI a minha vida sofreu algumas mudanças no sentido familiar e agora em 2010 estou a terminar a licenciatura em artes visuais e o mestrado em artes gráficas."
Uma vida intensa?
"Pintei alguns quadros, alguns trabalhos gráficos, algumas pedras, trabalho no Governo de Macau como Relações Públicas e aqui continuo."
O que recordas do Liceu?
"O Liceu Nacional Infante D. Henrique, como se chamava, deixou boas recordacoes, das nossas brincadeiras de adolescentes, assim como os bons alunos, também haviam os alunos malandros... Escrevíamos bilhetinhos e cartas que passavamos a terceiros para nos ajudar a entregar e assim ficavamos a saber quais eram os nossos pretendentes, muito engraçado, namoro por cartas, depois namoro ao telefone, cinema, etc. Cada um sabia de si." (...) Recordo-me da Lília Sapage, funcionária, tinha a sua secretária instalada no átrio, entretanto reformou-se, depois veio a D. Cristina. Recordo-me dos meus professores assim por alto, a prof. Santos Ferreira - matemática, Graciete Batalha - português - já falecida, do dr. Jorge Rangel - jornalismo e turismo, e da nossa professora de canto coral já que fiz parte do coro. Os pequenos almoços na cantina do Campo dos Operários era vulgar entra a malta da Escola Comercial e do Liceu durante as horas de furo. Lembro ainda o professor de Filosofia, qq coisa, apelido 'Preto'."
Que mais recordas do Território nessa altura?
"O Hotel Lisboa tinha as máquinas flippers e uma piscina onde eu costuma ir, até tivemos lá uns pequenos cursos de natação no Verão. Jogava-se bowling e a maior parte das festas eram celebradas no Restaurante Portas do Sol. Lembro-me ter ido à praia de barco e os meus pais jogavam mha-jong, enquanto nós, os putos andávamos a brincar, a nadar e pular naquela água barrenta.
Lembro-me de haver tourada, pelo menos uma vez,  dos Jogos Sem Fronteiras e do Grande Prémio, nessa altura era o maior evento no Terrritório.
O hábito dos jovens era ir ao cinema, compras, cafés. Recordo-me do Algarve Sol, Sintra, Lucie, etc. Os vendilhões andavam nas portas das escolas a vender acepipes chineses e comida vegetariana. Andava-se muito de bicicleta, um modelo chopper, com um voltante bem alto, brincava-se muito aos polícias e ladrões e apanhada, salto a corda, salto ao elástico. À medida que as coisas iam evoluindo a gente lá andava sempre a perseguir a moda."
Turma de Jornalismo e Turismo no Liceu
Aula de Educação Física no Liceu

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ian Fleming em Macau

Ian Fleming(1908-1964), o criador de James Bond,  visitou pela primeira vez Macau em 1959. Na altura iniciou uma volta ao mundo para escrever crónicas de viagem sobre cidades 'fascinantes'/'arrebatadoras' (thrilling) para o jornal inglês Sunday Times. Acaba por escrever sobre 13 cidades no espaço de dois anos. As crónicas serão mais tarde editadas em livro (1963). A sua passagem pelo território vai inspirar algumas das suas obras. Macau é caracterizada sobretudo pelo lado mais 'obscuro'... Tal como acontecera com Lisboa durante o período da 2ª Guerra, Fleming vai-se interessar em especial por Macau enquanto cidade de refugiados, incluindo os espiões...
Daí o especial interesse em espaços como os hotéis Bela Vista ou Central: "Macao had a single street running half the length of the town, the “Street of Happiness,” which had been one great and continuous street of pleasure until 1928 when the nine-story-high Central Hotel, the largest house of gambling and self indulgence in the world, was constructed . It is a nine-story skyscraper, by far the largest building in Macao, and it is devoted solely to the human vices. It has one more original feature. The higher up the building you go, the more beautiful and expensive are the girls, the higher the stakes at the gambling-tables, and the better the music. Thus on the ground floor the honest coolie can choose a girl of his own class and gamble for pennies by lowering his bet on a fishing rod contraption through a hole in the floor on to the gaming-tables below. Those with longer pocket can progress upwards through various heavens until they reach the earthly paradise on the sixth floor. Above this are the bedrooms."
Durante a estadia em Macau Fleming encontrou-se com uma personagem fulcral de Macau durante o período da Guerra do Pacífico, Pedro José Lobo, que ele adjectiva na sua crónica como "enigmático".
Cidades visitadas em 1959: Hong Kong, Macau, Tokyo, Honolulu, Los Angeles e Las Vegas, Chicago, New York; e em 1960 Hamburg, Berlin, Vienna, Geneva, Naples e Monte Carlo.  
Fleming acaba por 'regressar' a Macau nos anos 70... a propósito da rodagem do filme inspirada em mais uma história sua.
As filmagens de The Man With The Golden Gun (filme britânico de acção, espionagem e aventura de 1974, o nono da série James Bond e o segundo com Roger Moore no papel do agente 007) decorrem em Abril de 1974 nas várias ilhas da Tailândia. No final do mês viajam até Hong Kong e alojam-se num luxuoso hotel transformado na residência do empresário Fat. A meio de Maio partem para Macau e filmam no casino da cidade.. o Casino Flutuante.
NA: sobre este e outros filmes rodados em Macau existem outros post's pelo que aconselho a utilização do 'motor de pesquisa'.

Thrilling Cities, livro de 1963
The book is a collection of articles originally written for the London Sunday Times examining 13 cities throughout the world based on two trips Fleming took between 1959 and 1960. As Fleming states in the opening of the book, the idea originated in October 1959 when Sunday Times features and literary editor Leonard Russell suggested that he should make a ’round trip of the most exciting cities in the world and describe them in beautiful, beautiful prose.’
On 2 November, Fleming set off for a 30-day journey to visit Hong Kong, Macau, Tokyo, Honolulu, Los Angeles, Las Vegas, Chicago and New York. The series of articles was a success for the Sunday Times and in the spring of 1960, they convinced Fleming to head off once more, this time for a tour of the following European cities: Hamburg, Berlin, Vienna, Geneva, Naples and lastly Monte Carlo.
Finally in 1963, the two sets of articles were combined together and the result was Thrilling Cities: a would-be ordinary travel book turned extraordinary and well worth picking up for any fan of Fleming or James Bond.

"Thrilling Cities" is the description of Ian Fleming's itinerary to some of the world's most exotic places. The keen senses which were employed to write gripping thrillers are evident; a detailed, descriptive work is the result. Fleming was given generous finances for his trip, and spares little in eating at the best restaurants, sleeping at posh hotels, and mingling with city officials
Artigo de Jeffrey Hill
In 1959 Fleming took a trip around the world visiting key cities and reporting about them to the Sunday Times. A compilation of these articles was published in book form in 1964 under the title of Thrilling Cities, the same year as his death. Cities traveled included: Hong Kong, Macau, Tokyo, Honolulu, L.A., Las Vegas, Chicago, New York, Hamburg, Berlin, Vienna, Geneva, Naples, and Monte Carlo. In lieu of my own budget, I plan on posting on Fleming's trip vicariously, starting with Macao. The following is Fleming's trip to the Central Hotel, which he describes as a nine-story skyscraper which isn't exactly a hotel. It is devoted to human vices. And the "higher up the building, the largest in Macau, the more beautiful and expensive are the girls, the higher the stakes at the gambling tables, and the better the music." In the excerpt, Fleming has just described the rules and ambiance of playing fan-tan at this din of sin.
Having educated ourselves in these matters [gambling], Dick Hughes and I repaired to our sixth-floor dance hall to see how Mr. Foo was handling the second human vice. The place had a central, well-lit dance floor and a well-disciplined eight-piece “combo” playing good but conventional jazz. In the shadows round the walls sat some twenty or thirty “hostesses.” Dick Hughes and I arranged ourselves at a comfortable banquette in the sparsely frequented room and ordered gins and tonics and two hostesses. Mine was called Garbo, “same like film star,” she explained. She wore a pale-green embroidered cheongsam and a “Mamie Eisenhower” bang rather low on the forehead. She had the usual immaculate ivory skin and the conventional “almond” eyes, which were bright with intelligence and a desire to please. Rather startlingly, she appeared to have black lipstick, but as my eyes grew accustomed to the light, this turned crimson. Dick’s girl was a trifle older, perhaps thirty-five, wore a beige cheongsam, and was more forward and vivacious than Garbo. They asked for lemonades, and for a while we made the usual rattling, gay, and highly artificial night-club conversation. When, in my case, the springs threatened to run dry, I fell back on the hoary gambit of reading my partner’s hand.
Through experience in this science, dating back to my teens, I have acquired a crude expertise in palmistry, and with my first pronouncement that Garbo had three children, I hit a lucky jackpot. The two girls chattered excitedly and, realizing with awe that her hand was being held by a great soothsayer from the West, perspiration rose in Garbo’s palm and she was hard put to it to keep this dew at bay with a paper napkin. In the reverent hush that ensued, looking alternately into the dewy palm and the reverent almond eyes, I solemnly warned her that her heart was not ruled by her head, that she had artistic leanings which had not yet come to fruition, that she would have a serious illness when she was about fifty, and finally, provocatively, that she was inclined to be under-sexed. This last pronouncement was greeted with much hilarious protestation which drew two more girls to our table and involved me in a further hour of miscellaneous prognostication and consumption of gins and tonics.
Text by Jeffrey Hill
aspecto de Macau na época em que foi visitada por Ian Fleming
Do blog dos autores do livro "Secret Places, Hidden Sanctuaries: Uncovering Mysterious Sights, Symbols, and Societies", Stephen Klimczuk e Gerald Warner
I recently picked up a copy of Ian Fleming’s Thrilling Cities, the James Bond creator’s early 1960s world travel guide “focused on the bizarre and perhaps the shadier side of life.” It’s an amusing period piece. The Sunday Times of London sent Fleming on an all-expense-paid, round-the-world jaunt, in first-class on BOAC. His fuel, as always, was a near-lethal level of consumption of booze, cigarettes, and buttery scrambled eggs on white toast. (The only vegetable matter that ever passed his lips appeared to be the chives on his eggs.)
His second stop, after Hong Kong, was the then-seedy Portuguese colony of Macau (where I myself had a fascinating visit several years ago). Fleming was on the trail of a man he hoped would fit the bill of a genuine Bond villain — the mysterious Dr. P.J. Lobo, who was said to control much of the world’s trade in gold. As he writes,
Irresistibly attracted, I gravitated towards him, the internal Geiger counter of a writer of thrillers ticking furiously.
Not only did Macau have no income tax or exchange controls, it was not subject to the Bretton Woods agreement which artificially fixed the gold price at an unsustainable $35 an ounce. The Doctor was said to have ingeniously exploited that loophole, buying gold at the official price and legally re-selling it at a higher unofficial market price to anyone who cared to visit Macau. Where they took it afterwards was their business.
So Fleming carefully arranged an introduction, and was ushered to the Doctor’s mansion, the Villa Verde. The Catholic religious art there didn’t reassure Fleming the agnostic, nor did the “powerfully built butler, who looked more like a judo black-belt than a butler” — who offered Johnny Walker. The Doctor was charming, and, on request, played some of his compositions on a gramophone. (He was an amateur composer.) They talked of gold, kidnapping, criminal brotherhoods, and opium:
“It is a terrible thing, Mr Fleming. These people give all their money for opium. Soon they lose their interest in food… They become sexless, neuter, and waste away. It would be much better if they drank beer, even too much beer, as I believe is sometimes the case in your own country. But what do you think of my coffee? This is my own coffee from my estate in Timor.”
In the end, they parted, Fleming concluding the Doctor was not the villain he had hoped to find — but rather a “careful, astute operator” who was actually a rather respectable, public-spirited fellow. Fleming, waxing philosophical, continued touring Macau, in search of high-stakes fan-tan and dens of vice. He found them.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Alberto Ló (1925-1975): o 'Eusébio' do ping pong (1ª parte)

Em 1958, aos 33 anos de idade, Alberto Ló foi contratado pelo SL Benfica para recuperar a modalidade do ténis de mesa que estava em declínio, depois de duas décadas de domínio nacional. Ló era campeão individual de Macau e tinha 18 anos de prática desportiva.
Em pouco tempo tornou-se um dos mais conhecidos atletas do clube. O "Benfica Ilustrado" em quase todas as edições dava notícias sobre os seus feitos: técnicamente era de outra galáxia, rápido no contra ataque, eficaz no corte, de reflexos apurados...
Relançou o interesse pela modalidade, tanto no Benfica como no país. Era o Eusébio do ténis de mesa, os jovens jogavam nas escolas sonhando ser como ele.
Foi campeão individual de Lisboa de 1959 a 1963, campeão nacional em 1958/59/60 e 1962 e membro da equipa do Benfica que, entre 1958 e 1963, ganhou cinco dos seis campeonatos nacionais. Representou Portugal por 40 vezes e em 1963, com 38 anos, terminou a carreira, pois queria voltar para junto da família que deixara em Macau. Recebeu uma Águia de Bronze e participou num filme com Eva Gardner (55 Dias em Pequim). Alberto Ló morreu aos 50 anos, em 1975.
Toda a história de Alberto Ló (numa imagem de 1958)... muito em breve aqui no blog Macau Antigo... graças ao contributo de Domingos Rosa Duque e Luís Machado.

terça-feira, 6 de julho de 2010

150 mil visitantes!!!

Porta do Cerco em 1949 - foto de Jack Birns
O blog Macau Antigo ultrapassou no início deste mês - com um ano e quatro meses de existência - a marca dos 150 mil visitantes. A fidelidade e o aumento crescente do número de visitantes é a prova de que cada vez mais este projecto tem pernas para andar. A todos muito obrigado!
Em Março de 2010 o blog em entrevista no programa "Agora Acontece" com Carlos Pinto Coelho que me confidenciou ter tido reacções muito positivas ao tema abordado: Macau Antigo e o Liceu.
Rua em 1964
Tal como tenho vindo a fazer desde o início, aproveito a ocasião para publicar os comentários que me fizeram chegar nos primeiros seis meses deste ano de 2010.
Parabéns caro João,O seu trabalho tem sido fantástico e merecedor dos maiores encómios."
António Conceição Júnior - Macau
"Muitos parabéns pelo sucesso, mais que merecido, do seu blog dedicado a Macau."
Rogério Miguel Puga - Portugal
"(...) o seu blog tem despertado em mim memórias de infância que nunca se apagaram."
Manuel Tito de Jesus - Portugal
"Parabéns pelo seu trabalho, que é simplesmente excelente."
Carlos Carvalho - Portugal
"(...) os meus sinceros parabéns pela passagem do primeiro aniversário de seu excelente blog, onde divulga o Macau de outros tempos, que muito aprecio. (...) continue nesse ritmo para que as pessoas possam ter uma ideia do que foi Macau de outras eras."
António Cambeta - Tailândia/Macau - Março 2010
"Foi à procura, na net, de fotografias de Macau antigo que encontrei este seu excelente blog."
Helena Oneto - Portugal - Março 2010
"O Blog é espectacular. Todos os dias o vou visitar, e, sendo tão completo, há sempre algo novo que nos interessa. Parabéns pelo magnífico trabalho."
Carlos Alberto Carvalho - Portugal - Março 2010
"Desde já os meus cumprimentos, e também a louvar todo o trabalho desenvolvido na net falando de Macau e dos portugueses, macaenses e chineses."
António Bessa Almeida - Março 2010
"Belo blog! Quando alguma coisa de Macau na Segunda Guerra Mundial? Você sabe de algum filme que trate da época? Parabéns desde o Chile."
Carlos Tromben - Abril 2010
"Continue com o seu blog, pois a cultura de Macau merece ser divulgada."
Rui Esteves - Abril 2010
"Aproveito para dar os parabéns por este blog extraordinário, cuja missão é capital: preservar um registo histórico sem paralelo, de um Macau que se transforma a cada dia."
Pedro Pinto - Abril 2010
"E parabéns pelo blog, bem interessante."
José Egreja - Abril 2010
"Fiquei fascinada com o interesse do seu blog"
MJ - Maio 2010
"Estive a ler o 1º post e gostei deste seu tema, com o qual me identifico: «para que a imagem dos portugueses sobre Macau deixe de ser a que sempre foi, (...)... desconhecimento e desinteresse»."
MJE - Maio 2010
"(...) a História de Macau é a história de todos nós, especialmente os Macaenses e devo agradecer a si pelo trabalho que nos está prestando."
Arlete M. Carion - Maio 2010
"Foi com imensa satisfação que descobri o seu blog. Descobri-o,através de uma pesquisa sobre um tema que é hoje quase mais que um hobby para mim,as emissões de papel-moeda do BNU. (...) Receba os meus parabéns e os melhores cumprimentos."
Parcidio Campos e Matos - Maio 2010
"Achei interessante seu blog sobre Macau antigo (...)"
Juliana Nápoles de Carvalho - Brasil - Maio 2010
"Força João, conte muitas pequenas histórias para que venha a ser a geração que recuperou a memória. Não sou "saudosista" antes pelo contrário, mas sinto que devemos à sua geração e à geração do meu filho uma parte da História. (...) Só lamento não ter prestado mais atenção às memórias de meu pai (antigo militar em Macau). Ele teria gostado muito de conhecer o blog Macau Antigo."
Vitalina Oiveira - Portugal - Maio 2010
"(...) entusiasta de Macau incentivo-o a prosseguir a sua investigação para que as memórias dos macaenses, como eu, não se percam."
J. F. Reis de Oliveira - Portugal - Junho 2010
"Óptimo Blog! Felicitações vindas de Portugal."
Pepe - Junho 2010
"Desculpe mas não podia deixar de lhe dizer quanto comovida estou com o que escreveu sobre a minha família. Muito obrigada!
Flávia Soares - Junho de 2010
"Parabéns pelo Blog"
Helena Pinto - Junho 2010
"Tens ai um trabalho muito consistente e honesto. Por mim aplaudo de pé!"
José Romano - Julho 2010
A Praia Grande cerca de 1900... ainda antes dos aterros
Pormenor da Praia Grande na mesma época num postal editado em Itália:
destaque para o Palácio das Repartições, Correios e Macao Hotel (King Hee).

domingo, 4 de julho de 2010

Postal raro da Praia Grande ca. 1920

Fotografia obtida a partir da zona do Quartel de S. Francisco

Postal 'pintado': Largo do Leal Senado, ca. 1950

Seminário de S. José: 1962

O Seminário tinha alunos internos que seguiam a via sacerdotal, mas tinha também alunos externos. O ensino era de tal forma de qualidade que ali estudavam os filhos das famílias mais abastadas de Macau. Era também particularmente bem aceite pelas famílias macaenses. Já noutros posts contei a história do Seminário. Acrescento por agora uma curiosidade: durante muitos anos era prática habitual os alunos nos intervalos falarem entre si em latim... já que era uma língua muito utilizada no ensino.

sábado, 3 de julho de 2010

Colégio de S. Paulo e Ruínas da Madre de Deus

Desenho/esboço do que terá sido a zona envolvente daquilo que é um dos ex-libris da Macau, a fachada das Ruínas da Igreja da Madre de Deus, 'colada' ao Colégio dos Jesuítas de S. Paulo, daí que tenha ficada para sempre conhecidas por Ruínas de S. Paulo. É curioso verificar como uma expressão que fica para a história não corresponde à realidade, à verdade. No desenho vê-se bem a escadaria - são 68 degraus - e os edifícios anexos à igreja que nos primeiros anos serviu de cemitério dos jesuítas.
Desde a sua construção (primeiro em taipa e madeira) - cerca de 1565 - e até praticamente ao século XX, este conjunto arquitectónico ligeiramente abaixo da cota da Fortaleza do Monte (que começou por ser a residência dos primeiros Governadores de Macau), dominava em termos de perspectiva sobre toda a cidade.
Sofreu vários incêndios, o primeiro dois quais em 1595, pelo que viria a ser reconstruída. A pedra que ali foi colocada e que ainda hoije pode ser vista - in loco e na imagem - testemunha esse facto: "Ano de 1602, Macau dedica à Santíssima Virgem Maria"
Em 1835, entre as 18 e as 20h15, um violento incêndio, iniciado nas cozinhas do Colégio, alastrou-se rapidamente e destruiu por completo o Colégio e a Igreja. Apenas a grandiosa fachada de granito escapou à destruição. Caprichos da natureza para uns, desígnios superiores para outros. A Igreja nunca mais foi reconstruída.
NA: utilizando o campo de 'pesquisa' poderão encontrar dezenas de temas relacionados.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Sinalética do Património Mundial

São 32 as novas placas sinaléticas que serão erguidas por toda a cidade para acompanhar os edifícios assinalados como património da Humanidade em Macau. Para não ofuscar os símbolos da UNESCO estas marcas foram concebidas com formas minimalistas complementando a sua envolvência e integrando-se em consonância com os locais mais visitados do território. Elaboradas pelo Instituto Cultural de Macau, a concepção, num estudo iniciado há três anos, esteve a cargo do arquitecto macaense Carlos Marreiros. (...)
As peças dividem-se em dois tipos diferentes, placas de informação dos edifícios classificados e placas de informação das praças, e serão instaladas isoladamente ao longo dos próximos dois meses. As praças  integrarão uma sinalética com o dobro da largura das existentes nos edifícios e em espaços mais abertos incluirão ainda uma terceira opção com uma vista panorâmica de toda a área. A localização das placas
de informação toma em consideração a direcção e movimento dos transeuntes com vista a facilitar a sua consulta.(...)
Excerto de artigo da autoria de António Falcão (que também o autor da fotografia) publicado na edição do jornal Hoje Macau de 1 de Julho de 2010. A falta destas placas foi um dos pontos negativos que realcei no meu regresso a Macau (quase 20 anos depois) em 2009.

A Macau que Saramago descreveu

José Saramago, que faleceu na última sexta-feira, teve em Macau a sua porta de entrada num Oriente que até então nunca tinha visitado, e cuja estranheza e incompreensão confessa nos seus “Cadernos de Lanzarote”. Em Março de 1997, quando aqui chegou, alguém lhe lançou de longe o apodo de “perigoso escritor”. É a primeira impressão que guarda de uma terra cujo futuro via incerto a dois anos da transferência de Administração.
“Macau não me recebeu com palavras de boas vindas”. Assim escreveu José Saramago a 4 de Março de 1997, na sua chegada ao território pela primeira vez, numa visita a convite do Instituto Cultural (IC) na qual foi apresentada a tradução para língua chinesa de “Memorial do Convento”, uma das mais popularizadas obras do autor que faleceu na última sexta-feira, deixando órfãos de novas histórias leitores de todos o mundo.
Personalidade controversa, também aqui foi recebido como “perigoso escritor”, num apodo que lhe foi atirado por um desconhecido quando ainda nem tinha desfeito as malas. Foi o primeiro impacto no território, registado nos “Cadernos de Lanzarote” do escritor agora falecido, um ano antes de ser reconhecido como Nobel, no âmbito de uma deslocação que trouxe o escritor até cá,e também o levou a Pequim e a Hong Kong.
“Depois de treze ou catorze horas de uma desgastante viagem aérea, depois de uma noite praticamente sem pregar olho, quando, ainda meio sonâmbulo, vinha a empurrar o carrinho da bagagem, ouvi uma voz dizer atrás de mim: ‘Vai ali o perigoso escritor Saramago’”, escreveu o até aqui único Nobel literário português no início das impressões sobre o território que então preparava o regresso à China.
“’Até aqui, na Cidade do Nome de Deus de Macau’, murmurei sucumbido, sem reconhecer entre os rostos à sua retaguarda o autor do epíteto, lançado “em claríssimas palavras portuguesas, distintamente pronunciadas”, escrevia.
À chegada, receberam-no a então responsável do IC, Gabriela Cabelo, e também Ana Paula Laborinho, actual presidente do Instituto Camões e à época presidente do Instituto Português do Oriente. A recepção terá sido calorosa o suficiente para fazer com que Saramago pudesse suspirar “de alívio”. “Não está tudo perdido”, considerou.
“O grande arrepio que tardava”
Foi sem emoção, e com muita estranheza, que o escritor confessou ter vivido os dias do seu primeiro encontro com o Oriente, recriminando-se, nos seus “Cadernos de Lanzarote”, pela algo apática reacção ao programa de visita que o conduziu pela cidade até ao Farol da Guia, às Ruínas de São Paulo ou templo de A-Ma.
Foto de Lei Chiu Wang - década 1970
“’Pela primeira vez na tua vida estás no Oriente’, repreendia-me, ‘como é possível que não te sintas emocionado’”, interpelava-se o escritor num passeio pelo centro da cidade, no qual se fez acompanhar da mulher, Pilar del Rio.
Saramago, que esperava “o grande arrepio que tardava”, sentia-se dormente em face de uma nova cultura. “Sei, de antemão, que não irei conseguir encontrar neste mundo chinês, que nunca foi suficiente abrirem-se as portas para que a casa se nos entregue. Bastante atípico neste sentido, sou um ocidental que não só rejeita por instinto qualquer espécie de imposições culturais como aceita, por respeito, ficar do lado de fora daquilo que nunca chegará a entender satisfatoriamente. Estou consciente de que daria uma mau antropólogo. E certamente um catequista ainda pior…”, contava.
Com o discurso de ironia face à igreja católica que lhe ficou associado, é também com humor que o escritor relata uma pequena anedota de uma queda, dolorosa, frente à fachada das Ruínas de São Paulo.
Postal do início do séc. XX
Um tropeção puniu-o por tentar saltar a vedação que controla o circuito das visitas ao ex-líbris de Macau. “Ao saltar uma vedação a fim de encurtar caminho, como se ainda me encontrasse na flor dos meus ágeis 70 anos, não levantei o joelho esquerdo tão acima quanto conviria, do que resultou enganchar-se a ponta do sapato numa das correntes de ferro que rodeiam o recinto, e aí se estatela o autor do ‘Evangelho’, por assim dizer à porta da igreja, com todo o jeito de ir pagar finalmente com os ossos os insuportáveis sacrilégios e heresias que no segregado livro debitou”, descreveu num dos tomos dos seu diário, que assinalava a data de 5 de Março de 1997.
De A-Ma e outros milagres
Descreve também o que deverá ter sido, certamente, um passeio pelo jardim de Lou Lim Ieoc, mas cujo nome não recorda. Saramago fala de “um belo jardim, com uma pequena ponte que dá voltas e voltas (sete? onze?) antes de se decidir a chegar ao outro lado” e de um pavilhão, “como um coreto”, onde “alguns chineses, homens e mulheres, tocavam e cantavam a sua música”. Conhece também o tempo de A-Ma, e a história da zelosa deusa que olha por Macau inspira-o a comparações com o rol dos milagres cristãos e das aparições das suas santas: “a história que os homens andam a contar, desde o princípio dos tempos e em todos os sítios do mundo, é uma só história, a história do ‘milagre’ da sua sobrevivência”.
Há também prelecções perante alunos de liceu e da Universidade de Macau, onde o escritor dá mostras de não sentir que o auditório terá acompanhado o seu pensamento, mas onde admite ter encontrado “rostos tão sérios, tão concentrados, olhares tão fixos”, que confessa raro ter reconhecido a mesma postura noutros públicos e noutras ocasiões.
Passeia nas ilhas, com a sorte de um Março ameno e soalheiro. “Dia bonito, de sol descoberto e temperatura suave”, aponta a 8 de Março, enquanto nota já que “no lado da China andam ocupados em ciclópicos trabalhos de arrasa-montanhas” e imagina que servirão “para a construção, ou talvez para fazer aterros, tão comuns nestas paragens”.
A visita de José Saramago inclui também as instalações do Arquivo Histórico, Biblioteca Central e Instituto Português do Oriente, do qual recorda uma arquitectura interior “verdadeiramente traumatizante”, “capaz de criar alucinações diurnas e pesadelos nocturnos em quem lá trabalhe”. Que diria o escritor se tivesse tido ocasião de se reencontrar com o território alguns anos mais tarde, face às novas construções ‘vegasianas’ da RAEM?
E que teria dito também do momento presente, dez anos após a RAEM, sobre o qual em 1997 profetizava com pouco optimismo?
“Construímos um bom aeroporto, abrimos estradas, ganhámos terrenos ao mar, temos andado a levantar nas praças e avenidas enormes peças escultóricas para recordação (de quê?), mas ouvir falara a um chinês, nas ruas de Macau, algo que mesmo remotamente tenha parecenças com a língua portuguesa, só por um milagrosos acaso. A Revolução Cultural acabou, mas eu pergunto-me por quantos anos poderá ainda Camões continuar a trocar impressões sobre os destinos da pátria com João de Deus, seu companheiro no jardim do Leal Senado…”, questionava o escritor a 15 de Março, na última entrada que evoca Macau dos seus “Cadernos de Lanzarote”.
Artigo da autoria de Maria Caetano in jornal "Ponto Final" 21 de Junho de 2010
NA: as imagens são fruto da minha selecção.
Postal da Gruta de Camões de cerca de 1910 - editado em Hong Kong

Envelope 1º Dia de Circulação: 1990

Profissões típicas: 01.03.1990 - CTT Macau

quarta-feira, 30 de junho de 2010