terça-feira, 25 de maio de 2021

Rituais de morte

Na imagem a procissão de um funeral ocorrido na década de 1950

Excerto de texto da autoria da professora Ana Maria Amaro sobre os antigos rituais de morte na China:
" (...) A noção de Alma, para os chineses, não é de forma alguma semelhante à do Ocidente. Não existe, para aqueles, uma essência una e imortal que tem o corpo como morada. Existem, sim, 2 grupos de espíritos, de acordo com a dualidade cósmica do Yin--Yang, considerado o princípio do eterno equilíbrio. Não sendo perfeita a equivalência entre alma (essência superior que anima o corpo) e espírito (energia vital), cada pessoa tem três almas (sam wan三魂 ) e 7 espíritos (chat pak七魄).
As almas são consideradas essências espirituais, celestes, e os espíritos, almas sensitivas, terrestres. A manifestação física das almas sensitivas, aparece sob a forma materializada do corpo. Da reunião deste conjunto dual, (respectivamente Yang-Yin), e ainda da actividade consciente ou vontade, o chama do I ( 意 ), resulta o San ( 神 ), a manifestação do Eu.
Um dos 3 wan, depois da morte, ascende ao mundo do Além, outro fica na terra acompanhando o corpo, e o terceiro fica a residir na estela funerária, que deve ser colocada e venerada no altar ancestral. (...)
Não há coisa mais importante, para um chinês conservador, do que ser sepultado "como deve ser", isto é, de forma a que os seus familiares, nomeadamente o seu filho mais velho, que o substituirá na chefia da casa, lhe dêem força bastante para alcançar o Mundo espiritual dos Antepassados, onde irá renascer e iniciar uma nova experiência. Daí o novo nome que, nessa altura, recebe.
Por outro lado, a pompa funerária é sempre um sinal de prestígio para a Família, e de consideração para o filho exemplar, que tão grandes mostras dá da sua piedade, chegando a empenhar-se, por vezes, para fazer um funeral condigno ao seu progenitor.
Ter um bom caixão, já comprado em vida e ainda com saúde, é, para um chinês, um motivo de paz e de tranquilidade, chegando a guardar tal objecto no seu próprio quarto, o que nos horrorizaria, a nós Ocidentais. Nisso, para o chinês, não há nada de macabro. É perfeitamente natural. Motivo de desgosto e de preocupação é não possuir o seu caixão, se possível em boa madeira, talhado num tronco de árvore antiga, e revestido de secções de madeira em lúnula, o que lhe confere uma forma muito característica. (...)
O caixão é colocado no meio da sala principal, que se reveste de panejamentos brancos, a cor lutuosa, que corresponde ao leste, o lugar da vida, de onde sopra a renovadora brisa Primaveril. Todos os familiares, segundo a sua proximidade de parentesco, bem estabelecida na China, envergam, então, fatos simples, em ramé ou burel chinês, cobertos de tecido grosso de canhâmo, bem' como barretinas de modelo antigo, no que respeita aos filhos varões e grandes capuzes no caso das filhas. As noras colocam na cabeça grandes lenços alaranjados com decorações vermelhas que fazem parte do seu próprio enxoval de casamento.
Simples faixas brancas na cintura e na cabeça, é o traje lutuoso dos netos e parentes próximos. Alguns ostentam uma pincelada vermelha aplicada no tecido para evidenciar parentesco mais próximo.
A cor branca lutuosa tem, na China, um significado simbólico: representa um estado de passagem, qualquer coisa de vazio, de provisório, que vai ser preenchido, contrariamente à cor negra que evoca uma perda definitiva, uma queda sem retomo no Não-Ser. 
Mulheres de um lado e homens do outro, segundo uma ordem estabelecida, ajoelhados em esteiras, os filhos e as noras devem bater 3 vezes com a cabeça no chão em profundo Kau tau, reverência que antes era devida ao próprio Imperador.
O caixão fica exposto na casa familiar ou num quarto existente para esse fim, pelo menos durante 3 dias.
Entretanto, chegam os parentes afastados, os amigos, os conhecidos, com ofertas de tecidos para cabaias, mantas, porcos assados, frutos e outros alimentos. Curvam-se por três vezes em reverência perante o caixão, seguidos pelos familiares e ao som dos seus lamentos bem como dos das carpideiras profissionais, contratadas para a ocasião.
Os recém-vindos recebem um lenço, um doce e um envelope com lai-si, para afastar a má influência que, porventura, o contacto com semelhante cena de dor lhes possa provocar. Aliás, o doce, por homofonia do seu nome, t'im, com continuidade, é um voto simbólico de longa vida.
Após o passamento, a família manda preparar, em papel e bambu, a estela funerária, e também reproduzir os utensílios de que o falecido mais gostava, incluindo malas com roupas, acessórios, casas apalaçadas com mobiliário e criadagem, pontes de prata e de ouro, triciclos (ou, dantes, cadeirinhas) e, modernamente, automóveis, barcos e até um avião, para facilitar a sua travessia para o Além.
O primeiro sinal de luto que o mundo exterior tem de que faleceu alguém, é a colocação, à porta principal da casa familiar, de duas lanternas ou balões azuis e brancos, em sinal de luto e de uma placa armada em bambu, em forma de montanha, com faixas brancas e azuis ganga. (...)
O caixão não sai nunca pela porta da casa, mas sim por uma janela ou porta lateral ou por uma escada de bambu exterior, no caso de a Família morar num prédio de andares. Isto para não molestar os vizinhos e para que a alma do morto perca a noção da porta de entrada da sua residência, deixando a Família em paz.
Na rua, formam-se longas procissões. Adiante, segue uma das figuras mais espectaculares de chi-chat (nome do artesanato de papel relacionado com os rituais funerários). É o Deus do Inferno que abre caminho e afugenta todos os elementos perturbadores da alma do falecido que possam surgir no trajecto. Atrás, vai o neto mais velho, levando ao ombro um bambu de folha fina (Kun lâm chôk), que se crê ter o poder de afastar as almas penadas, tal como os bambus velhos as atraem. Enquanto caminha, vai espalhando mãos-cheias de sapecas em papel de cinco cores (rodelas de papel recortado nas 5 cores do arco-íris, correspondendo às 5 cores dos pontos cardeais, que na China incluem o centro).

segunda-feira, 24 de maio de 2021

"Lyceu aprrovado": 1893

 

Na primeira edição do jornal Echo Macaense, a 18.7.1893, era publicada a notícia "local" que dava conta do "Lyceu approvado". O primeiro ano lectivo ocorreu no ano seguinte durando a instituição de ensino até 1999.

domingo, 23 de maio de 2021

"Moedas de Macau - Coins of Macau": edição C.I.T.



Luís Demée assina a autoria do desenho





Para cumprir a missão de divulgar Macau enquanto destino turístico, o Centro de Informação e Turismo (criado em 1959), foi responsável pela produção de mapas, guias, livros, anuário e outros produtos, incluindo pequenas carteiras de "Moedas de Macau - Coins of Macau". Foram feitas em várias línguas. 
Na que surge nas imagens o conjunto é composto por 17 moedas de patacas emitidas entre 1952 e 1972, de valor facial entre os 5 avos e as 5 patacas.

sábado, 22 de maio de 2021

A Casa das 16 Colunas

A casa das 16 colunas (demolida para dar lugar ao Instituto Salesiano), na rua de S. Lourenço foi desenhada pelo arquitecto macaense José Agostinho Tomás de Aquino (1804-1852), que deixou uma vasta obra de construção, reconstrução e remodelação no território. A freguesia de S. Lourenço foi precisamente onde ele nasceu. Formou-se em Lisboa onde viveu entre 1819 e 1825.

Nas duas imagens acima, um desenho de George Chinnery em 1829 quando o edifício era a sede da Companhia Britânica das Índias Orientais. Nesse ano o comité local da empresa era composto por Sir James Brabazon Urmston, Kt. (Presidente), Francis Hastings Toone, e William Henry Chichely Plowden (daí a legenda "Mr. Plowden's house). Pimenta, chá, algodão, seda e ópio eram os principais produtos comercializados e transportados da China (Cantão) via Macau para o Ocidente.
A rua dá pelo nome chinês de "sâp lôk chu", o que significa dezasseis colunas.
Fotografias ca. 1910: 
a casa à esquerda, poço e escadaria de acesso à Igreja de S. Lourenço, à direita.
Em meados do século 20 o poço já tinha desaparecido
Em baixo aspecto da rua numa imagem do séc. 21
António José da Costa, governador de Macau (1780-1781) foi proprietário da Casa das 16 Colunas. Demolida em 1934 deu lugar em 1936 ao Orfanato Salesiano sendo actualmente o Instituto Salesiano da Imaculada Conceição.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

"Macao Survives Precariously As 2-way Window to China"

Roy Essoyan da Associated Press assina este artigo - "Macao Survives Precariously As 2-way Window to China" - publicado na edição de 26 de Março de 1959 do jornal Toledo Blade.
Excerto:
"East meets West and capitalist meets Communist at this Portuguese colony on the thresh-old of Red China. (...) It is one of the last remaining windows into communist China. But Macao is so small and China so big that the Portuguese authorities here take no chances. They don't allow much peeking through the window". (...)

MACAO (AP) — East meets West and capitalist meets Communist at this Portuguese colony on the threshold of Red China.
Established more than 400 years ago, Macao is the oldest colony in the Far East. You can drive around it, without hurrying, in 20 minutes. It's a tiny dot on the tip of a peninsula in the Pearl River delta practically lost in the shadow of Red China.
It is one of the last remaining windows into Communist China. But Macao is so small and China so big that the Portuguese authorities here take no chances. They don't allow much peeking through the window.
A few enterprising souls make a precarious living peddling rumors out of Red China, but the authorities crack down on them periodically and banish them from the colony.
Almost everything about Macao today is precarious. Militarily, it is defenseless. Chinese Communist troops could march in and take it over at will. They haven't so far, some observers think, because Macao serves them, too, as a window — to the West.
Politically, Portugal does not recognize Red China, but in practice the Chinese Communists dominate life in Macao. The colony's water supply and all its meat and vegetables come from Red China. Communists own three of Macao's four Chinese language newspapers and operate one of the biggest and most influential banks. The 200,000 population is infiltrated with Communists.
Border guards man the highway checkpoint and patrol the narrow strip of water separating the colony from Communist territory. Sight-seers are kept a safe distance from the border, and anyone flashing a camera stands a good chance of losing it. But refugees from Red China who manage to sneak across the open fields or swim past Chinese and Portuguese patrol boats are granted political asylum. The Chinese Nationalist government maintains a refugee camp for them in Macao.
Macao has given political asylum to hundreds of thousands of refugees in its 400 year history, and thrived on it. When Japanese troops invaded China in 1937, refugees flocked to Macao. After Pearl Harbor the poor and the wealthy poured in from nearby Hong Kong, and 1949 brought another tide of refugees, both ragged and rich, fleeing communism in China.
Those were boom days in Macao and the colony supported eight flourishing gambling dens, plus night clubs and cabarets. Today the tide of refugees has dropped to a trickle and Macao’s gambling houses, barometer of the colony’s prosperity, have dropped with them.
Two remain, and one of them caters mainly to ricksha coolies and amahs clutching the equivalent of nickels and dimes. Macao’s main casino, which occupies five floors of the central hotel on Macao’s main street, works around the clock.
As with almost everything else in Macao, the glamour has faded out of gambling. The big money comes rarely these days and most of the customers are none-too-wealthy local tradesmen and politicians or budget-conscious visitors from Hong Kong. Movie star Curt Jurgens, on location here for the movie "Ferry to Hong Kong," broke the bank recently and walked off with about $3,000. But things are so tough in Macao now that the next time Mr. Jurgens walked in, the house promptly placed a limit on bets.
Macao’s other industries have fallen on evil days too. The colony still sells an estimated $1,050,000 worth of firecrackers and matches a year, but that’s the only industry that has kept its head above water.
Fishing, once one of the main sources of income, has been restricted by prowling Communist patrol boats.
Even the smuggling business isn't what it used to be. It is still sufficiently well organized for underground operators to offer first, second and third class smuggling accommodations for political refugees from Red China, but the operators complain the gross has dropped sharply. And the gold smugglers, who used to make a handy profit smuggling gold from Macao, a free port, to Hong Kong are running into improved methods of detection in the British crown colony.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

"Macao" na Longman's Gazetteer of the World: 1895

Macao
Sea port town in China province Kwangtung on the Canton Region, on a peninsula on an island of the same name. 38 miles West by S. Victoria (Hong Kong). The peninsula 2,5 miles in length by less than a mile in breadth, is connected with the island by a narrow low and sandy isthmus forming a land locked inner harbour 12 miles in circuit.
The town stands on declivities between this harbour and the outer anchorage and is surrounded by hills crowned by several forts; it is divided into two distinct parts, the Portuguese and Chinese. At the end of the town is a mansion and picturesque garden with the Grotto where Camoens composed a great deal of his Lusiad 1559-60.
Both harbours are within the region of typhoons and suffer greatly from them; the roadstead, badly sheltered, is bounded on the North by Hiang-shan and by nine small rocky islands. South by another group of islands, the principal of which form a small port preferred by many vessels to the large roadstead, which is too open and exposed; it has but little depth near the town, so that large vessels anchor 5 or 6 m from Macao.
The trade (much of which is contraband) is mainly carried on in junks by Chinese merchants. It is chiefly in rice, tea, silk, sugar and indigo and principally with Canton, Hong kong, Batavia and Goa. Salt is brought from Cochin, China.*
The Portuguese authorities and others form a senate, a governor and council but the government of the native inhabitants is substantially vested in a Chinese mandarin. Macao was granted to the Portuguese subject to an annual rent by the Chinese emperor in 1586 in return for assistance against pirates. In 1863 the payment of this tribute was rescinded and the land conceded by treaty to Portugal but jurisdiction over the Chinese inhabitants retained. (...)
in Longman's Gazetteer of the World, George Goudie Chisholm, 1895
Tradução:
Macau 
Cidade portuária na província chinesa de Kwangtung, na região de Cantão, na península de uma ilha com o mesmo nome. 38 milhas a oeste de S. Victoria (Hong Kong). A península, com 2,5 milhas de comprimento por menos de uma milha de largura, está ligada com a ilha por um estreito istmo baixo e arenoso, formando um porto interior, com 12 milhas de extensão. A cidade fica em declives entre este porto e o ancoradouro externo e é cercada por colinas coroadas por vários fortes; está dividida em duas partes distintas, a portuguesa e a chinesa. 
Nos limites da cidade encontra-se uma mansão e um jardim pitoresco com a Gruta onde Camões compôs grande parte dos Lusíadas 1559-60. Ambos os portos estão num região assolada por tufões e sofrem muito com eles; a enseada, mal protegida, é limitada a norte por Hiang-shan e por nove pequenas ilhas rochosas. A sul por outro grupo de ilhas, as principais das quais formam um pequeno porto preferido por muitos navios face ao grande ancoradouro, que é muito aberto e exposto; junto à cidade as águas têm pouca profundidade, pelo que os grandes navios ancoram a 5 ou 6 milhas de Macau. O comércio (grande parte do qual é contrabando) é realizado principalmente em juncos por mercadores chineses. É essencialmente baseado no arroz, chá, seda, açúcar e feito principalmente com Cantão, Hong Kong, Batávia e Goa. O sal é trazido de Cochim, Índia. * (erro no original)
As autoridades portuguesas têm um senado, um governador e um conselho de governo, mas o governo dos habitantes nativos (chineses) está substancialmente investido em um mandarim chinês. 
Macau foi concedido aos portugueses, sujeito a uma renda anual pelo imperador chinês em 1586, em troca de ajuda no combate aos piratas. Em 1863, o pagamento deste tributo foi rescindido e as terras concedidas por tratado a Portugal, mas manteve-se a jurisdição sobre os habitantes chineses.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

"A loteria chinesa é diária e feita por método mui singular."

A loteria chinesa é diária e feita por método mui singular. Todos os dias se vende um plano , que consiste em oitenta letras chinesas , impressas num pequeno pedaço de papel , que é ao mesmo tempo o bilhete, o qual o comprador toma pelo valor que prefere, numa certa escala de preços cujo mínimo é de cinco sapecas e combinada também em relação ao número de letras com que quer jogar o comprador, que, no acto da entrega as escolhe e nota com traços encarnados.
Das oitenta letras escolhe a direcção da loteria um número determinado, formando uma sentença ou pensamento para cada extracção diária, que se patenteia ao público. A felicidade do jogador está em se conterem nesta sentença algumas ou todas as letras que notou no bilhete e o prémio está na proporção do maior ou menor número de letras em que se acertou e do custo do bilhete. (...) Este sistema é muito engenhoso; mas de uma complicação incrível, e muito difícil de explicar nos seus pormenores. (...)
O testemunho é de Carlos José Caldeira e remonta a 1850 quando este viveu em Macau.
Memorabilia de 1904 pertencente ao marinheiro Filipe Emílio de Paiva
"Lista geral do PaKaPiu e bilhete do PakaPiu - custa 18 sapecas"
Vae Seng, Chimpupio, Pacapio, Sanpio, Chitam, Poupio, etc... são alguns dos diversos nomes das lotarias chinesas que vigoraram em Macau. As mais antigas são a Vae Seng e Pacapio, remontando a meados do século 19.
Como se pode atestar pelo documento de 1889 (ver em baixo) as receitas obtidas pelo Governo de Macau com a concessão do exclusivo do jogo fan tan e das "loterias chinezas" representavam mais de metade do total dos impostos directos.
A título de exemplo reproduzo um documento sobre a arrematação do exclusivo das lotarias Pacapio, Sanpio e Chimpupio.
A 3 de Abril de 1937 o Governo de Macau anuncia no "Boletim Oficial" que se procederá, pelas 15 horas do dia 15 de Abril de 1937, na sala das arrematações da Repartição Central dos Serviços de Fazenda, "à arrematação do exclusivo das lotarias Pacapio, Sanpio e Chimpupio em Macau, Taipa e Coloane, pelo tempo de 3 anos, a contar de 16 de Maio de 1937". A base de arrematação era de $600.000,00 e a garantia no valor $60.000,00 patacas. A caução desta garantia tinha de ser feita em dinheiro depositado no BNU.
"Os pombos correios. Todos os dias é aberta uma loteria em Macau a que os chinezes chamam pac côp pin, loteria de pomba. Depois da extracção os numeros que tem premios são marcados em pequenos cartões, e estes presos aos pés de pombos que logo que os soltam voam na direcção das aldeias a que pertencem levando a umas familias o triste desengano e a outras a suspirada alegria. É curioso vêr os pombinhos de variadas cores elevarem-se, tomarem differentes direcções, percorrerem leguas e leguas com um assobio entre as azas para que o caçador ouvindo os saiba qual é a missão de que vão encarregados e lhes não faça fogo tomando os por vadios."
Este curioso texto é da autoria de V. C. e foi publicado no "Novo almanach de lembranças Luso-Brazileiro para o anno de 1876".
Venda da lotaria Pou Pio (década 1930)

Excerto de artigo publicado na edição de 15 de Fevereiro de 1856 da "Illustração Luso-Brasileira":
"A licença, ou antes privilegio de estabelecer loteria, é obtido em hasta publica, de ordinario por um só individuo, especie de editor responsavel de companhia ou sociedade encoberta. A loteria é diaria e feita por systema mui diverso dos que se uzam na Europa. Todos os dias se publica um plano que serve tambem de bilhete, contendo oitenta caracteres chinezes. Ha uma escala para o preço dos bilhetes cujo mínimo é de cinco sapecas*. Os premios são calculados na rasão composta do preço escolhido pelo comprador e do numero de caracteres em que quer jogar e que marca com traços encarnados no acto da compra do que toma nota o vendedor.
A direcção da loteria escolhe certo numero de caracteres dos oitenta do plano, de modo que formem uma phrase ou pensamento. A felicidade do jogador está em ter marcado todos ou parte dos caracteres contidos nessa phrase que todos de dias de tarde se patenteia ao publico. N'isto unicamente consiste a extracção da loteria. Os premios são regulados por calculos de progressão muito intrincados e de modo que os jogadores mui poucas probabilidades tem de tirarem premios avultados. O systema é assaz engenhoso mas tão complicado que seria impossível explica-lo completamente."
*Sapeca: Moeda de composição mixta de estanho e cobre similhante na forma e espessura às moedas de 200 réis em Portugal, tendo de mais um buraco quadrado no centro."

terça-feira, 18 de maio de 2021

Colégio D. Bosco: antes e depois

Colégio D. Bosco num exercício comparativo 
com mais de meio século de diferença.
Clicar na imagem para ver em tamanho maior
A configuração original de 1949
E um registo fotográfico da década 1960

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Where Gambling Thrives

No final de 1938, já com a guerra sino-japonesa a decorrer e a invasão da China pelo Japão, Lim Keng Hor, jornalista do "The Malaya Tribune", esteve em Macau e faz uma importante reportagem do momento que se vivia no território. Jogo, fome, pobreza, exército japonês e milhares de refugiados são alguns dos temas abordados pelo autor que quase foi preso quando tirou fotografias nas salas de casino do hotel Central.
O lead do artigo publicado a 23 de Novembro de 1938 é bastante elucidativo:
"Onde o jogo prospera. Colónia Portuguesa do Oriente, Macau é o paraíso dos jogadores. A pobreza assombra o lugar, mas Macau é louco por apostas."
"Where Gambling Thrives
Portuguese Colony of the East, Macao is the gambler's Paradise. Poverty haunts the place, yet Macao is gambling-mad."
Uma fotografia da baía da Praia Grande ilustra o artigo do The Malaya Tribune, 23.11.1938








Agradecimentos: NLB, Singapure.

domingo, 16 de maio de 2021

"Germans at Macao": 1900

Em 1899 britânicos e alemães entram em disputa sobre as Ilhas Samoa. Londres faz letra morta da convenção sobre a partilha das colónias nacionais e volta a aproximar-se de Portugal, assinando, sob a forma de declaração secreta, o Tratado de Windsor a 14 de Outubro desse ano. Segundo o tratado Portugal compromete-se a proibir a importação de material de guerra para o Transval via Lourenço Marques (Moçambique) no caso de uma guerra anglo-bóer (que eclodiria nesse mês) e autorizava o abastecimento dos navios britânicos nos portos da colónia. Como compensação Londres voltava a assumir os termos do tratado de 1661 cujo artigo final obrigava a Inglaterra a “defender as colónias portuguesas contra todos os seus inimigos presentes e futuros”.
É neste contexto que em Janeiro de 1900 circula na imprensa internacional, incluindo na Alemanha, que o país pretende 'comprar' Macau. Um mês depois a permanência em Macau de um navio de guerra durante cinco dias no Porto Interior a "fazer sondagens" provocaria inúmeros comentários, como se pode ler nesta breve notícia de 13 de Fevereiro de 1900. 
O Iltis construído em 1897 esteve ao serviço na China onde a Alemanha tinha uma 'colónia'.
Em Tsingtao, no ano de 1914, para evitar a captura, a tripulação fez explodir o navio.

sábado, 15 de maio de 2021

L'Illustration: 1858 e 1861

"L'Illustration Journal Universel" foi um semanário francês, publicado em Paris entre 1843 e 1957. Em 1891 foi o primeiro do país a reproduzir uma fotografia e, em 1907, o primeiro a publicar uma fotografia a cores. Ao longo da existência deu muita atenção às questões do Oriente, nomeadamente à China, tendo Macau sido abordado em várias edições. Escolhi para este post apenas algumas de 1858 e 1861.
L'Illustration - Journal Universel was a weekly French newspaper published in Paris from 1843 until 1957. In 1891 it became the first French newspaper to publish a photograph, and in 1907, the first to publish a color photograph. There are several editions concerning China and Macau. For this post I choose just a few from 1858 and 1861.
Edição de 10 Março 1858: inclui duas ilustrações do Templo da Barra tendo por base desenhos de Auguste Borget. O artigo intitula-se "Expedition Chinoise: le grand temple de Macao" e dá conta da chegada da "missão extraordinária (francesa) de M. Le Baron Gros à China".
Ilustrações: templo da barra (La pagode de rocher), vista geral (vue prise de Heang Shan) e uma rua de comércio (Une rue de Macau), ilustração de Gaidraut a partir de um desenho de M. V. Leonard. 
Excerto do artigo assinado por Henri Este:
"Macao.
Je ne suis resté à Hong-kong que tout juste le temps nécessaire pour visiter inutilement les boutiques de porcelaine de la ville et pour perdre vingt livres sur Good Chance, battu par Midsummer-night-dream. Le turf d’Happy-Valley est une jolie prairie dont chaque matin le rouleau égalise le gazon. La situation de ce magnitique champ de course est unique au monde, je suppose: il est entouré par trois cimetières: un catholique, un protestant et un zoroastrien où l'on brûle les corps. La vuede ces lieux engage les jockeys à se bien tenir en selle.
Certes, c'est plaisir d'habiter Hong-kong. La civilisation a marqué la commerçante cité de son sceau: elle y a introduit, dès le premier jour de l'occupation anglaise, comme à Cap-Town et à Singapore, le gaz, les trottoirset le macadam. Mais il prend au capitaine Lecoq de se subites fantaisies, que j'ai craint qu'il ne changeât d'aviset ne voulût plus descendre à Macao: je l'ai donc laissé à Hong-kong, et un brick anglais m'a emporté en une journée vers la vieille ville chinoise et portugaise. 
Nousavons croisé un vapeur remorquant une barque de pirates. Pauvres pirates! eux, les rois de la mer autrefois, eux qui faisaient trembler le Fils du ciel, comme on les traque! leur beau temps est passé. 
Elle est vraiment pittoresque, cette ville de Macao, qui s'appuye sur trois villages comme pour mieux grimper la roide colline où s'accrochent ses maisons de briques bleuâtres, ses temples boudhiques, ses églises et ses couvents catholiques, qui sont presque des antiquités sur cette jalouse terre chinoise.
Une journée pour aller à la pagode des Rochers, une pagode un peu dégradée, mais très-agréablement situee sur le port intérieur, pour méditer sur les brutalités du sort envers le génie, dans la grotte où Camoëns, le sublime borgne, acheva ses Lusiades, pour voir le beaumonde se promenant sur le quai de Praya Grande, et pour chercher une tasse à thé introuvable, c'est bien peu; mais le capitaine Lecoq n'a pas voulu m'accorder davantage, et il serait homme à mettre à la voile, sans moi, pour Canton. Demain matin, au petit point du jour, je retournerai à Hong-kong."
Edição 28.9.1861
 "Macau. Só estive em Hong Kong o tempo suficiente para visitar as lojas de porcelana da cidade (...) A relva do hipódromo de Happy-Valley é um belo prado (...). A localização desta magnífica pista de corridas é única no mundo, suponho: é cercada por três cemitérios: um católico, um protestante e um zoroastriano onde os corpos são queimados. A visão desses lugares faz com que os jóqueis estejam bem na sela. Claro, é um prazer morar em Hong Kong. A civilização deixou a sua marca na cidade comercial: desde o primeiro dia da ocupação inglesa, como na Cidade do Cabo e em Singapura, introduziu gás, calçadas e asfalto. 
Conhecendo as fantasias repentinas do Capitão Lecoq e temendo que ele mudasse de ideia e já não quisesse visitar Macau deixei-o em Hong Kong e apanhei um brigue inglês para ir visitar aquela velha cidade portuguesa. Passamos por um navio que rebocava um barco pirata. Pobres piratas! Eles, os reis do mar no passado, aqueles que fizeram o Filho do céu tremer, estão agora a ser caçados! os seus tempos de glória passaram. 
É realmente pitoresca esta cidade de Macau, formada por três núcleos urbanos com colinas íngremes onde se agarram as casas de tijolos azulados, os templos budistas, as igrejas e os conventos católicos, que são quase antiguidades nesta terra chinesa. 
Um dia para ir ao pagode da Rocha, um pagode ligeiramente degradado, mas muito agradavelmente localizado no porto interior, para meditar sobre as brutalidades do destino para com o génio, na caverna onde Camões, o sublime, terminou os Lusíadas, para ver o cais da Praya Grande, e procurar uma xícara de chá, é muito pouco; mas o capitão Lecoq não quis me conceder mais, e ele era homem para zarpar, sem mim, para Cantão. Por isso, de madrugada, voltarei a Hong Kong."

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Macau num diário de viagem em 1835

No final do século 19 viajar da Europa para o Oriente era uma autêntica aventura que no mínimo durava mais de dois meses. Veja-se o exemplo do percurso que um turista na época  tinha de fazer, tendo como partida Southampton, em Inglaterra, e como destino Shangai, na China.
P&O steamer, Southampton para Alexandria - 14 dias
Egyptian transit, por comboio, de Alexandria ao Suez - 2 dias
P&O steamer, Suez para Point de Galle, Ceilão - 21 dias
P&O steamer, Point de Galle para Hong Kong - 17 dias
P&O steamer, Hong Kong para Shanghai - 7 dias
Total: 61 dias.
Pintura de William John Huggins em 1834
The barque ‚Sylph‘, belonging to Mr. Alexander Robertson off the Macao, China

O clipper Sylph - na imagem acima frente e Macau em 1834 - foi construído em 1831 na região de Calcutá para um mercador parsi de nome Rustomjee Cowasjee. Seria depois comprado pela empresa sedeada em Hong Kong, a Jardine Matheson, para o transporte de ópio entre os portos do Oriente. Em 1833 estabeleceu um recorde de velocidade na viagem entre Calcutá e Macau, com o tempo de 17 dias e 17 horas. Afundou-se numa viagem a caminho de Singapura em 1849.

Anúncio de 1832 publicado no The Canton Register:
‘M/s Canton & Macau Passage Boats’ operate the Sylph, the Union (both for six passengers) and the St George (4 passengers). Macau Agent – Markwick & Lane, Canton Agent – Robert Edwards. Rates – 1st passenger Canton to Lintin / Macau $30; Canton to Lintin / Macau via Kap Sing Mun $35. Additional passengers $5. “Gentlemen are advised that their baggage will be searched on arriving at or departing from Canton”

Excertos de um diário - parte de uma viagem de um estrangeiro, de Cantão a Macau, em 1835 e publicado nesse ano no "The Chinese Repository".
Visits to Macao are often made by the residents in Canton. The passage boats, viz: Union, Sylph and St George, in comparison with the inside chop-boats of the last century afford strong inducements to try a change of air and place. By circular it is announced that 'the' Union will leave for Kumsiug moon and Macao tomorrow at 5 pm precisely. (...)
Walks about Macao: 
Praya Grande; Bishop's walk; bathing in the great ocean; groupers and sole fish; awful havoc made by the late gale; unroofed houses; beggars; ride to the barrier; the Manila and Java ponies; an Arabian horse; Chinese horsemanship.
Saturday, August 15th
The extent of the settlement is less than three miles in length and one in breadth; its topography; how obtained by the Portuguese; its early history; character of the first adventurers; inner harbor; Typa; Green island.
Monday, August 17th
Population Portuguese say from 4600 a 4700 of these 2600 a 2700 are females 800 a 900 are slaves and 300 are soldiers.
Chinese population 30,000; education; great want of good schools; the newspaper; lack of enterprise and the causes of it; masquerade; a Caffre with a Jews harp; vespers.
Thursday, August 20th:
Government of Macao its precarious footing; its relation to the Chinese and foreign powers not well defined; advantages of being independent of the Chinese and of maintaining amicable feelings towards foreigners; the governor; judge; senate; the king of England's commissioners.
Monday, August 24th:
The public buildings are old and decayed and some of them are in ruins; Forts and churches are numerous and a numerous clergy is connected with the former; The college of St Joseph has seen its best days; the British museum is defunct and the cave of Camoens deserted.
The aviary and humerous llogart are not to be forgotten nevertheless the lions are soon exhaust and Macao after all is a dull place not so to me; I shall start for Canton early Monday morning."