quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Os Mini-Moke

Os mini-moke foram uma 'marca' de Macau nas décadas de 1980-90. O veículo era usado essencialmente por turistas (imagem abaixo), mas a história deste modelo é mais antiga. Em cima uma imagem do Grande Prémio de 1967 atesta isso mesmo.
O modelo foi produzido entre 1964 e 1993. O nome advém da base do veículo, o Mini, e o "moke" é uma alusão ao dialecto arcaico 'donkey. Foi produzido em diversos países, incluindo Portugal (Vendas Novas e Setúbal) na década de 1980. O feito deve-se a Jim Lambert que fixou residência em Portugal e aqui morreu em 2010.
Informação incluída num guia turístico de 1986
Excertos de alguns guias turísticos dos anos 80 e 90 do século 20:
"One of the most convenient and fun ways to get about the enclave is to hire a mini-moke"
"These open - topped jeep - like vehicles are one of the most popular forms of tourist transport"
"This jeep - like vehicle is the latest addition to transportation available in Macau"
"Mokes - small jeep - like vehicles - painted in bright colours, are available for hire at about MOPS220-320 per day (discount given on weekdays), unlimited mileage"
"Taking a mini moke (a small open jeep) is a good way to sightsee"

"The best way to seek it out is by Moke, the only available self - driven rental vehicle. They're brightly colored mini-jeeps with bratty little horns and lots of spunk."
"The only vehicles currently for rental in Macau are mini-mokes, nippy little open jeeps. Drivers need an international license (...)"
Mini-Moke escala 1/43: alusivo a 1999

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Plan de la rivière de Canton, Macao, et autres isles circonvoisines

Plan de la rivière de Canton, Macao, et autres isles circonvoisines, Liébaut, 1736
"Mapa do Rio Cantão, Macau e outras ilhas vizinhas"
Liebaut é o cartógrafo autor desta carta náutica da primeira metade do século 19.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Die Holle von Macao / The Corrupt Ones

A 3 de Maio de 1968 dava-se a estreia no cinema Eden (imagem abaixo do anúncio publicado nesse dia na imprensa portuguesa) em Lisboa de "Os Corruptos",  um filme "explosivo como dinamite". 
Rodado na Alemanha Ocidental (RFA) em 1966 enquadra-se nos géneros policial, romance, mistério e aventura. Foi gravado num estúdio em Berlim onde se recrearam os ambientes de Macau, mas houve também filmagens em Macau e Hong Kong. Trata-se de uma co-produção entre a França, Itália e a Alemanha, país onde ocorreu a primeira exibição em Janeiro de 1967. Nesse ano foram vários os filmes estreados com alusão a Macau.
De acordo com o país em que foi exibido o filme teve vários nomes: Die Holle von Macao, The Peking Medallion, O Medalhão de Pequim, Os Corruptos, The Corrupt Ones, Hell To Macao, Los Corrompidos, etc... 
Os protagonistas são Elke Sommer e Robert Stack. Stack era a estrela do momento na série televisiva "Os Intocáveis" e Elke a 'sex-symbol' da década de 1960 e uma das poucas actrizes europeias que na altura vingou em Hollywood. Inclui ainda Nancy Kwan uma das primeiras mulheres de origem asiática (nasceu em Hong Kong em 1939) a vingar em Hollywood. A realização desta película de 90 minutos é de James Hill.
"From the four corners of the earth... From the four corners of Hell... the hunt for the Peking Medallion drew them to Macao, the deadliest city in the world!"

"Dos quatro cantos da terra... Dos quatro cantos do Inferno... a caça ao Medalhão de Pequim leva-os a Macau, a cidade mais mortífera do mundo!"

Die Holle von Macao,The Peking Medallion, Hell to Macao,  Os Corruptos, Los Corrompidos, Les Corrompus,  The Corrupt Ones, Il Sigillo Di Pechino... different titles for the same movie from 1967. 
Directed by James Hill and Frank Winterstein and starring Elke Sommer, Robert Stack, Nancy Kwan and Werner Peters. 

The film was a co-production between France, Italy and West Germany although it was shot in English. 
The films German-language title is "Die Hölle von Macao". 
Filme locations: Berlin (studio), Macau and Hong Kong.
A freelance photographer who works in China unwittingly gains possession of a priceless cultural treasure, the Peking Medallion. His find leads him to the arms of two women: one sincere and the other deadly. And also attracts the attention of a number of criminal gangs.


"Apenas Macau, a cidade mais mortífera do mundo actualmente, poderia gerar o mal d' ... Os Corruptos."
"Only Macao, deadliest city in the world today, could spawn the ultimate evil of... The Corrupt Ones."

Embora seja uma produção alemã o filme é em inglês.
A tradução literal do título alemão seria "Macau infernal"

Os dos intervenientes tem nome português, Pinto.
Sinopse: Um fotógrafo freelancer descobre um tesouro antigo, o Medalhão de Pequim, que também atrai a atenção de várias gangues de criminosos.
A crítica da época elogiou a excelente fotografia do filme - em cima rodagem de uma cena em Hong Kong - e deu nota negativa ao excesso de cenas de tortura.



Uma das várias formas de promoção do filme foi este pequeno 'jornal' com o título "The Macao Observer".
Dusty Springfield interpreta o tema "The Corrupt Ones". 
O compositor francês Georges Garvarentz assina a banda sonora.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Grémio/Clube Militar: 150 anos de história

O Grémio/Clube Militar foi fundado em 1870 
conforme consta da acta e da inscrição na fachada do edifício

“Aos vinte dias do mês de Abril de 1870, na sala dos oficiais do Quartel do Batalhão de Infantaria, reunidos os oficiais ao serviços do referido Batalhão, propôs o alferes Dores organizar-se um Grémio não só para ponto de reunião, como,mui principalmente, para nele se estabelecer uma biblioteca de livros militares, cientificos e de qualquer outro assunto, havendo tambem jornais, jôgo de armas e de todos os permitidos por lei. Aceite a proposta pela corporação , nomeou o chefe da mesa preparatoria, da qual tomou a presidencia, a fim de imediatamente se proceder por escrutinio á eleição dos oficiais que deviam elaborar o projecto de estatutos para o referido Gremio. 
Recolhidos os votos, foram eleitos: presidente, o capitão Manual de Azevedo Countinho, vogais, o tenente Henrique Augusto Dias de Carvalho e o alferes Rafael das Dores, sendo este o secretario. Nomeada a comissão, ficou logo convencionado que podiam ser sócios do Gremio todos os oficials de exercito, marinha, reformados e aspirantes. Em seguida o presidente deu a mesa por dissolvida e encarregou a comissão de fazer convidar para socios todos os oficiais nas circunstancias acima, sendo estes os fundadores, os quais avisariam para as sessões em que forem presentes os estatutos, e assim terminou esta reunião do dia 20 Abril de 1870.”
O edifício foi inscrito na Conservatória do Registo Predial de Macau a 8 de Junho de 1872

“Predio urbano de um andar que contem 13 janelas, 6 portas que deitam para as varandas e 2 de serventia, medindo a area de toda a propriedade dois mil duzentos e onze covados quadros portugueses; é situado na Rua da Praia Grande entre o jardim e a Fortaleza de S. Francisco, freguesia da Sé, e tem o numero de policia; confina pelo Norte com a parada do Quartel do Batalhão de Linha; pelo Sul com a rua publica; pelo Nascente com a Fortaleza de S. Francisco e pelo Poente com o jardim publico. Não teve este prédio dono anterior por ter sido mandado edificar pelos actuais donos. Calculei o valor venal deste predio em presença do referido documento apresentado e da declaração do apresentante em doze mil patacas e o seu rendimento liquido anual setecentas patacas.”
Foi o capitão Azevedo Coutinho, na qualidade de presidente, que procedeu ao registo predial da sede do Grémio Militar. 30 anos depois, o edifício ameaçava ruína, tendo o Governo decidido arcar com os custos de reparação, estimados em 1.670$720 patacas. Novas obras de vulto foram realizadas depois da Guerra do Pacífico, devido ao estado depauperado em que as instalações tinham ficado, por terem andado de mão em mão. Primeiro, nos tempos difíceis de 1941-45, serviram de abrigo a refugiados de Hong Kong. Depois, em 1945, o governador, que tinha ficado com o controlo do edifício, decidiu ali instalar a Repartição da Fazenda.
Em 1951, depois de a Fazenda passar para o antigo Palácio das Repartições, o Governo nomeia uma comissão para levar a cabo a recuperação do edifício. À sociedade do Grémio, o Governo paga 31.920,00 patacas, a título de reembolso, pelos anos em que ocupou gratuitamente a sua sede, conferindo-lhe ainda donativos da ordem das 16.500,00 patacas. É deste dinheiro, cerca de 48 mil patacas ao todo, que a direcção se serve para repor a dignidade perdida do velho clube. Foi igualmente necessário proceder à renovação do mobiliário, que praticamente desaparecera ou estava arruinado. Salvou-se o piano. Monsenhor Teixeira conta a história:
“Um dia, o tenente Manuel Vieira entra no Grémio e depara-se-lha esta cena à americana: um refugiado a tocar ao piano música de cabaret e dois melros a cantar e a dançar em cima do mesmo piano!... Perante este espectáculo tão edificante, ele pediu ao Cap. Salgado que permitisse recolher o piano no Quartel de S. Francisco para salvar esse pobre refugiado das carícias febris dos refugiados...” 
Quis o destino que o capitão Salgado, amante do desporto náutico, naufragasse no seu veleiro, em águas chinesas. Preso e levado para Cantão, seria mais tarde visto a vaguear pelas ruas daquela cidade, onde esteve cerca de três anos. E o piano do Grémio, que tinha sido confiado à sua guarda, ficou também em paradeiro incerto. Até que... “Um belo dia, os militares deram um sarau no Ginásio do Liceu, no Tap-Seac, junto da casa do Tenente Vieira; este viu com surpresa o piano do Grémio a ser transportado para o Ginásio!” Facilmente, o tenente Vieira provou a “paternidade” do piano, e este lá voltou à casa..."
Texto do site do Clube Militar de Macau
1973. Foto de Karsten Petersen
Nos dias de hoje. Foto de Manuel Cardoso


25 de Maio de 1912: foto no acesso lateral do Grémio. A 'nata' da sociedade de Macau: governador Álvaro de Melo Machado, Sun Iat Sen (ao centro), Camilo Pessanha (à esq), Lou Lim Ioc (à dta), etc...
 Nas paredes do Clube Militar podem ver-se fotos como estas 
que recordam tempos passados (década 1940-50)
Medalha comemorativa em bronze

domingo, 13 de dezembro de 2020

Macau num cruzeiro à volta do mundo em 1927/28

À procura de uma vida melhor foram milhares os europeus que viajaram para os EUA em navios de empresas como a belga Red Line Star. Os mais abastados utilizaram os navios para fazer viagens de cruzeiro à volta do mundo. É uma dessas viagens que vou abordar neste post.
Um dos navios mais conhecidos da empresa foi o Belgenland II (no século 19 existiu outro com o mesmo nome). O do século 20 foi construído em 1914 para a empresa White Star e com início da primeira guerra mundial seria acabado à pressa recebendo o nome de SS Belgic. Depois da guerra foi reconfigurado para paquete e passou para a Red Line Star que o rebaptizou como Belgenland. Com 27 mil toneladas era um dos maiores do mundo tendo capacidade para transportar 2500 pessoas.
A 4 de Dezembro de 1924 partiu para um cruzeiro de 133 dias à volta do mundo, uma das mais longas viagens na época com a publicidade da empresa a destacar: "The Largest Ship to Circle the Globe".
Itinerário

A a quarta edição deste cruzeiro à volta do mundo começou em Nova Iorque a 14 de Dezembro de 1927. Seguindo a rota do Japão rumou até Cuba, passou o Canal do Panamá e Hawai (ver itinerário acima). Atracou em Xangai a 2 Fevereiro de 1928 ao fim de quase 2 meses de viagem. Estava na Formosa no dia 7 a caminho de Hong Kong onde chegou às 5h15 da madrugada do dia 9 de Fevereiro. No dia seguinte o jornal The Hong Kong Telegraph noticiava que estavam atracados no porto da cidade "dois grandes navios" com cerca de 700 turistas a bordo incluindo "alguns notáveis". Um deles era o Belgenland (345 passageiros).
Nos 4 dias de escala o tempo esteve excelente com as temperaturas a rondar os 21 graus. Os passageiros puderam então reservar algumas das excursões a cidades vizinhas como Kowloon, Cantão e Macau.
Detalhe do programa da excursão a Macau 

O vapor para Macau partiu às 8h30 da manhã da sexta-feira, dia 10 de Fevereiro sendo servida uma refeição a bordo. Às 11h30 atracaram no Porto Interior. Com os passageiros divididos em dois grupos, acompanhados de guias, uns viajaram de riquexó e outros de automóvel visitando "todos os locais de interesse" durante uma hora. Na segunda hora trocaram de meio de transporte. Às duas da tarde apanharam o vapor de regresso a Hong Kong.
Às 5 da tarde do dia 13 de Fevereiro o paquete de luxo Belgenland saía de Hong Kong tarde rumo a Manila e ao destino final, Nova Iorque. Conforme se pode verificar numa parte da lista de passageiros (imagem abaixo) um dos poucos europeus a bordo - a maioria era dos EUA - era o espanhol Juan Marin Balmas (1890-1945).

O nome de Juan Marin Balmas na lista dos passageiros

Detalhe da rota do Belgenland: Janeiro e Fevereiro de 1928


O empresário espanhol passaria as memórias desta viagem para o livro "De Paris a Barcelona passant per Honolulu" publicado em catalão no ano de 1929.
Na parte que dedicou a Macau, Juan Marin Balmas, fala do jardim e gruta de Camões, do antigo tráfico de cules, das casas de jogo fantan, da pirataria no estuário do rio das Pérolas que obriga a apertadas medidas de segura no vapor que o transportou desde Hong Kong
"La terra on el gran camoens va escriure el seu poema immortal, si un temps visqué del tráfic dels coolies i del contraban d'opi, avui deu encara el seu bon passar a les seves famoses cases de joc fan tan, on els xinesos rics vénen a arriscar llur fortuna".
"Macao - Pôr do Sol" é a legenda da foto tirada no Templo da Barra incluída no livro alusivo a uma viagem de 30 mil milhas náuticas que durou 133 dias de viagem e permitiu visitar 60 cidades.
Curiosidades: 
- Albert Einstein viajou neste paquete em 1933.
O Belgenland II não resistiu aos efeitos da Grande Depressão e seria desmantelado em 1936.
- Na Bélgica (Antuérpia) existe um museu dedicado a esta empresa onde se podem ficar a conhecer mais detalhes sobre como era viajar neste navio.