domingo, 6 de janeiro de 2013

Sabia que...

... a primeira série de selos comercializada em Macau data de 1884 (ver imagem), ano da fundação dos correios no território. Curioso é que os selos, feitos em Portugal, já ali estavam desde 1877 a aguardar uma autorização legislativa para serem colocados à venda.
Cansado de esperar, o governador enviou um ofício para a Casa da Moeda em Portugal.
Tenho a honra de comunicar a V. Ex.ª que entendo que é urgente a necessidade de estabelecer um regular serviço do correio n’esta província e não podendo ser posto em execução em todas as suas partes o regulamento que por este governo se mandou proceder por conter várias disposições que dependem da aprovação de V.Exª e de prévio acordo com administrações postais de diversos países, determinei pela minha P.P Nº11, tendo sido ouvido o Conselho do Governo e a Junta da Fazenda de que, a contar do 1º de Março p.f. se poem em circulação os selos de franquia portugueses que por esse Ministério foram enviados a esta província e de que o serviço do Correio se regule provisoriamente pela instruções anexas á referida P.P, que numa próxima mala enviarei a V.Exª.

O estado actual do serviço do correio não podia por forma alguma continuar. Macau, como colónia portuguesa paz parte da «União Postal Universal» e o governo de Sua Magestade mandou já há alguns anos os selos de franquia necessários para que o correio desta cidade começasse a funcionar, e apesar de tudo isso são passados 5 anos depois da Convençaõ de Paris, e já quase outro tanto que os selos existem na Junta da Fazenda e o serviço postal continua a ser feito por uma succursal do correio de Hong Kong e a correspondência a ser franqueada com estampilhas inglesas acrecendo o vexame de terem os expedidores de pagar uma % de 8 avos por carta ao indivíduo encarregado de receber e expedir a correspondência. Nestas circunstâncias espero que V.Exª aprovará as medidas provisórias que tomei para regularisar d’alguma forma este serviço até que seja criada a repartição competente e devidamente aprovado o regulamento que muito em breve enviarei a V. Exª.
Concluindo cumpre-me dizer a V.Exª. que não existindo na Junta da Fazenda selos de valor de 80 réis e sendo justo e conveniente que o porte de uma carta que d’aqui for expedida seja igual ao que vem da metrópole, resolvi também aproveitar as estampilhas de 100 réis, habilitando-as para 80 réis por meio de um carimbo aplicado no Thesouro da Junta.
Palácio do Governo de Macau, 5 de Fevereiro de 1884 O governador - Tomas de Sousa Rosa
 O primeiro edifício dos Correios no século 19 na rua da Praia Grande

sábado, 5 de janeiro de 2013

Blog "revelação" 2012

O projecto Macau Antigo foi eleito blog revelação do ano 2012 pela redacção do jornal diário Hoje Macau como se pode atestar pela imagem publicada na edição de 31.12.2012.
Uma excelente 'notícia' numa altura em que este projecto entra no quinto ano de existência com 190 leitores registados (mais cerca de 400 na rede social facebook) e mais de 480 mil pageview's. Até agora foram publicados 2272 post's e cerca de 10 mil imagens.
Resta-me agradecer à equipa do Hoje Macau e deixar a promessa de continuar a fazer mais e melhor na divulgação da história do território com a publicação diária de um novo post incluindo muitas novidades ao longo de 2013, ano em que se comemoram os 500 anos da chegada dos portugueses à China (e a Macau)...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Muralhas: séculos 16 e 17

Uma muralha com mais de 400 anos de história, situada perto do hospital Conde de São Januário, caiu parcialmente ontem, sem registo de feridos. Segundo o diário chinês Ou Mun e Exmoo News, uma associação local pede uma “reparação de emergência” ao Governo, a pensar na preservação do património cultural. Um responsável do Instituto Cultural (IC) afirmou que embora a muralha não esteja na lista dos edifícios que devam ser protegidos, possui valor histórico, tendo já enviado funcionários para acompanhar e avaliar. Chan Chi Leung, presidente do Instituto de Conservação e Restauro de Relíquias Culturais de Macau, disse que as ruínas da antiga muralha da cidade possuem mais de 400 anos de história  e é uma das mais antigas muralhas da Península de Macau, embora seja pouco conhecida. “O seu valor histórico é mais elevado do que o Troço das Antigas Muralhas de Defesa, que fica em frente do Templo de Na Tcha, listada no Centro Histórico do Património mundial.”
O instituto considera que o Executivo tem que fazer os procedimentos de emergência após o lançamento da nova Lei da Salvaguarda do Património Cultural. Estes devem incluir o muro em questão, bem como a reabilitação das antigas muralhas da cidade. Lei Hoi Ian, do departamento de planeamento urbano, disse que há possibilidades da muralha ter sido danificada com o crescimento das raízes de árvores circundantes, e que as paredes não aguentam até que a nova lei surja. Lei Hoi ian espera que o Governo dê importância ao espaço. Tanto Chan Chi Leung como Lei Hoi Ian consideram que o Executivo precisa de obter consenso na conservação do património cultural de Macau, bem como adaptar a lista de preservação dos espaços. O IC revelou ainda que vão ser feitas obras de protecção temporária a cerca de cinco ou quatro muralhas, frisando que parte do trabalho de conservação já está a ser feito, e que tudo irá ser feito conforme programado.
 
O Ou Mun e o Exmoo News traçaram um breve retrato das muralhas históricas de Macau. Datadas do tempo da Administração Portuguesa, a data exacta pode recuar até 1569, durante a Dinastia Ming. O governo da Dinastia Ming não permitia que os portugueses construíssem muralhas privadas, por isso parte delas foram demolidas. Contudo, por forma a resistir às invasões holandesas, o governo de Macau voltou a construir algumas muralhas em 1632, tendo construído a que hoje se encontra no norte da península e a Fortaleza do Monte. As muralhas da cidade velha ainda podem ser visíveis junto à Estrada de São Francisco, atrás do Colégio Santa Rosa de Lima e na Rua Nova à Guia. Parte das paredes do Colégio Matteo Ricci ou o miradouro de Santa Sancha também são históricas. Outras partes foram incluídas na área do Centro Histórico de Macau, localizadas nas calçadas da freguesia de Santo António e em frente ao templo de Na Tcha. 
Notícia e foto (em cima à esq.) publicadas no HM de 3.1.2013
Este troço da muralha antiga situa-se na Estrada Nova, atrás do Clube Militar e do Jardim de São Francisco.
Data do século XVII a maioria das fortificações de Macau. A cidade ficou cercada por uma muralha de taipa que começava no Patane, seguia pelo Porto Interior, Colina do Monte, Fortaleza do Monte, baluarte de S. João, Fortim de S. Jerónimo e terminando na Fortaleza de S. Francisco, no extremo norte da baía da Praia Grande. 
Planta de Barreto de Resende: meados do século XVII
Os mapas da época revelam a existência de 'duas' cidades: uma cidade cristã e de uma cidade chinesa, separadas, e localizadas entre a Praia Grande e a Praia Pequena. Ambas eram muradas . A começar pela residência do mandarim e pela cerca que os jesuítas construíram no monte de S. Paulo, concluída por volta de 1606 e que antecedeu a Fortaleza do Monte (finalizada em 1622).
A cerca dos Jesuítas em 1900 (traseiras da igreja/ruínas de S. Paulo)
Nesta época pontuavam na geografia local as principais igrejas, ermidas e/ou baterias nos pontos elevados (Nossa Senhora da Guia, S. Francisco, Barra), bem como o templo chinês da Barra (Ma-Kou-Miu/Ma Ge Miao, ou Templo da Deusa A-Má), encravado entre a Colina da Barra e o “sorgidoro” (Porto Interior). Na margem Norte, entre um denso arvoredo e o istmo, regista-se a presença de algumas casas representando a aldeia chinesa de Wangxia (Mongha). Estes terão sido os primeiros habitantes de Macau, bem antes da chegada dos portugueses. Outra das populações mais antigas, residiam em embarcações junto à zona da Barra, e provinham da província de Fukien.
Muralha Chunambeiro e fortim do bomparto
Outro troço da muralha, a sul, começava na fortaleza do Bomparto, subindo a encosta poente da colina da Penha até ao Forte de Nª Srª da Penha de França. Descia a encosta nascente e terminava junto ao Porto Interior. As muralhas não tinham mais de 5 metros de altura, seguiam os contornos do terreno e tinham uma espessura de 3 a 4 metros terminando em degraus. Eram feitas de taipa com parapeitos de tijolos...

A fortaleza do Bomparto já estava concluída em 1622 e não se sabe a origem. Os muros assentavam nas rochas existentes na base... granito. Destinava-se a dar fogo de cobertura ao Porto Exterior e, simultaneamente, protegia o acesso ao Porto Interior. Inicialmente tinha a forma de um quadrilátero irregular, uma forma modificada posteriormente com a ampliação. Os parapeitos tinham 8 aberturas para canhões e deles partia a muralha que ligava este forte ao da Penha, no cimo da colina a poente. Apesar da construção, ainda hoje podem ser vistas (ainda que se tenha de ver com muita atenção) muitas partes das antigas muralhas. Algumas servem de suporte a casas/barracas pelo que será mais difícil identificá-las. A muralha junto ao Quartel de S. Francisco é das mais visíveis.

Na imagem - década 1930/40 - ainda se pode ver parte da muralha que ligava à Fortaleza do Monte
Em cima: planta da península de Macau, porventura a primeira com contornos geográficos 'realistas'. É da autoria do cartógrafo luso-malaio Manuel Godinho de Erédia e data de 1615-1620. Não encontrei até hoje uma indicação de que ele tenha estado em Macau, pelo que pode ser uma cópia de um mapa existente em Goa ou então feito a partir da observação por uma terceira pessoa. Certo é que não revela o que cerca de 1570-1600 já existia. Ou seja, as diversas habitações construídas pelos portugueses.
Na Fortaleza do Monte
 Mapa da segunda metade do séc. XVI
 Parte de muro/muralha: vista sobre a baía da Praia Grande ca. 1890-1900

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Teatro Capitol: filmes dos anos 30 e 50

O "Capitol" na Rua de S. Domingos
 
Jornal A Voz de Macau de 7 de Janeiro de 1937
10 e 11 de Outubro de 1939: em exibição "Gunga Din" com 4 sessões diárias às 14:30, 17:30. 19:30 e 21:30
Este panfleto tem a particularidade de incluir dois anúncios: Central Radio Service, no nº 61 da Av. Almeida Ribeiro (telefonias e afins) e Dr. T. C. Lei, cirurgião-dentista que fazia "extracção e obturação de dentes sem dor" no consultório à rua de S. Domingos.

Havia 4 tipos de bilhetes: galeria, 1ª, 2ª e 3ª classes. O mais caro custava 80 avos. Soldados e cabos tinham acesso à primeira classe a preço especial (30 avos), excepto na sessão das 21:30, porventura a mais concorrida. Para isso tinham de se apresentar fardados.
"Kim": filme estreado a 1 de Janeiro de 1957. Nesta época o número de telefone do teatro passara de 552 para 3552.
O primeiro filme estrangeiro com legendas em português 'inseridas' na própria película foi projectado neste cinema em Setembro de 1955 no filme francês "O Salário do Medo". Na altura esta esta a configuração dos lugares (837) da sala.
O "Capitol" foi inaugurado a 13 de Abril de 1931. Em baixo um folheto de Maio de 1939 relativo ao filme "Always Goodbye" / "Mais uma vez, Adeus". Para além dos anuncios já referidos inclui mais dois: o leite condensado "Longevity" à venda na casa Hung Hing na rua do Guimarães e "Coldair, o refrigerador da moda" e "único digno desse nome" à venda na Melco.
As sessões começavam com a reprodução de alguns discos seguidas de um pequeno bloco de notícias, neste caso dos norte-americanos da Fox.

Nota: são muitos os post's publicados sobre o cinema em Macau; sugiro a utilização do campo de pesquisa e deixo como sugestão de leitura este

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Hotel Estoril: folheto turístico dos anos 60

Folheto em inglês dos primeiros anos da década de 1960 

Antes do "Estoril" ser construído existia um salão de dança no local
O Estoril - na av. sidónio Pais, ao Tap Seac - foi o primeiro hotel (de duas *) de Stanley Ho. Foi inaugurado a 15 Novembro 1963 e tinha um casino. Abriu praticamente ao mesmo tempo que se estabeleceram as carreiras regulares de hydrofoil entre Macau e Hong Kong. Foi a grande atracção da cidade até à abertura do hotel Lisboa no início de Fevereiro de 1970. Funcionou até à década de 1990 e já há vários anos que se encontra desactivado.
Em baixo um anúncio publicado no jornal "Notícias de Macau" em Julho de 1964 (cedido por António Cambeta). Um almoço de luxo custava 6,5 patacas. Ao jantar era um pouco mais caro mas tinha direito a orquestra privativa. Realizaram-se aqui os 'copos de água' dos casamentos das famílias mais abastadas na época.
Na década de 1960 os preços dos 16 quartos duplos e 21 quartos singulares oscilavam entre as 45 e as 75 patacas. Na década de 1980 já tinha um total de 89 quartos, incluindo suites, e os preços iam das 70 às 220 patacas.



Final década 1990
Para além do jogo, este espaço, um hotel de primeira categoria, era conhecido pelo excelente restaurante e a banda de música permanente. As festas de casamento das famílias mais ricas tinham aqui lugar, bem como as festas ligadas a datas como a passagem de ano, Natal, carnaval e ano novo chinês. Em 1974/75, quando foi inaugurado o Jai Alai/Pelota Basca, o casino do hotel fechou.
Réveillon na década de 1960
 
Estoril Tours: anos 60