No canto superior direito (abreviatura de cortesia):
Illmº. Sr. (Ilustríssimo Senhor)
Nome do destinatário (ao centro):
Gonçalo Ayres da Costa Campos
Cargo e localização (em baixo):
Guarda Marinha embarcado
a bordo da corveta D. João em Macao
Embora não existam elementos que permitem datar esta carta, deduzo que seja de meados do século 19. Porquê?
A corveta referida é a D. João I da Marinha Portuguesa. Foi construída em Damão por Jadó Simogi, aproveitando os materiais (madeira teca) da corveta "Infante D. Miguel" (inutilizada) sendo lançada ao mar em 1828.
Com 45,54 m de comprimento de fora a fora; 10,56 m de boca; 6,27 m de pontal; 6027 m de calado a vante e 516 toneladas tinha de armamento: 2 peças de bronze de calibre 18; 1 peça de calibre 3; 16 caronadas de ferro de calibre 32; Armamento portátil: 60 espingardas de fuzil; 20 pistolas de fuzil; 4 bacamartes de canos de bronze; 45 espadas e respetivos cinturões; 60 baionetas e respetivos cinturões; 20 chuços; 90 cartucheiras de cinto.
Em 1842 a lotação era de 161 homens. Navegou até final do século 19 sendo o último registo em Angola.
No século XIX ficou célebre pelas suas missões em vários pontos do mundo: Brasil, Timor, Japão, Angola. Destaco apenas as efectuadas no Extremo Oriente. Entre 1850 e 1860, operou no delta do Rio das Pérolas e desempenhou um papel vital nas relações luso-asiáticas. Aqui ficam algumas das missões em que esteve envolvida:
- Em 1850 largou do Rio de Janeiro para Macau conduzindo o novo Governador Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha.
- Esteve envolvida em operações de resgate após a trágica explosão da fragata D. Maria II em Macau, em 1850.
- Em Janeiro de 1851 largou de Macau para Hong-Kong, conduzindo o novo Governador, Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco António Gonçalves Cardoso.
- Em 1854, conduzindo o Governador da província e o ministro plenipotenciário francês, largou de Macau para Ning-Pó, fazendo escala por Hong-kong e Amoy.
- Em Julho de 1854 travou combate com os piratas chineses.
- Em 1855, transportou os restos mortais do antigo governador João Maria Ferreira do Amaral de volta para Goa.
- Ajudou no combate a incêndios devastadores na cidade de Macau em 1856.
- Transportou o Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, até ao Japão em 1860, missão que resultou no Tratado de Paz e Comércio entre Portugal e o Japão. Feliciano António Marques Pereira, Capitão de Fragata era o comandante da corveta D. João I.
- Em 1861, largou em segunda viagem ao Japão, com escala por Xangai, para se proceder ali à ractificação do tratado do comércio luso-japonês, não chegando ao destino devido ao mau tempo.


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