segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Macau visto por um militar dos EUA em 1953/54

Ao fundo a Penha e o hotel Bela Vista, ao centro hotel Central e ao lado o Leal Senado e a Sé
Na Fortaleza do Monte ainda com dispositivos militares no activo: repare-se no canhão à esquerda
Velório percorrendo as ruas da San Ma Lou vendo-se ao fundo um parte do edifício dos Correios
During the first half of the 1950s, my father served in the U.S. Air Force and for part of that time was based in Asia, primarily on Okinawa. He had the opportunity to travel around much of the region and these photos (with a few exceptions that include him) are ones he took of the places he visited: villages on Okinawa along with Hong Kong, Manila and Macau.
What I personally find most interesting about these photos is that very few of them have anything to do with the military: they are of the places he saw and the people he met while being half-a-world from home. While my Dad returned home and become a successful dentist, I have no doubt that he had both the eye and the spirit to have been a great photographer.
(...)
These photos were taken while my Dad served as a Lieutenant in the U.S. Air Force during the Korean War. They were taken with a Zeiss Ikon Contessa, a rangefinder with a folding Tessar f2.8/45mm lens, and were shot on 35mm Kodachrome transparency film. I recently had about 70 out of nearly 1,000 slides he shot scanned by ScanCafe in order to preserve as well as share on Flickr.
Most of the photos I'm posting to Flickr were taken over a one year period, between September 1953 and August 1954. The caption for each photo is simply what my Dad noted on each slide.

Vista sobre a Ilha Verde
Texto de Phil Roeder, filho de um militar norte-americano que serviu na Guerra da Coreia e que na altura visitou alguns países da região, incluindo Macau.

domingo, 19 de setembro de 2010

Gov. Lopes dos Santos: 1962-66

Colégio Yuet Wha - 1962
Chegada a Coloane a 28 de Maio de 1963
Inauguração Campo Desportivo da Taipa - 1963
Seminário S. José - Junho de 1962
Desde a sua morte em Julho de 2009 têm aparecido em diversos leilões e casas de antiguidades um conjunto significativo de fotografias que ilustram actos públicos de Lopes dos Santos enquanto Governador de Macau entre 1962 e 1966. Aqui pelo blog tenho vindo a colocar algumas dessas fotografias. Estas foram as últimas que encontrei. O exercício do seu cargo ficou marcado pelo início da concessão do jogo pela STDM de Stanley Ho. Um dado curioso, ainda hoje existe um edifício em Macau - do Instituto de Habitação criado no âmbito da assistência social com o nome da sua mulher, Angélica Lopes dos Santos
António Adriano Lopes dos Santos foi um general da arma de Engenharia e ocupou altos postos militares antes e depois da Revolução de Abril de 1974.
Governador de distrito em Moçambique de 1959 a 1962, foi governador e chefe de guarnição militar em Macau entre 1962 e 1966 e segundo comandante militar e comandante operacional adjunto do comando-chefe da Guiné, entre 1968 e 1970. Entre 1970 e as vésperas do 25 de Abril de 1974, esteve em Cabo Verde, tendo sido o último governador colonial.
Após o 25 de Abril, António Lopes dos Santos foi promovido a general e nomeado vice-chefe do Estado-Maior do Exército, tendo ainda presidido ao Conselho Superior de Disciplina do Exército e dirigido o Centro de Estudos Militares.
O seu último cargo público foi o de director do Instituto de Defesa Nacional, além de ter presidido à assembleia geral da Associação da Secular Amizade Portugal-China e à Fundação Jorge Álvares, em substituição do general Rocha Vieira.

sábado, 18 de setembro de 2010

Mapa: século XVI

Mapa elaborado por Vicente Pacia (1880-1940), artista que viveu em Macau e foi contemporâneo de Jack Braga* que era quem lhe dava 'indicações' sobre o que desenhava, nomeadamente mapas e paisagens de Macau. Este representa Macau em meados do século XVI. * para saber mais sobre quem foi Jack Braga utilizar o campo de pesquisa.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Almoço, 26 Setembro, Casa de Macau (Lisboa): antigos alunos do Liceu

Almoço dia 26 de Setembro, domingo, na Casa de Macau em Lisboa, a partir das 12h30 e até sermos 'expulsos'.
Preços:  Adultos (neste caso, acima dos 13 anos): 17 euros
Crianças: 6 - 8 anos: 8 Euros; 10 - 13: 10 euros
Menu:
Entradas : Chilicotes - Chamussas - Há To Si (Tostas de camarão)
Pratos quentes : Minchi - Capela - Porco Bafassá - Caril de Galinha - Chau Min
Sobremesas : Bebinga de Leite - Midnight cake - Mousse de Manga - Bolo de Ananás
Bebidas : Água - Refrigerantes - Café
O vinho é pago à parte... podem também trazer de casa (mas não digam que eu disse eheheehe). Ah, e já agora, vão ao baú e tragam também aqueles álbuns de fotos antigas (sim esses da Foto Princesa!) para nos divertirmos ainda mais... Quem já tiver tudo digitalizado traga o portátil, o powerpoint, o projector de slides... Algumas surpresas e livros com a história do "Liceu de Macau" a apenas 5 euros cada (últimos 100 exemplares de um total de mil).
 
Pagamento exclusivo por transferência bancária - com notificação do destinatário - até ao dia 19 de Setembro e confirmação via e-mail do nº de pessoas (adultos e crianças) para o endereço macauantigo@gmail.com
NIB 0010 0000 3154 4840 001 79 - João Botas

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Desporto em Macau: 1930-1970"

Esta mostra fotográfica estará patente ao público de 17 de Setembro a 30 de Janeiro no Piso -1 do Museu do Oriente. As fotos a preto e branco - do acervo do Centro de Documentação do Museu - reflectem as mais diversas modalidades desportivas praticadas em Macau entre as décadas de 1930 e 70. Fica feito o convite. A entrada é livre.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Anúncios imprensa: anos 30 e 40

1940
1943

1943

cerca 1940

1943


1937
1931
Final de 1940
Anúncios publicados no jornal A Voz de Macau... a 'voz do regime' em Macau desde a década de 1930 e o que se pode considerar como o primeiro jornal diário a ser impresso com regularidade e longevidade. O jornal "seria calado à bomba pelos japoneses durante a Guerra do Pacífico" tendo sofrido três atentados bombistas, de que não resultaram vítimas mas que causaram avultados estragos nas instalações e abalaram seriamente a saúde financeira da empresa. Seguiu-se-lhe em 1945 o “Jornal de Notícias”, que não era mais do que o sucedâneo do anterior “A Voz”, com nome diferente. O “Jornal de Notícias” manter-se-ia em publicação, até 1975, data em que obrigado ao pagamento de multas, por infracções à liberdade de imprensa e sujeito a pressões de vária ordem, acabaria por encerrar definitivamente.
NA: Uma nota de agradecimento ao António Cambeta pela paciência e empenho da recolha das imagens e ao João Guedes pela informação histórica.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Escavações na Belchior Carneiro

São apenas peças partidas de porcelanas, mas que podem revelar-se um grande tesouro para a história de Macau. As primeiras escavações arqueológicas onde antes estavam os prédios de funcionários públicos na rua Belchior Carneiro, nas Ruínas de São Paulo, renderam fragmentos de porcelana dos finais da dinastia Ming e outros artefactos que vão ajudar a compor o cenário do antigo Colégio de São Paulo.
A equipa de arqueólogos descobriu fragmentos de Kraak, um tipo de porcelana chinesa azul e branca de exportação bastante rara na China e cobiçada pelas famílias reais europeias. No princípio do século XVII, a louça causava grande sensação na Europa e era uma das grandes paixões do rei francês Henrique IV e inglês James I. Descobriu-se ainda um objecto em cerâmica de formas raras, frequentemente encontrado em Holanda. Segundo os arqueólogos, os resultados da primeira fase de escavações “são bastante animadores” e reflectem “absolutamente a singularidade cultural de Macau”. “Estas descobertas são muito importantes para o estudo histórico-cultural e permitem destacar o valor do intercâmbio entre as culturas orientais e ocidentais”, disseram em conferência de imprensa.
Os especialistas lançam agora mãos a mais uma fase de escavações e terão uma ajuda extra: vão ter acesso a resultados de trabalhos de prospecção geoeléctrica e geomagnética. Isso significa que será possível conhecer a situação da distribuição no subsolo dos vestígios arqueológicos. Para os estudos continuarem, contudo, os outros dois prédios da década de 1960 vão ser demolidos. Os estudiosos contam que assim será possível encontrar mais vestígios da muralha e das valas que descobriram na área vizinha.
Quando o Governo anunciou a demolição das antigas residências de funcionários públicos, a principal ideia era utilizar o espaço para a construção de um parque de estacionamento para autocarros de turismo. Há dois meses, o Governo frisou que a decisão dependeria dos achados arqueológicos e empurra agora a decisão para o fim de todo o processo de estudo.
Notícia do jornal Hoje Macau de 13-09-2010
Prédio na Rua D. Belchior - Foto de Guida Pereira

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Salvas da Fortaleza do Monte

Em 1919 os residentes da zona vizinha à Fortaleza do Monte escreveram ao Presidente da Comissão Administrativa Municipal levantando a questão do incómodo e até perigo que as salvas da fortaleza lhes causavam, pedindo que fossem cessadas.
Salvas da Fortaleza do Monte: pedido dos moradores vizinhos para cessarem
Texto e imagem da autoria do Arquivo Histórico de Macau.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Brochura "A Ponte Macau-Taipa"

Brochura turística distribuída em Hong Kong na década de 1970. A ponte viria a ser inaugurada em Outubro de 1974. Diversos post's aqui no blog contam essa história...
Agradecimentos pela imagem: Vanessa Seed.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Av. Almeida Ribeiro

Várias imagens da avenida: desde a década de 1920...
A propósito de um outro post colocado recentemente e alusivo à mais importante avenida de Macau, resolvi pesquisar um livro que é a 'bíblia' da Toponímia de Macau da autoria de Monsenhor Manuel Teixeira.
Fiquei assim a saber o seguinte:
- que Almeida Ribeiro nunca esteve em Macau; o seu nome foi dado à avenida porque o então "ministro das colónias sancionou a verba para a expropriação das casas para a abertura da avenida."
- o troço desta avenida que vai do Largo do Senado à R. da Praia Grande chamava-se outrora Av. do Coronel Mesquita.
- "Esta avenida foi rasgada em 1915 pelo Eng. director das Obras Públicas, António Pinto de Miranda Guedes".
- segundo Armando Bastos (citado pelo Monsenhor), antes da avenida ser rasgada, existiam apenas dois troços em cada ponta da actual avenida: "uma pequena rua com pouco mais de 100 metros de comprido, confinando um extremo com a embocadura da Rua dos Mercadores, e o outro com o Largo do Senado."
- em chinês a avenida designa-se por a-mei-ta-lei-pei-lou-tai-ma-lou... que pode ser traduzido como "estrada nova" ou "caminho novo para os cavalos", numa tradução mais à letra.
- a designação mais habitual, mesmo entre os portugueses, sempre foi San Má Lou.
- durante quase um século esta avenida foi a principal porta de entrada no território, primeiro pelo acesso directo aos cais do Porto Interior (e no outro extremo à Praia Grande e ao Porto Exterior) e também como acesso ao centro nevrálgico da cidade: estavam ali os principais hotéis, os correios, o Leal Senado, a Santa Casa e a Sé a dois passos, as lojas e os cafés mais frequentados...
- ainda hoje é considerada uma das principais artérias da cidade (senão mesmo a principal).
Década de 1950 - Imagem de FormAsia

Logótipo hotel Central

Inaugurado a 22 de Julho de 1928 com o nome de  Presidente Hotel. Foi durante muitas anos o edifício mais alto de Macau e de todas as então colónias portuguesas. Foi também o primeiro a ter elevador. Ainda hoje existe e faz parte da história da San Ma Lou e do Território. Num outro post já falei de forma sumária da história deste hotel. Basta utilizar o campo de pesquisa. 

Envelope comemorativo: 1963


24 de Março de 1963: dia de S. Gabriel

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"Macau Antigo" em Vila Pouca de Aguiar

A exposição Macau Antigo, patente no Museu Municipal de Vila Pouca de Aguiar (Trás-os-Montes) até 30 de Setembro, reúne perto de quatro dezenas de fotografias documentais relativas à presença portuguesa naquele território do Oriente.
A exposição Macau Antigo é organizada pelo Município e a empresa municipal Vitaguiar, com o apoio da Fundação Oriente. De referir que esta semana (mais propriamente a 10 de Setembro, às 21 horas), o Administrador João Calvão, representante da Fundação Oriente, vai marcar presença no Museu Municipal para, juntamente com os autarcas locais, aprofundar o tema da exposição e a possibilidade de outros projectos.
A entrada no porto de Macau, a fortaleza, edifícios administrativos e paisagens são temas que marcam esta exposição, retratada de 1844 a 1974. As 38 fotografias podem ser apreciadas na sala itinerante do espaço cultural.
Texto do site da CM de Vila Pouca de Aguiar

Slides de 1959

Pormenor da fachada das Ruínas de S. Paulo
Uma rua de acesso ao Porto Interior
A Penha vista a partir do  Porto Interior

domingo, 5 de setembro de 2010

Um Jovem Romântico, uma Nova Avenida e um Beco sem Saída

Um Jovem Romântico
José Carlos da Maia (Olhão, 16 de Março de 1878 - Lisboa, 19 de Outubro de 1921) foi oficial da Marinha de Guerra Portuguesa e destacado político republicano. Entre outras funções, foi deputado à Assembleia Constituinte de 1911 e à Câmara de Deputados do Congresso da República, Governador de Macau (1914-1916), Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, de Janeiro a Março de 1918, e Ministro da Marinha durante três meses e meio em 1918. Encontrava-se afastado da política activa quando foi assassinado na Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921, a revolta radical que ocorreu em Lisboa e no decurso da qual foram assassinados vários republicanos.
Durante os anos de 1914 a 1916, como Governador de Macau. José Carlos da Maia, projectou uma imagem de extrema competência e seriedade. Decorria a I Guerra Mundial, mas o rigor e a dinâmica da sua governação deixaram-lhe a fama de ter sido um dos melhores governadores que Macau conheceu. Construiu três escolas e uma leprosaria, organizou um corpo de voluntários, a corporação de bombeiros, melhorou as comunicações rádio-telefónicas e rodoviárias entre as ilhas e ainda teve tempo para ajudar os republicanos chineses. “Carlos da Maia é conhecido por ter recusado a extradição dos republicanos Chineses que se refugiaram em Macau no período conturbado dos Senhores da Guerra que sucedeu à República Chinesa, revelando com isso a franqueza da sua matriz ideológica e a disponibilidade de a estender, em moldes solidários, para além de qualquer realidade cultural ou diplomática”, acrescenta o arquitecto e docente convidado da Universidade de São José, Mário Duque.
A obra de Carlos da Maia em Macau é descrita de forma elogiosa numa obra que data de 1924, intitulada “Um Marinheiro Romântico: Como viveu e Morreu Carlos da Maia”. A monografia é composta por textos de dois autores, ambos amigos pessoais de Carlos da Maia, Rocha Martins e Bourbon Menezes. Este último relata a as obras deixadas por Carlos da Maia em Macau:
“Carlos da Maia deixou a sua passagem por Macau assinalada por uma obra. A capitania do Porto, que, por falta de materiais indispensáveis, estava impedida de fazer a necessária fiscalização marítima, dotou-a Carlos da Maia com esse material que ela não tinha, adquirindo cinco lanchas, logo postas no desempenho daquele serviço. As ilhas da Taipa e Coloane foram ligadas pela telegrafia sem fios e, para que a vigilância nocturna das imediações do porto de Macau pudesse fazer se como a prudência aconselhava que se assegurasse, mandou Carlos da Maia comprar os necessários projectores, os quais foram montados já depois da sua retirada para a metrópole (…).
O relato da obra de Carlos da Maia continua pormenorizadamente e acaba por concluir:
"Os jardins da cidade, por sinal lindíssimos, aformoseou-os por comum interesse e que só se da a medida da sua delicada sensibilidade, e a abertura da Avenida Almeida Ribeiro que cortando o bazar chinês, liga a Praia Grande com o Porto Interior, esta igualmente vinculada a sua acção governativa”.
A um nível mais privado, José Carlos da Maia era um romântico. Sonhava encontrar a sua princesa e levá-la num cavalo branco. “No coração de Maia havia desde algum tempo um amor enorme. Era a sua paixão. Eu conheci a esposa do Maia antes de a ver (…). É que ele falava de alguém cujo nome não dizia. Entrevi-o noivo, conheci depois o marido e o pai apaixonado” , conta-nos Rocha Martins. Assim, apaixonado, o republicano sonhava unir os mares e ambicionava o infinito do horizonte.
Fotografia de 1959: mais um inédito e exclusivo do blog Macau Antigo
A San Ma Lou na zona do Largo do Leal Senado
Uma Nova Avenida
Carlos da Maia rasgou Macau de costa a costa, unindo a cidade das igrejas cristãs à cidade dos templos do budismo chinês. A construção da Avenida Almeida Ribeiro, em Chinês San Ma Lou, que significa “Avenida Nova” visava unificar a cidade, ligar o porto interior ao porto exterior, abrindo a cidade em si e assim mais ao mundo e ao infinito do mar.
A “nova avenida” do jovem romântico transformou a vida económica, social e cultural de Macau, aproximou as pessoas e as culturas, e com uma clara visão de futuro modernizou a cidade.
Entre a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX, a Rua Central foi o centro da vida social e comercial da cidade Cristã. Em chinês, a Rua Central designa-se por Leong Sang Cheng Kai, isto é, Rua Direita do Cume do Dragão. Situada no bairro de S. Lourenço, foi aí que se instalaram os alfaiates e modistas, ourives e joalheiros, antiquários e livreiros, as lojas dos “mouros”, de sedas, cetins, toalhas e bordados, para além de roupas, chapéus, gravatas e brinquedos. Foi aí que se instalou inicialmente a famosa loja Omar Moosa, expressão da comunidade “moura” de Macau. No dia santo, terminada a missa das onze horas na Sé Catedral, a rua transformava-se numa espécie de Passeio Público, onde se exibiam as últimas modas, importadas das metrópoles europeias, conforme nos recorda Henrique Senna Fernandes.
A Avenida Almeida Ribeiro ficou concluída em 1918, depois da expropriação e demolição dos edifícios antigos que impediam o seu alinhamento regular. Com cerca de 600 metros a “nova avenida” rapidamente se transformou na via principal da cidade.
A documentação mais antiga existente no arquivo histórico de Macau sobre a “nova avenida” data de 1914 e refere-se à sua actividade comercial. A mostra patente no Arquivo Histórico de Macau durante o mês de Julho, intitulada “Lembrando a Almeida Ribeiro” esclarecia que o nome chinês da Avenida era um nome comum dado a todas as novas avenidas, mas dada a demora da construção da Almeida Ribeiro, em chinês o seu nome nunca mais se alterou. Estiveram em exposição documentos do espólio de processos, plantas e fotografias do Arquivo Histórico de Macau, ilustrando as origens da Avenida, incluindo o projecto da sua abertura através do bazar chinês, documentos sobre o Leal Senado e referencias a alguns negócios que outrora nela se encontravam. A mostra esclarecia igualmente que o projecto era anterior à sua execução.
A abertura da Almeida Ribeiro originou uma onda de novos projectos com o emprego do betão armado e o uso sistemático das arcadas. Na década de 30, a maior parte da vida que caracterizava a Rua Central tinha se transferido para a Avenida Almeida Ribeiro que era já a zona mais próspera da cidade, com lojas, bancos, hotéis, joalharias, cinemas, etc. Até a famosa loja Moss preferiu instalar-se na “nova avenida”.
Uma diferença porém: a Rua Central era o centro da vida cristã, a Nova Avenida era o centro da cidade, incluindo cidade cristã e bazar chinês, agora unidos em torno de um comércio próspero e dinâmico.
“O urbanismo tem a capacidade configurar o espaço público, não apenas assegurando os aspectos essenciais de suporte à vida dos humanos, mas também de dar expressão aos valores que norteiam esses humanos, seja por via das seus próprios mitos ou fundações intelectuais, seja por via dos ideais ou aspirações desses humanos em determinado momento. Por isso, urbanismo tem sempre uma dimensão civilizacional, conceptual e simbólica”, explica Mário Duque. “O que Carlos da Maia fez, unindo cidades dentro na mesma cidade, não foi apenas dotar a cidade de melhor acessibilidade e de melhores meios de administração, mas também dotar a cidade de elementos espaciais que significam abertura e comunicação, propícios a um sentido cosmopolita, porque é essa a ideia subjacente ao conceito de cidade para determinada matriz civilizacional e ideológica”.
A atestar a nova vaga de projectos em betão armado que se gerou com a abertura da Almeida Ribeiro destaca-se a construção do Grand Hotel, da autoria do engenheiro civil macaense José Canavarro Nolasco (1937), construído pelo empreiteiro Tai Man Hou . Situado no fim da Almeida Ribeiro, frente à Ponte Cais no. 16, também chamado Kouc Chai. O Hotel foi inaugurado em 1941 e durante a II Guerra Mundial foi palco de episódios dignos dos mais extraordinários filmes de espionagem. O alçado principal manteve-se inalterado até à actualidade. De facto, “à excepção de posteriores remodelações dos interiores ao gosto de outras épocas, as características do desenho arquitectónico de matriz Art Deco, na versão streamline, mantiveram-se inalteradas até à actualidade”, acrescenta o arquitecto Mário Duque.
Em 1947 iniciou-se o processo de reconstrução da Ponte do Cais. Fu Tak Lam , comerciante e proprietário, morador no Hotel Central, desejava construí-la por considerar a obra urgentíssima e de grande interesse para o Governo. Charles Lun Chou, engenheiro civil e construtor, assina o projecto e encarrega-se da obra de demolição e respectiva reconstrução da Ponte do Cais no. 16. O edifício foi sucessivamente alterado, ampliado e modificado. Mas foi durante muitos anos o principal lugar de chegada à cidade de Macau.
As casas-lojas que caracterizam a arquitectura da Avenida são edifícios de 3 andares cujo rés-do-chão seria de espaço comercial, servindo os outros dois pisos para habitação, seguindo a tradição chinesa (“Shop Houses”). Contudo, as arcadas, as janelas, as portadas em arco e os motivos decorativos florais atestam uma eclética influência europeia .
Nas décadas de 50 e 60, a avenida era um lugar muito concorrido. Ali se situava: o Café Ruby, Tabacaria Filipina, Camisaria Central, Café Belo...
O arquitecto Mário Duque enquadra o gesto de Carlos da Maia e a San Ma Lou num contexto mais vasto: “Nesta avenida configurou-se o mesmo esquema urbanístico que muitas das cidades europeias adoptaram, não só por vias das profundas transformações que sofreram, para se adaptarem aos transportes mecânicos e a novos moldes da vida urbana. Neste contexto, conduziram-se os novos meios de locomoção aos centros das cidades, fazendo do local da “gare” a nova recepção da cidade e dotando esse local de hotéis ao novo estilo da vida, os “hotéis de gare” (que muitas vezes pertenciam à mesma empresa que explorava o meio de transporte).
Dessa nova recepção das cidades chegava-se à tradicional “sala de honra” da cidade, a praça do município, através de um novo e importante boulevard (designação das novas vias com que as metrópoles foram equipadas para condução nas novas redes urbanas, para as novas acessibilidades e para a circulação de veículos motorizados).
Nessas cidades europeias acedia-se, na maior parte dos casos, por comboio e as “gares” eram ferroviárias. Em Macau essa “gare” era marítima (a Ponte do Cais no 16) mas o modelo é em tudo igual. O Hotel de Gare é o Grand Hotel e o novo boulevard, que conduz à praça do município (o Largo do Senado) é a nova Avenida Almeida Ribeiro (San Ma Lou).
“São realidades que hoje se revestem de valor histórico e que, no seu tempo, foram profundos rasgos de modernidade”, explica o arquitecto Mário Duque. Acrescentando, “Em verdade as imagens que se conhecem do passado da Avenida Almeida Ribeiro é dos estabelecimentos comerciais a competir em visibilidade no espaço aéreo da via, pejada de painéis publicitários coloridos e luminosos, que se projectavam em dimensões talvez mais arrojadas que hoje. Todavia um extravaso que se limitava a uma visibilidade publicitária, desenvolvendo uma paisagem urbana característica, hoje sinónimo da versão oriental do urbanismo europeu, mas sem com isso extravasar a regra urbanística da edificação propriamente dita, ou seja, do alinhamento das margens desta via aberta para ligação das duas frentes marítimas”.
Em 1983 foi elaborado um “Plano de Intervenção Urbanística da Almeida Ribeiro” pela Palmer & Turner. Era um regulamento pormenorizado com vista à orientação da construção da zona, tendo como objectivo a renovação urbana no quadro da preservação de edifícios e ambientes classificados. O Plano foi revisto em 1984.
Um Beco Sem Saída…
Houve contudo um aspecto que não foi previsto: que a Avenida que ligava Macau ao infinito do mar pudesse um dia vir a ser totalmente bloqueada nos seus extremos. A construção dos aterros da Praia Grande, deu lugar a uma outra avenida, a Avenida Infante D. Henrique, que prolongou o traçado da Almeida Ribeiro até ao mar.
O Hotel Lisboa, situado já nos novos aterros da Praia Grande, no extremo da Avenida Infante D. Henrique, foi o primeiro edifício a fugir ao alinhamento e a invadir, ainda que ligeiramente, o eixo central daquele sistema viário, na antiga tradição dos letreiros e neóns.
Com a liberalização do jogo, vieram mais uns tantos resorts. Ao Hotel Lisboa, seguiu-se o Wynn Resort que definitivamente invade o enquadramento visual e, finalmente, o MGM que acaba por fechar a Avenida ao mar. No outro extremo, o Resort Soffitel construído exactamente naquele que foi o principal lugar de chegada a Macau, a Ponte do Cais no 16, não só destruiu a ponte como bloqueou a Avenida Almeida Ribeiro, no outro extremo.
“O empreendimento Ponte Cais n.º 16 constitui o derradeiro tampão da Av. Almeida Ribeiro. É uma intervenção urbanística de índole revivalista, que queria reactivar o tecido urbano do Porto Interior, mas todavia fê-lo em sentido que não podia ser mais inverso ao que moldou aquela estrutura urbanística que hoje se contempla com valor histórico”, conclui o arquitecto Mário Duque. “Quando se intervém neste tipo de realidades urbanas, é imprescindível compreender os sinais da sua génese. Essa aptidão sequer é exclusiva às pessoas dessas cidades. É antes uma aptidão que resulta de uma formação profissional que se desenvolve“, acrescenta o arquitecto e docente convidado da Universidade de São José. “Sem dúvida que o fecho da San Ma Lou foi mais um valor subtraído à cidade, mas também uma constatação que pode servir de chamada de atenção para a necessidade urgente de desenvolver ideias para novos e adequados instrumentos urbanísticos, que permitam repor valor a uma via que ligava mar a mar, por terra, um pequeno canal do Suez ou do Panamá, e o lugar que foi significativamente o ponto de chegada e de partida de uma cidade, não seja hoje um beco sem saída nas traseiras da mesma cidade”.
Vista aérea da San Ma Lou em 1961
Texto de Margarida Saraiva - Mestre em Planeamento e Políticas Culturais Europeias - publicado no jornal Hoje Macau de 1 de Setembro de 2010.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Arquivo Histórico: 1982

Em Março de 1982 o Arquivo Histórico de Macau - situado numa mansão em estilo colonial da Av. Conselheiro Ferreira de Almeida - reabria depois de obras de remodelação que lhe valeram o prémio "Pacific Area Travel Association's Heritage" nesse ano. À frente da instituição estava naquela altura a Prof. Beatriz Basto da Silva.
O Arquivo contém cartas, livros e manuscritos sobre as relações entre Macau e a Europa, China, Japão e Sudoeste Asiático, provenientes de uma vasta gama de fontes governamentais, civis, eclesiásticas e privadas. As mais valiosas foram colocadas em microfilme, incluindo 7500 itens datados de 1587 a 1786.
As fotos recordam esse dia 10 de Março de 1982 e são do José Basto da Silva.
Almeida e Costa (Gov.), Beatriz Basto da Silva (Directora do Arquivo), Jorge Rangel (Secr. Adjunto do Gov.)
O Arquivo Histórico de Macau é o repositório público do património histórico documental de Macau. Recolhe, trata e disponibiliza ao público a documentação de valor histórico permanente contribuindo para a preservação da memória de Macau.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Colour and Noise: 40 years of the Macau Grand Prix

Philip Newsome, grande fã do desporto automóvel e consultor do Museu do Grande Prémio de Macau, assistiu pela primeira vez a um grande prémio em 1985, tendo publicado uma série de artigos sobre o assunto.Este livro, resultado de cinco anos de investigação, conta detalhadamente a história dos primeiros 40 anos do Grande Prémio de Macau.
Profusamente ilustrado com mais de 360 fotografias, este livro relata-nos de forma pormenorizada a história de cada corrida desde 1954, quando quatro entusiastas do desporto automóvel decidiram, numa reunião informal, criar um circuito através da cidade, até ao início dos anos 90 quando o Grande Prémio de Macau já era um dos mais importantes acontecimentos automobilísticos da Ásia e já atraia milhares de entusiastas para verem de perto os maiores corredores mundiais de formula 3.
Esta e outras publicações estão disponíveis para consulta no Centro de Documentação do Museu do Oriente. O Museu tem ainda uma livraria online - http://publicacoes.foriente.pt/ - onde todos os meses podem ser adquriridas um conjunto de obras seleccionadas com 50% de desconto.