segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Henrique Senna Fernandes: 1923-2010 - R.I.P. "Portugal é a minha pátria, Macau a minha mátria"

Com a morte de Henrique Senna Fernandes neste dia 4 de Outubro Macau perde não apenas um filho da terra mas também o que melhor captou a identidade do território no século XX.
Em 1956 (foto de cima e de baixo): professor de História e Filosofia no Liceu de Macau
Final década de 1960: o 4º a contar da esq. Director da Escola Comercial Pedro Nolasco

Na Praia Grande com o Gov. Nobre de Carvalho no final da década de 1960


Dois dos seus livros e na capa do "Ponto Final" de 25 de Junho deste ano



O miúdo que escrevia romances de amor
Como todas as histórias que realmente merecem ser contadas, foi uma história de amor que esteve no início de tudo. Andava no liceu, adolescente, tinha começado então o primeiro ano da década de quarenta do século passado. Ela era “tão bonita, tão realmente bonita”, uma das mulheres mais bonitas de Macau, e ele apaixonou-se. Ao contrário dos filmes, a história não teve um final feliz. “Foram desencontros e mais desencontros, más compreensões” e aquele “amor platónico” nem sequer vivia das palavras, que não se falavam. Mas há um dia no liceu em que desceu do primeiro andar para o rés-do-chão e cruzaram-se. “Deitou-me um olhar rápido, mas tão perturbador. Mas este parvo não fez mais nada, não soube actuar”, recorda. “São esses pequenos desencontros que decidem a vida das pessoas”. Este foi, talvez, o mais decisivo.
As aulas acabavam às 4h30, antes das seis já estava em casa. “Estava tão inspirado, já estava na minha mente fazer uma história. Fui para a sala de jantar, papel branco almaço e lápis, escrevi ‘capítulo primeiro’. E fiz uma história, o meu primeiro volume”. O livro acabou por se perder, juntamente com outros. Da história de amor ficaram as memórias e a descoberta que a escrita pode ser a fuga que leva ao reencontro.
Na verdade, o princípio da história, não a de amor mas a da escrita, começa mais cedo, tinha 11 ou 12 anos. Henrique de Senna Fernandes conta histórias como quem come cerejas, elas vêm todas juntas e só assim fazem sentido. Advogado de formação, curso tirado em Coimbra, foi a escrita que o marcou. Viveu oito anos em Portugal e sobre o país onde ficava a metrópole também escreveu, pois grande era o deslumbramento. Mas foi Macau que passou para os livros, em “Amor e Dedinhos de Pé” e em “A Trança Feiticeira”, entre outros volumes, alguns perdidos, outros editados. Enquanto fala gesticula muito, como se as mãos escrevessem no ar, num escritório da Praia Grande, que noutros tempos “era mesmo a praia grande, o mar chegava aqui”.
Desses tempos vem, então, o princípio da história. Desta vez, não de um desencontro mas sim de um encontro, com um professor da escola primária, do quinto ano, opcional para os alunos que se queriam preparar melhor para o liceu. “Foi decisivo para a minha vida nas letras. Era um profundo conhecedor da língua portuguesa, um homem muito esquisito, que tinha estudado para ser jesuíta, todo ele era jesuíta”. Pelo meio o escritor contextualiza a dificuldade que era, para os miúdos de Macau, com forte influência da língua chinesa, aprender o português que vinha do outro lado do mundo. O drama do jovem Senna Fernandes eram os verbos, com todos os imperfeitos, perfeitos e mais-que-perfeitos que a língua exige na conjugação. “Aprendi os verbos à força, na terceira classe”, recorda. Verbos mais ou menos dominados, a prosa vem pela influência do tal professor, através das redacções.
“Ele tinha um livro chamado Leituras Morais, em que se exaltavam as virtudes e se carregava nos defeitos. Pegava no livro e contava uma história, lendo. Tínhamos que reproduzir a historia à nossa maneira.” A redacção que mudou a forma de olhar as palavras era sobre a inveja. “Escrevi e entreguei. Eu era um dos melhores a português, lia muito desde pequenino, o meu pai incutiu-nos o gosto pela leitura”, explica. Quando viu os traços a vermelho – alguns verbos ainda por apurar – veio a desilusão, que passou, no entanto, depressa. E isto porque, conta, o professor gostou, disse-lhe que ele “tinha ideias, continua”. Foi a “palavra mágica”, que o deixou “radiante”. “Fui para casa, contei aos meus pais, mostrei, fiquei muito contente”. O professor “disse que era preciso ler muito e comecei a ler ainda mais do que lia”.
Os anos que separaram a quinta classe ao encontro no rés-do-chão do liceu foram mais de leituras do que de escritas. Ao primeiro volume, que não foi publicado, “nem podia, era muito infantil”, escrito com 17 anos, seguiram-se muitos, “uns dez no tempo do liceu”. Se o primeiro foi obra de uma paixão, os que se seguiram foram uma fuga à realidade. “A guerra começou na Europa em 1939 mas chegou ao Oriente em 41, quando os japoneses atacaram Hong Kong,” enquadra Senna Fernandes. “O meu pai perdeu a fortuna toda que tinha, ficámos praticamente na miséria. Mas uma coisa foi legada pelos nossos antepassados: um imenso orgulho, que vem da educação que recebi, o orgulho de esconder a miséria e o sofrimento”. E assim foi fugindo para os livros, escrevendo histórias. “Tinha como leitoras as minhas irmãs”.
Seguiu-se Coimbra, os tempos da universidade. As histórias acompanharam-no, arquivadas num baú, que foi para Portugal e voltou para Macau. Destes primeiros escritos, não sobram vestígios. “O baú foi para o meu primeiro escritório, na Avenida Almeida Ribeiro. Deu-se na vizinhança um incêndio e os bombeiros regaram as casas todas, o prédio que ardeu foi o vizinho mas os edifícios eram velhos, a água entrou no meu escritório de tal ordem que o telhado desabou. O baú apanhou água. Quando fui tirá-lo, bem como os livros que lá estavam, já não se aproveitava nada”.
Outras histórias viriam a ser escritas – as que foram publicadas e que inscreveram Senna Fernandes na literatura lusófona. Se nos tempos de Portugal os escritos eram sobre “um Portugal mítico, que não tinha visto ainda”, nos textos redigidos em Macau o amor volta a ser o tema principal. O profundo conhecimento da terra onde nasceu, os passeios com o pai pelas várias cidades que Macau sempre foi, servem de mote a contos e romances, como a história de A-Chan, a tancareira que se apaixonou e teve um filho demasiado louro para ser possível esconder a origem do progenitor. “A A-Chan é, em parte, fruto da imaginação, mas fisicamente existiu”, conta, “porque eu vi-a”. Uma das personagens centrais de “A Trança Feiticeira”, A-Leng, também era real, “era tão bonita”. Adozindo, que com A-Leng vive o amor proibido, “é uma mistura de muitas pessoas, com traços de uns e de outros”.
Nos livros de Senna Fernandes encontram-se, espelhadas nas histórias de amor, as diferenças sociais e preconceitos da época, em que amores vividos entre etnias distintas “eram complicados”. Em Hong Kong “era pior, havia a elite, as pessoas a que hoje chamam eurasianas eram muito discriminadas”. Como a Maria Marinheiro de Macau, filha de um marinheiro que abandonou a descendente, “bailarina de um cabaret que existiu no Porto Interior, chamado O Gato Preto, uma rapariga linda, uma chinesa com traços europeus”, personagem de uma história que o escritor ainda quer passar para o papel.
De regresso às personagens que já ficaram para a história, Henrique de Senna Fernandes explica o processo de construção dos actores dos seus livros. “Fisicamente as personagens existem, ou eram misturas de várias pessoas, depois deixa-se correr a imaginação. Certos factos eram retirados da vida de Macau daqueles tempos”. Uma vida muito mais calma, entre festas em enormes casarões e passeios pelos bairros da cidade, porque o escritor espreitou tudo. De “Amor e dedinhos de pé”, revela a inspiração para a construção de Victorina Vidal, a donzela que não obedecia aos padrões de beleza da época. “Existiu e ela própria sabe que é ela,” ri-se.
A carga autobiográfica também está lá, “pela forma como se sentem as coisas” que surgem nos livros. O Adozindo de “A Trança Feiticeira”, jovem que, por amor, perde a vida confortável que tinha, é a personagem que tem mais de Senna Fernandes, confessa, pela “sua desgraça, porque eu senti muitas vezes o que é a pobreza”.
Do passado para o presente. Henrique de Senna Fernandes tem 83 anos e continua a escrever, embora sem obra que planeie editar em breve. Um manuscrito em que ressuscitou algumas personagens de “Amor e Dedinhos de Pé” perdeu-se “no antigo escritório, no meio daquela papelada toda”. Há um outro livro, “faltam poucos capítulos para acabar mas eu já o estraguei”. Há que o deixar respirar e depois logo se vê, mas fica desde já a fórmula e o conselho: “Pego num papel e escrevo, o primeiro jacto é sempre muito lacunoso, mas é preciso ter aquela base. Depois começo a construir. No entanto, a minha experiência diz-me que não se deve demorar muito a tentar melhorar, porque acabamos por, no fim, estragar o livro”.
Henrique Senna Fernandes diz sentir “um isolamento em Macau” e adivinha-se muita prudência à publicação dos seus escritos actuais. Uma história passada há coisa de dez anos, que diz recordar sem mágoa, está na origem da desmotivação. “Uma das coisas que me quebrou o ritmo foi quando pensei em concorrer com o ‘Amor e Dedinhos de Pé’ a um prémio em Portugal. Numa conversa em Lisboa alguém me disse que dificilmente poderia ser considerado um escritor português, eu sei que quem o disse não teve a mínima intenção de me ofender, foi com boa fé”. Na altura riu-se do comentário, mas não concorreu. Para o então septuagenário que tem Portugal catalogado como “a Pátria e Macau a Mátria”, ficou a certeza de poder dizer que “sim, sou um escritor de Macau”, numa terra pouco pródiga em matéria literária local.
Para o fim fica o amor, o regresso ao amor. Senna Fernandes contempla a beleza com modos de outros tempos, em que “as paixões eram terríveis”, o olhar sorri quando percorre as memórias das mulheres bonitas, dos amores que teve, de outros que imaginou. A história de amor dos 17 anos, a que deu origem à inspiração e ao primeiro volume, teve um segundo capítulo, o final necessário para a vida em paz. Tanto ele como ela já estavam perto dos oitenta, quando finalmente conversaram e compreendeu “perfeitamente os erros” que fez “e, se calhar, ela também”. E porquê o amor, porquê sempre presente? A resposta dá-se em duas frases, de tão simples que é. “O amor e o sexo têm uma influencia enorme na vida de uma pessoa. Praticamos erros imensos, outras vezes é a redenção”.
Texto de Isabel Castro e foto (esta última) de António Falcão - in Tai Chung Pou a 30-09-2007

domingo, 3 de outubro de 2010

Pharol da Guia: desde 24 Setembro 1865

Desde a noute de 24 do mez passado se começou a acender um novo pharol construido na fortaleza de Nossa Senhora da Guia, da cidade de Macau. O pharol está a latitude de 22.º11'N, e na longitude de 113.º33'E, de Greenwich. A elevação da luz é de 101,5 metros acima do nível do mar nas mais altas marés de tempo calmo. A torre do pharol mede 13,5 metros da base à cúpula, tem a forma octagonal e é pintada de branco. A lanterna é vermelha. A luz é branca e rotatoria, fazendo um giro completo em 64" de tempo. Pode ser vista a 20 milhas, em tempo claro. N'esta distancia, a duração da luz é de 6" e a do eclipse dura 54". A 12 milhas, o maior clarão de luz dura 12", e o intervalo do eclipse (de 52") é cortado pelo aparecimento quazi instantaneo, de uma luz mais fraca. (...) Logo que seja possível se publicarão as marcações feitas pelo pharol para demandar o ancoradouro da rada de Macau.
Capitania do Porto de Macau, 2 de Outubro de 1865. José Eduardo Sarnichia, Capitão do Porto.
As duas imagens são do início do século XX. A história deste farol - já com 145 anos - está contada em diversos post's aqui no blog.

Final década 1930

Praia Grande e os trabalhos nos aterros
Juncos e sampanas no Porto Interior

comércio e rua da Felicidade

sábado, 2 de outubro de 2010

Retrato do quotidiano: anos 70

Uma imagem pode valer por mil palavras mas por vezes remete-nos para quantas mais? Foi o que aconteceu com esta fotografia que serviu de capa ao livro "Os 58 dias que abalaram Macau" de José Pedro Castanheira. Retrata uma manifestação naqueles dias 'quentes' de final de 1966 / início de 1967... mas outras 'leituras' surgiram.
Uma delas sugerida por um leitor do blog (Obrigado!) que identificou nesta imagem o néon da Café Ruby na San Ma Lou. Aproveitando a 'onda' publico mais um retrato do quotidiano de Macau na década de 1970 da autoria do meu amigo Luís Machado. Para saber mais sobre o café Ruby clicar neste link http://macauantigo.blogspot.com/2009/03/cafe-ruby-o-cafe-central-de-macau.html
Tenho vindo a adiar este tema, semana após semana, na óptica de me tentar lembrar de ainda mais locais que faziam as nossas delícias nas horas vagas de estudantes, sem ser no campo da bolinha que era o mais natural e recorrente! Eram elas as horas em que tínhamos “shop”, o tal carimbo no livro de ponto que era dado aos Professores faltosos ou retardatários, no Liceu ou como agora dizem os estudantes da Escola Portuguesa, um “furo”!
Os mais crescidos iam para o café “Ruby” (que mal conheci) – onde também tinham acesso aos bilhares vizinhos, nós a “arraia miúda” ficávamos pelas lojas de min e cafés à moda chinesa – O “Infante” ou na do “Atraca” (nem sei bem explicar porque é que se chamava assim!), que ficava ao lado da praça de Táxis na esquina em frente do Colégio de S. José (hoje o edifício Plaza), ou ainda íamos até ao tardoz do edifício da Fazenda (antigo Tribunal) futura Biblioteca Central de Macau, como já uma vez aqui referi, comer o melhor “chü pá pao” da peníssula , visto que na Taipa , ainda hoje o podem fazer na zona velha da Vila, no largo perto da antiga sede da Câmara das Ilhas, também destinada a futuro Museu.
Outro sítio que nos anos 70, fazia as nossas delícias , era o “ prego” no pão do café, Noite e Dia do Hotel Lisboa (e as french toasts!com muito mel por cima!), embora o preço aí já não fosse tão convidativo, para estudantes. Normalmente ocupávamos mais os nossos tempos livres nas máquinas de “flippers” que instalaram num corredor ao lado das pistas de bowling! Jogávamos até elas estalarem e darem-nos um jogo de borla ou então até fazerem “tilt”!
Também não podíamos ficar por muito mais do que 45 minutos que era a duração dos períodos de aulas e dos nossos “shops”!
Para os que fossem filhos de sócios, ainda havia mais um local para “degustarmos” (como hoje se diz no meio dos gastrónomos!) uma boa torrada com manteiga e esta meus amigos ainda sabia melhor pois era creditada na conta do Pai, isto está bem de ver que só podia ser no Clube Militar, onde o amigo Paulo, que estava sempre de serviço ao café, já nos conhecia de gingeira e lá nos atendia sempre com os seus modos muito peculiares e sempre com um sorriso nos lábios!
Era aí que ainda líamos as mais “recentes” da “Bola” da quinzena passada, com muita sorte pois era a mais actualizada possível, para os tempos que corriam. À tardinha fazíamos o mesmo mas no Ténis Civil e aí era o Ah Seng, se bem me lembro, que nos aviava sempre, ou quase sempre, bem disposto, umas coca-colas, saídas daquelas arcas frigoríficas onde se metia um cubo de gelo enorme vindo da fábrica de gelo do Porto Interior e este ia derretento para cima das garrafas! Método bem ambientalista!
Havia sítios, também, que nos eram interditos. Um deles era a esplanada do Solmar, por obviamente, ser o local mais utilizado pelos nossos progenitores e consequentemente, não nos sentir-mos nada à vontade por essas redondezas. Aos fins-de-semana, o Hotel Estoril, era outro dos locais que nos dava imenso prazer frequentar, principalmente, por causa dos chás-dançantes. Podíamos ouvir tocar os nossos amigos e colegas do Liceu, ou de outras escolas, que tinham bandas musicais ou então os já famosos conjuntos da época, que tocavam as nossas músicas preferidas ou seja os êxitos musicais dos Hit Parades!
Artigo de Luís Machado, Secretário-Geral do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Macaenses, publicado no Jornal Tribuna de Macau.

IV Centenário da morte de S. Francisco Xavier

Em 1952 assinalou-se em Portugal e Macau - entre outros locais do então império colonial como Estado da Índia, por exemplo - o quarto centenário da morte de S. Franciso Xavier (1506-1552) ocorrida na ilha da Sanchão, perto de Macau. Em Macau, a emissão de produtos filatélicos como estes postais máximos* foi apenas uma das muitas formas de celebrar a data.


*Postal máximo é uma peça filatélica composta por três elementos em que todos eles se referem ao motivo do selo colocado no cartão: selo, carimbo e postal.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Resumo dos Estabelecimentos commerciaes, chinezes, existentes em Macau, em 13 de Fevereiro de 1896, pela natureza do seu commercio

O “Recenseamento Geral da População da Província de Macau” teve lugar no dia 13 de Fevereiro daquele ano, o primeiro dia do ano novo lunar, altura em que por tradição toda a família se reúne. Constitui uma rica fonte de informação, a maior parte cuidadosamente apresentada por paróquias. Para além dos dados relativos aos fogos, apresenta, de forma pormenorizada, as profissões e taxas de alfabetização por nacionalidades, e um resumo, aqui reproduzido, dos estabelecimentos comerciais. Algumas dessas ocupações, tais como a típica produção de peixe salgado e as várias formas de jogo, ainda persistem em Macau, enquanto outras foram esmorecendo com o tempo. É o caso dos comerciantes de ópio, que empregavam 11% da população activa masculina, e de actividades menos significativas como, por exemplo, a venda de panchões e betele, e a recolha de urina e “matérias fecaes”.
Texto e imagem do Arquivo Histórico de Macau; clicar na imagem para ver em tamanho maior.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Imagens do Anuário de 1927

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Naturalmente tendo sido publicadas no "Anuário de 1927", as fotografias retratam aspectos de Macau nos anos imediatamente antes. Por exemplo, são mostradas duas imagens do edifício do BNU: ainda em obras e depois da inauguração em Outubro de 1926. Já o edifício da Caixa Escolar é de 1925.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hóquei em Campo (década 1950): testemunho de João Bosco Basto da Silva

Por mais estranho que pareça, a modalidade desportiva mais popular entre os macaenses era o hóquei em Campo. Não admira pois que a comunidade macaense praticasse este desporto com tanta dedicação e destreza que fazia frente a qualquer das muitas equipas de Hongkong, inclusivé a sua própria selecção.
Devo acrescentar que nesse tempo, refiro-me à década de 50, os chineses de Macau não praticavam o hóquei, pelo que, reduzido a macaenses, havia apenas duas equipas, a principal e a dos suplentes; e era assim que os praticantes se treinavam, uns com os outros, e daí saía a formação principal que estava sempre pronta para defrontar as equipas de Hongkong. De referir também que na vizinha colónia, havia dezenas de equipas de hóquei devido às inúmeras comunidades de estrangeiros que ali viviam: indianos, paquistaneses, portugueses, holandeses, para não falar dos ingleses que eram os que tinham mais equipas e das mais fortes; desde a Army (equipa representativa do exército inglês estacionado em Hongkong considerada a equipa, na altura, mais forte), a Royal Navy (Marinha), a Royal Airforce (Força Aérea), várias equipas de civis (constituídas por funcionários públicos e privados ingleses a trabalhar na colónia, tanto em Hongkong como em Kowloon), a equipa do Clube de Recreio (formada por portugueses radicados em Hongkong, também considerada uma das melhores equipas e sempre candidata ao título), as equipas indianas e paquistanesas (onde existia, já nesse tempo, uma grande rivalidade entre essas comunidades, ambas também muito fortes), a Ducth H.C. (equipa holandesa formada por comerciantes e funcionários de empresas holandesas, talvez considerada a mais fraca), e outras.
Como em Macau não havia Campeonato, porque só existiam duas equipas, era frequente, e eu diria até que em quase todos os domingos, haver uma partida de hóquei entre a equipa de Hóquei Clube de Macau e uma qualquer de Hong Kong que nos vinha visitar. Os jogos eram no Campo de Tap Seac e não me lembro de ver alguma vez Macau perder com as equipas de Hong Kong; normalmente as que davam mais luta (Army e Recreio) perdiam por pouco, mas com as outras equipas eram sempre cabazadas! Naturalmente que a nossa equipa também visitava frequentemente Hong Kong para jogos de retribuição e convívios sempre muito animados. As únicas vezes que havia mesmo jogos muito renhidos era por ocasião dos Interports entre as selecções das duas cidades e, aí sim, a vitória tanto pendia para um lado como para o outro.
É evidente que, sendo a modalidade tão popular entre os macaenses, a própria juventude escolar também a praticava com a mesma intensidade e dedicação. Foi assim que surgiu, no ano de 1957, o 1º Campeonato Inter-Escolar de Hóquei em Campo com a participação de 3 Escolas Portuguesas: o Liceu (com duas equipas), a Escola Comercial “Pedro Nolasco” e o Seminário de S. José.
Liceu: a equipa vencedora do compeonato inter-escolar de 1957
agachados e da esquerda para a direita: Carlos Alberto Jorge (falecido em Portugal), Severino Silva (Macau), Francisco Rodrigues (Portugal), Jorge Basto da Silva (Macau) e Olavo Bilac (Portugal);
de pé e pela mesma ordem: Bañares (falecido nos Estados Unidos), Generoso Silva (Brasil),
Armando Almeida (Portugal), João Basto da Silva (Portugal), Humberto Barros (Estados Unidos) e Vítor Serra (Portugal).
No seguimento do Campeonato e à semelhança do que acontecia com os seniores, os mais jovens também tinham, como de costume, de enfrentar a Selecção de Estudantes de Hong Kong.

Selecção de Estudantes de Macau
agachados e da esquerda para a direita: Francisco Rodrigues (Liceu – Portugal), Armando Almeida (Liceu – Portugal), José Capitulé (Seminário S.José – Estados Unidos), Sá e Silva (Escola Comercial – Estados Unidos? ) e Jorge Basto da Silva (Liceu – Macau).
De pé e pela mesma ordem: Alberto Valoma (Liceu – Canadá), Rui Aires da Silva (Escola
Comercial – falecido nos Estados Unidos), António Capitulé (Seminário S.José – Estados Unidos), Vitor Serra (Liceu – Portugal), Frederico Cordeiro (Escola Comercial – Macau), João Basto da Silva (Liceu – Portugal) e o Treinador-Seleccionador Dr. João dos Santos Ferreira (já falecido).

Estudantes de Macau e de Hong Kong
A 3ª foto mostra as duas equipas, com a particularidade de Hong Kong ser representada por um grupo de jovens estudantes de várias etnias e nacionalidades, desde ingleses, indianos,
paquistaneses e portugueses a chineses. Gostaria de, a título de curiosidade, lembrar os 2
portugueses que faziam parte da equipa de Hongkong: de pé, à direita do Dr. Santos Ferreira,
António Jorge da Silva (mais conhecido por Toneco, por sinal meu primo e a viver nos Estados Unidos, como arquitecto), e o outro, também de pé, à direita do Alberto Valoma, Alberto Rodrigues (mais conhecido por Tito, julgo que foi médico em Hong Kong e tem casa em Almancil-Algarve); dos restantes está um indiano típico (com um carrapito na cabeça), muito conhecido na altura, Kuldip Sing, e ainda os ingleses Michel Mottu (de pé), Ted Belote e John Bechtel (ambos agachados); dos outros jogadores de Hong Kong, obviamente, já não me recordo.
O resultado desse Interport foi de 4-0 a favor de Macau com golos marcados por Sá e Silva (2), Jorge Silva (1) e Francisco Rodrigues (1).

“Macaenses” de Hong Kong, numa partida realizada em Fevereiro de 1958, que passo a identificar:
agachados e da esquerda para a direita: Kennet Barnes, Luís Cunha, Arnaldo Ribas, Alberto Colaço, Zoé Siqueira, Armando Jorge, Ludgero Siqueira, João Basto da Silva, Arnaldo Couto e Eng. Humberto Rodrigues;
de pé e pela mesma ordem: Josico Rocha, Fernando Nascimento (árbitro), Alexandre Airosa,
Armando Almeida, Ismael Silva, Amadeu Cordeiro, António Capitulé, Lourenço Ritchie, Alberto Valoma, Fernando Marques, Vasco Silva, Rui Aires da Silva, José Capitulé, Lisbelo Luz, Dr. António Rodrigues da Silva e Frederico Nolasco ( árbitro).
A grande curiosidade desta foto é que a maioria dos jogadores que tinham jogado nos campeonatos escolares, estavam agora a jogar já nas equipas seniores: Armando Almeida, Rui Aires da Silva e João Basto da Silva na equipa de Macau; e na equipa dos “Macaenses”, praticamente a totalidade deles, com excepção de Arnaldo Couto.
Mas o facto mais marcante é que, de um ano para outro, houve uma avalanche de emigração de jovens macaenses para o mercado de trabalho de Hongkong – a tal Diáspora Macaense que, infelizmente, foi uma realidade, comprovada aqui pelas duas últimas fotos. De resto, tenho ideia de que esta situação se manteve em força durante toda a década de 50. De Hong ong (onde a maioria deles se empregaram no Banco HKSBC) e passados alguns anos, muitos desses jovens tiveram ainda que se sujeitar a uma segunda emigração para países ainda mais distantes como Austrália, Brasil, Estados Unidos e Canadá.
O resultado deste jogo, que não foi mais do que um salutar convívio entre os próprios macaenses, foi de 5-0 favorável a Macau; nada de extraordinário, atendendo a que a equipa do Clube “Macaenses” tinha acabado de ser constituída e era, como tal, estreante e ainda pouco entrosada na modalidade. Devo acrescentar, contudo, que com o passar dos anos (bem poucos), essa mesma equipa, que passou a participar nos Campeonatos de Hóquei de Hong Kong, chegou a Campeã e ainda se deu ao luxo de fornecer vários dos seus jogadores para representar a vizinha colónia, em variados jogos e torneios internacionais.
Esta sequência que envio agora é verdadeiramente um documento histórico que fala das
dificuldades cíclicas que se viveram em Macau, ao longo dos séculos, por esta razão ou aquela. À fragilidade económica do Território, no entanto, souberam sempre os seus naturais responder com coragem, determinação e espírito positivo. Têm deixado em todos os países que os acolhem o melhor de si e o bom nome da sua terra – Macau.
João Bosco Basto da Silva - Coimbra, Agosto 2010
NA: É mais uma contributo valioso do amigo João Bosco a quem agradeço e um conjunto de documentos inéditos mais uma vez proporcinados pelo blog Macau Antigo.
É favor 'clicar' sobre as fotos para ver em tamanho maior.

sábado, 25 de setembro de 2010

W. H. Auden (1907-1973): viagem a Macau em 1938

O poeta viajante W. H. Auden - visitou 27 países o que para a época é considerável  - inglês (naturalizado norte-americano em 1946) viajou para a China em 1938 e passou por Macau, tendo ficado hospedado no hotel Bela Vista. Ele e Christopher Isherwood (1904-1986) foram desafiados pelos seus editores a escrever um livro sobre o Extremo-Oriente. "A escolha do itinerário ficou ao nosso critério", recordariam mais tarde.
E foi o "rebentar da guerra sino-japonesa que nos fez optar pela China". Saíram de Inglaterra em Janeiro de 1938 para um viagem de seis meses. No final escreveram "Journey to War" editado em 1939 pela Faber & Faber. Às notas de diário de Isherwood foram acrescentados os sonetos de Auden. Um desses sonetos intitula-se precisamente "Macao".
A weed from Catholic Europe, it took root
Between the yellow mountains and the sea,
And bore these gay stone houses like a fruit,
And grew on China imperceptibly.

Rococo images of Saint and Saviour
Promise her gamblers fortunes when they die;
Churches beside the brothels testify
That faith can pardon natural behaviour.

This city of indulgence need not fear
The major sins by which the heart is killed,
And governments and men are torn to pieces:

Religious clocks will strike; the childish vices
Will safeguard the low virtues of the child;
And nothing serious can happen here.

"Erva daninha da Europa católica"... assim começa esta olhar poético de um inglês sobre Macau - que classifica como ''city of indulgence" - no final da década de 1930 onde o jogo e o pecado não são esquecidos. Frontal, de humor, por vezes, sarcástico, Auden foi também libretista de óperas e autor de peças de teatro.
Este seu poema foi reeditado ao longo dos tempos e um crítico literário, George Monteiro (EUA), em 2007, descobriu diferenças face ao original, numa edição de 1976. Veja quais...

A weed from catholic Europe, it took root
Between some yellow mountains and a sea,
Its gay stone houses an exotic fruit,
A Portugal-cum-China oddity.

Rococo images of Saint and Saviour
Promise its gamblers fortunes when they die,
Churches alongside brothels testify
That faith can pardon natural behavior.

A town of such indulgence need not fear
Those mortal sins by which the strong are killed
And limbs and governments are torn to pieces:

Religious clocks will strike, the childish vices
Will safeguard the low virtues of the child,
And nothing serious can happen here.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Henrique Senna Fernandes

Ao longo dos quase dois anos de existência deste blog tenho publicado diversos post's sobre Henrique Senna Fernandes. Numa altura em que a sua saúde está débil - e reactivada a sua memória através de uma solicitação de uma leitora do blog - presto aqui nova homenagem e faço votos para a sua rápida recuperação. A imagem é do Jornal Tribuna de Macau.
Henrique de Senna Fernandes, antigo aluno da Faculdade de Direito, tinha 15 anos quando foi a Cantão e conheceu Mamiu. Ela tinha 18 e ele apaixonou-se. Mas nunca a beijou. Um dia Mamiu disse àquele que havia de se tornar o maior escritor contemporâneo de Macau, que ia partir. O pai tinha-a vendido para Hong Kong onde – depois da invasão japonesa – havia muito trabalho para meninas bonitas de famílias carenciadas. “O mundo desmoronou--se para mim. Tive um grande desgosto. Percebi a vulnerabilidade da mulher”, recorda Senna Fernandes. Este episódio havia de ser o primeiro de uma vida dedicada a amar as mulheres. Na vida e na literatura.
Anos depois, quando foi estudar, Henrique conheceu Coimbra. Foram tempos duros. Queria ter seguido Medicina mas rebentou a Guerra e Henrique já não embarcou para a Universidade. Entretanto passaram 4 ou 5 anos e como queria tirar um curso optou por Direito. Formou-se com 10 valores. “Sofri muito durante aqueles anos, não era o curso que eu queria, nunca pensei que seria tão difícil”, diz enquanto aponta para o diploma na parede com ar de indiferença.
Hoje, aos 86 anos, o autor de “Amor e Dedinhos de Pé”, tem as mãos grossas, com dedos compridos cobertos por uma pele rugosa, engelhada e amarela. Não podia ser de outra forma: nas suas veias misturam-se os sangues português, goês e chinês.
O nome Senna Fernandes é bandeira de uma das mais antigas famílias macaenses, que aqui nasce há mais de dois séculos.
As unhas, cortadas de forma irregular, sobressaem nas suas mãos, expressivas. Têm gestos largos, de contador de estórias. Ainda há pouco tempo Senna Fernandes gostava de descrevê-las como “umas mãos que sabem acarinhar”, mas actualmente Henrique não consegue falar. Recentemente, uma doença tomou-lhe de assalto a garganta. A medicina devolveu--o à vida mas sem voz. E agora são as mãos e os olhos que falam por ele, solidários.
Apesar da doença lhe ter diminuído a carne até aos ossos, o seu rosto é ainda muito agradável. O nariz redondo e achatado arruma-se entre dois olhos doces, profundos e felizes, reflexo de uma vida vivida sem medo. Para além das rugas, por onde se escondem estórias com quase 90 anos, sobressaem as sobrancelhas despenteadas e rebeldes como o homem, que hoje caminha apoiado numa bengala, também já foi. Maria Teresa Ho Heong Sut foi sua mulher durante 40 anos. O seu nome significa “neve perfumada” em chinês. Quem vê fotografias do dia do casamento dos dois percebe porquê. Bonita, elegante, vestida de branco, de braço dado com o homem que acabava de aceitar para toda a vida, parece esconder uma daquelas forças interiores discretas, subtis. É o pró-prio companheiro de toda a vida que reconhece: “era uma rapariga corajosa”.
E era preciso coragem para ser apaixonada por Senna Fernandes. A figura feminina esteve sempre presente na vida do escritor. Na realidade e na ficção. Emocional e apaixonado, ou como descreve o filho Miguel “um amante da vida”, Henrique é um bon-vivant. Ainda pouco tempo antes de perder a voz Senna Fernandes recordou com nostalgia um tempo em que “à tardinha os homens iam admirar as meninas”. Sempre nos jardins, que “são lugares comuns dos poetas e escritores”.
Nos seus romances é à mulher que dedica maior atenção e foram as mulheres que conheceu ou as que se cruzaram por acaso na sua vida que o ajudaram a construir as personagens da sua obra, um retrato fidedigno de Macau do antigamente.
Para além de advogado, Henrique de Senna Fernandes foi também professor, caminho pelo qual enveredou por falta de clientes. Mas foi aí, garantem os antigos alunos, que Senna Fernandes descobriu “a verdadeira vocação”. José Sales Marques, ex-aluno, recorda com um sorriso rasgado que “nas aulas de História de Arte as conversas sobre o Louvre eram ilustradas com descrições das belas francesas que o professor tinha conhecido por lá”. Se lhe pedirem para descrever o antigo professor em poucas palavras a resposta sai-lhe cúmplice:
“É um malandro; mas um bom malandro”. Leonel Alves, deputado, também foi aluno de Senna Fernandes e conta que o docente lhe “ensinou muito e também sobre a vida”. Foi o antigo professor de História que lhe explicou “as artes de fumar um bom charuto”, recorda feliz.
Para além dos livros e das árvores que plantou, quando partir Henrique deixa sete filhos: Cristina, Marina, Miguel, Vasco, Filipe, Nuno e Ana Maria, com apenas 20 anos. O filho Miguel, advogado como o pai, fala de Henrique como “um bom compincha”, mas garante que o escritor “é um homem orgulhoso, de personalidade muito forte”. A fama de mulherengo do pai não parece incomodar o filho. Pelo contrário. Os olhos brilham-lhe quando reconhece que o pai “viveu muito”. Como se estivesse a concluir a ideia do irmão, o filho Miguel acrescenta: “ele educou-nos muito bem, para a cultura, mas também para a vida; ensinou-nos a perceber as pessoas”.
Agora já não são as mulheres, mas a escrita que o prende à vida. Está a terminar o livro “Pai das Orquídeas”. E mesmo frágil e debilitado, garante que há-de arranjar força para o terminar porque a obra não pode ver a luz do dia sem os cinco capítulos que lhe faltam. “Ainda o vou acabar”, assegura, fazendo um esforço imenso para pronunciar as parcas palavras. Só quem não o conhece é que duvida.
Artigo da autoria de Martha Mendes publicado na edição nº 24 da Revista Rua Larga da Reitoria da Universidade de Coimbra, 2009.

Palacete Santa Sancha / Miradouro

Santa Sancha Palace is a mansion in Macau. It was built in 1846 as a private residence by a macanese architect Thomaz de Aquino. Santa Sancha Palace comprises a two-storey building with a symmetrical front. The building is painted red and has white windows. Santa Sancha Palace is surrounded by a European style garden. From the upper floor balcony, one can see Praia do Bom Parto Bay and Taipa Island.
After changing hands a few times, Santa Sancha Palace was acquired by the Portuguese colonial government in 1926, and converted into Governor Artur Tamagnini de Sousa Barbosa's official residence in 1937 and until 1999. The Government House at Santa Sancha is now a state guest house.
No número 6 da Estrada de Santa Sancha fica o palacete com o mesmo nome. Rocha Vieira foi o último Governador dos tempos da administração portuguesa a lá viver. Em 2010 o chefe do executivo da RAEM também decidiu ali fixar a sua morada. Construído em 1846, o Palácio de Santa Sancha está classificado como edifício de interesse arquitectónico. É da autoria do arquitecto macaense Thomás de Aquino. começou por ser uma mansão residencial até que em 1926 foi comprada pelo Governo de Macau. Em 1937 o Governador Tamagnini Barbosa (no seu terceiro e derradeiro mandato) mudou-se para ali pela primeira vez. Até então os Governadores não tinham uma residência própria.
Serve este pequeno texto apenas para dar introdução a um artigo do meu amigo Luís Machado sobre o Miradouro de Santa Sancha...
Actualmente, o miradouro de Santa Sancha será mais um “mira terraços com roupa a secar” do que propriamente um local de bela vista para a baía da Praia Grande ou para a ilha da Taipa como outrora, quando era um local onde pares de namorados trocavam beijos, promessas e muitas carícias. Um local bem romântico e aprazível que a construção civil e os lucros rápidos desfizeram para sempre.
Em tempos idos, era nesse local que fazíamos as nossas pistas de ciclismo ou, como por graça chamávamos, o nosso circuito da Guia privativo para máquinas a pedais.
Pois, com as nossas “potentes” duas rodas, girávamos em contra-relógio naquele pacato local onde não se via vivalma, muito menos circulavam automóveis!
Na verdade, foi uma pena terem autorizado, em finais dos anos 70 (do século passado), os dois ou mais andares, acima da cota do jardim, que vieram a obstruir as lindas vistas que a paisagem naquele sítio oferecia! Era de facto um verdadeiro Miradouro, belíssimo, e em boa verdade se diga, que hoje lhe devia ser retirado esse título, pois os terraços circunvizinhos nada têm de bonito para serem observados, quanto mais mirados!
Bem ao lado deste então dito Miradouro ficava (e fica ainda) o também conhecido bairro das três casas, ou em chinês “sam ka tchün”. Era um “micro” bairro onde viviam seis famílias de funcionários públicos e onde tive o privilégio de morar durante cerca de quatro anos, num amplo rés-do-chão com uma vista maravilhosa para o Rio das Pérolas. Situava-se por cima do antigo Hotel Caravela e da Casa de Lara Reis, hoje a sede da Cruz Vermelha, assim como da residência imponente do Cônsul de Hong Kong (mansão a que o Dr Leal de Carvalho faz referência, nomeadamente à rampa íngreme de acesso onde Irina Ostrakof foi vítima de colapso cardíaco). Este representante da Coroa Britânica muito sofreu nos anos da “guerra do Chau Min” (como assim a apelidou, com muita graça, o nosso querido amigo Alecrim, “guerra’’ esta da qual aguardamos um livro seu, prometido há muito), no pós 123 de 1966, devido aos insultos e provocações de que foi alvo e que o obrigaram a retirar-se para não mais voltar durante muitos e longos anos.
Quando em Setembro de 1967 fomos habitar a casa do meio, a residência do Cônsul, que ficava mesmo por baixo, ainda estava praticamente toda “forrada” a papel com imensos dizeres. Entre eles, distinguiam-se os desenhos dos “Paper Tigers” e coisas do género como os “nossos” guardas vermelhos da revolução cultural de Macau os apelidavam, aos ingleses está claro! Mas, a verdade é que nunca mais o Cônsul foi por aqui visto e a casa ficou totalmente abandonada.
Bem, e a talhe de foice, se repararem, por detrás da colina da Penha está a nascer mais um brutal empreendimento, que não me admira nada que ultrapasse a cota daquela que foi a residência do Bispo de Macau por muitos anos (mas que não é edifício classificado) e a sufoque não tarda muito. Assim sã Macau – Adé Dixit!
Artigo de Luís Machado, Secretario-Geral do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Macaenses publicado no Jornal Tribuna de Macau em 2008

"Macao", de 1952

Diversos posters - Alemanha, Bégica, EUA... - do filme de 1952 "Macao"

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Correio aéreo em 1937

Apesar dos voos inaugurais (e experimentais) terem acontecido em Outubro de 1936, só a partir de 1937 estas ligações aéreas (por hidroavião) entre Macau e o resto do mundo tornaram-se regulares.
Primeiro voo Macau - Hong Kong a 28 de Abril de 1937: carreira regular
21 Abril 1937: primeiro voo para a China da Trans-Pacific Airmail proveniente da rota San Franciso-Macao