domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Antiguidades de Macao"

Sob o título "Antiguidades de Macao" o jormal "O Macaista Imparcial" publicou uma série de artigos da autoria de J. B. de Miranda de Lima, desde o primeiro número e ao longo de várias edições (nº 1, 3 e 6 por exemplo). Os textos eram sobre a história de Macau. O primeiro artigo aborda os primeiros tempos dos missionários jesuítas...
Reprodução dos artigos publicados na edição 1 e 3 do jornal:
D. Belchior Carneiro nomeado Bispo de Nicea em 1558, e Sagrado com este titulo para ir para a Ethiopia, naõ podendo entrar lá, recebeo ordem para passar á China, e ao Japaõ para exercer o cargo de Pastor nestas igrejas erectas de novo, e separadas da Diocese de Malacca, e partio da India para Macaó em Maio de 1568. Aqui exerceo com grande zelo o seu cargo Pastoral; instituio o Hospital de S. Lazaro para os pobres, e a caza da Mizericordia; morreo em 19 de Agosto de 1583, e jaz sepultado no meio da Capella mór da Igreja de SAÕ PAULO em sepultura rasa, cuberto de campa de marmore com epitaphio em Latim.
Em 1685 apportaraõ a Macaó 12 Japoens em uma embarcaçaõ, dizendo que navegando de Yente para Ixe, portos de Japaõ, arrabatados de huma tempestade vierão demandar aquella barra, sem haverem visto outra terra, couza, que parecia incrivel aos intelligentes da navegaçaõ. Derão por novas, que o Imperador do Japão não passava de 40 annos de idade, e que tinha hum filho unico de quinze annos, e que sabendo como havia Christãos no seu Imperio, dissimulava, e não tratava de inquirir delles.
(Continuar-se-ha.)
O Capitaõ deste navio era recebedor dos tributos Imperiaes. Inexplicavel foi o alvoroço, que cauzáraõ os novos hospedes na Cidade de Macáo, pela parte dos seculares taõ dezejosos de se tornarem a introduzir no commercio Japonez, cuja prata era antigamente o nervo principal da sua riqueza, e pela parte dos Religiozos taõ desvelados em acudir ao dezamparo de tantos milhares de Christaõs, que eraõ a flor, e o exemplo de toda esta Igreja Oriental. Discorriaõ, que estes Japoens vinhaõ mandados de propozito a explorar, se havia ainda Portuguezes no Oriente, ou para nos admittirem ao seu commercio, e lançar fora os Hollandezes, ou por algum occulto designio do Jmperador sobre a restauraçaõ do Christianismo. Fundava-se este discurso em ser novidade nunca vista vir-se do Japaõ a Macáo arrojado da furia das tormentas: e no grande desejo, que o Capitaõ mostrava de voltar em vaso Portuguez estando-nos prohibida esta viagem com taõ rigorozos decretos, e de taõ inviolavel observancia, cujas penas se haviaõ de executar em huns e outros. Mas ou elles fossem espias, ou viessem lançados da tempestade, a Cidade os hospedou com extraordinario amor, e magnificencia, e logo se apprestou hum barco, Capitaõ Manoel de Aguiar Pereira, concorrendo os Padres da Companhia com a terça parte dos gastos, para o que foi necessario empenhar a prata da Igreja, e tomar dinheiro emprestado.
Partiraõ em Junho Portuguezes, e Japonezes no barco preparado, e de proposito naõ quizeraõ levar droga alguma, para que se naõ imaginasse, que o interesse do commercio, e naõ a benevolencia da nação, era o unico motivo de tão custozo obzequio. Naõ respondeo o successo ás esperanças, porque chegando a Nangazaquy, antigo theatro de illustrissimos martirios, o Governador da terra tornou a mandar os Portuguezes para Macaó, com ordem expressa de que não intentassem mais aquella viagem.
(Continuar-se-ha.)

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