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domingo, 5 de julho de 2026

"Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques"

C. J. Caldeira assina um artigo sobre Macau na edição nº8 de 1864 do "Archivo Pittoresco: semanario illustrado" (Portugal). É acompanhado de uma gravura da autoria de João Pedrozo com a legenda "Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques".
"A estampa representa a casa e cêrca do sr. Lourenço Marques, em Macau, na qual está a celebre gruta de Camões. O mirante que a corôa divisa-se por entre o arvoredo acima da casa que tem frontão triangular, que é a da residencia do proprietario, cercada de jardins, horta e bosque, que a tornam uma das mais pitorescas da cidade, como se póde julgar pelo desenho.
Ao lado direito se vê parte da povoação chineza de Patane, já fóra dos muros da cidade, proxima da porta de Santo Antonio e da egreja e freguezia da mesma invocação, que ficam na parte occulta á esquerda do espectador.
A casa vasta e elegante, que está á esquerda do desenho, pertence e é occupada por irmãos e outros parentes do mesmo sr. Marques, e foi habitação de seu pae. Atraz d'esta divisam-se em grupo os mastros e velas de algumas embarcações chinezas, que costumam fundear proximo á povoação de Patane, ao sopé do monticulo, e que o circunda quasi todo.
O fundo representa o porto interior de Macau, vendo-se sobre a esquerda a ilha da Lapa, antigamente denominada dos Padres, e mais ao longe as alturas da chamada ilha, ou antes peninsula Heang-shan, d'onde corre um canal ou pequeno braço do rio de Cantão, denominado Passagem de Macau, que vem desembocar no dito porto interior. (...)"
A personagem referida é Lourenço Maria Pereira Marques (1852-1911). Um dos 10 filhos do comendador Lourenço Caetano Marques (1811-1902) e Maria Ana Josefa Cortela Pereira (1825-1901) - que era prima - tendo casado a 7 de Agosto de 1838 tendo ela apenas 13 anos.
Esta era filha de Manuel Pereira, o proprietário da referida casa construída ca. de 1770. Casaram em 1838 pouco tempo depois dos ingleses da EIC terem saído de Macau e daquela propriedade que arrendaram entre 1780 e 1838.
Lourenço Pereira Marques, tal como os irmãos, nasceu na propriedade representada na ilustração. Estudou no Seminário de S. José de Macau e depois foi estudar para Lisboa. Fez a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e depois ingressou na Universidade de Dublin graduando-se em 1877 no College of Physicians and Surgeons e em 1881 no Royal College of Physicians". Fez ainda estágios em hospitais em Londres e em Paris antes de regressar a Macau. No final do século 19 estabelece-se em Hong Kong onde chega a dar aulas a Sun Iat Sen...
Dará um contributo decisivo para o que hoje se conhece como gruta de Camões, nomeadamente mandando construir um busto do poeta.
Em 1885 o governo de Macau comprou a propriedade que pouco depois transformou em jardim público, situação que ainda hoje se mantém.
O médico macaense viria a aposentar-se em 1895 em Hong Kong e regressou a Macau passando a a dar consultas médicas gratuitas à população mais carenciada.
Dono de uma erudição invulgar, reuniu uma vasta coleção de arte chinesa. Em 1899, doou cerca de mil objectos etnográficos e históricos à Sociedade de Geografia de Lisboa. Morreu em 1911 com apenas 59 anos na sua casa sita no Largo de Camões (junto à Casa Garden, portanto). Tal como o irmão nunca chegou a casar. Na toponímia macaense existe a Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques (比厘喇馬忌士街)  - no Porto Interior - em sua homenagem.
Dez anos passado sobre a referida ilustração, em 1874, Macau é assolado por um tufão que deixa uma rasto destruição imenso. A fotografia acima - provavelmente da autoria de Lai Afong - documenta os efeitos na igreja de Santo António e num edifício que Caldeira descreve no artigo de 1864. (assinalei a vermelho). Terá sido demolido posteriormente. Quando o governo de Macau compra a propriedade em 1885 e transforma o espaço num jardim público este edifício já não aparece. Corresponde ao actual Largo/Praça de Camões, à entrada do jardim tendo do lado direito o acesso à chamada Casa Garden.
O edifício denominado Casa Garden remonta a ca. de 1770. Em 1794 é abundantemente registado na primeira embaixada de Inglaterra à China. Por essa altura já o edifício e propriedade envolvente tinha sido arrendado à East India Company que ali colocara a morar os mais altos quadros da EIC. Os restantes viviam em também edifícios arrendados na Praia Grande.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Residência campestre dos governadores"

No final do século 19 Bento da França escrevia assim: "Nos arrabaldes da cidade encontram se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas."
A ilustração reproduz uma fotografia do final do século 19 que mostra o Palacete da Flora. Era aqui a "residência campestre", assim referida porque bastante longe do centro da cidade. Comprado pelo governo na década 1870 era habitualmente usada pelos governadores como residência de Verão. Foi construído originalmente em 1848 pelo Padre Vitorino José de Sousa e Almeida e desenhado pelo arquiteto José Tomás de Aquino. Em redor havia uma extensa área de terreno. Tão extensa que o espaço viria a ser usado como um viveiro de árvores e arbustos. Estão aqui as origens do Jardim da Flora, ainda que numa área muito menor que a original.
O palacete foi destruído em Agosto de 1931, juntamente com várias casas nos arredores, devido a uma violenta explosão num paiol de munições próximo.

sábado, 11 de abril de 2026

Banda de Música no Passeio de S. Francisco e na Flora: 1878

 Publicado na "Parte Não Official" do Boletim Oficial de Macau na época...

Banda de musica da guarnição, destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramar

PROGRAMMA
Domingo, 26 de maio, das 5 ás 7 horas p.m., no passeio de S. Francisco
1º Passo dobrado;
2º Overtura Les Aveugles de Toledo;
3º Mazurka, Les belles Parisienes;
4º Selection Don Pasquale;
5º Quadrilha, das Estradas;
6º Grand Selection "Norma";
7º Polka, La Belle Colete;
8º Hymno de S. M. El-Rei o Sr. D. Luiz I.

Quinta-feira, 30 do corrente, das 5 ás 7 horas p.m., na Flora
1º Marcha;
2º Selection "Gerusalemme";
3º Cançoneta;
4º Valsa, Adagio;
5º Schottisch, La nuit de Noel;
6º 2.º Acto d'Opera burlesca "O Fausto Petiz";
7º Quadrilha;
8º Hymno da carta constitucional.

Em 1878 os concertos da Banda de Música "destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramarn" no Passeio de S. Francisco (perto do atual Clube Militar na altura denominado Grémio) e no Jardim da Flora (ou Flora Macaense como se dizia na época) eram os grandes eventos sociais onde a elite e a demais população se reuniam para ver e ser vista.
O programa revela um gosto musical muito alinhado com o que se ouvia em Paris ou Lisboa na mesma época. Incluía ópera Italiana e Francesa - referências a Don Pasquale (Donizetti), Norma (Bellini) e Les Aveugles de Tolède (Méhul) e danças de salão através das Mazurkas, Polkas, Valsas e Schottisch (Xote),reflectindo um ambiente festivo e sofisticado. O "Fausto Petiz" é uma referência a uma paródia ou versão reduzida da ópera de Gounod, muito comum no teatro de revista e operetas da época.
Ambos os concertos encerravam com hinos patrióticos: o Hymno de D. Luiz I (Hino Real) no domingo e o Hymno da Carta Constitucional na quinta-feira, que era o hino nacional do Reino de Portugal na altura. Os concertos ocorriam das 17h às 19h aproveitando o final da tarde, quando o calor em Macau começava a dar tréguas.
Uma banda desta natureza teria entre 20 a 30 elementos. Não disponho de elementos o possam comprovar mas na época eram habituais terem estes instrumentos: requinta, clarinetes, flautim, flauta, oboé, fagote, cornetins, trompetes, trompas, trombones, bombardinos, tuba, tarol, bombo e pratos.
Palacete da Flora com o coreto (assinalado) nos jardins 
Ilustração por IA a partir de foto da época

Locais:
O Jardim da Flora (macaense) ocupa uma área muito maior do que o actualmente existente, nomeadamente ao longo da Av. Sidónio Pais (que na época se denominava Alameda Vasco da Gama) e Estrada de Ferreira do Amaral. As origens remontam à década de 1850 quando o padre Victorino José de Sousa e Almeida - chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1832 e foi pároco de S. Lourenço de 1842 a 1852 - comprou um extenso terreno e aí construiu um palacete. Documentos da época referem a "horta do padre Almeida". 
Por volta de 1870 o Governo de Macau comprou a propriedade. O palacete foi transformado em residência de Verão do governador e o restante espaço passou a funcionar como jardim e viveiro de plantas. Nos jardins anexo ao palacete havia um coreto, o local provável da actuação da Banda de Música.
Jardim S. Francisco. Fotografia ca. 1870

O "Passeio de S. Francisco" é uma referência ao jardim com o mesmo nome, criado ca. 1865, entre a Rua do Campo (frente ao antigo Convento de Santa Clara) e o Grémio Militar (de 1870). Foi o primeiro jardim público de Macau. Neste jardim também existiu um coreto localizado perto da Rua do Campo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Identificar/Datar uma fotografia antiga

Na falta de elementos que me permitissem identificar/datar esta fotografia procurei à lupa e cheguei à conclusão que se trata da Fonte da Vitória. Com o nº 1 assinalei D. José Manuel de Carvalho, bispo de Macau entre 1897 e 1901. Ao lado, com o nº 2, está Eduardo Galhardo, governador entre 1897 e 1901. Não tendo conseguido identificar o evento que proporcionou a fotografia de grupo, posso garantir que se trata da Fonte da Vitória, uma praça circular com 57 metros de raio inaugurada em 1871 e que fazia parte do complexo mais largado que incluía o Monumento da Vitória, inaugurado pouco tempo antes. Esta fonte foi posteriormente mudada para o Jardim da Flora.
A fotografia de grupo - onde estarão certamente membros do Leal Senado - terá de ser do período entre Março de 1898 (o bispo chegou a Macau no dia 1 desse mês) e Março de 1900 (Galhardo deixou de ser governador no dia 23 desse mês). Talvez um evento relacionado com o IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia que se celebrou em 1898.
Monumento e Fonte da Vitória: foto do início do séc. 20

sábado, 18 de outubro de 2025

Jardim da Flora Macaense

No domingo 26 de março ultimo celebrou se na praça da Victoria a inauguração do monumento que a camara municipal de 1862 propoz se erigisse como recordação de uma das maiores gentilezas que na Asia praticaram os nossos antepas sados. Sabem todos que relembra aquelle padrão o destroço soffrido n'aquelle logar pela guarnição d'uma frota hollandeza que desembarcando na praia De Cacilhas pretendeu em 24 de junho de 1622 invadir esta cidade (...)
Concluida que seja a praça da Victoria adquiriu Macau um notavel embellesamento e pena é que seja tão diminuta a verba votada para obras publicas porque podia esta pequenina mas elegante cidade ser uma das mais bonitas d'entre as portuguezas. O batalhão nacional terminada a ceremonia e feita a devida continencia foi tomar uma refeição no jardim da Flora e adestrou-se de tarde n'um exercicio de fogo. Tem actualmente aquelle corpo uma apparencia que muito diz da boa vontade e exforços dos seus commandante e officiaes que têem por isso merecido os maiores elogios do chefe d'esta colonia. "
in Boletim da Província de Macau e Timor, 8 Abril 1871
Jardim da Flora: ca. 1900 vs ca. 2000

O Jardim da Flora (Macaense) ainda hoje existe mas é apenas uma ínfima parte de uma extensíssima área cujas origens remontam a meados do século 19...
Também conhecido por Jardim Ho Tung, o Jardim da Flora foi originalmente, propriedade do Padre Vitorino José de Sousa e Almeida que ali construiu em 1848 um palacete desenhado por José Tomás de Aquino, arquiteto macaense. Na década de 1870 a propriedade foi vendida ao governo e o palacete passou a ser usado como residência de verão dos governadores de Macau. 
Nas restante área da propriedade. na década de 1880, o agrónomo Tancredo Casal Ribeiro construiu viveiros para várias espécies que viriam ser usadas na arborização da Colina da Guia entre 1883 e 1885. Ao mesmo tempo foi construído o Quartel da Flora.
Já no início do século 20 fruto das obras para melhorar o abastecimento de água foram construídos canais de recolha, reservatórios e outros equipamentos no sopé da colina da Guia sendo o jardim da Flora um dos espaços usados para o efeito. Por esta altura há registo de de Sir Robert Ho Tung ter comprado parte da propriedade tendo posteriormente feito uma doação ao governo. Posteriormente a área envolvente foi usada para albergar a Direção das Obras do Porto (década 1920- ainda hoje se podem ver os símbolos OP 1925) e nos ano seguintes lotes de terreno foram cedidos para a construção de equipamentos como escolas...
A explosão de um paiol de pólvora em 1931 foi mais uma 'machadada' na extensa área paralela à Av. Sidónio Pais e que originalmente se denominava Av. Vasco da Gama tendo entre outros elementos, uma fonte e um coreto.
Em 1959 o espaço foi alvo de obras e aberto ao público com um mini-zoo e outras instalações de lazer.
Actualmente o jardim com quase 20 mil m2 contém um campo de jogos, um parque infantil, um jardim de infância e um espaço reservado a jardim zoológico.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Jardim Municipal da Taipa / Jardim do Carmo

Construído em 1924, o actual Jardim Municipal da Taipa era no início conhecido por Jardim do Carmo, já que se situa em frente à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Avenida de Carlos da Maia. 
A marca identitária deste jardim é um fontanário em forma de cruz fazendo lembras as pétalas de uma flor.  A imagem abaixo mostra isso mesmo e contém a inscrição "1924".
Actualmente uma pérgula situada sobre o fontanário tem várias trepadeiras como a madressilva-do-japão (Lonicera japonica). 
No ponto mais alto do jardim está desde 1999 uma estátua de Luís de Camões.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

quarta-feira, 19 de março de 2025

"Manner of carrying Persons of Rank in China"

"Manner of carrying Persons of Rank in China"/ "Forma de transportar pessoas importantes na China" é a legenda desta ilustração.
Em baixo à esquerda está escrito "Alexander del." - o nome do autor do desenho - e à direita "Engraved by Lydikker" - o nome do gravador da ilustração.
O desenho original é da autoria de George Alexander Cooke (1781 - 1834). A gravura faz parte do livro "A Modern and authentic system of universal geography, containing an accurate and entertaining description of Europe, Asia, Africa, and America being a complete and universal history and description of the whole world, as divided into empires, kingdoms, states, republics".
O livro relata grandes viagens pelo mundo ocorridas até então - Cook, Furneaux, etc.. - e foi publicado em dois volumes em Londres no ano de 1802. E inclui uma descrição da "cave of Camoens" na pág. 398 - num capítulo intitulado Empire of China onde aborda o tema Macau - embora na ilustração não se faça essa referência/identificação.
Poucos anos antes, 1794, já tinha regressado a Inglaterra a primeira missão diplomática inglesa à China, liderada por Lord Macartney e que passou por Macau. Um dos ilustradores oficiais da embaixada foi William Alexander. Entre os muitos desenhos que fez em Macau conta-se precisamente um onde se pode ver a Gruta de Camões na perspectiva apresentada neste livro de 1802 e já antes num dos relatos oficiais da embaixada - livro publicado em 1797 da autoria de George Staunton.
São notórias as semelhanças entre as duas ilustrações. A inclusão dos elementos humanos e da cadeirinha de seda resulta de um trabalho de composição. Repare-se que até o banco onde se pode ver alguém a ler ou a desenhar - do lado direito - está replicado. É muito provavelmente um desenho onde W. Alexander desenhou-se a si próprio. Fez vários...
Arrisco portanto a afirmar que pela primeira vez esta ilustração de George Cook feita há mais de 200 anos é devidamente identificada.

Curiosidade: o pequeno pavilhão chinês no topo do rochedo da Gruta de Camões foi demolido em 1885 quando o Governo de Macau adquiriu a propriedade e depois a transformou em jardim público, o Jardim de Camões, que ainda hoje existe.

domingo, 5 de janeiro de 2025

"Cascata do jardim público, em S. Francisco"

"A cascata do jardim publico, em S Francisco, acha-se já concluida. Ficou graciosa. Hontem - domingo - á hora da musica ja funccionou experimentando-se differentes jogos d'agoa de bonito effeito. Parece porem que não seria mau que os tubos conductores fossem de mais largo diametro para que os jorros da cascata se tornassem mais abundantes. Ouvimos dizer que se farão essas pequenas alterações."
in Boletim da Província de Macau e Timor, 23.3.1868

O jardim foi o primeiro de carácter público da cidade. Remonta a 1860, tinha dois pisos, murete e vários portões de acesso. No postal acima pode ver-se do lado esquerdo o murete do lado da Praia  Grande e um dos portões.
Na edição de 1 de Abril de 1882 do jornal O Macaense menciona-se a cascata do "Jardim Publico".
Os aterros da Praia Grande nas décadas 1920/30 fizeram com que o jardim de S. Francisco deixasse de ser murado junto à linha de costa. 
O chamado pavilhão octogonal ali construído por volta de 1928 para café/salão de bilhar seria comprado na década de 1940 por Ho Yin que transformou o espaço em biblioteca (a estrutura do edifício foi aumentada) e doou ao território. No lado junto à Rua do Campo foi feita uma nova rua, a de Sta. Clara (referência ao convento com esse nome que ali existiu), que vai do Clube Militar até ao Cineteatro e passou a dividir em duas partes o jardim. Ao mesmo tempo a Rua da Praia Grande (só passou a ser avenida na década de 1980) passou a ter um cruzamento com a rua do Campo e passou a ligar, entre outras, com a Estrada de S. Francisco e outros arruamentos novos criados nos aterros.

 

sábado, 25 de maio de 2024

Folheto turístico "Macau Gardens": década 1980

Folheto em inglês dedicado aos jardins públicos de Macau publicado pelo Turismo de Macau na década de 1980
Camões, Vitória, Montanha Russa, S. Francisco, Lou Lim Ioc, Flora, Vasco da Gama e Taipa são os jardins mencionados.

sábado, 3 de fevereiro de 2024

A casa de Lou Cao e Lou Lim Ioc antes de ser jardim público

Nas várzeas do Tao Seac foi construído ca. 1904/6 um edifício com características arquitectónicas únicas no território. Pertencia a Lu Cheok Chin (1837-1906), cidadão chinês também conhecido por Lou Kau ou Lu Cao. Para além da riqueza que possuía era também bastante, instalando-se em Macau por volta de 1870 no Largo da Sé.
Esta nova construção estava implantada numa área de 20 hectares, enorme tendo em conta as reduzidas dimensões de Macau ocupando todo o quarteirão delimitado pela Av. Cons. Ferreira de Almeida, Estrada de Adolfo Loureiro, Av. de Horta e Costa e Rua do Almirante Costa Cabral. Era a casa de campo da família e estava rodeada por um jardim inspirado nos que existiam no sul da China e forma lá contratados os construtores.
Assinalado o coreto com o Pavilhão da Primavera atrás

Entre as características do jardim destacam-se duas portas típicas dos jardins chineses, "Porta da Lua” e "Porta da Jarra", devido ao formato de cada uma; um grande lago, abundante vegetação incluindo bambus, flor de lótus, canforeiras e salgueiros; uma cascata em pedra de lava; a denominada Ponte das Nove Curvas, devido ao seu formato sinuoso; o Pavilhão da Primavera (Chun Chou Tong) e um coreto onde se realizavam espectáculos de ópera chinesa, muito apreciados pelo proprietário. Esta estrutura seria destruída na explosão no Paiol da Flora em Agosto de 1931.
Com a morte Lou Kau em 1906 - naturalizado português por Carta Régia de 11.05.1886 - a propriedade passou para a posse do filho mais velho, Lou Lim Ieoc/Ioc 盧廉若 (1877-1927), que seguiu as pisadas do pai, nomeadamente no número de mulheres, de filhos e nos negócios relacionados com o jogo e o comércio do ópio. Muito prestigiado em Macau, Lou Lim Ioc viria a morrer aos 50 anos em 1927.

Nos anos seguintes, pelas partilhas e desanexações - cedência de terrenos e edifícios à escola Pui Cheng - a área inicial foi sendo diminuída até ficar com pouco mais de um hectare.
Em Maio de 1973 o governo de Macau - Gov. Nobre de Carvalho - adquiriu a propriedade por 2,7 milhões de patacas (Ho Yin era um dos donos) recorrendo a parte do dinheiro a que a STDM estava obrigada em troca do exclusivo da concessão do jogo. No final de 1974, sob gestão do Leal Senado, o jardim abriu ao público com o nome de Lou Lim Ioc, condição que se mantém até hoje.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

"Cadeiras" no Campo de S. Francisco

Notícia publicada na edição de 15.10.1863 do jornal "Ta-Ssi-Yang-Kuo: semanario macaense d'interesses publicos locaes, litterario e noticioso" sobre a colocação de "cadeiras no campo de S. Francisco em todas as tardes de música".
O campo de S. Francisco era uma vasta área plana onde viria a surgir o Jardim de S. Francisco - o primeiro jardim público do território - e o coreto onde as bandas militares tocavam. Mas antes disso acontecer, esses espectáculos ocorriam a céu aberto num terreno descampado, daí a necessidade de criar condições para ali serem colocadas "cadeiras" nos dias de concertos. 
Nests pintura do início do séc. 19 assinalei o Campo de S. Francisco

O programa acima referido é do Verão de 1863 - publicado no Boletim Oficial - e diz respeito à "Banda de Música do Batalhão de Macao".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

A "cascata" do jardim público em S. Francisco

No Boletim da Província de Macau e Timor, de 23 Março 1868, pode ler-se: "A cascata do jardim publico em S Francisco acha-se já concluida. Ficou graciosa. Hontem, domingo, á hora da musica ja funccionou experimentando-se differentes jogos d'agoa de bonito effeito. Parece porem que não seria mau que os tubos conductores fossem de mais largo diametro para que os jorros da cascata se tornassem mais abundantes. Ouvimos dizer que se farão essas pequenas alterações."
Fotografia do final do século 19. Tirada a partir do jardim de S. Francisco.
Ao fundo a baía da Praia Grande (Hotel Boa Vista e Penha, à esquerda).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Brasão no Jardim da Praça do Império

Aqui pelo blogue já em tempos me referi aos 32 "brasões florais" no Jardim da Praça do Império junto aos Jerónimos. 
Actualmente existem em 'versão' calçada à portuguesa. Compostos por cerca de duas mil pedras cada um, adornam o passeio lateral do renovado jardim recentemente inaugurado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

"Arborisação" a cargo das Obras Públicas 1887/1888

No "anno económico de 1887-1888" foram plantadas 3.590 árvores pela "Direcção das Obras Públicas. Horta e Costa era director. Seria depois governador
Entre as espécies plantadas estavam a ficus elastica (árvore-da-borracha, planta da borracha ou falsa-seringueira), ficus retusa (figueira asiática), ficus azederack, saponaria (mocorô, que substitui o sabão), eucaliptos, etc. As zonas que mais árvores receberam foram a "Bella Vista" (na zona da Areia Preta) a colina da Guia e a colina de S. Jerónimo em redor do hospital S. Januário. A Praia Grande, muito fustigada pelo tufão de Setembro de 1874 recebeu 38 árvores. Mais informação sobre o processo de arborização no século 19 aqui.
Dados incluídos no "Relatório do Governador da Província de Macau e Timor 1889-1890," Francisco Teixeira da Silva.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

A "Flora Macaense"

O Jardim da Flora, de estilo europeu, está situado no sopé do Monte da Guia, paralelo à Avenida Sidónio Pais, e é o maior dos jardins de Macau. Começou por pertencer ao Palácio ou Palacete da Flora, uma aristocrática mansão portuguesa que chegou a ser a casa de Verão dos governadores mas cujas origens remontam a 1848 e ao padre Vitoriano José de Sousa e Almeida que nesse ano comprou uns terrenos e pediu ao arquitecto macaense Tomás de Aquino que desenhasse um palacete e foi feito um jardim em redor. Por volta de 1873 o padre vendeu o terreno e o edifício ao governo de Macau.
A imagem acima é de 1874/75 - muito provavelmente da autoria de Lai Afong - vendo-se ao fundo o forte de Mong Ha.
A 13 de Agosto de 1931 uma explosão num paiol situado nas imediações destruiu por completo o palácio e outros edifícios nas imediações, provocando ainda vários mortos e feridos.
No jardim actual a arcada em pedra da entrada foi, em tempos, a casa da guarda do palácio.  Uma das características deste espaço é o pequeno zoo que possui, incluindo um aviário.

Vejamos mais elementos sobre a história deste espaço. Numa edição de 1868 do Boletim da Província de Macau e Timor onde pode ler-se:
"Sabemos que o governo comprou as ruinas de um jardim na estrada do campo outrora chamado Flora Macaense o qual vai ser apropriado com os devidos reparos para jardim botanico e ponto de reunião publica aos domingos. Também nos dizem que vai ali estabelecer-se uma estação de policia e que de policia, e que ha projecto de abrir na frente d'este jardim, uma larga estrada, que atravessando os campos de Mong há, porá este lado do campo em communicação directa com a estrada de Santo Antonio. Igualmente se projecta o reunir a agoa das duas fontes que existem atraz do jardim n'um só deposito publico. (...)"

No mesmo boletim e no mesmo ano, foram publicados - ver acima - um "aviso" e um "annuncio".
Bento da França escreve assim em 1890:
"Nos arrabaldes da cidade encontram-se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residência campestre dos Governadores denominada Palácio da Flora que hoje tem habitação e dependências esmeradamente tratadas."
Em 1895 nas Jornadas pelos Mundo, o Conde de Arnoso - que conheceu o espaço - escreve:
"É deveras bonito o pequeno palácio da Flora, habitação também do governador, e onde se veem, ao lado d'um jardim do estylo de Le Notre, os viveiros d'onde saíram as arvores que actualmente povoam as encostas de Macau."
Curiosidades:
 - A 28 de Março de 1894, uma Portaria Provincial determinou que deixe de ser paga pelo cofre das obras públicas de Macau a despeza ordinaria dos jardins do palacio do governo e do palacio da Flora, quando ali residir o governador.
- Em 1882 foi construído um quartel de polícia nas imediações do Palácio da Flora.

sábado, 1 de outubro de 2022

Campo de S. Francisco: 1857 e 1862

O Jardim de S. Francisco - o mais antigo de Macau - surgiu no final do século 19. Antes, todo aquele imenso espaço era designado por Campo de S. Francisco.
Sobre o ano de 1857 António Marques Pereira refere nas "Ephemerides" que aquele espaço chegou a ser equacionado para ali ser contruído um teatro: "Nos fins de março a commissão pediu ao governo terreno no campo de S. Francisco, perto da rampa que ahi conduz à entrada do quartel, mas foi lhe indeferida a pretensão offerecendo se lhe a cerca do extinto convento de S. Domingos."
Era no Campo de S. Francisco, por exemplo, que actuava* a "Banda de música do Batalhão de Macao" como atesta este anúncio publicado no Boletim do Governo de Macao em Agosto de 1862.
* esta tradição levou a que muitos anos mais tarde ali se construísse um coreto.

"Às 2 horas da tarde só é que a abonançar e concorrer para tal sem duvida alguma a pequena trovoada que se desenhou e que foi sufficiente para a atmosphera da electricidade que a sobrecarregava. Se a chéia que durante o furacão insultou a Cidade não só pelo lado do mar como pelo lado do rio e que chegou em Sm Francisco (campo) até ao portão do Convento de Sta Clara, na linha da praia grande a entrar dentro dos portaes das cazas, saltando as ondas embravecidas aos batentes dos primeiros andares e que no Rio penetrou algumas jardas pelo littoral dentro durașse algumas horas mais augmentando progressivamente como até alli fizera as desgraças a ennumerar seriam ainda maiores nem calcular se podem ao certo os estragos que nos ficariam a reparar. Muitas cazas destelhadas perda de janellas e varandas tôda a muralha da praia grande, de S. Pedro para léste, completamente derrotada e a meia laranja que a alamêda de S. Francisco fazia na extremidade da Fortaleza desappareceu sem deixar vestigios. A muralha para Oeste de Fortim soffreu menos, porem foi abalada e o Forte teve pequena avaria mais pelos altos do que na baze."
Excerto de uma notícia publicada no "Boletim do Governo de Macao" em  Agosto de 1862 referente a um tufão que assolou o território a 26 de Julho desse ano.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

António Estácio: 1947-2022

António Estácio viveu em Macau durante 26 anos. Nasceu em Bissau em 1947 e fez o Curso de Regente Agrícola na antiga Escola Nacional de Agricultura, em Coimbra, tendo sido, após o estágio na II Brigada Técnica do Instituto de Algodão de Angola, colocado na Brigada de Macau da Missão de Estudos Agronómicos do Ultramar. 
Como engenheiro técnico agrário, prestou serviços em vários organismos a que esteve ligado, como os Serviços Florestais e Agrícolas de Macau, que chefiou, e a Câmara Municipal das Ilhas, de que foi vice-presidente. Coordenou a "Semana Verde" e outras campanhas de sensibilização sobre a defesa e valorização das zonas verdes de Macau. Também integrou o Conselho Consultivo do Governador e o Conselho do Ambiente.
Ainda no âmbito da sua especialidade foi colaborador do Museu de Macau; do Projecto Garcia da Orta, da Expo'98; da Editora Verbo, no tocante à flora de Macau; da Universidade de Macau, na elaboração do Dicionário de História de Macau; e da Comissão Territorial para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, como coordenador científico da exposição "A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses". Pelos serviços prestados, recebeu louvores e outras distinções oficiais. Em Macau, foi também presidente da Associação de Patinagem e vogal da direcção do Clube Militar. 
Para além de obra publicada no âmbito da sua formação - Flora da Ilha da Taipa, Monografia e Carta Temática de Macau, Flora da Ilha de Coloane, Dinâmica de Zonas Verdes da cidade de Macau, Jardins e Parques de Macau, etc - escreveu vários livros de índole não técnica, sendo os mais recentes "Nha Carlota, figura esquecida da História Guineense (1871 - 1959)", em 2010, e "Nha Bijagó" (2011).
António Estácio morreu este domingo em Portugal. Tinha 75 anos.
 1993 (1º dia circulação) - Semana Verde 1986 (postal máximo)

domingo, 13 de março de 2022

O Jardim e o Aviário do Sr. Beale.. e ainda um eclipse solar no século 19

Um dos ex-libris de Macau oitocentista foi, a par do Jardim e Gruta de Camões, o famoso aviário exótico do negociante de ópio escocês Thomas Beale, considerado então o homem mais rico do território.
O jardim e aviário da sua residência era de tal forma conhecido que ficou registado em inúmeros relatos de viajantes que passaram por Macau e também em romances.
Não se conhecem registos iconográficos do jardim e aviário de Beale em Macau.
A imagem acima - aviário e jardim -  é de 1844 e foi feita por Jules Itier na China.

Benjamim Videira Pires em "Os extremos conciliam-se" (1988) escreve:
"Habitou mais de 50 anos nesta cidade o grande comerciante Thomas Beale, na famosa Beale's Lane , onde exibia aos turistas um notável aviário de aves raras."
Mas já 100 anos antes as 'estravagâncias' de Beale foram motivo de notícia. Veja-se este artigo no The Chinese Recorder em 1888 que refere um episódio curioso durante um eclipse solar (provavelmente em 1814):
"Up to 1838 Mr Thomas Beale's aviary, of curious and beautiful birds, was one of the principal attractions of Macau. It was a wire house about 40 feet long and 50 feet high, surmounted by a dome and contained a variety of shrubs and even large trees with basket nests. 
The greatest attraction was a living bird of Paradise from the Moluccas which was in the owner's possession eigbteen years also a magnificent peacock from Damaun, besides nearly thirty species of pheasants, among them, the Reeves's pheasant from the north, whose longest tail feathers approach the extraordinary dimensions of six feet forming a magnificent train. 
Four cocks were brought to Canton in 1830 and purchased for 130 also the medallion pheasant with a beautiful membrane of resplendent colors purple red and green large assortment of macaws and cockatoo,s a pair of superb crowned pigeons Goura coronata, several Nicobar ground pigeons, Mandarin ducks with their brilliant and variegated plumage, except during four summer months when changing feathers, and some one hundred and fifty other birds of different sorts.
Mr Bennett tells how during a total eclipse of the sun that feathered colony if not in consternation at the event was exceedingly perplexed at the rapid and untimely termination of the day and all retired supperless to bed they received however a surprise at the briefness of the night for before they could be well asleep the cocks crowed at the reappearance of the sun and all again resumed their daily amusements and occupations.
The Botanic Garden which contained this aviary was also a valuable collection of trees and plants and upwards of 2,500 pots mostly Chinese flowers probably the richest collection of Chinese flowers ever made by any foreigner and has in fact served as the nursery in which some of the rarest productions of China have been prepared for transmission to the west. (...)"

Thomas Beale num quadro da autoria de George Chinnery


O escocês Thomas Beale (1775-1841) - irmão mais novo de Daniel Beale e primo de Thomas Chaye Beale - chegou à China com apenas 17 anos em 1792.
Foi um dos primeiros cinco residentes estrangeiros não oficiais em Cantão em 1796 como secretário do irmão mais velho, que era cônsul prussiano. Thomas mais tarde tornou-se cônsul por direito próprio e serviu de 1798 até pelo menos 1814. Os irmãos eram sócios da Magniac & Co., empresa que negociava com mercadorias como ópio, algodão e chá. O consulado prussiano acabou sendo transferido para a Jardine, Matheson & Co. através de Hollingworth Magniac.
Como não podia residir de forma permanente em Cantão, residia em Macau (de 1791 a 1841) junto à igreja de S. Lourenço. A mansão de Beale no território incluía um jardim com 2.500 vasos de plantas e um aviário que se tornou uma visita obrigatória para os visitantes ocidentais em Macau. 
O aviário de 12m por 15 metros de altura (40 por 20 pés) continha centenas de pássaros de espécies raras oriundas da China, Europa, Sudeste Asiático e América do Sul. A grande atracção era um exemplar da Ave do Paraíso, a Paradisaea minor.
George Vachell, capelão da Companhia das Índias Orientais, descreveu uma visita durante a qual viu cerca de seiscentos pássaros a seu amigo John Stevens Henslow, Professor de Botânica na Universidade de Cambridge e mentor de Charles Darwin. Quando o missionário naturalista George Bennett parou em Macau durante a sua viagem ao Pacífico, o jardim e aviário de Beale causou tal impressão que ele dedicou quarenta e cinco páginas do seu diário de viagem à descrição do seu conteúdo.
A casa foi descrita por um contemporâneo como "uma das melhores das antigas casas portuguesas numa rua estreita conhecida como Beale's Lane".
Sobre o aviário de Beale, o visitante contemporâneo William Wightman Wood escreveu: "em particular, posso mencionar a ave-do-paraíso. Um esplêndido espécime vivo está nas mãos do Sr. Beale quase domesticado. Alimenta-se das mãos de seu amável dono sem medo e parece capaz de ser perfeitamente domesticado e familiar. Este é talvez o único espécime existente atualmente em confinamento." 

John Reeves (1774-1856), inspector do Chá da Companhia das Índias Orientais (1812-1831)´em Cantão, e um naturalista amador, também visitou o aviário de Beale e ficou fascinado...
Harriet Low também o menciona no seu diário. A descrição é extensa. Retirei apenas um excerto sobre a Ave do Paraíso: "He has an aviary filled with the most choice collection of birds. The bird of Paradise he has, wich is by far the most beautiful. You cannot imagine plumage more perfect."
"Depois de oferecer futuros de ópio como garantia para empréstimos em um mercado em queda e investir milhões de dólares em negócios ilícitos no Brasil, ele acabou devendo à Companhia das Índias Orientais cerca de 800.000 dólares. Em 1816 Thomas Beale foi declarado insolvente na "mais sensacional falência da época". 
O corpo de Thomas foi encontrado na praia da Baía de Cacilhas em Janeiro de 1841 após cometer suicídio. Deixou uma carta pedindo perdão a Deus, à família e amigos pelo seu acto de desespero. Está sepultado no Cemitério Protestante, juntamente com o irmão Daniel (1759-1827).
Após a morte terá sido o Sr. Dent a tomar conta da propriedade, incluindo jardim e aviário. Em 1845 muitas das plantas foram levadas para Hong Kong (Green Bank).
Thomas Beale é comemorado com o nome científico de uma espécie de tartaruga do leste asiático, Sacalia bealei.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Novo governador em 1883

Na edição de domingo 18 de Fevereiro de 1883 o jornal O Correio de Macao dava à estampa na primeira página a notícia em jeito de crónica de opinião sobre a nomeação de um novo governador para o território.
Apesar dos receios manifestados pela publicação, na verdade o novo Governador, Tomás de Sousa Rosa, viria a ter um desempenho considerado a muitos níveis como notável.

A 24 de Março de 1883, o Conselheiro Joaquim José da Graça (exonerado em Dezembro de 1882,) entregou o governo ao Conselho Governativo e regressou a Portugal três dias depois. Nessa altura já vinha em viagem rumo a Macau Tomás de Sousa Rosa (1844-1918) que tomou posse do Governo de Macau a 23 de Abril desse ano.
O seu mandato ficaria marcado pela arborização da Colina da Guia e pelo plantar de árvores um pouco por toda a cidade que fora poucos anos antes devastada por um terrível tufão (1874). Podendo ser considerado um percursos das políticas ambientalistas, é também com ele que o governo adquire o Jardim Luís de Camões, propriedade da família Marques, e faz-se o saneamento da insalubre zona da Horta da Mitra*.
Deu ainda especial atenção à ligação de Macau como resto do mundo, nomeadamente com reformas nos serviço de Correio, nomeadamente o correio marítimo e o cabo telegráfico submarino entre Macau e Hong Kong. Foi também no seu governo que foi feito o estudo de Adolfo Loureiro para as obras do Porto, implementou os exclusivos do ópio, sal, carne de porco e de vaca, peixe); e teve uma intensa actividade diplomática. 
Visitou o Japão com as honras de Embaixador Extraordinário de Portugal onde estabeleceu um acordo comercial e representou Portugal na celebração do Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português, em 1887, que confirmou a governação de Macau por Portugal.
Antes do final do seu governo, a 14 de Maio de 1886, ainda visitou Timor, Singapura, Sião (Tailândia) e Hong Kong.
Na toponímia local o seu nome ficou para a posteridade (desde 1887) na Rua de Tomás da Rosa*.
Sousa Rosa em Lisboa, 1910.