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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana (1930)

MACAO. Geog. 
Colonia portuguesa de la costa S. de China (prov. de Kwang-tung) en la desembocadura del Cantón, á 101 km. al SE. de Cantón y á 60 km. al O. de Hong-Kong, en una pequeña península, unida con la isla de Hiang-shan por medio de un pequeño istmo. Las murallas que existían en toda la long. de la frontera, y en cuyas puertas había antiguamente centinelas chinos, están totalmente derruídas. En la península, además de la ciudad de Macao, hay tres ald., á saber: Mong-ha, Patane y Lappa. También pertenecen al dominio portugués las islas Taipa y Colovane [Coloane]. Su extensión total es de 11,75 km², con 78.627 h., de ellos 3.898 portugueses y algunos españoles é ingleses que lo sano del clima atrae de Hong-Kong. Macao perteneció, hasta 1844, al gobierno general de Goa, y forma, desde 1896, un solo gobierno. El comercio, monopolizado por los chinos, es muy importante.

MACAO. (Llamada en portugués Cidade do Santo Nome de Dios de Macao.) 
Geog. Ciudad de la costa meridional de China, correspondiente á la prov. de Kwang-tung y sit., aproximadamente, á los 22º 20' N., al OSO. de Hong-Kong y á unos 100 km. de Cantón. Forma parte de la colonia portuguesa del mismo nombre y se levanta á orill. del estuario del río de Cantón ó de las Perlas, en el extremo S. de una península, cortada por numerosos esteros, que la convierten en isla. La ciudad propiamente dicha cuenta 74.866 h., de los que 3.919 son blancos, entre ellos 3.780 portugueses; 60.057 chinos, y 154 pertenecen á diversas naciones. Se divide en dos barrios, el chino y el europeo, y está rodeada de colinas con fuertes de poca importancia. En el barrio europeo, bien edificado, aunque con muchas pendientes, hay buenas casas con jardines, un paseo llamado Praia Grande, el hospital, el Senado, cinco templos, entre ellos la catedral de San Pablo; varias capillas y un muelle semicircular que mide más de 1 km. En un jardín cercano á la iglesia de San Antonio se encuentra una gruta donde, según la tradición, terminó Camoens sus Lusiadas. El barrio chino es sucio y de calles estrechas, pero muy animado y comercial. La rada, defendida por algunos islotes, tiene muy poco fondo, de manera que los buques de gran porte tienen que anclar á 9 ó 10 km. de la ciudad. El comercio, antes muy importante, ha decaído; se reduce casi todo al de tránsito y está, en su mayor parte, en manos de los chinos. En 1910 se exportaron por él mercancías consistentes en añil, arroz, azúcar, té, seda, etc., evaluadas en 6.707.360 escudos, y se importaron por valor de 7.322.040.

in Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, 1930
Inclui uma fotografia tirada da colina da Guia sobre a Fortaleza do Monte e Porto Interior


Tadução/Adaptação

MACAU. Geogr. 
Colónia portuguesa da costa sul da China (província de Kwang-tung) na foz do Cantão, a 101 km ao SE de Cantão e a 60 km ao O de Hong Kong, numa pequena península, unida à ilha de Hiang-shan por meio de um pequeno istmo. As muralhas que existiam em toda a extensão da fronteira, e em cujas portas havia antigamente sentinelas chinesas, estão totalmente destruídas. Na península, além da cidade de Macau, há três aldeias, a saber: Mong-ha, Patane e Lapa. Também pertencem ao domínio português as ilhas da Taipa e Coloane. Sua extensão total é de 11,75 km², com 78.627 habitantes, dos quais 3.898 portugueses e alguns espanhóis e ingleses que o clima saudável atrai de Hong Kong. Macau pertenceu, até 1844, ao governo geral de Goa e forma, desde 1896, um só governo. O comércio, monopolizado pelos chineses, é muito importante.


MACAU. (Chamada em português Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.) 
Geogr. Cidade da costa meridional da China, correspondente à província de Kwang-tung e situada, aproximadamente, aos 22º 20' N., ao OSO de Hong Kong e a cerca de 100 km de Cantão. Faz parte da colônia portuguesa de mesmo nome e ergue-se à margem do estuário do rio de Cantão ou das Pérolas, no extremo sul de uma península, cortada por numerosos esteiros, que a convertem em ilha. A cidade propriamente dita conta com 74.866 habitantes, dos quais 3.919 são brancos (entre eles 3.780 portugueses); 60.057 chineses, e 154 pertencem a diversas nações. Divide-se em dois bairros, o chinês e o europeu, e está rodeada de colinas com fortes de pouca importância. No bairro europeu, bem edificado, embora com muitas ladeiras, há boas casas com jardins, um passeio chamado Praia Grande, o hospital, o Senado, cinco templos, entre eles a catedral de São Paulo; várias capelas e um cais semicircular que mede mais de 1 km. Num jardim próximo à igreja de Santo António encontra-se uma gruta onde, segundo a tradição, Camões terminou os seus Lusíadas. O bairro chinês é sujo e de ruas estreitas, mas muito animado e comercial. A enseada, defendida por alguns ilhéus, tem pouca profundidade, de modo que os navios de grande calado têm de ancorar a 9 ou 10 km da cidade. O comércio, anteriormente muito importante, entrou em declínio; reduz-se quase todo ao de trânsito e está, na sua maior parte, nas mãos dos chineses. Em 1910, exportaram-se por ali mercadorias consistentes em aniz, arroz, açúcar, chá, seda, etc., avaliadas em 6.707.360 escudos, e importaram-se valores de 7.322.040.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"Única possessão de Portugal na China"

Excertos sobre Macau no  Volume 12. da "Historia universal: Nova ed. vertida da franceza de 1867 acompanhada da versão das citações gregas e latinas, e com alguns accrescentamentos relativos aos feitos dos portuguezes", publicado em 1878 (2ª edição).

Panorama de Macau (Praia Grande) ca. 1870/75

Macau, unica possessão de Portugal na China, está situada no extremo sul oriental do chinez; faz parte da ilha Hiang Chan á provincia de Cantão na entrada do rio do mesmo nome. 
Tem 4 kilometros e meio no sentido N/S desde o forte de S Thiago Barra até á muralha que corta o isthmo, separando o territorio portuguez do imperio chinez; na maxima largura na parte média da peninsula tem 1800 metros; para o S. diminue muito largura a qual não passa de 600 metros em espaço de 1 500. A superficie da peninsula é de 375 ares. A Oeste de Macau fica a montanhosa ilha da Lapa, da qual é separada por um braço do rio de Cantão em 600 a 800 metros de largura. Entre ilhas que ficam ao S. da peninsula notaremos a pequena ilha da Taipa onde ha um forte portuguez e as ilhas de Macarira e Kai Kong, alinhadas no rumo de O.S.O.
A Este da peninsula fica a bahia de Macau - que alli chamam rada - desabrigada dos ventos de N. a E.S.E. -  onde fundeam os navios de maior lotação, em fundo de 6 a 7 metros á distancia de 2 milhas da cidade. Do lado Oeste fica o porto formado pelo canal que communica com o rio Cantão e que apresenta profundidades de metros. A entrada para o porto não tem mais 3 a 3,5 de fundo.
A cidade, edificada na parte meridional da peninsula, tem actualmente mais de 3 kilometros  de extensão, contando com os arrabaldes chins de Patane e da Barra. Os edificios mais notaveis são: Sé, templo moderno, e o palacio do governador. Tem 3 freguezias: Sé, S. Lourenço e Santo Antonio e 3 hospitaes. É defendida pelas fortalezas do Monte e da Guia e pelos fortes de S Francisco e Nossa Senhora do Bom Porto. Na ponta de Cacilhas ha o pequeno forte de D Maria II e no extremo S. da Peninsula o forte de S Thiago da Barra.
A população de Macau compõe-se de europeus, descendentes ou macaistas, parses e chins.
Em 1871 estava esta população dividida da seguinte forma:
Christãos 5 470
Mouros parses 2 535
Chins da terra  53 747
Chins maritimos  10 000 
Total  71 834 
Por muitos annos foi Portugal a unica nação que podia commerciar com a China sendo Macau o unico porto aberto aos estrangeiros adquirindo por essa razão grande importancia commercial. Mais tarde estabeleceram-se os inglezes em Hong Kong e foi a China forçada a abrir ao commercio estrangeiro os portos de Shangai, Ning Pó, Fuchan e Emuy perdendo assim os portuguezes o privilegio de que não tinham tirado o proveito possivel e o commercio de Macau ficou quasi aniquilado, não lhe valendo o decreto de 1845 que franqueou o porto de Macau ao commercio geral.
O commercio restabeleceu-se depois, senão nas mesmas proporções que attingira antigamente, pelo menos em uma escala relativamente florescente, apresentando esta colonia um movimento commercial superior ao das outras possessões portuguezas.
O movimento geral foi o seguinte nos annos abaixo mencionados:
1864: 11 177$000
1865: 11 587$000
1866: 11 806$000 
Vê-se pois que além da elevada cifra a que ascendia o valor da importação e exportação havia uma pronunciada tendencia para o commercio de Macau augmentar quando em 1866 começou de novo a declinar em consequencia do estabelecımento de postos fiscaes chinezes em frente do nosso porto. A decadencia durou pouco. Em 1871 o movimento commercial era de 9.509 0005000 réis e em 1872 subia já a 13.006 000$000 reis. (...)
Os generos principaes de importação e exportação são o chá no valor de 2.000 000$000 réis,  o opio no de 2.500 000$000 réis. O opio importado da India é depurado na cidade sendo depois exportado principalmente para a California. O chá é importado da China e depois de beneficiado é exportado para a Europa. (...)
Ha em Macau um seminario, uma aula de pilotagem, tres escolas primarias para o sexo masculino e uma para o feminino. A frequencia no seminario foi em 1873/1874  de 160 alumnos; a da escola de pilotagem e a de instrucção primaria de 127 alumnos e alumnas.
A guarnição de Macau consta de um batalhão 
mercio de Macau é actualmente exercido pelos ne gociantes chins e por algumas casas estrangeiras
Em 1856 começou a adquirir importancia a emigração chineza que se fazia por este porto e as leis do imperio prohibiam expressamente seus portos. Em 1866 chegou a emigração ao maximo de 24 401 colonos e depois de ter decrescido muito tinha em 1871 subido a 16 518.
Em 1873 foi prohibida pelo governo portuguez a emigração chineza pelo porto de Macau em consequencia abusos praticados pelos engajadores chins. Esta especulação tinha substituido o antigo commercio de Macau e contribuia para a receita do Estado com uma das verbas mais avultadas. Felizmente á custa da emigração augmentou e enriqueceu uma parte da população chineza tendo sido creadas novas relações commerciaes e pôde pôr se em vigor a citada prohibição sem que a por ella determinada abalasse o estado de Macau. (...)
Ha em Macau um seminario, uma aula de pilotagem, tres escolas primarias para o sexo masculino e uma para o feminino. A frequencia no seminario foi em 1873/1874 de 160 alumnos, a da escola de pilotagem de 9 ea de instrucção primaria de 127 alumnos e alumnas. A guarnição de Macau consta de um batalhão de infanteria formado de praças europeas cujo estado completo deve ser de 584 praças mas em 1874 tinha o effectivo de 377. Além d'este batalhão ha um corpo de policia de 200 praças e uma companhia de artilheria.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ernesto Gherzi (1886-1973): o jesuíta cientista

Nascido em Sanremo, Itália, em 1886, Ernesto Gherzi, foi um padre jesuíta que se dedicou à ciência, em especial aos fenómenos meteorológicos. Viveu a maior parte da sua vida na China (a partir de 1910) tendo uma breve passagem por Macau na década de 1950.
Entrou para a Companhia de Jesus em 1903 em França. Enquanto missionário esteve pela primeira vez na China (Shangai) entre 1910 e 1913 onde deu aulas de Física na Universidade de Aurora (dos jesuítas). Em 1916 foi nomeado sacerdote em Inglaterra . Regressou à China em 1920 onde ficou cerca de 30 anos a trabalhar no Observatório de Zikawei. Nomeado responsável pelas secções de Sismologia e Meteorologia, é de destacar o eficiente sistema de aviso de tufões que ele criou, entre outros notáveis contributos que lhe valeram o reconhecimento da comunidade científica.
Nesta área realce para os seus estudos sobre a natureza dos tufões na climatologia da China onde relacionou as previsões meteorológicas com as mudanças ocorridas nas diferentes camadas da ionosfera. Na sismologia foi pioneiro ao estabelecer uma relação entre a origem dos micro-sismos e as oscilação da pressão atmosférica provocada pelas tempestades.

Serviços de Meteorologia na Fortaleza do Monte década 1960

Em 1949, quando regressava de um congresso nas Filipinas, não foi autorizado a entrar na China cujo regime político mudara entretanto com a subida ao poder do partido comunista. Numa primeira fase ficou em Hong Kong sendo depois convidado para reorganizar os serviços de meteorologia de Macau. O Bispo de Macau era Dom João de Deus Ramalho e o Governador de Macau, Albano Rodrigues de Oliveira. Entre 1950 e 1954 viveu no Seminário de São José e trabalhou como director adjunto do Observatório de Macau.
Ernesto Gherzi com o governador Joaquim Marques Esparteiro (1951-56) e a mulher

Publicou algumas obras relacionadas com os fenómenos meteorológicos de Macau e viu ainda editada, porventura a sua obra maior, os dois volumes de The Meteorology of China, mais de 600 páginas, com milhares de dados e dezenas de mapas.
Depois de Macau passou pelos EUA onde deu aulas nas universidades de Saint Louis e Loyola seguindo depois para o Geophysical Observatory of collége Jean-de-Brébeuf, no Canadá, onde estudou a radiação solar, propagação das ondas rádio, ionosfera, entre outras matérias.
Foi membro da Academia das Ciências do Vaticano (1936) e da Academia das Ciências de Lisboa e Nova Iorque. Morreu a 6 de Dezembro de 1973, no Canadá, com 87 anos.

Deixou mais de uma centena de livros e artigos das quais seleccionei alguns sobre Macau:
- The meteorology of China: Serviço meteorológico, Vol. 1 e Vol. 2. Macau, 1951.
- A ionosfera e o tempo (Ionosphere and weather), and, Aguaceiros em Macau durante a monção de sudoeste (Showers at Macao during the S.W. monsoon), Macau, 1952.
- Note on the forecasting of the times of the maxima and minima temperatures and of the lowest daily relative humidity, Macau 1953.


Em Macau, muito provavelmente nas traseiras do Hospital S. Januário.
Foto AJC, Fonds du Père Ernesto Gherzi, s.j.

Nota: O primeiro posto meteorológico de Macau foi criado em 1900 junto à Ermida da Penha. Em 1904 foi transferido para o antigo fortim de S. Jerónimo, localizado nas traseiras do Hospital do Governo/S. Januário. Só na década de 1960 passou para a Fortaleza do Monte.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

The healthiest residence in Southeast Asia

Macao, pronounced Macow, a seaport and Portuguese settlement, China, prov. Quang tong, irregularly built on a high peninsula that terminates the island of Macao to the S and joined to it by a narrow isthmus N from the town. lat 22 10 30 N long 113 32 E.
It occupies a slope gradually descending to the sea backed by a range of lofty hills and having an extensive campo or plain stretching E.
It is nearly surrounded with water and is open to the sea breezes on every side. The houses occupied by the foreign population are large roomy and open and the shops are numerous There are several R. Catholic churches, a senate house in the middle of the town and both a Portuguese and a Chinese custom house; several schools and a female orphan asylum. The quay, or 'Praya Grande', is commodious, forms a pleasant drive and is protected by a battery; several others wall stretching across the isthmus where a guard of Chinese crowning the adjacent heights.
Good water is abundant and the markets are well supplied with meat, poultry, fish, vegetables and fruits of various kinds. The harbour is formed between the peninsula on which the town stands and the large island Twee lien shan to the W; it is narrow at the entrance but has 20 and 21 ft at low water close to Fort St Jago*situated on the E point and from hence along the E shore to the town the depths continue nearly the same.
Macao is considered the healthiest residence in SE Asia. Near it, in a beautiful garden is the grave** of the Portuguese poet Camoens who here composed the Lusiad. The settlement is ruled by a governor aided by an elective senate composed of two judges and three aldermen who preside alternately for a month. The Chinese inhabitants are governed by magistrates of their own.
The settlement is about 8 miles in circuit and its limits landward are defined by a barrier wall stretching across the isthmus where a guard of Chinese is stationed to prevent foreigners from trespassing on the Inner Land.
The Portuguese settled at Macao about the year 1556 when the Emperor of China granted them permission to reside on a rock or peninsula by their stipulating to pay tribute or ground rent and duties on their merchandize a concession said to have been obtained in reward for their having cleared the coast of pirates who infested the mouth of the Canton river. Pop. of the peninsula or settlement nearly 30,000, mostly Chinese. 
in The Imperial Gazetteer: A General Dictionary of Geography, Physical, Political, Statistical  and Descriptive. Walter Graham Blackie, 1855.
* Forte de S. Tiago da Barra
** Gruta de Camões

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

"Handsome well built city"

Excertos obre Macau:

"Heang shan a very large island formed by two branches of the Canton river forms the western side of its main channel and terminates seaward in a small peninsula which contains the Portuguese town of Macao. (...)
Macao, in Chinese Aou mun, 'the entrance to the bay', a Portuguese town, is situated on a small peninsula nine miles in circumference at the southern extremity of a large island Heang shan formed by two branches of the river of Canton. It is a handsome well built city and the population is estimated at between 12,000 and 30,000.
The Chinese government interdicts all communication from Macao with the neighbouring country and a wall is built across the isthmus and closely guarded which no European is allowed to pass.
The peninsula is rocky the cliffs are of various picturesque forms presenting fine views of both sea and land.
A garden and a cave are still pointed out as the haunt of Camoens, the author of the Lusiad. The foreign merchants leave their families here while they can proceed to Canton only for the purposes of trade. Macao is near the sea just within the entrance of the great western channel of the river or gulf of Canton. It had an excellent harbour but the depth of the entrance has decreased to two fathoms and large ships are therefore obliged to lie in the roads which are much exposed."

Publicado em Edimburgo e Londres no ano de 1842 este livro com mais de mil páginas  -System of universal geography, founded on the works of Malte-Brun and Balbi - compila as informações de livros da autoria de Conrad Malte-Brun (1775-1826), jornalista e geógrafo francês e A. Balbi. Inclui referências a 12 mil lugares do mundo.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

"A Town in China"

Macao, a town in China situated at the southern extremity of the estuary of the Choo Kiang or Canton river 22 13 N lat and about 113 E long ,about 80 miles from Canton by sea. It is built on a low sandy promontory stretching southward from the island of Macao, which is separated by a narrow channel from the larger island Kiang shanhien.
The town extends across the central part of the peninsula from the roadstead of Macao on the east to the interior harbour on the west and is somewhat more than half a mile wide in this direction whilst from north east to south west it occupies about two miles.
The streets are regular but mostly narrow. A considerable number houses have been built by the Portuguese and other European inhabitants in the European style, but the greater part are Chinese buildings. There are some churches and convents in the town and also three small fortresses in the neighbourhood. A wall built by the Chinese across the isthmus is carefully guarded by them and the Europeans are not permitted to pass it.
The roadstead of Macao is much exposed to the prevalent gales during the monsoons. The interior harbour is spacious well sheltered and has excellent anchoring ground but being situated out of the route to Canton and open only to the south west it cannot well be used during the south western monsoons. For that reason it is rarely entered by vessels which commonly lie in the harbour called Typa Cabrado which is formed by four small rocky islands lying south of the southern extremity of the peninsula on which Macao is built.
Mapa final séc. 18 (não incluído na obra referida)

This harbour is not large but as these islands are high and enclose it almost completely on all sides it is perfectly safe even during the heaviest gales. The entrance for vessels is from the cast but boats may pass through the northern channel direct to the town which is only about two miles distant.
About 30 miles north cast of Macao farther up the estuary is the rocky island of Lintin on the western side of which is excellent anchor ground where the larger vessels lie to before they proceed to Canton and where an extensive smuggling trade is carried on smuggling trade.
It is commonly supposed that the Portuguese possess the Sovereignty of Macao but that is so far from being the case that they pay a ground rent amounting to 500 taëls per annum and Chinese mandarins inspect periodically the Portuguese forts as well as levy a duty on the Macao shipping.
A civil mandarin called Tso tang resides within the town as governor in the name of the emperor of China he keeps a watchful eye on the inhabitants and communicates information to his superiors. The only privilege which the Portuguese possess is to govern themselves while the Chinese population of the town are entirely under the control of the mandarins. The former including slaves does not exceed 5000 while the Chinese are calculated to be above 30,000. Besides the Portuguese, individuals of other European nations reside in the town especially Englishmen who pass the summer months there and go to Canton in autumn when the vessels arrive.
The trade of Macao was formerly considerable but it has been continually decreasing. The Portuguese are permitted to employ twenty five vessels in this trade but they actually do not possess much more than half that number. The most lucrative branch was the smuggling trade in opium which has almost entirely passed to the island of Lintin.
in The Penny Cyclopaedia, EUA, 1839

quarta-feira, 3 de julho de 2024

"La grande baie de Dona Maria"

Les Portugais donnent le nom de Macao à la petite péninsule qui termine l'ile Hiang Chang, sise à l'embouchure de la rivière de Canton, en face de Hong Kong. La province de Macao se compose seulement de la péninsule de Ngaomen et des deux îles de Taipa et Colovane. La ville de Macao est située dans la péninsule qui a 4400 mètres de longueur sur 1 680 de largeur. Avec les deux îles la superficie totale de la colonie est de 10 kilomètres carrés.
La côte orientale de Macao est très irrégulière et la mer y est presque toujours mauvaise ce qui rend difficile l'abordage des vaisseaux.
Le port intérieur est à l'ouest séparé de l île de Lapa par un petit canal. Au nordest s' ouvre la grande baie de Dona Maria. II et au sud ouest s aperçoit une courbe gracieuse où est située la Praia Grande. La péninsule de Macao est formée de granit quelquefois entre coupé par des couches de spath ou de quartz. Les élévations granitiques que produisent les talus isolés sont au nombre de huit. En haut ces collines on voit les fortins qui défendent la ville. 
On peut diviser ainsi les sai sons de l'année: le printemps mois d'avril à mai; l'été du de juin à septembre; l'automne pendant le mois d'octobre et novembre et lhiver de décembre à mars. Le climat est généralement humide. La température moyenne est de 23,3.
Les tornados de la de Chine causent beaucoup de désastres à Macao. Un des plus violents cyclones qui se soit abattu sur Macao est celui de 1874; il a détruit presque la moitié de Praia Grande.
La population de Macao est de 78627 habitants. Le territoire de Macao étant presque entièrement occupé par la ville; il n y existe pas d'industrie, agricole; presque tous ses habitants sont des commerçants. L'industrie s y développe beaucoup grâce au bon marché de la main d'œuvre chinoise. Une branche importante du commerce de Macao est l'opium. La fabrication de la soie augmente de plus en plus. On y fabrique également des paillassons des feux d artifice chinois et d'autres objets de moindre importance. La pêche y est prospère; elle emploie environ 900 bateaux. Les 8 700 pêcheurs de Macao habitent la ville et les îles de Taipa et Colovane ils vendent leurs poissons sur les marchés de Hong Kong et dans d autres ports de la Chine.
in Revue universelle: recueil documentaire universel et illustré,1898
Tradução/Adaptação:
Os portugueses dão o nome de Macau à pequena península que termina na ilha de Hiang Chang, situada na foz do rio Cantão, frente a Hong Kong. A província de Macau é constituída apenas pela península de Ngaomen e pelas duas ilhas de Taipa e Coloane. A cidade de Macau está localizada na península com 4.400 metros de comprimento e 1.680 metros de largura. Com as duas ilhas a área total da colónia é de 10 quilómetros quadrados.
A costa oriental de Macau é muito irregular e o mar está quase sempre instável, o que dificulta o embarque nos navios.
O porto interior fica a oeste separado da ilha da Lapa por um pequeno canal. Ao nordeste abre-se a grande baía de Dona Maria*. Para sudoeste avista-se uma graciosa curva onde se situa a Praia Grande. A península de Macau é constituída por granito, por vezes recortado por camadas de verga ou quartzo. As elevações graníticas produzidas pelas encostas isoladas são em número de oito**. No topo destas colinas vemos os fortes que defendem a cidade.
Podemos dividir as estações do ano da seguinte forma: Primavera, de Abril a Maio; Verão de Junho a Setembro; Outono durante os meses de Outubro e Novembro e Inverno de Dezembro a Março. O clima é geralmente húmido. A temperatura média é de 23,3 graus.
Tufões vindos da China causam muitos desastres em Macau. Um dos mais violentos que atingiu Macau foi o de 1874; destruiu quase metade da Praia Grande.
A população de Macau é de 78.627 habitantes. O território de Macau é quase inteiramente ocupado pela cidade; não existe agricultura; quase todos os habitantes são comerciantes. A indústria está-se a desenvolver muito graças ao preço barato da mão-de-obra chinesa. Um importante ramo do comércio de Macau é o ópio. A produção de seda também tem vindo a aumentar. Também se fabricam fogos de artifício chineses. A pesca é uma actividade muito próspera lá; emprega cerca de 900 barcos. Os 8.700 pescadores de Macau vivem na cidade e nas ilhas da Taipa e Coloane. Vendem o peixe nos mercados de Hong Kong e noutros portos da China.
* referência à zona da Praia de Cacilhas, no sopé da colina de D. Maria.
** referências às seguintes colinas: Guia 91 m de altitude; Penha 75 m; Barra 74 m; Mong-Ha 63 m; Monte 61,3 m; Ilha Verde 54 m; D. Maria II 51,1 m;  Montanha Russa 27 m.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

O primeiro Observatório Meteorológico

Data de 1861 a criação do primeiro Observatório Meteorológico de Macau. Ficava junto ao então designado Hospital Militar, que juntamente como Hospital da Misericórdia (S. Rafael), eram os dois hospitais do tipo ocidental em Macau. O denominado S. Januário só seria inaugurado em 1874.
"Observações meteorológicas feitas no Hospital Militar de Macau": Agosto 1863

Foi o então cirurgião-mor do território, Dr. Lúcio Augusto da Silva, o responsável máximo pela saúde pública no território, o autor das primeiras observações meteorológicas, como se pode aferir num relatório por ele escrito e publicado em 1866 no Boletim do Governo (de Macau) e na Gazeta Médica de Lisboa. 

"O estudo de todos os phenomenos meteorologicos que tão poderosa influencia exercem nos seres organisados demanda tanta dedicação e trabalho que difficilmente póde ser emprehendido por um só individuo e de modo algum por aquelle que se vê sobrecarregado de outros encargos. Não havendo um observatorio em Macau tive de observar e registar os principaes phenomenos meteorologicos como a temperatura a humidade a pressão atmospherica a chuva e o estado do tempo. Estas observações poderam ser feitas apenas duas vezes no dia. Os instrumentos aferidos pelos padrões do observatorio meteorologico da escola polytechnica de Lisboa, cujas instrucções segui, foram colocados no melhor local de que pude dispor, no hospital militar a poucos metros de altura acima do nivel do mar. Remetti a V. Exa. os mappas meteorologicos mensaes bem como o quadro geral de cada um dos tres ultimos annos. Não são observações completas por faltarem muitos outros dados importantes mas apresentam aquelles a que mais geralmente se attende e a que eu pude dedicar-me.
Antes de apresentar o resumo de todos esses dados e fazer sobre elles algumas considerações direi o que me parece ácerca das quatro estações do anno n'esta localidade. Dependendo as estações da temperatura e esta da circumstancia geometrica que acompanha o movimento da terra em torno do sol é claro que ellas variam em numero e duração em diferentes regiões do globo. As quatro estações como se acham estabelecidas nas latitudes que se comprehendem na zona temperada não duram o mesmo tempo nos paizes proximos dos tropicos e reduzem-se mesmo a duas nos que ficam ao equador e aos polos.
Na pequena peninsula de Macau situada a 22 12 44 de latitude norte, isto é, quasi no tropico de cancer, na zona torrida dá-se a primeira d'estas circumstancias. Os solsticios e equinoxios são para os astronomos os factos que marcam os limites entre as quatro estações do anno. Os meteorologistas porém, tendo em attenção sómente a marcha da temperatura e deixando de parte esta precisão dos dias em que o sol no seu movimento apparente se approxima dos dois limites ao norte e ao sul e passa por duas vezes sobre o equador, comprehendem na primavera março abril e maio, no estio junho julho e agosto, no outono setembro outubro e novembro e no inverno dezembro janeiro e fevereiro.
Fundando-me nos dados meteorologicos obtidos nos tres ultimos annos podia, se me fosse permittido, estabelecer a duração das estações em Macau do modo seguinte: primavera abril e maio, estio junho julho agosto e setembro, outono outubro e novembro, inverno dezembro janeiro fevereiro e março. Parece me isto mais rasoavel sobretudo quando se trata de estudar as doenças, comtudo meteorologistas de primeira plana reprovam como introduzindo confusão na sciencia o crear estações particulares para diferentes regiões do globo. (...)
Temperaturas médias entre 1862 e 1864

sábado, 5 de agosto de 2023

Esboço Geológico: 1944, 1963 e 1992

Esboço Geológico da Província Ultramarina de Macau, M. J. Lemos de Sousa, Macau, Imprensa Nacional, 1963.
Em 1944 J. Carrington da Costa publicou um mapa semelhante num artigo intitulado Geologia da Província de Macau publicado no Boletim da Sociedade Geológica de Portugal.
De uma forma geral, nos dois estudos referem-se: areias de praia; terrenos conquistados ao mar e aterros; areias de duna; sedimentos argilo-arenosos consolidados.
Antes, nos primeiros anos do século 20, Adriano Augusto Trigo também produziu documentação sobre o tema cujos primeiros dados foram sistematizados no final do século 19 por Adolfo Loureiro no estudo sobre as obras do Porto de Macau.
Em 1992 foi publicada a Carta Geológica de Macau por M. L. Ribeiro e J. Pereira, resumida no mapa acima publicado em 2010.

segunda-feira, 6 de março de 2023

The Popular Encyclopedia

Macao, a seaport and Portuguese settlement in southern China at the mouth of Canton river irregularly built on a high peninsula that terminates the island of Macao to the south and joined to it by a narrow isthmus north from the town. It occupies a slope gradually descending to the sea backed by a range of lofty hills and having an extensive plain stretching east. It is nearly surrounded with water and is open to the sea breezes on every side. The houses occupied by the foreign population are large roomy and open and the shops are numerous.
The quay or Praya Grande is commodious forms a pleasant drive and is protected by a battery. The harbour is formed between the peninsula on which the town stands and the large island Twee lien shan to the west Macao is considered the healthiest residence in South east Asia.
Near it in a beautiful garden is the grotto in which the poet Camoens is said to have finished the Lusiad. The settlement is about 8 miles in circuit and its limits landward are defined by a barrier wall stretching across the isth mus where a guard of Chinese troops is stationed to prevent foreigners from trespassing on the Inner Land.
The principal exports are tea, cassia and cassia oil, anise and anise oil and opium. The commerce which is chiefly carried on with Hong Kong, Canton, Batavia and Goa has greatly declined since the opening of the rival free ports and a considerable part of the colonial revenue which amounts to about 75,000 is drawn from a tax on the gambling tables for which Macao is notorious.
It was in 1557 that the Portuguese first obtained permission to form a settlement and to trade at Macao. From 1563 they were required to pay a yearly tribute to the Chinese government and their trading privileges were much restricted till 1844 when they were allowed to carry on commerce with the five ports then open to foreigners. Macao was then declared a free port but the Chinese continue to ignore the territorial claims of the Portuguese. Till 1868 Macao was the seat of an infamous Coolie traffic which was winked at by the Portuguese authorities. In that year the English interfered and since then a check has been put to the worst of the barbarities formerly connected with the traffic. Pop. about 72,000.
in The Popular Encyclopedia: A general dictionary of arts, sciences, literature, Vol. 8, de Charles Annandale. 
Esta enciclopédia começou a ser publicada em Inglaterra no ano de 1817. Tem um total de 14 volumes. Teve várias edições, revistas e aumentadas, ao longo dos anos. Entre as múltiplas ilustrações incluídas, contam-se diversos mapas. No da Ásia, de que apresento apenas uma parte, assinalei a localização de Macau.
Os dado apresentados relativos a Macau indicam que a presente edição é de ca. 1870.
Excerto de um mapa do final do séc. 18
(não incluído na obra referida)
Ao centro a baía da Praia Grande

Tradução
Macau, porto marítimo e assentamento português no sul da China, na foz do rio Cantão, construído irregularmente numa península que termina na ilha de Macau ao sul e ligada a ela por um estreito istmo ao norte da cidade. Ocupa uma encosta que desce gradualmente para o mar, apoiada por uma cadeia de altas colinas e possuindo uma extensa planície que se estende a leste. É quase rodeado de água por todos os lados e está aberto à brisa do mar por todos os lados. As casas ocupadas pela população estrangeira são grandes, espaçosas e abertas e as lojas são numerosas.
O cais ou Praia Grande é amplo, forma um passeio agradável e é protegido por uma bateria/fortaleza. O porto fica entre a península onde fica a cidade e a grande ilha Twee lien shan, a oeste. Macau é considerada a zona mais saudável do Sudeste Asiático.
Perto dela, num belo jardim, encontra-se a gruta onde se diz que o poeta Camões terminou os Lusíadas. O assentamento tem cerca de 8 milhas de circuito e seus limites em direcção à terra são definidos por um muro que se estende pelo istmo, onde uma guarda de tropas chinesas está estacionada (Porta do Cerco) para impedir que estrangeiros invadam o continente chinês.
As principais exportações são chá, cássia e óleo de cássia*, anis e óleo de anis e ópio. O comércio feito principalmente com Hong Kong, Cantão, Batávia e Goa diminuiu muito desde a abertura dos portos francos rivais e uma parte considerável da receita colonial que ascende a cerca de 75.000 é retirada de um imposto sobre o licenciamento do jogo, aspecto pelo qual Macau é bastante conhecido.
Foi em 1557 que os portugueses obtiveram pela primeira vez autorização para constituir povoação e comércio em Macau. A partir de 1563, foram obrigados a pagar um tributo anual ao governo chinês e os privilégios comerciais foram muito restritos até 1844, quando foram autorizados a fazer comércio com os cinco portos então abertos aos estrangeiros. Macau foi então declarado porto franco, mas os chineses continuam a ignorar as reivindicações territoriais dos portugueses. Até 1868, Macau foi a sede de um infame tráfico de cules, que foi ignorado pelas autoridades portuguesas. Naquele ano os ingleses interferiram e desde então foi posta em causa a pior das barbaridades anteriormente ligadas ao tráfico. Pop. cerca de 72.000.
* típica da Ásia, com sabor semelhante à canela.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Macau no "Atlas Geográfico Ibero-Americano": 2ª parte

 Agricultura, Industria e Commercio

Visto a sua pequena superficie não pode a peninsula de Macau ter importancia agrícola; ao norte ha hortas e arrosaes, porém a cidade tem de se abastecer de fora da maior parte dos generos de consumo. Macau é principalmente um centro commercial. Situada na foz do rio de Cantão foi por muito tempo o emporio do commercio chinês mas a concorrencia de Hong Kong, tambem na foz do rio, e a de outros portos veio diminuir a sua importancia commercial; o gradual assoriamento do porto interior tambem a tem prejudicado; ainda é grande o movimento que alli se verifica. É porto franco desde 1845. É frequente dizer-se que a prohibição em 1874 da emigração de culis, que se fazia por este porto para a América e Hawai, veio dar o ultimo golpe na prosperidade de Macau; é certo que aquella prohibição produziu uma grande crise e que muitos macaístas que se occupavam naquelle negocio se retiraram então para outros portos mas não era isto só por si motivo para que a prosperidade de Macau declinasse permanentemente as causas acima foram das que mais para isso concorreram que porém é certo é que a maior parte do commercio se encontra nas mãos dos chinas.
O principal ramo da industria e commercio da cidade é o opio que se importa cru e se exporta  cosido, occupando-se muitos chinas na sua preparação. Tambem ha officinas de manipulação de chá que é exportado para Inglaterra, fabricas de desmoagem de arroz, de sedas, esteiras e especie de estalos. A pesca, muito florescente, occupa centenares de embarcações com milhares de tripulantes. Os pescadores de Macau e das ilhas da Taipa e Coloane abastecem a cidade, a de Hong Kong e outros portos da China. Os principaes artigos do commercio de Macau são arroz, azeite, chá, fio de algodão, opio, peixe salgado e seda. Em 1901 o movimento total de e exportação foi de 31.281,261 patacas
População
Macau é a cidade mais populosa dos dominios portugueses, depois de Lisboa e Porto. Compõe-se a sua população na maior parte de chinas; mas tem, além de bastantes europeus, um elemento proprio e importante de origem portuguesa que constitue uma raça mixta descendente naturaes do reino e orientaes, chinas, japoneses e malaios. São os macaístas a que os chinas chamam nhons, intelligentes, illustrados e activos. Tambem muitos passam parte da vida noutras cidades da China onde se occupam no commercio.
Acham-se  incorporados na raça branca (ver mapa) que indica a população da provincia conforme o recenseamento de 31 de dezembro de 1899.
É importante a população maritima. (...)

Administração
Á administração preside um governador. Divide-se a provincia em o concelho de Macau e concelho da Taipa, comprehendendo o primeiro a peninsula e o outro as restantes possessões. A corporação municipal de Macau tem ainda o nome de Leal Senado; ella mesma administra o concelho da Taipa onde reside porém um administrador que é o commandante militar. Macau é sede de um bispado que comprehende tambem o de Timor. Tem uma comarca, que pertence ao districto da Relação de Nova Goa; para administrar justiça aos chinas ha um Procurador dos Negocios Sinicos.

Excerto retirado do livro "Atlas geográfico Ibero-Americano, Portugal", em espanhol e português, de J. Barbosa de Bettencourt e Benito Chias Carbó, publicado em Barcelona.
A obra foi premiada na Exposição de Cartographia Nacional realizada na Sociedade de Geographia de Lisboa em 1903. Inclui Cartas Chorographicas "cuidadosamente executadas por pessoal technico sob a direcção do Capitão de Engenheiros do Exercito hespanhol, D Benito Chias Carbó" e "Descripção geographica e estatistica das provincias portuguesas da metrópole e ultramarinas indicando o numero de habitantes de cada concelho e cabeça de concelho do reino segundo os resultados do censo de 1900 e seguida de um indice alphabetico de todas as freguesias do reino com indicação da população respectiva."
Outro dos autores foi J. Barbosa de Bettencourt, engenheiro civil, chefe de secção na Direcção Geral da Estatística e Professor do Lyceu Nacional de Lisboa.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Macau no "Atlas geográfico Ibero-Americano": 1ª parte

Situação Geographica
A provincia de Macau é formada pela peniísula de Ngaoman ou Macau na ilha de Ançã Hiang Chan que é uma das que se encontram nas bocas do rio de Cantão na costa da China e pertence na parte chinesa à de Cantão, pelas duas ilhas da Taipa a de Coloane, a de D. João e a parte setentrional de Vong Cam ou da Montanha, todas proximas daquella peninsula, e ao sul della fica situada a provincia. (...)
A península de Macau, com as ilhas da Taipa e Coloane, apresentam uma total de cerca de 10 kilómetros quadrados sendo a da peninsula de 3,23 kilómetros (...)
O comprimento maximo da peninsula é de 4,400 metros e a largura maxima de 1,680 metros. A fronteira corre através do estreito isthmo onde se acha a Porta do Cerco. Com o isthmo acha-se ligada por um dique a frondosa ilha Verde situada no ponto onde mais se alarga o canal a peninsula da banda do poente.
Clima 
O clima da cidade de Macau é bom e salubre. A temperatura media annual é de 23.3, a média das máximas 36.2 a das mínimas 5.2 tendo aquellas chegado a 38.3 e estas descido a 0. A primavera dura alli de abril a maio (...) e o inverno de dezembro a março.
O clima é bastante húmido. A humidade média de 78 a 87 (...) os meses mais húmidos são os de março abril e maio. O numero medio annual de dias de chuva é de 99.6 (...). A época das maiores chuvas é de maio a agosto na monção de sudoeste. (...) Os tufões do mar da China affectam frequentes vezes Macau. Vem quasi sempre em agosto, setembro e outubro mas algumas vezes passam em junho e julho e em novembro São ordinariamente pouco inten sos mas alguns tem causado grandes estragos. O de 1874 foi violentissimo destruindo muitos edificios sobretudo ao longo da Praia Grande e complicou-se com um incendio. Tambem fôra terrrível o de 1831.


Cidade de Macau
Compõe-se a peninsula de uma parte mais larga quadrangular, com duas faces orientadas a nordeste-sudoeste, entre o forte Mong há e a curva de Patane, e entre o forte de D. Maria II e o de S. Francisco, e outra mais estreita, também quadrangular, com as duas faces maiores menos inclinadas sobre o meridiano. A cidade (do Santo Nome de Deus) de Macau occupa a parte mais occidental da primeira e a maior parte da segunda. 
A costa oriental é quasi toda escarpada. A de nordeste forma a enseada de D. Maria II, com praia de areia preta. Ao sul da peninsula, em cujo isthmo se ergue o forte de D. Maria II em frente do qual ha um ilheu, extende-se a praia de Cacilhas; seguem-se varias curvas e pontas até a de S. Francisco sobresaíndo entre as elevações da costa, o monte da Guia.
Em S. Francisco começa a formosa curva da Praia Grande que termina no outeiro do Bomparto. Seguem-se as enseadas do Mainato e do Bispo, no sopé das elevações da extremidade da peninsula.
A costa occidental onde, com excepção da parte do sul, o terreno desce menos bruscamente para o mar, extende-se quasi linha recta até ao angulo de Patane; segue-se uma bahia que contorna a parte mais baixa de toda peninsula e é limitada ao norte pelo dique da Ilha Verde e por esta ilha.
Macau tem dois portos, a leste o da Praia Grande ou rada, desabrigado dos ventos do Norte e és-sueste, onde, pelo pouco fundo, os navios tem de ficar distantes, e a oeste o porto interior ou rio de Macau que é a extremidade de um braço do rio de Cantão, comprehendida entre a cidade e a ilha da Lapa. 
O porto interior acha se muito assoriado. A peninsula apresenta differentes outeiros graníticos, entre os quaes sobresaem o do forte de Mong há (55 m) que domina o isthmo, o da gruta de Camões, sobranceiro a Patane, o da Senhora Guia, junto da costa do nascente que é o mais alto (93 m) coroado por um forte com ermida e farol, o Monte (40 m )sobre que está a cidadella fortaleza de S. Paulo, que domina toda a cidade, o de S. Jeronymo, a Penha ou Outeiro do Bom parto (75 m), ao sul da Praia Grande onde alveja uma ermida e tambem houve um forte, e o outeiro da Barra no sopé do qual está o forte de S. Tiago da banda do poente .
Entre estes outeiros ha terrenos mais ou menos proprios para a agricultura especialmente ao norte.
A ilha Verde tem a forma conica e a elevação maxima de 49 metros. Extende-se a cidade de uma a outra costa em torno dos mencionados outeiros elevando-se por suas vertentes e tocando no mar ao nascente, ao longo da Praia Grande, e ao poente em quasi toda a extensão da peninsula.
É uma das mais formosas cidades portuguesas: o terreno moderadamente accidentado que occupa e contorna com bellos edificios de entre os quaes se destacam muitos de maior vulto e elegancia, o pittoresco dos outeiros e penedos, os arvoredos que entremeiam e enlaçam as  casarias e trepam pelas penhas, do nascente a amplidão do mar, do poente a vista de um bello porto animado pelo movimento de numero embarcações, formam um quadro encantador que se desfruta bem dos outeiros da peninsula. 
A cidade comprehende uma parte que se costuma chamar christã, mas em que tambem residem chinas; o Bazar, principal bairro china e outros que antigamente ficavam fora de portas e hoje estão mais ou menos intimamente ligados com as partes principaes da cidade. O Bazar, onde estão os mercados e que é o centro do commercio dos chinas, com muitas fabricas e estabelecimentos commerciaes, fica entre o porto interior e o Monte: é vasto e tem muitas ruas porém irregulares e muito estreitas e muitos beccos. As condições hygienicas se bem que más são hoje alli um pouco melhores mercê dos esforços do senado e do serviço de saúde. Os outros bairros chineses são o da Barra, o do Tanque do Mainato, con lindas chácaras, o Patane, adiante do Bazar, com grande actividade fabril e commercial, grandes depositos de madeira e vastos estaleiros, comprehendendo além do Patane propriamente dito que é um bairro urbano, as povoações de pescadores de Sanquiú e mais adiante Mong há extendendo se entre esta povoação e a precedente muitas hortas.
A cidade christã contém muitos edificios notaveis. Ao longo da Praia Grande extende-se uma bella avenida ladeada de elegantes predios, muitos delles com grandes varandas ou galerias e com jardins á frente. Na extremidade de nordeste fica o espaçoso Jardim Publico de S. Francisco. Entre as outras vias publicas mais notaveis nomearemos a Avenida Vasco da Gama. São em geral bonitas e largas e muitas casas têm jardins. Do lado do porto interior corre uma extensa linha de caes quasi em recta, sempre animada com o grande movimento commercial que alli se observa.
Os principaes edificios religiosos são a Sé, o paço episcopal contiguo, as igrejas de Santo Antonio, S. Lourenço. S. Lazaro, Santo Agostinho, S. Domingos e Santa Clara; o interessante frontespicio da igreja de S Paulo, destruida por um incendio em 1835 adornado de estatuas de bronze; o vasto edificio do Collegio de S José e a Santa Casa da Misericordia. O grande convento de S Francisco, hoje quartel. A mesma applicação têm os de S. Domingos e Santo Agostinho; no de Santa Clara está um collegio de meninas. 
Os outros edificios notáveis são: o vasto e elegante hospital de S. Januario, hospital civil de S. Rafael, o hospital militar e o de S. Lazaro, o palacio do governo a meio da Praia Grande, o do Leal Senado, o edificio dos tribunaes, o theatro de D Pedro V onde funcciona tambem o Clube Macaense, o elegante Club Militar ao pé quartel de S Francisco e o quartel da policia maritima, vasto, elegante e bem situado, proximo do mar, mas um pouco elevado, do banda do porto interior .
Ha quatro pagodes na cidade, sendo o da Barra e o das Portas do Cerco muito notaveis. O da Barra é o mais antigo, entrando o porto e passado o forte de S Tiago, vêem-se as suas construcções a subir pela encosta com escadarias e capellas no meio de frondosas arvores; o das Portas do Cerco, que é o segundo em antiguidade é o mais grandioso e rico; tambem o rodeiam bellos arvoredos. 
Nos arrabaldes ha boas quintas. Os governadores tem uma residencia campestre, o palacio da Flora. O jardim da gruta de Camões, hoje propriedade do Estado, é muito bello e pittoresco, a embora sem fundamento historico que suppoe ter o poeta preferido aquelle sitio e ter composto parte dos Lusíadas concorre para manter mais vivo na cidade o culto do grande epico associando a sua memoria a um logar formoso e aprazível.
Macau tem um lyceu nacional, uma imprensa nacional, com escolas annexas, um collegio de meninas denominado de Santa Rosa de Lima e o Collegio das Missões de S. José.
Continua...

domingo, 22 de maio de 2022

Macau visto por um estrangeiro em 1836: parte I

Para o post de hoje seleccionei alguns excertos (e respectiva tradução/adaptação) de "The Stranger in China: Or, The Fan-qui's Visit to the Celestial Empire in 1836-7", da autoria de Charles Toogood Downing, publicado nos EUA e Inglaterra (vários volumes) em 1838.
É um dos relatos mais detalhados da China e de Macau da primeira metade do século 19.
A obra incluir algumas ilustrações, incluindo uma intitulada "Harbour of Macao" / "Porto de Macau" (na época era a baía da Praia Grande). Os "egg-boat" /tancares de Macau ilustram a capa de um dos volumes.
Charles Downing Toogood, membro do Royal College of Physicians, foi médico oficial a bordo de um navio comercial em 1836 tendo residido em Cantão durante seis meses no período imediatamente anterior à Primeira Guerra do Ópio. O seu testemunho é a vários níveis notável. O título da obra pode traduzir-se assim: "Um estranho na China, ou a visita de um estrangeiro (fan-qui) ao Celeste Império (China) incluindo uma visão dos costumes, leis, religião, comércio e política dos chineses e o estado actual da sua relação com a Grã-Bretanha."
A visita a Macau é de curta duração. O autor refere a estadia num hotel na Praia Grande, a Gruta de Camões, o aviário do Sr. Beale, aspectos da história e geografia do território e menciona o facto de na altura viver em Macau o pintor George Chinnery. Charles visitaria Macau noutras alturas incluindo uma em que assiste a uma peça de teatro inglesa - onde Chinnery participa - e dá conta do quanto a cidade se transformava com a chegada dos estrangeiros oriundos de Cantão. Estes não podiam viver na China o ano inteiro pelo que passavam cerca de seis meses em Macau, durante a Primavera e o Verão.
Volume 1 da versão britânica publicada em Londres em 1838 com o "tancar de Macau"


Macao is first seen over a spit of land which forms the outer boundary of the harbour. Before rounding this point you have a full view of the place which bears some resemblance to an amphitheatre and strikes the eye of the stranger as one of surprising beauty. The country is broken into small hills which slope down almost to the water's edge. A handsome row of houses is built at the bottom of the small round bay with a parade in front of it embanked with stone against the encroachments of the sea. This is interrupted once or twice by granite quays with steps leading up to the top of the bank. Behind the terrace the houses are built upon the steep sides of the hill and as nearly the whole of them are seen at a little distance they appear jumbled together and placed one on the top of the other. The variety of architecture adds to the singularity plain and simple gable ends are mixed up with the of steeples and light and airy summer houses. Where the mass of buildings decreases to form outskirts or suburbs of the town it is flanked on right by a very handsome church and beyond that fort on the top of the cliff. On the left rises a and separate hill on the summit of which is a Portuguese nunnery while beneath it at the extreme end the semicircle is placed a castle which protects the entrance of the inner harbour. On our approach the opposite shore of the oval basin broken into numerous little hillocks was thrown into great variety of shade and tint by the setting sun the smooth sheet of water embraced in this manner by the land numerous small Chinese craft were hanging by their cables while minute egg boats were plying between them and the shore. Our boat did not enter the little bay but was anchored at the entrance as much out of sight as possible. The old pilot gave as a reason that his vessel drew three feet of water and on that account she could not be taken nearer the landing place. (...)
Before the anchor was down a little boat came alongside to carry me to the shore. It was one of the oddest things of the kind ever seen and more resembled a tub than a boat being about eight feet in length and very nearly as broad. Hat bottomed with the gunwale about half a foot out of the water and perfectly straight and wall sided. Craft of this kind are named Tankea or egg house boats because they generally have a round mat cover called a house over them when the name must very well apply They are kept very clean are lined with matting and are each managed by two Chinese girls. (...)

Vista parcial de um mapa de 1835/36 (não incluído no livro)

Macau é avistado pela primeira vez sobre uma ponta de terra que forma o limite exterior do porto. Antes de contornar este ponto tem-se uma visão completa do local que se assemelha a um anfiteatro e chama a atenção do estrangeiro como sendo de uma beleza surpreendente. O território é dividido em pequenas colinas que descem quase até a beira da água. Uma bela fileira de casas é construída no fundo da pequena baía redonda protegida com pedras contra as invasões do mar. A baía é interrompida uma ou duas vezes por cais de granito com degraus que conduzem ao topo da margem. As casas são construídas nas encostas íngremes da colina e, como quase todas são vistas a pouca distância, parecem amontoadas e colocadas umas sobre as outras. A variedade arquitectónica junta-se à singularidade, e as pontas de empena simples misturam-se com o de campanários e casas de veraneio claras e arejadas. Onde a massa de edifícios diminui para formar periferias ou subúrbios da cidade, é ladeada à direita por uma igreja muito bonita (...). 
À esquerda ergue-se uma colina separada no cume na qual se encontra um convento português e por baixo dela no extremo do semicírculo situa-se um forte que protege a entrada do porto interior. Ao nos aproximarmos, a margem oposta da bacia oval, dividida em numerosos pequenos outeirinhos, transforma-se numa grande variedade de sombras e matizes pelo sol poente, o lençol de água liso assim abraçado pela terra, numerosas pequenas embarcações chinesas atracadas com cabos enquanto minúsculos tancares voam entre eles e a costa. 
O nosso barco não entrou na pequena baía, mas ficou ancorado na entrada o mais longe possível da vista. O velho piloto deu como razão que a sua embarcação tinha três pés de calado e por isso não podia aproximar-se da margem. (...)
Antes que a âncora baixasse, um pequeno barco veio até nós para me levar até à praia. Era uma das coisas mais estranhas que já vira e mais se assemelhava a uma banheira do que a um barco com cerca de dois metros e meio de comprimento e quase a mesma largura. (...)  São chamados de tancares ou barcos de casas de ovos porque geralmente têm uma cobertura de esteira redonda chamada casa sobre eles, pelo que o nome se aplica bem. (...)





At present there is a Portuguese judge and a Chinese mandarin in the town to manage each his own people. The inhabitants consist chiefly of these and of English from Canton who spend the summer months here when no business can be transacted. It is particularly the residence of the ladies of the captains of Indiamen and others of the fair sex as it is well known that they are not permitted to go up the river with their husbands. No foreign woman is allowed to enter China. This has been the law for a great length of time and the attempt to break through it has occasioned some of the most serious disputes which the East India Company have ever had with the local authorities. The gentlemen residing in Canton are therefore obliged nolens volens to live in single blessedness or keep their wives at Macao with the comforting hope of seeing them when they can make a voyage of between eighty and ninety miles for the purpose. Many causes have been assigned for this ungallant exclusion. As it was late in the afternoon when we arrived we were informed that a pilot could not be procured that day and it would probably be the same time on the morrow before he and his chop would be ready The chop in this instance means a pass or permit to allow the vessel to proceed up the river but its different meanings on other occasions it would take some time and trouble to enumerate. The only English hotel in the place is large and kept by a man of the name of Marquick who has another still larger in Canton. Most of the male visiters meet here at the table d'hôte and amuse themselves in the evening by playing at billiards, after the Russian fashion.

Atualmente há um juiz português e um mandarim chinês na cidade para administrar cada um  o seu próprio povo. Os habitantes consistem principalmente em chineses e de ingleses de Cantão que aqui passam os meses de verão, quando nenhum negócio pode ser feito, e onde vivem as senhoras dos capitães da Índia e outras do belo sexo, pois é bem sabido que não lhes é permitido subir o rio com seus maridos. Nenhuma mulher estrangeira tem permissão para entrar na China Esta é a lei há muito tempo e a tentativa de violá-la ocasionou algumas das mais sérias disputas que a Companhia das Índias Orientais já teve com as autoridades locais. Os senhores residentes em Cantão são, portanto, obrigados nolens volens a viver em beatitude ou a manter as suas mulheres em Macau com a consoladora esperança de as ver quando puderem fazer uma viagem de oitenta a noventa milhas para o efeito. Muitas causas foram atribuídas para essa exclusão descortês. 
Como já era tarde quando chegamos, fomos informados de que o serviço de um piloto não poderia ser adquirido naquele dia e provavelmente seria no mesmo horário no dia seguinte antes que ele e o carimbo de autorização estivessem prontos. O chop (carimbo) significa um passe que permite que o navio suba o rio, mas seus diferentes significados noutras ocasiões levaria algum tempo e trabalho para enumerar. O único hotel inglês no local é grande e mantido por um homem chamado Markwick, que tem outro ainda maior em Cantão. A maioria dos visitantes do sexo masculino reúne-se aqui e diverte-se à noite jogando bilhar, à moda russa.


On fine clear evenings after sunset some of the gentry of the place chiefly Portuguese dress themselves as for an evening party and promenade on the parade before the houses without hats or bonnets. As they meet each other frequently in walking backwards and forwards little circles are often formed and this gives the whole the appearance of a conversazione while the rich and varied dresses and head gear add considerably to the liveliness of the scene. After walking through the streets which I found to be very steep narrow and roughly paved occasionally interrupted by long flights of steps which were necessary to restore the level I returned to the shore just as the short twilight was terminating. Not wishing to go in immediately I extended my walk round the bank past the church. As I turned the corner of the harbour and was just out of sight of the town I perceived through the obscurity a number of Chinese male and female old and young sitting facing the sea with their legs dangling over the stone bank. They appeared at first as if they were fishing but upon nearer inspection I found that they were merely enjoying the cool evening breeze from the water. As I passed along behind them one by one turned the head and seeing a strange Fanqui so close to them got up when I was gone a little way and made off as quickly as possible. The infection spread for as I went on farther I saw them shudder as I approached then creep slowly past me with every sign of humility and fear and finally scamper away with great expedition. Very soon there was not a Chinaman to be seen. (...)

Nas belas noites claras após o pôr-do-sol, alguns nobres da cidade, principalmente portugueses, vestem-se como para uma festa noturna e passeiam em desfile diante das casas sem chapéus ou gorros. Como eles se encontram frequentemente andando para trás e para frente, pequenos círculos são frequentemente formados e isso dá ao todo a aparência de uma conversa, enquanto os ricos e variados vestidos e acessórios para cabeça aumentam consideravelmente a vivacidade da cena. Depois de caminhar pelas ruas que achei muito íngremes, estreitas e toscamente pavimentadas, interrompidas ocasionalmente por longos lances de escada necessários para repor o nível, regressei à praia no momento em que terminava o curto crepúsculo. Não querendo entrar imediatamente, prolonguei a minha caminhada ao redor da margem passando pela igreja. Quando virei a esquina do porto e estava fora de vista da cidade, percebi através da obscuridade vários homens e mulheres chineses, velhos e jovens sentados de frente para o mar com as pernas penduradas sobre a margem de pedra. A princípio, eles pareciam estar pescando, mas após uma inspeção mais detalhada, descobri que estavam apenas desfrutando da brisa fresca da água da noite. Enquanto eu passava atrás deles um por um virei a cabeça e vendo um estranho Fanqui (estrangeiro) tão perto deles, levantou-se quando eu me afastei um pouco e fugiu o mais rápido possível. A infecção espalhou-se à medida que avançava, vi-os estremecer à medida que me aproximei e, em seguida, rastejar lentamente por mim com todos os sinais de humildade e medo e, finalmente, fugir com grande expedição. Muito em breve não havia um chinês à vista. (...)

The servants at the hotel were all Chinese They were the first that I had seen and certainly they gave me no very favourable idea of their qualifications. No person but a resident in China attempts to speak the language of the country therefore your comfort entirely depends upon the knowledge these people have of yours. In Macao they pretend to understand Portuguese and English but if we may judge by analogy the former must be spoken most barbarously. The conversation between the Chinese and the English is sometimes extremely ludicrous when we compare the sound of the words with the gravity and importance of the persons who utter them It would appear as if the three languages which they are obliged to use were so mixed up in their minds that it was altogether impossible to se parate them. Accordingly they treat you to a beautiful mixture of English Portuguese and Chinese with the words lengthened out by a great number of vowels to make them come as near as possible to their own. This drawling manner of pronunciation is very disagreeable when used by the men but with the women it sounds very well as they have remarkably musical voices. One of the waiters at the hotel a young man no women being employed by foreigners in their houses was dressed in rather a peculiar manner about the head Instead of the hair being shaved in front he had it cut round the top of the forehead about an inch and a half in length. All the other part was turned as usual and plaited down the back. This thin semicircular ridge of hair was then made to stand bolt upright and as each hair was separate and as stiff as a bristle the whole looked like a very fine toothed comb turned upwards instead of downwards. This I imagined to be the usual way of dressing the head by the single unengaged youths and of course must be very attractive. These men are considered superior to the fishermen we have had to do with lately and therefore dress rather better. (...)

Os empregados do hotel eram todos chineses. Foram os primeiros que vi e certamente não me deram uma idéia muito favorável de suas qualificações. Nenhuma pessoa, exceto um residente na China, tenta falar a língua do país, portanto, seu conforto depende inteiramente do conhecimento que essas pessoas têm do seu. Em Macau eles fingem entender português e inglês, mas se podemos julgar por analogia, o primeiro deve ser falado da forma mais bárbara. A conversa entre os chineses e os ingleses é às vezes extremamente ridícula quando comparamos o som das palavras com a gravidade e a importância das pessoas que as pronunciam. Parece que as três línguas que eles são obrigados a usar estão tão misturadas suas mentes que era totalmente impossível separá-los. Assim, eles tratam você com uma bela mistura de inglês, português e chinês, com as palavras alongadas por um grande número de vogais para torná-las o mais próximas possível das suas. Essa maneira arrastada de pronúncia é muito desagradável quando usada pelos homens, mas com as mulheres soa muito bem, pois elas têm vozes notavelmente musicais. Um dos garçons do hotel, um jovem sem mulheres empregadas por estrangeiros em suas casas, estava vestido de uma maneira bastante peculiar sobre a cabeça. e meio de comprimento. Toda a outra parte foi virada como de costume e trançada nas costas. Este fino cume semicircular de cabelo foi então feito para ficar em pé e como cada cabelo era separado e tão duro quanto uma cerda, o todo parecia um pente de dentes muito finos virado para cima em vez de para baixo. Isso eu imaginei ser a maneira usual de vestir a cabeça pelos jovens solteiros desengajados e, claro, deve ser muito atraente. Esses homens são considerados superiores aos pescadores com os quais temos lidado ultimamente e, portanto, vestem-se bastante melhor. (...)
Continua...