terça-feira, 9 de junho de 2026

Antigos "Cruzeiros"

A presença de cruzeiros (grandes cruzes de pedra ou madeira) no adro ou em frente às igrejas é uma tradição profundamente enraizada na Europa e muitos países espalharam esse hábito pelos então territórios conquistados um pouco por todo o mundo. Portugal não foi excepção. Em Macau embora muitos já tenham desaparecidos, ainda existem alguns.
Entre os que desapareceram pela voragem do tempo contam-se o do Largo do Senado junto à Igreja de Misericórdia e o que ficava junto à Igreja e Convento de S. Francisco. A cruz é o elemento simbólico do cristianismo. Sendo o seu elemento mais universal assinala o sagrado sobre o profano. Para além da função religioso tinham também um função Social e de identidade, assumindo-se como "ponto de encontro" por excelência de um determinado local. Eram o centro da vida social da aldeia ou vila (em frente à igreja principal) e era ali que se discutiam negócios, que se davam novidades e se tomavam decisões comunitárias.
Entre os cruzeiros que ainda hoje se podem encontrar em Macau estão os do Largo da Sé (embora numa versão moderna pois o anterior estava danificado), junto à igreja de S. Lázaro, da igreja do Carmo (Taipa), Igreja S. Francisco Xavier (Coloane), Ermida da Penha, Igreja de Santo António, etc...
No adro da igreja de Santo António com a inscrição "1638"

O do adro da Igreja de Santo António afere que a construção da igreja na actual localização é datável de 1638, data inscrita no cruzeiro de pedra existente no adro. Embora a primitiva construção seja anterior. É mesmo a mais antiga de Macau remontando ao final do século 16.
A referida construção de pedra e cal e estilo neoclássico sofreu inúmeras remodelações, nomeadamente, em 1810 e 1876

A razão da sua construção resulta da combinação de funções religiosas, sociais e até práticas, funcionando como a sagração do espaço público. O cruzeiro funcionava como uma extensão do altar para o exterior. Marcava o limite entre o mundo profano (a rua) e o mundo sagrado (a igreja). Ao colocar uma cruz na frente do edifício, toda a praça ou adro passava a ser considerada solo sagrado, preparando o fiel espiritualmente antes de ele cruzar o umbral da porta.
Cruzeiros assinalados num 'mapa' do século 17

Muitas vezes, as igrejas eram pequenas demais para acolher multidões em festas populares. Assim os padres pregavam junto ao cruzeiro - púlpito ao ar livre - para que todos na praça pudessem ouvir. Eram também usados em procissões e vias-sacras com uma escala, uma "estação" onde se rezava e entoavam cânticos.
Cruzeiro junto à Igreja/Convento de S. Francisco: pintura 1812

Assumindo a função de protecção espiritual acreditava-se que a cruz protegia a comunidade contra pestes, tempestades e "más energias". Alguns exemplares foram erguidos enquanto "marcos de piedade", fruto de promessas de famílias ricas ou por ordens religiosas (como os Franciscanos ou a Ordem de Cristo) para incentivar a oração dos transeuntes.
Em tempos antigos, os cemitérios situavam-se junto aos adros das igrejas e aí o cruzeiro servia como um monumento central de oração pelas almas ali enterradas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os "religiosos de Santo Agostinho" e os 'frescos' da Ermida da Guia

22 de Agosto de 1589
Os religiosos de Santo Agostinho tomaram n'este dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça, em Macau, que já antes haviam fundado os padres hespanhoes da mesma ordem, os quaes o cederam por determinação d'el rei D. Fellipe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no anno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo.
in Commemorações da historia de Macau e das relações da China com os póvos christãos
Curiosidade:
A ermida da Guia é dedicada a Nossa Sra. das Neves. Durante trabalhos de restauro em 1996 foram descobertos alguns 'frescos', incluindo o desenho de uma águia bicéfala. Ainda hoje continua por esclarecer a origem deste 'fresco'. A águia bicéfala é frequentemente associada à Igreja Ortodoxa ou a impérios do Leste Europeu. No entanto, a sua presença na Capela de Nossa Senhora da Guia pode ser explicada por três hipóteses principais que os historiadores têm debatido:
Hipótese Agostiniana: Esta é a mais provável e encontra paralelo numa pedra gravada com um símbolo semelhante e pode ser visto do antigo Leal Senado. A águia bicéfala é um símbolo da Ordem de Santo Agostinho. Embora a capela não fosse formalmente gerida pelos agostinhos, a influência visual desta ordem na Ásia era imensa no século XVII, e o símbolo representa a elevação espiritual e a visão divina.
União Ibérica (1580–1640): O período em que as pinturas foram feitas coincide com a época em que os reis de Espanha (Habsburgo) também eram reis de Portugal. A águia bicéfala era o símbolo heráldico dos Habsburgos. Apesar de Macau manter a bandeira portuguesa, a presença do símbolo imperial em edifícios daquela época era uma forma de reconhecimento da autoridade monárquica global.
Pista Arménia: C. A. Montalto de Jesus sugeriu a presença de comerciantes arménios em Macau como a causa. Para os arménios, a águia bicéfala é um símbolo nacional e religioso antigo. Provas documentais Montalto admitiu não ter encontrado.

domingo, 7 de junho de 2026

"Leitura" de um dos pavilhões do Templo de A-Ma

Este é um dos vários pavilhões do Templo de A-Ma. À semelhança dos demais a actual configuração remonta a 1828. Para esta 'leitura' subjectiva recorri a ilustrações - aguarelas -feitas por IA e partir de fotografias.

As inscrições são em escrita Lishu (escrita oficial/clerical), o que lhes confere uma aparência mais quadrada e monumental.

1. Dístico da Direita
Transcrição: 春風靜秋水明貢士波臣知中國有聖人伊母也力
Tradução Comentada: "A brisa da primavera é calma e as águas do outono são límpidas. Os oficiais e os súbditos do mar reconhecem que na China existe uma Santa; isto deve-se ao poder de protecção divina da Mãe (Mazu)."

2. Dístico da Esquerda
Transcrição: 海日紅江天碧樓船艘艚涉大川如平地唯德之休
Tradução Comentada: "O sol do mar é rubro e o céu sobre o rio é azul-safira. Grandes navios e embarcações atravessam os vastos oceanos como se caminhassem em terra plana; isto é a glória da sua virtude."
Os cantos do beiral terminam com figuras de dragão com a boca aberta. São os Chiwen, um dos nove filhos do Dragão, que, por gostarem de engolir fogo, são colocados nos telhados para proteger a estrutura contra incêndios e raios.

Painel Central (Superior)
Este é o relevo mais dinâmico e situa-se logo abaixo do telhado principal.
Três figuras principais: À esquerda e ao centro, dois Qilins (quimeras chinesas com corpo de escamas e cascos) que parecem estar a interagir ou a "brincar" com elementos circulares. À direita, uma ave de grande porte (provavelmente uma fénix ou um pavão mitológico) com as asas abertas, voltada para os Qilins.
Significado: Esta composição representa a "Harmonia Universal". O Qilin simboliza a paz e a benevolência, enquanto a ave mitológica representa a virtude. Juntos, indicam que este portal é um lugar onde a energia celestial está em equilíbrio.

Painel Lateral Esquerdo (acima da janela)
 Um cenário naturalista focado em aves pernaltas, identificadas como Garças (Xianhe). Elas aparecem integradas num cenário de rochas e vegetação (provavelmente pinheiros ou ameixeiras).
Significado: A garça é o símbolo máximo da Longevidade e da elevação espiritual. Estar no lado esquerdo reforça a ideia de uma vida longa e estável para quem entra.

Painel Lateral Direito (acima da janela)
Outra cena de fauna e flora, mas aqui a figura central é uma ave com plumagem exuberante e cauda longa, uma Fénix (Fenghuang) ou um faisão ornamental, pousada num ramo florido.
Significado: A fénix representa a Beleza, a Graça e a Prosperidade. Enquanto no lado esquerdo o enfoque é longevidade, o lado direito destaca a prosperidade.

sábado, 6 de junho de 2026

Novos edifícios residenciais nas décadas 1960 e 1970

Nas décadas de 1960 e 1970 a cidade de Macau assistiu a uma forte crescimento urbanístico, nomeadamente com a construção de inúmeros edifícios residenciais.
Detalhe da capa de um catálogo de vendas

Entre os novos prédios construídos surgem o Capitol, Veng Lei, apollo, Iou Kuan, Lai Un, Po Lei, Tung Heng, Fu Va, Keng Va, etc... Alguns destes prédios ainda existem...
Edifício Fu Va - Av. Dr. Rodrigo Rodrigues

Facto inovador na época foi o surgimento dos catálogos imobiliários como ferramenta de marketing usada para a promoção e venda dos apartamentos. Um apartamento no edifício Capitol em 1964 custava entre 22 a 25 mil patacas.
Ainda por construir, coube a artistas como Kam Cheong Leng, criar as ilustrações de como iriam ser os edifícios.
Um dos construtores que de destacou nessas décadas foi a empresa Yau Vo e um dos maiores promotores imobiliários foi a Tai On.

Ilustração com uma vista panorâmica a partir da Fort. do Monte em meados da década 1970
Ao fundo a ilha da Taipa: pode ver-se o Hospital, Hotel Lisboa, Ponte Nobre de Carvalho

No catálogo de vendas acima:
Transcrição (Chinês Tradicional)
萬成發展有限公司
洽購處: 
萬年企業有限公司 
奇珍銀號 
建成(澳門)有限公司 
地址:板樟堂街16號H式樓
電話:3426
板樟堂街15號電話:4345
地址:南灣羅理基博士大馬路25號式樓 電話:5334

Tradução: 
Empresa de Desenvolvimento Imobiliário Man Seng, Lda. (Wan Shing)
Local de Vendas / Contacto para Compra:
Empresa de Empreendimentos Man Nin, Lda.
Ourivesaria/Casa de Câmbio Kei Chan (Hei Chan)
Kin Seng (Macau) Empresa, Lda.
Contactos e Moradas:
Endereço: Rua de S. Domingos, n.º 16, Edifício Tipo H.
Telefone: 3426
Rua de S. Domingos, n.º 15, Telefone: 4345
Endereço: Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, n.º 25, Praia Grande. Telefone: 5334
Curiosidade: No Largo da Sé foi construído um edifício denominado Apollo mas que em chinês se designa Ping On. Tal como o cinema como o mesmo nome junto ao Largo do Senadomas construído cerca de 30 anos antes. Também se chama Apollo mas o nome em chinês é Ping On. Os dois edifícios, outra curiosidade, tinham cor verde na fachada.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Estação para Jerinxás" na Rua de S. Paulo

Nesta fotografia da Rua de S. Paulo, já perto do Largo da Companhia de Jesus, destaco a placa do Leal Senado, localizada no lado esquerdo e onde se pode ler: "Leal Senado - Estação para Jerinxás".
Um olhar mais atento permite perceber que no registo fotográfico foram captados dois momentos distintos da evolução deste meio de transporte público. À esquerda está dois jerinxá, variante fonética macaense de "jinrikisha", veículo de duas rodas puxado por um homem que foi um dos principais meios de transporte em Macau desde o final do século 19 e até meados do século 20, quando aos poucos foi sendo substituído pelo triciclo, de que se pode ver um exemplar do lado direito.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Aspectos do Cais dos Vapores no primeiro quartel do século 20

Nesta fotografia dos primeiros anos do século 20 o antigo Largo da Caldeira já surge ocupado nomeadamente por um edifício onde na fachada está uma anúncio de grandes dimensões:
"COLGATE & CO. / NEW YORK / U.S.A. / ESTABLISHED 1806"
A azáfama neste troço da Rua das Lorchas é notória, nomeadamente o elevado número de jerinxás. Entre os vários elementos arquitectónicos visíveis destaco uma vista parcial da torre Prestamista na Rua do Bocage.

O topónimo Largo da Caldeira já não existe mas ficaram a Rua e a Travessa da Caldeira que permite situar este local nos dias de hoje. O prédio do anúncio da Colgate corresponde à actual Travessa 5 de Outubro.
Sendo uma zona de muito movimento em redor existiam vários restaurantes, casas de chá, hospedarias, pensões, hotéis, etc...
Junto ao muro inúmeras sampanas, pequenas embarcações vitais para a vida comercial e o transporte de mercadorias no porto interior

quarta-feira, 3 de junho de 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Placas toponímicas da Rua dos Mercadores

Este é mais um exemplo da especificidade e riqueza da toponímia local em termos históricos. Três diferentes designações em chinês para a mesmo nome em português, a Rua dos Mercadores. Antigamente foi das mais importantes por ser a que permitia a entrada no chamado Bazar chinês a partir do centro histórico da cidade.
Placa 1
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 大街
Tradução literal: Rua Principal.

Placa 2 
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 大街 (營地大街)
Tradução literal: "Rua Principal do Bazar" ou "Grande Rua do Mercado

Placa 3
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 買賣街
Tradução literal: Rua de Compra e Venda (Rua do Comércio).

segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Primeiro navegador que aportou à China"

 

O escultor Euclides Vaz foi o autor desta estátua de Jorge Álvares inaugurada a 16 de Setembro de 1954 e que ainda hoje pode ser vista em Macau frente ao antigo Edifício das Repartições Públicas/Tribunal.
O projecto nasceu após a visita do Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, no Verão de 1952. Euclides Vaz viria a ganhar o concurso público em Setembro de 1953. Enviados para Macau no paquete "Índia" os vários elementos da estátua chegaram ao território em Maio de 1954 sendo a instalação dos mesmos ficado a cargo da empresa Va San entre Julho e Agosto desse ano.