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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Testemunhos do "1,2,3" de 1966

"12" refere-se ao mês de Dezembro em que ocorreram os incidentes, "3" é o dia dos mesmos. Seguem-se excertos de entrevistas realizadas com macaenses radicados no Brasil, que viveram os acontecimentos. Estas entrevistas fazem parte da tese de mestrado em Antropologia Social "Macaenses em trânsito" de Maíra Simões Claudino dos Santos. Para além dos testemunhos, o texto é da autora da tese.
Testemunho de João Francisco, macaense que ao tempo dos eventos, era ainda jovem. Nasceu em 1950 e rumou ao Brasil em 1967.
"Nessa época, isso foi em 1966, foi quando apareceram guardas... Eu lembro... Que aconteceu um incidente lá em Taipa, península de Macau. Nas ilhas, de Taipa e ilha de Coloane, nós tínhamos um administrador das ilhas. Ele morava em Taipa, mas administrava essas duas ilhas. Então, tinha uma escola lá em Taipa que me parece que os papéis não estavam em ordem e os chineses vinham com muita pressa para tocar a obra pra frente. Bom, o motivo para o atraso eram problemas burocráticos. Isso fez com que desse o início entre o conflito da população chinesa e a administração portuguesa. Houve umas demonstrações, houve pancadarias, teve que colocar polícia em postos especiais da rua... Aí, então com influência da Revolução Cultural da China, com a influência dos guardas vermelhos, aquilo começou a propagar-se cada vez mais, e nesse novo período, nesse período, Macau estava na transição do governador anterior indo embora e o governador novo chegando, e, esse governador novo que estava chegando estava totalmente alheio ao que estava se passando, aí começou as demonstrações propagar-se cada vez mas até que um dia eles invadiram o palácio do governo, exigindo mais, e com isso deu-se um problema muito grave em Macau, greves e problemas de... Como que chama... Como que se traduz?.. Bom, isso foi também manifestações entre policiais, depois de problemas de doenças graves em mulheres, filhos... Esse período foi um período muito conturbado em Macau, e o engraçado é que eu estava no cinema assistindo um filme e o filme foi interrompido por causa do problema que estava acontecendo no palácio, porque estávamos escutando um barulho, e era muito próximo onde fica o palácio do governo. Escutávamos aqueles barulhos, o estouro das granadas daquele lugar. Saí de lá, fui pra casa e de casa acompanhei no radio as informações, aí, teve que entrar a lei marcial que não permitia as pessoas saírem, ou melhor, só num horário, as pessoas saíam pra fazer suas compras. Enfim, era só isso. Foi um período, muito, muito chato, porque os chineses aproveitaram muito bem desse período, e nós portugueses que nos sentíamos superiores aos chineses, passamos a ter que respeitá-los mais."

Para Luis Pedruco o evento do “1, 2, 3” foi uma das causas principais de sua partida para o Brasil:
Foto que foi capa do livro de José Pedro Castanheira "Os 58 Dias Que Abalaram Macau"

"Na época, eu fui fazer o serviço militar e houve uma revolução, uma revolta. Tinha vinte anos. No dia da revolução, eu estava no cinema, uma matinê às duas e meia, quando chegou mais ou menos às três e meia da tarde, um cinema famoso, no centro da cidade, chamado Cinema Apolo, estava vendo um filme e às tantas começaram a abrir portas e correr gente, eu pensei: um incêndio. Fiquei sentado aguardando o movimento todo, o corre-corre, e depois de um certo ponto saí do cinema. Quando saí vi só cabeças na cidade. Tinha uma estátua na frente do cinema, do famoso Coronel Mesquita – esse indivíduo era considerado para os portugueses um herói, porque tinha tomado o Passaleão, que era uma cidadezinha logo na fronteira de Macau, idos tempos. Para os portugueses ele era um herói, para os chineses um invasor. Tem que ver os dois lados da medalha, herói para você invasor para eles. O resultado é o seguinte, aí começaram, aquela história, e ouvi ordens, alguém grita assim: matem os portugueses! Foi um corre-corre danado. Foi engraçado porque a bilhetera do cinema era conhecida, lá todos se conhecem, a mulher dizia assim para mim: deita aqui em baixo porque se não você vai ser linchado. Era chinesa. Eu deitei nos pés dela, fiquei uns minutos lá, meio revoltado: eu deitar aqui, que história é esta? Passado algum tempo, começaram os tiros. Aquela famosa avenida do centro de Macau que é chamada Av. Almeida Ribeiro, quando eu busquei sair eu vi um mar de sapatos e chinelos, todos deram no pé. Chinelos e sapatos no cinema, que coisa louca! Passou um jipe militar, pedi para parar o jipe e fui para o quartel. Eu já tinha passado do recrutamento, já estava em casa, prestava serviço e voltava para casa. No quartel, fui recebido aos gritos pelo comandante: seu imbecil, coisas desse gênero, onde estava você? Eu contei, e estava todo mundo nervoso. Já tinham fechado o quartel, tinham armado trincheiras, metralhadoras, um cena assim, do nada. Eu, às três, estava no cinema e às seis tinha ordem de recolher. Fui um dos primeiros, o primeiro pelotão que saiu do quartel e fomos para o centro da cidade. Eu estava dentro do cinema e três ou quatro horas depois estava fardado, capacete camuflado, com a tropa, para manter a ordem (Doré, 2001: 66).
(...) Passado uns dias a China pôs na fronteira em Macau uma divisão. Uma divisão são 10 mil homens. Aquilo foi apenas um aviso, eles não iam fazer nada. Você sabe que deste lado tem 400, 500 pessoas armadas, você bota 10 mil na fronteira, não fazendo nada, tocando viola, como eles ficaram lá, olhando para Macau, que tinha uns canhões apontados, aquilo era para dizer:quer guerra? Quer força? Foi um momento muito difícil, muita gente foi embora para Portugal. Eu achei uma humilhação enorme, porque os chineses depois de algum tempo obrigaram que o governo português, que seria o dono da terra, oficialmente, na época, pedisse desculpa escrita, falada e televisionada, à população chinesa. Foi recusado pela primeira vez e segunda vez, e aí fizeram força e como a força já estava posta, não teve outro jeito senão aceitar o pedido de desculpas. E o interessante no pedido de desculpas é que o chinês, o oriental, é muito simbólico, não é só um pedido de desculpas e está acabado. Eles fizeram no meio da rua, em frenta à Associação Chinesa, uma mesa comprida, e já como a largura da mesa “x”, de um lado ficavam as autoridades chinesas e do outro lado o governador de Macau, que na época era o General Nobre de Carvalho. Isso depois de muita confusão, conversas em Lisboa, muitas ameaças. Quando chegou o dia em que teve de aceitar esse pedido de desculpas, fizeram uma mesa e no momento em que o governador assinasse, pegasse o livro, e entregasse o documento para a autoridade chinesa, ele teria que se curvar e estender a mão. Enquanto o lado chinês não se curvava, ficava em pé e só estendia a mão. E fizeram uma fotografia nesse momento. Para eles isso daí representava: estão vendo, o fulano se curvando, baixando a cabeça, perante...atrás, uma foto do Mao Tse Tung. Isso tudo tem uma simbologia. É evidente que depois dessa cena toda...quer dizer, a razão pela qual vim para o Brasil, uma das causas foi essa. Alguma coisa me dizia que aquilo ali não dava mais também. Primeiro porque Macau era pequena, depois por esta história, não estava me sentindo bem. Porque o governo português, logo em seguida, declarou mesmo nós entregamos Macau a vocês, se quiserem tome...Quando eu ví esse posicionamento do governo, eu falei daqui a pouco vamos ficar sem pai nem mãe aqui e como é que fica? Esse também foi um momento em que falei para mim mesmo: não, aqui, não fico, vou-me embora, porque o caminho não é este. Já tinha terminado o serviço militar e estava trabalhando no serviço do governo, no Ministério da fazenda de Macau, como escrivão de execuções fiscais. Casei-me e vim para cá. (Doré, 2001: 66-67).
Antonio Bruno Machado de Mendonça nasceu em Macau, em 1948.
Foi em 1966, eu só sabia de uma coisa: não podia ir para a rua. Era lei marcial. Ficávamos dentro de casa. Só depois ouvi falar que o problema era uma escola que havia na Taipa, que não deixaram construir. Todos nós comíamos em casa. No comércio era só vendido para os próprios chineses. Não se vendia nada para nós. Nós éramos considerados como europeus. Claro que não se vendia nada para os portugueses também. Havia problemática que houve. Fazer o quê? Através de um amigo chinês a gente fazia as compras. Ele trazia. (Doré,2001:66)

Roberto, nasceu também entre os meados da década de 40 e 50.
Desde de pequeno já ouvi dizer que esse dia chegaria. Ouvi de alguns chineses adultos, que talvez tivessem alguma mágoa com os não-chineses ou que fossem comunistas radicais? Não liguei muito e achei que fosse uma “besteira”. Mas tornou-se mais real com a revolução dos “guardas vermelhos” que atingiu também Macau nos anos 60. As bandeiras vermelhas da China estavam hasteadas em todas as partes, os “ativistas” vestiam-se de um conjunto de roupa azul (índigo), medalhões com o retrato de Mao Tse Tung, pregadas no peito, e alguns até com bonés do tipo “operário chinês” gritando slogans anti-ocidentais, anti-capitalistas, etc. Os “guardas” proibiam os macaenses, portugueses e qualquer ocidental, de utilizarem qualquer transporte público, as feiras estavam proibidas de venderem comidas para a gente, assim como os restaurantes, cinemas etc., porque a maioria destes estabelecimentos eram de propriedades de chineses. Os meus amigos chineses “viraram a cara” para mim. Mas só depois entendi os seus comportamentos, após a explicação que um deles me deu. Eles tinham que “obedecer” as ordens dos “guardas” por serem chineses e temiam represálias caso não o fizessem, e especialmente se a gente (macaenses e ocidentais) não abandonasse Macau, como o boato teria sido espalhado. Pensei: “Chegou a hora, eles tinham razão quando me disseram que Macau voltaria para a China um dia”. Não voltou daquela vez, mas agora em 1999 voltou.
(Entrevista realizada individualmente em sua casa)

O juiz Rodrigo Leal de Carvalho, o único a exercer funções em Macau, recorda assim os incidentes.
"Tentaram parar-me o carro e forçar-me as portas. A minha volta só via expressões de ódio. Fui andando devagar em primeira, para não atropelar ninguém, mas sem deixar que imobilizassem o carro. Lá acabei por conseguir passar, no meio de uma chuva de pedras." (Pinto,1998).
Relato de João Francisco Lopes Machado, nascido em 1950
"Estava com 16 anos, teve o “1, 2, 3” em que o China estava prestes a invadir Macau, tanto que na companhia da minha mãe, fomos até Hong-Kong e minha mãe levou as jóias dela, pra guardar lá em Hong Kong e eu fui com ela de navio pra guardar as jóias dela. Aí já prontos pra deixar Macau de vez, por causa da invasão chinesa. Naquela época, criou-se a idéia... isso que motivou a imigração da grande população de Macau pra Hong Kong. Isto aí, que fez todo mundo enxergar que Macau realmente não tinha mais futuro, porque seria tomado pela China de um modo ou de outro, não tinha mais aquela segurança de continuar sendo uma colônia portuguesa, então as pessoas começaram a ir embora. E meu pai falou assim: Macau não tem futuro mesmo, a China vai tomar tudo de bom e nós vamos perder tudo, porque naquela época a China não era a China capitalista de hoje, era uma China que realmente iria acabar destruindo  toda a nossa cultura e a gente iria virar refugiado, com certeza. (...) Acredito que Macau... já não se poderia viver, pois depois que passou aqueles acontecimentos em Macau, a gente sentiu que no fundo, no fundo...também como fui embora logo no ano seguinte... mas a mentalidade era realmente que a gente já não dominava Macau como antigamente. Antigamente, antes da Revolução, realmente era mais colonialista, vamos dizer...era mais o estilo português de governar, sem ter que se preocupar com os chineses, depois dos acontecimentos... pode ser que passamos a enxergar os chineses de um modo um  pouco diferente."
Henrique de Senna Fernandes, macaense que nasceu entre os finais da decada de 20 e o início da década de 30...
Anos antes da Revolução Cultural, a arrogância dos funcionários era uma coisa horrível e visível! Aqui é Portugal. Eram todos militares. Vivíamos na ditadura do tempo do Salazar. Colônia era só exploração. E Lisboa não servia as colônias. Sou português, sinto-me português também, mas acho que não poderia viver em Portugal. Eles traziam uma mentalidade e não se modificavam. Os chineses nunca foram colonizados, tinham seus costumes, não eram meia dúzia de portugueses que iriam modificar. O “1, 2, 3” foi como uma onda que cresceu – coisa do Mao, que deviam ser nossas autoridades. Indivíduos que... Havia os chineses corruptos, houve abusos. Os chineses não eram muito cumpridores de leis. Os portugueses também davam pontapés nas mercadorias chinesas e a partir de um certo momento... Começou a fervilhar, fervilhar a comunidade chinesa. O partido comunista fez a rebelião opressiva, rebelião estupidamente opressiva. Contra os chineses, 100 mil pessoas. Com pessoas que não são nem pretos e nem índios, com sua civilização. Havia de tratar dos chineses com certa diplomacia. Realizava-se uma política que não podia ser. O Estado Novo era contra o comunismo. Queriam construir uma escola comunista na Taipa. Os atritos começavam a crescer assim como os requerimentos: “não podemos espalhar o comunismo em Macau”. Os distúrbios na Taipa foram antes do Grande Prêmio de Formula 1 de Macau. A administração da ilha chamou a polícia e fizeram feridos. Os comunistas de Macau começam a se reunir. Na Associação Comercial Chinesa, fazem as demonstrações comunistas. Resolvem ir ao palácio do governo ler a cartilha de Mao. Ocorre que uma grande multidão se reúne em direção ao palácio e deitam abaixo o herói macaense e partem o braço de Jorge Álvares. Outra grande asneira: o encarregado do governo colocou no comando o comandante das forças militares, Mota Cerveira, que amava Macau, mas queria transformá-la à sua maneira. O macaense, pai do chefe executivo hoje em Macau, explicou-lhe que ele deveria ceder, pois não podiam conter os comunistas, mas ele sequer o recebeu. Resultado foram oito mortos, alguns nacionalistas foram entregues. E em Hong Kong não conseguem fazer o mesmo porque era Portugal que os comandavam. Corríamos o risco de perder tudo. E muitos fugiram para Hong Kong (Entrevista realizada em Macau em 06/12/2004).

domingo, 30 de novembro de 2025

"Explosion of a Portuguese frigate"

O irmão de Francisco Maria Bordalo (1821-1861) - ver post de ontem - Luíz Maria Bordalo, também oficial da Marinha portuguesa, foi uma das vítimas de uma das maiores tragédias humanas em Macau e um dos maiores desastres navais a envolver a marinha portuguesa. Ocorreu a 29 de Outubro de 1850  - era dia de aniversário do rei D. Fernando II e estava Francisco Maria Bordalo a caminho de Macau - quando por razões ainda hoje desconhecidas ocorreu a explosão no paiol da fragata D. Maria II - ancorada ao largo da Taipa - que continha 300 barris de pólvora. Morreram mais de 200 pessoas. A maioria pertencia à guarnição da D. Maria II. Dos 224 elementos da tripulação morreram 188 e os que se salvaram, apenas 36, foi graças ao facto de estarem em terra (hospitalizados ou destacados) e um grumete, o único que sobreviveu entre os feridos transportados para o hospital de Macau. Consta que apenas foram encontrados 71 cadáveres - os únicos sepultados - tendo os restantes desaparecido. Da lista de vítimas mortais constam ainda três marinheiros franceses presos e cerca de 40 chineses que estavam a bordo da fragata ou em embarcações próximas que foram atingidas pela força da explosão.
Em Portugal, cerca de dois meses depois, o jornal "O Patriota" escreve na edição de 28.12.1850: "Hontem espalhou-se uma noticia que tem causado profunda e geral consternação (…) Há jornaes que a dizem ocorrida em Macau, outros a referem como acontecendo em Calcutá, na India Inglesa. (…)" 
A notícia termina referindo haver esperança que a notícia fosse falsa. Mas não era... E o tema  volta na edição de 30.12.1850 escrevendo que "Por outras notícias parece que mesmo da fragata D. Maria alguém escapou".
A dimensão da tragédia foi amplamente noticiada na imprensa mundial, com especial enfoque na de língua portuguesa, incluindo no Brasil ao longo de 1851. O jornal "O Patriota" dedicou grande parte da edição de 30 de Janeiro de 1851 ao acontecimento publicando em duas páginas relatos oficiais, cartas de testemunhas e os nomes das vítimas. 

"Finalmente chegaram de Macau noticias officiaes e miudas do desastre acontecido á fragata D. Maria II. Infelicidade para o paiz, e para tantas familias! Mas cumpre que aquellas que só tem que lamentar a perda de seus chefes ou de alguns dos seus membros, tenham informações exactas a esse respeito. Por isso, com o officio do sr. Isidoro Francisco Guimarães Junior*, copiamos do Diario de hontem as relações que acompanham o mesmo officio. Fica manifesto que não pereceu ninguem estranho á fragata. Copiamos tambem do Boletim official de Macau sobre a impossibilidade de explicar aquelle infeliz acontecimento. Damos igualmente a nossos leitores a parte principal de uma carta particular que trata do mesmo acontecimento; e abonamos a intelligencia e a por nós conhecida boa fé da pessoa que a escreveu. A tudo isto ajuntamos um resumido extracto de outras cartas, tambem escriptas em Macau por homens que sabem ver as cousas; neste extracto se pinta o estado daquella cidade, e se indica a origem dos seus males. Lamentamos amargamente tanta desgraça! Todas as noticias, tanto officiaes como particulares, são conformes em attestar que a guarnição americana da corveta Marion fez todos os esforços possiveis para salvar os infelizes que podessem ser salvos. O governo de Macau escreveu e publicou officialmente uma carta dos mais expressivos agradecimentos ao commandante daquella corvetta."
* Era na altura capitão-tenente e comandante da corveta D. João 1º, estacionada em Macau. Viria a ser pouco tempo depois governador de Macau.
“Explosão da Fragata D.ª Maria 2.ª  em Macao no anno de 1850”
título desde óleo sobre tela -33x54cm -  de autor anónimo (provavelmente chinês)
Espólio do Museu Marítimo de Hong Kong

Copia de uma carta de Macau datada de 24 de Novembro de 1850 também publicada n'O Patriota a que juntei algumas notas. Não está assinada, mas o autor foi Carlos José Caldeira (1811-1882), que viveu em Macau entre Setembro de 1850 e Dezembro de 1851, e escreveu relato idêntico no livro que publicou em Lisboa em 1852 intitulado "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa".

"Eu achava me no dia 29 do mez passado a jantar com o bispo*, quando a explosão abalou todo o palacio, ouvindo se o estrondo como de um forte tiro de canhão. Em poucos momentos, olhando para a Taipa ou ancoradoiro, conhecemos a causa e os tristes effeitos. Sahi logo, e fui dos primeiros a chegar a bordo da curveta americana, onde estavam os dez desgraçados salvos pelos escaleres della; e dos quaes vi morrer dois; soffriam todos horrivelmente. A curveta americana nada soffreu; julga se que quem a salvou foi a proximidade em que se achava da fragata, por ficar exactamente debaixo do arco da curva que descreveu a explosão. Peças de 18** voaram por cima da curveta, com a felicidade de não a tocarem. Disseram me alguns officiaes americanos que um momento antes da explosão viram a fragata elevar se quasi seis pés ***fóra d agua. Tal foi a resistencia que apresentou o paiol e a forte structura do navio!

Gravura publicada no Diário Illustrado a 11.10.1873

A causa desta grande desgraça, isto é, o modo como chegou o fogo ao paiol da polvora, ficará para sempre desconhecido. Os que sobreviveram nenhum esclarecimento deram e só diziam que, estando cada um nos seus misteres, accordaram depois como de um letargo, ja a bordo da curveta americana. Com tudo, entre as varias hypotheses que lembram, a mais provavel parece a de ter sido lançado o fogo ao paiol pelo fiel d artilheria João Antonio, individuo de pessimo caracter e conducta e que naquelle mesmo dia fora asperamente reprehendido pelo commandante depois da salva ao meio dia. Embebedava-se, e dizem, que alguna vez soffrendo castigos, se lhe ouviram ameaças deste successo. Seria cousa bem curiosa a policia procurar a origem de um boato que correu em Lisboa da queima e perda da fragata do qual se fazia menção em uma carta escripta d ahi em Agosto pelo irmão do official Bordalo e por este aqui recebida e mostrada. Esta circumstancia é notavel; talvez o malvado fiel a alguem para Portugal tivesse communicado suas dannadas intenções.
Além da perda deste bello navio e de tantas vidas, havia talvez a bordo delle o valor de trinta a quarenta mil patacas em objectos e dinheiro dos officiaes e de comissões. Particularmente me affectou a morte do Assis e do Bordalo. Naquelle dia tinha o Assis tido o pensamento de jantarmos juntos a bordo da fragata, com o Sequeira Pinto, Guimarães e outros; e por algum inconveniente que teve tinha este jantar ficado para algum dos dias imediatos. Foi a providencia que nos salvou; provavelmente aquella hora por lá estariamos se lá tivessemos ido jantar.
Esta semana houve aqui outro acontecimento tambem desastroso. Um portuguez desta cidade casou se; achou a noiva impura e arrancou lhe a confissão de que o padrasto della era o culpado. Com toda a serenidade procurou a este na sua propria habitação e disparou una pistola n'um ouvido; deixando o nas agonias da norte, sahiu e na escada carregou outra vez a mesma pistola e deu outro tiro na sua propria cabeça morrendo immediatamente Parece que esta terra esta agora fadada para desastres!!!"

* Carlos José Caldeira era primo D. Jerónimo José da Matta, bispo de Macau entre 1845 e 1862; o palácio/residência episcopal era anexa à Sé.
** peso da bala disparada, neste caso, canhão de 18 libras (8,16 Kg).
*** quase 2 metros.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"Dulce et decorum est pro patria mori"


O ossário–monumento dos Combatentes da Grande Guerra no Cemitério de S. Miguel no dia da inauguração em Abril de 1938.

Nas várias faces do monumento pode ler-se a expressão em latim: "Dulce et decorum est pro patria mori" - "É doce e adequado morrer pela pátria" - um dos versos da obra "Odes" do poeta romano Horácio. 
Parte da expressão - "Dulce et Decorum est" - foi também utilizada como título de um poema de Wilfred Owen sobre os efeitos de um ataque de gás sobre os soldados da primeira guerra mundial e publicado postumamente em 1920.
A expressão pode ainda ser encontrada em edifícios um pouco por todo o mundo e é também o lema de várias instituições como é o caso do Academia Militar em Portugal.
No Jardim de S. Francisco existe outro registo da Liga dos Combatentes da Grande Guerra no território, sendo Lara Reis um dos fundadores.

domingo, 4 de agosto de 2019

Aclamação de D. Pedro V e incêndio no bazar no L'Illustration de 15 Março 1856

Na edição de 15 de Março de 1856 o jornal "L'Illustration jornal universele" - imagem abaixo - dava conta das celebrações em Macau da aclamação do rei D. Pedro V com uma ilustração da "iluminação do palácio do consulado brasileiro em Macau" e uma outra com a legenda "Vista da Praia Grande" preservada do grande incêndio que atingira o território em Janeiro desse ano. 
“A Illustração Luso-Brasileira” de 1856, num artigo assinado por Carlos Caldeira e com a mesma ilustração, informava assim: “Em 4 de Janeiro pelas duas horas da tarde, manifestou-se fogo no centro do bazar, ou bairro chinez, numa loja ou botica, como lá se dizem. O vento forte, que soprava rijo, espalhou-se rapidamente: às 5 horas rondou para leste, e algum tempo depois voltou ao norte, o que fez com que as chamas avançassem em todas as direcções. O incêndio durou até às 11 do dia seguinte. Arderam umas 1500 casas entre grandes e pequenas, incluindo mais de 600 lojas. As propriedades e valores perdidos sobem a mais de um milhão de patacas, ou para cima de 1000 contos. Houve também alguma perda de vidas."
A 16 de Setembro de 1855, quando fez 18 anos, Pedro V (1837-1861) - filho de Maria II e Fernando II - foi aclamado rei tendo ascendido ao cargo dois anos antes. Dedicou-se com afinco ao governo de Portugal sendo apelidado de "o Esperançoso" e "o Muito Amado", foi o Rei de Portugal e Algarves de 1853 até sua morte.
Em Macau existe um teatro com o nome D. Pedro V, edifício construído em 1860, o primeiro teatro de estilo ocidental na China.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Visita do ministro do Ultramar no Verão de 1952


O Verão de 1952 em Macau (passou ainda pela Índia e Timor) ficou marcado pela visita oficial do Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, entre os dias 18 de Junho e 1 de Julho. Era o mais alto representante de Portugal a visitar o território desde o século 16.
A visita durou vários dias e ficou imortalizada em centenas de fotografias e livros.
Incluiu revista à guarda de honra; cortejo nas limousines do Estado; cerimónias religiosas; cerimónias no Leal Senado; recepção pública no estádio (Canídromo); inauguração das piscinas olímpicas; visita à Gruta de Camões; desfile da Dança do Dragão frente ao Palácio do Governo; recepção e baile nocturno; parada militar com forças da Legião, Mocidade Portuguesa, tropas Indígenas, esquadrões de carros blindados (cavalaria e infantaria); recepção pela Marinha; visita à Ilha de Coloane e cerimónia aos Combatentes de Coloane; visita à Central Eléctrica; visita à zona da Porta do Cerco junto à China; visita ao Monumento da Explosão da Fragata D. Maria II em 1850; concerto no Teatro D. Pedro V; visita ao Hospital e ao bairro chinês; imposição de condecorações aos dignatários religiosos e civis (europeus e chineses); manobras militares com desfile de Companhia Indígena Africana; tiro de Artilharia de Campanha motorizada; recepção e jantar e Baile de Gala nocturno com oficiais portugueses e ingleses; visita ao clube de vela da Mocidade Portuguesa; visita e entrevista no Rádio Clube de Macau.

 Aspectos da visita de Sarmento Rodrigues a Macau

Manuel Maria Sarmento Rodrigues (1899 - 1979) foi um oficial de Marinha que no desenrolar da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) dirigiu as operações de busca e salvamento de 110 náufragos do paquete britânico “Ávila Star”, torpedeado pelas forças navais alemãs, e no salvamento de 118 náufragos dos navios norte-americanos “Julia Ward Howe” e “City of Flint”.
Foi o professor Marcelo Caetano, então Ministro das Colónias, quem lançou Sarmento Rodrigues na vida político-administrativa ultramarina. Sarmento esxcrevia com regularidade na “Revista Militar” sobre estratégias da administração ultramarina e frequentou com notoriedade os primeiros anos do Curso de Administração da Escola Superior Colonial. Adriano Moreira colocou-o a trabalhar com ele, tendo-lhe encomendado a realização do estudo intitulado “O problema prisional do Ultramar”. Este trabalho de investigação veio a receber o Prémio Abílio Lopes do Rego, em 1953, pela Academia das Ciências de Lisboa.

Gov. Marques Esparteiro (atrás) e S. Rodrigues
Sarmento Rodrigues foi também uma das figuras públicas que mais impulsionou, durante o Estado Novo, a celebração das Descobertas marítimas portuguesas do século XV ao apoiar os investigadores Avelino Teixeira da Mota, Armando Cortesão, Charles Boxer e outros.
Foi Director da Escola Naval de Guerra, da Comissão Ultramarina das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, e responsável pela edificação do monumento do Padrão dos Descobrimentos; foi Governador da Guiné de 1945 a 1949; Ministro das Colónias/Ultramar de 1950 a 1955 e Governador-geral de Moçambique de 1961 a 1964.

As suas posições política liberais dentro do regime dirigido por Salazar e os seus contactos com muitos oposicionistas da ditadura fizeram com que fosse atentamente vigiado. Pertencia à Loja Renascença da Maçonaria Portuguesa em 1923, conjuntamente com José Gomes Ferreira, embora durante a vigência deste regime político tenha permanecido formalmente afastado da loja. Morreu em 1979.
A romagem `a Gruta de Camões e a inauguração da Piscina Municipal pela mulher de Sarmento Rodrigues, a 19 de Junho, foram dois dos pontos altos da visita. A imagem acima foi publicada num artigo da revista National Geographic.
The inauguration ceremony of the municipal swimming pool, which was officiated by Madam Margarida Guerra Junqueiro Saramento Rodrigues, spouse of the Minister of Overseas Territories of Portugal, was held in the morning of 19 June 1952.


domingo, 7 de julho de 2019

Exposição Universal de Paris: 1889

Em 1889 - há 130 anos - os franceses comemoravam o primeiro centenário de Revolução e Paris prepara-se para brilhar como nunca, recebendo a Exposição Universal. 

A Torre Eiffel foi construída para servir de forma efémera como porta de entrada para o evento mas acabaria por sobreviver até hoje tendo-se transformado num símbolo da cidade e de França.
Relatos da época falam de uma cerimónia de inauguração discreta no cimo de uma torre que ultrapassava os 300 metros de altura (324), a edificação humana mais alta à face da Terra. Eram 14h40 de 31 de Março de 1889. 
Entre os cerca de cem convidados apenas uma vintena conseguiram subir os 1665 degraus – a maioria foi ficando pelo caminho – e no final viram Gustave Eiffel (1832-1923) içar uma bandeira francesa. Seguiram-se os foguetes, a salva de 21 tiros, discursos e, claro, champanhe. 
Macau seria integrada na representação de Portugal  - imagens do Pavilhão português neste post - que se pode ver nestas imagens onde também se inclui um "pavillon chinois".
Em 1900, Paris voltaria a receber uma exposição universal...
O Pavilhão chinês na Exposição Universal de Paris em 1889

terça-feira, 4 de junho de 2019

Tiananmen: 1989-2019

A 4 de junho de 1989 (30 anos) o governo da China reprimiu violentamente milhares de jovens estudantes que protestavam há várias semanas na Praça de Tiananmen (Paz Celestial) em Pequim. Os manifestantes exigiam mais transparência e democracia na política das autoridades chinesas.
As notícias do massacre depressa correram mundo e em Macau milhares de pessoas saíram à rua nessa data em solidariedade com as vítimas. Números oficiais do governo chinês apontam para cerca de 200 mortos mas fontes diplomáticas internacionais, nomeadamente o embaixador britânico em Pequim, referiu "pelo menos 10 mil mortos civis" num telegrama que enviou para Londres a 5 de junho de 1989.
Desde essa data, todos os anos,  não só em Macau, como também em Hong  Kong (regiões especiais administrativas da China), ocorrem vigílias para evocar o "banho de sangue" nas palavras da imprensa da época. São mesmo os únicos locais da China onde tais manifestações são permitidas.
Over seven weeks in 1989, student-led pro-democracy protests centered on Beijing’s Tiananmen Square became China’s greatest political upheaval since the end of the Cultural Revolution more than a decade earlier.
Corruption among the elite was a key complaint, but the protesters were also calling for a more open and fair society, one that would require the ruling Communist Party to relinquish control over many aspects of life, including education, employment and even the size of families.
This year marks the 30th anniversary of the bloody crackdown that ended the protest. The Chinese government has never given a clear account of how many were killed. Some oficial documents refered around 200 but international diplomatic sources, including the British embassador in Beijing wrote a telegram to London on 5th june 1989 mentioning "at least 10,000 civillians were killed."

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

"Porta Cerco, the gate dividing Portuguese and Chinese territory"

Nos primeiros anos de 1900, duas empresas de Hong Kong, a M. Sternberg e a Graça & Co. publicaram dois postais ilustrados alusivos à Porta do Cerco que têm uma particularidade: são iguais. Na imagem surge parte da tripulação da canhoneira Zaire que chegou a Macau a 12 de Agosto de 1900 na sequência da Revolta dos Boxers, evento ocorrido no norte da China meses antes. O Corpo Expedicionário era "constituído por 14 oficiais e 368 praças de pré, uma Companhia de Calçadores 3, uma Bataria de Artilharia 2, elementos do serviço de saúde e administrativos.”
"Porta Cerco, the gate dividing Portuguese and Chinese territory. Macao."
Uma legenda com um erro: "Porta Carvo"
Atente-se na diferença de cores usadas pela empresa de M. Sternberg (acima) e a de Graça & Co. (abaixo)
A "Zaire" (1884-1916)
Na edição de Março de 1902 da revista Serões, J. F. Marques Pereira, assina um artigo - Portugal e a China ante a questão de Macau - ilustrado com "15 gravuras, cópia de photographias" de P. Marinho, onde aborda esta problemática. No texto introdutório escreve: Os recentes acontecimentos politicos da China, a revolta dos boxers, a intervenção das potencias, a penetração d´estas no isolado imperio asiatico, a lucta das ambições e dos interesses, teem chamado as attenções geraes para o extremo oriente e despertado natural curiosidade. Depois da partilha da Africa, veio a pretenção de dividir tambem a Asia. (...)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma feira... há 90 anos

Por estes dias, há 90 anos, Macau organizava a primeira Feira Industrial do território. O certame decorreu de 7 de Novembro a 12 de Dezembro e foi considerada um sucesso.
Durou 36 dias a feira localizada na zona de Mong Há foi visitada por cerca de 300 mil pessoas que puderam ver 60 pavilhões e inúmeros espaços de diversão. 
Cada bilhete de entrada no recinto custava cinco avos e, segundo relatos da época, só no dia da inauguração foram vendidos 12 mil ingressos.

domingo, 13 de março de 2016

Macau e a primeira Grande Guerra: 2ª parte

Um dos fundadores da república (5 de Outubro de 1910), Carlos da Maia deixou o serviço activo na marinha com a patente de capitão-tenente para se dedicar por inteiro à política ocupando o lugar de deputado na Assembleia Constituinte. Depois disso passou a integrar os quadros da Direcção-Geral das Colónias, conhecendo por dentro todos os meandros da política colonial portuguesa bem como a geoestratégia internacional nessa área. Terá sido por esse facto que o governo o nomeou para o então sensível cargo de governador Macau. Saliente-se que à data da nomeação (10 de Junho de 1914) Carlos da Maia se encontrava já em oposição à corrente maioritária do regime que tinha ajudado a implantar. Essa corrente que viria a cindir a república constituiria o que veio a ser conhecido como Partido Democrático (PD) liderado por Afonso Costa e Bernardino Machado que directa, ou indirectamente, governaria o país ao longo dos 16 anos que durou a primeira república em Portugal. Carlos da Maia acusava os políticos do “PD” de se afastarem da pureza dos genuínos ideais revolucionários. No entanto o facto de à data Bernardino Machado, responsável pela nomeação de Carlos da Maia, se afirmar como chefe de um governo de “reconciliação nacional” justificou a escolha extra partidária.
Carlos da Maia chegou a Macau num momento em que todo o extremo oriente se agitava. A Norte o Japão ocupava a Manchúria e a Coreia enquanto paredes meias a China que três anos antes tinha proclamado a república via um dos seus mais prestigiados caudilhos (general Yuan-chi-kai) voltar com a palavra atrás, fazer ressuscitar o antigo regime e autoproclamar-se imperador. A China divide-se então mergulhando numa guerra civil que esfrangalha o país e que só terminará verdadeiramente em 1949 com a derrota dos nacionalistas e a proclamação da República Popular em 1 de Outubro de 1949. Nesse contexto de divisão a província de Guangdong declara-se independente e republicana deixando de obedecer a Pequim. Por seu turno Yuan-chi-kai responde enviando tropas para o sul que momentaneamente sobrelevam os republicanos cujos líderes retiram estrategicamente para os “santuários” de que dispunham nas colónias britânica e portuguesa na foz do Rio das Pérolas. Em Macau estabeleceram mesmo um dos principais quartéis-generais militares da contra ofensiva republicana. A minúscula Macau encontrava-se assim, mergulhada num caldeirão politico em ebulição que ameaçava transbordar a todo o momento. Entretanto o conflito mundial eclodia na Europa e o Japão depois de um breve período de neutralidade declarava guerra à Alemanha em 15 de Agosto de 1914 pondo cerco a Tsingtao que seria a primeira colónia germânica a cair nas mãos dos aliados da “entente”. No final do conflito a presença alemã na China e na bacia do Pacífico seria totalmente erradicada.
A declaração de guerra à Alemanha por parte de Portugal ocorreu a 10 de Março de 1916 e um dia depois a decisão seria publicada no Boletim Oficial

Nesse processo de clarificação de posições a China mergulhada na guerra civil e sem um centro político de decisão nacional tardava em pronunciar-se. Carlos da Maia chega a Macau essencialmente incumbido da missão de preparar a colónia para resistir a eventuais ameaças, ainda que militarmente pouco discerníveis e coordenar com os seus homólogos de Hong Kong e da Indochina políticas para fazer face às iniciativas estratégicas alemãs.
Para Macau o perigo decorria muito mais da anarquia em que a China se encontrava mergulhada do que da iniciativa alemã. Isto, tanto mais que, a esquadra germânica deixaria definitivamente a sua base da península de Shandong que se rendia às forças conjuntas anglonipónicas, depois de ferozes e prolongados combates, para se lançar em operações de caça às esquadras inimigas nas costas sul americanas e nos mares do Índico. Para Macau a “Grande Guerra” seria sempre um conflito longínquo. Isto ainda que todos os seus desenvolvimentos se repercutissem nas páginas da imprensa local, ainda que raramente sobrelevassem os títulos de primeira página essencialmente dedicados aos acontecimentos do quotidiano local. Macau estava demasiado longe dos teatros da guerra europeia mas demasiado perto do palco revolucionário da China. Luís Nolasco, director do jornal “O Progresso”, chamando a atenção para o facto de Macau se encontrar numa das situações mais delicadas da sua história e que teria de organizar a sua defesa para fazer face a agressões externas, ou subjugar “algum movimento insurreccional interno” sintetizava assim a situação: – “Temos de um lado a Europa empenhada nessa gigantesca e encarniçada luta fratricida despendendo milhões por dia e sacrificando milhares de vidas nessa hecatombe formidável dos campos de batalha. Por outro lado vemos nos jornais que a China está também em vésperas de uma contra revolução. O irrequieto dr. Sun-iat-sen e os seus agentes revolucionários seguiram pelos cabelos este ensejo da conflagração europeia para desfraldar novamente o pendão da revolta”. Apesar de a ameaça alemã ser vista pelos planeadores militares como bastante vaga e de difícil concretização o governo de Macau não deixou de tomar medidas, nesse âmbito, pedindo nomeadamente o envio de uma força militar para reforçar a guarnição existente considerada insuficiente , mesmo em tempos de paz. No entanto o governo de Lisboa fez “ouvidos moucos” ao pedido e em vez de mandar reforços exigiu antes o envio da quantia de “120 contos” para Angola, para onde, sim, Portugal estava a enviar consideráveis forças militares destinadas a proteger a fronteira Sul que confinava com a colónia germânica da Namíbia. A remissão de tão elevada quantia, não deixou de levantar os mais veementes protestos das forças vivas de Macau que, no entanto, não produziram qualquer efeito junto de um governo que canalizava todas as suas energias políticas e económicas para África. Do ponto de vista administrativo Macau encontrava-se num estado de desorganização patente, ainda que economicamente os monopólios do ópio e do jogo, entre outros, assegurassem ao governo elevadas receitas. Estas fontes foram aproveitadas por Carlos da Maia para pôr em marcha um plano de reorganização política e administrativa que vinha sendo adiada desde a mudança de regime em 1910. Foram igualmente essas fontes de receita que lhe permitiram modernizar com sucesso o esquema defensivo em terra e no mar.
Perante a recusa do governo da metrópole de enviar tropas, o governador toma a iniciativa de organizar um batalhão de voluntários encarregado de auxiliar a guarnição militar local. Este corpo voluntário pouco acrescentava ao dispositivo militar existente não compensando de modo algum a lacuna deixada pela recusa metropolitana, Carlos da Maia sabia-o bem, mas apesar do seu pequeno número a organização do “batalhão de voluntários” visava essencialmente um efeito político e propagandístico exaltando o moral da população de Macau. Apesar de nunca terem tido oportunidade de entrar em acção os voluntários efectuaram treino regular ao longo de todo o período da guerra sendo amiúde citados na propaganda como um exemplo de orgulho nacional na imprensa metropolitana e estrangeira.
A par do “batalhão voluntário” o governador procedeu também à reorganização dos serviços de manutenção da ordem pública com a criação da polícia civil (30-10-1915), organização estruturada segundo os conceitos mais modernos em vigor. Na área de marinha foram igualmente dados passos decisivos num sector que se encontrava em decadência e impossibilitado de efectuar uma guarda minimamente eficaz das costas de Macau e das ilhas, bem como a protecção contra a actividade dos piratas que se mostravam impunes na região do Delta e muitas vezes efectuavam assaltos em terra penetrando até aos mais movimentados bairros do interior da cidade. Para o efeito foi lançado um plano de aquisição de cinco lanchas canhoneiras que restabeleceram o sistema de defesa naval. A culminar toda a estrutura Macau e as ilhas ficaram também ligadas pelo primeiro sistema de comunicações através da telegrafia sem fios. Esta novidade tinha uma importância fundamental tendo em conta que não existiam pontes entre Macau e as ilhas sendo as ligações efectuadas por embarcações civis que efectuavam o percurso com irregularidade, ou muitas vezes, pelas próprias lanchas da marinha à falta dessas carreiras regulares. A par de tudo isto Carlos da Maia aproveitando, como disse, os plenos poderes com que vinha investido de Lisboa e a boa situação económica local interveio também noutros sectores ainda que nem sempre com o mesmo sucesso. Para além de ter levado a efeito um plano de construção de um sistema de escolas primárias (que ficaram conhecidas como “Escolas República”), no plano da educação, construiu também, na área da saúde, uma leprosaria na ilha de D. João (actual Hengqin), introduzindo igualmente um sistema de subsídios aos três principais hospitais (Kiang Wu, S. Rafael e S. Januário). A criação de uma inspecção dos incêndios comandada pelo major Craveiro Lopes (pai do antigo presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes), com a aquisição à Grã-Bretanha do mais moderno equipamento automóvel foi outro ponto importante da sua administração.
A imprensa local informava sobre a guerra na Europa
A par dos sucessos que a história lhe reconhece, Carlos da Maia também conheceu o fracasso em dois pontos importantes do seu mandato. O primeiro foi a tentativa de levar a cabo e concluir as obras de regularização do Porto Interior e o segundo a implementação uma Carta Orgânica de Macau. O plano de reorganização do Porto Interior, que já vinha de trás, voltou a confrontar-se com a hostilidade chinesa que via nele uma tentativa de expansão de Macau tendente à ocupação por Portugal da ilha da Lapa fronteira ao referido porto. Apesar do bom relacionamento de Carlos da Maia com as autoridades republicanas de Cantão, as correntes nacionalistas ali prevalecentes boicotaram todas as tentativas o que acabaria por fazer fracassar o projecto. A implementação da carta orgânica que deveria substituir o antigo estatuto que vinha de 1842 e que corria em linha com a reorganização políticoadministrativa das colónias portuguesas, foi igualmente plano que fracassou antes mesmo de ver a luz do dia. Ao que parece a principal razão do desfecho deve-se ao facto de Carlos da Maia, à semelhança do que tinha feito antes dele o governador Ferreira do Amaral (1846-49), ter proposto a extinção do Leal Senado transformando a antiga instituição numa secretaria do governo para os assuntos municipais. Esta proposta parece ter constituído uma das principais razões que levou à sua demissão. Uma demissão que Carlos da Maia contestou resolutamente mesmo depois de ter regressado a Lisboa, o que fez com que durante largos meses o governo de Macau tivesse ficado a cargo do secretário-geral Manuel Ferreira da Rocha com poderes limitados delegados pelo próprio Carlos da Maia que chegou a despachar assuntos correntes da colónia a partir de Lisboa.
Esta situação vista como anómala pelo direito administrativo era agravada pelo facto de Ferreira da Rocha ser próximo do Partido Democrático de Afonso Costa, que tinha voltado à chefia do governo e que era inimigo político confesso de Carlos da Maia.
Carlos da Maia embarcou no dia 5 de Setembro de 1916 de regresso a Lisboa, num momento em que tropas portuguesas se preparavam para atravessar em Moçambique o rio Rovuma e penetrar em território alemão uma ofensiva que viria a ter custos terríveis para o exército português. Do outro lado das Portas do Cerco Yuan-chi-kay depois de se ter autoproclamado imperador morria (6 de Junho de 1916) antes de ocupar o trono e de imediato a China mergulhou na guerra civil vendo-se dividida de facto pelos senhores da Guerra em várias províncias virtualmente independentes. Na província de Guangdong vizinha de Macau os republicanos voltaram ao poder ainda que coexistindo em frágeis alianças com os senhores da guerra. Apesar do caos o governo central sedeado em Pequim existia ainda que apenas ou quase só nominalmente já que não tinha poder sobre o país. No entanto apenas pelo facto de existir era reconhecido diplomaticamente pela comunidade internacional o que permitiu ao presidente da república general Feng Guozhang, a 14 de Agosto de 1917, acabar com o impasse que persistia e declarar guerra à Alemanha. A tomada de posição chinesa visava não só obter um lugar à mesa dos vencedores no final da guerra, mas também retomar o controlo sobre a província de Shandong ocupada pelos japoneses. Os aliados deram como bemvinda a entrada de Pequim na guerra, mas rejeitaram o envio de tropas para as frentes de combate preferindo negociar a contratação de trabalhadores para a construção e reparação das linhas de caminho-de-ferro na Europa. O contingente laboral chinês ascenderia até ao final do conflito a mais de 100 mil trabalhadores.
Terminado o consulado de Carlos da Maia, Macau voltou a perder protagonismo no seio do império e a política de maior ou menor indiferença, porque sempre se tinham pautado os governos de Lisboa, relativamente à sua colónia da China regressou. Essa atitude ficou bem patenteada no facto de Macau ter ficado entregue a administrações interinas durante quase dois anos, até à chegada de Artur Tamagnini Barbosa como governador em Outubro de 1918. Precisamente um mês antes da assinatura do armistício (11 de Novembro de 1918) que poria termo à Grande Guerra Mundial. 
Artigo da autoria de João Guedes publicado no Ponto Final de 31.12.2014
Nota do autor do blogue: Os dias 16, 17 e 18 de Novembro de 1918 foram 'feriado' em Macau.

sábado, 12 de março de 2016

Macau e a primeira Grande Guerra: 1ª parte

Este ano assinala-se o centenário da participação de Portugal na primeira guerra mundial, conflito que durou entre 1914 e 1918. Na manhã de 9 de Março de 1916, o Barão Friederich Von Rosen, embaixador do Império Alemão em Portugal, deslocou-se ao palácio das Necessidades em Lisboa levando consigo a declaração de guerra. A entrada de Portugal na guerra foi uma opção política com custos económicos e humanos imensos. No final as colónias, incluindo Macau, continuaram portuguesas. Já antes abordei o tema aqui no blogue mas desta vez sugiro a perspectiva 'oriental' num artigo (dividido em duas partes) da autoria do jornalista e investigador João Guedes.
Legenda de uma fotografia publicado na revista Ilustração Portugueza: "Palácio do Governo: Comissão de senhoras trabalhando na confecção dos artigos de agasalho destinados aos feridos de guerra"
O assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevoque desencadeou a 1ª Grande Guerra Mundial foi apenas o percutor de um conflito latente que apenas precisava de uma justificação, fosse ela qual fosse, para eclodir. De facto na era dos caminhos-de-ferro a Alemanha e a Grã-Bretanha eram duas locomotivas a avançar a pleno vapor em sentidos contrários na mesma ferrovia sem que aos maquinistas ocorresse que era necessário mudar de agulha para fugir ao desastre. Ainda hoje se debate sobre quem, nesse contexto, assumiu o papel de agressor. Essa discussão, porém, parece pouco contribuir para a compreensão de um conflito que era de facto inevitável. É que, voltando à alusão ferroviária, os “maquinistas” das duas locomotivas já não dominavam as máquinas limi tando-se fatalisticamente a aceitar que o Mundo se encontrava inexoravelmente em rota de colisão.
As causas da Primeira Grande Guerra Mundial estão hoje bem determinadas prendendo-se essencialmente com a entrada da Alemanha na expansão colonial por um lado e com a corrida aos armamentos, nomeadamente através do plano de desenvolvimento da marinha germânica que significava uma ameaça directa ao domínio absoluto dos mares exercido até então pela Grã-Bretanha. A Alemanha entrou tardiamente na corrida imperial ultramarina e mais tarde ainda na busca de uma presença na China, que conseguiu obter em 1898 com o estabelecimento de uma colónia na localidade portuária de Tsingtao, na província de Shandong. Esta presença foi conseguida (senão mesmo extorquida à China) a pretexto da protecção dos missionários alemães alegadamente ameaçados pelas forças “antiestrangeiras”que se organizavam e ganhavam terreno no Império.
Este movimento viria a culminar com a revolta dos “boxers” que eclodiria dois anos mais tarde ao abrir do pano para o século XX (1900). Rapidamente a Alemanha transformaria Tsingtao num activo entreposto comercial cuja estrutura seria completada com a construção de cais de acostagem que passariam a abrigar o comando naval da esquadra alemã do Pacífico constituída por vários navios de guerra entre os quais sete dos mais modernos cruzadores que a indústria naval alemã, em plena  expansão, tinha produzido.
Corpo de Voluntários de Macau, uma ideia do Governador Carlos da Maia
A potência destruidora dessa esquadra seria demonstrada já durante a guerra na batalha naval de Coronel (junto à ilha do mesmo nome nas costas do Chile). Este recontro travado no início de Novembro de 1914 culminou com a derrota da esquadra inglesa. Tratou-se da primeira derrota britânica significativa em dois séculos de supremacia naval indisputada.
da Inglaterra. A vitória alemã era adivinhada muito antes e a base naval de Tsingtao vista como uma ameaça directa e uma “intromissão intolerável de um recém-chegado” ao concerto das potências coloniais que já desde, pelo menos, a “Conferência de Berlim” (1884) tinham dividido os seus domínios coloniais e estabilizado esferas de influência. Nesse contexto de confronto asiático a tensão geopolítica incrementava-se tendo em conta que Tsingtao fechava estrategicamente o domínio da bacia do Pacífico onde a Alemanha tinha colonizado vários arquipélagos (Ilhas Bismark, Marshal e parte do arquipélago de Samoa). Para além da ameaça directa à Grã-Bretanha a presença alemã no Extremo Oriente inquietava naturalmente as restantes potências europeias, mas também o Japão que prosseguia igualmente uma política colonial de expansão regional nomeadamente no Nordeste Asiático.
De entre as potências coloniais a que menos se encontrava representada na China em termos de extensão territorial) era Portugal que apenas possuía a sua colónia de Macau constituída por uma península onde se erguia a cidade com uma população de cerca de 120 mil habitantes, e duas pequenas ilhas (Taipa e Coloane), praticamente sem potencial militar nem capacidade de defesa face à pequenez das suas dimensões. Tendo essas circunstâncias em conta dir-se-ia que Macau não teria qualquer importância no vasto contexto político militar do Extremo Oriente. Mas a realidade era exactamente a oposta. Para Portugal, era essencial que cada uma das suas possessões ultramarinas participasse activamente nos planos político militares que os aliados lhes destinassem, fossem eles quais fossem independentemente das dimensões geográficas de cada uma. Isto tendo como fim último a preservação do seu todo colonial (principalmente africano) sempre exposto à cobiça das potências europeias mais fortes, sem excluir a velha aliada Inglaterra. A entrada de Portugal na guerra foi pois um imperativo ditado pela preservação das colónias cujo reconhecimento foi assegurada desde logo através de uma declaração de Londres em que “o governo britânico pedia expressamente a Lisboa que não declarasse neutralidade nem participação na guerra. Em contrapartida assegurava que: “...ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o Reino Unido reconhece o direito de Portugal às colónias africanas, contra as pretensões ou iniciativas da Alemanha”. Essa declaração vinha ao encontro das expectativas portuguesas postando-se como uma garantia contra eventuais acordos de partilha das suas possessões pelas potências vencedoras no final do confronto.
Tendo em conta a conjuntura que marcava o limiar da eclosão da Grande Guerra, onde se avolumavam nuvens de borrasca negras de dúvidas no horizonte geopolítico mundial, Macau apesar de diminuta geograficamente valia tanto para Portugal como as grandes colónias africanas de Angola e Moçambique, ainda que nas garantias inglesas as possessões asiáticas portuguesas (Goa, Macau e Timor) não tivessem merecido menção. Parece ter sido essa omissão a razão essencial que leva  Lisboa a quebrar com uma tradição secular na escolha de governadores para Macau que recaía entre os militares que iniciavam carreira na administração colonial, nomeando em vez disso, um peso  pesado da política portuguesa, Carlos da Maia. (continua)
Artigo da autoria de João Guedes publicado no Ponto Final de 31.12.2014