Mostrar mensagens com a etiqueta macaenses. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta macaenses. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de agosto de 2026

Um "explendido baile" em 1867

"Começaremos o noticiario d'esta semana registrando o explendido baile offerecido na noite de 22 do corrente mez a S. Exa. o Governador da colonia pelo sr. Maximiano dos Remedios, negociante muito abastado d'esta cidade. A festa foi brilhante, e os salões onde se reunio uma mui selecta e luzida sociedade estiveram radiantes de luz e alegria desde o principio do baile até ao fim. Á ceia que foi servida alta noite, e a que não faltou nem a profusão nem o bom gosto, trocaram-se diversos brindes, mui apropriados ás circumstancias, e que foram devidamente recebidos e correspondidos.
A entrada da casa do sr. Remedios estava illuminada com intencional primor. Via-se ali uma estrella e umas letras que explicavam brilhantemente qual a pessoa em cuja honra a festa era dada. — S. Exa. o Governador da colonia ficou muito penhorado com semelhante obzequio e soube bem fazel-o sentir n'um brinde affectuoso que dirigiu a toda a familia Remedios n'um dos momentos da ceia, quando lhe coube responder áquelle que lhe endereçou um dos Patriarchas da familia. A festa dos srs. Remedios foi tão agradavel como sympathica a todos aquelles que tiveram a fortuna de tomar parte n'ella."
Foto de John Thomson ca. 1870

A notícia foi publicada a 28.10.1867 no Boletim da Província de Macau e Timor. O governador homenageado neste baile era José Maria da Ponte e Horta (1866-1868).
Filho de António dos Remédios e de Rita de Sousa Peres - casaram em 1791 e tiveram 16 filhos* - Maximiano António dos Remédios (1808-1875) foi de facto um rico negociante e proprietário, fazendo parte em 1871 da lista dos 40 maiores contribuintes de Macau. Ou seja, dos que mais impostos pagava devido às propriedades que possuía.
A residência da família Remédios ficava na colina da Penha onde a família Remédios tinha várias chácaras**, incluindo uma denominada S. José (junto a Santa Sancha) e aquela onde viria a 'nascer' o hotel Boa Vista (em 1890). Tudo indica que a que é referida nesta notícia de 1867 era esta última.
No livro de 1867 "Os Chins de Macau" Manuel de Castro Sampaio escreve que "Uma das primeiras povoações fica próxima da fortaleza da Barra e é por isso chamada Povoação da Barra. A outra acha-se na encosta outeiro da Penha, onde está a fortaleza do Bom Parto, e onde se encontram as mais lindas chácaras de Macau. Esta é conhecida pelo nome de Tanque-Mainato, nome derivado de um tanque de lavadeiros ou mainatos, como lhes chamam no paiz. As outras três povoações são denominadas de Patane, de Mong-ha e de S. Lázaro."

** na toponímia local ainda hoje existe na zona a Calçada das Chácaras.

domingo, 5 de julho de 2026

"Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques"

C. J. Caldeira assina um artigo sobre Macau na edição nº8 de 1864 do "Archivo Pittoresco: semanario illustrado" (Portugal). É acompanhado de uma gravura da autoria de João Pedrozo com a legenda "Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques".
"A estampa representa a casa e cêrca do sr. Lourenço Marques, em Macau, na qual está a celebre gruta de Camões. O mirante que a corôa divisa-se por entre o arvoredo acima da casa que tem frontão triangular, que é a da residencia do proprietario, cercada de jardins, horta e bosque, que a tornam uma das mais pitorescas da cidade, como se póde julgar pelo desenho.
Ao lado direito se vê parte da povoação chineza de Patane, já fóra dos muros da cidade, proxima da porta de Santo Antonio e da egreja e freguezia da mesma invocação, que ficam na parte occulta á esquerda do espectador.
A casa vasta e elegante, que está á esquerda do desenho, pertence e é occupada por irmãos e outros parentes do mesmo sr. Marques, e foi habitação de seu pae. Atraz d'esta divisam-se em grupo os mastros e velas de algumas embarcações chinezas, que costumam fundear proximo á povoação de Patane, ao sopé do monticulo, e que o circunda quasi todo.
O fundo representa o porto interior de Macau, vendo-se sobre a esquerda a ilha da Lapa, antigamente denominada dos Padres, e mais ao longe as alturas da chamada ilha, ou antes peninsula Heang-shan, d'onde corre um canal ou pequeno braço do rio de Cantão, denominado Passagem de Macau, que vem desembocar no dito porto interior. (...)"
A personagem referida é Lourenço Maria Pereira Marques (1852-1911). Um dos 10 filhos do comendador Lourenço Caetano Marques (1811-1902) e Maria Ana Josefa Cortela Pereira (1825-1901) - que era prima - tendo casado a 7 de Agosto de 1838 tendo ela apenas 13 anos.
Esta era filha de Manuel Pereira, o proprietário da referida casa construída ca. de 1770. Casaram em 1838 pouco tempo depois dos ingleses da EIC terem saído de Macau e daquela propriedade que arrendaram entre 1780 e 1838.
Lourenço Pereira Marques, tal como os irmãos, nasceu na propriedade representada na ilustração. Estudou no Seminário de S. José de Macau e depois foi estudar para Lisboa. Fez a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e depois ingressou na Universidade de Dublin graduando-se em 1877 no College of Physicians and Surgeons e em 1881 no Royal College of Physicians". Fez ainda estágios em hospitais em Londres e em Paris antes de regressar a Macau. No final do século 19 estabelece-se em Hong Kong onde chega a dar aulas a Sun Iat Sen...
Dará um contributo decisivo para o que hoje se conhece como gruta de Camões, nomeadamente mandando construir um busto do poeta.
Em 1885 o governo de Macau comprou a propriedade que pouco depois transformou em jardim público, situação que ainda hoje se mantém.
O médico macaense viria a aposentar-se em 1895 em Hong Kong e regressou a Macau passando a a dar consultas médicas gratuitas à população mais carenciada.
Dono de uma erudição invulgar, reuniu uma vasta coleção de arte chinesa. Em 1899, doou cerca de mil objectos etnográficos e históricos à Sociedade de Geografia de Lisboa. Morreu em 1911 com apenas 59 anos na sua casa sita no Largo de Camões (junto à Casa Garden, portanto). Tal como o irmão nunca chegou a casar. Na toponímia macaense existe a Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques (比厘喇馬忌士街)  - no Porto Interior - em sua homenagem.
Dez anos passado sobre a referida ilustração, em 1874, Macau é assolado por um tufão que deixa uma rasto destruição imenso. A fotografia acima - provavelmente da autoria de Lai Afong - documenta os efeitos na igreja de Santo António e num edifício que Caldeira descreve no artigo de 1864. (assinalei a vermelho). Terá sido demolido posteriormente. Quando o governo de Macau compra a propriedade em 1885 e transforma o espaço num jardim público este edifício já não aparece. Corresponde ao actual Largo/Praça de Camões, à entrada do jardim tendo do lado direito o acesso à chamada Casa Garden.
O edifício denominado Casa Garden remonta a ca. de 1770. Em 1794 é abundantemente registado na primeira embaixada de Inglaterra à China. Por essa altura já o edifício e propriedade envolvente tinha sido arrendado à East India Company que ali colocara a morar os mais altos quadros da EIC. Os restantes viviam em também edifícios arrendados na Praia Grande.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Viúvo macaense" procura "solteira ou viúva não menos de 25 anos"

Na edição de 1 de Novembro de 1919 do jornal O Macaense é publicado este anúncio:
VIUVO MACAENSE, empregado no commercio em Shanghai, salario $350 mensais, achando-se inabilitado de visitar Macau, deseja corresponder com uma solteira ou viuva não menos de 25 anos de idade, natural de Macau, com o fim de matrimonio. Dirigir-se inclusando fotografia a “VIUVO” c/o. British P. O. Box 162, Shanghai.
Na época o "casamento por correspondência" (antecessor dos modernos sites de encontros) era uma ferramenta legítima e comum para quem queria casar dentro do seu grupo étnico/cultural mas vivia longe da terra natal.
Em Xangai existia uma importante comunidade macaense: empregados no comércio, tradutores, escriturários, bancários, etc... O valor do salário era considerado bastante acima da média na época.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

"Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau"

Composto por três volumes, "Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau", é um novo dicionário do crioulo de Macau, o patuá, da autoria do investigador português Raul Leal Gaião.
A obra foi publicada com o apoio da Universidade de Macau e apresentada no início do 2.º Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa.
O patuá é um sistema linguístico criado pela comunidade luso-descendente de Macau ao longo de 400 anos. Tem o português como base, mas mistura-o com malaio, cantonense, inglês e espanhol. Segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o patuá está "gravemente ameaçado de extinção".

domingo, 21 de junho de 2026

Bandas musicais macaenses das décadas 1960 e 1970

Na imagem Rui Espírito Santo, o baixista da célebre banda dos anos 60, os "Irmãos Espírito Santo".
Nas décadas de 1960 e 1970 ficaram ainda para a história da música em Macau grupos como os The Thunders, Telecasters, Young Ones, Heartbeats, The Myths, Flipsiders, The Lovers, Colourful Diamonds, etc... 
Nesta era de ouro dos agrupamentos musicais macaenses registaram-se concertos em locais como os hotéis Estoril, Caravela, Club de Macau, Teatro D. Pedro V, Cinema Nam Van, Teatro Cheng Peng, etc... 
The Thunders / Os Trovões

Recupero uma notícia de uma publicação de Hong Kong em 1967 relativa aos "Irmãos Espírito Santo".

Esperitosanto — Five Popular Macau Men
Here are five of the most popular young men in Macau — and they're all brothers. They're the Irmaos Espiritosanto, formed five years ago and now one of Macau's top groups.
Reading from the right, they're Rui (25), Jose (20), Reinaldo (18), Alfredo (16) and Antonio (15).
Rui, the married member of the group, is very proud of his eldest son, Panchito, who is already showing signs of following in dad's footsteps. Despite his tender years, young Panchito can already play the drums and shows ability with several instruments. Rui plays bass guitar in the group and sometimes fills in with a song. Jose, whose ambition is to become Macau's top guitarist, is the group leader and soloist. He is still at school, but hopes to make a career of music. Reinaldo, the rhythm guitarist, is a bird-lover and keen painter. He has done some fine paintings of the Macau's bullfights. Alfredo, who plays the drums, has an unusual hobby — he collects insects and butterflies. The "baby" of the family, Antonio, plays the maraccas and sometimes rhythm.
Tradução/Adaptação

Espírito Santo - Cinco Homens Populares de Macau
Aqui estão cinco dos jovens mais populares de Macau — e são todos irmãos. Eles são os Irmãos Espirito Santo, formados há cinco anos e hoje um dos principais grupos de Macau.
Lendo a partir da direita, eles são Rui (25), José (20), Reinaldo (18), Alfredo (16) e António (15). Rui, o membro casado do grupo, tem muito orgulho do seu filho mais velho, Panchito, que já mostra sinais de seguir os passos do pai. Apesar da sua tenra idade, o jovem Panchito já sabe tocar bateria e mostra habilidade com vários instrumentos. Rui toca baixo no grupo e, às vezes, complementa com uma canção. José, cuja ambição é tornar-se o melhor guitarrista de Macau, é o líder do grupo e solista. Ele ainda está na escola, mas espera fazer carreira na música. Reinaldo, o guitarrista rítmico, é um amante de aves e um pintor dedicado. Ele fez belas pinturas sobre as touradas de Macau. Alfredo, que toca bateria, tem um passatempo invulgar — coleciona insectos e borboletas. O "bebé" da família, António, toca maracas e, às vezes, ritmo.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Copia de parte da carta das alfandegas chinezas de Cantão"

Datada de 20 de Abril de 1908 esta "Carta das Alfândegas Chinesas de Cantão" faz parte do espólio do Arquivo Municipal de Ponte de Lima e tem uma nota manuscrita da autoria de João Feliciano Marques Pereira (1863-1909). Aliás, todas as anotações são dessa data feitas por JFMP.
Segundo ele trata-se de uma "Copia de parte da carta das alfandegas chinezas de Cantão, intitulada "Sketch map of the Chu-kiang or Pearl River, etc, by Thomas Marsh Brown, Imperial Customs, Canton station."
E acrescenta:
"Este mappa é importantissimo para a questão da delimitação das fronteiras de Macau, na parte relativa á ilha da Lapa, visto que, a-pezar de limitar a nossa linha de limites para oeste do meridiano das Nove Ilhas e de pôr fóra da nossa jurisdicção uma parte da costa meridional da Ilha da Taipa, Grande parte das de Colo-an, Tai-vong-cam (Montanha) e Sio-vong-cam (D. João), mette dentro da nossa jurisdicção a margem e a vertente da ilha da Lapa fronteira á cidade de Macau.A copia é fiel da carta chineza, que possuo, levando a mais só, em côr verde, as indicações que accrescentei, como esclarecimento.

Da Legenda ou "References" convêm extrahir o seguinte:
🔴 ...... "denotes villages, large and small"
🚩 ...... "points out those places, on this map, where H.E. the Superintendent of Customs has stations."
✡️ ...... "denotes those stations round Hongkong and Macao where there are war junks, or steamers stationed to collect the duty and war tax on opium—also shows the shore stations"

João Feliciano Marques Pereira nasceu em Macau a 17 de Maio de 1863, filho de Belarmina Inocência de Miranda, natural de Macau, e de António Feliciano Marques Pereira, natural de Lisboa. 
Ainda jovem, foi para Lisboa onde prosseguiu os estudos no Colégio Luso-Brasileiro e depois no Curso Superior de Letras. Ali, foi discípulo do prestigiado Adolfo Coelho e concluiu o doutoramento com distinção. 
A sua trajectória profissional foi marcada pelo serviço ao Estado. Começou por desempenhar funções no Ministério dos Negócios Estrangeiros, transitando em 1888 para o Ministério da Marinha e Ultramar. Em 1897 tornou-se secretário particular do Conselheiro Barros Gomes, então Ministro da Marinha. No campo político, representou o círculo de Macau como Deputado no Parlamento português. 
Morreu a 7 de Junho de 1909, com apenas 46 anos, enquanto ainda exercia o seu mandato legislativo. 
Seguindo os passos do pai, João Feliciano foi uma figura central na preservação da memória histórica luso-chinesa. Em 1899, fundou a revista “Ta-Ssi-Yang-Kuo: Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Português” (publicada até 1903), cujo título homenageava a publicação homónima fundada pelo seu progenitor no ano do seu nascimento. Como jornalista e cronista, utilizou o pseudónimo Fernão Lopes para assinar crónicas ultramarinas no Jornal do Comércio. Colaborou também activamente com a Revista Colonial e Marítima e dirigiu diversas outras publicações técnicas e literárias. Em 1906, com a criação da Escola Colonial, assumiu a cátedra como professor efetivo de Legislação e Administração Ultramarinas. 
O seu mérito intelectual foi amplamente reconhecido através de diversas honrarias: 
Oficial da Ordem de S. Tiago: Pelo seu contributo científico, literário e artístico.
Sociedades Científicas: Foi membro honorário da Real Sociedade Asiática de Paris, vogal da Real Associação de Arquitectos e Arqueólogos Portugueses e sócio correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.
Comissões Técnicas: Em 1904, integrou a comissão oficial responsável por estudar o regime fiscal e de monopólios de Macau.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Curiosidades históricas VI - Bocage"

Gabriel Fernandes assina uma coluna intitulada "Curiosidades Históricas" no jornal "O Conimbricense" em 1895. Localize uma sobre Camões e outra sobre Bocage (1765-1805), que viveu em Macau entre Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, oriundo da Índia de onde desertou do cargo de guarda-marinha.  É a número VI que a seguir se transcreve:

"Curiosidades históricas VI - Bocage"
Manoel Maria de Barbosa Hedois du Bocage («Elmano Sadino»), vindo de Goa, por via de Surrate, (porto então de muito commercio) chegou a Macau em Julho de 1789.
Durante a sua estada nesta cidade, além da elegia feita á memoria do principe do Brazil D. José, fallecido em 11 de Setembro de 1788, e á qual se refere Rebello da Silva (a) compoz diversas poesias satyricas, taes como: O canto da Beba, Os sonetos contra certos moradores de Macau, etc., que ainda se acham ineditos*.
Deparando-lhe um protector no ouvidor Lazaro da Silva Ferreira e membro do conselho governativo, por morte do capitão geral Francisco Xavier de Mendonça Côrte Real, pôde o insigne poeta regressar a Lisboa, onde desembarcou em Agosto de 1790, vindo a fallecer em 21 de Dezembro de 1805 com 40 annos de edade incompletos.
Despachado guarda-marinha para o estado da India, por decreto de 4 de Fevereiro de 1786, entrou em Goa em 29 de Outubro subsequente, sendo nomeado tenente de infanteria da 5.ª companhia do regimento da praça de Damão em virtude da portaria do governador da India, Francisco da Cunha Menezes, de 25 de Fevereiro de 1789.
O seu poema satyrico a Monteigui, presume o escriptor indiano Filippe Nery Xavier ter sido feito ou na viagem para Macau, ou em Surrate, theatro das façanhas da sua heroina Anna Jacques Mondteigui ou Monteigui, natural da cidade de Damão e casada com o alferes Jacques Filippe, do mesmo appellido, por entre 1775 a 1782.
O referido escriptor Rebello da Silva, ignora a época em que o poeta naufragára, se foi á ida ou á volta de Macau, salvando a nado e recolhendo algumas poesias, estampadas depois no 1.º tomo das suas Rythmas. (b)
Lisboa. Gabriel Fernandes.
(a) Vide Memoria biographico-litteraria ácerca de M. M. B. du Bocage..., por Luiz Augusto Rebello da Silva.
(b) Ibidem Diccionario Bibliographico Portuguez (na parte respectiva).
Ilustração criada por IA a partir de desenho de 1850 de Joaquim Pedro de Sousa

O autor do artigo é José Gabriel Bernardo Fernandes*, nascido a 29 de Dezembro de 1848 em Macau (na Sé). Formou-se em Direito em Coimbra no ano de 1875. Empregado no Ministério dos Negócios da Fazenda, foi Conservador do Registo Predial em Angola e Juíz de Direito em Moçambique. Foi também jornalista e historiador, autor dos «Apontamentos para a história de Macau» (Lisboa, 1883), da «Relação dos bispos de Macau» (1884) e de «Jornalismo em Macau». Colaborou no «Jornal de Coimbra», no «Conimbricense» e no «Impulso às Letras», de Hong Kong. Morreu em 1914.
O pai era João Gabriel Fernandes, nascido em Bardez, Goa. Com os preparatórios do Seminário de Chorão e estudos preliminares da época, após Exame de Estado obteve Carta de Advogado junto da Relação de Goa (1845), com a provisão para advogar nas possessões da Ásia (1863) fixando-se em Macau onde foi Juíz da Paz e Síndico da Misericórdia e do Colégio de São José, bem como das Missões do vasto Padroado Português de Pequim, Nanquim e Singapura. Foi ainda Auditor de Guerra e Vogal do Conselho do Governo de Macau e Secretário do Governo. Em Macau foi um dos fundadores do semanário histórico e literário «Ta-Ssi-Yang-Kuo – Semanário macaense d´interesses publicos locaes, litterario e noticioso» e autor de um esboço biográfico sobre o macaense A.J. de Miranda. Retirou-se para Coimbra (1870/83) onde viria a morrer.
Sobre pai e filho basta utilizar o campo de pesquisa para procurar artigos publicados no blog.

* o poema sobre Macau é um retrato fiel de como era o território na época em que Bocage ali viveu (e onde tem o nome numa rua). Em breve publico.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Luís Gonzaga Gomes: cinquentenário da morte

Em Março último assinalou-se o cinquentenário da morte de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Nome incontornável da restrita galeria dos mais ilustres macaenses do século 20 foi escritor, sinólogo, tradutor, filólogo, historiador, musicólogo e professor.
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907, filho de Joaquim Francisco Xavier Gomes e de Maria de Conceição Gonzaga Gomes. A sua formação académica e intelectual foi moldada no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde teve como professores figuras influentes como o historiador José Maria Braga (Jack Braga) e o prestigiado Camilo Pessanha, que marcaram profundamente o seu interesse pela história e pela cultura oriental.
Após concluir os estudos, iniciou a sua vida profissional em 1928 como tradutor-intérprete oficial. A sua capacidade de ligação entre comunidades permitiu-lhe, entre 1932 e 1934, atuar como interlocutor em questões sensíveis da administração colonial. Em 1949, fundou o Círculo Cultural de Macau, tornando-se um pilar da dinamização artística do território.
Como docente no Liceu de Macau (onde antes fora aluno), foi mestre de várias gerações que viriam a destacar-se na vida pública e cultural de Macau, incluindo o advogado e historiador Jorge Cavaleiro e o intelectual Henrique de Senna Fernandes, que frequentemente o recordava como um mentor rigoroso e apaixonado pela alma macaense.
Entre 1951 e 1954, dirigiu a Biblioteca Pública e o Arquivo Histórico. Em 1960, assumiu a direção do Museu Luís de Camões, cargo que ocupou até à sua morte.
Morreu a 20 de Março de 1976, deixando um legado inigualável como o "intérprete" por excelência da história luso-chinesa.
Condecorações e distinções:
1958: Grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública (Portugal, 20 de janeiro).
1962: Cavaleiro da Ordem de São Silvestre Papa (Santa Sé, pela sua dedicação à comunidade católica e ensino).
1969: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique
Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.
Postumamente: Medalha de Valor de Macau, atribuída pelo Governo de Macau (Gov. Almeida e Costa) em reconhecimento ao seu serviço excecional.
Em 1977 o seu busto foi colocado numa sala do Museu Luís de Camões e em 1984, um outro busto foi colocado no Jardim de S. Francisco. Ambos da autoria do escultor italiano Oseo Leopoldo Acconci.
Dá ainda nome a uma rua e a uma escola em Macau.
Sendo um dos autores mais prolíficos do seu tempo publicou centenas de artigos na imprensa: Notícias de Macau, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Mosaico (revista do Círculo Cultural de Macau), etc...
Algumas das principais obras:
1941: Vocabulário Português-Cantonense
1942: Vocabulário Cantonense-Português
1942: Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo — Tradução para a língua cantonense da adaptação em prosa de João de Barros.
1945–1946: Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) — Tradução para português, a partir do cantonense, da obra dos mandarins Tcheng U Lám e Jan Kuong (séc. XVIII).
1950: Contos Chineses
1951: Lendas Chinesas de Macau (também referida apenas como Lendas de Macau)
1951: A Influência Portuguesa na Civilização Chinesa
1952: Chinesices
1952: Curiosidades de Macau Antiga
1953: Festividades Chinesas
1954: Arte Chinesa
1954: Efemérides da História de Macau
1957: Páginas de História de Macau (Primeiros volumes/ensaios)
1958: Noções elementares da língua chinesa
1959: Macau: Factos e Lendas
1959: A Mensagem de Fernando Pessoa — Tradução para a língua cantonense.
1964: O Estudo do Chinês em Macau
1966: Páginas de História de Macau (Edição consolidada)
1966: A Arte Musical em Macau
1967: Festas e Tradições Chinesas
1968: Notas sobre o Teatro Chinês
1969: As Religiões e os Cultos em Macau
1971: Bibliografia Macaense
1973: Demografia de Macau através dos Tempos
1973: Bibliografia Macaense (Edição/Actualização)
1975: Macau e a sua Gente

sábado, 4 de abril de 2026

"Terra das nhonhas e das delicias"

Em cima um postal ilustrado publicado em Hong Kong - Graça & Co. - no final do século 19/início do século 20 (os selos são já da República). Tem como legenda "Mulheres de Dó, Macao". Tudo indica que a fotografia foi tirada na Praia Grande.
"A sahida da missa" é a legenda da fotografia publicada na "Illustração Portugueza", edição semanal do jornal O Século (Portugal), a 4.12.1908.

Excerto do artigo:
"Após uma digressão pelas casas de jogo, d´amor, d´embriaguez, traz-se a impressão cançada do goso, mas olhando n´um dealbar verão a cidade onde as nhonhas de lindas pernas, com seus trajes de dó ou com seus vestidos leves, vão passar dentro em pouco, reparando n´esses bairros adormecidos, sob a luz doce do sol e comparando-a com essa China do luxo e da mizeria onde tantos milhões de homens luctam, sente-se bem que Macau foi feito para paraizo dos mandarins, dos ricos e dos piratas e logo nos vem á mente que com esse caminho de ferro de Cantão até ali, que já temos licença para fazer, a cidade seria definitivamente o logar de regalo de todo esse Extremo Oriente se dentro de gosos, que abafa ou se regela na sua atmosfera e que ali, em Macau, encontraria a sua estancia de prazeres, fazendo correr o ouro que seria applicado em torar mais deslumbrante a linda terra das nhonhas e das delicias.
A macaísta, que mettida nos seus trajos de dó tem alguma cousa das nossas antigas damas embiocadas, talvez então se desse mais à vida da rua, talvez mergulhasse n´esse banho de luxo e perdendo a característica do trajar iria docemente, sem dar por isso, deixando o recolhimento em que vive."
Desenho por IA a partir do postal referido

No contexto do crioulo-português de Macau, "nhonha" é usado para designar uma moça, garota ou mulher nova. As nhonhonas eram as mulheres/senhoras que vestiam o traje de "dó" em certas ocasiões, como a missa. As mulheres usavam uma saia comprida e um manto largo que cobria a cabeça e os ombros. Em situações de luto fechado, o manto era puxado para a frente para esconder parcialmente o rosto, como se vê nas figuras à esquerda.
Na livro "O Traje da Mulher Macaense Da Saraça ao Dó das Nhonhonha de Macau", de Ana Maria Amaro (Instituto Cultural de Macau, 1989):
"Nos primeiros tempos da ocupação de Macau pelos portugueses as mulheres asiáticas ou euro-asiáticas que os acompanhavam usavam um trajo original que se vulgarizou em todas as cidades do Oriente onde estes se fixaram. Este trajo nem era aquele que usavam as mulheres portuguesas da Europa nem o trajo próprio de nenhuma das etnias asiáticas. Como teria nascido este trajo que, no Oriente, era conhecido por saraça-baju ou pano-quimão?"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em memória do pai...

Em Maio de 2019 a galeria At Light, no Pátio do Padre Narciso em Macau, acolhia a exposição "Casa das Duas Filhas - Fotos da Família de José Vicente Jorge".
As duas filhas (de José Vicente Jorge) que deram o mote à mostra eram Henriqueta* e Maria. As irmãs foram as mães dos primos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge que acabariam por casar.
Pedro e Graça são um exemplo na perpetuação da memória da história da família intimamente ligada a Macau. Basta lembrar livros como "A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô" (1992), "Danilo no Teatro da Vida" (2010), "José Vicente Jorge: Macaense ilustre" (2012), entre outros, mas também inúmeras iniciativas de índole cultural, incluindo exposições com as pinturas de Pedro Barreiros que morreu a 15 de Janeiro de 2022.
Pintura de Pedro Barreiros: exposição em 2013

Miguel Barreiros, filho de Pedro, não teve oportunidade de ver esta exposição e após a morte do pai prometeu "dar continuidade" ao seu trabalho "para preservar a memória da nossa família de Macau e do meu bisavô, José Vicente Jorge".
Por estes dias recebi um e-mail do Miguel com votos de "Kung Hei Fat Choi! 恭喜發財" onde explica que o pai "tinha a tradição de celebrar o Ano Novo Chinês partilhando um desenho do animal do zodíaco que iniciava o seu ciclo". Na ausência física do pai, Miguel decidiu "retomar esse gesto em memória dele e em honra às nossas raízes de Macau. Partilho convosco este desenho que fiz inspirado nessa tradição e pela mestria dos seus traços. É a minha forma de o homenagear e de manter viva a sua arte e o seu espírito."
Aqui fica... Kung Hei Fat Choi e um abraço Miguel!
* Henriqueta Pacheco Jorge Barreiros - filha de José Vicente Jorge e mulher de Danilo Barreiros - foi aluna de Camilo Pessanha (1867-1926) em Macau. Henriqueta ambicionava ir estudar para Portugal mas o pai não concordava. Foi Pessanha que não só o convenceu como pagou uma mesada à estudante. 
Pedro Barreiros (1943-2022), filho de Danilo Barreiros e neto de José Vicente Jorge que foi amigo de Pessanha, revelou esta história em Outubro de 1990 aquando de uma exposição em Macau com pinturas suas sobre Pessanha: "Foi Camillo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a “gentil menina” e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!"

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Marciano Baptista: do desenho a lápis à aguarela

O Forte de S. Tiago da Barra é uma das muitas aguarelas produzidas por Marciano Baptista  (1826-1896) na segunda metade do século 19. No espólio de José Maria (Jack) Braga (1897-1988) à guarda da Biblioteca Nacional da Austrália está o desenho a lápis e caneta que Marciano fez antes da aguarela. A indicação manuscrita no desenho - "S. Tiago Fort, Macao by M. Baptista" - terá sido feita por Marciano ou por Braga, quando fez a doação do seu espólio em 1966. Tal como Marciano, também Jack Braga, viveu em Hong Kong.
Uma pequena descoberta para assinalar os 200 anos do nascimento daquele que é considerado o maior nome da pintura macaense no século 19. Em baixo o resultado de uma imagem criada por IA onde solicitei a sobreposição do desenho e da aguarela.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Grande Prémio de Macau – Colecção Pessoal de Victor H. de Lemos (1967-1978): 2º volume

Recortes de jornais, fotos e cartazes relativos às edições do Grande Prémio de Macau entre 1967 e 1978 são a base do livro publicado por estes dias em Macau - Grande Prémio de Macau – Colecção Pessoal de Victor H. de Lemos (1967-1978): 2º volume - por Carlos Lemos, filho de Victor H. Lemos, um grande coleccionador de imagens e materiais relacionados com o GPM.
A obra editada com o apoio da APOMC tem 356 páginas e cerca de 400 fotografias. O primeiro volume, publicado em 2023, aborda os anos de 1954 a 1966.
A primeira edição do GPM decorreu em 1954

domingo, 19 de outubro de 2025

A China e os Chineses

Da autoria de Carlos Jacinto Machado (1891-1975) o livro "A China e os Chineses" foi impresso e editado em 1926 pela Tipografia da Escola de Artes e Ofícios.
Na capa refere-se que se trata de um "estudo analítico contendo uma descrição resumida de alguns usos e costumes chineses e das suas principais superstições".
Nascido na Sé, o macaense Carlos Jacinto Machado publicou inúmeros artigos na imprensa da época, não só em Macau como também em Hong Kong, Xangai e Brasil. Aqui ficam dois exemplos:
- The Pearl of the Far East, Kwo Tai Press, Xangai, 1937.*
- A Colónia Portuguesa de Xangai, Boletim Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, 1937

* pequeno livro que tem por base uma palestra proferida no salão da Câmara de Comércio Russa, em Xangai a 4.11.1936. O autor chegou a trabalhar no consulado de Portugal nesta cidade chinesa na década de 1940.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

"Ser Arquitecto em Macau"

José Celestino da Silva Maneiras nasce em Macau, em 1935, numa família macaense enraizada na sociedade local. Permanece nove anos em Portugal, onde chega em 1953, em pleno pós-guerra, e quando o regime do Estado Novo admite aberturas pontuais ao contexto internacional, como prova a realização, em Lisboa, do III congresso da União Internacional de Arquitectos (UIA). Dois anos depois, ingressa no Curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, diplomando-se em 1962. Nesse mesmo ano retorna ao território chinês então sob administração portuguesa. A cidade possui uma elite fechada, provinciana e colonial, pouco receptiva a novidades exteriores e também à arquitectura internacional. Não há grande actividade construtiva e a edificação corrente não excede os três pisos, devendo-se essencialmente ao trabalho de engenheiros radicados no território ou a desenhadores chineses que reproduzem mecanicamente projectos de arquitectos e de outros profissionais. No arranque dos anos de 1960, o objectivo de promotores e empreiteiros é já ganhar dinheiro rapidamente.
O regresso de José Maneiras faz parte de um breve movimento migratório que leva um conjunto de jovens arquitectos portugueses a Macau, casos de Manuel Vicente, Natália Gomes, Ramires Fernandes ou Jorge Silva. Integram então os quadros técnicos do governo local, desenvolvendo planos urbanos para a cidade. A equipa, coordenada por Manuel Vicente, opta por propor planos parcelares, contendo directrizes orientadoras para alinhamentos e cérceas. As propostas são mal recebidas pela população, maioritariamente chinesa, criando alguma inércia à sua aplicação com a conivência da administração colonial pressionada pela condição política da República Popular da China, com quem Portugal não mantém relações diplomáticas.
Desse grupo inicial de arquitectos, a partir de 1966 apenas Maneiras permanece em Macau. Uma possível mobilização militar para a guerra colonial, em curso nos então territórios portugueses em África, obriga-o a ficar. Sucede a Manuel Vicente no acompanhamento à obra do Liceu Pedro Nolasco de Raul Chorão Ramalho – um dos edifícios modernos mais significativos da presença portuguesa – batendo-se mais tarde contra a sua demolição. Os acontecimentos de 3 de Dezembro de 1966 no território (o amotinamento popular, que ficou conhecido por “1-2-3”, muito influenciado pelo clima vivido durante a Revolução Cultural chinesa), que coloca em causa o governo colonial, e o afastamento geográfico face à Metrópole, provocam um período de baixo investimento que se reflecte na quase inexistência de encomenda pública e privada.
A partir de 1967, José Maneiras lança-se na actividade privada, mantendo um atelier de produção “artesanal”, com a colaboração de um ou dois desenhadores, e seleccionando as encomendas, o que lhe permite sobreviver aos tempos de menor solicitação de projectos. Da sua obra construída durante esta fase, e localizada essencialmente em Macau, torna-se tarefa difícil encontrar exemplares intactos. Muitos edifícios foram demolidos, intervencionados ou estão em risco de desaparecer. A falta de hábito de registo, por parte dos profissionais da sua geração, também não ajuda ao levantamento sistemático deste património quase desconhecido. Mas nestes anos de 1960, o arquitecto desenha e concretiza um conjunto de edifícios residenciais de inclinação brutalista, no quadro das exigências das regiões tropicais, que constitui, provavelmente, a sua fase criativa mais importante. Deste elenco, destacam-se os conjuntos habitacionais na Rua da Praia Grande (Conjunto São Francisco, 1964), na Estrada do Visconde de São Januário (duas residências, 1965), Belle Court na Penha (casa e bloco de apartamentos, 1968) ou o programa residencial para invisuais, a pedido da Santa Casa da Misericórdia (1970), na Rua Sete do Bairro da Areia Preta.
Entre a construção cerrada de Macau, as variações de escala destes programas residenciais produzem ambientes contrastantes, onde uma urbanidade, colossal e compacta, dá muitas vezes lugar a espaços de maior domesticidade. Na obra de José Maneiras, a torre da Rua Ferreira do Amaral, implantada sobre uma plataforma de serviços, e o bloco de três pisos, para invisuais, funcionam como pólos opostos da mesma realidade urbana. No momento em que é concretizado este último conjunto, o terreno encontra-se ainda vazio de construções. O projecto é executado com custos muito controlados e áreas que rentabilizam a dimensão do lote.
O arquitecto elabora ainda fábricas verticais – também um programa especifico de territórios com elevada densidade construtiva e pouca área disponível (a maioria destes imóveis encontra-se actualmente desactivada, uma vez que a produção industrial migrou entretanto para a China, tendo-se Macau especializado no jogo). A apropriação dos edifícios faz-se à mesma velocidade da sua ocupação, alterando algumas das soluções arquitectónicas originais, designadamente aquelas mais ligadas ao controle climatérico. Conforme testemunha, a qualidade construtiva também não é, ao tempo, elevada, facto que contribui para a rápida deterioração e consequente substituição do edificado. A maioria dos materiais empregues é já originária da China. Esta rápida deterioração é igualmente facilitada pela legislação que na época privilegia a propriedade horizontal, ilibando governo e privados da reabilitação dos edifícios. O 25 de Abril de 1974 vai acelerar o desenvolvimento do território, assistindo-se à chegada de um novo surto de profissionais portugueses durante a década seguinte. Alguns vêm dos antigos territórios coloniais. O arquitecto mantém a mesma postura independente, que caracteriza a sua personalidade profissional antes da Revolução. É o tempo dos grandes equipamentos públicos, desenhados dentro de filiações linguísticas mais corporativas (Interiores e ampliação do Banco Nacional Ultramarino, 1975; Hotel Ramada, não construído, 1980; piscina do Complexo Desportivo, 1984; Centro de Desportos Náuticos na albufeira da barragem de Hac Sa, 1995, p.e.). Em 1987, participa no grupo que funda a Associação de Arquitectos de Macau (AAM). Eleito no ano seguinte para o cargo de presidente, cumpre dois mandatos. Reflexo da dinâmica que imprime à organização, a AAM integra a UIA no XVI congresso realizado em Montreal, em 1990.
O governo democrático traz novas oportunidades e José Maneiras torna-se igualmente vereador (1972-1989) e, mais tarde, Presidente do Leal Senado (1989-1993), fazendo a ponte entre as culturas chinesa e portuguesa, como é tradição entre a comunidade macaeense. A prática da arquitectura fica, então, em segundo plano. Afasta-se da actividade política no período de Vasco Rocha Vieira, que governa o território na última década da presença portuguesa, entre 1991 e 1999.
Monumento de Homenagem à Diáspora Macaense junto à Fortaleza de S. Tiago da Barra

Com a criação da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), em 1999, o território conhece a actual fase de desenvolvimento urbano tornando-se apelativo a profissionais de outras esferas geográficas. É o tempo das grandes corporações de arquitectos de Hong Kong ou dos EUA cuja experiência na produção de uma arquitectura comercial e de inspiração “tecnológica” serve os novos objectivos da cidade. Macau deseja superar Las Vegas, em volume de negócios do jogo, em construção, e em imaginário. Os pequenos ateliers têm maior dificuldade em sobreviver . O conjunto banda e torre da Praia Grande – tropical, complexo e brutalista – surge agora na sombra do “enorme, dourado, reluzente” (e anónimo) novo Casino Lisboa. José Maneiras alia-se a outros arquitectos com obra no território e dá continuidade a uma fase mais direccionada para o acompanhamento de grandes programas urbanos. Projectos como a requalificação da Praça do Tap Seac (2003-2006), com Carlos Marreiros e José Chui Sai Peng, ou a coordenação da equipa projectista do reordenamento viário da Rotunda Dr. Carlos de Assumpção (2006), assinalam este período do seu percurso profissional.
O crescimento recente da cidade, porém, estigmatiza os edifícios “modernos”. O edifício comercial Si Toi – Hong Kong Bank (actual HSBC – Hong Kong and Shangai Bank Corporation, 1982), também da sua autoria, é um caso exemplar deste fenómeno. Localizado no centro é a primeira obra em Macau a recorrer a um sistema curtain wall. O sistema é adoptado, já em construção, por decisão do promotor que assim procura alinhar-se com as tendências praticadas em Hong Kong, contrariando a opinião do arquitecto que duvida da sua eficácia em climas tropicais. Todavia, José Maneiras adapta o projecto e o edifício constrói-se com dignidade. O programa admite na época, um centro de convenções e escritórios. Hoje está ocupado com clubes privados e salões de bilhar. A pala da cobertura foi entretanto fechada. Um dos actuais proprietários chegou mesmo a romper uma laje para ligar dois pisos. O arquitecto confirma que o edifício original “nem se vê”.
Cartaz de uma palestra realizada em Macau em 2023

José Maneiras prossegue entretanto com a sua actividade, privilegiando projectos de pequena escala, como renovações de edifícios de valor patrimonial, e continuando “velhas” práticas, como o acompanhamento da obra ou a elaboração de pormenorizados desenhos. O Monumento à Diáspora Macaense, na Rua São Tiago da Barra, inaugurado em 2001, insere-se nestas preocupações. Torna-se também consultor na companhia Nam Van, para o Plano da Baía da Praia Grande, e presidente da Assembleia Geral do Laboratório de Engenharia Civil de Macau. Em 2006, é nomeado membro honorário da Ordem dos Arquitectos por indicação do então vice-presidente da instituição portuguesa e seu velho companheiro em Macau, Manuel Vicente. O seu trabalho em defesa da dignidade da prática arquitectónica, num contexto de elevada competição profissional, é considerado um exemplo ético para as novas gerações. O reconhecimento público chega assim entre pares.
Texto de de Ana Vaz Milheiro (com Hugo Coelho, em Macau) publicado no nº 243 do Jornal de Arquitectura, 2011.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Cemitério de S. Miguel Arcanjo em Agosto de 1968

Esta fotografia foi tirada há 57 anos - Agosto de 1968 - e mostra uma vista parcial do Cemitério de S. Miguel Arcanjo em Macau. Do lado esquerdo destaca-se o busto em mármore de Vicente Nicolau de Mesquita (1818-1880). 

No pedestal pode ler-se: "Erecto por subscrição pública com o concurso da primeira subscrição promovida pela Comunidade Portuguesa de Hong Kong em 1884. Tomou Passaleão em 25-8-1849. Faleceu em 20-3-1880. Foi transladado em 28-8-1910. Teve nesse dia honras militares e eclesiásticas".

Vicente Nicolau de Mesquita nasceu em Macau a 9 de Julho de 1818 e morreu em Macau a 20 de Março de 1880. Filho de uma antiga família mestiça luso-descendente (ou macaense) que se fixou em Macau na 1.ª metade do século XVIII destacou-se como militar sendo vulgarmente designado por coronel Mesquita. No dia 9 de junho de 1835, ingressou voluntariamente no Batalhão do "Príncipe Regente", sendo promovido a segundo-tenente a 15 de julho de 1847.
Teria um papel central na Batalha do Passaleão, travada no dia 25 de agosto de 1849 contra as forças chinesas que cercaram Macau, conseguindo derrotar o exército chinês. Tudo isto na sequência do assassinato do governador Ferreira do Amaral poucos dias antes.
Devido à sua coragem heróica, foi promovido a primeiro-tenente no dia 12 de Janeiro de 1850. A 7 de Fevereiro de 1867 foi promovido a tenente-coronel e no dia 27 de Outubro de 1873 foi promovido finalmente a coronel.
O coronel Mesquita foi também comandante da Fortaleza da Taipa, do Forte de São Tiago da Barra e da Fortaleza do Monte. Foi ainda membro do Conselho do Governo e do Conselho da Justiça Militar.
Queixoso do atraso na promoção pelo reconhecimento oficial do seu papel na proteção de Macau sofreu uma série de graves crises nervosas que o forçou a aposentar-se, oficializada no dia 27 de Novembro de 1873. No dia 20 de Março de 1880, numa das crises de loucura, feriu gravemente dois dos seus filhos e matou a mulher Carolina e a sua filha Iluminada. Depois deste acto trágico, suicidou-se, sendo o seu corpo encontrado no poço da sua casa no n.º 1 da Rua do Lilau.
Devido às circunstâncias macabras da sua morte, o Governador de Macau rejeitou dar-lhe um funeral militar e o Leal Senado de Macau, em conformidade com os preceitos da Igreja Católica, recusou-lhe a sepultura cristã. Cerca de trinta anos depois, em 1910, ele foi reabilitado pelo Juízo Eclesiástico e, em conformidade com a opinião pública sobre a importância deste homem na história de Macau, os seus restos mortais foram transladados, no dia 28 de Agosto de 1910, para o Cemitério de São Miguel com todas as honras militares e eclesiásticas.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

"Serveja de Allsopp", "Rapé", "Genebra", "Facas", "Garfos" e "Fazendas"

Anúncio publicado n'O Macaista Imparcial, 27 Junho 1838

Alexandrino António de Melo (c. 1809 Macau - 1877 França) foi uma figura proeminente na história de Macau, notável como grande comerciante, proprietário, e um dos principais contribuintes. Foi agraciado com os títulos de 1.º Barão e, posteriormente, 1.º Visconde do Cercal. Nasceu em Macau por volta de 1809 pertencendo à terceira geração da família "Melo" macaense, sendo filho de António Gotero de Melo, que se estabeleceu em Macau no final do século XVIII.

Comércio e Propriedade:
Foi um dos mais ricos comerciantes de Macau, proprietário de cinco navios que realizavam rotas regulares para Portugal, Brasil e Austrália sob a firma "A. A. de Mello & C.º". Foi um dos 40 maiores contribuintes de Macau.

Cargos Públicos:
Almotacé da Câmara de Macau (eleito em 1840).
Membro do Conselho da Província (1872).
Procurador do Governo de Timor (1873).
Vogal do Conselho de Governo.
Vogal do Conselho Técnico das Obras Públicas.
Director das Obras Públicas.
Tenente-Coronel Comandante do Batalhão Nacional de Macau (a partir de 1869), onde gastou uma quantia considerável para manter um efetivo de mais de 400 homens.
Presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia (1875).

Diplomacia:
Serviu como cônsul do Brasil em Macau, além de cônsul de Itália (1869), vice-cônsul de França (1872) e cônsul da Bélgica (1876).

Educação:
Fundou a "Nova Escola Macaense" em 1862. Mais tarde, os fundos desta escola foram revertidos para a "Associação Promotora da Instrução dos Macaenses", da qual ele foi um dos fundadores em 1871.

Arquitetura e Engenharia:
Embora não fosse um profissional era conhecido como "curioso" nesta área e foi responsável por vários projetos arquitetónicos em Macau, incluindo:
A residência na Praia Grande (hoje Palácio do Governo).
Palacete de Santa Sancha (actualmente residência oficial do Governador de Macau).
Edifício do Clube Militar (fundado em 1870).
Frontaria do Teatro D. Pedro V (construída em 1872).
Capela do Cemitério de São Miguel.
Projecto inicial do Quartel dos Mouros.


Outras Afiliações:
Foi sócio fundador e um dos primeiros diretores da "Hong Kong, Canton & Macao Steamboat Company". Era também sócio honorário da Real Sociedade de Geografia Inglesa e de outras sociedades científicas estrangeiras. Falava fluentemente várias línguas, incluindo português, francês, espanhol, inglês, italiano e chinês.


Títulos Nobiliárquicos
Alexandrino António de Melo foi agraciado com os seguintes títulos por D. Luís I de Portugal:
Barão do Cercal: Título criado por decreto de 11 de maio de 1851 (e carta de 5 de janeiro de 1852).
Visconde do Cercal: Título elevado por carta de 5 de abril de 1867.

Vida Pessoal:

Alexandrino António de Melo era pai de António Alexandrino de Melo (1837-1885), que se tornou o 2.º Barão do Cercal. Morreu perto de Marselha, França, a 21 de maio de 1877.
A sua vida foi marcada por um vasto legado em Macau, abrangendo o comércio, a administração pública, a diplomacia, a educação e até a arquitetura, deixando uma marca duradoura na história do território.

domingo, 13 de julho de 2025

A estátua de bronze de Bernardino de Senna Fernandes

O Conde Bernardino de Senna Fernandes faleceu na Sé a 2 de Maio de 1893. Nascido em St. António a 20 de Maio de 1815, é da terceira geração da família macaense 'Senna Fernandes' de Macau. 

Opulento negociante da praça de Macau e um dos 40 maiores contribuintes da cidade, durante anos sucessivos. 
Teve uma brilhante carreira política, económica e social, afirmando-se como um dos mais influentes cidadãos de Macau do seu tempo. Em 1847 fez parte, como 1º sargento, da 1ª Companhia do Batalhão Provincial de Macau. A partir de então, sucedem-se os cargos e as distinções, a saber: comandante da Guarda da Polícia (14.10.1857), major honorário (18.7.1861), cônsul do Sião (24.1.1863), comendador da Ordem de Cristo (10.3.1865), comendador da Ordem do Elefante Branco (26.12.1867), cavaleiro da Ordem da Torre e Espada (6.2.1869), fidalgo-cavaleiro da Casa Real (30.1.1871), medalha de prata do mérito, filantropia e generosidade (30.1.1871), cônsul de Itália (20.6.1886). Foi sócio fundador de Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. 1º Barão de Senna Fernandes, por carta de 31.1.1889, elevado a visconde, por carta de 17.4.1890 e elevado a conde (em duas vidas), por decreto de 31.3.1893. 
Figura poderosa e polémica foi, naturalmente, alvo de invejas e acusações de toda a ordem, sobre as quais se torna difícil, hoje me dia, tecer um juízo de valor. Seja como fôr, ele próprio entendeu defender-se e publicou o folheto "Um apelo ao publico imparcial", Macau, Typ. Popular, 1869, 24 p., no qual apresenta uma série de documentos comprovativos dos altos serviços prestados à Província. 
Um grupo de importantes comerciantes chineses, deliberou mandar erigir-lhe uma estátua de corpo inteiro, que foi inaugurada em Março de 1871, num terreno ajardinado do outro lado da rua, oposto da Monumento da Vitória, com a seguinte legenda em letras de bronze: «Esta Estátua foi mandada erigir por Lu-Cheo-Chi, Cham-Hau-in, Ho-Liu-Vong e outros Negociantes Chineses de Macau Em Testemunho de Amizade e Gratidão». 
Quando a família Senna Fernandes construiu a Vivenda Caravela na Avenida da República, colocou a estátua no jardim fronteiro à casa, sendo daí retirada quando a casa foi alugada para um restaurante. Nessa altura a estátua foi oferecida ao Governo, que a mandou colocar no jardim do Museu Luís de Camões, hoje sede da Fundação Oriente em Macau.
Texto de Jorge Forjaz in Famílias Macaenses, Vol. III, Fundação Oriente, Macau, 1996
Notícia do "London and China Telegraph" - 5.6.1893:
"We regret to announce the death of Viscount de Senna Fernandez merchant and Consul for Italy and Siam at Macao. He was one of the most widely known and influential residents of Macao and took a keen interest in all that con cerned the welfare of the Colony."
A 2 de Dezembro desse ano o jornal noticiava que os amigos pretendiam construir uma estátua em homenagem a B. S. F.