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sábado, 2 de maio de 2026

Memórias de viagens no Fat Shan

Um dos icónicos navios da travessia entre Macau e Hong Kong e meados do século 20 foi o navio Fatshan. Uma viagem que demorava cerca de 4 horas. Aqui ficam alguns testemunhos de quem nele viajou bem com algumas fotografias.
Curiosidade: o nome remete para um local na China continental hoje denominado Foshan.
Embarque no Fat Shan na ponte-cais nº 20 em 1961

Testemunho de William Lawrence:
When we arrived in Hong Kong in 1970, we often spent weekends exploring. One memorable journey was taking a ride on the Fatshan to Macau. This was a journey right out of a book. From the wicker seats to the overnight cabins, it was memorable. More than once, we took her up the river, feeling like colonial explorers. Macau was a Portuguese colony at the time, and sure enough, the little hotels and restaurants served excellent food for a weekend getaway. When the faster boats came along, it sure shortened the trip; however, I missed the statley. kinda’ creaky Fatshan to take me on my holiday.


Luke Gong:
"I took this trip as an 8 year old with my parents in 1964. I remember spending the night on a canvas cot on the trip over from Hong Kong and arriving in the early morning hours."

Christine Mark:
"Loved the Fatshan. We used it often between 1961 and 1965."

John Garbett:
"We went to Macau a number of times in 1972/1973. As you say a wonderful colonial style experience complete with a large Union Jack painte amidships for easy recognition as a British ship. We usually had one of the old fashioned deck cabins where sandwiches etc were brought. On one night just before midnight as we were cueing to disembark in Hongkong I stood just outside the galley window. No exaggeration the stove, wall and table tops were thick, and I do mean thick, with scurrying cockroaches. Never had food aboard Fatshan again."

Law Hin Lau:
"When my class-Mate became son-in-law of famous Macau Merchant Mr. Ho Yin. He was made a Manager in that ship company. He once brought me onboard to see the vessel. On the top deck there were stacks of stacks of lockers for stowing the gold bullions for conveying them from Hong Kong to Macau then further to mainland China. He also showed me the Radio Room as I was also at R/O on ocean-going ships. That old Spark scared me that I might be taking over his job. I told him I only enjoy working on ocean-going vessels but not the river boat like Fat Shan that set his mine at ease."

Karen Campbell:
"When I first arrived in HK, i used to go on it with my parents- loved it and do remember the old wicker chairs. It never seemed quite the same when the hydrofoils started - except quicker of course. Macau was beautiful then"

Em Agosto de 1971 o tufão Rose atingiu Hong Kong e Macau. Na madrugada de 17, o SS Fatshan foi uma das vítimas da tempestade tendo afundado. Morreram 88 pessoas.

Testemunho de Jack Bishop:
"I saw the capsized Fatshan the day after Typhoon Rose on the shore line of Lan Tau Island. A few other ships were damaged during that storm."



sexta-feira, 13 de março de 2026

Memórias de Manuel Cotovio (1970-1971)

Manuel Cotovio prestou serviço militar em Macau entre Fevereiro de 1970 e Dezembro de 1971 pertencendo ao esquadrão de cavalaria nº 4 criado em 1967 e extinto por volta de 1974 quando foi adstrito ao PPM8275.
À semelhança de outros ex-militares, desafiei-o a recordar Macau do início da década de 1970 e o que se segue é o relato na primeira pessoa após várias trocas de emails. Algumas das imagens são de MC outras são da época e pretendem ilustrar a Macau que Manuel Cotovio conheceu. Depois de o ter feito pessoalmente, deixo aqui publicamente o meu agradecimento - e as desculpas pela publicação tardia - por mais este testemunho inédito e exclusivo do blogue Macau Antigo.
Quando fui mobilizado dissera-me que ia para Angola e só quando cheguei aos adidos é que soube que ia para Macau. A viagem começou com o embarque em Lisboa no dia 26/12/1969 no navio Timor. Como era soldado e não havia camarotes era passageiro de 3ª no porão. Eramos quase 200, uns iam para Macau outros para Timor. Fizemos escala em Lobito, Luanda e Beira Lourenço Marques. Mas desembarquei em Hong Kong, apanhei o barco para Macau onde cheguei às 22 horas de 12 de Fevereiro de 1970.
Fui colocado no EC4 (Esquadrão de Cavalaria) que ficava junto ao Jardim da Flora e do Quartel da Policia. O comandante nessa altura era o capitão Casquilho, e o Governador de Macau o Nobre de Carvalho. No inicio fez-me muita confusão quando ia fardado na rua ver as pessoas a desviarem-se e algumas até punham o lenço a tapar a cara, nos autocarros não  se sentavam ao nosso lado, e no cinema com certeza que tinham um código porque os lugares eram marcados quando adquirimos o bilhete e lá dentro nunca tínhamos vizinhos. Mais tarde depois soube que eram restos da rebelião de 1966. Felizmente que isso foi quase logo ultrapassado.
A inauguração do Hotel Lisboa foi nessa altura. Ia lá todos os dias beber um cafezinho no coffee shop e ainda lá ouvi uns faditos. Também gostava do Estoril que ficava perto do quartel. Ao Macau Palace (casino flutuante no Porto Interior) também fui algumas vezes. Havia música. Tenho saudades do Restaurante Belo na Av. Almeida Ribeiro, faziam uns cachorros que era de comer e chorar por mais. Havia ainda o Ruby e o Safari.
À praia a Coloane só fui dois fins-de-semana. Foi também num fim de semana que fui à Taipa. Não havia ponte e a viagem era de barco. Ao Canídromo é que fui mais vezes. Gostava muito do espectáculo e das peripécias que envolviam as corridas de galgos mas era raro jogar. O dinheiro não era muito e tinha de dar para os cigarros.  Um maço custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. Por vezes ia ao cinema. Lembro-me do Apollo onde vi o filme Woodstock e já aqui no blog veio-me à memória o Nam Van. Outra coisa que já não me lembrava mas ao ver as fotos recordei muito bem era aquela técnica de pesca com redes e bambús. O quanto eu fiquei admirado com aquilo...

O EC4 estava aquartelado num edifício tipo pré-fabricado revestido a chapa ondulada de alumínio parecido com os que os americanos usavam no Vietname. As traseiras estavam mesmo junto ao jardim da flora. Do lado esquerdo, num nível inferior, era  uma escola.
Um soldado recebia de pré 100 patacas ora não me dava para grandes aventuras por isso hotéis só ia a esses três que anteriormente referi, e muitas vezes era para ver jogar bowling e nas máquinas que estavam cá fora porque não tínhamos autorização para entrar no salão nobre dos casinos.
Quanto aos soldados éramos 13 mas só me lembro de um nome, foram outros para o Quartel General; não sei se chegamos aos 50. Tinha uma agenda com alguns apontamentos onde tinha nomes e endereços de todos do EC4 e de outros que vieram no barco só que quando chegamos a Lisboa desembarcamos quase madrugada e no quartel dos 'adidos' com a confusão de entregar o espólio perdi uma malita com algumas coisas sem valor material mas com interesse sentimental.
Ir ao SPM (Serviço Postal Militar) era uma das minhas funções: buscar e levar correio. Tinha um cartão de livre trânsito para andar na rua, mas a maior parte das vezes apesar de não ser muito longe ia no jipe com o condutor de dia.
Entrada para o antigo paiol (fotos séc. 21)
Nos primeiros seis meses cheguei a prestar serviço ao paiol da estrada de Cacilhas. Fiz umas guardas nessa guarita frente ao paiol. Nesse espaço, a casa da guarda, dormíamos e tomávamos as refeições. Numa outra guarita fazíamos reforços à noite. Havia aí um túnel que diziam atravessar o monte da guia e ligar à parte sobranceira ao nosso quartel. Não sei se tinha fundamento mas as entradas ou saídas estavam lá.
Uma vez na parte de Cacilhas tentei entrar lá com um cão que era o nosso companheiro nas noites de reforço, mas só andamos uns metros pois o cão começou a ganir e ladrar e a recuar. Eu também tive medo e voltei para traz já que a visibilidade também era pouca."

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Testemunhos do "1,2,3" de 1966

"12" refere-se ao mês de Dezembro em que ocorreram os incidentes, "3" é o dia dos mesmos. Seguem-se excertos de entrevistas realizadas com macaenses radicados no Brasil, que viveram os acontecimentos. Estas entrevistas fazem parte da tese de mestrado em Antropologia Social "Macaenses em trânsito" de Maíra Simões Claudino dos Santos. Para além dos testemunhos, o texto é da autora da tese.
Testemunho de João Francisco, macaense que ao tempo dos eventos, era ainda jovem. Nasceu em 1950 e rumou ao Brasil em 1967.
"Nessa época, isso foi em 1966, foi quando apareceram guardas... Eu lembro... Que aconteceu um incidente lá em Taipa, península de Macau. Nas ilhas, de Taipa e ilha de Coloane, nós tínhamos um administrador das ilhas. Ele morava em Taipa, mas administrava essas duas ilhas. Então, tinha uma escola lá em Taipa que me parece que os papéis não estavam em ordem e os chineses vinham com muita pressa para tocar a obra pra frente. Bom, o motivo para o atraso eram problemas burocráticos. Isso fez com que desse o início entre o conflito da população chinesa e a administração portuguesa. Houve umas demonstrações, houve pancadarias, teve que colocar polícia em postos especiais da rua... Aí, então com influência da Revolução Cultural da China, com a influência dos guardas vermelhos, aquilo começou a propagar-se cada vez mais, e nesse novo período, nesse período, Macau estava na transição do governador anterior indo embora e o governador novo chegando, e, esse governador novo que estava chegando estava totalmente alheio ao que estava se passando, aí começou as demonstrações propagar-se cada vez mas até que um dia eles invadiram o palácio do governo, exigindo mais, e com isso deu-se um problema muito grave em Macau, greves e problemas de... Como que chama... Como que se traduz?.. Bom, isso foi também manifestações entre policiais, depois de problemas de doenças graves em mulheres, filhos... Esse período foi um período muito conturbado em Macau, e o engraçado é que eu estava no cinema assistindo um filme e o filme foi interrompido por causa do problema que estava acontecendo no palácio, porque estávamos escutando um barulho, e era muito próximo onde fica o palácio do governo. Escutávamos aqueles barulhos, o estouro das granadas daquele lugar. Saí de lá, fui pra casa e de casa acompanhei no radio as informações, aí, teve que entrar a lei marcial que não permitia as pessoas saírem, ou melhor, só num horário, as pessoas saíam pra fazer suas compras. Enfim, era só isso. Foi um período, muito, muito chato, porque os chineses aproveitaram muito bem desse período, e nós portugueses que nos sentíamos superiores aos chineses, passamos a ter que respeitá-los mais."

Para Luis Pedruco o evento do “1, 2, 3” foi uma das causas principais de sua partida para o Brasil:
Foto que foi capa do livro de José Pedro Castanheira "Os 58 Dias Que Abalaram Macau"

"Na época, eu fui fazer o serviço militar e houve uma revolução, uma revolta. Tinha vinte anos. No dia da revolução, eu estava no cinema, uma matinê às duas e meia, quando chegou mais ou menos às três e meia da tarde, um cinema famoso, no centro da cidade, chamado Cinema Apolo, estava vendo um filme e às tantas começaram a abrir portas e correr gente, eu pensei: um incêndio. Fiquei sentado aguardando o movimento todo, o corre-corre, e depois de um certo ponto saí do cinema. Quando saí vi só cabeças na cidade. Tinha uma estátua na frente do cinema, do famoso Coronel Mesquita – esse indivíduo era considerado para os portugueses um herói, porque tinha tomado o Passaleão, que era uma cidadezinha logo na fronteira de Macau, idos tempos. Para os portugueses ele era um herói, para os chineses um invasor. Tem que ver os dois lados da medalha, herói para você invasor para eles. O resultado é o seguinte, aí começaram, aquela história, e ouvi ordens, alguém grita assim: matem os portugueses! Foi um corre-corre danado. Foi engraçado porque a bilhetera do cinema era conhecida, lá todos se conhecem, a mulher dizia assim para mim: deita aqui em baixo porque se não você vai ser linchado. Era chinesa. Eu deitei nos pés dela, fiquei uns minutos lá, meio revoltado: eu deitar aqui, que história é esta? Passado algum tempo, começaram os tiros. Aquela famosa avenida do centro de Macau que é chamada Av. Almeida Ribeiro, quando eu busquei sair eu vi um mar de sapatos e chinelos, todos deram no pé. Chinelos e sapatos no cinema, que coisa louca! Passou um jipe militar, pedi para parar o jipe e fui para o quartel. Eu já tinha passado do recrutamento, já estava em casa, prestava serviço e voltava para casa. No quartel, fui recebido aos gritos pelo comandante: seu imbecil, coisas desse gênero, onde estava você? Eu contei, e estava todo mundo nervoso. Já tinham fechado o quartel, tinham armado trincheiras, metralhadoras, um cena assim, do nada. Eu, às três, estava no cinema e às seis tinha ordem de recolher. Fui um dos primeiros, o primeiro pelotão que saiu do quartel e fomos para o centro da cidade. Eu estava dentro do cinema e três ou quatro horas depois estava fardado, capacete camuflado, com a tropa, para manter a ordem (Doré, 2001: 66).
(...) Passado uns dias a China pôs na fronteira em Macau uma divisão. Uma divisão são 10 mil homens. Aquilo foi apenas um aviso, eles não iam fazer nada. Você sabe que deste lado tem 400, 500 pessoas armadas, você bota 10 mil na fronteira, não fazendo nada, tocando viola, como eles ficaram lá, olhando para Macau, que tinha uns canhões apontados, aquilo era para dizer:quer guerra? Quer força? Foi um momento muito difícil, muita gente foi embora para Portugal. Eu achei uma humilhação enorme, porque os chineses depois de algum tempo obrigaram que o governo português, que seria o dono da terra, oficialmente, na época, pedisse desculpa escrita, falada e televisionada, à população chinesa. Foi recusado pela primeira vez e segunda vez, e aí fizeram força e como a força já estava posta, não teve outro jeito senão aceitar o pedido de desculpas. E o interessante no pedido de desculpas é que o chinês, o oriental, é muito simbólico, não é só um pedido de desculpas e está acabado. Eles fizeram no meio da rua, em frenta à Associação Chinesa, uma mesa comprida, e já como a largura da mesa “x”, de um lado ficavam as autoridades chinesas e do outro lado o governador de Macau, que na época era o General Nobre de Carvalho. Isso depois de muita confusão, conversas em Lisboa, muitas ameaças. Quando chegou o dia em que teve de aceitar esse pedido de desculpas, fizeram uma mesa e no momento em que o governador assinasse, pegasse o livro, e entregasse o documento para a autoridade chinesa, ele teria que se curvar e estender a mão. Enquanto o lado chinês não se curvava, ficava em pé e só estendia a mão. E fizeram uma fotografia nesse momento. Para eles isso daí representava: estão vendo, o fulano se curvando, baixando a cabeça, perante...atrás, uma foto do Mao Tse Tung. Isso tudo tem uma simbologia. É evidente que depois dessa cena toda...quer dizer, a razão pela qual vim para o Brasil, uma das causas foi essa. Alguma coisa me dizia que aquilo ali não dava mais também. Primeiro porque Macau era pequena, depois por esta história, não estava me sentindo bem. Porque o governo português, logo em seguida, declarou mesmo nós entregamos Macau a vocês, se quiserem tome...Quando eu ví esse posicionamento do governo, eu falei daqui a pouco vamos ficar sem pai nem mãe aqui e como é que fica? Esse também foi um momento em que falei para mim mesmo: não, aqui, não fico, vou-me embora, porque o caminho não é este. Já tinha terminado o serviço militar e estava trabalhando no serviço do governo, no Ministério da fazenda de Macau, como escrivão de execuções fiscais. Casei-me e vim para cá. (Doré, 2001: 66-67).
Antonio Bruno Machado de Mendonça nasceu em Macau, em 1948.
Foi em 1966, eu só sabia de uma coisa: não podia ir para a rua. Era lei marcial. Ficávamos dentro de casa. Só depois ouvi falar que o problema era uma escola que havia na Taipa, que não deixaram construir. Todos nós comíamos em casa. No comércio era só vendido para os próprios chineses. Não se vendia nada para nós. Nós éramos considerados como europeus. Claro que não se vendia nada para os portugueses também. Havia problemática que houve. Fazer o quê? Através de um amigo chinês a gente fazia as compras. Ele trazia. (Doré,2001:66)

Roberto, nasceu também entre os meados da década de 40 e 50.
Desde de pequeno já ouvi dizer que esse dia chegaria. Ouvi de alguns chineses adultos, que talvez tivessem alguma mágoa com os não-chineses ou que fossem comunistas radicais? Não liguei muito e achei que fosse uma “besteira”. Mas tornou-se mais real com a revolução dos “guardas vermelhos” que atingiu também Macau nos anos 60. As bandeiras vermelhas da China estavam hasteadas em todas as partes, os “ativistas” vestiam-se de um conjunto de roupa azul (índigo), medalhões com o retrato de Mao Tse Tung, pregadas no peito, e alguns até com bonés do tipo “operário chinês” gritando slogans anti-ocidentais, anti-capitalistas, etc. Os “guardas” proibiam os macaenses, portugueses e qualquer ocidental, de utilizarem qualquer transporte público, as feiras estavam proibidas de venderem comidas para a gente, assim como os restaurantes, cinemas etc., porque a maioria destes estabelecimentos eram de propriedades de chineses. Os meus amigos chineses “viraram a cara” para mim. Mas só depois entendi os seus comportamentos, após a explicação que um deles me deu. Eles tinham que “obedecer” as ordens dos “guardas” por serem chineses e temiam represálias caso não o fizessem, e especialmente se a gente (macaenses e ocidentais) não abandonasse Macau, como o boato teria sido espalhado. Pensei: “Chegou a hora, eles tinham razão quando me disseram que Macau voltaria para a China um dia”. Não voltou daquela vez, mas agora em 1999 voltou.
(Entrevista realizada individualmente em sua casa)

O juiz Rodrigo Leal de Carvalho, o único a exercer funções em Macau, recorda assim os incidentes.
"Tentaram parar-me o carro e forçar-me as portas. A minha volta só via expressões de ódio. Fui andando devagar em primeira, para não atropelar ninguém, mas sem deixar que imobilizassem o carro. Lá acabei por conseguir passar, no meio de uma chuva de pedras." (Pinto,1998).
Relato de João Francisco Lopes Machado, nascido em 1950
"Estava com 16 anos, teve o “1, 2, 3” em que o China estava prestes a invadir Macau, tanto que na companhia da minha mãe, fomos até Hong-Kong e minha mãe levou as jóias dela, pra guardar lá em Hong Kong e eu fui com ela de navio pra guardar as jóias dela. Aí já prontos pra deixar Macau de vez, por causa da invasão chinesa. Naquela época, criou-se a idéia... isso que motivou a imigração da grande população de Macau pra Hong Kong. Isto aí, que fez todo mundo enxergar que Macau realmente não tinha mais futuro, porque seria tomado pela China de um modo ou de outro, não tinha mais aquela segurança de continuar sendo uma colônia portuguesa, então as pessoas começaram a ir embora. E meu pai falou assim: Macau não tem futuro mesmo, a China vai tomar tudo de bom e nós vamos perder tudo, porque naquela época a China não era a China capitalista de hoje, era uma China que realmente iria acabar destruindo  toda a nossa cultura e a gente iria virar refugiado, com certeza. (...) Acredito que Macau... já não se poderia viver, pois depois que passou aqueles acontecimentos em Macau, a gente sentiu que no fundo, no fundo...também como fui embora logo no ano seguinte... mas a mentalidade era realmente que a gente já não dominava Macau como antigamente. Antigamente, antes da Revolução, realmente era mais colonialista, vamos dizer...era mais o estilo português de governar, sem ter que se preocupar com os chineses, depois dos acontecimentos... pode ser que passamos a enxergar os chineses de um modo um  pouco diferente."
Henrique de Senna Fernandes, macaense que nasceu entre os finais da decada de 20 e o início da década de 30...
Anos antes da Revolução Cultural, a arrogância dos funcionários era uma coisa horrível e visível! Aqui é Portugal. Eram todos militares. Vivíamos na ditadura do tempo do Salazar. Colônia era só exploração. E Lisboa não servia as colônias. Sou português, sinto-me português também, mas acho que não poderia viver em Portugal. Eles traziam uma mentalidade e não se modificavam. Os chineses nunca foram colonizados, tinham seus costumes, não eram meia dúzia de portugueses que iriam modificar. O “1, 2, 3” foi como uma onda que cresceu – coisa do Mao, que deviam ser nossas autoridades. Indivíduos que... Havia os chineses corruptos, houve abusos. Os chineses não eram muito cumpridores de leis. Os portugueses também davam pontapés nas mercadorias chinesas e a partir de um certo momento... Começou a fervilhar, fervilhar a comunidade chinesa. O partido comunista fez a rebelião opressiva, rebelião estupidamente opressiva. Contra os chineses, 100 mil pessoas. Com pessoas que não são nem pretos e nem índios, com sua civilização. Havia de tratar dos chineses com certa diplomacia. Realizava-se uma política que não podia ser. O Estado Novo era contra o comunismo. Queriam construir uma escola comunista na Taipa. Os atritos começavam a crescer assim como os requerimentos: “não podemos espalhar o comunismo em Macau”. Os distúrbios na Taipa foram antes do Grande Prêmio de Formula 1 de Macau. A administração da ilha chamou a polícia e fizeram feridos. Os comunistas de Macau começam a se reunir. Na Associação Comercial Chinesa, fazem as demonstrações comunistas. Resolvem ir ao palácio do governo ler a cartilha de Mao. Ocorre que uma grande multidão se reúne em direção ao palácio e deitam abaixo o herói macaense e partem o braço de Jorge Álvares. Outra grande asneira: o encarregado do governo colocou no comando o comandante das forças militares, Mota Cerveira, que amava Macau, mas queria transformá-la à sua maneira. O macaense, pai do chefe executivo hoje em Macau, explicou-lhe que ele deveria ceder, pois não podiam conter os comunistas, mas ele sequer o recebeu. Resultado foram oito mortos, alguns nacionalistas foram entregues. E em Hong Kong não conseguem fazer o mesmo porque era Portugal que os comandavam. Corríamos o risco de perder tudo. E muitos fugiram para Hong Kong (Entrevista realizada em Macau em 06/12/2004).

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

“Macau, Terra Nossa – Solar de Portugal no Oriente”

Funcionário público, Afonso Correia, pertenceu ao quadro do Ministério do Ultramar e esteve vários anos em Cabo Verde antes de rumar a Macau em 1948 onde exerceu funções na Repartição da Fazenda e Tesouraria até 1954. No território foi um dos fundadores do Círculo Cultural de Macau. Na faceta de 'jornalista', escreveu e publicou inúmeras crónicas no jornal "Notícias de Macau", incluindo o teor das palestras proferidas em Portugal sobre Macau - por exemplo, no Rotary Club de Viseu em Outubro de 1952. O essencial do que foi publicando seria editado em dois livros:
"Macau terra nossa - solar de Portugal no Oriente", Imprensa Nacional de Macau, 1951; e "Um céu e três mundos", INM, 1954.

Excerto:
Este livro é bem teu, Macau.
Induziram-me a escrevê-lo os encantos das tuas feições. Quero dedicar-to, devotadamente, como um alegre presente de aniversário.
Uma grande parte foi escrita, em horas incertas, atravessando momentos em que a desdita, fruto de inexorável doença, me rondava a porta e já quando, volvida a tormenta, bebia o travo duma reparação dos tecidos orgânicos, quase impossível. Arquitectei-o, entretanto, com o espírito em teimoso desanuveamento, rendido à tua fronte auriverde, bafejado pelos estímulos da tua compostura, do teu busto de Rainha do Orien­te, dos teus enlevos que são o triunfo duma vida de labor e sofrimentos contados, dia a dia, como um rosário de amarguras nascentes da tua fatalidade geográfica. Os seus materiais de contextura são formados por crónicas ligeiras, feitas de observações ocasionais, mas tocadas de sentimentos amistosos e devotivos.
Sei bem que pouco valem estas crónicas. Deves recebê-las com franca tolerância e não ver nelas senão uma sinceridade amiga e uma admiração convicta. Estima-as. Cumprirás assim um imperativo de consciência bem formada e de gratidão bem nutrida pela ventura que nelas te é desejada. De entre as inúmeras crónicas que tenho publicado, em toda a minha vida jornalística, nenhuma guardei, nenhuma guardo, porque entendo deverem ser volantes os nossos escritos, como as palavras. Se o vento e a fatalidade os leva, já não nos pertencem, em contrariedade do conceito latino — verba volant, scripta manent.
Porém, uns amigos e camaradas da imprensa daqui e de Lisboa incitaram-me a coligir algumas, no livro que agora consagro ao teu exame. Seria impossível dar satisfação a essas vontades, tão cativantes para mim, se um bem estudado método de arrumação me não facilitasse o trabalho com a demanda e o encontro dos exemplares do jornal, onde as crónicas vieram a lume. Aqui lhes deixo o meu reconhecimento profundo.
A ti, Macau, antes de pôr fim a esta pobre inscrição, quero dizer-te mais algumas palavras de amizade:
Nasceste, promissora e feliz, sob o ideal protector, próprio necessariamente de quem crê, da Santíssima Trindade. “Santo Nome de Deus” é o teu lema dignificador e eternizante. Não sei porque nem como, mas descobri, na tua vida, no teu ser, nos teus segredos, no teu clima nacional e internacional, no teu poder e no teu inconfundível posto de província portuguesa, bem portuguesa, uma, influência decisiva do número três para os teus destinos, em paralelo débil e longínquo com a já por mim invocada de ti e para ti Santíssima, Trindade.
Baía da Praia Grande na década 1940
(imagem não incluída no livro referido)

Vê e considera o quadro que te confio, expresso nas seguintes pala­vras, que julgo dignas de atenção:
Em Macau são faladas três línguas — a portuguesa, a chinesa e a inglesa. A cidade é dominada por três colinas mestras — a da Guia, a do Monte e a da Penha. Apresenta três colégios de considerável frequência — Santa Rosa de Lima, Sagrado Coração de Jesus e S. José. Possui três hospitais, a saber: Conde de S. Januário, S. Rafael e Keang-Vu. E servida por três templos de capital importância — o da Sé, o de Sto. Antônio e o de S. Lourenço, que, por sua vez, dão os nomes às três freguesias existentes na cidade. Possui três grandes e predominantes artérias de trânsito constante —Avenida Almeida Ribeiro, Avenida da República e Avenida Marginal. Oferta aos budistas chineses três pagodes principais – o da Barra, Mong-Há e Bazar. Segue constantemente três rumos — Norte, Oriente e Ocidente. Alimenta, decisivamente, três civilizações — a portuguesa, a chinesa e a anglo-saxónica. Ostenta três imponentes arranha-céus — o Central, o Kuok Chai e o Oriental. Segue três religiões — a cristã, a protestante e a budista.
Dispõe de três territórios distintos, como capital da província que é, — o da península, o da ilha da Taipa e o da ilha de Coloane. Enamora-se de três cores fundamentais — a verde, a encarnada e a amarela. Mostra três jardins públicos ou publicitados — o de S. Francisco, o de Camões e o de Vasco da Gama; três estátuas, embora a última não figure ainda em lugar público — a de Ferreira do Amaral, a do Coronel Vicente Mesquita e a do Conde de Sena Fernandes; três cinemas, de melhor frequência — Capitol, Apolo e Vitória; três padroeiras a que todos os crentes rendem particular devoção — Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora de Lurdes e Nossa Senhora de Fátima. Observa três mundos distintos — o oriental, o ocidental e o austral. Dispõe de três meios de transporte — o automóvel, o riquechó e a bicicleta; três climas — o frio, o moderado e o quente. Aborrecem-na três barreiras —o mar, a China e as ilhas. Apresenta, como figuras predominantes do seu meio social e económico, três capitalistas chineses — Fu Tak Iam, Kou Ho Neng e Ho Yin. Conta três fases, na sua existência histórica — a construtiva, a expansiva e a evolutiva e segue à risca, no geral, as três grandes virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade.
Se nos abalançássemos a pesquisas mais prolongadas, talvez o quadro oferecesse maior extensão. Os números estão certos e faço votos por que eles, de algum modo, tenham provindo dos ditames protectores e beneficentes da Trindade em que tanto confias e que sempre tem guiado e amparado os teus passos, conforme é tua crença firme.
Não durmas, porém, confiando exclusivamente nesses ditames mesmo que eles, de certeza, sejam oriundos do Poder Supremo, invencível para os crentes.
Continua a remar sobre a maré das tuas fagueiras e nobres intenções, não esquecendo que vives rodeada pela inconstância, pelo desatino e até por signos de indesejável preponderância. A tua felicidade será a de todos nós, portugueses, filhos e não filhos desta amada terra a que não posso oferecer mais nada, além da modéstia deste livro.
Aqui o tens,
Afonso Correia."

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

"A Menina da Casa Grande"

Da autoria de Maria Helena do Carmo, o livro "A Menina da Casa Grande" (edição IIM - 2025) conta a história de Ng Iun Peng, uma mulher nascida em Cantão em 1928 e cuja vida - na China, Macau e Portugal - ficou marcada por acontecimentos marcantes como a ocupação japonesa da China, a guerra civil chinesa e a Revolução Cultural. 
Nascida no seio de uma família abastada, tirou um curso superior de matemática e refugiou-se em Macau em 1949. No território trabalhou numa fábrica de tabaco, leccionou numa escola chinesa, namorou um português de nome Fernando que cumpria o serviço militar  e com ele casou. É nessa condição que irá viver para Portugal durante o Estado Novo. Teve 10 filhos, entre eles  Joaquim Pereira, Ana Rute e Vítor Ng Alves.
Ng Iun Peng regressaria a Macau e depois à China na década de 1990 para passar os anos de reforma como missionária mas ficaria doente e voltaria a Portugal onde morreu em Braga em 2022.
Imagens: jornal Ponto Final.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

A Bowl of Luóhàn Zhāi (Buddha’s Delight): A Family Tradition That Transcends Time and Place

Today's post was written by Enzo Lai (30.1.2024), a reader from Warsaw (Poland). It's about a Chinese News Year delicasse -  Buddha's delight, or luo han zhai 罗汉斋 (Mandarin), or lo han jai (Cantonese), a vegetarian dish well-known in Chinese and Buddhist cuisine perfect for Lunar New Year - that his grandmother use to cook in early 20th century when she lived in Macau. A tender story full of good memories from a gratefull grandson.

O post de hoje foi escrito a 30 de Janeiro último por Enzo Lai, um leitor do blog Macau Antigo que reside em Varsóvia (Polónia). É sobre uma iguaria do Ano Novo Chinês - o deleite de Buda, ou luo han zhai 罗汉斋 (mandarim), ou lo han jai (cantonense), um prato vegetariano bem conhecido na cozinha chinesa e budista, perfeito para o Ano Novo Lunar - que a sua avó costumava cozinhar no início do século XX, quando vivia em Macau. Uma história ternurenta e cheia de boas recordações de um neto grato.
Os avós de Enzo Lai e a iguaria.
Enzo Lai's grandmother and grandphater and the bowl
Photo/Foto: Enzo Lai

"A Bowl of Luóhàn Zhāi (Buddha’s Delight): A Family Tradition That Transcends Time and Place
I can’t speak for other families, but in mine, ever since I can remember, my grandmother always made a pot of Luóhàn zhāi (Buddha’s Delight) on the first day of Lunar New Year. The funny thing is, no one in my family is Buddhist —we’re all hardcore meat lovers. In fact, none of my Cantonese or Hainanese friends seem to have this tradition either.
I’ve often wondered where this custom came from. My grandmother grew up in Macau and attended a traditional Catholic girls’ school (Colégio Santa Rosa de Lima). She was a devout Catholic, but she still held on to certain Cantonese traditions. Maybe she took inspiration from the Catholic practice of eating vegetarian on Christmas and decided to apply it to Lunar New Year instead. Somehow, that became a unique family tradition.
Now that I live in Europe, I don’t strictly follow old customs — I mostly celebrate Christmas and New Year’s. I thought this dish would eventually fade from my life, until one day, my wife accidentally found out about it. Since then, I’ve been 'required' to cook it every Lunar New Year. It’s one of the few Cantonese dishes she actually loves—along with char siu (barbecue pork) and boneless roast goose. But what choice do I have? I only have one wife, and the Chinese restaurants here in Warsaw are all Northern-style or Sichuanese-style, so I’m on my own.
From grocery shopping to cooking, this dish takes hours to make. What started as a small family tradition has unexpectedly taken root in a foreign land. Through this dish, I honor the person who loved me most—my grandmother. Rest in peace, Grandma."
Colégio de Santa Rosa de Lima

一碗羅漢齋,跨越時空的家族味道
別人家我不清楚,但我們家的傳統,自我記事起,每逢大年初一,奶奶總會親手煮一鍋羅漢齋。有趣的是,我們家沒有一個人是佛教徒,全都是標準的「肉食動物」,而我身邊的廣東、海南朋友似乎也很少有這個習慣。
我曾經想過,這個傳統是否與奶奶的成長背景有關?她小時候在澳門的傳統天主教女子私校就讀,雖然信奉天主,卻依然保留著一些華人的生活習慣。或許是受聖誕節當天吃素的傳統啟發,她巧妙地把這個習慣搬到了農曆新年,最後竟成了我們家獨有的年俗。
我身在歐洲,也不是特別講究傳統,平時主要慶祝聖誕節和新曆新年。原本以為這道羅漢齋會隨著時光淡去,直到有一天,太太偶然發現了這個「家族秘傳」。從那之後,每年正月初一,我都被她「勒令」親自下廚做這道菜——畢竟,這是少數幾道她真正認可的粵菜之一,當然還有叉燒和去骨燒鵝。但又能怎麼辦呢?太太只有一個,而歐洲的中餐館清一色都是北方口味,實在指望不上。
這道菜從採購到烹煮,少說也得折騰好幾個小時。原本只是家族裡的一個小小傳統,卻意外地在異國他鄉生了根。我願借此菜,銘記這一生對我最好的人——我的奶奶。願您在天堂安息,R.I.P.

Tradução/Adaptação:
"Uma tigela de Luóhàn Zhāi (Delícia de Buda): Uma tradição familiar que transcende o tempo e o espaço.
Não posso falar por outras famílias, mas na minha, desde que me lembro, a minha avó fazia sempre uma panela de Luóhàn zhāi (Delícia de Buda) no primeiro dia do Ano Novo Lunar. O engraçado é que ninguém na minha família é budista — somos todos amantes de carne. Na verdade, nenhum dos meus amigos cantonenses ou de Hainão parece ter esta tradição.
Muitas vezes me perguntei de onde vinha este costume. A minha avó cresceu em Macau e frequentou uma escola católica tradicional para raparigas (Colégio Santa Rosa de Lima). Era uma católica devota, mas ainda se agarrava a certas tradições cantonenses. Talvez ela se tenha inspirado na prática católica de comer comida vegetariana no Natal e decidiu aplicá-la no Ano Novo Lunar.  Seja como fora, esta tornou-se uma tradição familiar única.
Agora que vivo na Europa, não sigo à risca os costumes antigos — celebro sobretudo o Natal e o Ano Novo. Pensei que este prato acabaria por desaparecer da minha vida, até que um dia a minha mulher descobriu acidentalmente esta história. Desde então, sou “obrigado” a cozinhá-lo em cada Ano Novo Lunar. É um dos poucos pratos cantonenses que ela realmente adora, juntamente com char siu (carne de porco assada) e ganso assado desossado. Mas que alternativa tenho eu? Só tenho uma mulher, e os restaurantes chineses aqui em Varsóvia são todos do estilo do Norte ou de Sichuan, por isso estou sozinho.
Desde as compras no supermercado até à preparação, este prato demora horas a ser preparado. O que começou como uma pequena tradição familiar criou inesperadamente raízes numa terra estrangeira. Através deste prato, homenageio a pessoa que mais me amou: a minha avó. Descanse em paz, avó."

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Visita de M. Pardal

"(...) A bordo do ”Tjibadac”* está tudo desperto, trabalhando-se afanosamente. Trata-se do transbordo para a “Tak Shing”, um dos muitos barcos que fazem as carreiras diárias para Macau. Temos também de tratar da mudança, pois já não é nada cedo para o fazer. Tudo em ordem e à hora marcada iniciamos a última etapa da nossa grande viagem. Decorreram cerca de quatro horas. À direita descortinamos o grupo das “Nove Ilhas”. Lá ao longe, à esquerda, temos a ilha de “Lap Sap Mei” , fronteiriça a Coloane, tendo a separá-las a Rada, local onde costumam ancorar os navios de longo curso, cujo destino é Macau. 
O “Tak Shing” ara lestamente as águas, pondo-nos sob as vistas os pontos mais elevados da nossa cidade. A colina da Guia mostrando-nos a verdura das suas árvores policromadas graciosamente como florido viçoso da época, sulcada por duas estradas que a fazem parecer uma enorme e alongada metade de óvano duas vezes seccionada. No cume do lado sul ergue-se majestosamente alvo de neve o seu farol sempre pronto, desde longos tempos, a prevenir a marinhagem. Do sopé emergem alguns edifícios de moderna arquitectura, como que tentando a chamada a futura construções que se alongarão até às muralhas do Porto Exterior. Este estende os seus molhes, alguns de pedra solta, como gigantescos braços abarcando as águas.
Um pequeno colo e segue-se, na direcção da Praia Grande, (a Colina de S. Jerónimo) onde o moderníssimo Hospital Conde de S. Januário honra a nossa engenharia, os serviços de saúde e a boa administração portuguesa em terras ultramarinas.
O Miradouro de D. Maria, com uma espécie de latada beiroa, toma os ares típicos das terras portuguesas do coração do país. No sopé da sua pequena escarpa estende-se como uma enorme eira de desconformes dimensões o depósito de água doce, abastecedor da cidade.
Como que espreitando por detrás de D. Maria, de olhos atentos à Porta do Cerco, mal se descortina por entre o seu arvoredo a Fortaleza do Monte de Mong Há.
Mais para lá, banhada pelo rio Cantão, ergue-se a Ilha Verde recamada por frondosa ramagem em alegre verde, certamente sua madrinha, ligada à península desde ao último quartel do século passado por um istmo, hoje pejado de pequenas moradias destinadas às classes menos protegidas.
Agora é S. Paulo do Monte que nos surge com a sua secular muralha de cor cinzenta, a qual parece estar segurando dentro de si os edifícios recentemente reparados e que outrora constituíam abrigo aos guerreiros destemidos e capitães gloriosos sempre titânicos perante os inimigos da paz. Um pouco para oeste podemos ser as ruínas de S. paulo, igreja que as línguas de um inclemente incêndio reduziram à sua fachada principal, uma relíquia do nosso passado nesta paragens (...)"
M. Pardal in revista Mosaico, Vol. XVI, 1956. (imagem não incluída na revista refarida)
* Deve ler-se Sibajak, navio da Royal Rotterdam Lloyd, no activo entre 1928 e 1959. Fazia a ligação entre a a Europa e o Oriente. Neste caso, atracou em Hong Kong.

sábado, 13 de julho de 2024

Uma lição bem à Oriental

Tinha chegado à Ilha da Taipa (Macau) havia apenas um mês, comandava o único posto militar lá existente, nessa ilha isolada de Macau e da Ilha de Coloane. Perto do quartel, havia uma carreira de tiro militar e na parte final da mesma estava localizado um imenso cemitério chinês.
Na cultura e geomância chinesa e seu Fong Soi, os cemitérios devem serem construídos nas colinas e virados para o mar, sempre que for possível, dando assim o maior descanso aos defuntos e sorte perpétua, porém este na ilha da Taipa tira só uma vista para o mar, visto ficar no sopé de uma montanha.
Os familiares vão junto das campas de seus antepassados orar e ofertarem comida, bebidas e frutas. Muitas das campas são enormes, quase sempre com um formato de ferradura. Por altura dos dias de finados chinês, cujos dias variam segundo o calendário chinês, este ano de 2008, se processou em Abril e será celebrado em Outubro, as famílias dos falecidos vão em romaria prestar homenagem aos seus antepassados lhes levando, depende das posses de cada uma, um leitão assado, uma galinha já cozida, arroz, vinho e fruta, queimando três pivetes e na posição de sentido fazem três vénias, curvando a cabeça em direcção ao chão e queimando panchões para afugentarem os diabos, estas práticas seguem as regras milenárias herdadas.
Foi por uma dessas alturas que um soldado da minha companhia passou pelo cemitério e lá viu um leitão assado e o roubou, porém foi visto por um dos familiares. O referido soldado, por sinal alentejano, convidou alguns dos seus colegas, foram comprar cervejas e comeram o leitão.
Os chineses depois de se reunirem com seus familiares foram até ao quartel e perante mim relataram o sucedido; fizeram-no calmamente e desejavam que eu mandasse chamar esse militar para lhe dizer que tinha feito uma má acção.
Sobre o meu comando tinha somente 10 militares que chamei à minha presença, tendo o chinês reconhecido o militar. Mandei retirar os restantes e fiz-lhe ver que o procedimento que tinha tido, não era correcto, visto que além de ter cometido um roubo, tinha igualmente ofendido os familiares do falecido e a sua cultura.
Esperava eu uma resposta pedindo desculpas ao senhor ali presente, mas a falta de cultura do militar levou-o a dizer que tinha somente tirado e comido o leitão, pois era um desperdício ali ficar, visto que o falecido o não iria comer.
O senhor chinês que se comunicava comigo em inglês, sabia algo de português e entendeu, por alto, mas acertadamente, o que o militar tinha dito e ficou ofendido; disse que ele era um pirata em correcto português, fez o mal e não quer aceitar as responsabilidades.
O militar ia ripostar quando eu o mandei calar e pedir desculpas ao senhor, e se ele continuasse com a teimosia de ser mais superior que o chinês eu o castigaria. Só assim pressionado olhou para o chinês e disse com voz baixa, quase por favor: desculpa!
O senhor então pediu-me para eu traduzir para ele estas palavras, que jamais me esquecerei e que deram uma enorme lição de civismo e de humanismo: "Esse soldado falou ser um desperdício nós colocarmos um leitão e toda a comida na campa do falecido, se ele jamais a irá comer, mas esta é a nossa tradição e terá que ser respeitada por todos quer seja chinês ou ocidental, nós sabemos perfeitamente que o nosso antepassado jamais irá comer tudo aquilo que lhe ofertamos. Da mesma forma que os vossos antepassados jamais irão sentir o odor das flores que colocam em suas campas, porém vós o fazeis por ser esse o vosso culto que nós respeitamos".
Desta enorme lição de moral poderemos tirar as nossas ilações, pois cada povo tem sua religião, suas tradições e suas culturas que devem ser respeitadas, só assim no mútuo entendimento e tolerância se poderá viver em paz e harmonia.
Texto de António Cambeta em 2008

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Fotos de Reinaldo Amarante

"Em anexo junto algumas fotografias. São todas dos anos 50 e/ou anteriores. Não tenho datas precisas. Uma delas, mostra a minha mãe sentada e encostada. Ao fundo vê-se um avião. Partindo do princípio que foi tirada em Macau, é possível? A minha mãe surge num jeep com as populares barracas de banho ao fundo. Há muito que deixaram de existir, certo? A outra fotografia de grupo, é da piscina de Macau. Ainda existe? As restantes fotografias são da equipa de hóquei em campo, selecção feminina de Macau e Hong Kong no encontro anual que costumavam fazer. Se assim o entender, pode utilizar as fotografias para o que entender. Saudações. Reinaldo Amarante"
Com os devidos agradecimentos ao Reinaldo Amarante - a quem já enviei as respostas - por ter tornado público pela primeira vez estas fotografias familiares.

Estas duas imagens (cima e baixo) não são do Reinaldo 
São da segunda metade da década 1950 e servem para contextualizar


Barracas de banho
Hóquei em Campo no Tap Seac

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

"Ainda me parece impossível que esteja na China"

No "Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para o ano de 1858" publicado em Lisboa no ano anterior, Alexandre Magno de Castilho reuniu 453 artigos e 99 gravuras.
Um dos artigos é assinado por José Feliciano de Castilho Junior, guarda-marinha do brigue Mondego, que chegou a Macau em 1856.
Castilho começa por explicar a origem do artigo: "O que passa a ler se são trechos de algumas cartas escriptas d aquella cidade por meu sobrinho José Feliciano de Castilho, filho de meu irmão de igual nome e que alli se acha como guarda marinha a bordo do brigue Mondego. Nada disso foi escripto para ser publicado releve se lhe pois a singeleza tão propria de sua curta idade."
Eis então o teor de algumas cartas de José Feliciano onde fala da paisagem, de uma ida ao teatro-china muito atribulada, das nhonhas, dos piratas, da qualidade de construção das casas, do comércio, do ópio, etc... O português é do início do século 19 mas consegue-se perceber perfeitamente.

"Ainda me parece impossivel que esteja na China. Na China não pode ser, é sonho! Mas que remedio senão acreditar se sempre que vou aquella terra alli fronteira me vejo rodeado d'aquellas carantonbas largas olhinhos de toupeira dentes alvissimos rostos de velha e enormes rabichos reaes ou postiços. Parece um carnaval permanente Tem me custado a conformar com a vista de tal gente e a entender-me com ella porém vou me amestrando e já me não enganão como nos primeiros dias. São de uma esperteza extraordinaria e de rara habilidade trabalhando em marfim primorosamente e por preços inacreditaveis.
Os inglezes têem aqui introduzido as suas fazendas de tal modo que é difficil encontrar louça da China por ser da ingleza que todas as lojas estão abundantemente sortidas. Assim mesmo ainda se vêem d aquellas riquissimas jarras de 4 o 5 pés de altura que na Europa tanto valor teem.
A cidade não é feia porém as ruas são quasi todas estreitissimas: aquellas em que os chins se achão estabelecidos distinguem-se por um nauseabundo cheiro de opio, camphora, etc ... estão sempre atulhadas de gente. É grande o movimento na cidade onde aliás se encontrão poucos europeus; a povoação de 20,000 almas é quasi toda chineza.
As nhônhas filhas da terra são em geral exquisitas. O seu modo de fallar assemelha se um tanto ao das mulheres do interior da provincia de S Paulo no Brasil mas é mais affectado tenho summa difficuldade em percebe-las. São muito escarnicadeiras uma das cousas que lhes dá mais no goto é o comprimento das nossas casacas porque se usão aqui abas de uma polegada. Ha um largo arborisado á borda do mar onde se reunem ás quintas e domingos e onde nós vamos para as vermos cortar nos nas abas e ouvirmos a musica do batalhão é o nosso Passeio Publico.
Os piratas já desappareceram. Quando eu esperava practicar actos de valor que dessem brado, quando eu me queria immortalisar é que elles me fogem. Queria ganhar uma condecoração e o posto de 1º Tenente ainda que fosse na cola de uma bala. Quem sabe se não anda em mim o embryao d'um Nelson!...
Fui ha poucos dias por curiosidade ao theatro chinez. A disposição macaqueia a dos nossos theatros mas toda a casa é de bambú. Tudo aquillo está em osso. As vistas não mudão e os actores em scena levão todo o tempo a dar guinchos e pinotes. Em honra da verdade confesso que os gatos lhes devem ter inveja. Apresentão se porém magnificamente vestidos. Talvez que seja muito bonito para quem entende a mim fez me somno O que alli se acha muito aperfeiçoado é o roubo. Houve sujeito a quem estando sentado furtaram os sapatos pelos intervallos do taboado e até a um tal Miranda tiraram do nariz os oculos d ouro sem elle sentir percebendo o apenas pela differença da vista. A policia anda vigilante mas o divertimento dos larapios é illudi la.
A cidade de Macáu está toda a desmoronar-se. Já cahiram 70 casas com as chuvas. É um precipicio n'estes tempos andar pelas ruas pois se corre perigo de ficar debaixo de algum muro. É tão má a construcção das casas que os habitantes se viram obrigados a requerer ao Governador para que o brigue não salvasse no dia 31 do passado, com medo de què viesse a terra o resto da cidade!"

sábado, 27 de agosto de 2022

Memórias fotográficas de Andrew Suddaby

Em 1957 Andrew Suddaby cumpria o serviço militar em Inglaterra (Royal Air Force) quando foi colocado em Hong Kong.
Adquiriu uma máquina fotográfica a cores - fime Kodachrome 35mm - e com ela registou como era, não só Hong Kong como também Macau, numa visita que fez ao território em Junho de 1958.
Primeiras duas fotografias tiradas da janela do quarto do hotel (provavelmente o Central)


à entrada do Jardim Camões
O guia turístico contratado por Andrew para umas voltas de rickshaw por Macau
 Aqui fotografado frente ao Palácio do Governo vendo-se ao fundo a Pousada Macau Inn.
Interior do Jardim Camões

Nas 'traseiras' da Fortaleza do Monte

Vista sobre a baía da Praia Grande: ao fundo pode ver-se o hotel Bela Vista, Igreja da Penha, Leal Senado e Sé, entre outros.


"The facade of the ruined church, taken from the ramparts of the fortress. Note that there was only one person on the steps. Compare this with a modern Google Street View."
Legenda do próprio Andrew.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Austin Healey Sprite: M-19-26

"Integrei, como Alferes Miliciano, a CCAÇ 5040, última força militar expedicionária em Macau, desde Janeiro de 1973 a Setembro de 1974, sedeada 
no Quartel da Ilha Verde, posteriormente destacado para o Esquadrão de Cavalaria 4, instalado no Quartel da Flora.
Tendo esta Companhia e a destacada para a Ilha de Coloane viajado no Navio 'TIMOR', contudo, o regresso a Lisboa processou-se por via aérea. 
Enquanto prestei serviço militar em Macau, adquiri a um Camarada que aí me antecedeu, um pequeno veículo desportivo de origem inglesa, que acabei por recuperar, no caso, um Austin Healey Sprite, com a matrícula M-19-26.
Confrontado com o abreviamento da Comissão militar, na sequência da Revolução de 25 de Abril, vendi o referido veículo, em Setembro de 1974, ao 1º Cabo Silva, originário de Macau e a prestar serviço militar no EC4, situado no Quartel da Flora. 
Tendo já pesquisado através da matrícula do veículo, obtive a informação de que o M-19-26 correspondia a uma viatura Toyota, que, entretanto, fora já abatida.
Persistindo alguns indícios de que o meu antigo veículo possa já não existir ou ter saído de Macau, muito lhe agradeço que tente averiguar o seu actual paradeiro."
Luís M.C.V. de Lemos
Fica aqui lançado o desafio para os leitores do blogue que possam ter informações sobre o 'paradeiro' do Austin Healey Sprite M-19-26 para entrarem em contacto
Regressando às memórias de Luís Lemos que no início de 1973 adquiriu o carro desportivo de dois lugares a outro militar...
"O carro tinha vindo a passar de mão-em-mão, conforme as comissões militares se iam  sucedendo, mudando de proprietário com frequência. (...)
Como é evidente, o carro tinha muito uso e o motor acabou por dar problemas alguns meses depois. (...) Optei pela reparação nas mãos de mecânico militar experiente, nas horas de folga, tendo as peças sido importadas de Hong Kong. (...)
Como se compreende, o automóvel não ficou novo, mas ganhou uma nova vida! (...)
Tratava-se de um exemplar de 1959, importado de Inglaterra e hoje lamento não o ter conservado em meu poder. 
Com efeito, as sensações de condução que proporcionava faziam-nos esquecer os modestos 948 cc do seu motor, não obstante os dois carburadores que o equipavam."
PS: na grelha frontal parece-me estar o símbolo do ACP.

domingo, 17 de abril de 2022

Domingo de Ramos em 1959

"Decorria o ano de 1959. Início da Semana Santa em Macau. Meu Pai tinha vindo para Portugal, com o meu irmão, para frequentar o Curso de Oficiais do Quadro Permanente de Exército. Por isso, eu, a minha Mãe e a minha irmã vivíamos com os meus avós maternos, na Rua Francisco Xavier Pereira Nº3-A (uma mansão que já não existe), à espera de embarque no paquete Timor para nos juntarmos a eles. 
Todos os anos Avô-Pa colhia uma braçada de palmas do seu jardim para, no Domingo de Ramos, Avó-Ma levar à missa a fim de serem benzidas e depois distribuídas pelos filhos que ainda viviam em Macau. Na nossa casa eram colocadas atrás de duas molduras com gravuras religiosas, onde ficavam o ano todo, até serem substituídas.
Naquele ano, não sei qual a razão, fui eu o encarregado de levar o ramo para a benção. Também não me lembro a razão, atrasei-me. Quando entrei na Igreja de Santo António, com um ramalhão nos braços, atado com um belo laçarote, já o Padre Basaloco tinha iniciado a missa. Uma madre disse-me baixinho “Os ramos já foram benzidos”. À minha frente, lá estavam os ramos, alinhados frente ao altar-mor, ainda brilhantes da água-benta. Mas também não me atrapalhei. Se a água-benta benzia os outros também benzia o meu. Com toda a calma coloquei o meu ramo em cima. Avó-Ma nunca chegou a saber que, naquele ano, o ramo foi “benzido por contato”..."
Testemunho de Reinaldo Amarante a quem agradeço ter aceite o meu desafio.
Nota: O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa, celebrando a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. Do ritual das celebrações fazem parte a Missa da Ceia do Senhor, a Celebração da Paixão do Senhor, Procissão do Senhor Morto, Vigília Pascal e, no Domingo de Páscoa, a missa solene da Ressurreição do Senhor.