segunda-feira, 31 de julho de 2023

Descrição de "Macao" no início do séc. 19

Macao is situated at the southern extremity of the island of Heangshan. It is about two miles in length, and connected with the island by an isthmus, or neck of land, about three quarters of a mile in length and twenty rods in breadth, across which the Chinese have erected a barrier, so that the Portuguese are imprisoned in this narrow strip of land, which is considered as under their jurisdiction, as far as foreigners are concerned. This neutrality has, until recently, been strictly observed. 
The Portuguese obtained the settlement of Macao, by the connivance of the Mandarins, about the year 1537, on condition of paying the Chinese a ground-rent of 500 taels, or about £167 a year. The fortresses are subject to an annual inspection by the mandarin, and not more than twenty-five Portuguese vessels may be admitted in the same year ; this number, however, far exceeds the present number of arrivals. There are likewise two Chinese authorities, one of whom, called a Tso-tang, resides in the town itself, for the Portuguese can exercise no jurisdiction over the Chinese population without consulting with the mandarins; they cannot erect or demolish houses without permission. 
The city of Macao extends to the shores on each side of the sloping neck of land which joins the two barren hills that form the peninsula; the houses are well-built of brick or stone, and covered with white cement. Macao has more of an European appearance than most cities of the East, as the Portuguese have introduced their own style of building at home, regardless of the difference of climate. 
The population has been estimated at thirty-five thousand, of whom perhaps five thousand may be considered subject to Portugal, these however frequently intermarry with the Chinese inhabitants. 
The Chinese part of the city presents, to the eye of the stranger, an intricate mass of narrow lanes, filled with itinerant and noisy workmen and vendors of Chinese articles. The temple of the goddess Matsoo-poo, in the village of Amako, faces the inner harbour, and the grotesque rocks and luxuriant foliage of the beautiful hill of Amako render this spot the favourite resort of visitors to the colony. 

The unfortunate poet Camoens passed part of his exile in Macao, in a retreat which is still called the Cave of Camoens, and here he wrote the greater part of his Lusiad. "The good intention," says a recent visitor, "but bad taste of the present owner, has gone far to destroy the romantic appearance of the exile's retreat, which he had fixed between two high rocks, cleft and separated by one of Nature's freaks. Who can fancy the genius of poetry to have poured forth its strains in the place with its present appearance, all the little roughnesses in the rock being filled up with plaster and whitewash. In an ornamented niche, inclosing the identical spot where the poet sat, is a bronze bust of Camoens; while an inscription in gold records the birth, genius, and death of this victim of the tender passion; who, through an unfortunate attachment, after spending his blood in the hard-fought battles of his country, is reported to have quitted it, exclaiming, "Ingrata patria, non possidebis ossa mea." Ungrateful country, thou shalt not possess my bones. 
The garden that surrounds this grotto, situated to the northward of the town, a little beyond the church of St. Antonio is, indeed, a beautiful little retreat—an oasis in the desert-and, from the kindness of the gentleman to whom it belongs, is open to the public. The cave itself is situated on the side of a gently sloping hill, on the top of which is a small modern quadrangular summer-house, commanding a most beautiful and extensive view of the surrounding country. To the south-westward are seen the Typa, the inner harbour crowded with every variety of native craft, with the opposite shore of the Lapa, with its verdant hills. On the northward we observe that memento of celestial jealousy, the barrier, with the small Chinese town of Tseenshan to the westward of it. While looking towards the east, the beholder is enchanted with the wide expanse of sea, studded with numerous islands, the blue outlines of Lintin or Lantao appearing in the distance.


Excerto de "Payne's universum, or pictorial world: engravings of views in all countries, portraits of greatmen and specimens of works of art, of all ages and off every character", de Albert Henry Payne. Editado por C. Edwards. Londres, 1844-1847.
Obra com um total de 3 volumes. O excerto é do 3º volume. Inclui mais de 60 ilustrações por cada volume, nomeadamente uma vista de "Macao".

Tradução
"Macau situa-se na extremidade sul da ilha de Heangshan. Tem cerca de duas milhas de comprimento e está ligado à ilha por um istmo, ou faixa de terra, com cerca de três quartos de milha de comprimento e vinte varas de largura, através do qual os chineses ergueram uma barreira, de modo que os portugueses são presos nesta estreita faixa de terra, que se considera sob sua jurisdição, no que diz respeito aos estrangeiros. Essa neutralidade foi, até recentemente, rigorosamente observada.
Os portugueses obtiveram a colonização de Macau, por conivência dos mandarins, por volta do ano de 1537, com a condição de pagarem aos chineses uma renda fundiária de 500 taéis, ou cerca de 167 libras por ano. As fortalezas estão sujeitas a vistoria anual do mandarim, não podendo ser admitidos no mesmo ano mais de vinte e cinco navios portugueses; este número, no entanto, excede em muito o número atual de chegadas. Existem também duas autoridades chinesas, uma das quais, chamada Tso-tang, reside na própria cidade, pois os portugueses não podem exercer jurisdição sobre a população chinesa sem consultar os mandarins; eles não podem erguer ou demolir casas sem permissão.
A cidade de Macau estende-se até às margens de cada lado da curva de terra que une as duas colinas estéreis que formam a península; as casas são bem construídas de tijolo ou pedra e cobertas com cimento branco. Macau tem uma aparência mais europeia do que a maioria das cidades do Oriente, pois os portugueses introduziram o seu próprio estilo de construção, independentemente da diferença de clima.
A população foi estimada em trinta e cinco mil, dos quais talvez cinco mil podem ser considerados súbditos de Portugal, embora estes frequentemente se casem com os habitantes chineses.
A parte chinesa da cidade apresenta, aos olhos do estrangeiro, uma intrincada massa de vielas estreitas, repletas de trabalhadores itinerantes e barulhentos e vendedores de artigos chineses. O templo da deusa Matsoo-poo, na vila de Amako, fica de frente para o porto interior, e as rochas grotescas e a folhagem luxuriante da bela colina de Amako tornam esse local o favorito dos visitantes da colónia.
O infeliz poeta Camões passou parte do seu exílio em Macau, num retiro que ainda se chama Caverna de Camões, e aqui escreveu a maior parte dos 'Lusíadas'. “A boa intenção”, diz um visitante recente, “mas o mau gosto do atual proprietário, contribuiu para destruir a aparência romântica do retiro do exilado, que ele havia fixado entre duas rochas altas, fendidas e separadas por uma das aberrações da natureza. Quem pode imaginar que o génio da poesia tenha derramado suas tensões no local com a aparência atual, todas as pequenas rugosidades da rocha sendo preenchidas com gesso e cal. Num nicho ornamentado, encerrando o local idêntico onde o poeta se sentou está um busto de bronze de Camões; enquanto uma inscrição em ouro regista o nascimento, o génio e a morte dessa vítima da terna paixão; que, por uma infeliz ligação, depois de gastar seu sangue nas duras batalhas do seu país, é relatado que o abandonou, exclamando: "Ingrata patria, non possidebis ossa mea" / "País ingrato, não possuirás meus ossos".
O jardim que circunda esta gruta, situada a norte da vila, um pouco depois da igreja de Santo António, é, de facto, um belo recanto - um oásis no meio do deserto - e, pela amabilidade do senhor a quem pertence, é aberto ao público. A caverna em si está situada na encosta de uma colina levemente inclinada, no topo da qual está uma pequena e moderna casa de veraneio quadrangular, com a vista mais bonita e extensa do país circundante. A sudoeste vê-se a Taipa, o porto interior apinhado de toda a variedade de embarcações nativas, com a margem oposta da ilha Lapa, com as suas colinas verdejantes. A norte, observamos aquela lembrança do ciúme celestial, a barreira, com a pequena cidade chinesa de Tseenshan a oeste dela. Ao olhar para o leste, o observador encanta-se com a vasta extensão do mar, cravejado de inúmeras ilhas, os contornos azuis de Lintin ou Lantao aparecendo ao longe."

domingo, 30 de julho de 2023

Morris's Directory for China, Japan and the Phillipines, Etc. 1870

Custava 3 dólares de Hong Kong este directório - Morris's Directory for China, Japan and the Phillipines, etc - publicado pela Morris and Co. no ano de 1870 na então colónia britânica. Para além de informações oficiais sobre os territórios referidos e várias cidades, incluía a lista de todos os residentes estrangeiros.
Alguma da informação sobre Macau: "Governo Colonial", "Hospital Militar", "Expediente Sínico", "Consulados", polícia, militares, comerciantes, tipografias, hotéis, etc...

sábado, 29 de julho de 2023

"Ready to take the next White Steamer for Macao?

"People, Cities, Scenery: Hongkong, Canton, Macao" é o título deste folheto turístico editado na década de 1940/50 pela "Hongkong, Canton & Macao Steamboat Co. Ltd."

Nesta época um dos vapores que fazia a viagem entre Macau e Hong Kong era o Kinshan. A distância era percorrida em cerca de 4 horas.
 

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Pak Kok Ting: Pavilhão Octogonal

Postal ilustrado da década 1950 com a legenda: "A small Chinese-style public library at the San Francisco Gardens - Uma biblioteca estilo chinês no Jardim de S. Francisco". Os chineses chama-lhe Pak Kok Ting, ou seja, Pavilhão Octogonal.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

A arte da pintura em vidro

Entre as obras de arte produzidas na China aos longo dos séculos 18 e 19, conhecidas por "chinoiserie" contam-se as pinturas reversas em vidro (reverse painted glass), produzidas para serem compradas como lembranças pelos ocidentais que visitavam a China, em lazer mas sobretudo em negócios. Tal como acontece com a esmagadora maioria das aguarelas e pinturas a óleo, também estas pinturas em vidro são sobretudo de autores anónimos.
Seleccionei para este post alguns exemplos de pinturas de Macau que têm como curiosidade o facto de pertencerem ao "Ordination Hall"/salão da ordenação do templo budista de Wat Pho, em Bangkok na Tailândia. Existem mais exemplares feitos na China em pelo menos mais seis templos budistas na Tailândia
Estas pinturas chegaram ao então Reino do Sião (início do século 19), fruto do intenso comércio com a China.
Em cima a Península de Macau, Porto Exterior à direita e Porto Interior à esquerda.
Em baixo a baía da Praia Grande com a Fortaleza do Monte no topo (ao centro).
Admite-se que a técnica tenha sido introduzida na China pelos jesuítas. Segundo os especialistas, o imperador Qianlong gostava tanto destas pinturas em vidro que convocou para a corte em Pequim artistas da região de Cantão (Sul da China) que já dominavam a arte. Ao mesmo tempo serviam na corte imperial em Pequim 'mestres' ocidentais nesta arte como Giuseppe Castiglione (Lang Shining, 1688-1766) e Jean Denis Attiret (Wang Zhicheng, 1702-1768).

quarta-feira, 26 de julho de 2023

"The Macao Wharf"

"Macao Wharf - Work has been completed on the first wharf to be built in the new port of Macao. This work which has cost about $ 120,000 is an excellent piece of engineering."
"Cais de Macau - Estão concluídas as obras do primeiro cais a construir no novo porto de Macau. Esta obra que custou cerca de $120.000 é uma excelente peça de engenharia."
O excerto do texto é da edição de Janeiro de 1929 da revista "The Far Eastern Review, Engineering, Finance, Commerce".




terça-feira, 25 de julho de 2023

"Account of Macao"

Account of Macao - The only European Settlement in China
Macao, a town on an island of the same name at the entrance of the river of Canton, is the only settlement wich Europeans possess within the dominions of the Emperor of China, it was founded by the Portuguese, and still continues in their hands; but since other nations have participated in the commerce of the Indies, Macao has fallen somewhat into decay. In 1725, the Chinese restricted the shipping to twenty-five vessels and it has since fallen to about one half that number. 
For nearly a century the Portuguese monopolized the trade of the East. De to fund, the discoverer of the passage by the Cape of Good Hope, landed on the coast of Malabar in 1408; in lull the Portuguese had begun to explore the Indian Archipelago; in 1525 they made themselves masters of Malacca, and soon afterwards achieved the conquest of the Moluccas. Their first attempt to open a trade Vi'ilh in Chinese was not successful; but with a pertinacity and resolution not to be overcome by ordinary obstacles, they persevered in their object, and were finally successful. About the year 1537 the Chinese only allowed them a temporary shelter upon the island of Macao; by bribery and solicitation they next on and leave to erect sheds for drying goods; and about the middle of the century they began to be recognised as having some title to occupation; but it was only gradually that they were permitted to build stone houses, and to form a considerable town. 
In 1542 the Portuguese had succeeded in establishing a commercial intercourse with Japan, which continued until Macao was the centre of the trade with China, Japan, and the eastern Mantis, and the cause of its importance at the above period is therefore easily traced. 
The Chinese are too cautious and jealous a people to concede valuable privileges without reserving the right of reclaiming them. The Portuguese, therefore, are not entire in possession of the sovereignty of Macao, but pay an annual ground rent, and their forts are periodically inspected by military mandarins. A civil mandarin also resides in the town as the representative of the Emperor of China, and the Chinese population is entirely under his government. The only rights which the Portuguese of Macao really possess are those of
a municipal character. Indeed, they are occasionally made to feel that neither nominally or actually are they masters. 
Milburn states, in his "Oriental Commerce" that "the Chinese treat the Portuguese very cavalierly on many occasions, exacting duties sometimes it the port, and punishing individual for crimes committed against the natives; and whenever resistance is attempted against such proceedings, the mandarin who commands the Chinese at the guard house immediately stops the supply of provisions from their market until they quietly submit." 
This means of a coercion may very easily be put into execution, for Macao is built on a low sandy promontory, connected with the remainder of the island by a long narrow neck of land and as a place where the width of the latter is about a hundred yards, a wall has been built, which stretches across and projects at each end into the water. In the centre of the wall there is a gateway, and close to it, the guard for the Chinese soldiers. 
This was erected in 1573 and in circumscribes the space to which the Portuguese are confined to a spot about three miles long by one side. Beyond this boundary they are not often allowed to pass; and this imprisonment is but little more on durable than that to which the inmates of the European factories at Canton are compelled to submit. 
The Portuguese population of Macao, including slaves, does not exceed 5000, while the Chinese are estimated at 30,000. The town in defended by several strong forts, mounted with heavy cannon, and garrisoned by a small number of Portuguese soldiers seldom exceeding 260, who are under the command of the Portuguese governor. 
The Portuguese have a custom house; and the English and other European nations have factories at Macao. As an outpost of the most singular empire in the world, Macao is at present of more value than as a commercial emporium.
in The Sydney Gazette and New South Wales Advertiser, 25.3.1841

segunda-feira, 24 de julho de 2023

"The landing place at Macao"

"The Pagoda of the Rocks at Macao" / O Pagode dos rochedos em Macau é a legenda desta ilustração - do Pagode da Barra - incluída num livro publicado em 1875 em Londres e do qual retirei ainda alguns excertos sobre Macau. A obra incluiu outra ilustração muito semelhante com a legenda "The landing place at Macao / Local de desembarque em Macau" (imagem abaixo).
"All Round the World: An Illustrated Record of Voyages, Travels, and Adventures in all parts of the globe with two hundred illustrations", de William Ainsworth, Londres, 1875.

The first thing an European landing at Macao in olden times did, was to go and see the Chinese Paogda at the Rocks. He could wend his way there and back in a tanka or native boat or he stroll there by the sea side. (...) But if the temple of Macao is poor and badly kept, its position is highly picturesque The inner harbour with its legion junks and tankas lies at its feet above it are blocks of granite and secular trees whose vigorous roots fasten in the crevices while close by are and little oratories in honour of inferior. On the portico is a great junk painted in red there is an inscription in Chinese on the rock. The air of respectable antiquity, presented by the Portuguese settlement of Macao, is refreshing after parvenu character with which its ostentatious invests Hong Kong.

The narrow streets grass grown plazas the handsome façade of the fine cathedral crumbling to decay the shady walks and grottoes once the haunts of the Portuguese poet tomb and the view from it all combine to produce soothing and tranquilising effect. Hong Kong represents the commercial and political movement of the present Macao is the city of calm and of the past. The time is gone by when the intrepid Portuguese navigators dominated in these seas. Their degenerate descendants are now reduced in order to obtain a livelihood to seek for employment in the great English or American houses The bright day for Portugal is gone by and fickle fortune rallies under other standards. (...)
The neighbourhood of Hong Kong takes from Macao almost all its advantages as a free port add to which the sea is daily invading its harbour as it does the whole of the right shore of the Canton river Vessels of considerable tonnage are obliged to anchor a mile or two from the harbour and only small gunboats can lay off the quay of Praya Grande.
Nevertheless, Macao notwithstanding its decline is not wanting in claims to interest the claims of memory more especially This town was for a long period of time the sole centre of the relations of Europeans with the Chinese, Camoens, Saint François Xavier and other great men have lived there. Its churches, its convents, its public monuments dark with age, attest of splendour long gone by .
The garden of Camoens is in the present day private property it belongs to a Portuguese gentleman of the neath shady recesses so rare in China. Within this name of Marquès who allows strangers to saunter begarden is the celebrated grotto where the poet is said to have in main part composed his Lusiad. Quotations from that immortal epic are now cut into the marble and, what is more delightful to French visitors, some Gallic verses in honour of the poet and the locality. 
The inner port can be contemplated from a terrace in this garden, as from the Pagoda of Rocks, with a less oppressive noise the shouts of the tankaderes or boatmen and boatwomen and terrible gongs heard so assiduously beaten to drive away the evil spirits a junk about to proceed on its journey come here softened by distance.
The Parsees have a cemetery that rises in successive steps or terraces above the sea and this with the little Portuguese forts built like eagles nests the so called Green Island, the narrow strip that encircles Macao to the main island and the wide extent of the Celestial Empire beyond fill up a picture that is not easily forgotten by those who have once seen it. 
We wandered about this splendid relic of gaiety and wealth now a disjointed collection of deserted palaces haggard boat women ugly dames of Portuguese descent with handkerchiefs pinned over their faces long narrow alleys decaying churches walks parades gardens forts all corroded by time.
From the top of a great stone arbour in the old palace garden we had a fine view of the old town and both harbours the inner and the outer. We came back through the Chinese town where with restless activity mechanics were working at their respective trades. Shopmen were doing a thriving business while barbers never were busierand your barber is an important personage here as elsewhere as such a man needs must be where every man has his head shaved twice a week. No Chinaman uses anything but hot water his razor is only two inches long by an inch wide which is sold for two pence and the strop a piece of stout calico may be had for a penny. See here the sallow Chinaman stretched at full length in an easy chair is enjoying his shampooing and pommellings. Shaving the head costs half a farthing yet there are seven thousand barbers in the city of Canton only. To which city we will now go steaming on as fast as the crowd of boats will let us. (...)

domingo, 23 de julho de 2023

Capela e cemitério protestante

Vista da entrada séc. 21

Entrada vista do interior do ca. 1890/1900

Apesar da indicação 1814 o cemitério foi fundado em 1821

O Antigo Cemitério Protestante foi fundado em 1821 depois da Companhia Britânica das Índias Orientais ter comprado um terreno para esse fim. Antes de 1821 os protestantes eram enterrados de forma mais ou menos secreta numa zona considerada terra de ninguém, entre Macau e a China, junto à Porta do Cerco, como se pode verificar no detalhe de uma mapa - abaixo - do final do século 19.
Localização do cemitério - detalhe de um mapa de 1889

O espaço do cemitério está divido em três níveis de terreno. Logo após a entrada, perto da Gruta e Jardins de Camões, está a Capela Morrison, que contém duas placas memoriais. O próximo terraço abaixo contém cerca de 45 sepulturas, e as sepulturas restantes estão no terraço menor e maior. Na parede que separa os terraços inferiores estão 23 lápides antigas que foram encontradas empilhadas no Novo Cemitério Protestante, tendo sido transferidas para lá talvez um século antes.
 
Recordando os séculos 18 e 19 quando Macau serviu de plataforma às comunidades estrangeiras para entrar na China, em especial aos britânicos e norte-americanos, junto ao Jardim de Camões existe ainda hoje o cemitério protestante, construído em 1821, para fazer face às necessidades da comunidade protestante local. O pequeno edifício é habitualmente denominado "Capela Morrison", em honra de Robert Morrison, o missionário que traduziu a Bíblia para chinês. O vitral tem a imagem de uma Bíblia aberta com os caracteres chineses do versículo "Ao princípio era o verbo". De cada lado do altar existem placas que evocam James B. Endicott, um comerciante norte-americano sepultado em Hong Kong, e de Henry Davies Margesson, que morreu afogado ao largo de Yokohama quando regressava a Inglaterra, depois de 23 anos na China.


Li Shigong e Chen Laoyi traduzindo a Bíblia enquanto Robert Morrison observa
Gravura a partir de desenho de George Chinnery. Macao ca. 1828

sábado, 22 de julho de 2023

San San Hotel: década 1950

clicar na imagem para ver em tamanho maior

Também conhecido por Sun Sun Hotel actualmente é o Macau Hotel S (construído em 1991).
Outros exemplos de hotéis da mesma categoria e vocacionados sobretudo para os cliente chineses na década de 1950: Homo, Hung Chau, Kam Va, San Hou, Veng Va, etc..

sexta-feira, 21 de julho de 2023

It is said to be a lovely city

An excursion that is often made either from Canton or Hong Kong is to Macao, which is situated on the west shores of the estuary of the Great Canton River.
This is now Portuguese territory, and is especially interesting as being the pioneer settlement of the Far East. In the 16th century, the Portuguese were the most enterprising maritime and trading nation, and were the first to sail the Eastern Seas, as well as being the first to open up commercial relations between Europe and the Chinese Empire.
It is the Mecca of the Portuguese in the East, although densely populated by Chinese. It is said to be a lovely city.
There is a beautiful promenade, also public gardens, and military barracks, and some fine hotels. The place too is well fortified. Some of our passengers were most enthusiastic about its beauties, and referred specially to the unenviable notoriety that it possesses in connection with its gambling houses, in which fan tan has its principal abiding places. These houses are licensed, and an enormous revenue is produced therefrom. Hong Kong people support these freely, as gambling is strictly prohibited amongst the Chinese in Hong Kong. (...)
in jornal The Mercury, 17.10.1903
Postal ilustrado ca. 1900 (não incluído no artigo referido)

Tradução:
"Uma excursão que costuma ser feita de Cantão ou Hong Kong é para Macau, que está situada na margem oeste do estuário do Grande Rio de Cantão.
É agora território português, e é especialmente interessante por ser o povoamento pioneiro do Extremo Oriente. No século XVI, os portugueses foram a nação marítima e comercial mais empreendedora e foram os primeiros a navegar nos mares orientais, além de terem sido os primeiros a abrir relações comerciais entre a Europa e o Império Chinês.
É a Meca dos portugueses no Oriente, embora densamente povoada por chineses. Dizem que é uma cidade encantadora.
Há um belo passeio na orla da baía, também jardins públicos, quartéis militares e alguns bons hotéis. O local também é bem fortificado. Alguns dos nossos passageiros ficaram muito entusiasmados com as suas belezas, e referiram-se especialmente à notoriedade nada invejável que possui em relação às suas casas de jogo, nas quais o fantan se destaca. Essas casas são licenciadas e uma receita de impostos enorme é produzida a partir delas. O povo de Hong Kong é um grande adepto, já que o jogo é estritamente proibido entre os chineses em Hong Kong. (...)"

quarta-feira, 19 de julho de 2023

O mercado do cinema na década 1930

Macao 
By American Consul Frederick W Hinke, Canton - China
Macao is a Portuguese colony situated mainly on an island west of the mouth of the Sikiang or West River and consisting of the territories of Macao, Taipa and Coloane about 40 miles southwest from the British Crown Colony of Hong Kong and 70 miles south east from the great Chinese metropolis of Canton.
This city is the oldest European settlement in the Far East having been under Portuguese administration since 1557 a period of 374 years. In the past 10 years reclamation of waste land has increased the area of the territory from about 1,250 acres to more than 1,750. The colony at one time was the only entrepôt into China but in recent years the commerce of south China has been diverted to the neighboring British colony of Hong Kong while a number of ports have been opened up along the China coast to care for the needs of central and north China.
Some revival of commercial activity is slowly becoming apparent as native industries the fire cracker and blackwood trades in particular have been forced to seek refuge on foreign soil from the heavy burdens of taxation and civil strife in south China. For these reasons also there has been a marked growth in the population of this city which is now estimated at about 175,000. Of this number more than 80 per cent are of the Chinese race. 
The Portuguese have been able however to give the city a European aspect and western ideas of amusement are prevalent. According to a report received from the inspectorate of economic services of the colony there are two motion picture theaters in Macao housed in buildings of European type.
Details regarding these two establishments are as follows:
Cinema Victoria capacity 600 American equipment used two performances every evening and three matinees weekly.
Cinema President capacity 350 uses American equipment two performances every evening and three matinees weekly.
Anúncio de 1932 (imagem não incluída na obra referida)

Although no information was furnished by the Macao authorities regarding the nationality of pictures exhibited it is presumed that American films represent a fair proportion of the total followed by Chinese and European productions.
As in Canton comedies and farces are particularly popular dramas only slightly less so. Films depicting western cowboy life are said to be resented especially when oriental characters are depicted in an unfavorable light or are made to appear ridiculous In general public taste in pictures is very similar to that prevailing in Canton.
The consent of the police commissioner must be obtained before films are exhibited in Macao. It is understood that films regarded as immoral or dealing with subversive activities are either prohibited altogether or are cut. Distributors of motion pictures to the Orient should be careful in the selection of films to avoid those in which oriental people are represented in a manner that might be regarded as derogatory or which contain themes of a subversive or immoral nature. 
Furthermore the Portuguese authorities may be reluctant to pass films dealing with high life which shows occidentals as dissolute or vicious since such films would tend to lower their own prestige among the natives of the colony.
No sound motion picture equipment has yet been installed in Macao but the success of talking films in the neighboring cities of Hong Kong and Canton has aroused interest in the Portuguese colony as well.
The following suggestions for stimulating the demand for American films were made in a memorandum prepared by the inspectorate of economic services transmitted to this office by the Portuguese consul general at Canton in a letter dated November 4, 1930:
'It would be helpful to the development of the American motion picture trade in Macao if direct arrangements for the distribution of films could be made between American producers and the two motion picture houses now operating in Macao and it is furthermore suggested that American motion picture producers enter into an agreement with exhibition in Macao provided necessary guaranties can be arranged for a division of the net proceeds of performances given in Macao on a 50 50 basis.'
Although the distribution of American films in Canton is on a far larger scale than in Macao, representatives of American pro ducers in the Far East may find it advantageous to call upon the proprietors of existing establishments in Macao when visiting Can
ton and Hong Kong as it appears that there are possibilities for an expansion of the demand for American productions in the Portuguese colony.
Publicado em 1931 no Trade Information Bulletin, uma publicação do governo dos EUA. O artigo é da autoria do cónsul dos EUa em Cantão na época.

terça-feira, 18 de julho de 2023

A bíblia em chinês por Morrison

"The Rev.d Robert Morrison, D.D. And his Assistants in the Translation of the Bible into Chinese"/ O reverendo Robert Morrison e os seus assistentes traduzindo a bíblia" é a legenda que resume esta pintura de George Chinnery datada de 1829. 
Sendo esta a única fonte de rendimentos do pintor o mais provável é que o quadro tenha sido pago pela Companhia Britânicas das Índias Orientais. Resume os 14 anos que demorou a tradução da bíblia por Li Shigong, Chen Laoyi e Robert Morrison. A partir da pintura de George chinnery foram feitas várias impressões (gravuras). 

Descrição: sentado frente a uma mesa com um grande livro aberto sobre uma estante e um livro fechado com marcador entre as páginas; de corpo inteiro para a esquerda, de frente, olhando para a direita; vestindo um vestido escuro ornamentado sobre casaco, colarinho branco e gravata; segurando uma grande folha de papel com as letras "Collegium Anglo senicum MDCCCXVIII" (1818) - referência ao Colégio Anglo-Chinês/ Anglo Chinese College criado por Morrison e que a partir de 1843 passou para Hong Kong; visto ao pormenor, na lombada de um dos livros pode ler-se a inscrição "Dicionário Chinês"; em primeiro plano, à esquerda, um globo.

Legenda da ilustração:

"Painted by J Chinnery Esqe / Engraved by C Turner A R A Engraver in Ordinary to his Majesty. / London Published March 29th 1830 for the Proprietors by Mr. Turner 50 Warren Street Fitzroy Square", and dedication to and information about the sitter "by the members of the British Factory in China.". Inscribed in pencil on left: "Proof"

Esta ilustração surge na biografia da viúva de Morrison. Uma carta datada de 9 de Fevereiro de 1829 dirigida a Morrison permite perceber algo mais sobre a pintura e respectiva ilustração. É assinada pelos membros da companhia Britânica das Índias Orientais:
"Mr Chinnery has just finished a most excellent picture of Dr Morrison attended by two Chinese teachers. If Dr Morrison will consent to sacrifice for the space of one year the gratification which he must necessarily derive from the possession of this portrait, to the wishes of his friends, who are desirous of preserving their recollection of an old acquaintance, and who can unite, to the memory of the most distinguished Chinese scholar of the age, their feelings towards him as a kind and aimiable member of this society; it is proposed to request him to allow this picture to be sent to England in the Orwell, for the purpose of obtaining from it the most perfect mezzotinto engraving that can be taken.The celebrated artist to whom they are indebted for this portrait of Dr Morrison has expressed his readiness to undertake the commission of procuring the engraving.Signed by every member of the Company's Factory."
Morrison acabria por aceitar que a pintura fosse reproduzida em papel com as receitas a recevertrem para o colégio que fundara.
Segundo a viúva, a pintura ficou na sua posse. Pelo menos assim foi até 1839. Desconhece-se o paradeiro da mesma, admitindo-se que possa ter sido destruída num incêndio em 1874.

Uma das ilustrações foi impressa por Turner em Londres a 29 de Março de 1830 com uma dedicatória à família real britânica.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A Curious Fact About Macao

A Curious Fact About Macao
In the Senate House at Macao, which is built of granite and two stories high, are several columns of the same material with Chinese characters cut into them signifying a solemn cession of the place from the Emperor of China. This solid monument is however an insufficient guard against the encroachments of its Chinese neighbours & c Staunton's Embassy to China vol 3 page 437 London MDCCXCVII. Can any of my compatriots furnish me with the exact Chinese characters of the above mentioned inscription Historiographer."

O excerto acima foi publicado em 1881 no The China Review que nesse mesmo publicou uma resposta assinada por H. L. D.

"With reference to Historiographer's query in the last number of the Review p 139 as to the inscription mentioned by Staunton I would suggest that probably Staunton referred to the conventional pact dated the 14th year of Keenlung 1749 which is said by Ljungstedt to have been engraved on a stone tablet in the Senate House at Macao. Historiographer will find a translation of the Twelve articles in Chinese in Appendix VIII to Ljungstedt's Macao. H.L.D. 

domingo, 16 de julho de 2023

Diccionário Universal de Educação e Ensino (1886) - 2ª parte

continuação... 

Igreja de S. Paulo

O cemiterio catholico é, como dissemos, no recinto da incendiada igreja de S. Paulo. Serve-lhe de frontaria e de entrada o frontispicio do templo que as chammas pouparam e se acha em bom estado de conservação. É uma fachada grandiosa pelas suas proporções adornos e materiaes. Porém a sua architectura é falta de gosto e sobrecarregada de decorações. Compõe-se de quatro corpos de differentes ordens de architectura. O primeiro é adornado de dez grandes columnas jonicas entre as quaes se abrem tres portas que dão entrada para o cemiterio. O segundo é decorado com outras dez columnas da ordem composita e quatro estatuas mettidas em nichos. O terceiro tem por ornatos seis columnas corinthias, uma estatua de Nossa Senhora em um nicho cercado de figuras de anjos quatro quadros com baixos relevos de figuras symbolicas e ainda outras decorações. O quarto corpo é ornado de quatro columnas, tres estatuas e diversos emblemas da Paixão de Jesus Christo tendo por corôa um frontão em cujo tympano se vê representado o Espirito Santo. O templo de S. Paulo foi uma das mais ricas e notaveis construcções que os jesuitas levantaram no Oriente. Era o principal monumento de Macau e tinha celebridade n'uma grande parte da Asia. Para a edificação do cemiterio demoliram-se as paredes lateraes da igreja até meia altura e construiram-se junto d'ella dous lanços de galerias abobabadas sustentados por pilares. A parte superior é um terrado e serve de passeio na parte inferior abriram-se catacumbas nas paredes e sepulturas no pavimento. No lugar occupado outrora pela capella mór edificou-se  a capella do cemiterio. O que era recinto da antiga igreja está arruado e plantado de cedros. Este cemiterio é administrado e foi feito pela confraria da misericordia no anno de 1837 sob a direcção do padre Joaquim José Leite, superior do collegio de S. José. 
O cemiterio dos chins é em sitio ermo. Os seus tumulos alvejam por entre latadas de flôres. As ruas da cidade são pela maior parte tortuosas estreitas e pouco aceadas principalmente as que ficam mais proximas ao mar todavia em outro tempo foram muito mais immundas. 
As casas construidas de pedra e caiadas exteriormente têm uma apparencia regular e mostram aceio. Algumas edificadas no gosto singelo e elegante da architectura ingleza e pertencentes a subditos da Grã Bretanha são de mui agradavel aspecto. Onde se vêem mais casas d'esta architectura é na Praia Grande, á beira mar sobre um caes extenso e magnifico com desembarcadouros commodos. É o melhor e mais lindo sitio da cidade.

Comércio

Macau é perfeitamente abastecida não só dos mantimentos necessarios á vida mas tambem de muitos de regalo. Acha-se sempre provida de excellentes carnes, de muita variedade de aves, peixes, hortaliças, legumes e fructas. Recebe todas ou quasi todas estas provisões do territorio chinez, circumstancia que obrigará em todos os tempos o governo e os moradores de Macau a procurarem viver em boa harmonia com o celeste imperio.
Tem esta cidade bons mercados cobertos e d'estes o melhor em edificio e mais notavel pela variedade e valor das mercadorias que expõe á venda é o bazar chinez. Os chins têm singular geito para fazerem exposição de productos de industria Sabem dispô-los com verdadeiro gosto artistico e de maneira a fazer realçar cada um dos objectos. Tanto no bazar como nas lojas observam á risca esta pratica.
O commercio é a industria quasi exclusiva de Macau pois que não tem fabricas nem terrenos para lavoura. Todavia possue algumas pequenas industrias manufactoras muito aperfeiçoadas posto que exercidas em geral pelos chins. Os trabalhos em que estes artistas mais sobresahem são os da ourivesaria e os da esculptura em marfim, tartaruga e madeira de que fazem artefactos de pasmosa delicadeza.
Os arrabaldes da cidade são limitadissimos pois que todo o territorio que ahi possuimos mal chega a ter uma légua de comprimento e meia na sua maior largura acrescendo a isto a ingratidão do sólo. Entretanto contam-se em volta da cidade várias hortas e jardins e três aldêas habitadas por chins.

Gruta de Camões

Há em Macau uma curiosidade natural e ao mesmo tempo sitio histórico, de mui subido apreço. É a gruta de Camões onde o príncipe dos poetas portuguezes, inspirado pelo amor da pátria, compôz alguns cantos ou deu os últimos traços no seu poema sublime os Lusíadas, com que glorificou Portugal e se immortalisou a si próprio. É formada esta gruta por grandes rochedos com duas entradas divididas por um penedo de figura cónica no qual descança a parte superior da rocha. Sobre a gruta está um esbelto pavilhão ou mirante d'onde se descobre em dilatado horisonte a bahia e a cidade de Macau e parte do porto da Taipa ou Typa, sempre animado por uma immensidade de navios europeus e barcos chinezes. Acha-se esta gruta em um quintal particular. O seu actual proprietario, o snr. Lourenço Marques mandou ha pouco fazer em Lisboa um busto em bronze do grande poeta para ser collocado n'aquella célebre lapa. Foi feito o modelo pelo snr Bordallo Pinheiro e os trabalhos de fundição foram executados nas officinas do arsenal do exercito pelo snr. Felisberto José Pereira. Está feito o busto com bastante perfeição. Tem de peso 49 kilogrammas.


População
A população de Macau tem tido muitas e grandes variações em resultado de alguns acontecimentos de Portugal e ainda mais dos successos de que tem sido theatro a China, desde o anno de 1842 em que a expedição ingleza ao cabo d'uma curta lucta conseguiu fazer abrir aos europeus os portos do celeste império. A emigração dos chins do território do império para dentro da cidade ou d'esta para outra qualquer parte é que fórma aquellas grandes variações. Em certas épocas chegou Macau a não ter mais de dez mil moradores. Quando a guerra assolou Cantão em 1854 elevou-se aquelle número a mais de sessenta mil. Presentemente poder-se-ha calcular em trinta e cinco mil almas a totalidade da população, sendo cinco a seis mil portuguezes, vinte e cinco a trinta mil chins, e quinhentos a seiscentos estrangeiros, em grande parte inglezes, francezes, americanos e hollandezes. A população de Macau em 1871 era a seguinte: Christãos 5500; Mouros parses, etc 2500; Chins de terra 53 700; Chins maritimos 10 000; Total 71 700. 
Clima

A salubridade do clima, a bondade e variedade de víveres e também a do sitio, attrahem a Macau em certa época do anno muitos negociantes inglezes de Hong Kong que a procuram como lugar de repouso e de recreio. Assim tambem serve muitas vezes de hospedaria ás legações europeas na China. D'este trato tem colhido a cidade muitos proveitos d'entre os quaes mencionaremos a edificação de lindas casas de campo e a introducção de muitas commodidades e confortos da vida hoje usados na Europa.

Importações e Exportações

No mesmo anno (1871) as importações tiveram o valor de 7993 contos de reis e as exportações 5014 contos. Os géneros que mais avultaram foram o chá e o opio. 

Ensino

Há em Macau um seminário, uma aula de pilotagem, três escolas primárias para o sexo masculino e uma para o sexo feminino. Em 1874 a frequência do seminário foi de 160 alumnos, a da aula de pilotagem de 9 e a das escolas primarias de 127. 

Excerto de "Diccionário universal de educação e ensino. Util á mocidade de ambos os sexos, ás mães de familia, aos professores, aos directores e directoras de collegios e aos alumnos que se preparam para exame Contendo o mais essencial da sabedoria humana e toda a sciencia quotidianamente applicavel, especialmente ao ensino. tudo simplificado ao alcance dos alumnos e pessoas meramente desejosas de instrucção, com elucidações tão profícuas aos mestres quantos proveitoas no trato das famílias. Redigido com a collaboração de escriptores peculiares por Emile-Mathieu Campagne diretor de Collegio. Trasladado a portuguez e ampliado nos varios assumptos relativos a Portugal por Camilo Castelo Branco".  Vol. 2. Nova Edição Portugueza Illustrada. Porto, 1886

Nota: As imagens não fazem parte da obra referida; para facilitar a leitura acrescentei títulos ao longo do texto.

sábado, 15 de julho de 2023

Diccionário Universal de Educação e Ensino (1886) - 1ª parte

Localização

Nas costas da China e no golfo onde se lança o rio Tigre surge do seio do mar uma ilha montanhosa chamada pelos chins Negao Men. Tem dez leguas de comprimento. Na extremidade oriental d'esta ilha está edificada a cidade de Macau. A historia d'esta nossa possessão é tão honrosa para Portugal que a adquiriu como para o imperio da China que lhe cedeu esse territorio. Da parte dos portuguezes significa um serviço importante de leaes amigos prestado á China em occasião de apuro. Da parte dos chins representa um acto de gratidão nacional por esse serviço.
Na primeira metade do seculo XVI estando recentes as nossas primeiras relações com o celeste imperio foram as costas d'este paiz infestadas por piratas que commettendo roubos e horriveis carnificinas espalhavam o terror por todos os mares e portos do imperio. O numero e a audacia dos piratas zombaram do poder do imperador Khang Hi tornando-lhe inuteis todos os seus esforços. O mal cresceu a ponto que ameaçou acabar inteiramente com o commercio maritimo da China. Foi n'estas criticas circumstancias que os portuguezes se resolveram a perseguir os piratas e com tal denodo o fizeram que em pouco tempo os aniquilaram completamente. Em recompensa d'este immenso serviço concedeu-lhes o imperador KhangHi uma porção de territorio na ilha Negao Men para ahi estabelecerem uma feitoria. Era isto o que os portuguezes muito desejavam e em vão tinham solicitado não tendo obtido até então mais que a permissão de negociarem e residirem nos portos chinezes de Liampo, Chincheo e Lampacao. 

Assentamento

N'esta concessão porém não se esqueceram os chins da sua proverbial astucia e desconfiança regulando as cousas de modo que os portuguezes não pudessem para o futuro estender o seu dominio além dos terrenos concedidos. Designando-lhes para a sua feitoria uma estreita orla de terra na ilha de Negao Men deram-lhes um ponto de importancia para um estabelecimento commercial pela situação geographica da ilha collocado na desembocadura de um dos maiores e mais importantes rios do imperio e no qual está a cidade de Cantão que era e foi por muito tempo a unica porta da China para o commercio maritimo com a Europa. Separando aquella orla de terra do resto da ilha com uma alta muralha de pedra prohibindo os portuguezes com graves penas a passagem d'essa linha divisoria e vigiando com numerosas forças e olhos d'Argos o cumprimento d'essa prohibição precaveram-se contra quaesquer projectos de futuras invasões.
Se este presente nos fôra dado hoje ficaria talvez para sempre o que primitivamente era uma estreita lingua de terra meia eriçada de rochedos meia coberta de areas. Porém n'aquella época era tal o esforço dos portuguezes, tão firme, tão energica e perseverante a sua vontade que apesar de todos os estorvos e difficuldades conseguiram transformar os inhospitos rochedos e esteril praia em uma cidade bella populosa e rica. Em breves annos se estendeu pela praia longa fileira de casas e armazens de agradavel aspecto sobresahindo alguns formosos edificios publicos e fez-se rosto ao mar com um extenso caes de cantaria.
Coroaram-se os montes sobranceiros com alguns conventos e fortes. Arborisaram-se as encostas, plantaram-se hortas e jardins em derredor da povoação. D'est arte ao aceno do genio portuguez se ergueu quasi de improviso d'entre rochas e arêas a cidade do Santo Nome de Deus de Macau que teve começo pelos annos de 1557. Como fosse um estabelecimento puramente commercial no seu principio era governado á vontade dos moradores que escolhiam d'entre si um chefe com o titulo de capitão mór. Sendo elevada a nascente povoação á categoria de cidade no anno de 1583 ou 85 foi então creado o senado da camara que ficou regendo a colonia sujeito ao governo da India. As frotas de Lisboa de Goa e de Malaca e as relações commerciaes com a China fizeram rapidamente populosa e florescente a cidade de Macau.

Cresceu e durou esta prosperidade emquanto Portugal se conservou independente e respeitado na Europa e poderoso e influente na Asia. Mas logo que immerecido infortunio lhe fez dobrar a cerviz ao jugo de Castella derrocou-se instantaneamente o imperio portuguez asiatico. Despojado do predominio dos mares em breve perdeu a sua supremacia na India. Os inglezes e hollandezes desaffrontados de tão terrivel competidor apresentaram-se potentes n'aquellas regiões onde o ciume dos portuguezes os havia já combatido e d'onde tinha conseguido expulsal-os. A cidade de Cantão abriu emfim as suas portas aos novos hospedes. O commercio da China mudou de rumo e Macau foi cahindo em progressivo abatimento. Varias tentativas feitas pelos hollandezes para se apoderarem da cidade fizeram conhecer a necessidade de se estabelecer n'ella um governo militar. Foi então enviado de Goa para a defender D. Francisco Carrasco ao qual se succedeu D. Francisco Mascarenhas, o primeiro que para alli foi com o cargo de governador e capitão general.
imagem não incluída na obra referida

Ataques holandeses

Em junho de 1622 surgiu em frente de Macau uma esquadra hollandeza de quinze naus disposta a tentar um desembarque contra a cidade e no dia 20 lançou em terra oitocentos homens bem armados. A guarnição da cidade constava apenas de duzentos soldados mas houve se com tal bravura que o ataque foi victoriosamente repellido e o inimigo mal pôde recolher as naus uns duzentos homens deixando o resto morto no campo ou prisioneiro de guerra. Esta grande victoria foi causa sem duvida de que ficassem escarmentados os que nos cubiçavam aquella colonia. O que é certo é que não tornou a ser affrontada pelo inimigo.
D'este ataque veio-nos comtudo um proveito. O governo chin vendo o perigo que a cidade correu e considerando nos inconvenientes que podiam resultar para o imperio se os hollandezes conseguissem apossar-se de Macau, consentiu em que se fortificasse a cidade. D'ahi datam pois as primeiras obras de defesa. Porém a sua decadencia foi por diante e com ella lhe sobreveio um novo opprobrio e vexação, o poder dos mandarins estabelecido em Macau.

O poder dos Mandarins

Os fundadores de Macau tinham sabido crear pela sua actividade e energia uma situação prospera para a colonia. Mas os seus descendentes, amollecidos pelo clima e pelos gɔzos da riqueza, foram trocando os habitos activos da Europa pela indolencia e apathia das raças asiaticas. Achando nos chins bons operarios habeis corretores e caixeiros intelligentes foram pouco a pouco descançando n elles encarregando os de quasi tudo quanto era trabalho. A remuneração liberal d'esses serviços foi attrahindo á cidade primeiramente a classe laboriosa da parte chineza da ilha e mesmo do continente e depois innumeraveis vadios e malfeitores. D'este modo a população chineza de Macau em pouco tempo excedeu muito a portugueza. Emquanto o nosso pavilhão fluctuou triumphante no Oriente emquanto Portugal se fez respeitar em suas possessões ultramarinas por meio das tropas regulares que lhes enviava e n'ellas mantinha, houve socego em Macau. Os ricos mandavam á sua vontade. Os operarios trabalhavam satisfeitos mas com sujeição. Os proletarios faziam o menor mal possivel porque temiam a espada da justiça. Porém, logo que a decadencia da mãe patria se fez sentir nas colonias desataram-se todos aquelles laços e rebentaram na cidade graves desordens entre os chins e os portuguezes. O mais leve pretexto servia de signal de revolta que ao principio era reprimida a custo e depois pela continuação de taes actos desconceituada e sem força a authoridade crescia e rompia em todo o genero de excessos e violencias. N'estas crises as pessoas abastadas e principaes da terra viam-se obrigadas a refugiar-se nos fortes para salvarem a vida deixando as suas casas e estabelecimentos entregues á pilhagem. Foi no meio dos progressos d'este flagello que as authoridades e população portuguezas de Macau invocaram o auxilio das authoridades chinezas contra os chins rebellados. Assim se estabeleceram n'aquella cidade a intervenção e mais tarde a influencia e supremacia dos mandarins. Tão longe foi o abuso d'esta intervensão que a cidade de Macau ficou portugueza apenas no nome e n'um simulacro de authoridades nacionaes. Não se fazia alli cousa alguma sem a annuencia dos mandarins. A seu bel prazer lançavam e cobravam tributos, concediam ou negavam licença para se edificar ou reconstruir qualquer casa, fechavam o porto quando lhes parecia, e obrigavam o governador da cidade a expulsar d'ella os estrangeiros com quem estavam em guerra como succedeu com os inglezes em agosto de 1839 logo que começou a lucta da Inglaterra com a China por causa da questão do opio.

O Governo de Ferreira do Amaral

Este estado precario e humilhante melhorou consideravelmente depois d'aquella guerra. Os chins em parte pelo abatimento moral em que os deixaram os triumphos dos inglezes e as arduas condições da paz em parte por benevolencia com os visinhos que nunca os incommodaram prestaram se a fazer varias concessões exigidas pelos governadores de Macau. Para tratar d'este negocio veio á cidade um mandarim enviado pelo alto commissario de Cantão, o célebre Lyn. Ajustou-se pois e levou-se a effeito um tratado pelo qual augmentaram as immunidades de Macau e se coarctaram as intervenções chinezas. O commercio d'esta nossa possessão que tivera um grande desenvolvimento durante a lucta da Inglaterra com a China cahiu na maior prostração assim que pelas condições do tratado de paz foram abertos cinco portos d'este imperio ao commercio de todas as nações. Para obviar a este mal foram tomadas varias providencias sendo a mais importante a que declarou porto franco a cidade de Macau.
A nomeação e chegada a Macau do novo governador Ferreira do Amaral no anno de 1844 assignalaram o começo de uma nova época para esta cidade. As importantes reformas que concebeu e poz em pratica e a posição resoluta e energica que tomou em presença dos chins acabaram de emancipar a colonia da vergonhosa tutela das authoridades chinezas.  Principiando por collocar o porto militar de Macau em um pé respeitavel acabou com os impostos lançados em proveito do governo chinez e despojou as suas authoridades da influencia e jurisdicção que exerciam na cidade. Estas medidas excitaram grande agitação e longa resistencia da parte dos chins. Porém, a coragem e perseverança do governador venceram todas as difficuldades consolidando as reformas e tranquillisando a povoação. Por infelicidade quando esta nossa possessão assim se ia levantando do extraordinario abatimento moral a que chegou quando começava a restaurar-se economicamente por effeito da franquia do seu porto e de outras providencias illustradas sobrevieram dous attentados, um após outro, que encheram a cidade de consternação expondo a perder todos esses beneficios tão custosamente adquiridos. O primeiro d'aquelles attentados foi a violação flagrante e escandalosa do seu territorio e o menos cabo da authoridade por parte da guarnição de uma fragata ingleza que se achava surta no porto e que desembarcando armada accommetteu a cadêa publica e á viva força tirou d'ella e levou para bordo um seu patricio e companheiro que fora preso por se não querer descobrir sendo advertido diante do Santissimo Sacramento na occasião de passar a procissão do Corpo de Deus. Succedeu este escandalo em 1849. No mesmo anno aconteceu o segundo attentado que se seguiu de perto ao primeiro e que foi talvez um triste resultado d'este. No dia 22 de agosto, tendo sahido a passeio a cavallo o governador Amaral foi barbaramente assassinado por alguns chins junto á porta da muralha que separa o territorio portuguez do da China e na presença de um posto militar d'esta ultima nação. Este facto augmentou de gravidade pelos justos motivos que houve para se suppôr que as proprias authoridades de Cantão não eram estranhas á perpetração de semelhante crime. Viu-se então a cidade exposta a grandes perigos. A população chineza, que é a principal, assumiu um aspecto ameaçador e a portugueza, incomparavelmente menor, possuiu-se de um terror panico desmedido. Todavia, graças ao estado de defensa em que o fallecido governador deixára a cidade e á disciplina que introduzira na tropa, e graças tambem ao apoio prestado por alguns navios de guerra britannicos alli estacionados, livrou-se Macau da anarchia e da invasão chineza que lhes estiveram propinquas nos primeiros dias que se seguiram áquella catastrophe. Depois acudiram alli embarcações de guerra e tropas regulares enviadas de Goa com que ficaram asseguradas a paz e tranquillidade da colonia.
O novo governador tendo a cidade bem guarnecida de tropa e defendida, além da artilheria dos fortes, por uma fragata e duas corvetas de guerra portuguezas, exigiu das authoridades chinezas de Cantão uma reparação do insulto por meio da entrega dos criminosos. Ao cabo de muitas delongas e tergiversações do mandarim de Cantão foi-nos dada uma satisfação senão completa comtudo aceitavel. Os criminosos ou pelo menos uns miseraveis indigitados pelo mandarim como authores do delicto foram justiçados na cidade de Cantão. Posteriormente restabeleceu-se a boa harmonia entre os governos chinez e portuguez e do mesmo modo entre os subditos das duas nações residentes em Macau. As guerras em que a Grã Bretanha e a França entraram como alliadas contra a China nos annos de 1854 e 1860 serviram de tornar mais firme aquella harmonia e de proporcionar a Portugal, em virtude de um recente tratado, iguaes favores aos que o celeste imperio concedeu obrigado pelas armas aos francezes e inglezes.
O movimento commercial que houve em Macau durante aquellas duas guerras, posto que transitorio, benefico e importante em resultados, e além d'isso aquelles favores concedidos e uma melhor administração economica na colonia têm melhorado muito a sorte de Macau e promettem lhe um futuro prospero.

Governo, guarnição militar e localização

A cidade de Macau tem por brazão as armas reaes em escudo de prata e em volta o seguinte letreiro 'Cidade do Nome de Deus não ha outra mais leal'. A etymologia do nome de Macau vem de duas palavras chinezas, Ama e Cau. A primeira designa o idolo de um pagode que alli havia desde tempos remotos. A segunda quer dizer porto. Começando os portuguezes a chamar ao sitio Amacau, logo que ahi se estabeleceram deram depois á cidade com pouca differença o mesmo nome.
Compõe-se a administração de Macau de um governador nomeado de tres em tres annos e de um conselho de governo presidido pelo governador e do qual são membros o juiz de direito, o official militar de maior patente, o escrivão de fazenda, o presidente da camara e o procurador da cidade.
O governo de Macau tem por subalterno o governo de Timor. A repartição da justiça consta de uma junta de justiça que tem por presidente o governador e por vogaes o juiz de direito, o commandante do batalhão de artilheria, o presidente da camara, os dous juizes ordinarios e o procurador da cidade. O juizo de direito é formado pelo juiz de direito, juiz substituto e delegado do procurador da coroa e da fazenda. A instancia superior é a relação de Goa.
Há mais na cidade uma junta de fazenda, a repartição de saude publica com um cirurgião-mór e um capitão do porto. A camara municipal goza o antigo titulo de leal senado de Macau.
A guarnição da cidade consta de um batalhão de artilheria e de outro batalhão de infanteria.
Macau está situada a vinte e dous graus e treze minutos de latitude norte e a cento e treze graus e trinta e dous minutos de longitude éste. Dista cincoenta milhas, pouco mais ou menos, da foz do rio Tigre, umas oitenta da cidade de Cantão e quarenta da ilha de Hong Kong onde os inglezes têm um importante estabelecimento. A sua distancia de Lisboa em linha recta é de 1 400 léguas e pelo Cabo da Boa Esperança 3 200.

Cidade

O aspecto da cidade visto do porto é mui formoso e pittoresco. Está edificada em amphitheatro sobre uma extensa bahia. Parte d'ella sentada á beira do mar ostenta uma longa fileira de casas constituidas ao uso da Europa, resplandecentes de alvura e algumas com seus adornos architectonicos. Outra parte eleva-se sobre uma collina pedregosa mediando entre ambas os palmares e mais árvores dos quintaes e jardins. Finalmente corôam-se os montes sobranceiros á cidade com fortalezas e templos que contrastam com as negras rochas graniticas que lhes servem de base.
Os trajos variados e na maior de côres garridas da população chineza que percorre as ruas e anima os caes e diversidade de embarcações que estanceiam no porto muitas de fórmas singulares e exquisitas empavezadas de flammulas e bandeiras multicôres e emfim os resplendores do e a pureza da atmosphera em dias claros dando brilho e realce a tudo isto, completam um quadro que surprehende e encanta os viajantes.
A bahia posto que não offereça ancoradouro perfeitamente seguro, pelo menos em certas épocas do anno é ampla e quasi que fechada pelos cabos escarpados das montanhosas ilhas Lantow e Lintin.

Porto e vida marítima

O porto propriamente dito é muito abrigado, porém é tão pequeno que pouco mais poderá accommodar de vinte embarcações e apenas tem duas braças e meia de profundidade á entrada. Porém, a tres milhas da cidade para o lado do sul ha um bom ancoradouro chamado da Taipa ou Typa que fica entre duas pequenas ilhas e no qual podem surgir e estacionar com segurança quaesquer navios de grande porte. 
É importante o commercio de cabotagem que se faz de um lado até Changai e do outro até ao golfo de Sião e ás Molucas, em cuja navegação se empregam alguns barcos movidos a vapor juncos e lorchas. Estas ultimas occupam-se em Macau ás vezes quando andam piratas na costa a comboiar os juncos e n'esse caso são commandadas por portuguezes, equipadas por chins e armadas com uma ou mais peças de artilheria.
Segundo um documento official possuia o porto de Macau em 1859 três vapores, cinco navios de alto bordo armados ao uso da Europa e trinta e cinco lorchas, ao todo quarenta e tres embarcações com 5 560 toneladas. 
Entre Macau Cantão e Hong Kong, onde chegam as malas da Europa, há carreiras regulares feitas por barcos de vapor que fazem a viagem em cinco horas ou por lorchas e outros barcos chinezes chamados Fast boats. 
Defendem a bahia e o porto tres fortes: o principal é denominado S. Thiago da Barra. É guarnecido com trinta canhões. Tem uma fonte com boa nascente e accommoda trezentos soldados. Para o lado de terra, mas dominando igualmente o mar, defendem a cidade outras tres fortalezas. A mais importante é a de S. Paulo do Monte. Tem assentadas quarenta peças de artilheria e encerra quatro fontes de água nativa, uma cisterna, casamatas e quarteis para mil soldados.
Divide-se a cidade em duas partes distinctas: uma habitada pelos portuguezes e estrangeiros europeus, a outra em que reside a povoação chineza. Esta é a continuação d'aquella para o lado de noroeste.
Paróquias

São tres as parochias: a Sé que é a mais populosa, S. Lourenço e Santo Antonio. A cathedral é um bom templo porém de architectura pesada. Foi fundada por D. Belchior Carneiro, jesuita nomeado bispo do Japão pelo papa Pio V e fallecido em Macau no anno de 1583. O bispado de Macau foi erecto a instancias d'el rei D Sebastião pelo summo pontifice Gregorio XIII por bulla de 10 de fevereiro de 1575 e foi D. Belchior o seu primeiro prelado. Os outros edificios religiosos são a casa da misericordia, com um recolhimento annexo de donzellas pobres, o convento de Santa Clara, de freiras franciscanas, duas ermidas, sendo uma da invocação de Nossa Senhora da Penha, outrora fortaleza e situada em lugar alto entre dous fortes, e os edificios dos extinctos conventos de S. Domingos que pertenceu á ordem dos prégadores de Santo Agostinho que foi de eremitas do dito santo e de S. Francisco que era de frades franciscanos. Os jesuitas tiveram tambem alli um sumptuoso collegio da invenção de S. Paulo, edificado no anno de 1662 no mesmo sitio onde tinham um hospicio formado em 1565 e incendiado annos depois. 
Pela extincção da Companhia de Jesus ficou pertencendo o edificio do collegio de S. Paulo ao senado de Macau. Em 26 de janeiro de 1834, servindo então de quartel de tropa foi destruido por um violento incendio. No recinto da incendiada igreja estabeleceu-se posteriormente o cemiterio publico.
Além d'estes, os principaes edificios são o palacio do governador, na Praia Grande em frente de um bello caes, a alfandega, a casa do senado, a casa da companhia ingleza das Indias orientaes, o paço episcopal e dous pagodes chinezes. A casa da Companhia das Indias está edificada sobre o caes. É um rico palacio coroado de balaustrada sendo o corpo central ornado de quatro columnas e um frontão. 
O paço episcopal occupa o convento de Nossa Senhora da Guia situado dentro da fortaleza do mesmo nome que se ergue sobre uma montanha alcantilada dominando a cidade e a bahia. Goza-se d'alli um panorama admiravel e a seu turno o paço acastellado dá realce á perspectiva de Macau.

Pagodes

Há em Macau quatro pagodes principaes: dous nas aldeias de Moha e Patane, outro no caminho que vai de Patane para a Porta do Cerco e o quarto proximo da fortaleza de S. Thiago da Barra. Os dous ultimos são os melhores e, sobre todos, o da barra que reune a uma construcção mais sumptuosa a belleza do sitio e o effeito pittoresco produzido pelas suas diversas capellas dispostas com muita arte e bom gosto em amphitheatro por entre grandes penedos e frondosas arvores. 

Hospitais e outros equipamentos

Tem Macau tres hospitaes, dous civis e um militar, e os seguintes estabelecimentos de instrucção publica: o seminario de S. José, antigo collegio de catechumenos chins no qual se ensina theologia, philosophia, latim e chinez e é frequentado por uns trinta seminaristas; o asylo de Santa Rosa onde são educadas umas cem meninas; uma escola de mathematica, das linguas latina franceza e ingleza de lêr e escrever instituida em 1847 pelo senado e cujo movimento regula por cento e cincoenta discipulos.
Possue um museu de historia natural que encerra tambem varios objectos curiosos relativos ás artes e sciencias d'aquelles paizes. Tambem tem uma typographia e um jornal official intitulado Boletim do Governo de Macau.

continua...