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sábado, 2 de maio de 2026

Memórias de viagens no Fat Shan

Um dos icónicos navios da travessia entre Macau e Hong Kong e meados do século 20 foi o navio Fatshan. Uma viagem que demorava cerca de 4 horas. Aqui ficam alguns testemunhos de quem nele viajou bem com algumas fotografias.
Curiosidade: o nome remete para um local na China continental hoje denominado Foshan.
Embarque no Fat Shan na ponte-cais nº 20 em 1961

Testemunho de William Lawrence:
When we arrived in Hong Kong in 1970, we often spent weekends exploring. One memorable journey was taking a ride on the Fatshan to Macau. This was a journey right out of a book. From the wicker seats to the overnight cabins, it was memorable. More than once, we took her up the river, feeling like colonial explorers. Macau was a Portuguese colony at the time, and sure enough, the little hotels and restaurants served excellent food for a weekend getaway. When the faster boats came along, it sure shortened the trip; however, I missed the statley. kinda’ creaky Fatshan to take me on my holiday.


Luke Gong:
"I took this trip as an 8 year old with my parents in 1964. I remember spending the night on a canvas cot on the trip over from Hong Kong and arriving in the early morning hours."

Christine Mark:
"Loved the Fatshan. We used it often between 1961 and 1965."

John Garbett:
"We went to Macau a number of times in 1972/1973. As you say a wonderful colonial style experience complete with a large Union Jack painte amidships for easy recognition as a British ship. We usually had one of the old fashioned deck cabins where sandwiches etc were brought. On one night just before midnight as we were cueing to disembark in Hongkong I stood just outside the galley window. No exaggeration the stove, wall and table tops were thick, and I do mean thick, with scurrying cockroaches. Never had food aboard Fatshan again."

Law Hin Lau:
"When my class-Mate became son-in-law of famous Macau Merchant Mr. Ho Yin. He was made a Manager in that ship company. He once brought me onboard to see the vessel. On the top deck there were stacks of stacks of lockers for stowing the gold bullions for conveying them from Hong Kong to Macau then further to mainland China. He also showed me the Radio Room as I was also at R/O on ocean-going ships. That old Spark scared me that I might be taking over his job. I told him I only enjoy working on ocean-going vessels but not the river boat like Fat Shan that set his mine at ease."

Karen Campbell:
"When I first arrived in HK, i used to go on it with my parents- loved it and do remember the old wicker chairs. It never seemed quite the same when the hydrofoils started - except quicker of course. Macau was beautiful then"

Em Agosto de 1971 o tufão Rose atingiu Hong Kong e Macau. Na madrugada de 17, o SS Fatshan foi uma das vítimas da tempestade tendo afundado. Morreram 88 pessoas.

Testemunho de Jack Bishop:
"I saw the capsized Fatshan the day after Typhoon Rose on the shore line of Lan Tau Island. A few other ships were damaged during that storm."



domingo, 22 de março de 2026

Memórias do Liceu e do Complexo Escolar pelo Professor José Cordeiro

A propósito dos 40 anos passados sobre a inauguração do Complexo Escolar de Macau pedi ao professor José Cordeiro um testemunho desses tempos. Aqui fica o meu agradecimento pela sua disponibilidade. Agora, tal como então, sempre com uma enorme generosidade na sempre difícil missão de educar. Fui um dos muitos que tive o privilégio de aprender. Sobre a escola e também sobre a vida. Desses tempos ficaram para sempre impregnados valores como o respeito, a liberdade, a solidariedade, a responsabilidade, a partilha, etc...
Se a memória não me falha

"Estava eu posto em descanso quando o João  Botas me veio picar a memória acerca da passagem recente, em 6 Janeiro de 1986, do 40º aniversário da inauguração e funcionamento do Complexo Escolar de Macau, da Direcção de Serviços de Educação, Juventude e Desporto do governo de Macau, logo no reatamento do 2º período, para falar das minhas memórias daquele tempo. Ainda me dispus por a memória à disposição dele, dar-lhe umas dicas, mas ele, fino, preferiu a papa feita. Como nunca me decepcionou no seu tempo de estudante, nunca deixando que algo acontecesse por falta de voluntário, não vou deixá-lo pendurado no seu nobre  propósito. Quando mais ninguém queria, o João era “o homem para levar a carta a Garcia”. 
Estou-lhe grato pela sua disponibilidade.
Já lá vai muito tempo, que sensibilizado por uma dança do Dragão ou do Leão que vi nos documentários “ Mundo português”, que passavam nas sessões de cinema antes de passar o filme em exibição, disse para os meus botões que um dia gostaria de ver aquilo ao vivo.
Em janeiro de ´81, depois de um processo bem sucedido de candidatura, estreei-me no vetusto Liceu Nacional do Infante D. Henrique, como era então de lei chamar-se quando havia só uma escola liceal  da rede pública de ensino por distrito.
E quem se moveu por danças de leões e de dragões com a cabeça cheia de fantasias não podia ter sido melhor ocasião que a quadra festiva do Ano Novo Lunar e o Liceu se situava naquele enclave da cidade, em frente à Baía da Praia Grande, onde acontecia a chinfrineira do rebentamento dos panchões, enquanto na Baia ainda deslizavam os graciosos juncos a navegarem rumo ao Porto Interior. 
Ali trabalhei até à inauguração do dito Complexo escolar de Macau que passou a integrar a Escola Preparatória Dr José Gomes da Silva, a Escola Luso-Chinesa Luis Gonzaga Gomes e a Escola Secundária do Infante D. Henrique, também com cursos nocturnos.   
Se, olhando para um mapa antigo de Macau, o LNIDH, ficava isolado numa ponta da Península, num exclave quase no meio de nada, mas desde então já completamente integrado no coração da cidade com o Hotel Sintra, numa das pontas, agora a olhar não sei para quê, na outra ponta, diametralmente oposta, sob austera supervisão da estatua equestre do austero Governador Ferreira do Amaral montado num cavalo com as patas dianteiras bem empinadas - símbolo de morte heróica do cavaleiro - implantado em altaneiro pedestal no meio da praça com o mesmo nome e mais, do outro lado, o  Hotel Lisboa, mesmo ali ao pé de se poder entrar, a  primeira sensação que se tinha, quando se começou a falar da implantação do projectado complexo escolar foi idêntica: mas aquilo fica tão fora de mão; aquilo é um deserto; então, e os transportes e a segurança das crianças e mais isto e mais aquilo e aquele outro como se todas as novidades exigissem visto prévio de um julgamento pessoal, antes de virem a ser aprovadas oficialmente. A oriente nada de novo para o habitual pessimismo ou a prudência do Velho do Restelo, do Rio Das Pérolas daquela Velha praça portuguesa da “Cidade do Santo Nome de Deus, não há outra mais leal”. Rapidamente o exclave projectado para a construção era agora um enclave rodeado de cidade vibrante por todo lado.
Para trás ficariam as odiadas batas de cor amarelo vaticano, que só ao gineceu obrigava  e as usava como retaliação até às linhas vermelhas da provocação, e algumas eram bem frescas e arejadas, para desespero da D. Cristina que no seu posto avançado ia zelando pela moral e dos bons costumes da escola, instalado no grande hall de entrada do velhinho, mas bem conservado, Liceu.
Num terreno de hortas, ladeado pelo circuito citadino do Grande Prémio de Macau logo se imaginavam cobras e lagartos numa terra onde leões e dragões à solta eram, e ainda são, sinónimo de festa rija, projectava-se a construção de uma nova escola. Naquele, então, deserto da cidade, imagine-se!
Curiosamente, aquilo começou tão auspiciosamente que, na cerimónia da cravação da 1ª estaca, com pompa e circunstância e fanfarra da Policia, quando o martelo pneumático se preparava para dar a primeira martelada, não é que, segundo constou, a estaca se enfiou do terreno adentro, mole que nem  faca em manteiga? Se o resto for assim tão fácil teremos obra, logo falou a vox populi de uma terra onde os sinais são mensageiros…Disto, confesso que não fui testemunha ocular, mas é património que se me cravou à minha revelia na memória de tanto ter ouvido da boca de tanta gente ter dito que viu.
Bom, o terreno consolidou, muitas estacas ou pilares, se preferirem, foram cravadas à custa de tanta martelada, a obra começou, concluiu-se, foi tomada de assalto e ocupada entre o Natal/ 85 e os Reis/ 86. Depois, com pequenos ajustes, próprios de casa nova, lá o barco largou as amarras e zarpou à procura de fazer a sua própria História. Cedo lhe deram outras funções e a história do CEM - Complexo Escolar de Macau - foi o que cada um levou consigo no pouco tempo em que foi um estabelecimento de ensino. Para alguns, na flor da idade, foi muito tempo em idade de gente sempre apressada.
Durante as ditas férias de Natal procedeu-se á mudança do que era património administrativo, porque todo o resto lá estava instalado. Laboratórios, oficinas, piscina aquecida, um ginásio e um pavilhão desportivo com vários campos exteriores, balneários amplos e um edifício administrativo - a torre de comando operacional - com sala de professores e de trabalho, que albergava os serviços administrativos e os de direcção e de gestão escolar.
Mas nem tudo o que é novo é bom ou, pelo menos, sabe bem para toda a gente. E, se tinha sido abolido o uso das malfadadas batas para as meninas, agora o mal havia-se generalizado: toda a cambada teve que se apresentar na parada da cerimónia de abertura  da nova escola publica trajada a preceito com calça azul ferrete vincada e camisa xadrez de vermelho pálido, que mais parecia as toalhas de mesa do Restaurante Fernando, e um pulôver a condizer com as calças, para os mais friorentos.  O uniforme foi decaindo de uso apagando suavemente, como quem não quer dar por isso, o premonitório sinal do fim do dito Império Português do Oriente, se considerarmos que as escolas do Velho Liceu eram as únicas que não usavam uniforme no universo das escolas do Território. Com a farda tudo se igualava na tradição local e no respeito pela diferença dos uniformes!
Entretanto, e só por curiosidade, em 1987, como reforço da ideia de premonição, Anibal Cavaco Silva, então 1º ministro, no seu périplo pelo Oriente visitava Pequim, no que foi o formal pontapé de saída no jogo da reintegração de Macau na Mãe Pátria Chinesa. Há quem diga que foi o inicio do “Acordo de Desconsentimento” - há quem prefira “O Desacordo de Consentimento” -  de um longo e histórico comodato, até que a mutua conveniência tácita desde a instalação ditasse em concreto a separação amigável. Por curiosidade,  recordo-me de alunos da Escola Secundária do Infante D. Henrique, em viagem de finalistas pela Tailândia, se terem cruzado em trânsito, em Banguecoque, com a comitiva de Cavaco Silva, a caminho  da Embaixada Portuguesa, vizinha do Rio Chao Phraya e do icónico Wat Arun.
Entretanto, a inevitável D. Cristina, novamente instalada no seu posto de operações no grande hall da cantina escolar, muito senhora da sua função, que, como sempre, tanto zaragateava com os alunos, como era a sua  primeira e mais acérrima defensora, quando lhe cheirava a procedimentos disciplinares. Não havia testemunha mais abonatória do que ela, que, qual mãe severa para prevenir, os chamava à razão, mas era uma autêntica mãe galinha a defender os seus pintos quando os sentia ameaçados. Nem eles suspeitavam.
E pronto, João, não sei se era bem isto que querias, mas como deves entender, andamos todos na mesma escola, mas não podemos ter todos as mesmas memórias, não é?
Um pouco como as daquela  instituição, a um tempo cosmopolita e ecuménica de tanta desvairada e santa gente que a ela recorria -  e a mais inocente era matar a sede insaciável - , no fim da avenida do velho Liceu que dava pelo nome de “ A esplanada”, que era  a “Las Vegas” da Avenida da Amizade, onde o que acontecia lá devia ficar. 
Lá no começo da avenida, fronteiriço ao tribunal, Jorge Alvares nos contemplava, sem nada dizer.
 Ah, se as estátuas falassem… 
Grande abraço  para todos, com saudades.
Cascais, 11.03.2026
José António Cordeiro
Liceu, hotel Lisboa e a 'esplanada' à direita

Liceu na Praia Grande visto do Hotel Lisboa
 
Início das obras do Complexo Escolar
Inauguração do Complexo Escolar
* Inauguração a 4.1.1986 (sábado); as aulas começaram a 6.1.1986 (segunda-feira)
** As obras começaram a 2 de Setembro de 1982.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Memórias de Manuel Cotovio (1970-1971)

Manuel Cotovio prestou serviço militar em Macau entre Fevereiro de 1970 e Dezembro de 1971 pertencendo ao esquadrão de cavalaria nº 4 criado em 1967 e extinto por volta de 1974 quando foi adstrito ao PPM8275.
À semelhança de outros ex-militares, desafiei-o a recordar Macau do início da década de 1970 e o que se segue é o relato na primeira pessoa após várias trocas de emails. Algumas das imagens são de MC outras são da época e pretendem ilustrar a Macau que Manuel Cotovio conheceu. Depois de o ter feito pessoalmente, deixo aqui publicamente o meu agradecimento - e as desculpas pela publicação tardia - por mais este testemunho inédito e exclusivo do blogue Macau Antigo.
Quando fui mobilizado dissera-me que ia para Angola e só quando cheguei aos adidos é que soube que ia para Macau. A viagem começou com o embarque em Lisboa no dia 26/12/1969 no navio Timor. Como era soldado e não havia camarotes era passageiro de 3ª no porão. Eramos quase 200, uns iam para Macau outros para Timor. Fizemos escala em Lobito, Luanda e Beira Lourenço Marques. Mas desembarquei em Hong Kong, apanhei o barco para Macau onde cheguei às 22 horas de 12 de Fevereiro de 1970.
Fui colocado no EC4 (Esquadrão de Cavalaria) que ficava junto ao Jardim da Flora e do Quartel da Policia. O comandante nessa altura era o capitão Casquilho, e o Governador de Macau o Nobre de Carvalho. No inicio fez-me muita confusão quando ia fardado na rua ver as pessoas a desviarem-se e algumas até punham o lenço a tapar a cara, nos autocarros não  se sentavam ao nosso lado, e no cinema com certeza que tinham um código porque os lugares eram marcados quando adquirimos o bilhete e lá dentro nunca tínhamos vizinhos. Mais tarde depois soube que eram restos da rebelião de 1966. Felizmente que isso foi quase logo ultrapassado.
A inauguração do Hotel Lisboa foi nessa altura. Ia lá todos os dias beber um cafezinho no coffee shop e ainda lá ouvi uns faditos. Também gostava do Estoril que ficava perto do quartel. Ao Macau Palace (casino flutuante no Porto Interior) também fui algumas vezes. Havia música. Tenho saudades do Restaurante Belo na Av. Almeida Ribeiro, faziam uns cachorros que era de comer e chorar por mais. Havia ainda o Ruby e o Safari.
À praia a Coloane só fui dois fins-de-semana. Foi também num fim de semana que fui à Taipa. Não havia ponte e a viagem era de barco. Ao Canídromo é que fui mais vezes. Gostava muito do espectáculo e das peripécias que envolviam as corridas de galgos mas era raro jogar. O dinheiro não era muito e tinha de dar para os cigarros.  Um maço custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. Por vezes ia ao cinema. Lembro-me do Apollo onde vi o filme Woodstock e já aqui no blog veio-me à memória o Nam Van. Outra coisa que já não me lembrava mas ao ver as fotos recordei muito bem era aquela técnica de pesca com redes e bambús. O quanto eu fiquei admirado com aquilo...

O EC4 estava aquartelado num edifício tipo pré-fabricado revestido a chapa ondulada de alumínio parecido com os que os americanos usavam no Vietname. As traseiras estavam mesmo junto ao jardim da flora. Do lado esquerdo, num nível inferior, era  uma escola.
Um soldado recebia de pré 100 patacas ora não me dava para grandes aventuras por isso hotéis só ia a esses três que anteriormente referi, e muitas vezes era para ver jogar bowling e nas máquinas que estavam cá fora porque não tínhamos autorização para entrar no salão nobre dos casinos.
Quanto aos soldados éramos 13 mas só me lembro de um nome, foram outros para o Quartel General; não sei se chegamos aos 50. Tinha uma agenda com alguns apontamentos onde tinha nomes e endereços de todos do EC4 e de outros que vieram no barco só que quando chegamos a Lisboa desembarcamos quase madrugada e no quartel dos 'adidos' com a confusão de entregar o espólio perdi uma malita com algumas coisas sem valor material mas com interesse sentimental.
Ir ao SPM (Serviço Postal Militar) era uma das minhas funções: buscar e levar correio. Tinha um cartão de livre trânsito para andar na rua, mas a maior parte das vezes apesar de não ser muito longe ia no jipe com o condutor de dia.
Entrada para o antigo paiol (fotos séc. 21)
Nos primeiros seis meses cheguei a prestar serviço ao paiol da estrada de Cacilhas. Fiz umas guardas nessa guarita frente ao paiol. Nesse espaço, a casa da guarda, dormíamos e tomávamos as refeições. Numa outra guarita fazíamos reforços à noite. Havia aí um túnel que diziam atravessar o monte da guia e ligar à parte sobranceira ao nosso quartel. Não sei se tinha fundamento mas as entradas ou saídas estavam lá.
Uma vez na parte de Cacilhas tentei entrar lá com um cão que era o nosso companheiro nas noites de reforço, mas só andamos uns metros pois o cão começou a ganir e ladrar e a recuar. Eu também tive medo e voltei para traz já que a visibilidade também era pouca."

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Macau na 2ª viagem de circum-navegação do navio-escola Sagres: 1983-84

O navio-escola Sagres esteve quatro vezes em Macau. A primeira vez aconteceu em Janeiro de 1979. Esteve depois em Dezembro de 1983 e em Agosto e Novembro de 1993. Em 2010, em mais uma viagem à volta do mundo, o Sagres tencionou atracar mais uma vez em Macau mas a China interditou a entrada, argumentando não permitir a atracagem a navios de guerra.

1 de Julho de 1983 foi o dia da Largada para a 2ª Viagem de Circum-Navegação do navio-escola Sagres, uma viagem que durou 296 dias e que tinha como objectivos a instrução de cadetes da Escola Naval e o reforço dos laços com as comunidades portuguesas e territórios sob administração portuguesa. O comandante era o capitão-de-fragata António Luciano Homem de Gouveia.
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

O navio-escola Sagres esteve em Macau entre 13 e 26 de Dezembro de 1983. Esteve aberto a visitas da população e realizaram-se recepções oficias a bordo. Foi emitido um postal comemorativo pelos correios de Macau para assinalar a presença do navio-escola.
Para além de Macau, outras duas escalas tiveram grande destaque foram o Havai e o Japão.

Acácio Sousa, era na altura Cabo CM (condutor de máquinas) no navio-escola Sagres. Tinha 25 anos. Agora recordou para o blogue Macau Antigo a passagem por Macau há 43 anos...

13.12.83

A Sagres antecipou em dois dias a chegada a Macau devido a condições de navegação e ventos favoráveis que teve no decorrer deste trânsito de Shanghai até Macau, tendo a Sagres entrado no Porto Exterior de Macau a navegar em 'Árvore Seca' (todo o velame encontrava-se ferrado) e com a 'Máquina Parada'. Navegávamos a 11 nós, pelas 13h fundeou ao largo de Coloane, à entrada do Porto de Macau de onde suspendeu pelas 17h para atracar na Ponte Cais, em Macau às 18h no Porto Exterior.
À nossa chegada lá estavam os esterlotes dos panchões com as respectivas danças do dragão e do leão em ambiente de festa.
Foi a 2ª vez que o navio-escola Sagres escalou o território de Macau onde a sua guarnição passou as festas natalícias e onde aconteceram diversas iniciativas, programadas pela comissão organizadora nomeada pelo governador do território*. A Comissão Organizadora preparou uma visita a Guangzhou na Província de Cantão, e no Hotel Casino Lisboa, fomos agraciados com uma recepção dada pelos camaradas de Marinha destacados em Macau.
Na noite de 24 para 25 de Dezembro de 1983, celebramos a bordo o nosso Natal.
Entrada do Hotel Lisboa
26.12.83
Com o apoio exemplar do então Cte da Defesa Marítima de Macau, Cte Nobre de Carvalho**, pelas 23 horas demos início ao moroso processo de largada, para além de ser de noite, a Sagres teria de sair do Porto Exterior, local onde esteve atracada e teria de navegar num canal construído de propósito para a Sagres, navegando em águas rasas na Foz do Rio das Pérolas. Neste percurso foi acompanha por duas vedetas da Capitania do Porto de Macau e foi já perto de Coloane que o silêncio e a noite foram subitamente cortados, quando um rebocador dos Serviços de Marinha, agitando rastos de luz com os seus holofotes e apitando em tom festivo, começou a transmitir música portuguesa pelos seus altifalantes, desde o Fado às Marchas Populares, passando pela «Marcha dos Marinheiros» e o fado «Caravelas».
Durante meia hora o Estuário do Rio das Pérolas tornara-se praça Portuguesa, numa conquista irreprimível. Por fim e já com os últimos convidados, os Oficiais da Armada em serviço no território, entre os quais, o Cte Nobre de Carvalho, Chefe dos Serviços de Marinha e o Cte Arménio Fidalgo (da PMF) já a bordo da Vedeta da Policia Marítima Fiscal, que os levaria a Terra, a Sagres despediu-se com o som grave da sua 'sereia' enquanto se ouve um «Até à Próxima Camaradas» gritado a plenos pulmões.
A «Sagres» levava a sua guarnição reforçada, com a presença de um Jornalista da Rádio Macau e um Redactor do Gabinete de Comunicação Social, transportados para uma Experiência a Bordo da «Sagres». Eram 24 horas quando tudo terminou e iniciamos a viagem rumo a Singapura."
Hotel Presidente (1º plano) e Hotel Lisboa (parcialmente) ao fundo à esq.

* Vasco de Almeida e Costa (1932-2010), também ele da Marinha (era na altura capitão-de-mar-e-guerra), foi governador entre 1981 e 1986.
** Capitão-de-Fragata, João Manuel Velhinho Pereira Nobre de Carvalho.
Nota: Fotografias do grupo existente no FB alusivo ao evento.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os passeios de Harriet Low

A estadia de Harriet Low (1809-1877) em Macau, entre 1829 e 1833, é um dos registos históricos mais fascinantes da presença estrangeira em Macau na primeira metade do século XIX. Harriet viajou de Salem, nos Estados Unidos, para acompanhar o tio, o comerciante William Henry Low - e a tia - que trabalhava para a firma Russel & Co. Na época os comerciantes estrangeiros só podiam viver cerca de seis meses em Cantão, pelo que a restante parte do ano, viviam em Macau em casas arrendadas. Os Low viveramn o nº 2 do Pátio da Sé, ao alto da Calçada de S. João. Na altura as mulheres estrangeiras estavam proibidas de entrar em Cantão. Ainda assim, Harriet desafiou a proibição... 
Os dias em Macau ficaram marcada por bailes, visitas sociais e a constante observação das dinâmicas entre as comunidades chinesa, portuguesa e inglesa.

Vista parcial de uma pintura de G. Chinnery em 1833

Harriet passava grande parte do tempo em visitas sociais - era habitual trocar visitas com outras famílias de mercadores ingleses e americanos - para tomar chá, refeições, bailes...; passeios por Macau, em especial na Praia Grande, ao fim da tarde, quando o calor diminuía, a elite estrangeira passeava pela marginal (a Praia Grande) para apanhar ar fresco. Sendo protestante Harriet também frequentava os cultos do missionário Robert Morrison.
Também teve algumas aulas de pintura com Chinnery para quem pouso para um retrato finalizado em 1833.
Em casa Harriet lia e escrevia cartas à família e o diário. Estes dois tipos de registos permitem fazer uma retrato físico e social de Macau na época. Em 1829 Harriet tinha apenas 20 anos...
imagem criada por IA

Algumas 'entradas' do diário de H. L. que traduzi/adaptei para português...

30 Setembro 1829, quarta-feira (chegada a Macau)

"Macao from the sea looks beautiful, with some most romantic spots. We arrived there about ten o'clock, took sedan chairs and went to our house, which we liked the looks of very much. The streets of Macao are narrow and irregular, but we have a garden in which I anticipate much pleasure." 

"Macau vista do mar é linda, com alguns pontos muito românticos. Chegamos lá cerca das dez horas, pegamos nas cadeirinhas e fomos para nossa casa, de cuja aparência gostamos muito. As ruas de Macau são estreitas e irregulares, mas temos um jardim no qual prevejo muito regozijo."  

18 Outubro 1829, domingo (Passeio na Praia Grande)

"I forgot to tell you of the walk we had yesterday afternoon. We went out with the coolie, and he took us all round the Praya Grande, over a great hill, and back through the town, — a monstrous walk, and for the first one it was terrible. It is so long since we have walked that it overcame us all. The streets here are intolerable, — hilly, irregular, and horribly paved. We met no one but Portuguese and Chinamen, who annoyed us very much by their intent gaze. On our way, however, we saw two of their women with small feet. I was perfectly astonished, although I had heard so much of them; but I never believed it, and always supposed I must be deceived. (...)"

"Esqueci-me de te contar da caminhada que fizemos ontem tarde. Saímos com o coolie, e ele levou-nos pela Praia Grande, ao longo de um grande colina, e de volta pela cidade, - um monstruoso passeio, e para primeiro foi terrível. Há muito tempo que não andávamos e ficámos arrasados. As ruas aqui são intoleráveis, acidentadas, irregulares, e horrivelmente pavimentadas. Não vimos ninguém a não ser portugueses e chineses, que nos incomodavam muito com a forma fixa com que nos olhavam. No passeio vimos ainda duas mulheres chinesas com pés pequenos. Fiquei totalmente surpreendida, embora já tivesse ouvido muito sobre elas, nunca acreditei, e sempre supus não ser possível"
A Praia Grande na época de Harriet
Guache sobre papel - autor anónimo

27 Outubro 1829, terça-feira (Passeio no Campo - zona do Tap Seac)

"We went to the Campo, a beautiful place. The Campo is out of the town some way, is between two high hills, and the sea washing up on side. I ascended one of the hills, which is very high, and on looking round, found my party at great distance below. They had not followed my rash steps, but I was not sorry. It was a perfect spot and I shall try it again."  

"Fomos ao Campo, um lugar lindo. O Campo fica a alguma distância fora da cidade, entre duas colinas altas, com o mar a bater-lhe de lado. Subi uma das colinas, que é muito elevada, e ao olhar em volta, encontrei o grupo com quem passeava a uma grande distância mais abaixo. Eles não tinham acompanhado os meus passos precipitados, mas mão me arrependi. Era um local perfeito e eu vou lá voltar."

Visita à Casa Garden /Jardim Camões (na altura arrendado a uma empresa estrangeira)

"Tuesday we were invited to Mrs. F. 's, to take tea and walk in the garden. It is the most romantic place, is very extensive, and abounds in serpentine walks. There is a beautiful view of the sea, and immense rocks and trees, and several temples in the garden. In another part there is a cave in the rocks where the celebrated Camoens wrote his "Lusiad. " A bust of him stands in the cave. It is a wild and delightful spot." 

"Na terça-feira, fomos convidados para a casa da Sra. F. para tomar chá e passear pelo jardim. É um lugar extremamente romântico, muito extenso e repleto de caminhos sinuosos. Há uma bela vista para o mar, rochas e árvores imensas, e vários templos no jardim. Numa outra parte, há uma gruta nas rochas onde o célebre Camões escreveu os seus "Lusíadas". Um busto dele está na gruta. É um lugar selvagem e encantador."

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal de uma missionária em 1863: "Macau é um lugar encantador"

Nascida em Inglaterra em 1842, Mary Gunson desde cedo ouviu histórias de missionários que viajaram para a China e decidiu fazer o mesmo. Depois de receber formação na Wesleyan Methodist Missionary Society (Igreja Metodista Wesleyana), a 18 de Março de 1862 partiu para Xangai onde chegou a 18 de Julho desse ano. O destino final era Cantão - chegou em Agosto - onde iria dar apoio a outros dois missionários, Joan e George Piercy.
Ao fim de menos de um ano contraiu tuberculose e acabaria por regressar a casa. Pouco tempo depois dessa derradeira viagem esteve em Macau como conta numa carta escrita à irmã em Fevereiro de 1863 e que consta no livro publicado em Londres em 1865 "Love For China: Exemplified In Memorials Of Mary Gunson" da autoria de George Piercy. A estadia em Macau deveu-se à doença já que o clima do território era considerado mais indicado.
Na carta, Mary Gunson descreve o período de férias em Macau, durante o Natal de 1862 e o Ano Novo Chinês de 1863 - Ano do Porco iniciado a 18 de Fevereiro (quarta-feira) desse ano. Na carta conta que em Macau esteve hospedada em casa do casal Williams, faz uma descrição da baía da Praia Grande e dá ainda conta de uma visita ao cemitério protestante.
O casal referido é muito provavelmente Samuel Wells Williams (1812-1884) e Sarah Simonds Walworth (1815–1881). Samuel foi missionário, sinólogo e diplomata. Na época em que a carta foi escrita já era Secretário e Intérprete da Legação dos Estados Unidos na China, com sede em Pequim. Por certo manteve a casa que tinha em Macau já que o clima de Inverno era muito mais agradável do que o de Pequim podendo estar ali apenas naquela altura a mulher.
Macao February 23rd 1863
My Dear Jamie
Really how busy you must be what with attendance on the cows writing for father and many little errands for mamma and Ellie. I am so glad you are able to assist dear father; he has always so much to do. I hope you chose the prettiest cow to bear my name. Cows are not common here but the Portuguese seem very fond of goats and wherever we turn they are running and skipping about. Their milk is drunk by the Portuguese families.
Macao is a delightful place with beautiful walks. It is a small peninsula forty miles west of Hong kong belonging to the Portuguese. Look and you will find it on the map and then you will see the place where my Christmas holidays were spent and how far we had to travel by steamer from Canton to reach it.
On our approach to the town of Macao we got quite near the place before we could see the least of it then on turning a rocky point the whole town and bay burst upon us quite suddenly.
The bay forms a beautiful curve around which the houses are built and a fort at each end to protect the place; these are garrisoned by soldiers.
There are ten Roman Catholic churches here. O, poor deluded people. I saw them in the cathedral kneeling on the floor and thought their faces looked the very picture of misery. Theirs is a cold love less religion nothing but outward show and altogether unsatisfactory to the mind in which God has planted a desire for Himself and where until He is received there remains an aching void nothing else can fill.
The priests are numerous and strange looking beings on account of their singular dress. We have generally been able to walk out before breakfast which is very refreshing and then again in the evening. These walks are such a treat to me, Dr. and Mrs Williams, with whom we are staying are exceedingly kind.
Many Chinese live here and some of them are Roman Catholics. The 18th was the Chinese new year it is a universal holiday, their only one. All the shops were closed and every one was dressed in his or her best. I was taken through the Chinese part of the town that I might see how it would look if they kept the Sabbath day. It was touching. It grieved me much though to see the people gambling. I have twice visited the Protestant burial ground where lie the remains of many devoted Christian, men and women, among them four wives of Canton Missionaries and several children. I saw Dr Morrison's grave and gathered a few leaves which I enclose you must keep them in remembrance of that great man the first Protestant Missionary to China.
Love to all at home, a large portion to dear mamma who has been so ill. I hope when this reaches you, she will be quite well. I am, dear Jamie, the same Polly who left home now almost a year ago and still loving you all, as dearly and always having in mind the prospect of returning. O, to see you all once more. Your affectionate sister
Mary Gunson
Tradução/Adaptação

Macau, 23 de Fevereiro de 1863
Meu querido Jamie,
Iagino como deves andar ocupado a tratar das vacas, a escrever para o pai e a fazer pequenos recados para a mãe e para a Ellie. Fico tão contente por poderes ajudar o nosso querido pai; ele tem sempre tanto que fazer. Espero que tenhas escolhido a vaca mais bonita para levar o meu nome. As vacas não são comuns aqui, mas os portugueses parecem gostar muito de cabras e, para onde quer que nos voltemos, elas andam a correr e a saltar. O seu leite é bebido pelas famílias portuguesas.
Macau é um lugar encantador, com belos passeios. É uma pequena península a quarenta milhas a oeste de Hong Kong, pertencente aos portugueses. Procura e encontrá-la-ás no mapa; assim verás o lugar onde passei as minhas férias de Natal e a distância que tivemos de percorrer em vapor, desde Cantão, para aqui chegar.
À medida que nos aproximávamos da cidade de Macau, foi preciso chegar muito perto antes de conseguirmos ver o que quer que fosse; depois, ao dobrar uma ponta rochosa, toda a cidade e a baía surgiram subitamente diante de nós.
A baía forma uma bela curva em redor da qual as casas são construídas, com um forte em cada extremidade para proteger o lugar; estes estão guarnecidos por soldados.
Existem aqui dez igrejas católicas romanas. Oh, pobres pessoas iludidas. Vi-as na catedral, ajoelhadas no chão, e achei que os seus rostos eram o próprio retrato da miséria. A religião deles é um amor frio e sem vida, nada mais do que exibição exterior e totalmente insatisfatória para a mente na qual Deus plantou o desejo por Si próprio e onde, até que Ele seja recebido, permanece um vazio doloroso que nada mais pode preencher.
Os padres são numerosos e seres de aparência estranha, por causa das suas vestes singulares. Geralmente temos conseguido sair para caminhar antes do pequeno-almoço, o que é muito revigorante, e depois novamente ao anoitecer. Estes passeios são um verdadeiro deleite para mim; o Dr. e a Sra. Williams, com quem estamos hospedados, são extremamente amáveis.
Muitos chineses vivem aqui e alguns deles são católicos romanos. O dia 18 foi o Ano Novo Chinês; é um feriado universal, o único que têm. Todas as lojas fecharam e todos se vestiram com as suas melhores roupas. Levaram-me a visitar a parte chinesa da cidade para que eu pudesse ver que aspeto teria se eles guardassem o dia de Sábado. Foi comovente. No entanto, entristeceu-me muito ver as pessoas a jogar. Visitei por duas vezes o cemitério protestante, onde jazem os restos mortais de muitos cristãos dedicados, homens e mulheres, entre eles quatro esposas de missionários de Cantão e várias crianças. Vi o túmulo do Dr. Morrison e colhi algumas folhas que envio em anexo; deves guardá-las em memória daquele grande homem, o primeiro missionário protestante na China.
Envio amor para todos em casa, uma grande parte para a querida mamã, que tem estado tão doente. Espero que, quando esta carta te chegar às mãos, ela já esteja completamente recuperada. Sou, querido Jamie, a mesma Polly que saiu de casa há quase um ano e que ainda vos ama a todos profundamente, mantendo sempre em mente a esperança de regressar. Oh, ver-vos a todos uma vez mais.
A tua irmã afetuosa, Mary Gunson"

Nota: Mary regressou a Inglaterra pouco depois de escrever esta carta onde morreu a 29 de Maio de 1864. Tinha 22 anos. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

"The most idyllic and peaceful place in the Far East"

Hermann Graf Keyserling (1880-1946) foi um escritor e filósofo alemão. Cursou as Universidades de Genebra, Tartu, Heidelberga e Viena. Viajou pelo mundo em 1911 e dessa viagem resultou um de seus livros mais conhecidos Das Reisetagebuch eines Philosophen" / "Diário de Viagem de um Filósofo", publicado em 1919.
A edição em inglês surgiu em 1925 sob o título "The Travel Diary of a Philosopher". Macau surge no Vol. 2 - "To the Far East - China - Japan - To the New World - America", pág. 42 a 51. 

Excertos:
"Macau
I have escaped from the busy turmoil of Canton into the most idyllic and peaceful place which exists in the Far East. I have reached the delightfully situated Macau where Camoëns completed his Lusiadas. To what a remarkable extent the atmosphere of China has taken possession of me. As a matter of course the reaction against city life expresses itself in my soul by quietistic thoughts à la Laotse and Djuang Tse for there can be no doubt that the extreme form of the quietism of these men must be understood as a reaction against the extremes of sociability and bustle which characterised China even in their day.
When I re read their writings here then I feel as if I were listening to the echo of my own self. The same moods in Indian or European colouring would strike me as heterogeneous nay even as tactless. What is it which gives its special character to Chinese mysticism? Certainly not its meanings, its substance in this direction it agrees with the wisdom of all peoples of all time. It is partially its method of expression. I will not expand further on this subject as it is a direct function of the Chinese system of writing. In just the same way Taoistic philosophy does not express definite thoughts so much as their ultimate significance. And since this significance alone partakes of immortality whereas all conceptual embodiments must pass away sooner or later this fact brings about an absolute superiority of the Chinese expressions of supreme truth they alone will continue to live as they stand that which can be said of other literatures only in the case of some rare sentences applies in principle to all the expressions of Chinese wisdom.
But I am not concerned to day with these objective things I am too tired after Canton too needful of rest. And then Macau is much too beautiful for me to enjoy the examination of abstract (...)
"Praya Grande, Macao" Postal ca. 1910 M. Sternberg

I like the Chinese here ever so much more than I did those of Canton. The tradesmen of course cheat me with equal success here as there but that is not the point in the Chinese quarter of Macau; the same atmosphere predominates which is so homely and attractive in the style of Kung Fu Tse it is the atmosphere of a cheerful bourgeois existence possessing an extreme sense of form. (...)
At night time I occasionally visit one of the famous gambling hells and amuse myself with the fan-tan. There can hardly be anything more calm and peaceful than such a hell Gamblers almost always look earnest and professional, but I have never observed anywhere such cheerful equanimity as in Macau. The game in itself is infinitely dull; the player at best can only win very little; the bank must in all circumstances win a great deal. The Chinaman however goes home calmly and placidly after he has played away his daily wage. He rocks himself at most if he has lost too much in sweet opium dreams to comfort himself. (...)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Testemunhos do "1,2,3" de 1966

"12" refere-se ao mês de Dezembro em que ocorreram os incidentes, "3" é o dia dos mesmos. Seguem-se excertos de entrevistas realizadas com macaenses radicados no Brasil, que viveram os acontecimentos. Estas entrevistas fazem parte da tese de mestrado em Antropologia Social "Macaenses em trânsito" de Maíra Simões Claudino dos Santos. Para além dos testemunhos, o texto é da autora da tese.
Testemunho de João Francisco, macaense que ao tempo dos eventos, era ainda jovem. Nasceu em 1950 e rumou ao Brasil em 1967.
"Nessa época, isso foi em 1966, foi quando apareceram guardas... Eu lembro... Que aconteceu um incidente lá em Taipa, península de Macau. Nas ilhas, de Taipa e ilha de Coloane, nós tínhamos um administrador das ilhas. Ele morava em Taipa, mas administrava essas duas ilhas. Então, tinha uma escola lá em Taipa que me parece que os papéis não estavam em ordem e os chineses vinham com muita pressa para tocar a obra pra frente. Bom, o motivo para o atraso eram problemas burocráticos. Isso fez com que desse o início entre o conflito da população chinesa e a administração portuguesa. Houve umas demonstrações, houve pancadarias, teve que colocar polícia em postos especiais da rua... Aí, então com influência da Revolução Cultural da China, com a influência dos guardas vermelhos, aquilo começou a propagar-se cada vez mais, e nesse novo período, nesse período, Macau estava na transição do governador anterior indo embora e o governador novo chegando, e, esse governador novo que estava chegando estava totalmente alheio ao que estava se passando, aí começou as demonstrações propagar-se cada vez mas até que um dia eles invadiram o palácio do governo, exigindo mais, e com isso deu-se um problema muito grave em Macau, greves e problemas de... Como que chama... Como que se traduz?.. Bom, isso foi também manifestações entre policiais, depois de problemas de doenças graves em mulheres, filhos... Esse período foi um período muito conturbado em Macau, e o engraçado é que eu estava no cinema assistindo um filme e o filme foi interrompido por causa do problema que estava acontecendo no palácio, porque estávamos escutando um barulho, e era muito próximo onde fica o palácio do governo. Escutávamos aqueles barulhos, o estouro das granadas daquele lugar. Saí de lá, fui pra casa e de casa acompanhei no radio as informações, aí, teve que entrar a lei marcial que não permitia as pessoas saírem, ou melhor, só num horário, as pessoas saíam pra fazer suas compras. Enfim, era só isso. Foi um período, muito, muito chato, porque os chineses aproveitaram muito bem desse período, e nós portugueses que nos sentíamos superiores aos chineses, passamos a ter que respeitá-los mais."

Para Luis Pedruco o evento do “1, 2, 3” foi uma das causas principais de sua partida para o Brasil:
Foto que foi capa do livro de José Pedro Castanheira "Os 58 Dias Que Abalaram Macau"

"Na época, eu fui fazer o serviço militar e houve uma revolução, uma revolta. Tinha vinte anos. No dia da revolução, eu estava no cinema, uma matinê às duas e meia, quando chegou mais ou menos às três e meia da tarde, um cinema famoso, no centro da cidade, chamado Cinema Apolo, estava vendo um filme e às tantas começaram a abrir portas e correr gente, eu pensei: um incêndio. Fiquei sentado aguardando o movimento todo, o corre-corre, e depois de um certo ponto saí do cinema. Quando saí vi só cabeças na cidade. Tinha uma estátua na frente do cinema, do famoso Coronel Mesquita – esse indivíduo era considerado para os portugueses um herói, porque tinha tomado o Passaleão, que era uma cidadezinha logo na fronteira de Macau, idos tempos. Para os portugueses ele era um herói, para os chineses um invasor. Tem que ver os dois lados da medalha, herói para você invasor para eles. O resultado é o seguinte, aí começaram, aquela história, e ouvi ordens, alguém grita assim: matem os portugueses! Foi um corre-corre danado. Foi engraçado porque a bilhetera do cinema era conhecida, lá todos se conhecem, a mulher dizia assim para mim: deita aqui em baixo porque se não você vai ser linchado. Era chinesa. Eu deitei nos pés dela, fiquei uns minutos lá, meio revoltado: eu deitar aqui, que história é esta? Passado algum tempo, começaram os tiros. Aquela famosa avenida do centro de Macau que é chamada Av. Almeida Ribeiro, quando eu busquei sair eu vi um mar de sapatos e chinelos, todos deram no pé. Chinelos e sapatos no cinema, que coisa louca! Passou um jipe militar, pedi para parar o jipe e fui para o quartel. Eu já tinha passado do recrutamento, já estava em casa, prestava serviço e voltava para casa. No quartel, fui recebido aos gritos pelo comandante: seu imbecil, coisas desse gênero, onde estava você? Eu contei, e estava todo mundo nervoso. Já tinham fechado o quartel, tinham armado trincheiras, metralhadoras, um cena assim, do nada. Eu, às três, estava no cinema e às seis tinha ordem de recolher. Fui um dos primeiros, o primeiro pelotão que saiu do quartel e fomos para o centro da cidade. Eu estava dentro do cinema e três ou quatro horas depois estava fardado, capacete camuflado, com a tropa, para manter a ordem (Doré, 2001: 66).
(...) Passado uns dias a China pôs na fronteira em Macau uma divisão. Uma divisão são 10 mil homens. Aquilo foi apenas um aviso, eles não iam fazer nada. Você sabe que deste lado tem 400, 500 pessoas armadas, você bota 10 mil na fronteira, não fazendo nada, tocando viola, como eles ficaram lá, olhando para Macau, que tinha uns canhões apontados, aquilo era para dizer:quer guerra? Quer força? Foi um momento muito difícil, muita gente foi embora para Portugal. Eu achei uma humilhação enorme, porque os chineses depois de algum tempo obrigaram que o governo português, que seria o dono da terra, oficialmente, na época, pedisse desculpa escrita, falada e televisionada, à população chinesa. Foi recusado pela primeira vez e segunda vez, e aí fizeram força e como a força já estava posta, não teve outro jeito senão aceitar o pedido de desculpas. E o interessante no pedido de desculpas é que o chinês, o oriental, é muito simbólico, não é só um pedido de desculpas e está acabado. Eles fizeram no meio da rua, em frenta à Associação Chinesa, uma mesa comprida, e já como a largura da mesa “x”, de um lado ficavam as autoridades chinesas e do outro lado o governador de Macau, que na época era o General Nobre de Carvalho. Isso depois de muita confusão, conversas em Lisboa, muitas ameaças. Quando chegou o dia em que teve de aceitar esse pedido de desculpas, fizeram uma mesa e no momento em que o governador assinasse, pegasse o livro, e entregasse o documento para a autoridade chinesa, ele teria que se curvar e estender a mão. Enquanto o lado chinês não se curvava, ficava em pé e só estendia a mão. E fizeram uma fotografia nesse momento. Para eles isso daí representava: estão vendo, o fulano se curvando, baixando a cabeça, perante...atrás, uma foto do Mao Tse Tung. Isso tudo tem uma simbologia. É evidente que depois dessa cena toda...quer dizer, a razão pela qual vim para o Brasil, uma das causas foi essa. Alguma coisa me dizia que aquilo ali não dava mais também. Primeiro porque Macau era pequena, depois por esta história, não estava me sentindo bem. Porque o governo português, logo em seguida, declarou mesmo nós entregamos Macau a vocês, se quiserem tome...Quando eu ví esse posicionamento do governo, eu falei daqui a pouco vamos ficar sem pai nem mãe aqui e como é que fica? Esse também foi um momento em que falei para mim mesmo: não, aqui, não fico, vou-me embora, porque o caminho não é este. Já tinha terminado o serviço militar e estava trabalhando no serviço do governo, no Ministério da fazenda de Macau, como escrivão de execuções fiscais. Casei-me e vim para cá. (Doré, 2001: 66-67).
Antonio Bruno Machado de Mendonça nasceu em Macau, em 1948.
Foi em 1966, eu só sabia de uma coisa: não podia ir para a rua. Era lei marcial. Ficávamos dentro de casa. Só depois ouvi falar que o problema era uma escola que havia na Taipa, que não deixaram construir. Todos nós comíamos em casa. No comércio era só vendido para os próprios chineses. Não se vendia nada para nós. Nós éramos considerados como europeus. Claro que não se vendia nada para os portugueses também. Havia problemática que houve. Fazer o quê? Através de um amigo chinês a gente fazia as compras. Ele trazia. (Doré,2001:66)

Roberto, nasceu também entre os meados da década de 40 e 50.
Desde de pequeno já ouvi dizer que esse dia chegaria. Ouvi de alguns chineses adultos, que talvez tivessem alguma mágoa com os não-chineses ou que fossem comunistas radicais? Não liguei muito e achei que fosse uma “besteira”. Mas tornou-se mais real com a revolução dos “guardas vermelhos” que atingiu também Macau nos anos 60. As bandeiras vermelhas da China estavam hasteadas em todas as partes, os “ativistas” vestiam-se de um conjunto de roupa azul (índigo), medalhões com o retrato de Mao Tse Tung, pregadas no peito, e alguns até com bonés do tipo “operário chinês” gritando slogans anti-ocidentais, anti-capitalistas, etc. Os “guardas” proibiam os macaenses, portugueses e qualquer ocidental, de utilizarem qualquer transporte público, as feiras estavam proibidas de venderem comidas para a gente, assim como os restaurantes, cinemas etc., porque a maioria destes estabelecimentos eram de propriedades de chineses. Os meus amigos chineses “viraram a cara” para mim. Mas só depois entendi os seus comportamentos, após a explicação que um deles me deu. Eles tinham que “obedecer” as ordens dos “guardas” por serem chineses e temiam represálias caso não o fizessem, e especialmente se a gente (macaenses e ocidentais) não abandonasse Macau, como o boato teria sido espalhado. Pensei: “Chegou a hora, eles tinham razão quando me disseram que Macau voltaria para a China um dia”. Não voltou daquela vez, mas agora em 1999 voltou.
(Entrevista realizada individualmente em sua casa)

O juiz Rodrigo Leal de Carvalho, o único a exercer funções em Macau, recorda assim os incidentes.
"Tentaram parar-me o carro e forçar-me as portas. A minha volta só via expressões de ódio. Fui andando devagar em primeira, para não atropelar ninguém, mas sem deixar que imobilizassem o carro. Lá acabei por conseguir passar, no meio de uma chuva de pedras." (Pinto,1998).
Relato de João Francisco Lopes Machado, nascido em 1950
"Estava com 16 anos, teve o “1, 2, 3” em que o China estava prestes a invadir Macau, tanto que na companhia da minha mãe, fomos até Hong-Kong e minha mãe levou as jóias dela, pra guardar lá em Hong Kong e eu fui com ela de navio pra guardar as jóias dela. Aí já prontos pra deixar Macau de vez, por causa da invasão chinesa. Naquela época, criou-se a idéia... isso que motivou a imigração da grande população de Macau pra Hong Kong. Isto aí, que fez todo mundo enxergar que Macau realmente não tinha mais futuro, porque seria tomado pela China de um modo ou de outro, não tinha mais aquela segurança de continuar sendo uma colônia portuguesa, então as pessoas começaram a ir embora. E meu pai falou assim: Macau não tem futuro mesmo, a China vai tomar tudo de bom e nós vamos perder tudo, porque naquela época a China não era a China capitalista de hoje, era uma China que realmente iria acabar destruindo  toda a nossa cultura e a gente iria virar refugiado, com certeza. (...) Acredito que Macau... já não se poderia viver, pois depois que passou aqueles acontecimentos em Macau, a gente sentiu que no fundo, no fundo...também como fui embora logo no ano seguinte... mas a mentalidade era realmente que a gente já não dominava Macau como antigamente. Antigamente, antes da Revolução, realmente era mais colonialista, vamos dizer...era mais o estilo português de governar, sem ter que se preocupar com os chineses, depois dos acontecimentos... pode ser que passamos a enxergar os chineses de um modo um  pouco diferente."
Henrique de Senna Fernandes, macaense que nasceu entre os finais da decada de 20 e o início da década de 30...
Anos antes da Revolução Cultural, a arrogância dos funcionários era uma coisa horrível e visível! Aqui é Portugal. Eram todos militares. Vivíamos na ditadura do tempo do Salazar. Colônia era só exploração. E Lisboa não servia as colônias. Sou português, sinto-me português também, mas acho que não poderia viver em Portugal. Eles traziam uma mentalidade e não se modificavam. Os chineses nunca foram colonizados, tinham seus costumes, não eram meia dúzia de portugueses que iriam modificar. O “1, 2, 3” foi como uma onda que cresceu – coisa do Mao, que deviam ser nossas autoridades. Indivíduos que... Havia os chineses corruptos, houve abusos. Os chineses não eram muito cumpridores de leis. Os portugueses também davam pontapés nas mercadorias chinesas e a partir de um certo momento... Começou a fervilhar, fervilhar a comunidade chinesa. O partido comunista fez a rebelião opressiva, rebelião estupidamente opressiva. Contra os chineses, 100 mil pessoas. Com pessoas que não são nem pretos e nem índios, com sua civilização. Havia de tratar dos chineses com certa diplomacia. Realizava-se uma política que não podia ser. O Estado Novo era contra o comunismo. Queriam construir uma escola comunista na Taipa. Os atritos começavam a crescer assim como os requerimentos: “não podemos espalhar o comunismo em Macau”. Os distúrbios na Taipa foram antes do Grande Prêmio de Formula 1 de Macau. A administração da ilha chamou a polícia e fizeram feridos. Os comunistas de Macau começam a se reunir. Na Associação Comercial Chinesa, fazem as demonstrações comunistas. Resolvem ir ao palácio do governo ler a cartilha de Mao. Ocorre que uma grande multidão se reúne em direção ao palácio e deitam abaixo o herói macaense e partem o braço de Jorge Álvares. Outra grande asneira: o encarregado do governo colocou no comando o comandante das forças militares, Mota Cerveira, que amava Macau, mas queria transformá-la à sua maneira. O macaense, pai do chefe executivo hoje em Macau, explicou-lhe que ele deveria ceder, pois não podiam conter os comunistas, mas ele sequer o recebeu. Resultado foram oito mortos, alguns nacionalistas foram entregues. E em Hong Kong não conseguem fazer o mesmo porque era Portugal que os comandavam. Corríamos o risco de perder tudo. E muitos fugiram para Hong Kong (Entrevista realizada em Macau em 06/12/2004).

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

“Macau, Terra Nossa – Solar de Portugal no Oriente”

Funcionário público, Afonso Correia, pertenceu ao quadro do Ministério do Ultramar e esteve vários anos em Cabo Verde antes de rumar a Macau em 1948 onde exerceu funções na Repartição da Fazenda e Tesouraria até 1954. No território foi um dos fundadores do Círculo Cultural de Macau. Na faceta de 'jornalista', escreveu e publicou inúmeras crónicas no jornal "Notícias de Macau", incluindo o teor das palestras proferidas em Portugal sobre Macau - por exemplo, no Rotary Club de Viseu em Outubro de 1952. O essencial do que foi publicando seria editado em dois livros:
"Macau terra nossa - solar de Portugal no Oriente", Imprensa Nacional de Macau, 1951; e "Um céu e três mundos", INM, 1954.

Excerto:
Este livro é bem teu, Macau.
Induziram-me a escrevê-lo os encantos das tuas feições. Quero dedicar-to, devotadamente, como um alegre presente de aniversário.
Uma grande parte foi escrita, em horas incertas, atravessando momentos em que a desdita, fruto de inexorável doença, me rondava a porta e já quando, volvida a tormenta, bebia o travo duma reparação dos tecidos orgânicos, quase impossível. Arquitectei-o, entretanto, com o espírito em teimoso desanuveamento, rendido à tua fronte auriverde, bafejado pelos estímulos da tua compostura, do teu busto de Rainha do Orien­te, dos teus enlevos que são o triunfo duma vida de labor e sofrimentos contados, dia a dia, como um rosário de amarguras nascentes da tua fatalidade geográfica. Os seus materiais de contextura são formados por crónicas ligeiras, feitas de observações ocasionais, mas tocadas de sentimentos amistosos e devotivos.
Sei bem que pouco valem estas crónicas. Deves recebê-las com franca tolerância e não ver nelas senão uma sinceridade amiga e uma admiração convicta. Estima-as. Cumprirás assim um imperativo de consciência bem formada e de gratidão bem nutrida pela ventura que nelas te é desejada. De entre as inúmeras crónicas que tenho publicado, em toda a minha vida jornalística, nenhuma guardei, nenhuma guardo, porque entendo deverem ser volantes os nossos escritos, como as palavras. Se o vento e a fatalidade os leva, já não nos pertencem, em contrariedade do conceito latino — verba volant, scripta manent.
Porém, uns amigos e camaradas da imprensa daqui e de Lisboa incitaram-me a coligir algumas, no livro que agora consagro ao teu exame. Seria impossível dar satisfação a essas vontades, tão cativantes para mim, se um bem estudado método de arrumação me não facilitasse o trabalho com a demanda e o encontro dos exemplares do jornal, onde as crónicas vieram a lume. Aqui lhes deixo o meu reconhecimento profundo.
A ti, Macau, antes de pôr fim a esta pobre inscrição, quero dizer-te mais algumas palavras de amizade:
Nasceste, promissora e feliz, sob o ideal protector, próprio necessariamente de quem crê, da Santíssima Trindade. “Santo Nome de Deus” é o teu lema dignificador e eternizante. Não sei porque nem como, mas descobri, na tua vida, no teu ser, nos teus segredos, no teu clima nacional e internacional, no teu poder e no teu inconfundível posto de província portuguesa, bem portuguesa, uma, influência decisiva do número três para os teus destinos, em paralelo débil e longínquo com a já por mim invocada de ti e para ti Santíssima, Trindade.
Baía da Praia Grande na década 1940
(imagem não incluída no livro referido)

Vê e considera o quadro que te confio, expresso nas seguintes pala­vras, que julgo dignas de atenção:
Em Macau são faladas três línguas — a portuguesa, a chinesa e a inglesa. A cidade é dominada por três colinas mestras — a da Guia, a do Monte e a da Penha. Apresenta três colégios de considerável frequência — Santa Rosa de Lima, Sagrado Coração de Jesus e S. José. Possui três hospitais, a saber: Conde de S. Januário, S. Rafael e Keang-Vu. E servida por três templos de capital importância — o da Sé, o de Sto. Antônio e o de S. Lourenço, que, por sua vez, dão os nomes às três freguesias existentes na cidade. Possui três grandes e predominantes artérias de trânsito constante —Avenida Almeida Ribeiro, Avenida da República e Avenida Marginal. Oferta aos budistas chineses três pagodes principais – o da Barra, Mong-Há e Bazar. Segue constantemente três rumos — Norte, Oriente e Ocidente. Alimenta, decisivamente, três civilizações — a portuguesa, a chinesa e a anglo-saxónica. Ostenta três imponentes arranha-céus — o Central, o Kuok Chai e o Oriental. Segue três religiões — a cristã, a protestante e a budista.
Dispõe de três territórios distintos, como capital da província que é, — o da península, o da ilha da Taipa e o da ilha de Coloane. Enamora-se de três cores fundamentais — a verde, a encarnada e a amarela. Mostra três jardins públicos ou publicitados — o de S. Francisco, o de Camões e o de Vasco da Gama; três estátuas, embora a última não figure ainda em lugar público — a de Ferreira do Amaral, a do Coronel Vicente Mesquita e a do Conde de Sena Fernandes; três cinemas, de melhor frequência — Capitol, Apolo e Vitória; três padroeiras a que todos os crentes rendem particular devoção — Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora de Lurdes e Nossa Senhora de Fátima. Observa três mundos distintos — o oriental, o ocidental e o austral. Dispõe de três meios de transporte — o automóvel, o riquechó e a bicicleta; três climas — o frio, o moderado e o quente. Aborrecem-na três barreiras —o mar, a China e as ilhas. Apresenta, como figuras predominantes do seu meio social e económico, três capitalistas chineses — Fu Tak Iam, Kou Ho Neng e Ho Yin. Conta três fases, na sua existência histórica — a construtiva, a expansiva e a evolutiva e segue à risca, no geral, as três grandes virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade.
Se nos abalançássemos a pesquisas mais prolongadas, talvez o quadro oferecesse maior extensão. Os números estão certos e faço votos por que eles, de algum modo, tenham provindo dos ditames protectores e beneficentes da Trindade em que tanto confias e que sempre tem guiado e amparado os teus passos, conforme é tua crença firme.
Não durmas, porém, confiando exclusivamente nesses ditames mesmo que eles, de certeza, sejam oriundos do Poder Supremo, invencível para os crentes.
Continua a remar sobre a maré das tuas fagueiras e nobres intenções, não esquecendo que vives rodeada pela inconstância, pelo desatino e até por signos de indesejável preponderância. A tua felicidade será a de todos nós, portugueses, filhos e não filhos desta amada terra a que não posso oferecer mais nada, além da modéstia deste livro.
Aqui o tens,
Afonso Correia."