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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Recensão de "Suma Oriental" de Tomé Pires por João Guedes

Com uma mestria de escrita ao alcance de poucos, o jornalista, escritor e historiador João Guedes (há mutos anos radicado em Macau - eleva o conceito de recensão literária ao patamar do sublime com uma análise crítica de clareza cristalina e sem pretensões eruditas.
Rui Manuel Loureiro é muito provavelmente o maior especialista em Tomé Pires, a par de Armando Cortesão

Deixo o exemplo da obra "Suma Oriental", o primeiro grande tratado de geografia asiática escrito por um europeu, redigido entre 1512 e 1515 pelo boticário e diplomata português Tomé Pires (ca. 1465-ca.1540). A obra descreve rotas comerciais, portos, reinos e produtos desde o Mar Vermelho até à China, sendo fundamental para conhecer a visão portuguesa do Oriente no século XV
Um dos 4 selos postais comemorativos da "Fundação de Macau"
Emitidos em 1955 nunca chegaram a circular devido à melindrosa situação política vivida na China após a implantação da República Popular em 1949

Texto de João Guedes

TOMÉ PIRES O EMBAIXADOR QUE LEVOU PORTUGAL À CHINA E A CHINA NÃO QUIS SABER
Há homens que nascem para a glória, outros para o desastre, e alguns — os mais raros — para ambos ao mesmo tempo.
Tomé Pires, boticário de Leiria, era daqueles homens que acreditavam que o universo cabia numa caixa de remédios. Se lhe dessem o mar, ele pesava-o; se lhe dessem a China, ele catalogava-a; se lhe dessem o ópio, ele cheirava-o, anotava-o e talvez — quem sabe — o experimentasse com a curiosidade científica dos que não têm medo de pecar.
Não sabemos se recebeu a famosa “caixa de ópio” que a lenda lhe atribui. Mas conhecendo o homem, não seria de espantar que algum mercador árabe, desses que fumam a vida como quem fuma um cachimbo, lhe tivesse oferecido uma amostra, dizendo:
— Leva isto, português, que cura dores e abre horizontes.
Tomé, metódico, teria respondido:
— Abre horizontes? Então é droga de boticário.
E guardava-a no inventário, entre o ruibarbo e o benjoim.
A Suma Oriental é um milagre: escrita por um homem que nunca teve tempo para ser escritor, tornou-se o primeiro grande manual do Oriente para o Ocidente.
Camilo, se a tivesse lido, teria dito:
Este boticário escreve como quem sangra um paciente: com precisão, com frieza e com uma pontinha de sadismo científico.
E não estaria errado.
Tomé descreve tudo: os portos, as gentes, as drogas, os vícios, os reis, os preços, os cheiros, as mentiras e até os sonhos dos mercadores. É um inventário do mundo antes de o mundo saber que estava a ser inventariado.
Aqui entra a tragédia com humor.
Tomé Pires acreditava, com a convicção dos ingénuos e dos profetas, que nove naus portuguesas bastavam para tomar a China.
Nove.
Nem dez, nem vinte, nem uma armada. Nove.
Camilo teria rido até às lágrimas:
Nove naus para derrubar um império que tinha mais habitantes do que Portugal tinha sardinhas.
Mas Tomé acreditava. E acreditava porque via o mundo como boticário: se uma dose cura, nove doses salvam o paciente.
O problema é que a China não era paciente. Era dragão.
A viagem para Cantão foi triunfal. A subida para Pequim, promissora. A chegada à corte Ming, desastrosa.
Os antigos senhores de Malaca, despejados pelos portugueses, já lá estavam a envenenar o ambiente. O intérprete muçulmano foi preso. As credenciais não foram aceites. Os mandarins desconfiavam de tudo, sobretudo de portugueses que falavam alto e prometiam mundos.
Tomé Pires, que sonhava apresentar-se ao Imperador como quem se apresenta a Deus, acabou numa espécie de limbo burocrático, onde cada dia era igual ao anterior e cada esperança morria antes de nascer.
A prisão de Tomé Pires não foi épica. Não houve correntes, nem torturas, nem masmorras húmidas. Houve algo pior: indiferença imperial.
Ser ignorado pela China era pior do que ser morto pela China.
Camilo teria escrito:
O pior suplício não é o cutelo, é o desprezo.
E assim foi.
Tomé desapareceu na névoa da burocracia Ming, como um papel que cai atrás de uma mesa e ninguém se dá ao trabalho de apanhar.
Há quem diga que Tomé Pires foi libertado. Há quem diga que viveu anos na China. Há quem diga que teve uma filha chinesa, vista por um jesuíta que jurava ter falado com ela.
Se é verdade? Ninguém sabe.
Mas é tão belo que devia ser verdade.
Imagino-a assim: uma mulher de olhos escuros, com um sorriso que mistura Oriente e Ocidente, dizendo ao padre:
— Meu pai era português. Um dos primeiros. Um que veio falar com o Imperador e ficou por aqui.
E o jesuíta, comovido, anotava no diário:
— Há portugueses que não voltam porque não podem. E há portugueses que não voltam porque o coração fica preso.
Tomé Pires terá morrido em Pequim. Ou terá morrido algures na China, longe de tudo o que conhecia. Ou terá morrido livre, mas exilado.
Qualquer das versões é trágica. Qualquer das versões é camiliana.
Porque Tomé Pires é daqueles homens que nascem para não regressar.

Parte do manuscrito "Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chijs compilada por Thome Pirez" existente na Biblioteca da Assembleia Nacional de França
Tomé Pires, Índia (?), c. 1515, versão copiada por Francisco Rodrigues, 1516 (c.).

[No topo da página]
Libro primeiro da summa Oriental
e discursos das tres Arabias, feliz, petrea
e deserta, egipto, persia, atee cambaya
do gram Cam e china.

Summa oriental que trata do maar roxo
utheo os chijs copilada por thome pirez

Livro primeiro repartiçam da asia
com affrica

[Texto Principal]
Asia a partam dafrica pella bamda do maar mediterramjo por alexandria e dahi por deserto e monte synay pello rio nylo e do maar oceano pello meodja segundo a opinjã e repartiçam da parte daethiopia e abipia pella arabia feliz 

nacimento do nylo

Oquelle libro primeiro eujny primajrally traz dno nacimemto do cabo de boa esperamça. E tem primejro diabipia em q̃ heos nom chamjdos no fim da jndia simjlc com arabia feliz q̃ faz na navegacell pasa com ligeiro curso aegypto e vaye ao maar mediterramjo tenjdo por bãcos dy gles he principall lhe damjata pasa per uua ljnguba da cidade do cairo em julho e agost̃o q̃e he ljngua a terra e as gentes comem ea forza do nylo vem aos altos e tem em guardado e fazendas e como essga ljngua dam lugar que tomara a erguar e dentro de desembro e janejro
dizem os do egipto que este njlagre procede dy abissys gentes e para pello quall sam ffrancos em toda a terra do soldam e sam estimados a abipia entre os djsso vyolentramente e nem bebm tam na ljngua: e a comjnhã abipia

[Secção Abipia]
Abipia

Comfina abipia da bamda do maar roxo com a fabya feliz da bamda do maar oceano des guarda fuyat hetijomto como se faza nom que hayua no maar com ffromtejra ljguedas da bamda daffrica com os do nyl̃ e erem parte daethiopia. Sam fffracos tem gramde terra e senre.
quemtjza mjrcamti bell dela / ha mjamtrjmjmudo ouro em q̃ntjda. nem tem portos no maar vem faza qujs tratq̃ em zalla e hebar bora e djmtro no ffruto nos portos darabya sam estas gentes
toz mjuradas amtjgos e trjopec e dẽs sam de catoljco e de noffa ffe. vado na testa um lugar de bautjsmo / tem patrjarcas e bispos e outro religjosos vãm a jerusalẽs e a mamte synay mujtos
marias e adans / sam abridos nestas partes por vracos e ffrade e ffeos. cavalejros e mjuytos dezes e ffeos e mujdo espaçosos e vem ordem principalj mente em bem galla

[Secção Inferior]
E adem de que a parte de dalaq̃ he e naquẽ tratam com estes abespns valem na abexpja aguoa tofada fofas ffeguas e tratam mjngno pano e barros de cambaya e alguuas de prada com tas de toas sorte q̃ ysta ljno panos bramgos e tamaras e ffructos e mjffiaço

[Rodapé]
Mecaderias da bipia
ouro marfim caballos e ffrancos mamtjmentos

Tradução/Adaptação deste texto em português quinhentista

Título e Introdução]
Livro primeiro da Suma Oriental
e discursos das três Arábias: Feliz, Petreia e Deserta; do Egito, da Pérsia, até Cambaia, do Grão-Cão e da China.
Suma Oriental que trata desde o Mar Vermelho até aos Chins, compilada por Tomé Pires.

Livro Primeiro: Divisão da Ásia com a África
[A Divisão Geográfica e o Nilo]
A Ásia separa-se da África pelo lado do Mar Mediterrâneo por Alexandria e, daí, pelo deserto e Monte Sinai, pelo rio Nilo e pelo Oceano a sul, segundo a opinião e divisão da parte da Etiópia e Abissínia pela Arábia Feliz.

Nascimento do Nilo

Este livro primeiro trata inicialmente do nascimento junto ao Cabo da Boa Esperança. E tem primeiro a Abissínia, onde os homens são chamados, no fim da Índia, semelhantes aos da Arábia Feliz, que faz navegação e passa com curso ligeiro ao Egito e vai para o Mar Mediterrâneo. Tendo por bancos de areia Damietta, passa por uma língua de terra da cidade do Cairo em julho e agosto — e é por essa língua de terra que as gentes comem. E a força do Nilo vem aos altos e mantém guardadas as fazendas; e conforme essa língua de terra dá lugar, começa a baixar entre dezembro e janeiro. Dizem os do Egito que este milagre procede das gentes da Abissínia, motivo pelo qual os francos [cristãos] são respeitados em toda a terra do Sultão e são muito estimados. A Abissínia entra por estes territórios com grande força e não se bebe senão na língua [do rio]; e assim é a comunhão abissínia.

[Etiópia / Abissínia]
Abissínia
Confina a Abissínia, do lado do Mar Vermelho, com a Arábia Feliz; do lado do Mar Oceano, estende-se até à Etiópia, tal como se faz notar que não há no mar fronteiras ligadas com a África, com os do Nilo, e eram parte da Etiópia. São francos [cristãos], têm uma grande terra e senhorio. Há grande quantidade de comércio dela; há muito ouro em quantidade. Não têm portos no mar; vêm fazer o seu comércio a Zeila, Barbara e Massuá. Nos portos da Arábia estão estas gentes misturadas, antigas e prósperas. Quanto a Deus, são católicos e da nossa fé; trazem na testa uma marca de batismo. Têm patriarcas, bispos e outros religiosos. Vão a Jerusalém e ao Monte Sinai muitos "marias" e "adões" [homens e mulheres cristãos]. São respeitados nestas partes como frades e fiéis cavaleiros, muitos deles fidalgos e muito ponderados, e têm posições de grande importância, principalmente em Bengala.

[Comércio e Mercadorias]
E de Áden até à parte de Dahlak, no interior, negoceiam com estes abissínio-etíopes. Na Abissínia valem muito a água salgada, éguas, panos finos, jarros/vasilhas de Cambaia e algumas peças de prata, contas de toda a sorte que venham de lá, panos de linho brancos, tâmaras, frutos e miçangas.

Mercadorias da Abissínia:
Ouro, marfim, cavalos, cristãos [escravos/servos] e mantimentos.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Viúvo macaense" procura "solteira ou viúva não menos de 25 anos"

Na edição de 1 de Novembro de 1919 do jornal O Macaense é publicado este anúncio:
VIUVO MACAENSE, empregado no commercio em Shanghai, salario $350 mensais, achando-se inabilitado de visitar Macau, deseja corresponder com uma solteira ou viuva não menos de 25 anos de idade, natural de Macau, com o fim de matrimonio. Dirigir-se inclusando fotografia a “VIUVO” c/o. British P. O. Box 162, Shanghai.
Na época o "casamento por correspondência" (antecessor dos modernos sites de encontros) era uma ferramenta legítima e comum para quem queria casar dentro do seu grupo étnico/cultural mas vivia longe da terra natal.
Em Xangai existia uma importante comunidade macaense: empregados no comércio, tradutores, escriturários, bancários, etc... O valor do salário era considerado bastante acima da média na época.

terça-feira, 16 de junho de 2026

"A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau"

Ieng Weng Fat, historiador de Macau, lançou no sábado a sua obra mais recente sobre a investigação histórica da proeminente família Chio, que chegou a Macau entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, ou seja, no século XVII.
Intitulado "A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau, and Reconstruction of their Mong-Há Ancestral Shrine", o livro apresenta uma análise sistemática da evolução da família Chio (ou “Zhao”, em mandarim), desde a sua mudança para a antiga aldeia de Mong Há, em Macau, envolvendo dez gerações e mais de três séculos e meio de história familiar.
De acordo com Ieng Weng Fat, o intuito da publicação é de enriquecer o estudo histórico em Macau sobre a família Chio, através de traçar, de forma abrangente e completa, as figuras proeminentes desta família, bem como o percurso do seu desenvolvimento em Macau. A obra
procura “reconstruir a memória histórica da família Chio há muito esquecida”, segundo apresentou o autor.
“No passado, as investigações sobre a família Chio limitavam-se, na sua maioria, a um estudo focado nas conquistas académicas deles. 
Neste livro pretendo delinear a história do desenvolvimento desta família, sobre a sua origem e a passagem ao longo dos séculos”, frisou o autor, no lançamento de livro que decorreu no sábado na livraria Fangsuo, no Grand Lisboa Palace.
O conteúdo do livro estende-se ainda a outras famílias chinesas centenárias em Macau que passaram também a se instalar na aldeia de Mong Há. “Espero que a minha investigação possa fornecer uma base de referência para a indústria cultural de Macau, nomeadamente para os criadores de histórias nas áreas do cinema, da televisão e da literatura”, disse o também membro do Conselho Consultivo de Desenvolvimento Cultural.
A investigação de Ieng Weng Fat para esta obra levou mais de três anos, mas a sua ligação à família Chio remonta a mais de vinte anos, quando conheceu um descendente de família e fez uma visita à Mansão da Família Chio, a segunda residência da família em Macau e agora bem imóvel classificado da RAEM.
Ieng Weng Fat detalha no livro as raízes profundas da família Chio através de uma abordagem que combina a história da arquitectura com a filologia, incluindo um registo genealógico que consta num poema de nomes de geração de 42 versos, transmitido desde a dinastia Song (960–1127).
Segundo registos históricos, a família Chio descende da família Imperial Zhao da dinastia Song, cuja 12.ª geração mudou-se para o condado de Xiangshan para seguir a carreira de alto funcionário. Entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, a 22.ª geração da família mudou-se de Xiangshan para a aldeia de Mong-Há, em Macau.
Depois, em meados do século XIX, a 28.ª geração da família Chio mudou-se de Mong-Há para a Travessa da Porta, onde está a Mansão da Família Chio.
A família Chio é conhecida de ser um clã de eruditos. Após a chegada a Macau, gerações de descendentes da família Chio estudaram com afinco e alcançaram excelentes resultados nos exames imperiais. Entre eles, as gerações 25.ª e 26.ª, da dinastia Qing, foram os mais respeitados porque o pai e o filho alcançaram a posição de ‘Juren’, ranking de pessoas que passaram o exame provincial, segundo ranking mais alto dos exames imperiais. Aqueles que detinham a posição de ‘Juren’ passavam a gozar do estatuto de nobreza e, consequentemente, de privilégios sociais, políticos e económicos.
A conquista académica do pai e filho de Chio contribuiu para uma história muito badalada em Macau na altura e a casa ostentava em tempos uma placa que celebrava as suas realizações.
“Isto marcou uma importante transição de Chio de uma família influente no plano económico para uma família influente no plano cultural”, salientou o autor.
A família Chio também operava uma escola privada numa sala lateral do templo da sua família, em Mong Há, que agora já não existe. Nessa escola ensinavam confucionismo e formaram mais académicos e artistas nessa altura. "(...)
Excerto de notícia da autoria de  Catarina Chan publicada no jornal Ponto Final 8.6.2026
Casa da família Chio nos números 24 e 26 da Travessa da Porta
Foto IC
Curiosidade: 
Apesar do nome em português ser Travessa da Porta, em chinês denomina-se 趙家巷 que significa Rua da Família Zhao (Chio). Fica na zona do antigo bazar chinês, perto da Rua dos Mercadores.
Sugestão de leitura adicional:
"Edifícios Tradicionais Chineses em Macau" de Chan Su Weng e Wong Ieng Kuan, Editora Sinofare Lda., 2002.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Copia de parte da carta das alfandegas chinezas de Cantão"

Datada de 20 de Abril de 1908 esta "Carta das Alfândegas Chinesas de Cantão" faz parte do espólio do Arquivo Municipal de Ponte de Lima e tem uma nota manuscrita da autoria de João Feliciano Marques Pereira (1863-1909). Aliás, todas as anotações são dessa data feitas por JFMP.
Segundo ele trata-se de uma "Copia de parte da carta das alfandegas chinezas de Cantão, intitulada "Sketch map of the Chu-kiang or Pearl River, etc, by Thomas Marsh Brown, Imperial Customs, Canton station."
E acrescenta:
"Este mappa é importantissimo para a questão da delimitação das fronteiras de Macau, na parte relativa á ilha da Lapa, visto que, a-pezar de limitar a nossa linha de limites para oeste do meridiano das Nove Ilhas e de pôr fóra da nossa jurisdicção uma parte da costa meridional da Ilha da Taipa, Grande parte das de Colo-an, Tai-vong-cam (Montanha) e Sio-vong-cam (D. João), mette dentro da nossa jurisdicção a margem e a vertente da ilha da Lapa fronteira á cidade de Macau.A copia é fiel da carta chineza, que possuo, levando a mais só, em côr verde, as indicações que accrescentei, como esclarecimento.

Da Legenda ou "References" convêm extrahir o seguinte:
🔴 ...... "denotes villages, large and small"
🚩 ...... "points out those places, on this map, where H.E. the Superintendent of Customs has stations."
✡️ ...... "denotes those stations round Hongkong and Macao where there are war junks, or steamers stationed to collect the duty and war tax on opium—also shows the shore stations"

João Feliciano Marques Pereira nasceu em Macau a 17 de Maio de 1863, filho de Belarmina Inocência de Miranda, natural de Macau, e de António Feliciano Marques Pereira, natural de Lisboa. 
Ainda jovem, foi para Lisboa onde prosseguiu os estudos no Colégio Luso-Brasileiro e depois no Curso Superior de Letras. Ali, foi discípulo do prestigiado Adolfo Coelho e concluiu o doutoramento com distinção. 
A sua trajectória profissional foi marcada pelo serviço ao Estado. Começou por desempenhar funções no Ministério dos Negócios Estrangeiros, transitando em 1888 para o Ministério da Marinha e Ultramar. Em 1897 tornou-se secretário particular do Conselheiro Barros Gomes, então Ministro da Marinha. No campo político, representou o círculo de Macau como Deputado no Parlamento português. 
Morreu a 7 de Junho de 1909, com apenas 46 anos, enquanto ainda exercia o seu mandato legislativo. 
Seguindo os passos do pai, João Feliciano foi uma figura central na preservação da memória histórica luso-chinesa. Em 1899, fundou a revista “Ta-Ssi-Yang-Kuo: Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Português” (publicada até 1903), cujo título homenageava a publicação homónima fundada pelo seu progenitor no ano do seu nascimento. Como jornalista e cronista, utilizou o pseudónimo Fernão Lopes para assinar crónicas ultramarinas no Jornal do Comércio. Colaborou também activamente com a Revista Colonial e Marítima e dirigiu diversas outras publicações técnicas e literárias. Em 1906, com a criação da Escola Colonial, assumiu a cátedra como professor efetivo de Legislação e Administração Ultramarinas. 
O seu mérito intelectual foi amplamente reconhecido através de diversas honrarias: 
Oficial da Ordem de S. Tiago: Pelo seu contributo científico, literário e artístico.
Sociedades Científicas: Foi membro honorário da Real Sociedade Asiática de Paris, vogal da Real Associação de Arquitectos e Arqueólogos Portugueses e sócio correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.
Comissões Técnicas: Em 1904, integrou a comissão oficial responsável por estudar o regime fiscal e de monopólios de Macau.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Macao Races": 1829

 The Canton Register, 2 de Maio de 1829:

Macao Races
In noticing the Races that have lately taken place, and are now in course, at Macao, which have afforded so much rational amusement, and been the source of great gratification to the surrounding society, we hail with pleasure the return of that manly diversion, which for a time had been neglected. And while it is conducted with the gentlemanly feeling, and universal harmony, which has been so peculiarly conspicuous in every instance of its present management, we hope it will have its annual return, and meet with the most cordial support.

Corridas de Macau
Ao notar as Corridas que ocorreram recentemente, e que estão agora em curso em Macau, as quais têm proporcionado tanto entretenimento racional e sido fonte de grande satisfação para a sociedade local, saudamos com prazer o regresso desta diversão viril, que por algum tempo havia sido negligenciada. E, enquanto for conduzida com o espírito de cavalheirismo e a harmonia universal que têm sido tão peculiarmente visíveis em cada exemplo da sua atual gestão, esperamos que tenha o seu retorno anual e encontre o mais cordial apoio.

As "corridas" a que se refere a notícia eram corridas de cavalos, uma actividade que os ingleses e outros comerciantes estrangeiros desenvolviam em Macau quando não podiam estar em Cantão nos negócios. Documentos da época indicam que estas provas tinham lugar ao longo da praia da Areia Preta, muito perto da Porta do Cerco (ainda na versão chinesa). Por volta de 1840 alguns mapas referem um "Race Course" - City and Harbour of Macao. By W. Bramston. J. Wyld, London. Lithographed, 1840 - nas então várzeas junto à aldeia de Mong Ha.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

The principal festival with the Chinese is New Year's Day

The principal festival with the Chinese is New Year's Day. No one cares about business, and everyone is occupied in feasting. This day is considered by them as a fast day, which it is said was established in order to avoid cases of intoxication. Every man dresses in new clothes, and even those who live in extreme poverty appear on this day with something new.
Eight days before the New Year, nearly all the shops commence to decorate with new articles, such as artificial flowers, joss paper, etc., of different designs and colours, while in the streets are to be seen flowers in pots, toys, curiosities, and such-like things. These are all intended for sale. Here and there, too, are to be met with different groups of Chinese busily engaged in gambling. On the water, the boats are all gaily decorated with banners. The number of boats on this occasion is very great. Music and fire crackers are indispensable, both in the daytime and at night.
On the eve of the New Year, the concourse of people and their enthusiasm increase. The gambling multiplies proportionably, and there is no place where it is not to be seen. At night, both the marketplace and the harbour are rendered beautiful by immense illuminations, of course accompanied especially with music and the firing of crackers. The boats, when illuminated, produce a fine effect. The buying and selling are very extensive, but never fail to be accompanied, even at this happy season, by numerous thefts.
As soon as midnight of the last day of the year arrives, all the shops close and work of all kinds ceases. The festival continues for a greater or lesser number of days, generally not exceeding eight, and these are the days which the Chinese look upon as the principal ones. On the ninth day, when the shops begin to open for the ordinary business, there is again a feast which consists simply in firing crackers, burning joss paper, and so on.
The second day of the second moon is the day dedicated to the household gods. This feast is celebrated in various parts of the city by societies, and the expenses are borne by subscription. Each of these societies builds a tent in the locality chosen for the purpose, and in these tents there is always a goodly display of pictures. Music is played inside the tent and outside fire crackers are burnt at intervals. During the time of the feast, sacrifices are offered in the tent one after another. When many people meet there, a kind of firework is burnt. As soon as it falls, everyone rushes upon it, and he who picks it up first wins a prize and will be considered happy for the whole year. Some more of these fireworks or big crackers are burnt at intervals, and the parties who pick them up have the same interests as the first one.
The fireworks are all numbered and, consequently, the quality and value of each is indicated. Those who have picked them up are obliged to present similar ones for the same purpose. In order that no one of the party who has picked them up shall fail in fulfilling his obligation, the directors take and keep a memorandum of the names of the individuals. Underneath the name of each is indicated the number he has to supply. These acts are only practised by those of the common classes. The rich perform their sacrifices in their own houses, but many of them appear at the above festival as spectators.
The festival usually lasts for two or three days and ends with the burning of another kind of firework, which takes place on the night of the last day. Figures are placed on it which are moved by the fire, representing dramatic characters. The title of the piece is represented in sacred characters and the firework is composed of as many parts as there are acts in the theatrical performance which has to be imitated. The first act is represented on the lower part of the firework and, as soon as it comes to an end, the second act appears, and so on until all the acts are finished.
The feast of the goddess Kuonyn is celebrated on the nineteenth day of the same moon. This feast consists of sacrifices performed in the houses, at sea, and in joss houses; and on this occasion there is always a great quantity of food offered, in addition to small pieces of gilt and silver paper.
On the last days of the same moon, which is the beginning of Spring, the Chinese commence to make sacrifices over the gravestones of their deceased relations. These sacrifices usually last more than twenty days. Victuals are placed near the gravestones, and paper clothes and small pieces of gilt and silver paper are burnt. When the sacrifices are on the eve of terminating, a part of the food is given away to the poor, who on these occasions generally muster in great numbers.

Excerto de "Manners & Customs of the Chinese at Macao", publicado em Xangai em 1877. Trata-se da versão em inglês (tradução de Rufino Francisco Martins) da obra publicada dez anos anos em Hong Kong - "Os Chins de Macau" - da autoria de Manuel Castro Sampaio.  

Este livro é considerado um dos primeiros e mais detalhados estudos etnográficos sobre a comunidade chinesa em Macau escritos por um português. Nele, Sampaio descreve com rigor os costumes, a religião, as festividades e a organização social da população local.
O livro inclui esta "Planta Topographica do Bazar de Macau"

Manuel de Castro Sampaio nasceu no Porto a 28 de Agosto de 1827. Com uma formação académica superior, licenciou-se em Medicina, o que lhe conferiu um rigor científico e uma capacidade de observação que marcariam todo o seu percurso profissional e intelectual no Oriente. Assentou praça no Exército em 1845 e três anos depois partiu para Macau em 1848, integrando o quadro de saúde do Ultramar.
Ao longo da sua estadia em Macau, Sampaio desenvolveu uma carreira multifacetada. No plano militar e administrativo, ascendeu ao posto de capitão e exerceu cargos de grande responsabilidade, como o de Secretário da Junta da Fazenda. O seu prestígio intelectual valeu-lhe o reconhecimento internacional, tendo sido distinguido como sócio-correspondente da Real Sociedade Asiática de Londres (Royal Asiatic Society), uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo dedicadas ao estudo das culturas orientais.
No campo das letras teve um papel preponderante na imprensa de Macau sendo editor a colaborador activo do periódico Ta-Ssi-Yang-Kuo (Arquivos do Extremo Oriente), iniciado em 1863. Colaborou ainda com a Gazeta de Macau e o Echo do Povo. Ainda em Portugal fundara o Voz do Alentejo.
Entre 1871 e 1873 foi Governador de Timor, um mandato onde se empenhou na organização administrativa e na melhoria das condições de saúde pública. 
Após décadas de serviço no Oriente, Manuel de Castro Sampaio regressou a Portugal, vindo a morrer em Lisboa, a 12 de outubro de 1875.

Para além dos livros já referidos foi ainda autor de: 
Pobreza envergonhada (Valença, 1852); Ensaios Poeticos (1858); Compendio de hygiene popular – tradução livre do texto de D. Francisco Tamires Vaz, (Elvas, 1860); Victimas de uma paixão (Lisboa, 1863); Memorias dos festejos realizados em Macau no fausto nascimento de S. A. o sr. D. Carlos Fernando (Macau, 1864); Compendio de Ortographia (Macau, 1864).

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick & Co's"

Neste detalhe da primeira página da edição do The Canton Register de 27 de Maio de 1834 assinalei um anúncio:
"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick' & Co.'s"
(As Cartas de Horsburgh sempre à venda na R. Markwick & Co.).
As "Horsburgh's Charts" eram cartas náuticas criadas pelo hidrógrafo escocês James Horsburgh (1762-1836), consideradas as mais credíveis na época para quem pretendia navegar  entre a Índia, o Sudeste Asiático e a China. Uma espécie de "Bíblia" dos Mares...
James Horsburgh, hidrógrafo da Companhia das Índias Orientais desde 1810, compilou décadas de dados sobre ventos, correntes e recifes.
As cartas eram indispensáveis para atravessar locais traiçoeiros como o Estreito de Malaca, o Mar da China Meridional e as aproximações de Macau. Sem elas, o risco de naufrágio em recifes não mapeados era altíssimo.
Na época o Porto de Cantão era o único acessível aos comerciantes estrangeiros na China, após uma paragem obrigatória em Macau onde tinha de obter autorização para prosseguir até Cantão.
Detalhe de carta náutica James Horsburgh. 1815

A firma R. Markwick & Co. - onde se vendiam estas cartas - constituía um pilar logístico fundamental para a comunidade estrangeira em Macau e Cantão na década de 1830, operando como uma espécie de "balcão único" para as necessidades práticas da frota mercante internacional. 
Richard Markwick, o fundador, era um empresário britânico que se posicionou estrategicamente no mercado chinês pré-Guerras do Ópio, não como um negociante de mercadorias como o chá ou o ópio, mas como um facilitador técnico e de serviços. 
Para além de cartas náuticas comercializava outros instrumentos essenciais na navegação como o cronómetro, bens alimentares, material para reparação das embarcações (lonas, cordas, etc...). Actuava ainda como casa de leilões para mercadorias danificadas ou bagagens abandonadas, fornecia alojamento em Cantão e em Macau e assegurava uma ligação marítima com alguma regularidade entre as duas cidades.
PS: no próximo post mais detalhes sobre a estalagem de Markwick em Macau.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O "Canton System"

Em 1684 o imperador Kangxi (康熙) da dinastia Qing (清朝) levantou a proibição do comércio marítimo e abriu quatro portos da China ao comércio externo. São assim criados os postos alfandegários, os Hopu. Na região de Macau (a partir de 1688) existiam quatro postos alfandegários - dois deles na cidade: Porto Interior e Praia Grande - responsáveis ​​pela cobrança de tarifas, inspecção de embarcações estrangeiras e emissão de autorizações de entrada.
Ao longo do século 18 o cada vez maior interesse de potências ocidentais, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos, em negociar com a China levou o imperador a criar regras.
O "Sistema de Cantão" - do inglês Canton System - consistia numa série de regulamentos para governar as interações entre chineses e estrangeiros em Cantão. Foi criado em 1757 pelo imperador Qianlong que emitiu um édito proibindo os navios europeus de negociarem em qualquer outro porto chinês que não fosse o de Cantão.
Praia Grande de Macau por G. Chinnery ca. 1825/30

Os supercargueiros (supercargos) estrangeiros que desejassem comercializar em Cantão solicitavam uma licença em Macau antes de contratar um piloto local para navegar a embarcação pelo estuário do Rio das Pérolas até à estação alfandegária de Bocca Tigris. Após as autoridades inspeccionarem a licença, um “prático interno” assumia o comando do navio e guiava-o rio acima, passando por uma série de
bacias de areia e bancos de areia traiçoeiros, até à ancoragem designada em Whampoa, já muito perto de Cantão. 
Um membro do grémio de mercadores “Co Hong” (hang 行) autorizado pelas autoridades chinesas era então recrutado para garantir a segurança do navio, assumir a responsabilidade pela conduta da sua tripulação, fiscalizar o pagamento de diversas taxas portuárias e direitos aduaneiros e comercializar com a embarcação estrangeira. 
Era também contratado um 'comprador' para abastecer o navio enquanto este estivesse atracado em Whampoa, e um linguista ou intérprete licenciado pelo Estado ajudava a supervisionar as transacções comerciais entre o supercargo estrangeiro e o seu parceiro comercial chinês. 
Em Cantão, junto ao rio, foi criado um espaço onde estavam instaladas treze "feitorias" (factory em inglês). Ficava fora das muralhas da cidade onde o estrangeiros não podiam entrar. Os edifícios serviam de alojamento e armazém para os comerciantes estrangeiros enquanto estes permaneciam em Cantão e conduziam os seus negócios.
No fim de cada temporada de comércio (Março a Setembro), os comerciantes tinham de sair de Cantão, residindo em Macau os restantes meses do ano, onde também estavam as famílias e, por vezes, escritórios das empresas de maior dimensão.
O sistema gerou enorme frustração nos britânicos (liderados pela Companhia das Índias Orientais), que o consideravam humilhante e comercialmente limitador. O desequilíbrio comercial - o Ocidente comprava chá e seda, mas a China apenas aceitava em troca a prata - levou os britânicos a introduzirem o ópio no mercado chinês para equilibrar a balança.
Em 1802 e 1808 os ingleses tentaram ocupar Macau mas não lograram os objectivos. Estas intenções seriam mal vistas pelas autoridades chinesas que entretanto emitem éditos a proibir o comércio do ópio. 
Aguarelas de meados do séc. 19

Após o parlamento inglês ter revogado o monopólio da Companhia das Índias Orientais, em 1834, William John Napier foi nomeado superintendente-chefe do comércio britânico na China. Tentou negociar com as autoridades de Cantão em pé de igualdade, mas estas interpretaram o seu comportamento como contrário às relações sino-estrangeiras estabelecidas. A sua missão fracassou e Napier viria a morrer nesse ano em Macau. Foi substituído em 1836 por Charles Elliot.
Em Pequim, uma proposta de 1836 para aliviar as restrições ao ópio obteve um amplo apoio, mas o imperador Daoguang nomeou um patriota radical, Lin Zexu, como comissário imperial para uma campanha antiópio. Os esforços chineses contra o ópio, de facto, começaram a obter avanços consideráveis ​​no controlo do lado chinês do contrabando no final de 1838 e início de 1839. O lado estrangeiro crucial do comércio de ópio, no entanto, estava fora do alcance directo do Comissário Lin. Após chegar a Cantão, em Março de 1839, Lin confiscou e destruiu mais de 20.000 caixas de ópio. Em setembro, começaram as escaramuças entre os chineses e os britânicos.
Era o desencadear da primeira Guerra do Ópio (1839-1842). O "Sistema de Cantão" foi oficialmente abolido com o Tratado de Nanking, que pôs fim à Primeira Guerra do Ópio e forçou a China a abrir ao estrangeiro cinco novos portos - "Portos de Tratado" / Teatry Ports - e a ceder Hong Kong.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Important from China": The New Yorker 3.8.1839

"Important from China" é o título da notícia publicada na edição de 3 de Agosto de 1839 do jornal The New Yorker que relata os eventos que levaram à Primeira Guerra do Ópio iniciada um mês depois.
Ocorrida entre 1839 e 1842 foi um conflito entre a Grã-Bretanha e a Dinastia Qing da China. O cerne da questão residia no contrabando massivo de ópio por parte dos britânicos para o mercado chinês, uma estratégia utilizada para equilibrar a balança comercial e estancar a saída de prata em troca de produtos como o chá e a seda. O vício generalizado resultante deste tráfico causou uma grave crise social e económica na China, levando o Imperador a nomear o comissário Lin Zexu para erradicar o comércio da droga. A apreensão e destruição de milhares de caixas de ópio em Cantão serviu de pretexto para a intervenção militar britânica, que pretendia proteger os seus interesses mercantis e exigir a liberdade de comércio.
Dada a esmagadora superioridade tecnológica da Marinha Real Britânica, cujos navios a vapor e artilharia moderna neutralizaram facilmente as defesas costeiras e os juncos de guerra chineses, a China foi forçada a render-se. O conflito terminou com a assinatura do Tratado de Nanquim em 1842, o primeiro dos chamados "Tratados Desiguais". Este acordo obrigou a China a ceder a ilha de Hong Kong ao domínio britânico, a pagar indemnizações avultadas pelos custos da guerra e pelo ópio destruído, e a abrir cinco portos comerciais ao estrangeiro, acabando com o regime restritivo que anteriormente limitava o comércio apenas a Cantão. Este evento marcou o início de um período de declínio do poder imperial chinês e de crescente influência colonial das potências ocidentais na região.
Macau na época da 1ª Guerra do Ópio. Desenho de G. Chinnery

A Primeira Guerra do Ópio teve impactos profundos em Macau, alterando o seu papel económico e a sua relação com o Império Chinês. Antes do conflito, Macau era o único local onde os europeus podiam residir permanentemente dentro dos confins do império, servindo como porto de escala obrigatório e refúgio para as famílias dos mercadores que negociavam em Cantão.
Com o início das hostilidades, a neutralidade de Macau foi posta à prova. O Comissário Imperial Lin exerceu uma pressão severa sobre as autoridades portuguesas, ameaçando revistar casas e cortando o fornecimento de provisões através do forte chinês junto à muralha da barreira para garantir a expulsão dos britânicos e a apreensão de ópio. Esta dependência extrema de bens essenciais vindo do continente mantinha a colónia numa situação de "completa sujeição" e humilhação perante o governo chinês.
Economicamente, o conflito trouxe uma crise imediata. A população de Macau enfrentou uma perspectiva real de fome e miséria quando o comércio de ópio foi interrompido, já que a economia local estava profundamente ligada a este tráfico e ao apoio logístico às frotas estrangeiras. Para evitar o confisco chinês, grandes quantidades de ópio tiveram de ser reembarcadas à pressa dos armazéns da cidade para os navios ancorados ao largo.
A longo prazo, o maior impacto foi o surgimento de Hong Kong. Com o Tratado de Nanquim, os britânicos deixaram de necessitar de Macau como entreposto, transferindo as suas feitorias para a nova colónia, que possuía águas mais profundas. Este esvaziamento económico forçou Macau a procurar novas fontes de receita e motivou os governadores portugueses, anos mais tarde, a procurar uma autonomia política semelhante à que os britânicos haviam conquistado em Hong Kong.


Transcrição:

Important from China - By the arrival at this port of the ship Omega, Capt. Hilbert, from Canton, whence she sailed on the 25th March, we have the important intelligence that the ports of China have been peremptorily closed, for an indefinite period, against all foreigners and foreign trade, on account of the iniquitous and corrupting traffic in Opium, which the merchants persisted in secretly abetting against the positive and repeated orders of the Government, but which the latter has fully determined on enforcing at every cost and hazard. To this end, an Imperial Commissioner, Lin, has been sent from Pekin by the Emperor, clothed with full powers, as Viceroy of Hoo-Kwang, to take the most energetic steps for the suppression of the baneful traffic in a drug which is impoverishing the country, debasing the morals, and destroying the health and physical energies of the Chinese. His Proclamation was issued on the 18th of March, and would fill nearly a column of our paper, narrating the mischiefs and criminality of the Opium trade and the hypocrisy of the merchants, Chinese and foreign, in secretly fostering it, with a plainness, pomposity and Oriental quaintness, at once forcible and amusing.
It seems that at first the merchants considered this one of the periodical tempests of the Government on this subject, which would soon blow over; but they were quickly convinced of their mistake by the appearance, on the 22d, of a mandate, stopping entirely the foreign trade, and forbidding any foreigner to leave Canton. The Omega barely got away with much difficulty. For further intelligence, we copy from the correspondence of the Journal of Commerce:
“The next day an officer and a posse of soldiers entered the factory of Dent & Co., demanding Mr. Dent for his contumacy in not leaving the country at the orders of the Emperor. Mr. Dent not being present, Mr. Inglis went into the city with the officer, accompanied by Thom and Morrison as interpreters. Elliott sent around a circular, on the 23d, in Macao, stating that he had ordered the English part of the Opium fleet back to Hongkong, in company with the Larne sloop of war, and there to put themselves in a state of defence. He left Macao for Canton the same evening, in order to demand passports for all British subjects to leave Canton, but we have not yet heard the result. Most of the Lintin fleet have been in Macao Roads for the last few days, and to-day the Opium in Macao is all re-embarked on board ship, as the Commissioner has threatened to search all the houses in Macao for it. The port government has received orders to fit up a house for the Commissioner, and they are making ready the tavern on the Praya Grande, near the landing place, for his reception. There are 20 war junks anchored in the roads.
“The people in Macao are in great trouble, for if the Opium trade is cut off from the place, they have a sad prospect of starvation, or at least great misery, before them. But in the eradication of an evil of the magnitude of this trade we must expect much distress; if the effect is healing the empire in a measure of a deadly evil, the distress bears but a small proportion to the good. It is estimated that there are a thousand chests in the place, and property amounting to twenty millions on board ship, all of which it is expected must go to Singapore. Out of all evil our hope is that God will bring much good to the empire; we may all be driven from Canton, to return again on a better footing, and an intercourse be commenced more likely to result in mutual advantage. We are all anxiously awaiting the result of the imprisonment of foreigners in Canton, and the summoning of Mr. Inglis into the city.”

Tradução/Adaptação:

Notícias importantes da China - Com a chegada a este porto do navio Omega, sob o comando do Capitão Hilbert, vindo de Cantão, de onde zarpou a 25 de Março, recebemos a importante informação de que os portos da China foram peremptoriamente fechados, por um período indefinido, a todos os estrangeiros e ao comércio externo, devido ao tráfico iníquo e corruptor de ópio, que os mercadores persistiram em apoiar secretamente contra as ordens repetidas do governo chinês, as quais este último está totalmente determinado a fazer cumprir a qualquer custo e risco. Para este fim, um Comissário Imperial, Lin, foi enviado de Pequim pelo Imperador, investido de plenos poderes, como Vice-Rei de Hoo-Kwang, para tomar as medidas mais enérgicas para a supressão do tráfego pernicioso de uma droga que está a empobrecer o país, a degradar a moral e a destruir a saúde e as energias físicas dos chineses. A sua proclamação foi emitida a 18 de março e preencheria quase uma coluna do nosso jornal, narrando os malefícios e a criminalidade do comércio de ópio e a hipocrisia dos mercadores, chineses e estrangeiros, ao fomentá-lo secretamente, com uma clareza, pomposidade e singularidade oriental, simultaneamente contundente e curiosa.
Parece que, a princípio, os mercadores consideraram esta como uma das tempestades periódicas do imperador sobre este assunto, e que logo passaria, mas foram rapidamente convencidos do seu erro pelo aparecimento, no dia 22, de um mandato, interrompendo inteiramente o comércio externo e proibindo qualquer estrangeiro de deixar Cantão. O Omega conseguiu escapar com muita dificuldade. Para mais informações, copiamos da correspondência do Journal of Commerce o seguinte:
“No dia seguinte, um oficial e um destacamento de soldados entraram na feitoria da Dent & Co., exigindo o Sr. Dent pela sua contumácia em não deixar o país sob as ordens do Imperador. Não estando o Sr. Dent presente, o Sr. Inglis foi à cidade com o oficial, acompanhado por Thom e Morrison como intérpretes. Elliott enviou uma circular, no dia 23, em Macau, declarando ter ordenado que a parte inglesa da frota do ópio regressasse a Hong Kong, em companhia da corveta de guerra Larne, para ali se colocarem em estado de defesa. Ele partiu de Macau para Cantão na mesma noite, a fim de exigir passaportes para que todos os súbditos britânicos pudessem deixar Cantão, mas ainda não soubemos o resultado. A maior parte da frota de Lintin tem estado no fundeadouro de Macau nos últimos dias e, hoje, o ópio em Macau foi todo reembarcado nos navios, pois o Comissário ameaçou revistar todas as casas de Macau à sua procura. O governo do porto recebeu ordens para preparar uma casa para o Comissário, e estão a preparar a taberna na Praia Grande, perto do local de desembarque, para a sua recepção. Há 20 juncos de guerra ancorados no fundeadouro.
O povo de Macau está em grandes dificuldades, pois se o comércio de ópio for cortado do local, têm diante de si uma triste perspectiva de fome ou, pelo menos, de grande miséria. Mas na erradicação de um mal da magnitude deste comércio, devemos esperar muita aflição; se o efeito for curar o império de um mal mortal, a aflição representa apenas uma pequena proporção face ao bem alcançado. Estima-se que existam mil caixas no local e carga no valor de vinte milhões a bordo dos navios, prevendo-se que tudo isto tenha de seguir para Singapura. De todo o mal, a nossa esperança é que Deus traga muito bem ao império; poderemos todos ser expulsos de Cantão, para regressar novamente em melhores condições, e que se inicie uma relação com maior probabilidade de resultar em vantagem mútua. Estamos todos a aguardar ansiosamente o resultado do aprisionamento de estrangeiros em Cantão e da convocação do Sr. Inglis à cidade.”

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A Las Vegas dos Pobres"

Neste post sintetizo - num artigo em português - as ideias subjacentes a alguns dos vários artigos publicados por Roy Essoyan, correspondente da agência noticiosa AP (Associated Press) em Hong Kong e Macau no final da década de 1950. O artigo está escrito como se fosse o próprio Roy o autor.
Roy Essoyan nasceu em 1919 numa aldeia de pescadores no Japão, filho de refugiados arménios que fugiram da Revolução Russa.
Cresceu em Xangai, onde frequentou a escola e desenvolveu a sua curiosidade pelo jornalismo e pela complexa política do Extremo Oriente. Antes de se tornar repórter, trabalhou num navio cargueiro dinamarquês durante mais de um ano.
Após a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para o Havai e tornou-se cidadão americano. Ao serviço da AP foi correspondente em Moscovo de onde foi expulso em 1958 pelas autoridades da União Soviética por "violação rude da censura" quando revelou a ruptura política entre a URSS e a China de Mao Zedong.
Foi então transferido para Hong Kong e Macau, locais que usou como uma "fresta" (peephole) para observar a China Comunista.
Na década de 1960 integrou a equipa de elite da AP no Vietname, reportando frequentemente a partir da linha da frente em missões de helicóptero.
Em 1965, depois de uma breve passagem pelo Cairo, assumiu a chefia das operações da AP em Beirute e terminou a carreira em 1973 como director dos serviços do Norte da Ásia em Tóquio.
Em 1985 regressou ao Havai onde se reformou. Morreu em 2012, aos 92 anos, sendo recordado como um repórter "à antiga", conhecido pela sua coragem e por desafiar a censura.
Curiosidade:
Durante uma visita à Indonésia, anos depois de Roy ter sido expulso de Moscovo, Khrushchev reparou que Essoyan estava num grupo de jornalistas e para desânimo dos outros repórteres, convidou o americano a juntar-se a ele para uma conversa privada. Enquanto conversavam em russo, Khrushchev fez um comentário desdenhoso sobre o boné de basebol de Essoyan: 'Porque é que usa esses bonés ridículos?' Essoyan respondeu colocando, por brincadeira, o boné na cabeça do líder soviético. O momento foi captado pelos fotógrafos nesse dia de 24 de Fevereiro de 1960...
Vista aérea do Porto Interior: década 1950

"Esta minúscula colónia portuguesa de seis milhas quadradas, empoleirada na ponta do continente chinês, continua a ser hoje a "fresta" mais estranha do mundo. É um lugar onde o Ocidente se encontra com o Oriente, não em conflito, mas num abraço silencioso e necessário.
Olhar através do canal estreito do Porto Interior ou estar junto da Porta do Cerco é olhar diretamente para o rosto da China Comunista. Mas, enquanto a "Cortina de Bambu" noutros locais é uma muralha de silêncio, aqui é um portão que gira sobre as dobradiças da fome.
Todas as manhãs, o ritual começa. Trabalhadores, com os rostos marcados pelo cansaço da longa jornada vinda do continente, enxameiam as docas. Carregam o sustento vital de Macau: cestos de couves, grades de porcos a guinchar e feixes de lenha. Sem esta transfusão diária do interior comunista, este entreposto português morreria de fome em quarenta e oito horas.

A Las Vegas dos Pobres
Macau é há muito apelidada de "a Las Vegas dos pobres", e a descrição permanece actual. Sob as sombras dos letreiros de néon cintilantes das casas de jogo, homens apostam as suas últimas patacas na viragem de uma carta ou no cair de um dado em jogos de Fan-Tan. O ar é espesso, com o cheiro a peixe salgado, incenso e o aroma leve e adocicado do ópio que ainda paira nos bairros mais antigos.
Mas o jogo é apenas uma máscara para uma tensão mais profunda. Por trás da fachada das casas de jogo e das redes de contrabando de ouro, esconde-se uma colónia a viver de tempo emprestado.

Um Equilíbrio Delicado
A bandeira portuguesa flutua sobre o palácio do governador, mas o verdadeiro poder faz-se sentir do outro lado da fronteira. Os comunistas poderiam tomar Macau com um único batalhão de infantaria ou simplesmente fechando a torneira da água. No entanto, não o fazem. Macau serve como um pulmão vital para o continente - um local para obter divisas estrangeiras e um ponto de contacto conveniente com o mundo exterior.
Para o ocidental parado na fronteira, a visão da "China Vermelha" é enganadora. Veem-se colinas verdes e camponeses a trabalhar a terra, com um aspecto muito semelhante ao que têm tido ao longo de séculos. Mas os guardas armados, nos seus uniformes acolchoados, observando através de binóculos, lembram-nos de que esta é a fronteira de um mundo diferente.
À medida que o sol se põe sobre o Rio das Pérolas, os barcos antes carregados de legumes afastam-se das docas para regressar ao continente. O portão fecha-se, as luzes do jogo começam a piscar e Macau acomoda-se em mais uma noite de sobrevivência inquieta na orla da Cortina de Bambu."

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Vestígios Sagrados de Macau" por Gao Jianfu

Esta pintura das Ruínas de S. Paulo (aguarela e tinta da china - 43.5 x 46.5 cm) é uma das últimas obras da autoria do conceituado pintor Gao Jianfu (1879-1951), nome maior da pintura chinesa moderna com fortes ligações a Macau. 
Produzida ca. 1950 inclui elementos das pinturas ocidental e chinesa evidenciando-se o domínio da técnica de caligrafia chinesa e da pintura de paisagem, incluindo árvores, animais e figuras humanas.
A fachada da igreja Mater Dei é apresentada numa perspectiva pouco habitual sendo vista a partir da Calçada de S. Paulo, aparesentando-se à direita o templo de Na Tcha.
No topo os caracteres na horizontal 馬交聖蹟 significam "Vestígios Sagrados de Macau". Em baixo para além da assinatura do pintor está um poema.
O texto começa com a identificação do local: 三巴門外 que significa "Fora da Porta de São Paulo". Segue-se uma descrição da atmosfera do local evocando a passagem do tempo e a decadência da antiga glória do Colégio e Igreja de São Paulo, mencionando o contraste entre as pedras sobreviventes e a vida humilde que se instalou ao seu redor. Referem-se ainda "vendedores" e "trabalhadores" (como os carregadores que vê na pintura) que circulavam naquelas ruas estreitas em meados do século 20.

Detalhe da 'assinatura' da pintura no canto inferior esquerdo: 
Caracteres pretos na vertical 劍父 (Jiànfù) e carimbo vermelho em estilo de sinete.

Nascido em Panyu (Cantão), Gao Jianfu (em chinês: 高劍父/ "Gou Gim Fu" é reconhecido por liderar o esforço da Escola Lingnan para modernizar a pintura tradicional chinesa como uma "nova arte nacional".
Aos treze anos ingressou no atelier do artista chinês Ju Lian, em Lishan, onde serviu como seu aprendiz durante os sete anos seguintes. Durante este período, Gao Jianfu pintou num estilo semelhante ao do mestre: vibrante, colorido e realista. Os temas das suas pinturas eram sobretudo pássaros, flores e paisagens[3]. No estúdio de Ju Lian, Gao Jianfu tornou-se amigo próximo de Chen Shuren, também ele artista.
Em 1903, Gao Jianfu começou a trabalhar com o pintor e colecionador Wu Deyi tendo os primeiros contactos com a pintura tradicional chinesa.
Estudou no Canton Christian College, hoje conhecido como Universidade de Lingnan. Dois dos seus professores mais influentes foram "um professor francês de pintura conhecido apenas pelo seu nome chinês, Mai La," e Yamamoto Baigai, um dos muitos professores japoneses que então viviam na China. Profundamente inspirado pelos seus professores, Jianfu viria a viajar para Tóquio no inverno de 1906 mas seria uma curta estadia. Devido à falta de recursos regressou a Cantão para passar o verão. Em 1907 regressou a Tóquio com o seu irmão de dezanove anos, Gao Qifeng, tendo convivido com o amigo Chen Shuren.
Durante a sua estadia no Japão, os três homens foram expostos aos debates nacionalistas "que então ocorriam no mundo da arte japonesa sobre o impacto modernizador da arte ocidental nas tradições artísticas locais do Japão". Jianfu interessou-se pelas sínteses das abordagens ocidentais e tradicionais, que eram paralelas ao trabalho no mundo da arte contemporânea japonesa. Jianfu, juntamente com os seus pares da Escola Lingnan, viu esta mistura de estilos como um modelo para a arte nacional moderna. Muitos dos estudantes da Lingnan juntaram-se ao movimento anti-Manchu de Sun Yat-sen, um movimento nacionalista revolucionário. Mais tarde, Gao juntou-se ao Corpo de Assassinos Chinês, um grupo anarquista chinês.
Em 1912, após a queda dos manchus, Gao Jianfu e o seu irmão mudaram-se para Xangai. Começaram a publicar um jornal intitulado Zhen xiang huabao (O Registo Verdadeiro). A publicação apresentava artigos sobre arte e política, bem como ensaios que promoviam uma nova arte nacional modernizada na China. Embora tenha durado apenas um ano, o jornal foi um dos primeiros a levar a arte ao grande público. Os irmãos defendiam o apoio governamental às artes e abriram a primeira galeria pública do país para a exposição e venda de obras de arte, a Livraria Estética. Em 1918 saíram de Xangai e foram para Cantão onde em 1923 fundaram a Academia de Arte do Despertar da Primavera em Cantão.
Em 1929 Jianfu foi acusado de sentimentos xenófobos durante o seu período como principal organizador da primeira Exposição Nacional de Arte do governo, realizada em Nanquim. Devido à grande importância da Escola Lingnan, houve uma reação hostil à inclusão de tendências artísticas não chinesas.
Em 1936, Jianfu começou a lecionar na Universidade Sun Yat-sen. Continuou a publicar artigos, nos quais defendia o seu conceito de nova arte nacional. Sugeriu que a pintura nacional abandonasse o "elitismo" da arte tradicional e se envolvesse mais directamente com o público chinês. Com a invasão da China pelo Japão em 1937 Gao Jianfu deixou Cantão e foi para Macau em 1938 onde viveu até 1945. Regressaria a Cantão onde viveu até 1949. Com a chegado ao poder de Tsé-Tung em 1949 fugiu novamente para Macau onde fundou uma escola e viria a morrer a 22 de Maio de 1951. Gao Jianfu legou a Macau um grande número de obras que constituem um verdadeiro tesouro artístico do território e tem sido exibidas em várias exposições.