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domingo, 8 de dezembro de 2024

The Embassy of Captain Gonçalo de Siqueira de Souza to Japan in 1644-7

Publicado em 1938 pela tipografia Mercantil em Macau este livro - ilustrado com 8 estampas - é um dos primeiros trabalhos do conceituado historiador Charles Boxer. Com uma edição limitada de 500 exemplares conta com prefácio do bispo de Macau D. José da Costa Nunes.
O Capitão Gonçalo de Sequeira de Sousa foi o segundo embaixador português enviado por D. João IV ao Japão para tentar resolver o impedimento de atracagem das naus portuguesas nos portos japoneses, acusados de trazerem consigo missionários, prejudicando assim o comércio entre Macau e o Japão.
Capitão-de-mar-e-guerra, Gonçalo de Siqueira de Sousa era de origem reinól. Participou em 1614 numa armada para transporte de tropas espanholas de Cadiz para Manila, sob o comando de seu pai, Rui Gonçalves de Sequeira (que fora capitão das Molucas de 1598 a 1603). Na época Portugal estava sob domínio filipino. Após o falecimento de seu pai, em 1619, regressou a Portugal, e, como recompensa dos seus serviços, foi nomeado capitão do galeão Misericórdia, partindo de Lisboa para Goa, em 1621, onde não chegou devido a uma tempestade. A partir daqui, realizou várias viagens, sempre com o posto de capitão, o que lhe permitiu um profundo conhecimento dos mares, não só ocidentais como orientais. Em 1644, Gonçalo de Siqueira de Sousa foi nomeado embaixador ao Japão, uma embaixada sugerida dois anos antes pelo Pe. António Cardim, Procurador-Geral da Província Jesuítica do Japão, com o objectivo de tentar reabrir o comércio japonês, que acabara em 1639, com a expulsão dos Portugueses. Foi esta a primeira embaixada enviada a esse país por um país europeu, mas o Shogun (Xógum) Tokugawa Iemitsu continuou a recusar a abertura do comércio aos Portugueses.

Pero Vaz de Siqueira, fidalgo-cavaleiro natural de Macau, acompanhou seu pai nessa missão ao Japão (1644-47), tendo regressado com ele a Goa, em 1648. Após a morte de Gonçalo de Sousa, em 1649, terá regressado ao Reino. De 1657 a 1669 serviu na Armada do Estado da Índia, tendo tomado parte na reconquista de Coulão e na defesa de Cochim (em 1657 e 1663). No princípio da década de 1670 regressaria a Macau onde casou com Ana Maria de Noronha, pertencente a uma família proeminente da sociedade local e de comerciantes ricos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Seventeenth Century Macau

"Seventeenth Century Macau in contemporary documents and illustrations", book edited and translated by C. R. Boxer. 
Published in 1984, Hong Kong.
Contains the English text and illustrations from C.R. Boxer's "Macau na época da restauração (Macau three hundred years ago)", published in a bilingual, English and Portuguese limited edition of 500 copies in Macau by Imprensa Nacional de Macau in 1942.

Na imagem a capa de um livro editado em Hong Kong em 1984 da autoria de Charles Boxer. Trata-se de uma colectânea de textos relativos a Macau Setecentista, incluindo alguns documentos desta época, recolhidos e traduzidos, para o Inglês, por C. R. Boxer.
Inclui o documento "Macau three hundred years ago", do mesmo autor, e publicado pela primeira vez em 1942 pela Imprensa Nacional de Macau num edição limitada de 500 exemplares.
Em 1993 surgiu uma edição fac-similada (pela Fundação Oriente) da edição de 1942.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Charles Boxer: soldado, historiador, professor, coleccionador e viajante

Já aqui escrevi várias vezes sobre o britânico Charles Boxer (1904-2000), mas nunca é demais recordar aquele que é considerado o maior historiador estrangeiro da expansão portuguesa. Boxer começou tarde nesta actividade. Tinha 43 anos. Antes estivera na carreira militar ao serviço de sua Magestade (desde 1924). 
Em 1963, então professor da Cátedra Camões no King's College London, com 59 anos, publicou um livro que causou furor em Portugal, numa altura em que emergiam os movimentos nacionalistas contra o domínio colonial português. 
Trata-se da obra "Race relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825". Seria apenas traduzida para português em 1977: “Relações Raciais no Império Colonial Português 1415-1825” e aborda o período que vai desde o início da expansão até à independência do Brasil.
A obra foi o resultado de três conferências proferidas na Universidade da Virgínia, (EUA), em Novembro de 1962: "Morocco and West Africa", "Moçambique and India" e "Brazil and Maranhão". 
Nesses ensaios, Boxer que era  considerado um historiador moderado, empirista, distante das teses marxistas em voga na época, diz na prática que o não racismo na história  do colonialismo português era um mito. Escreve ele: "Os portugueses não eram anjos nem diabos; eram seres humanos e agiam como tais; sua conduta variava muito de acordo com o tempo, lugar e espaço." Era bem relacionado nos círculos intelectuais portugueses mas esta posição faria como fosse posto à margem durante muitos anos.
Curiosamente Macau não faz parte da obra, um território cuja história nesta altura já Boxer conhecia muitíssimo bem, tendo publicado vários livros. A razão é simples. Para Boxer o processo histórico macaense era único, pelo que deveria ser estudado fora do âmbito colonial.


Charles Ralph Boxer nasceu na ilha de Wight em 1904, descendente de uma família com grandes tradições militares, do lado paterno. Ele e o irmão frequentaram as academias militares de Wellington e Sandhurst. Foi Oficial ao serviço da Coroa na Irlanda do Norte, e segue para o Japão em 1930, uma viagem marcante.
Admira e partilha a estrita disciplina dos soldados japoneses, inicia-se na filosofia zen e pratica artes marciais.
Em 1936 está estacionado em Hong Kong e aproveita para viajar pela região, investigando fontes, pesquisando em bibliotecas, comprando livros, coleccionando moedas e outras antiguidades. É nesta altura que vai a Macau.
Torna-se amigo do padre Manuel Teixeira, uma das figuras incontornáveis da história de Macau, dirá dele o seguinte:
"Um dia perguntei-lhe qual era a sua religião. Ele respondeu-me: 'Do pescoço para cima sou episcopaliano, mas do pescoço para baixo sou mórmon!"
Tinha muita facilidade na aprendizagem das línguas. Dominava o japonês, o português, o holandês, o espanhol, o alemão e o italiano.
Quando o Japão invade Hong Kong em Dezembro de 1941 (faz agora 78 anos) Boxer está à frente dos serviços secretos da então colónia britânica. É gravemente ferido em combate e torna-se prisioneiro de guerra.
Desiste da carreira militar como major em 1947 - quando lhe é oferecida a cátedra de Camões em Londres - e passa a dedicar-se em exclusivo à história.



Em cima um dos muitos livros sobre Macau - The Great Ship from Amacon (1959)  - da autoria de Boxer, e ainda a sua assinatura e ex-libris.
Sugestão de leitura: 
Charles Boxer, an Uncommon Life: soldier, historian, teacher, collector, traveller"
de Dauril Alden, James S. Cummins e Michael Cooper.
Edição F. O., 2001
Desde o início Boxer sempre se perguntou como é que um pequeno reino na cauda da Europa tinha sido capaz de construir e manter um império durante tantos séculos? 
Macau foi uma das primeiras 'parcelas' desse império e a de maior longevidade (até Dezembro de 1999).
Quando deixou de escrever, em 1984, Charles Boxer era autor de mais de 350 livros e artigos. Muitos deles sobre Macau.
Morreu no ano 2000 com 96 anos.
Algumas das obras sobre Macau:
- Um memorial da cidade de Macau há trezentos anos, Escola Tipográfica do Orfanato, 1937 
- A derrota dos Holandeses em Macau no ano de 1622: subsídios inéditos, pontos controversos, informações novas, Escola Tipográfica de Orfanato, 1938 
- A propósito dum livrinho xilográfico dos Jesuítas de Pequim, século XVIII: ensaio histórico, Imprensa Nacional, 1947
- The Great Ship from Amacon: Annals of Macao and Old Japan Trade, 1555-1640, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1959

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

The Great Ship from Amacon / O Grande Navio de Amacau


The Great Ship from Amacon: Annals of Macao and the Old Japan Trade, 1555-1640, de C. R. Boxer. 
Edição: Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, Lisboa, 1959.
Estudo de Charles Boxer sobre a história económica do Japão e suas relações com Macau. Inclui a transcrição de numerosos documentos.

Houve uma segunda edição poucos anos depois, em 1963. E ainda em 1988 pelo ICM e em 1989 (versão portuguesa por Manuel Vilarinho) pela Fundação Oriente/Museu e Centro de Estudos Marítimos).
Charles Boxer (1904-2000), foi doutor "honoris causa" pelas mais prestigiadas universidades do mundo e o historiador estrangeiro que mais escreveu sobre os Descobrimentos portugueses. Sem qualquer título académico, começou a carreira de investigador apenas aos 43 anos, já depois de deixar o exército com o posto de major. Publicou livros entre 1926 e 1984.
Em 1988 Charles Boxer estava no território para ser homenageado pelo governador e deu uma entrevista à Revista Macau (nº 12) onde disse que gostaria de morrer em Macau:
“Quando vi Macau pela primeira vez, em 1933, era uma ‘vila pacata’, talvez como uma terra portuguesa semi adormecida no Alto Alentejo, onde muita gente vinha para descansar. Agora, não posso deixar de sentir uma certa nostalgia desse tempo embora saiba que as coisas não podem parar. […] Gostava muito de poder fazer como George Chinnery e morrer aqui, mas nunca fiquei em Macau mais do 10 ou 15 dias seguidos. A curta duração das minhas visitas foi compensada pelas inúmeras vezes que cá tenho vindo e como Macau é bastante pequena deu para ficar a conhecer a cidade bastante bem.”
Curiosamente o seu primeiro trabalho sobre Macau foi escrito em 1926 - "O 24 de Junho, uma façanha dos portugueses" - quando ainda nem tinha ido a Macau. Tinha o posto de tenente e sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa. Este trabalho foi feito originalmente em inglês e seria publicado (a primeira parte) em português logo em Setembro desse ano na edição nº 15 do Boletim Geral das Colónias.
Em baixo o Ex Libris de Charles Boxer.

sábado, 2 de junho de 2018

Macau na Época da Restauração / Macau three hundred Years ago


Em 1942 foi editado em Macau pela Imprensa Nacional o livro "Macau na Época da Restauração (Macau three hundred Years ago), da autoria de Charles Boxer.
Esta edição em português e inglês, de 231 páginas, foi limitada a 500 exemplares.
Na introdução pode ler-se: "The accounts which follow comprise all the material of importance, whether in manuscript or in print, which is available for a study of the circumstances under which the Restoration was carried out in Macau. The majority have been printed before, but only in Portuguese works of limited circulation, and more often than not without any notes or critical apparatus." Impresso a duas colunas o livro tem duas partes. Na primeira parte Boxer reproduz 3 relatos de Macau feitos por:  Antonio Bocarro (1635), Peter Mundy (1637) e Marco d' Avalo (1638). Na segunda parte refere o período da governação de D. João IV. Inclui 29 ilustrações com algumas vistas de Macau e reprodução de documentos, nomeadamente do padre António Francisco Cardim, entre outros. Teve uma reedição pela Fundação Oriente em 1993.
"Macau na Época da Restauração (Macau three hundred Years ago)" was printed in two columns in both English and Portuguese by Imprensa Nacional in 1942 at Macau. First edition was limited to 500 copies.
The work traces the history of Macao in the 17th century. It is divided into two parts: In the first Boxer translates/transcribes three accounts of Macao dating 1635 (Antonio Bocarro), 1637 (Peter Mundy), and 1638 (Marco d'Avalo). In the second part Boxer deals with the Restoration of King Dom Joao IV (1641-1645) and his influence on Macao: Again a number of eye-witness accounts are given and each section is prefaced by a historical introduction. By focusing on primary sources by noted individuals Boxer achieves a high degree of authenticity and is able to paint a characteristically vivid picture of Portuguese activities in the Far East. The plates include views of Macao, as well as reproductions of historical documents.
An important gathering of primary source material relating to Macau in the period of the Restoration of the Portuguese monarchy under King John IV, which ended the Iberian Union (1580-1640) and the domination of Portugal and its dominions by the Spanish Habsburgs.
Included are several key documents written by the Jesuit missionary and historian Father António Francisco Cardim, author of Fasciculus e Japponicis floribus.

domingo, 17 de setembro de 2017

Recordando Charles Ralph Boxer

Charles Ralph Boxer (1904-2000) foi doutor "honoris causa" pelas mais prestigiadas universidades do mundo e o historiador estrangeiro que mais escreveu sobre os Descobrimentos, expansão e colonização portugueses.
Era de facto um homem muito activo. Costumava dizer:  "I like action - moral courage is much less common than intelligence."
Sem título académico só começou a carreira de investigador aos 43 anos, depois de deixar o exército com o posto de major. Deixou de escrever em 1984 ao fim de mais de 350 livros e artigos publicados... Muitos deles - ilustram este post - são sobre a presença portuguese no Oriente e, naturalmente, sobre a história de Macau onde esteve na década de 1930/40. Mas já lá vamos...
C. R. Boxer nasceu a 8 de Março de 1904, na ilha de Wight, no Sul da Inglaterra. Em 1923 entrou para o regimento de Lincolnshire com o posto de tenente. Ficaria na Irlanda do Norte durante os 24 anos seguintes, seguindo depois para o Japão onde foi oficial intérprete entre 1930 e 1933. Em 1936 é transferido para Hong Kong onde fica estacionado em Hong Kong, como membro dos serviços secretos britânicos.
Nessa altura faz várias viagens pela região e teve acesso a vários livros e documentos antigos. Numa dessas viagens vai a Macau tendo conhececido o padre Manuel Teixeira de quem se tornou amigo. "Um dia, - recorda o padre - perguntei-lhe qual era a sua religião. Ele respondeu-me: 'Do pescoço para cima sou episcopaliano, mas do pescoço para baixo sou mórmon!'"
Tinha grande facilidade para aprender línguas. Para além do inglês, sabia fluentemente o japonês, o português, o holandês, o espanhol, o alemão e o italiano. Quando os japoneses invadem a colónia britânica em Dezembro de 1941 Boxer foi gravemente ferido em combate e feito prisioneiro de guerra. Seria condenado a 35 anos de prisão, passa os três anos seguintes, até à derrota japonesa, em regime de "solitária", em Guangzhou (Cantão). Segundo monsenhor Manuel Teixeira os japoneses "fuzilaram todos os oficiais, excepto Boxer; a ele, torturaram-lhe a mão esquerda, que ficou inutilizada para toda a vida, mas deixaram-lhe a direita para poder continuar a escrever a História, o que ele fez". E é desses anos que resultam inúmeros artigos/livros sobre Macau.
http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/charles-ralph-boxer-historiador.html
Depois da guerra Boxer volta a Inglaterra por pouco tempo regressando ao Japão como membro da delegação britânica na comissão aliada. Durante esse volta a publicar uma série de trabalhos sobre a história do Extremo Oriente, passando a ser, desde então, uma figura conhecida e respeitada na comunidade académica.
Já com mais de 40 anos ingressa na vida universitária como professor de Português, depois professor de História do Extremo Oriente e, mais tarde, professor de História da Expansão Europeia no Ultramar.
Em 1947, Boxer demitiu-se do exército para aceitar o convite para reger a cátedra de Camões, no King's College de Londres, lugar que ocupou até se reformar, em 1967. Seguiu depois para a Universidade de Indiana, em Bloomington, ao mesmo tempo que exercia o cargo de consultor da biblioteca Lilly Library. Entre 1969 e 1972 regeu a cadeira de História da Expansão da Europa no Ultramar na Universidade de Yale. Termina a docência e seguem-se as conferências e as investigações, a maior parte sobre Portugal.
Boxer é membro das academias portuguesas das Ciências e de História e foi condecorado com a Ordem de Santiago da Espada e com a Grande Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, pelos seus estudos de história portuguesa ultramarina. "The Portuguese Seaborn Empire, 1415-1825" e  "The Christian Century in Japan" estão entre as suas obras mais conceituadas.
Em 1963, no eclodir dos movimentos nacionalistas contra o domínio colonial português, Boxer publicou "Relações Raciais no Império Colonial Português 1415-1825" onde contraria a ideologia subjacente à política ultramarina portuguesa. No livro Boxer não inclui Macau. Conclui-se portanto que Boxer considera peculiar o processo histórico macaense, foram do contexto colonial mais abrangente. Boxer morreu em 2000 com 96 anos.
Sugestão de leitura: "Charles R. Boxer: an uncommon life: soldier, historian, teacher, collector, traveller". Edição F.O. Autores: Dauril Alden, James Cummins e Michael Cooper. A year after the death of what is considered the greatest historian of the Portuguese expansion abroad, the F.O. published "Charles R. Boxer - An Uncommon Life." Prof. Dauril Alden unveils the unusual personality of the historian, soldier, teacher, collector, and traveler who has built since the 30s to the 80s of the 20 century, a unique work: 355 books and articles, a library of rare books (printed and manuscripts) and hundreds of letters, the result of correspondence with researchers from around the world. Committed to making known the whole work of Boxer, the Orient Foundation in 1989 began publishing them in Portuguese. The 5 volumes published until 1993 were added in 2001, three more of a total of 15 designated Opera Minora and bringing together the scattered work of the historian.
Em 2015, no 110.º aniversário do nascimento de Charles Ralph Boxer, a Revista de Cultura - Edição Internacional dedicou a edição nº 47 à vida e obra do historiador britânico.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Breve relação da vida e feitos de Lopo e Inácio Sarmento de Carvalho



"Breve relação da vida e feitos de Lopo e Inácio Sarmento de Carvalho: grandes capitãis que no seculo XVII honraram Portvgal no Oriente", da autoria de C. R. Boxer (1904-2000), edição de 1940.
Trabalho realizado no âmbito das comemorações do ano dos centenários da Fundação e Restauração de Portugal. Ilustrado em folhas intercaladas no texto. Impresso nas Oficinas da Imprensa Nacional. Tiragem limitada a 450 exemplares




“(...) Aludimos ao ilustre guerreiro seiscentista, Inácio Sarmento de Carvalho, cujo nome, afinal, vai ser perpetuado numa rua da cidade, onde nasceu, e que ilustrou pelas suas acções em defesa do Império Português no Oriente contra os inimigos Europeus e Asiáticos (...)”
Inácio Sarmento tem em Macau uma Travessa com o seu nome. A referência toponímica também se aplica a Lopo que tem uma avenida com o seu nome em Macau (junto ao hotel Lisboa) desde 1940. Começa entre a Rua da Praia Grande, e a Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, em frente da Estrada de S. Francisco, e termina na Avenida da Amizade.


Inácio Sarmento de Carvalho foi Capitão general de mar e terra no sul da Índia Oriental. Ignoram-se as datas do nascimento e falecimento. 
A 11 de abril de 1650 foi aprovado para exercer cargos na Índia, e D. João IV o nomeou sucessivamente governador de Baçaim, Damão e Rachol. Em 1658 foi nomeado comandante da armada do norte, depois recebeu a Capitania de Goa e diploma de conselheiro do Estado da Índia; e o governo de Moçambique em 1667.

Lopo Sarmento de Carvalho era um mercador oriundo de Bragança. Começou por se estabelecer na Índia (1607) e depois em Macau em 1615; foi Capitão – Mor da viagem do Japão em 1617 e em 1622, aquando do ataque dos holandeses, quando era capitão-mor da cidade comandando as tropas que defenderam o território de forma vitoriosa do invasor. Não tendo nunca tido acesso ao Senado, desempenhou o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia e foi ainda Capitão-–Mor da viagem de Manila. Integrou o núcleo de Eleitos da década de 1640, e foi considerado uma das «seis pessoas de mais authoridade, e praticas» no debate que, a propósito do envio de uma Embaixada ao Japão, ocorreu na cidade entre 1645 e 1646. Em 1642 tendo-se revelado, à semelhança do seu cunhado, pouco influente nas contradições ocorridas entre o Governador do Bispado frei Bento de Cristo, e o Comissários do Santo Ofício, padres Gaspar Luís, e Gaspar do Amaral, assinou o Termo de 31 de Maio aquando da aclamação de D. João IV em 1642. Embora tenha feito parte do núcleo de Eleitos e Adjuntos, foi por via do Reino, exógena à hierarquização social própria da cidade mercantil em questão, que se inscreveu num círculo de poder associado a Goa. A fortuna que diz possuir em finais da década de trinta de Seiscentos, orçada em seiscentos mil cruzados, favorecem-no inegavelmente em 1645. Contando com 62 anos de idade neste ano, e com vinte e oito anos de estadia em Macau, refere-se a si próprio nos seguintes termos: «(...)] fidalgo da caza de sua Magestade Caualleiro profeço capitão mor que foi desta cidade por duas vezes, e das viagens de Japão, e Manilla, Provedor da Santa Casa, outras duas Vezes».
Nota: Entre 1557 e 1623, não havia ainda a figura do Governador, eram os capitães-mores que comandavam os destinos de Macau



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Fidalgos no Extremo Oriente em língua chinesa

A obra monográfica ‘Fidalgos no Extremo Oriente 1550-1770: factos e lendas de Macau antigo’, uma das mais emblemáticas redigidas pelo historiador inglês CharlesRalph Boxer, está agora disponível em língua chinesa. 
Inserida na colecção “Macaulogia”, a obra foi traduzida por Li Qing, académico doutorado que desempenha funções no Departamento de História da Universidade de Macau (UMAC). 
A coordenação editorial da versão chinesa de “Fidalgos no Extremo Oriente”, obra que foi publicada em versão Portuguesa pela Fundação Oriente em 1990 (imagem ao lado), foi da responsabilidade de Hao Yufan, reitor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau e de Tang Kaijian, professor no Departamento de História da mesma instituição de ensino superior. Ainda que com o apoio do Instituto Cultural e da Fundação Macau, a publicação do volume em língua chinesa foi promovido pelo Centro de Publicações da Universidade de Macau. 
O livro, que aborda os primórdios da História do território, foi editado pela primeira vez em 1948, pelo poeta e ensaísta holandês Martinus Nijoff. A segunda versão, editada em 1968, foi da responsabilidade da Oxford University Press.
in HM 12.12.2016
No blogue existem inúmeros posts sobre Charles Boxer, sugiro este.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Charles Ralph Boxer... historiador

Professor emérito da faculdade de estudos portugueses do King’s Colledge de Londres perfila-se como o maior historiador da expansão marítima oriental portuguesa iniciada no século XV. Nasceu na ilha de Wight no dia 8 de Março de 1904 e faleceu em Londres no dia 27 de Abril de 2000, com 96 anos de idade. Descendia de uma família de tradição naval. Seu avô tinha sido oficial de marinha e Charles Boxer não conseguiu ingressar naquela arma devido apenas ao facto de usar óculos. Por isso acabaria por ingressar na academia do exército de Sandhurst concluindo o curso como segundo tenente em 1923. Durante alguns anos prestou serviço na Irlanda até ser designado em 1930 para o Japão a fim de servir como oficial interprete na missão militar inglesa naquele país. Em 1936 transitou para os serviços de inteligência militar em Hong Kong onde serviu até Dezembro de 1941 (data da fotografia) data em que os japoneses ocuparam aquele território. Ferido em combate esteve prisioneiro num campo de concentração (em Cantão) até ser libertado no final da guerra e enviado de novo em missão ao Japão em 1946 de novo como adido militar. Em 1947 desligou-se do serviço militar obtendo a regência da cadeira de estudos portugueses na Universidade de Londres.Condecorado pelo governo português com a grã cruz da Ordem de S. Tiago da Espada e Grã Cruz da Ordem do Infante publicou aos 18 anos de idade o seu primeiro estudo sobre a história de Macau sendo autor de mais de 350 trabalhos sobre a expansão portuguesa, espanhola e holandesa a Oriente na era moderna.
Apesar de não ser um académico na acepção formal do termo, começou a interessar-se sobre a expansão marítima portuguesa e holandesa enquanto serviu, nos primeiros anos no Extremo Oriente, depois de ter contactado com elementos civis e militares holandeses na Indonésia. Em 1926 publicou os seus primeiros artigos sobre o tema, mas seria em 1930 que escreveria o seu primeiro trabalho académico: uma tradução dos “Comentários de Ruy Freire de Andrade”. Nesse tempo nada, ou quase nada era conhecido sobre a saga dos portugueses, japoneses e holandeses no Extremo-Oriente, nos meios universitários de língua inglesa, mas também nos de língua portuguesa. Servindo-se do facto de ser um oficial dos serviços de inteligência da Grã Bretanha, Charles Boxer, maximizou o seu interesse pela história utilizando os seus contactos no Extremo Oriente, mas particularmente em Macau onde cultivou um conjunto de amizades junto dos círculos intelectuais macaenses, que lhe permitiram não só reunir um conjunto de informações de carácter histórico, mas também adquirir um acervo de documentos originais e livros de diversa índole que lhe permitiram reunir em pouco tempo uma biblioteca invejável sobre o tema geral da expansão europeia no Extremo Oriente que prosseguia. Após a sua captura pelos japoneses em 1941, a sua biblioteca foi considerada como tendo interesse de estado pelos japoneses, apreendida e enviada para Tóquio. Terminada a guerra, Boxer, graças à cooperação do governo britânico conseguiria reaver o seu espólio, excepto um livro, que não constou do documento de apreensão japonês. Esse livro, veio a saber depois, tinha ficado nas mãos de um oficial japonês e somente viria a recuperá-lo décadas mais tarde, já nos anos sessenta recompletando assim a biblioteca da sua juventude.
A nomeação de Charles Boxer para a regência da Cadeira Portuguesa de Camões no King´s College foi um evento memorável tendo em conta a sua falta de credenciais académicas. Todavia certo é que em 1947, Boxer seria nomeado para reger a faculdade sucedendo ao professor George Young, fundador da Faculdade e ao seu sucessor Edgar Prestage em 1947. Tratou-se de uma atitude inédita das autoridades universitárias do King´s College, tendo em conta que Boxer não possuía grão académico. Apenas tinha publicado uma obra e nunca tinha sido professor. Apesar disso, Boxer, não só era admitido como regente da cadeira de Prestage, como seria, em 1951, incumbido de reger o Departamento de Estudos Orientais e Africanos da universidade, que dirigiria até 1953.
Retirado do exército e dedicado à universidade, Boxer escreveu a primeira das suas grandes monografias intitulada: - “Fidalgos in the Far East”. Essa monografia constituiu uma súmula alargada e aprofundada dos trabalhos avulso que tinha escrito anteriormente e publicado em diversos jornais da especialidade. Logo a seguir publicou “The Christian Century in Japan” (1951) e no ano seguinte a obra “Salvador Correa de Sá and the Struggle for Brazil and Angola”(1952. “Os Holandeses no Brazil” seria a obra complementar que surgiria à estampa em 1957. “The Great Ship from Amagon” (A grande Nau de Macau) seria o seu estudo seguinte dedicado ao tráfico das sedas da China e da prata do Japão no século XVI que tinha como centro nevrálgico Macau e que surgiria em letra de forma em 1959. Na sequência dessa obra Boxer produziria um outro livro sobre a idade do ouro do Brasil em 1962, que continua por traduzir em língua portuguesa. Firmada a sua reputação em Inglaterra com a série de obras publicadas a que se fez referência Boxer seria naturalmente nomeado membro da Academia Britânica e o seu contributo requisitado por várias universidades nomeadamente da Holanda e dos Estados Unidos da América. Assim, passou a ser professor convidado da Universidade americana de Indiana (1967) e de Yale, onde regeria a cadeira de Estudos da Expansão Europeia Ultramarina (1969). Do ponto de vista pessoal, Charles Boxer viveu uma vida plena de aventuras tendo em conta o facto de ser um elemento dos Special Inteligence Service da Grã Bretanha. Foi essa condição que lhe permitiu, nomeadamente em Macau fazer amigos junto de um círculo de intelectuais macaenses dos anos 30, nomeadamente Jack Braga, Silva Mendes, Vicente Jorge e outros que contribuíram para que conseguisse testemunhos históricos e fontes documentais portuguesas do Extremo Oriente a que de outro modo nunca teria tido acesso. Segundo um dos seus biógrafos, Boxer foi tudo quanto se pode ser no domínio da história: “autor, biógrafo, editor, bibliógrafo, arquivista, catalogador tradutor e revisor”. Para além disso, a concepção de história de Charles Boxer ultrapassava qualquer ponto de vista pessoal preferindo transmitir factos partindo dos documentos originais a que tinha acesso, segundo outro dos seus biógrafos. Neste ponto porém é importante salientar que uma nova escola de historiadores contesta esse comentário historiográfico que, alegadamente apenas, tem em vista “absolver” Charles Boxer das suas posições “conservadoras. Esse ponto de vista é subscrito nomeadamente pelo historiador indiano Sanjai Subramanyan, que afirma que Boxer não representa mais do que uma velha escola de historiadores que relatavam a história baseados apenas nos documentos coloniais, sem cuidar de consultar fontes e documentos autóctones cujas línguas desconheciam. Saliente-se, todavia que, para além de dominar o inglês (sua língua materna), Boxer falava e lia japonês, português e holandês, embora não falasse fluentemente estas duas últimas. Todavia, saliente-se também, que conseguia ler manuscritos dos séculos XVI e XVII em português e holandês, faculdade que não se encontra ao alcance de muitos historiadores e que por vezes constitui apenas domínio de alguns paleógrafos.Para além das obras mencionadas, Charles Ralph Boxer escreveu também os seguintes livros e ensaios, entre outros: - O 24 de Junho. Uma façanha dos portugueses (1926); Relação da perda da nau “Madre de Deus” (1927); The Siege of Fort Zeeland and the Capture of Formosa from Dutch (1927); Subsídios para a História dos Português no Japão (1927-1928); A Portuguese embassy to Japan, 1644-1647 (1928); Notes on early European military influence in Japan (1931); European influence on Japanese sword fittings, 1543-1853 (1931); Dutch Seaborne Empira 1600 – 1800; Church Militant & Iberian Expansion, 1440-1770; Dutch Merchants & Mariners in Ásia, 1602-1795; From Lisbon to Goa, 1500-1750; Studies in Portuguese Maritime Enterprise; Portuguese Conquest & Comerce in Southern Ásia, 1500-1750; Portuguese Embassy to Japan (1644-1647); Portuguese Merchants & Missionaries in Feudal japan 1543-1640; Race Relations in the Potuguese Colonial Empire, 1415-1825.
Relativamente a este último livro mencionado de salientar que seria a obra que incorreria nas iras do regime de Salazar em Portugal e que levaria a que o governo português chefiado pelo então ditador (1931-1968) lhe retirasse as condecorações que lhe tinha anteriormente autorgado pela sua obra como historiador da expansão portuguesa ultramarina. Boxer seria no entanto reabilitado posteriormente à revolução de 25 de Abril de 1974 sendo-lhe não só restituídas as medalhas concedidas durante a vigência do Estado Novo como atribuído o novo tributo da Ordem do Infante pelo presidente Mário Soares em cerimónia solene realizada em Lisboa.
Texto da autoria de João Guedes, jornalista e pesquisador da história de Macau