Mostrar mensagens com a etiqueta personalidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta personalidades. Mostrar todas as mensagens

domingo, 9 de agosto de 2026

Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro / 盧伯德圓形地

A Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro fica junto à Fortaleza da Taipa e não é por acaso...
盧伯德圓形地
盧伯德: Transliteração fonética de Loureiro
圓形地: significa terreno circular/rotunda


Filho de José da Silva de Loureiro (1745-1820) e de Genoveva Flora Joaquina da Cunha (1753-1833) ambos nascidos e falecidos em Ponta Delgada, Pedro José da Silva Loureiro nasceu em Ponta Delgada (Açores) a 29 de Junho de 1792.
Chegou pela primeira vez a Macau, como guarda marinha, acabando por fazer quase toda a sua carreira militar no Oriente. Em 1824 foi promovido a 2.º tenente da Armada e a 1.º tenente em 1853, sendo reformado em capitão de fragata da Armada de Goa.
Foi durante alguns anos capitão do porto de Macau sendo encarregado pelo Governador Ferreira do Amaral de construir o Forte da Taipa, facto que marcou a ocupação definitiva daquela ilha. Foi também comerciante, sendo eleito almotacé da Câmara em 1827. Casou em Macau (S. Lourenço) a 12-04-1826 com Ana Rosa Inocência do Espírito Santo Pereira de Almeida. Tiveram 16 filhos. Quatro deles, Luís, Pedro, Francisco e Eduardo frequentaram o Seminário de S. José em 1840.
Morreu a 16 de Setembro de 1855 de "uma apoplexia fulminante". Era 1.º tenente da armada. Foi sepultado no Cemitério de S. Miguel.
Notícia no Boletim da Província de Macau, Timor e Solor a 22 de Setembro de 1855:
Necrologia.
No dia 16 do corrente ás 5 horas da manhã falleceu o 1o. Tenente da Armada Pedro José da Silva Loureiro, Capitão do Porto de Macau. Uma apoplexia fulminante o roubou a este mundo, e cobrio em um instante de pesado luto a sua extremosa e inconsolavel familia.
Era um portuguez estabelecido ha muitos annos em Macau onde o prendeu o amor, que sempre consagrou a sua carinhosa e triste esposa.
Excellente pai, empregou todos os meios ao seu alcance para educação de seus filhos, objecto de seus disvellos e do seu orgulho, e morreu aos 63 annos de idade, legando-lhes essa riquesa que nenhuma das vicissitudes do mundo pode jamais tirar.
Numeroso concurso de pessoas entre os quaes se viam as mais notaveis da Provincia, tanto nacionaes como estrangeiras, acompanharam o enterro ao cemiterio de S. Miguel, e uma guarda do Batalhão de Artilheria com a banda de musica do mesmo corpo, e commandada por um official de patente igual á do fallecido, lhe fez as honras funebras do estilo.
Foi sepultado as 6 horas da tarde.
Deos lhe conserve a alma em sua santa gloria, e seu corpo descance em paz.
Na edição de 6 de Outubro desse ano na mesma publicação a família publica:
D. ANNA ROSA LOUREIRO e suas filhas e filho agradecem a todas as pessoas, a quem o não tenham feito mais particularmente, a bondade, que tiveram, de assistir no funeral de seu muito presado esposo e pai Pedro José da Silva Loureiro, e esperam que esta falta de lembrança se considere unicamente devida ao estado de afflicção e desgosto em que ficaram por tam triste e inesperado acontecimento.
Macao 6 de Outubro de 1855.
Fortaleza da Taipa no séc. 21

A primeira filha do casal, Genoveva Rosa Joaquina do Espírito Santo Loureiro (1827-?) casou na capela da Residência do Governador com Isidoro Francisco Guimarães (1808-1863), governador de Macau (1851-1863), capitão de mar-e-guerra, do Conselho de S. M. F., e visconde da Praia Grande de Macau.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Vou ter saudades do palco"

A 17 de Julho de 2026 Jorge Silva apresentou pela última vez o Telejornal em português da TDM e despediu-se da televisão local ao fim de 40 anos de actividade profissional no território.
Natural de Angola, viveu em Portugal desde muito jovem. 
Em Portugal, Jorge Silva teve uma experiência de ensino na área e completou um estágio na RTP. Em 1983 chegou a Macau no âmbito de um acordo de cooperação entre a Universidade Nova de Lisboa e o Governo de Macau da altura tendo quatro finalistas do curso de Comunicação Social ingressado no Gabinete de Comunicação Social. Depois do GCS passou pelos jornais O Correio de Macau e O Oriente, antes de ingressar na Rádio Macau (onde o conheci e fomos camaradas de profissão). Em 1985 transitou para o canal de televisão onde se manteve até agora.
Artigo na edição de 31.7.2026 do jornal Ponto Final

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



sexta-feira, 1 de maio de 2026

Restaurante "Fernando" (Hac Sá): desde 1986

A história deste restaurante na ilha de Coloane (junto à praia de Hac Sa) remonta a 1978 , com umas instalações muito precárias. Começou por ser gerido por Saludes. Entre 1982 e 1986 o trepasse esteve a cargo do sr. Ricardo. A partir de 1986 - faz agora 40 anos - ainda com instalações bastante precárias passou a ser gerido por Fernando Gomes, natural dos Açores (Pico), sendo um dos restaurantes portugueses mais conhecidos do território. 
Frango no churrasco, sardinhas assadas, bacalhau na brasa, ameijoas à moda da casa, o jogo de matraquilhos e a esplanada no ambiente rodeado de árvores são os pontos fortes do "Fernando's" - 法兰度餐厅, que só fecha um dia por ano, a 1 de Maio.
Através da Agência Comercial Pico, Fernando foi quem introduziu a cerveja super bock em Macau, tornando-se 'famosos' os invólucros em esferovite para manter a bebida fria.
Na década de 1990 em alguns guias turísticos estrangeiros já se referia a fama do espaço: "One place not to be missed is the legendary Fernando's, Hac Sa Beach, Coloane" (...) "The good Portuguese food and a casual, beach-side atmosphere" (...) "Everyone in Hong Kong and Macau knows about Fernando's."
E não era para menos... Muitos clientes de Hong Kong vão de propósito a Macau só para tomar uma refeição à boa maneira portuguesa no Fernando de Hác Sá.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Curiosidades históricas VI - Bocage"

Gabriel Fernandes assina uma coluna intitulada "Curiosidades Históricas" no jornal "O Conimbricense" em 1895. Localize uma sobre Camões e outra sobre Bocage (1765-1805), que viveu em Macau entre Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, oriundo da Índia de onde desertou do cargo de guarda-marinha.  É a número VI que a seguir se transcreve:

"Curiosidades históricas VI - Bocage"
Manoel Maria de Barbosa Hedois du Bocage («Elmano Sadino»), vindo de Goa, por via de Surrate, (porto então de muito commercio) chegou a Macau em Julho de 1789.
Durante a sua estada nesta cidade, além da elegia feita á memoria do principe do Brazil D. José, fallecido em 11 de Setembro de 1788, e á qual se refere Rebello da Silva (a) compoz diversas poesias satyricas, taes como: O canto da Beba, Os sonetos contra certos moradores de Macau, etc., que ainda se acham ineditos*.
Deparando-lhe um protector no ouvidor Lazaro da Silva Ferreira e membro do conselho governativo, por morte do capitão geral Francisco Xavier de Mendonça Côrte Real, pôde o insigne poeta regressar a Lisboa, onde desembarcou em Agosto de 1790, vindo a fallecer em 21 de Dezembro de 1805 com 40 annos de edade incompletos.
Despachado guarda-marinha para o estado da India, por decreto de 4 de Fevereiro de 1786, entrou em Goa em 29 de Outubro subsequente, sendo nomeado tenente de infanteria da 5.ª companhia do regimento da praça de Damão em virtude da portaria do governador da India, Francisco da Cunha Menezes, de 25 de Fevereiro de 1789.
O seu poema satyrico a Monteigui, presume o escriptor indiano Filippe Nery Xavier ter sido feito ou na viagem para Macau, ou em Surrate, theatro das façanhas da sua heroina Anna Jacques Mondteigui ou Monteigui, natural da cidade de Damão e casada com o alferes Jacques Filippe, do mesmo appellido, por entre 1775 a 1782.
O referido escriptor Rebello da Silva, ignora a época em que o poeta naufragára, se foi á ida ou á volta de Macau, salvando a nado e recolhendo algumas poesias, estampadas depois no 1.º tomo das suas Rythmas. (b)
Lisboa. Gabriel Fernandes.
(a) Vide Memoria biographico-litteraria ácerca de M. M. B. du Bocage..., por Luiz Augusto Rebello da Silva.
(b) Ibidem Diccionario Bibliographico Portuguez (na parte respectiva).
Ilustração criada por IA a partir de desenho de 1850 de Joaquim Pedro de Sousa

O autor do artigo é José Gabriel Bernardo Fernandes*, nascido a 29 de Dezembro de 1848 em Macau (na Sé). Formou-se em Direito em Coimbra no ano de 1875. Empregado no Ministério dos Negócios da Fazenda, foi Conservador do Registo Predial em Angola e Juíz de Direito em Moçambique. Foi também jornalista e historiador, autor dos «Apontamentos para a história de Macau» (Lisboa, 1883), da «Relação dos bispos de Macau» (1884) e de «Jornalismo em Macau». Colaborou no «Jornal de Coimbra», no «Conimbricense» e no «Impulso às Letras», de Hong Kong. Morreu em 1914.
O pai era João Gabriel Fernandes, nascido em Bardez, Goa. Com os preparatórios do Seminário de Chorão e estudos preliminares da época, após Exame de Estado obteve Carta de Advogado junto da Relação de Goa (1845), com a provisão para advogar nas possessões da Ásia (1863) fixando-se em Macau onde foi Juíz da Paz e Síndico da Misericórdia e do Colégio de São José, bem como das Missões do vasto Padroado Português de Pequim, Nanquim e Singapura. Foi ainda Auditor de Guerra e Vogal do Conselho do Governo de Macau e Secretário do Governo. Em Macau foi um dos fundadores do semanário histórico e literário «Ta-Ssi-Yang-Kuo – Semanário macaense d´interesses publicos locaes, litterario e noticioso» e autor de um esboço biográfico sobre o macaense A.J. de Miranda. Retirou-se para Coimbra (1870/83) onde viria a morrer.
Sobre pai e filho basta utilizar o campo de pesquisa para procurar artigos publicados no blog.

* o poema sobre Macau é um retrato fiel de como era o território na época em que Bocage ali viveu (e onde tem o nome numa rua). Em breve publico.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

120 anos dos Salesianos em Macau

Este ano assinala-se o 120.º aniversário* da chegada dos Salesianos a Macau. A primeira expedição salesiana a chegar a Macau, em Fevereiro de 1906, era composta por seis pioneiros que lançaram as bases da obra de Dom Bosco na região. O grupo era liderado pelo Padre Luís Versiglia (director da missão) e incluía os padres Ludovico Olive e João Fergnani. Acompanhavam-nos três irmãos coadjutores, especialistas em artes e ofícios, que seriam essenciais para o ensino técnico: Feliz Borsio, Luís Carmagnola e Gaudêncio Rota. Juntos, estes seis missionários iniciaram o trabalho no Orfanato da Imaculada Conceição.
A iniciativa pertenceu ao Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, que buscava apoio especializado para a educação e formação profissional de jovens carenciados e órfãos no território.

O Pe. Joaquim Taveira da Fonseca foi um desses salesianos já na década de 1970 e é o protagonista do artigo (texto) da autoria de Raquel Fragata publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de Março/Abril de 2026. Suplemento 150 anos das Missões Salesianas - "1906, Macau, a primeira casa na China" que a seguir se reproduz:
Foram quatro frutuosos anos que o Pe. Joaquim Taveira da Fonseca trabalhou em Macau. Tinha regressado de Moçambique em 1975, onde serviu como Capelão Militar do Exército Português no período de transição para a Independência após o 25 de Abril, quando – depois de dois anos no Colégio dos Órfãos do Porto como diretor –, vai para Mogofores para completar o Curso de Matemática na Universidade de Coimbra. É o Provincial, Pe. José Maria Ferreira Maio, que o envia a seguir para Macau, onde fica como vice-diretor, professor de Matemática no Colégio Dom Bosco e professor de Filosofia na Escola Comercial de Macau, para portugueses.
Conheceu o Padre Gaetano Nicosia, o salesiano que humanizou a colónia de doentes de lepra na ilha de Coloane**. Do missionário salesiano, cujo processo de beatificação começou em 2025, o Pe. Taveira recorda “um asceta”. Diariamente, o Pe. Nicosia atendia a duas obras a seu cargo: a leprosaria em Coloane e uma creche perto do Porto de Macau. “Fiquei a saber que não comia. Não tinha tempo.” O Padre Taveira tentava fazê-lo passar pela comunidade salesiana, a pretexto de se querer confessar, e recebia-o com leite ou chá e uma sanduíche. “Um confessor fabuloso. Um homem de Deus. De uma dedicação, entrega e simplicidade absolutas”.
Nesses anos o Pe. Joaquim Taveira colabora também com uma coluna de opinião e a secção de Religião com “O Clarim”, o jornal de língua portuguesa mais antigo de Macau e ainda em circulação. O convite foi feito por D. Arquimínio Rodrigues da Costa, o último Bispo português de Macau, natural dos Açores, da ilha do Faial. Era diretor o Padre Manuel da Fonseca Moreira.
Nos quatro anos de missão, visitou Taiwan, a China, as Filipinas e o Japão. Regressou a seu pedido, devido ao estado de saúde do Pai. Antes da partida um grupo de mais de 50 amigos organizou um jantar surpresa de despedida e de agradecimento.
Leprosaria de Ka-Ho ca. 1960
Transcrição (da direita para a esquerda)
Linha superior:
典學開校學罪原無門澳日二月四年六零九一
Cerimónia de abertura da Escola da Imaculada Conceição de Macau, 2 de Abril de 1906.
Linha inferior:
照合生學與父神賀父神雷教主鮑門澳禮
Fotografia dos alunos com o Padre Horta, Padre Lei, o Bispo de Macau Dom João Paulino e outros.
Ao centro com a cruz peitoral está o bispo Dom João Paulino (1902-1918).  No topo há um retrato do Papa Pio X, pontífice na época 1903-1914. O retrato segurado por um dos alunos no centro da imagem é o de Dom Bosco, o fundador da congregação Salesiana.

* Os primeiros missionários salesianos para Meliapor e Macau partiram da Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim, a 23 de Novembro de 1905. A primeira missão salesiana em Macau iniciou-se a 13 de Fevereiro de 1906.

** Em 2025 teve oficialmente início o processo de Beatificação e Canonização do Pe. Gaetano Nicosia (1915-2017), missionário salesiano que viveu 48 anos na leprosaria da ilha de Coloane, em Macau.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Luís Gonzaga Gomes: cinquentenário da morte

Em Março último assinalou-se o cinquentenário da morte de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Nome incontornável da restrita galeria dos mais ilustres macaenses do século 20 foi escritor, sinólogo, tradutor, filólogo, historiador, musicólogo e professor.
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907, filho de Joaquim Francisco Xavier Gomes e de Maria de Conceição Gonzaga Gomes. A sua formação académica e intelectual foi moldada no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde teve como professores figuras influentes como o historiador José Maria Braga (Jack Braga) e o prestigiado Camilo Pessanha, que marcaram profundamente o seu interesse pela história e pela cultura oriental.
Após concluir os estudos, iniciou a sua vida profissional em 1928 como tradutor-intérprete oficial. A sua capacidade de ligação entre comunidades permitiu-lhe, entre 1932 e 1934, atuar como interlocutor em questões sensíveis da administração colonial. Em 1949, fundou o Círculo Cultural de Macau, tornando-se um pilar da dinamização artística do território.
Como docente no Liceu de Macau (onde antes fora aluno), foi mestre de várias gerações que viriam a destacar-se na vida pública e cultural de Macau, incluindo o advogado e historiador Jorge Cavaleiro e o intelectual Henrique de Senna Fernandes, que frequentemente o recordava como um mentor rigoroso e apaixonado pela alma macaense.
Entre 1951 e 1954, dirigiu a Biblioteca Pública e o Arquivo Histórico. Em 1960, assumiu a direção do Museu Luís de Camões, cargo que ocupou até à sua morte.
Morreu a 20 de Março de 1976, deixando um legado inigualável como o "intérprete" por excelência da história luso-chinesa.
Condecorações e distinções:
1958: Grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública (Portugal, 20 de janeiro).
1962: Cavaleiro da Ordem de São Silvestre Papa (Santa Sé, pela sua dedicação à comunidade católica e ensino).
1969: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique
Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.
Postumamente: Medalha de Valor de Macau, atribuída pelo Governo de Macau (Gov. Almeida e Costa) em reconhecimento ao seu serviço excecional.
Em 1977 o seu busto foi colocado numa sala do Museu Luís de Camões e em 1984, um outro busto foi colocado no Jardim de S. Francisco. Ambos da autoria do escultor italiano Oseo Leopoldo Acconci.
Dá ainda nome a uma rua e a uma escola em Macau.
Sendo um dos autores mais prolíficos do seu tempo publicou centenas de artigos na imprensa: Notícias de Macau, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Mosaico (revista do Círculo Cultural de Macau), etc...
Algumas das principais obras:
1941: Vocabulário Português-Cantonense
1942: Vocabulário Cantonense-Português
1942: Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo — Tradução para a língua cantonense da adaptação em prosa de João de Barros.
1945–1946: Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) — Tradução para português, a partir do cantonense, da obra dos mandarins Tcheng U Lám e Jan Kuong (séc. XVIII).
1950: Contos Chineses
1951: Lendas Chinesas de Macau (também referida apenas como Lendas de Macau)
1951: A Influência Portuguesa na Civilização Chinesa
1952: Chinesices
1952: Curiosidades de Macau Antiga
1953: Festividades Chinesas
1954: Arte Chinesa
1954: Efemérides da História de Macau
1957: Páginas de História de Macau (Primeiros volumes/ensaios)
1958: Noções elementares da língua chinesa
1959: Macau: Factos e Lendas
1959: A Mensagem de Fernando Pessoa — Tradução para a língua cantonense.
1964: O Estudo do Chinês em Macau
1966: Páginas de História de Macau (Edição consolidada)
1966: A Arte Musical em Macau
1967: Festas e Tradições Chinesas
1968: Notas sobre o Teatro Chinês
1969: As Religiões e os Cultos em Macau
1971: Bibliografia Macaense
1973: Demografia de Macau através dos Tempos
1973: Bibliografia Macaense (Edição/Actualização)
1975: Macau e a sua Gente

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

The principal festival with the Chinese is New Year's Day

The principal festival with the Chinese is New Year's Day. No one cares about business, and everyone is occupied in feasting. This day is considered by them as a fast day, which it is said was established in order to avoid cases of intoxication. Every man dresses in new clothes, and even those who live in extreme poverty appear on this day with something new.
Eight days before the New Year, nearly all the shops commence to decorate with new articles, such as artificial flowers, joss paper, etc., of different designs and colours, while in the streets are to be seen flowers in pots, toys, curiosities, and such-like things. These are all intended for sale. Here and there, too, are to be met with different groups of Chinese busily engaged in gambling. On the water, the boats are all gaily decorated with banners. The number of boats on this occasion is very great. Music and fire crackers are indispensable, both in the daytime and at night.
On the eve of the New Year, the concourse of people and their enthusiasm increase. The gambling multiplies proportionably, and there is no place where it is not to be seen. At night, both the marketplace and the harbour are rendered beautiful by immense illuminations, of course accompanied especially with music and the firing of crackers. The boats, when illuminated, produce a fine effect. The buying and selling are very extensive, but never fail to be accompanied, even at this happy season, by numerous thefts.
As soon as midnight of the last day of the year arrives, all the shops close and work of all kinds ceases. The festival continues for a greater or lesser number of days, generally not exceeding eight, and these are the days which the Chinese look upon as the principal ones. On the ninth day, when the shops begin to open for the ordinary business, there is again a feast which consists simply in firing crackers, burning joss paper, and so on.
The second day of the second moon is the day dedicated to the household gods. This feast is celebrated in various parts of the city by societies, and the expenses are borne by subscription. Each of these societies builds a tent in the locality chosen for the purpose, and in these tents there is always a goodly display of pictures. Music is played inside the tent and outside fire crackers are burnt at intervals. During the time of the feast, sacrifices are offered in the tent one after another. When many people meet there, a kind of firework is burnt. As soon as it falls, everyone rushes upon it, and he who picks it up first wins a prize and will be considered happy for the whole year. Some more of these fireworks or big crackers are burnt at intervals, and the parties who pick them up have the same interests as the first one.
The fireworks are all numbered and, consequently, the quality and value of each is indicated. Those who have picked them up are obliged to present similar ones for the same purpose. In order that no one of the party who has picked them up shall fail in fulfilling his obligation, the directors take and keep a memorandum of the names of the individuals. Underneath the name of each is indicated the number he has to supply. These acts are only practised by those of the common classes. The rich perform their sacrifices in their own houses, but many of them appear at the above festival as spectators.
The festival usually lasts for two or three days and ends with the burning of another kind of firework, which takes place on the night of the last day. Figures are placed on it which are moved by the fire, representing dramatic characters. The title of the piece is represented in sacred characters and the firework is composed of as many parts as there are acts in the theatrical performance which has to be imitated. The first act is represented on the lower part of the firework and, as soon as it comes to an end, the second act appears, and so on until all the acts are finished.
The feast of the goddess Kuonyn is celebrated on the nineteenth day of the same moon. This feast consists of sacrifices performed in the houses, at sea, and in joss houses; and on this occasion there is always a great quantity of food offered, in addition to small pieces of gilt and silver paper.
On the last days of the same moon, which is the beginning of Spring, the Chinese commence to make sacrifices over the gravestones of their deceased relations. These sacrifices usually last more than twenty days. Victuals are placed near the gravestones, and paper clothes and small pieces of gilt and silver paper are burnt. When the sacrifices are on the eve of terminating, a part of the food is given away to the poor, who on these occasions generally muster in great numbers.

Excerto de "Manners & Customs of the Chinese at Macao", publicado em Xangai em 1877. Trata-se da versão em inglês (tradução de Rufino Francisco Martins) da obra publicada dez anos anos em Hong Kong - "Os Chins de Macau" - da autoria de Manuel Castro Sampaio.  

Este livro é considerado um dos primeiros e mais detalhados estudos etnográficos sobre a comunidade chinesa em Macau escritos por um português. Nele, Sampaio descreve com rigor os costumes, a religião, as festividades e a organização social da população local.
O livro inclui esta "Planta Topographica do Bazar de Macau"

Manuel de Castro Sampaio nasceu no Porto a 28 de Agosto de 1827. Com uma formação académica superior, licenciou-se em Medicina, o que lhe conferiu um rigor científico e uma capacidade de observação que marcariam todo o seu percurso profissional e intelectual no Oriente. Assentou praça no Exército em 1845 e três anos depois partiu para Macau em 1848, integrando o quadro de saúde do Ultramar.
Ao longo da sua estadia em Macau, Sampaio desenvolveu uma carreira multifacetada. No plano militar e administrativo, ascendeu ao posto de capitão e exerceu cargos de grande responsabilidade, como o de Secretário da Junta da Fazenda. O seu prestígio intelectual valeu-lhe o reconhecimento internacional, tendo sido distinguido como sócio-correspondente da Real Sociedade Asiática de Londres (Royal Asiatic Society), uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo dedicadas ao estudo das culturas orientais.
No campo das letras teve um papel preponderante na imprensa de Macau sendo editor a colaborador activo do periódico Ta-Ssi-Yang-Kuo (Arquivos do Extremo Oriente), iniciado em 1863. Colaborou ainda com a Gazeta de Macau e o Echo do Povo. Ainda em Portugal fundara o Voz do Alentejo.
Entre 1871 e 1873 foi Governador de Timor, um mandato onde se empenhou na organização administrativa e na melhoria das condições de saúde pública. 
Após décadas de serviço no Oriente, Manuel de Castro Sampaio regressou a Portugal, vindo a morrer em Lisboa, a 12 de outubro de 1875.

Para além dos livros já referidos foi ainda autor de: 
Pobreza envergonhada (Valença, 1852); Ensaios Poeticos (1858); Compendio de hygiene popular – tradução livre do texto de D. Francisco Tamires Vaz, (Elvas, 1860); Victimas de uma paixão (Lisboa, 1863); Memorias dos festejos realizados em Macau no fausto nascimento de S. A. o sr. D. Carlos Fernando (Macau, 1864); Compendio de Ortographia (Macau, 1864).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Flora Cochinchinensis" de João de Loureiro (1717-1791)

O ananás, fruto nativo da América do Sul, nomeadamente do Brasil, foi introduzido na China pelos portugueses através de Macau no final do século XVI, sendo o ano de 1594 a data histórica mais consensual para este marco por via dos registos documentais chineses. Após terem descoberto a fruta no Brasil, os navegadores portugueses transportaram as plantas nas suas embarcações para outros destinos. Devido à resistência da planta, esta sobreviveu às longas viagens marítimas, passando primeiro por entrepostos em África e depois em Goa, na Índia, antes de chegar ao enclave de Macau. A partir deste ponto estratégico, a planta espalhou-se rapidamente pela província de Guangdong e por todo o sul da China, nomeadamente em Fujian, onde o clima subtropical favoreceu uma adaptação perfeita. Existem referências em crónicas chinesas da dinastia Ming que descrevem uma "fruta estranha com pele de escamas e uma coroa de folhas" vinda das mãos dos "estrangeiros do mar" (os portugueses). 
Em chinês, a fruta é chamada de Feng Li (鳳梨) - significa "pêra fénix", devido à semelhança da sua coroa de folhas com as penas da cauda de uma fénix e à textura da sua polpa - e também de Boluò (菠萝), nome mais habitual em Macau e que aparece em textos médicos e botânicos pouco tempo depois dessa introdução.
Além do ananás, os portugueses foram responsáveis pela introdução na China do milho, batata-doce, amendoim, malagueta, tabaco...
Planta do Ananás: ilustração criada com recurso a IA

No livro publicado em 1790 (2 volumes em latim) - "Flora cochinchinensis: sistens plantas regno Cochinchina nascentes, quibus accedunt aliae observatae Sinensi imperio, Africa Orientali, Indiaeque locis variis, omnes dispositae secundum systema sexuale Linnaeanum" o padre jesuíta João de Loureiro - viveu em Macau entre 1779 e 1782 - antes de regressar a Lisboa, classifica a planta como Bromelia ananas.
João de Loureiro nasceu em Lisboa em 1717. Aos 15 anos ingressou na Companhia de Jesus, partindo pouco depois para as missões no Oriente. Após passagens por Goa e Macau, estabeleceu-se em 1742 na Cochinchina, região que hoje corresponde ao centro e sul do Vietname, onde permaneceria durante 36 anos. A sua permanência prolongada num período de instabilidade política deveu-se ao seu valor prático para a corte local, onde serviu como matemático e, sobretudo, como médico. Foi a necessidade de curar sem acesso a fármacos europeus que o levou a estudar profundamente a flora local e a medicina tradicional, tornando-se um botânico autodidata de excecional rigor.
Em 1777/79 Loureiro retirou-se para Macau, permanecendo no território até 1781. No regresso a Lisboa ainda passa por Moçambique onde continua a recolher plantas. A espantosa colecção que reuniu despertou o interesse da comunidade científica europeia.
A sua obra principal, a Flora Cochinchinensis, foi publicada em 1790 (um ano antes de morrer)  pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Escrito em latim e organizado segundo o sistema sexual de Lineu, o livro descreve mais de mil e duzentas espécies, muitas das quais desconhecidas na Europa, como certas variedades de citrinos e plantas medicinais asiáticas. 
MONOGYNIA. GENUS I. BROMELIA.
Charact. Gener. Cal. 3 - fidus, superus. Petala 3 : squamâ nectariferâ ad basim. Bacca 3 - locularis. Lin. syst. pl. G. 427.
Sp. 1. BROMELIA ANANÁS. v. Thái Thom. Differ. spec. Brom. foliis ciliato-spinosis: spicâ comosâ. Lin. sp. 1. Hab.; & notæ. Caulis 1 - pedalis, perennis, crassus, teres, erectus, foliis ad basim imbricatus, fructu magno, solitario terminatus. Folia 3 - pedalia, subulata, margine utrâque spinosa, canaliculata, crassa, cinereo-glauca, glabra, reclinata. Bacca composita, 8 pollices longa, cylindracea, saepe sub-conica, ovata, aut subrotunda, diametro 5 - pollicari, rubra, squamosa. Flores nitidè purpurei, singulis baccae squamis singuli adnati, supra medium exerti, ante maturescentiam baccae decidui. Cal. 3 - fidus, minimus. Corolla oblonga, campanulata, 3 - petala, in acutum definens. Filamenta 6, tenuia receptaculo inserta. Stigmata 3: stylo profundè 3 - sulcato, & in tres facilè divisibili. Baccae partiales inferae, oblongae, coalitae, succosae, odorae, dulcissimae, sub-acidae, sapidissimae, salubres, 1 - loculares: seminibus tribus, longiusculis.
Habitat in magnâ copiâ in agris, & hortis Cochinchinae, ubi, quamvis optima, vili pretio venditur, praecipuè in provinciâ Doung-nai ad decimum gradum latitudinis Borealis. Anassa. Rumph. Amb. l. 8. cap. 41. tab. 81. Ananás. Tournef. Inst. p. 653. tab. 426, 427, 428. Acosta. Arom. p. 44. Virtus: fructus. Diuretica, Stomachica. Ex fermentatâ fit vinum, & hujus spiritus, sapidum quidem, sed minus salubre. Varietas Bromeliae occurrit, in Cochinchinâ dicta Thom nép, cujus fuetus sapore non inferior, in maturescentiâ permanet viridis, & pulpa alba, sed specie non differens.

MONOGYNIA (Uma só estames/estilete). GÉNERO I. BROMELIA.
Características do Género: Cálice trilobado, superior. 3 Pétalas: com escama nectarífera na base. Baga com 3 lóculos. (Ref. Linnaeus).
Espécie 1. BROMELIA ANANÁS. Nome vulgar: Thái Thom. Diferença da espécie: Bromélia de folhas com espinhos ciliados: espiga com penacho. Habitat e Notas: Caule de 1 pé de altura, perene, grosso, cilíndrico, ereto, com folhas sobrepostas na base, terminado por um fruto grande e solitário. As folhas têm 3 pés de comprimento, em forma de sovela, espinhosas em ambas as margens, sulcadas, grossas, de cor cinza-azulado, lisas e reclinadas. A baga é composta, com 8 polegadas de comprimento, cilíndrica, frequentemente subcónica, oval ou arredondada, com 5 polegadas de diâmetro, vermelha e escamosa. As flores são de um roxo brilhante, cada uma ligada a uma escama da baga, projetando-se acima do meio, caindo antes da maturação do fruto. Cálice muito pequeno. Corola oblonga, em forma de sino, com 3 pétalas terminando em ponta. 6 filamentos finos inseridos no recetáculo. 3 estigmas: estilete profundamente sulcado em 3 e facilmente divisível em três partes. As bagas parciais são inferiores, oblongas, fundidas, suculentas, perfumadas, muito doces, ligeiramente ácidas, de sabor muito agradável, saudáveis, com 1 lóculo e três sementes compridas.
Habitat: Em grande abundância nos campos e hortas da Cochinchina [atual Vietname], onde, embora de excelente qualidade, é vendido a preço baixo, especialmente na província de Dong Nai, aos dez graus de latitude Norte. 
Referências: Anassa (Rumphius), Ananás (Tournefort), Acosta (Aromatum et Medicamentorum). 
Virtudes: Do fruto: Diurético e estomacal. Do fruto fermentado faz-se vinho e um espírito (destilado), saboroso, mas menos saudável. 
Variedade: Ocorre uma variedade de Bromélia, chamada na Cochinchina de Thom nép, cujo fruto não é inferior em sabor, permanece verde na maturação e tem a polpa branca, mas não difere na espécie.

Nota: Entre as várias espécies da flora de Macau que João de Loureiro classificou, aqui ficam alguns exemplos: Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"...
Terá por certo recorrido ao Horto dos Jesuítas/Horta da Companhia de Jesus, junto ao colégio de S. Paulo. Na toponímia local chegou a a existir a Rua da Horta da Companhia, actual Rua de D. Belchior Carneiro.

Curiosidade: 
A palavra ananás deriva de "nana" - termo nativo Tupi - que significa "fruto excelente".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

John MacDonald: 1936-2026

Morreu John Macdonald o lendário piloto britânico de automóveis e motociclos, sediado em Hong Kong, frequentemente apelidado de "Rei de Macau". É o único piloto a vencer as três principais categorias no Circuito da Guia em quatro e duas rodas: o Grande Prémio de Macau (1965, 1972, 1973, 1975), a Corrida da Guia (1972) e o Grande Prémio de Motociclismo (1969).
O anúncio da morte foi feito nas redes sociais pelo amigo Eli Solomon, historiador e escritor radicado em Singapura: "É com profunda tristeza que informo o falecimento de John Macdonald no domingo, 25 de Janeiro, aos 89 anos, após uma longa doença." 
Ainda segundo Eli, "a sua mente permanecia tão lúcida como sempre, e ele e Angus Lamont continuaram a trabalhar em King of Macau até ao final do ano passado", pelo que espera-se que o livro "King Of Macau" seja publicado nos próximos meses.
Nascido em 1936 em Inglaterra, John MacDonald começou por correr em motos em 1957 no Circuito de Silverstone . Em 1962 participou no Rali da África Central e no ano seguinte no Rali Internacional da Escócia, num Land Rover. Nesse ano de 1963 mudou-se para Hong Kong tendo ingressado na polícia local.  Na então colónia britânica foi proprietário da Camlex Garage, em Kowloon.
Em 1964, participou pela primeira vez no Grande Prémio de Macau (automóveis) terminando em 6º lugar. No ano seguinte voltou a participar e saiu vitorioso. Em 1967 o Grande Prémio de Motos de Macau passou a fazer parte do GP e MacDonald alinhou numa Yamaha tendo desistido na segunda volta com o motor partido. Em 1972 conquistou a vitória na prova rainha do GP e na primeira edição da Corrida da Guia.  Emm 1973 volta a vencer o Grande Prémio de Macau ao volante de um Brabham BT40. Em 1975 ganhou o seu quarto e último Grande Prémio de Macau conduzindo um Ralt RT1. A última participação ocorreu em 1976.
XVI GP 1969. Brabham FVA 

Em 1983 J. M. deixou Hong Kong e mudou-se com a mulher para Andorra. Em 1992, no 25º aniversário do GP Motos, John regressou a Macau fazendo parte da parada comemorativa ao volante da ‘velhinha’ Yamaha 250. Os últimos anos foram vividos nas Maurícias.
Em 12 anos de carreira John Macdonald venceu mais de 100 corridas e mais de uma dezena de Grandes Prémios: para além das vitórias em Macau, foi vencedor na Malásia, Filipinas, Singapura e Indonésia.
Macau é a grande montra da sua carreira como piloto. Foi o primeiro e único a ganhar tanto o Grande Prémio de Macau de duas como de quatro rodas e é também o único piloto que venceu o Grande Prémio de Macau, o Grande Prémio de Motos de Macau e a Corrida da Guia.
John MacDonald (born May 27, 1936 in Worcester) is a racing car driver and a motor-cycle racer of Hong Kong. He was originally from England, where he started his career racing motorcycles, then cars until he served at the National service. He then lived in Hong Kong and raced as a competitor of Hong Kong, where he owned a garage business. 
He is only person who won all international races of Macau; Macau Grand Prix (1965, 1972, 1973, 1975), Macau Motorcycle Grand Prix (1969) and Guia Race (1972). Also he is the most Macau Grand Prix winner with 4 wins and the first winner of the Guia Race in 1972. 
John Macdonald no Grande Prémio de Macau:
Estreia e Primeiros Sucessos: Estreou-se em 1964, conquistando a primeira vitória absoluta em 1965, ao volante de um monolugar Lotus 18.
Versatilidade (Motos): Participou na primeira edição do GP de Motos (1967), vindo a vencer a prova em 1969.
Domínio em 1972: Venceu o Grande Prémio com 30 segundos de vantagem e conquistou também a primeira edição da Corrida da Guia (Mini Cooper S).
Recordista: Em 1973, tornou-se o primeiro piloto a somar três vitórias no Grande Prémio, estabelecendo o recorde da volta.
Despedida: Alcançou a sua quarta e última vitória no GP em 1975, despedindo-se do circuito em 1976.
No total, MacDonald somou seis vitórias no Circuito da Guia, cimentando o seu nome na história do automobilismo em Macau.
Espaço "John MacDonald" no Museu do Grande Prémio de Macau: estátua de cera, réplica do Austin Mini Cooper S com que venceu a Corrida da Guia em 1972, e da Yamaha TD2C.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

D. Frei Hilário de Santa Rosa

Em ano de jubileu da Diocese de Macau (1576-2026) recordo D. Frei Hilário de Santa Rosa, o 13º Bispo de Macau (1739-1752).
Nascido em Lisboa a 1 de Março de 1693, D. Frei Hilário de Santa Rosa professou na Ordem Menor de S. Francisco (Arrábida), sendo nomeado pelo rei D. João V bispo de Macau a 11 de Fevereiro de 1739 e confirmado no cargo a 19 de Dezembro de 1740. 
Só a 14 de Março de 1742 embarca em Lisboa na nau S. Pedro e S. João - comandada pelo Capitão de mar-e-guerra João Pereira de Carvalho - juntamente com 4 jesuítas (um deles o Padre Montanha) e dois franciscanos, Fr. Albino de Assunção e Fr. José de Jesus Maria, este último autor da obra Azia Sinica e Japonica. Chegou a Macau no final de 1742 e no ano seguinte foi nomeado provedor da Santa Casa da Misericórdia da cidade. Consta que do rei terá recebido meios para "comprar residência" pois "os seus antecessores as não tinham". 
O novo bispo chegou a Macau a 5 de Outubro (ou Novembro consoantes as fontes) de 1742. 
Na "Relação dos Bispos de Macau", da autoria de Gabriel Fernandes, publicado em 1886 no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, afirma-se que "entrou em Macau a 5 de outubro de 1742 tomando posse em 17 do mesmo mez  (...) e foi provedor da santa casa da misericordia da dita cidade em 1743. Governou o bispado com muita prudencia sabedoria e zêlo apostolico."
Igreja e convento de S. Francisco: 1ª metade do século 19
Aguarela da autoria de George Chinnery

Num documento da época pode ler-se: "De bordo em distancia de sete legoas, tendo a Nau dado fundo com vento contrario defronte da Ilha dos Ladroens, escreve S. Exa. ao guardião de S. Francisco avizando-o que no seu Convento inteiramente se dezejava recolher, e como chegasse primeiro a bordo hum escaler, ou escucha dos Padres da Companhia a buscar para terra quatro Padres seus que vinhão no mesmo navio, persuadido por elles S. Exa. se embarcou também, e por ser ja tarde quando chegarão pernoitamos todos no Collegio de São Paulo, adonde S. Excia. foi com todo o applauzo recebido, sem que a tarde e a noite fosse impedimento para o Governador desta Praça, Manuel Pereira Coutinho (1738-1743), lhe ter prevenido na praia uma companhia de soldados, e o seu Palanquim que não aceitou por hir com os Padres; ao mesmo tempo se deu salva de artelharia. No dia seguinte e sedo se recolheu occulto ao Convento de S. Francisco, adonde foi comprimentado de todas as Relligioens, Clero, Senado e Nobreza desta Cidade. Esteve nelle perto de três semanas primorosamente assistido, em quanto se lhe preparavão casas para residir".
Retrato de Frei Hilário de  Santa Rosa 
Portugal, c. 1740/42 (autor desconhecido)
Óleo sobre tela 147 x 103 cm 
Museu de São Roque (Lisboa) 

Durante a sua prelatura destacou-se pelo restauro da Catedral de Macau, pela criação de um fundo para o funcionamento do Cabido da Sé e pela defesa dos direitos das comunidades chinesas e timorenses, insurgindo-se contra o negócio das muichais, crianças chinesas retidas como criadas, conhecidas como "Atai" (rapaz) e "Amui" (rapariga).
Numa representação ao rei em 1747 dá conta que os habitantes de Macau tinham na sua posse "timores furtados, enganados, comprados e trocados por fazendas, fazendo-os escravos" (...) e o mesmo "com as chinas suas naturais, comprando-as em pequenas por limitado preço (dizem que para as fazer cristãs) e depois de baptizadas e adultas as cativam e reputam suas escravas por 40 anos, sem lei que permita, comprando-as, vendendo-as e dando-lhes (ainda com ferros) como escravas, bárbaros castigos". A abolição desta escravatura só ocorreria em 1758.
D. Frei Hilário partiu de Macau para Lisboa em 1749 e pediu resignação no ano seguinte tendo esta sido aceite em 1752. Retirou-se para o Convento de Mafra onde veio a morrer a 30 de Março de 1764, jazendo em campa rasa na Capela do Campo Santo, no referido convento. 
Na colecção do Palácio de Mafra existe o seu anel episcopal, em ouro, com ametista oval facetada, guarnecida por 24 minas nova. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Rodrigo Leal de Carvalho: 1932-2026

Em comunicado de dia 24 último o Supremo Tribunal de Justiça anunciou a morte de Rodrigo Leal de Carvalho, 93 anos, personalidade que viveu cerca de 40 anos em Macau onde se destacou no desempenho de várias funções e como autor de vários romances cuja acção decorre no território na primeira metade do século 20
Nascido na Praia da Vitória, na Ilha Terceira, Açores, a 20 de Novembro de 1932, Rodrigo Leal de Carvalho viveu parte da infância também em Trás-os-Montes e no Algarve. Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa, em 1956, ingressando de seguida na magistratura. Começou por trabalhar como delegado-interino na Ilha do Pico e depois em S. Tomé. Em 1959 foi para Macau - como Delegado do Ministério Público - "data da minha primeira chegada à Ponte 16 do Porto Interior, no Ferry Tai Loy". Ali viveu até 1963 quando colocado na Guiné como Juiz de Direito. Nessa função regressaria a Macau, onde viveu até 1971. Passou depois por Angola e Moçambique sendo promovido a Desembargador.
Evento em Macau: dança do dragão

De volta a Lisboa fez parte da Direção dos Assuntos Jurídicos do Ministério do Ultramar e em 1976 regressou mais uma vez a Macau como Procurador da República, cargo que entretanto tinha sido criado no âmbito do Estatuto Orgânico do Território (Procurador-Geral Adjunto).
Em 1995 foi nomeado Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e no ano seguinte tornou-se Presidente do Tribunal de Contas de Macau, cargo que ocupou até à transferência da Administração de Macau para a República Popular da China, regressando a Portugal em 1999.
Na vila Tay Yip (pousada) em 1965.
No grupo para além de RLC, está Henrique de Senna Fernandes
"(...) julgo reconhecer tratar-se de um almoço na Villa Tay Yip de saudosa memória, a quando da visita do Inspector Judicial Ferreira Semedo" . RLC em e-mail de 2011


Em Macau Rodrigo Leal de Carvalo foi ainda curador da Fundação Macau e membro do Conselho Universitário de Macau.
Em 1986 foi agraciado pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito. Em 1993 foi galardoado pelo IPOR com o Prémio Camilo Pessanha ("Requiem por Irina Ostrakoff" que seria publicado em chinês em 1999). Em 1998 recebeu a Medalha de Valor do Governador de Macau.

Excertos de uma entrevista que fiz a RLC - quando este morava nos Açores - publicada no JTM a 9.10.2009:

- Como surge a oportunidade de rumar até Macau?
Por Vontade própria. Depois de servir em São Tomé e Príncipe, como Delegado do Procurador da República, pedi a transferência para Macau.

- Esteve quase 40 anos em Macau, de 1959 a 1999, com alguns interregnos. Como era Macau quando chegou?
Não é possível, nos limites de uma simples resposta em âmbito de entrevista, dar uma ideia de Macau nessa época. Era uma cidade serena, meio sonolenta, com o aspecto físico misto de Oriente e Ocidente, de sabor quase mediterrânico – o que teria imediatamente a seguir à IIª guerra mundial. A par de algumas Avenidas novas e bem traçadas (Av. Da República, Horta e Costa, Ouvidor Arriaga, Sidónio Pais) com vivendas caras, algumas de luxo, mantinha-se a cidade antiga, a “cidade cristã”, com amplos casarões de godão e sobrado, a par de outras mais modestas. E, espalhando-se entre as vertentes norte das colinas da Barra/Penha, e do Monte e o Porto Interior, o casario pobre do Bazar – o bairro predominantemente chinês. E entre árvores de pagode seculares os templos chineses ombreavam sem conflito com as igrejas católicas.
O mosaico demográfico e social era, pelo seu lado, colorido e heterogéneo. A par de uma comunidade chinesa predominante (calculada em 98% da população) proveniente de várias regiões da China (Kwangtung, Fukien e outras); os restantes 2% dividiam-se entre portugueses de Macau, portugueses da Metrópole (ou reinois) e com menor expressão demográfica ou social, elementos de outras etnias, origens ou nacionalidades – ingleses, americanos, russos “brancos” (refugiados da Revolução bolchevique ) paquistaneses e indianos, australianos, filipinos, malaios, indonésios, etc. etc.
A vida económica, então de reduzida expressão, estava essencialmente na mão de chineses; a vida político-administrativa era feudo dos portugueses – os lugares de chefia, na sua maioria, preenchidos por reinois, os quadros médios e inferiores por reinois e macaenses.
As relações sociais eram no geral harmoniosas e desenvolviam-se, em regra, adentro das respectivas comunidades. Em resultado das dificuldades da língua, o relacionamento entre a população portuguesa metropolitana (que não dominava o chinês) e a chinesa que não falava português, era muito reduzido – limitava-se quase só a contactos de ocasião em cerimónias oficiais, com ajuda de intérpretes, a menos que falassem inglês que era na verdade a língua franca da região. Já os contactos entre chineses e macaenses eram possíveis e quotidianos.
Não obstante estas limitações, a vida social era muito animada quer entre os portugueses (macaenses e metropolitanos) quer entre a população chinesa, seguindo todavia, modelos diferentes: enquanto os portugueses gostavam de receber nas próprias casas, os chineses e um considerável número de macaenses preferiam reunir-se em restaurantes, à volta de um Yam-cha ou de jantar, precedido de intermináveis jogos de ma-cheok. (...)

- Caracterize, comparando, as décadas de 60, 70, 80 e 90...
Anos 60:
1ª Metade: A sonolência e o preguiçoso despertar de Macau; e para mim, a surpresa e o encantamento da descoberta do Oriente.
2ª Metade. O choque traumático da Revolução Cultural.
Anos 70:
O reajustamento político às novas realidades sociais e políticas; O desenvolvimento económico e início da descaracterização da cidade. Gradual diminuição da importância das comunidades portuguesas no panorama social de Macau.
Anos 80:
Consolidação do desenvolvimento económico e destruição de grande parte do património arquitectónico de Macau. Globalização social. Conturbação política entre a Administração e a comunidade portuguesa macaense. Início dos grandes empreendimentos.
Anos 90:
A reposição da paz social. Consolidação dos grandes empreendimentos e intenso desenvolvimento turístico e económico de Macau. Inquietação da população portuguesa – e não só - sobre o seu e sobre o futuro político de Macau. A preparação para a despedida. O adeus a Macau.

Obras literárias:
Requiem por Irina Ostrakoff (1993); Os Construtores do Império (1994); A IV Cruzada (1996); Ao Serviço de Sua Majestade (1996); O Senhor Conde e as suas Três Mulheres (1999); A Mãe (2000); O Romance de Yolanda (2005); As Rosas Brancas de Surrey (2007).