Mostrar mensagens com a etiqueta língua. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta língua. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas, da autoria do chantre António André Ngan.

Nas imagens 6 livros (de poucas páginas) de edições entre 1963 e 1982 da Imprensa Nacional de Macau.



segunda-feira, 22 de junho de 2026

"Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau"

Composto por três volumes, "Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau", é um novo dicionário do crioulo de Macau, o patuá, da autoria do investigador português Raul Leal Gaião.
A obra foi publicada com o apoio da Universidade de Macau e apresentada no início do 2.º Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa.
O patuá é um sistema linguístico criado pela comunidade luso-descendente de Macau ao longo de 400 anos. Tem o português como base, mas mistura-o com malaio, cantonense, inglês e espanhol. Segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o patuá está "gravemente ameaçado de extinção".

domingo, 31 de maio de 2026

Dicionário Chinês-Português /中 葡 字 典 : 1964

Impresso na Imprensa Oficial de Macau entre 1962 e 1964 este "Dicionário Chinês-Português /  中 葡 字 典" tem a particularidade de ser dedicado pelo Governo de Macau a Sun Iat Sen e incluir uma breve história de Macau.


中 葡 字 典
中 (Zhōng): Abreviação para China ou língua chinesa.
葡 (Pú): Abreviação para Portugal ou língua portuguesa (derivado de 葡萄牙).
字 典 (Zì diǎn): Significa literalmente Dicionário




terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Centenário do nascimento de Graciete Batalha

A 30 de Janeiro último assinalou-se o centenário do nascimento de Graciete Batalha. No blog podem ser consultadas várias publicações - usar campo de pesquisa. 
Aqui fica um resumo da vida e obra da professora nascida em Leiria num artigo do Dicionário Temático de Macau, Volume I, Universidade de Macau, 2010, p.172. e sobre a qual, em 1992, aquando da morte, monsenhor Manuel Teixeira, na coluna "Grãozinhos de Bom Senso" que publicava na Tribuna de Macau escreveu: "esta terra perdeu alguém que amava Macau, conhecia Macau, vivia para Macau, trabalhava por Macau e honrou Macau".
"Língua de Macau", INM, 1974

Graciete Agostinho Nogueira Batalha nasceu em Leiria, em 30 de Janeiro de 1925. Concluiu, em 1949, o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O facto de, em 1949, ter casado com José Marcos Batalha, natural de Macau, determinou que a sua actividade profissional se desenvolvesse em Macau, inicialmente, na Escola Primária Oficial. De 1958 a 1959, foi leitora Honorária de Português, no Department of Modern Languages, da Universidade de Hong Kong, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesas. A partir de 1962, trabalhou como professora no Liceu Nacional Infante D. Henrique, em Macau. Exerceu ainda a função de Directora da Escola do Magistério Primário. Para além da actividade docente, colaborou em diversos periódicos de Macau, jornais e revistas, sobre temas de literatura portuguesa, educação e ensino do Português. Toda a sua actividade, principalmente a actividade docente, aparece reflectida no seu livro de memórias Bom Dia S’tôra (1991), pelo qual lhe foi concedido o prémio IPOR (Instituto Português do Oriente). 
 O português falado e escrito pelos chineses de Macau. ICM, 1995

Foi sobretudo ao dialecto macaense que dedicou a maior parte da sua investigação, exposta em conferências, comunicações e em diversos artigos publicados: “Aspectos da sintaxe macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “Aspectos do vocabulário macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “A contribuição malaia para o dialecto macaense” (Boletim do Instituto Luís de Camões, 1965); “Língua de Macau: o que foi e o que é” (Revista de Cultura, 1994); “Situação e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Ásia Oriental (Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia)”, (Actas – Congresso sobre a Situação Actual da Língua Portuguesa no Mundo [Lisboa, 1985-1987]); “Estudo actual do dialecto macaense” (Revista Portuguesa de Filologia, 1958). No Glossário do Dialecto Macaense: notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) e no Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense: novas notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) reuniu a herança linguística dos portugueses de Macau. 
No Glossário, Batalha inclui os termos macaenses “de criação ou importação recente, as palavras antigas, mas ainda usuais, as que se ouvem apenas a determinada geração, a mais idosa, e finalmente as que nem mesmo os mais velhos já empregam, que por vezes inteiramente desconhecem, ou de que só se recordam, nem sempre com exactidão, por as terem ouvido aos seus avós”. 
Para a recolha de termos antigos, Batalha valeu-se dos textos em crioulo, nomeadamente de Marques Pereira, publicados na revista Ta Ssi-yan Kuo (Daxiyangguo 大西洋國) e de Danilo Barreiros, publicados na revista Renascimento, e ainda de conversas ocasionais com pessoas idosas, e através de inquéritos. O Glossário evidencia os termos usados no crioulo macaense, os termos arcaicos da língua portuguesa, a influência malaia, indiana, japonesa, a influência chinesa e inglesa mais recentes, e que estão presentes no falar macaense.
Nota: imagens não incluídas na obra referida

domingo, 3 de dezembro de 2023

"Língua Sínica": 1865

Língua Sínica
Intérpretes
Julgou o governo ser necessario que em Macau attenta a sua situação, as frequentes relações que as suas auctoridades teem com as do imperio chinez e a especialidade da sua população, haja um corpo de interpretes da lingua sinica apto para o exercicio das funcções que lhe forem incumbidas. 
Considerou tambem a conveniencia de assegurar aos interpretes que compozerem o referido corpo os meios de poderem exclusivamente empregar-se no estudo da mesma lingua. E finalmente reconheceu a necessidade de habilitar individuos para o preenchimento do quadro do mencionado corpo. 
Na conformidade d'estas conveniencias e necessidades decretou o governo em 12 de julho de 1865 o seguinte:
Art 1º É creado na cidade de Macau um corpo de interpretes da lingua sinica;
Art 2º Este corpo será composto de um primeiro de um se gundo e dois alumnos interpretes;
Art 3º O primeiro interprete vencerá por anno 1:150$000 réis e 800$000 réis o segundo interprete;
Art 4º Os dois alumnos interpretes perceberão um subsidio mensal que não será inferior a 20$000 réis nem superior a 30$000 réis para cada um graduado entre estas duas verbas segundo os progressos e aproveitamento que mostrarem; 
- Para que estes alumnos interpretes possam receber este subsidio deverão praticar e achar se effectivamente praticando na procuratura ou na secretaria do governo de Macau devendo outrosim emquanto prestarem este effectivo serviço ser contemplados em partes eguaes na distribuição dos emolumentos que pertencem à sua classe;
Art 5º Emquanto não forem providos os logares de segundo interprete e de alumnos interpretes poderá a importancia do respectivo ordenado e subsidios empregar-se em prestações a mancebos que se appliquem ao estudo da lingua sinica; 
Art 6º O governador de Macau submetterà à approvação do governo um regulamento relativo ao serviço, habilitações e promoções do referido corpo.
Excerto de "Historia dos estabelecimentos scientificos: 1854-1861", de José Silvestre Ribeiro, publicado em 1885.
Porto Interior. Pintura séc. 19. Óleo sobre tela. Autor desconhecido
Imagem não incluída no livro referido

domingo, 19 de novembro de 2023

Arte Breve da Lingoa Japoa

"Arte Breve da Lingoa Japoa" é o título abreviado da obra do padre Joam/João Rodrigues impressa em "Amacao no Collegio da Madre de Deos da Companhia de Jesus" em 1620 sob o título "Arte bre da lingoa Iapoa da Arte grande da me lingoa, pera os que começam a aprer os primeiros principios della".

Última página da edição de 1620

João Rodrigues S. J., (Sernancelhe, 1558, 1560 ou 1561 - Macau, 1633 ou 1634) foi um missionário jesuíta, de origem portuguesa, que viveu no Japão e e em Macau. Para além de sacerdote foi ainda linguista, tendo escrito o primeiro dicionário de japonês-português e a primeira gramática da língua japonesa. É conhecido no Japão por João Rodrigues Tçuzu (o Intérprete). A obra que deixou é considerada essencial para estudar a língua japonesa arcaica.
Um reedição feita em Macau no ano de 1720 pelo padre Jeronymo Rodriguez

Biografia
João Rodrigues embarcou com destino à Índia com apenas 14 anos. Pouco depois da sua chegada ao Japão em 1577, foi iniciado na Companhia de Jesus. Dedicou-se ao ensino da gramática e do latim e à aprendizagem da língua japonesa e alguns anos mais tarde concluiu os estudos em teologia em Nagasaki.
Depois de ordenado sacerdote em Macau regressou ao Japão, onde se tornou comerciante, diplomata, político e intérprete entre os japoneses e os navegadores estrangeiros. A sua fluência no idioma oriental mereceu-lhe uma relação especial com os principais líderes japoneses durante o período de guerra civil e da consolidação do xogunato de Tokugawa Ieyasu. Nesta época também testemunharia à expansão da presença portuguesa nesta nação e à chegada do primeiro inglês, William Adams.
Durante este período, teve a oportunidade de escrever as suas observações sobre a vida japonesa, incluindo eventos políticos da emergência do xogunato e uma descrição detalhada da cerimónia do chá.
João Rodrigues seria expulso do Japão em 1610, como consequência de um incidente com o navio português Madre de Deus. Este navio tinha estado envolvido em um conflito em Macau em 1609, no qual foram mortos marinheiros japoneses. Ao voltar a Nagasaki, as autoridades japonesas tentaram abordar e prender o capitão André Pessoa. Na escaramuça, o navio foi incendiado e afundou ao tentar sair do porto da cidade e, em retaliação pelo incidente diplomático, os missionários cristãos foram expulsos do país.
Regressando a Macau, João Rodrigues dedicou-se à investigação das origens das comunidades cristãs na região. Morreu a 1 de Agosto de 1633 sendo sepultado na então igreja Mater Dei (vulgo Ruínas de São Paulo).

 1993: edição fac-similada e traduzida para japonês

Outras obras de João Rodrigues:
1603 - Vocabvlario da Lingoa de Iapam (primeiro dicionário de japonês-português).
1604 - Arte da Lingoa de Iapam (primeira gramática da língua japonesa).

sábado, 14 de outubro de 2023

The Höng Shán Or Macao Dialect

"The Höng Shán Or Macao Dialect: A Comparative Syllabary of the Höng Shán and Cantonese Pronunciations, with Observations on the Variations in the Use of the Classifiers, Finals and Other Words, and a Description of the Tones"
Com 31 páginas foi editado em 1897 por James Dyer Ball (!847-1919) na tipografia do jornal China Mail em Hong Kong.
Outra obra de J. D. B. - "Things Chinese: Being Notes on Various Subjects Connected with China", de 1892. O autor também escreveu sobre Macau.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Bussola do dialecto cantonense: adaptado para as escolas portuguezas de Macau

"Bussola do dialecto cantonense: adaptado para as escolas portuguezas de Macau"

"Sob o titulo inglez de 'Beginning Cantonese' ... publicou em Cantão o Sr. O. F. Wisner... um compendio elementar para o estudo do dialecto cantonense... Resolvi desde então fazer a tradução portugueza do compendio ... As noções preliminares que precedem o vocabulario e as phrases são da minha lavra ..."
Autor: Pedro Nolasco da Silva (1842-1912), Macau, 1912

Sobre o autor, uma breve biografia da autoria da professora Celina Veiga de Oliveira:
"Nasceu em 1842, iniciando aos 14 anos os seus estudos no Seminário ou Colégio de S. José. Ao tempo, era bem difícil a um jovem adquirir instrução em Macau, território que ainda não tinha conseguido recuperar dos efeitos traumáticos da entrada em vigor do decreto de expulsão dos jesuítas, em 1762, que varreu praticamente de Macau todos os professores dos estabelecimentos de ensino, pelo facto de a sua maioria pertencer à Companhia de Jesus. Em 1862, porém, os jesuítas voltam ao Colégio, dando-se então um renascimento da educação para a juventude de Macau.2 Pedro Nolasco da Silva foi um dos mais brilhantes alunos dos padres Jesuítas do Colégio de S. José. Ainda estudante, foi admitido como aluno intérprete da Procuratura dos Negócios Sínicos. Durante a sua vida pública, desempenhou imensas funções. Ficam aqui apenas como registo os cargos de 1.° Intérprete da Procuratura, de Professor de Chinês no Seminário de S. José, na Escola Comercial, no Instituto Comercial e no Liceu Nacional de Macau, de Procurador interino dos Negócios Sínicos e de chefe da Repartição do Expediente Sínico, criada em 1885. Quando terminou a sua carreira oficial, Pedro Nolasco da Silva disse de si próprio: Todos os empregos públicos que temos desempenhado, foram conquistados por meio de concurso, dando nós provas publicas das nossas habilitações. Nada devemos, neste ponto, a pessoa alguma. No que respeita aos estudos sinológicos, bem se pode afirmar que Pedro Nolasco da Silva foi um emérito cultor desse conhecimento pluridimensional da civilização chinesa, sendo autor de muitos livros didácticos para o ensino da sua língua. 
Referem-se, por exemplo (e repare-se no pendor acentuadamente pedagógico dos seus trabalhos): — Círculo de Conhecimentos em Português e China. Para uso dos que principiam a aprender a língua chinesa; — Gramática Prática da Língua Chinesa; — Os rudimentos da Língua Chinesa para uso dos Alunos da Escola Central do Sexo Masculino; — Compilação das Frases Usuais e de Diálogos nos Dialectos de Pequim e Cantão para uso dos Alunos da Escola Central de Macau — Manual da língua sínica escrita e falada, 1 .a e 2.a partes; — Noções Preliminares e Lições progressivas; — Bússola do Dialecto Cantonense adaptado para as Escolas Portuguesas de Macau; — A tradução de uma obra fabulosa, chamada Amplificação do Santo Decreto, um verdadeiro manual de doutrinação confuciana, ela borado pelo fundador da dinastia Qing, imperador Shunzhi, e amplifica do pelo seu filho Kang-xi e por seu neto Yongzheng, e destinado à educação e instrução populares. Por ela, podemo-nos aperceber da estratégia impe rial de manutenção da unidade da nação por via do revigoramento da ideologia confuciana. 
Em 1887, Pedro Nolasco da Silva acompanhou a Pequim, como secretário-intérprete, Tomás de Sousa Rosa, que tinha sido governador de Macau entre 1883 e 1886 e que fora entretanto investido na categoria de Ministro Plenipotenciário para a assinatura do Tratado Luso-Chinês desse ano, o qual viria a consagrar um novo estatuto político para o território. No âmbito do que se poderá classificar de responsabilidades cívicas, Pedro Nolasco da Silva foi ainda Provedor da Santa Casa da Misericórdia, criando o Asilo dos Órfãos, fundador da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, Vice-Presidente e Presidente do Leal Senado, jornalista de O Macaense, o Echo Macaense, o Hong Kong Daily Press, editor de O Echo do Povo, semanário português publicado na vizinha colónia britânica, e membro do Conselho Inspector de Instrução Pública e do Conselho da Província. Quando faleceu, em 1912, dele se escreveu com inteira justiça: 'Macau deve-lhe muito. O seu nome está ligado a quase tudo o que há por aí de bom, de útil, de benemérito'."
Nota: Esta última citação é da autoria do padre Manuel Teixeira

Transcrição do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Ano 10, n.os 111-12, Set./Out. de 1912, ano da morte de Pero Nolasco da Silva:
"Com 71 anos de idade desapareceu dentre os vivos, na madrugada de 12 do corrente mês de Outubro, o ilustre filho desta terra, Sr. Pedro Nolasco da Silva. Era uma das figuras mais em destaque no meio macaense e inegavelmente o homem que mais trabalhou, durante os seus 50 anos de vida pública, pelo engrandecimento da terra que lhe foi berço. Dotado de uma inteligência rara, possuindo faculdades excepcionais de trabalho, amando o estudo com um entusiasmo que nele era uma verdadeira paixão, dedicado em extremo ao bem desta colónia que ele amava com a dedicação de um sincero patriota, o Sr. Pedro Nolasco da Silva deixa em aberto uma lacuna, que dificilmente será preenchida. Macau deve-lhe muito. O seu nome está ligado a quase tudo o que há por aí de bom, de útil, de benemérito. Em assuntos de instrução e beneficência, em melhoramentos materiais dependentes do Leal Senado cuja presidência ocupou várias vezes, na administração da Província, na solução de problemas gravs a que estava ligado o bom nome da colónia, em tudo o que representa uma obra de interesse público figura o nome do benemérito macaense. Pode-se dizer sem receio de desmentido, que Macau perdeu o seu filho mais ilustre. E bem larga a sua folha de serviços prestados à colónia para nos convencermos que o seu desaparecimento significa uma enorme perda. Depois de ter concluído os seus estudos no Seminário de S. José, onde fez sempre uma figura brilhante, entrou na vida pública como aluno intérprete do governo. Apaixonado pelo estudo da língua chinesa, salientou-se nesta especialidade, sendo considerado, e com razão, o primeiro sinólogo português. Nomeado chefe da Repartição do Expediente Sínico, reorganizou-a por completo sobre novas bases. Em 1887, acompanhou, como Secretário intérprete, o sr. Conde de Sousa Rosa enviado a Pequim como ministro plenipotenciário. A parte activa e inteligente que tomou na negociação do tratado de 1887, que nos garantiu a independência de Macau [à época era esta a interpretação oficial portuguesa sobre o tratado], torna o Sr. Pedro Nolasco da Silva credor da gratidão e simpatia de todos os patriotas portugueses."

domingo, 2 de abril de 2023

Hôa-fa-ti-li-tchi - Géographie chinoise et française

 


in "Hôa-fa-ti-li-tchi - Géographie chinoise et française". De Isidore Hedde, Paris, 1876.

O francês Jean-Claude Philippe Isidore Hedde (1801-1880) foi um industrial e historiador francês, tendo feito parte da primeira missão diplomática francesa à China entre 1843 e 1846
Este livro apresenta-se como um dicionário francês/chinês. Macau surge referido a propósito do caracter chinês Kó, que significa terraço, galeria, templo, pagode.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O ensino da "língua sínica" no início do séc. XX

Escola Comercial Pedro Nolasco fundada em 1878
O mesmo edifício no século 21
Em 1906, uma comissão composta por Manuel da Silva Mendes, Pedro Nolasco da Silva, Carlos Augusto d’Assumpção, José Vicente Jorge e o Pe. António José Roliz foi nomeada pelo governador Martinho Montenegro, por portaria provincial n° 57 de 24 de Outubro, "para estudar e fazer um projecto de organização do ensino da língua sínica nesta cidade".
Depois de ponderadas e discutidas todas as questões relacionadas com o ensino/aprendizagem do chinês, a comissão apresentou em Novembro do mesmo ano um relatório final acompanhado de uma proposta de programa de ensino, documentos aprovados pela Portaria n°30 de 22 de Março de 1907.
Esse programa previa um Curso de Língua Chinesa dividido em três períodos, ao longo de sete anos, desde a Escola Primária ao público adulto do Expediente Sínico. O primeiro período, para os alunos da Escola Central, tinha 2 anos; o segundo período, para os alunos do 1°ciclo da instrução secundária, abrangia 3 anos e um terceiro período, para os alunos do Curso Comercial, tinha a duração de 2 anos.
O programa tinha como objectivos: "ministrar um conhecimento elementar da lingua sinica, escripta e fallada, quanto sufficiente para uso commum da vida, inclusivé o do commercio" e "servir de base para ulteriores estudos da literatura classica chineza áquelles que pretenderem levar longe o conhecimento d’essa lingua". 

Sendo a maioria da população de Macau de origem chinesa, a administração do território obrigava a especiais preocupações, nomeadamente o nível da língua e da justiça. É neste contexto que logo no século 17 foi criada a Procuratura dos Negócios Sínicos. Nela trabalharam portugueses, macaenses e chineses que ao longo dos séculos permitiram o entendimento entre portugueses e chineses. 
Eis, a título de curiosidade, alguns exemplos de personalidades que se destacaram neste domínio:
- A bordo da primeira nau portuguesa que chegou a Tanegashima (Japão) ia um intérprete chinês: "Quando a primeira nau portuguesa chegou a Tanegashima, diz-se que um chinês chamado Goshô servia de intérprete".
Fonte: Portugal e o Japão, Tokyo, Kokusai Bunka Shinkokai, 1940.
- Matteo Ricci, S. J.(1552-1610), jesuíta italiano, foi co-autor do primeiro dicionário português-chinês. Chegou a Macau em 7 de Agosto de 1582, permanecendo na China a trabalhar, entre os mandarins e os letrados, até à morte em 1610. Ficou também conhecido pela iniciação, na Europa, dos estudos chineses que vieram a ser conhecidos por Sinologia. Começou por traduzir de Chinês para Latim.
- Michele Ruggieri (1543-1607) jesuíta italiano, foi o primeiro a chegar a Macau, em 20 de Julho de 1579, para aprender Mandarim.
- O missionário Robert Morrison foi o primeiro tradutor da Bíblia para chinês. Viveu em Macau na década de vinte do séc. XIX.
- António Feliciano Marques Pereira foi Superintendente da Emigração Chinesa e Procurador dos Negócios Sínicos em Macau e Secretário da Legação Portuguesa junto à Corte de Pequim. Foi ainda autor da "Relação acerca das attribuições da Procuratura dos Negocios Sinicos da Cidade de Macau" (1867), e das "Ephemerides Commemorativas da História de Macau e das Relações da China com os Povos Christãos" (1868).
- Camilo Pessanha, poeta do Simbolismo português, foi para Macau em 1894 como professor do Liceu, tendo iniciado, de imediato, o estudo da língua e cultura chinesas. Traduziu para português três cartas, dois ensaios em prosa e oito elegias, (apesar de só conhecer 3500 caracteres) com a ajuda do seu amigo José Vicente Jorge, com quem traduziu ainda "Kuok Man Kan Fo Shú Leituras Chinesas". Numa carta dirigida a Carlos Amaro, datada de 1912, Pessanha refere que "Desde que deixei a Vara de Juíz, é decorar letras chinas. Bem desejaria publicar um dia meia dúzia de pequenas traduções, mas a empresa, a ser a coisa como eu a tenho esboçado, é cheia de dificuldades."
- Manuel da Silva Mendes (1867-1931), contemporâneo de Pessanha e também professor do liceu, destacou-se como advogado e ainda como estudioso da cultura chinesa, nomeadamente da filosofia, religião e arte. A ele devem-se os primeiros estudos sobre o taoismo em português.
 José Vicente Jorge
José Vicente Jorge (sentado na imagem de grupo acima). Nasceu em 1872. Foi Chefe da Repartição do Expediente Sínico, vice-cônsul e intérprete-tradutor no Consulado de Xangai, secretário intérprete-tradutor da legação portuguesa em Pequim, no tempo do império e escolhido para secretariar o diplomata que representou Portugal nos funerais do Imperador Guang Xu em 1909. Foi tradutor e anotador do San-Tok-Pun, método adoptado para o ensino de chinês em escolas de Macau e autor de Novo Methodo de Leitura (1907). Foi ainda Professor de Língua Sínica no Instituto Comercial e fez parte da Comissão encarregada de estudar e de elaborar os programas para o ensino da "lingua sinica ministrado na Escola Central do sexo masculino e Instituto Commercial annexo ao Lyceu Nacional", era, então, sub-chefe da Repartição do Expediente Sinico. Pessanha chamava-o de "o meu mestre".

sábado, 19 de setembro de 2020

Real Colégio de S. José

Real Colégio de S. José é o nome pelo qual era conhecida a instituição - que mais vulgarmente se conhece como Seminário - quando foi fundada em 1747 no âmbito da missionação católica e do Padroado Português, iniciado no século XV.
Nas imagens o "Diccionario Portuguez-China" de Joaquim Afonso Gonçalves, sacerdote da Missão M. H. R. S. A. "No estilo vulgar Mandarim e Clássico geral", impresso no "Real Collegio de S. Jose" em 1831.
A imprensa/tipografia do Real colégio de S. José (Seminário) foi fundada em 1818. A edição acima, de 1831, é tida como sendo o primeiro dicionário do género a ser impresso. Mas já antes tinham sido impressas outras obras do género, nomeadamente gramáticas de língua chinesa.


Joaquim Afonso Gonçalves, nasceu em Cerva a 23 de Março de 1781, foi uma grande figura na importância das relações entre Portugal, Macau e China.
Entrou no Seminário de Rilhafoles, Lisboa a 17 de Maio de 1799 e tomou os votos em 18 de Maio de 1801.
Partiu de Lisboa em 1812 com o objectivo de fundar o Observatório Astronómico de Pequim. Chegou a Macau a 28 de Junho de 1813 mas devido à conjuntura política que se vivia na corte imperial não pôde prosseguir. 
Entrou então no Real Colégio de S. José ensinando português aos alunos chineses. Foi também assim que aprendeu mandarim e contribuiu para que se abrisse o ensino gratuito a toda mocidade. Em S. José ensinou gramática portuguesa, latina, francesa e inglesa, retórica, lógica e teologia para os eclesiásticos; aritmética, álgebra e geometria.
Publicou várias obras com a chancela do Real Colégio tais como “Grammatica Latina Ad Usum Juvenum” em 1828, “Arte China Constante Alphabeto e Grammática em 1829 (custava quatro patacas), “Diccionário Portuguez-China” em 1831 e “China-Portuguez” em 1833, “Vocabularium Latino-Sinicum” em 1837, “Lexicon Manuale Latino-Sinicum” em 1839, “Lexicon Magnum Latino-Sinicum” em 1841, e os volumes “Versão do Novo Testamento em Língua China”.
Joaquim Afonso Gonçalves foi membro da Real Sociedade Asiática de Calcutá, da Academia de Ciências de Lisboa e também Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
O seu corpo foi sepultado no cemitério de S. Paulo e depois transladado para um túmulo na Igreja de S. José, que ostenta um epitáfio latino, cuja tradução é: 
“A Deus Ótimo e Máximo. Aqui Jaz o Reverendo Sr. Joaquim Afonso Gonçalves, Português, Sacerdote da Congregação da Missão, exímio professor Real Colégio de São José, membro estrangeiro da Real Sociedade Asiática. Solicito pelo bem das missões chinesas, compôs e publicou obras muito úteis nas línguas sínica, latina e portuguesa; foi de costumes irrepreensíveis e exímios pela doutrina, sendo de vida ilibada; cheio de dias, descansou no Senhor, em 3 de Outubro de 1841, aos 60 anos de idade. Os seus amigos e discípulos dedicaram esta lápide em memória de tão ilustre Varão”.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa: 5 de Maio

Foi esta segunda-feira, 4 de maio 2020, ratificada em Paris a decisão que estipula o dia 5 de Maio como o Dia Mundial da Língua Portuguesa, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO.
Esta é a primeira vez que uma língua não oficial da organização é distinguida com um dia Mundial. A proposta foi apresentada por todos os países lusófonos em Outubro e foi apoiada por mais 24 países como Argentina, Chile, Geórgia, Luxemburgo ou Uruguai. A proposta foi aprovada por unanimidade no conselho da UNESCO a 12 de Novembro último.
Actualmente 265 milhões de pessoas têm o Português com língua oficial sendo a língua mais falada no hemisfério Sul (por via do Brasil).
Para além de Portugal o português é língua oficial em Angola, Brasil, Moçambique, Guiné Bissau, Timor Leste, Guiné Equatorial, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Macau.
Consulado de Portugal em Macau

quarta-feira, 25 de março de 2020

Manuais de "língua sínica"

Lições progressivas para o estudo da lingua Sinica fallada e escripta: vertidas em portuguez para uso dos alumnos da Escola Central de Macau.
Typographia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, 1890 
Trata-se de uma tradução - de Pedro Nolasco da Silva - de uma obra original em francês.

Edição de 1895
Pedro Nolasco da Silva (1842-1912) é o responsável da maior parte dos manuais escolares de língua chinesa publicados em Macau no final do século 19 e início do século 20. Foi ele o chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico entre 1885 e 1892.
Os manuais tinham essencialmente três objectivos: dotar as repartições públicas locais de meios para se poderem relacionar com a população chinesa; ajudar o trabalho dos intérpretes/tradutores da língua chinesa, nomeadamente os que trabalhavam nos consulados portugueses de Pequim, Cantão e Xangai; suscitar nos mais jovens o interesse para se tornarem intérpretes/tradutores da língua chinesa (sínica).
Obras de Pedro Nolasco da Silva:
1884 - Círculo de Conhecimentos em Português e China; Fábulas; Phrases Usuaes dos Dialectos de Cantão e Peking; 
1886 - Grammatica Pratica da Lingua Chinesa;
1889 - Vocabulário e Phrases dos Dialectos de Cantão e Peking para uso dos Alumnos da Escola Central de Macau; 
1894 - Compilação de Phrases Usuaes e de Diálogos nos Dialectos de Peking e de Cantão para uso dos Alumnos da Escola Central de Macau; 
1895 - Os Rudimentos da Lingua Chinesa para uso dos Alumnos da Escola Central do Sexo Masculino; 
1901 - Manual de Lingua Sinica Escripta e Fallada: 2.a Parte Lingua Sinica Fallada. Vocabulário; 
1902 - Manual de Lingua Sinica Escripta e Fallada: 1.a parte. Língua Sinica Escripta. Noções Preliminares e Lições progressivas; 
1903 - Lingua Sinica Escripta. Tradução da Amplificação do Santo Decreto; Manual de Língua Sinica Escripta e Follada: 2.a Parte. Língua Sinica Fallada. Phrases Usuaes. Diálogos e Formas de Conversação; 
1911 - Bussula do Dialecto Cantonense; 
1912 - Bussula do Dialecto Cantonense adptado para as Escolas Portuguesas de Macau; Livro para o Ensino da Literatura Nacional - Kuok Man Kau Fo Shu.
Edição de 1902

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

法文字漢 / Arte China (1829) de J. A. Gonçalves

Arte china constante de alphabeto e grammatica comprehendendo modelos das differentes composiçoens composta por J. A. Gonçalves Sacerdote da Congregação da Missão - Impressa com licença regia no Real Collegio de S. Jose - Macao - Anno de 1829
Trata-se de uma obra fundamental para o ensino-aprendizagem do chinês no Macau de inícios do século XIX, da autoria de Joaquim Affonso Gonçalves, que explica no prólogo o seu método:
Sendo o meu intento dar ao Estudante da Lingua China todos os meios, para entrar no seu conhecimento, e pratica, tanto na falla, como na escrita; foi-me necessario fazer tres differentes volumes que devem andar juntos, por fazer hum todo combinado, e necessario: combinado, para não engrossar os volumes: necessario; porque ficão as suas partes dependentes, e o Estudante nam obtera o seu fim sem a posse de todas ellas: assim he, que a Arte he necessaria tanto por ensinar a ler, traduzir, e compor, como por dar ideas, que facilitam o uso, e intelligencia dos Diccionarios: o Diccionario China-Portuguez he necessario ao Portuguez-China para a pronuncia, e uso das letras neste indicadas.
Já depois da sua morte (1841) foi publicado este pequeno texto que resume a sua vida.
Presbytero da Congregação da Missão, e Professor no collegio de S. Joseph de Macau, onde passou os ultimos trinta annos de sua vida. Além dos conhecimentos que possuia na Theologia e Mathematica, e na arte da Musica, foi tido por habil mestre, não só das linguas europeas, mas do intrincado e difficilimo idioma chinez, a cujo estudo se applicára ex professo, com incansavel trabalho, em beneficio das missões do seu instituto. Da sciencia que adquiriu por este estudo deu provas exuberantes nas obras que escreveu, e que vão descriptas no presente artigo. Foi Membro da Real Sociedade Asiatica, e eleito Socio Correspondente da Academia R. das Sciencias de Lisboa, em 18 de Novembro de 1840, cujo diploma não chegou a receber, bem como o de Cavalleiro da Ordem de N. S. da Conceição de Villa-viçosa, que o Governo lhe conferira em attenção ao seu merecimento. – Foi natural do Tojal, no concelho de Serva, da provincia de Traz-os-montes, e m. no sobredito collegio de Macau, de febre maligna, a 3 de Outubro de 1841. – A sua necrologia sahiu no Diario do Governo, n.º 20, de 24 de Janeiro de 1842
Jean-Pierre Abel-Rémusat, o fundador da Escola de Sinologia francesa, escreveu sobre o seguinte no Journal des Savans, em Setembro de 1831, colocando-o a par de precursores como Robert Morrison (1782-1834), o primeiro missionário protestante na China:
Le P. Gonçalvez, prêtre de la congrégation de Macao, et auteur du second ouvrage dont nous avons inscrit le titre au commencement de cet article [a primeira é a Notitia linguae sinicae, manuscrito de Prémare de 1828, editado em 1831], s’ est proposé le même objet en publiant en portugais son Arte china.
Pour donner aux étudians tous les moyens d’ entrer dans la connoissance pratique de la langue chinoise tant parlée qu’ écrite, il a cru nécessaire de composer trois différens volumes qui feront suite l’ un à l’ autre; une grammaire, un dictionnaire chinois-portugais, et un dictionnaire portugais-chinois (...) il seroit injuste de n’ y pas reconnoître l’ oeuvre d’ un littérateur très-versé dans le sujet qu’ il traite, bien qu’ on ait lieu de penser qu’ il ignore absolument l’ existence de tout travail antérieur relatif à ce sujet; et l’ on doit avouer que son premier volume, qui sera vraisemblablement suivi des deux autres qu’ il annonce, suffit pour lui assurer une place honorable à côté de Varo, de Prémare, et des docteurs Marsleman et Morrison. (...)
Biografia
Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1841) nasceu em Cerva (Tojal - Trás-os-Montes) a 23 de Março de 1781. Entrou no Seminário de Rilhafoles, Lisboa a 17 de Maio de 1799 e tomou os votos em 18 de Maio de 1801. Partiu de Lisboa em 1812 com o objectivo de fundar o Observatório Astronómico de Pequim. chegada a Macau a 28 de Junho de 1813, e devido à conjuntura politica na corte imperial, não pode prosseguir, permanecendo no território (lazarista).
Entrando no Real Colégio de São José, destinado somente para alunos chinas, visto não haver nenhuma escola pública que desse continuidade ao ensino, e onde apenas falavam  um mau português, o padre Joaquim contribuiu para que se abrisse o ensino gratuito a toda mocidade. No colégio ensinou as gramáticas, portuguesa, latina, francesa e inglesa, retórica, lógica e teologia para os eclesiásticos; aritmética, álgebra e geometria, com vantagem para os que se destinavam à arte da navegação. Dominando as duas línguas, ensinava português aos chineses e chinês aos portugueses.
Foi membro da Real Sociedade Asiática de Calcutá, da Academia de Ciências de Lisboa e também Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. 
Morreu em 1841 sendo o seu corpo sepultado no cemitério de S. Paulo e depois transladado para um túmulo na Igreja de S. José, que ostenta um epitáfio latino: 
tradução: “A Deus Óptimo e Máximo. Aqui Jaz o Reverendo Sr. Joaquim Afonso Gonçalves, Português, Sacerdote da Congregação da Missão, exímio professor Real Colégio de São José, membro estrangeiro da Real Sociedade Asiática. Solicito pelo bem das missões chinesas, compôs e publicou obras muito úteis nas línguas sínica, latina e portuguesa; foi de costumes irrepreensíveis e exímios pela doutrina, sendo de vida ilibada; cheio de dias, descansou no Senhor, em 3 de Outubro de 1841, aos 60 anos de idade. Os seus amigos e discípulos dedicaram esta lápide em memória de tão ilustre Varão”.
Obras publicadas:
- Grammatica Latina Ad Usum Juvenum, 1828
- Arte China Constante Alphabeto e Grammática, 1829
- Diccionario Portuguez-China No estilo vulgar Mandarim e Classico Geral, 1831
- Diccionario China-Portuguez, 1833
- Vocabularium Latino-Sinicum, 1837
- Lexicon Manuale Latino-Sinicum, 1839
- Lexicon Magnum Latino-Sinicum, 1841
- Versão do Novo Testamento em Língua China

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

"Escola para os Chinas"


Somos informados que alguns chinas offereceram ao governo a quantia de oitocentas patacas para construcção d'uina casa d'escola destinada para o ensino de portuguez aos chinas. 
Sam mui dignos de encomios os chinas que fizeram a offerta, e sel-o-á também o governo, se a essa pequena quantia ajuntar o que for necessário para a construcção d'um edifício decente e apropriado para esse fim. 
Será esta a primeira casa d'escola destinada para os chinas; e por mais modesta e pequena que seja, honrará altamente o governador que a mandar construir, porque representará uma ideia nobre e patriótica, bem como também o reconhecimento d uma obrigação estricta que até agora o governo não tem cumprido.
Os chinas que constituem a maioria dos contribuintes, têem pleno direito de exigir que o governo lhes forneça escolas para instrucçáo dos seus filhos, mas infelizmente as authoridades nunca se importaram d'isso. Fazemos, por tanto, votos para que essa pequena doação dos chinas possa despertar a attenção do governo, e leval-o a tomar este assunto na mais seria consideração.
Os antigos portuguezes, imitando os romanos, procuravam espalhar o conhecimento da sua lingua, onde quer que fossem, porque juntamente com a lingua e com a litteratura se espalhava também a influencia moral e politica.
Em Macau, onde temos uma população chineza, avida d'estudar, quando d'esse estudo lhe pode provir algum lucro, devia o governo, desde muito tempo, ter procurado espalhar o ensino da lingua portugueza, principalmente entre os chinas abastados, que achariam no conhecimento d'essa lingua grandes vantagens nas suas relações com as authoridades e com as repartições publicas. Desejaríamos que o governo não perdesse de vista este elemento de grande alcance para cimentar o domínio portuguez n'este paiz. 

quinta-feira, 25 de julho de 2019

"Língua de Macau: o que foi e o que é"


"Língua de Macau: o que foi e o que é" é um pequeno livro de 62 páginas da autoria de Graciete Nogueira Batalha (1925-1992). Edição: Imprensa Nacional de Macau, 1974

Trata-se de uma reedição actualizada da série de artigos publicados originalmente no jornal "Notícias de Macau" entre 25 de Maio e 24 Agosto de 1958.

sábado, 25 de maio de 2019

Boletim Oficial de Maio de 1877

Maio de 1877: relação de nomes e tratamento das principais autoridades da província. Inclui designação em português e chinês (incluindo a tradução fonética).
Nota: clicar sobre a imagem para ver em tamanho maior.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Livros para aprender mandarim

Para este post seleccionei quatro obras do início do século 20 feitas em Macau e que tiveram como público alvo os portugueses que pretendiam aprender mandarim, quer a título particular quer nas instituições de ensino onde o idioma chinês foi ensinado, nomeadamente em Macau. Claro que já antes foram publicados livros semelhantes* em Macau, nomeadamente pouco depois de meados do século 16, por via dos jesuítas após o 'estabelecimento' de Macau.
Por ordem cronológica de edição:
- "Manuel da Língua Sínica escripta e falada" compilado por Pedro Nolasco da Silva, Tip. Mercantil, Macau, 1903. (obra dividiu-se em duas partes)
- "Novo Methodo de Leitura", 1.º Livro traduzido e annotado por
José Vicente Jorge, Macau, 1908, Typ. Mercantil de N.T. Fernandes e Filhos.- "國文教科書 Livro para Ensino da Litteratura Nacional Kuok Man Kau Fo Shu" traduzido em portuguez por P. Nolasco da Silva.- "Kuok Man Kan To Shu  Leituras Chinesas" de J. V. Jorge e Camilo Pessanha, Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, Macau, 1915. Trata-se de um livro escolar para aprendizagem do mandarim. Embora a autoria seja atribuída a Pessanha e a J.V.J., segundo os especialistas a maior parte do trabalho é da autoria de J.V.J. e Pessanha fez apenas a revisão das expressões em português.
Nas primeiras páginas do "國文教科書 Livro para Ensino da Litteratura Nacional Kuok Man Kau Fo Shu", de P. Nolasco da Silva fica-se a saber um pouco mais sobre este tipo de livros:
"É este o segundo volume do compendio chinez de leitura intitulado 初等小學國文教科書 (ch´on-tang-siu-hoc-kwok-man-kau-fo-shu), a saber, Livro para ensino da litteratura nacional nas escolas de instrucção primaria.
O compendio consta de uma serie de 10 volumes, abrangendo cada volume sessenta lições, todas aproximadamente da mesma extensão, contendo noções uteis e contos moraes. Foi methodicamente preprarado por uma sociedade de literatos chinezes que teem a sua sede em Shanghae. É destinado para as escolas primarias de toda a China, e tem conquistado grande popularidade, tanto assim que é hoje adoptado nas escola de Shanghae, Hong Kong, Cantão, Macau, etc.  Foi aprovado pelo ministério da instrucção publica de Peking.  Depois da publicação do primeiro volume, no qual indicamos o numero de caracteres chinezes diferentes que contem os 6 primeiros volumes, pudemos apurar os caracteres differentes que contem os quatro últimos volumes de modo que o total dos characteres chinezes diferentes que existem nos 10 volumes da serie sobe a 3559 (…) Vê-se, pois, que para descrever a imensidade de assumptos diversos que os 10 volumes d´este compendio contem, não foi necessário em pregar mais que 3559 caracteres chinezes diferentes, que equivale a 3559 palavras. É esta mais uma demonstração que prova que o numero de caracteres chinezes que são de uso comum e que é preciso conhecer não é tão grande como se tem ditto com grande exageração.”
* Só tendo por base os livros da autoria de Pedro Nolasco da Silva, aqui ficam as referências das suas obras publicadas no século 19:
- Círculo de conhecimentos em portuguez e China, 1884;
- Fábulas, 1884;
- Phrases usuaes dos dialectos de Cantão e Peking, 1884;
- Grammatica práctica da lingua chinesa, 1886;
- Vocabulario e frases dos dialectos de Cantão e Peking para uso dos alumnos da Escola Central de Macau, 1889;
- Compilação de phrases usuaes e de dialogos nos dialectos de Peking e de Cantão. Para uso dos alumnos da Escola Central de Macau , 1894;
- Os rudimentos da língua chinesa. Para uso dos alumnos da Escola Central do Sexo Masculino, 1895.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Amaquão / Amagang / Macao / Macau

Descobrir a origem etimológica da palavra "Macau" é muito provavelmente um dos temas mais fascinantes da história do território. Já muito se escreveu sobre o tema e aqui no blogue tenho dado a conhecer as várias teorias. Para este post escolhi a que me parece a mais acertada em termos etimológicos e baseada em factos.

Em 1537 Fernão Mendes Pinto parte para a Ásia. Sabe-se que em 1541 e 1543 viveu em Martabão, no reino de pegu, servindo no exército do Rei da Birmânia. Chega à China por volta de 1543 e integra-se na redes de comércio entre Sião, Pegu, China e Japão.
A 20 de Novembro de 1555, numa carta escrita a partir de Macau, Fernão Mendes Pinto utiliza o que se conhece até hoje como sendo a primeira vez a expressão "Amaquão"... e escreve duas vezes.
Ora esta expressão corresponde ao chinês Amagang/Yamagang (Porto da Deusa A-Ma/Ya-Ma), protectora dos navegantes. Sendo Magang uma variante do nome Aaomen (Porta da Baía). Ou seja, Fernão Mendes Pinto terá feito uma transcrição fonética da expressão em chinês... o que ele ouviu...
Mapa xilogravado do litoral de Guangdong incluído na
Grande Crónica de Guangdong, de Guo Fei. c. 1598-1602
A cartografia chinesa atesta isso mesmo logo por volta de 1598 num mapa marítimo da zona de Cantão denominado "Guangdong Yanhai Tu". Daí à expressão arcaica "Macao" foi um passo e depois a expressão moderna "Macau".

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Este nome de Macau... por Graciete Batalha

O nome Macau deve ter sido, a princípio, apenas o do local onde se encontra o Pagode da Barra e onde, segundo a tradição, os nossos pioneiros desembarcaram pela primeira vez.
Enquanto a povoação se estabelecia e aumentava, este nome persistiu na boca do povo, a despeito de todas as designações oficiais, portuguesas ou chinesas.
É um problema confuso o da origem desta palavra que tendo, segundo tudo leva a crer, um étimo chinês, não é contudo o nome com que os chineses designam a cidade nem parece ter sido o da península antes da chegada dos portugueses aqui.

A designação usada no dialecto cantonense é Ou-Mun, palavra que ouvimos a cada passo, tanto ao homem da rua como ao chinês culto. Na língua oficial pequinense a designação é a mesma, mas pronunciada Ao-Men.
Este nome, posto que bastante antigo, parece ter entrado em uso posteriormente à chegada dos nossos navegantes. Segundo afirma Luís G. Gomes, distinto sinólogo e autor de várias obras muito curiosas sobre história e lendas chinesas, no seu artigo Os diversos nomes de Macau, «O nome actualmente adoptado é Ou-Mun 澳門 que significa "Porta da Baía". Não consta, porém, que este nome tivesse sido empregado nos escritos chineses anteriores à dinastia Mêng 明 (1368-1628)».
E ainda, em A Toponomástica chinesa de Macau:
«Durante a dinastia Mêng (1368-1621) Macau era conhecida por Hói-Keang-Ou海鏡澳(Baía do Espelho do Mar), ou simplesmente por Hói-Kèang, nome sugerido pelo aspecto com que se apresentava a brilhante superfície das águas que formavam, outrora, a encantadora angra da Praia Grande.»

Donde pode concluir-se que a designação Ou-Mun começou a aparecer logo após a dinastia Mêng, isto é, por meados do século XVII da nossa era.
Um das muitas variantes de Hói-Kèang era Hau-Ching-Ao (também transcrito Hao--Quing), usado nos documentos oficiais da mesma época.

Dos já citados artigos de Luís Gomes extraímos várias outras designações mais ou menos poéticas, dadas pelos chineses a este local: "Hèong-Sán-Ou 香山澳 (Baía da Colina Odorífera)", "Lin-Fá-Tou 蓮花島 (Ilha de Nenúfares)", "Lin-Ièong 蓮洋 (Oceano de Lotos)" - e muitas mais poderíamos citar, pois parece que a fértil imaginação chinesa foi especialmente atraída pela singular beleza desta terra, com a sua baía espelhenta e a suave ondulação das suas colinas.
Contudo, todos esses nomes devem ser apenas designações literárias, que o povo chinês provavelmente nunca conheceu.
De qualquer modo nenhuma delas, nem tão pouco Ou-Mun ou Ao-Men, ou ainda Hao-Ching-Ao (baia de Hao-Ching), parecem ter qualquer parentesco com a nossa palavra Macau, a não ser talvez pelo elemento Ao que adiante consideraremos.
Qual seria verdadeiramente o nome que os portugueses ouviram, quando começaram a frequentar este porto ou mesmo antes, quando comerciavam pelas costas da China?
Segundo a teoria, bastante aceitável, do consciencioso investigador da história de Macau, José Maria Braga, os portugueses teriam tido conhecimento do nome Ho-Kiang (ou Hói Kèang), que poderia ter soado O-Keng ou Ho-Keng na fala dialectal das populações marítimas do sul da China, por alturas da primeira viagem de Jorge Álvares ou mesmo antes.
Cita o mesmo autor duas passagens da Suma Oriental de Tomé Pires, escrita em Malaca entre 1512 e 1515, onde se encontra o nome oquem e o que parece ser a variante foquem. 
Ambas as palavras se referem a um porto situado perto de Cantão, a três dias de viagem por terra e a um dia e uma noite por mar. E por esta situação, que se ajusta perfeitamente a Macau e às condições de viagem daqueles tempos; e porque foquem pode ser erro de copista por hoquem (que facilmente Tomé Pires escreveria com e sem h), crê J. M. Braga que Tomé Pires se referia nas duas passagens ao porto de Macau.
Mas se Tomé Pires por qualquer modo conheceu o nome Ho-Keng, pronúncia dialectal (ou até talvez pronúncia dum intérprete malaio) correspondente ao cantonense Hói--Kèang, também os fundadores de Macau o devem ter conhecido, e principalmennte na forma pequinense Hao-Quing, que seria a usada pelas autoridades chinesas com quem tinham de tratar. Contudo nenhuma dessas formas se popularizou entre os nossos homens, mas sim aquela que perdura até hoje - Macau.
Esta palavra Macau tem sido objecto de estudo quer por parte de estrangeiros conhecedores do chinês, quer por parte de historiadores chineses.
Aos investigadores portugueses que aqui em Macau se têm interessado pelo assunto
devemos o meritório trabalho de reunir as diferentes versões existentes acerca duma etimologia que provavelmente ficará sempre hipotética.
Dada a inexistência, nos arquivos de Macau, de documentos relativos aos primeiros tempos do estabelecimento português na China, dado ainda o nosso quase total desconhecimento da língua chinesa (não falando já da escrita), pouco podemos adi-antar na solução do problema; mas poderemos, ainda assim, tomar conhecimento dos étimos propostos e exercer sobre eles uma certa crítica, à luz das leis gerais que regem a evolução das palavras.
Macau parece ser uma palavra composta por dois elementos distintos- Ma e cau - e para estudarmos a palavra teremos de considerá-los separadamente.
As teorias quanto à origem do elemento -cau são diversas, mas quase todas são concordes em relacionar a sílaba Má com o nome do ídolo Má ou A-Má (mãe)que os chineses veneram no velho Má-Kók-Miu, conhecido entre os portugueses por Pagode da Barra. Este templo, que se julga ser anterior à chegada dos portugueses a Macau, ergue-se no lugar onde, segundo a tradição, os nossos mareantes teriam desembarcado pela primeira vez.
Uma poética lenda chinesa faz deste ídolo A-Má uma deusa protectora dos marítimos. E o seu templo, que é ainda hoje um dos mais concorridos, seria o ponto de referência mais importante numa terra escassamente habitada, mas que servia de abrigo temporário, como serve ainda hoje a grande número de pescadores.
É natural, portanto, que os nossos homens, antes mesmo de desembarcarem aqui, quando comerciavam nas ilhas próximas, ouvissem o nome da deusa ligado à designação do ancoradouro onde se encontra o seu templo - o local que hoje chamamos a Barra, à entrada do Porto Interior.
E, se é que conheceram o nome oficial do porto, é natural também que, sendo eles pró-prios homens do mar, lhe preferissem o nome popular da deusa protectora dos marítimos, ainda que deusa pagã.
Os chineses usam geralmente antes dos nomes de pessoa um prefixo A-[á] que é simplesmente protético e sem significação. Assim, o ídolo de que falamos é designado por Má ou A-Má e daqui viriam as formas Amacau e Amagau que precederam a actual forma Macau.
Há, porém, algumas versões chinesas, segundo as quais o nome de Macau não estaria relacionado com o nome da referida deusa, mas, por qualquer motivo obscuro, com uma outra letra Má que significa cavalo.
Uma destas versões que faz de Má-Kao uma «adulteração de Mà-Kók » estabelece no nosso espírito alguma confusão, pelo que preferimos reproduzir textualmente as palavras com que Luís Gomes nos apresenta essa etimologia:
« Quanto à palavra Má-Káu 馬蛟 (Coito do Cavalo), é ela derivada da adulteração de Má--Kók 馬蛟 (chifre do Cavalo), isto é, a Barra, local este, em que, no Verão do ano 36 de Ká--Tchêng 嘉靖(1558), da dinastia Mêng, desembarcaram os primeiros Portugueses que vieram ao Oriente solicitar à China um lugar para ancorar os seus navios e edificar lojas ou armazéns, que foram primitivamente construídos em frente do templo que ainda existe neste sítio.
Não deixa de ser verosímil esta hipótese, além de que bem podia ter-se dado o facto de os nativos, ao terem sido interrogados sobre o nome desta cidade, pelos primeiros Portugueses, lhes tivessem respondido chamar-se Má-Kók, julgando assim satisfazer a curiosidade desses estrangeiros com o nome do sítio onde os mesmos desembarcaram e onde primitivamente se fixaram. Como Má--Kók se pronuncia má-tchiao em pequinense, dialecto oficial dos mandarins, talvez esses primeiros Portugueses tivessem adoptado esta última forma, para designar o sítio onde originalmente se estabeleceram e que, com o tempo, se foi generalizando para designar toda a península. Devia também ter-se dado o caso de os sons má-tchiao terem sido representados, em Português, por ma-chao, que, por erro, se passasse a pronunciar e a escrever Macau.»

Esta hipótese, que Luís Gomes achou verosímil, parece-nos a nós muito difícil de aceitar.
Que os chineses empregassem a palavra Má-Kók «Chifre do Cavalo» (estranha significação) para designar o mesmo local (a Barra) onde se encontra o templo de Má Kók, a deusa, ainda se compreende, sabido como é que a mais ligeira variante de tom, em chinês, produz uma significação completamente diferente.
Mas porque a alterariam para Má-Káu, insistindo na palavra «cavalo»(Má)? Conforme o próprio Luís Gomes diz noutro lugar, «não existiam tais animais em Macau, nos primeiros tempos da sua fundação nem tão pouco a configuração desta peninsulazinha se assemelha a qualquer espécie equina por melhor boa vontade e maior liberdade que se queira dar à imaginação»
Por outro lado, se os nativos indicaram aos primeiros portugueses o nome Má-Kók, também não é provável que fossem estes a fazer a adulteração para Má-Káu, através da pronúncia pequinense má-tchiao, como aventa L. Gomes.
Com efeito Má-Kók seria uma desi-gnação popular com poucas probabilidades de ser usada no dialecto oficial dos manda-rins. Mas ainda que fosse, e de facto pronun-ciada má-tchiao, não cremos que o som tchi viesse a dar o [k] da nossa palavra Macau pelo processo que L. Gomes supõe.
Uma outra versão chinesa, que se afasta também do nome da deusa A-Má, diz que a palavra Macau é uma deturpação de "P'ák--Hâu 泊口 (Boca do Ancoradouro)" ou "P'ák-Ou 泊澳 (Baia do Ancoradouro)", nome que teria sido usado em 1535 por um comandante do destacamento de Tch'in-Sán (povoação próxima de Macau) para comunicar a um superior que tinham passado a fundear barcos estrangeiros neste porto.
Esta informação encontra-se numa Geografia de Macau "Ou-Mun Tei-Lei 澳門地理 " publicada em Cantão em 1946, pelo Colégio Provincial de Artes e Ciências de Kuóng-Tông.
Não sabemos, contudo, até que ponto é digna de fé: se fosse exacta, resolveria inclusivamente o problema da data em que os portugueses começaram a frequentar o porto de Macau.
Mas voltando ao nome P'ák-Hâu: sede facto esteve em uso e os chineses ou os portugueses o alteraram para Ma-cau ou Ama-cau, foi ainda certamente por influência do nome da deusa A-Má, pois de outro modo não se compreenderia tal alteração.
Mais aceitável no aspecto fonético parece uma outra hipótese que supõe vir a palavra do nome Má-Kau Séak, um "famoso rochedo" que existia perto da antiga praia da Areia Preta.
Diz Luís Gomes:
«Quanto ao nome propriamente dito de Macau, aventam uns que ele procede do nome duns escolhos conhecidos por Má-Káu--Séak que foram destruídos, há umas dezenas de anos, quando se iniciaram as obras de aterro do novo porto. [Porto Exterior].
T'ien-Tsê-Chang, na sua obra "Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644" diz a pgs. 86-87 que Má Káu-Séak significa "Rochedo do Cavalo no Coito", sendo tal interpretação reproduzida pelo rev. Manuel Teixeira, a pgs. 77 do seu "Macau e a sua Diocese".
Esta interpretação é errónea e decerto devida ao facto de se julgar que Má-Káu-Seak se escreve 馬交石. O verdadeiro significado é, porém, "Escolhos do Dragão-Cavalo", visto que os caracteres sínicos correspondentes são 馬蛟石, como podem ser verificados no "Ou-Mun Kei-Lèok" 澳門記略 (Monografia de Macau), a obra mais antiga em chinês, que existe publicada, sobre esta colónia.»

Aparentemente, parece não haver que hesitar quanto a este étimo. Ele não explica, porém, antigas formas portuguesas em que entra o elemento Ama-; e, por outro lado, custa a crer que o nome dum simples rochedo, apenas notável pela forma curiosa (de qualquer modo semelhante a um cavalo) e não tão grande que não tenha desaparecido completamente, se tenha generalizado a toda a península.
Os próprios chineses sentem que, semanticamente, este étimo não satisfaz; aliás não seria preciso procurar outras explicações. Vejamos o que diz realmente o escritor chinês Dr. T'ien-Tsê-Chang, tantas vezes citado pelos historiadores de Macau:
«Curiously enough, the name Macao, so widely known in the non-Chinese-speaking world, is nota proper Chinese name for that port. A traveller is sometimes told by its inhabitants that it is but the name of the famous rock called Ma-chiao or Ma-kao in Cantonese. [馬交石 meaning "Rock of mating-horse", apparently from its shape.] Formerly this rock stood somme distance from the peninsula, but recently some new land has been reclaimed from the sea in that part of the bay, and as a result, the rock has been annexed to the mainland and buried under ground. It was either due to misunderstanding or for the sake of convenience that the small peninsula was called after the rock. It is more generally believed, however, that Macao is but an abbreviation of A-ma-ao[ 阿媽澳 ] or A-ma-ngao (with ng strongly nasalized) in Cantonese, i. e., the Bay of A-ma, a navigators' goddess to whom there was a temple at Macao. As A-ma-ngao was a famili-ar name used by Cantonese sailors to desig-nate the port and as a is merely a prefix that may be ommitted, it is more than probable that the Portuguese learned it from them.
The commonest Chinese name for Macao is Ao-mên, i. e., the Portal of the Bay. [ 澳門 ] the most correct name for Macao is, however, Hao-ching-ao or the Bay of Hao-ching. [ 濠鏡澳]»

Este étimo A-ma-ao ou A-ma-ngau é o mesmo que, com ligeiras variantes, foi implicitamente proposto por vários mis-sionários e historiadores estrangeiros dos séculos XVI e XVII, entre os quais, e dos mais antigos, o Pe. Mateus Ricci que em 1609, referindo-se à fixação dos portugueses na península, dizia: « … dove era venerata uma pagoda, che chiamamo Ama. Per questo chiamava quel luogo Amacao che vuol dire in nostra lingua Seno di Ama».

Chegamos agora ao problema da nossa sílaba-cau.
Partindo do cantonense A-ma-ngao, que os Portugueses poderiam ter entendido A-magau, teríamos Amagau > Amacau> Macau. Esta evolução não é, porém, natural, pois que as oclusivas sonoras não passam normalmente a surdas. O fenómeno normal seria o inverso, isto é, a sonorização do-k- em -g-. Sendo assim, os portugueses transformariam facilmente Amacau em Amagau, mas o contrário não é provável.
Afigura-se-nos mais verosímil que os nossos navegantes ouvissem esta designação de Baía de A-Má, designação popular como vimos, em qualquer forma dialectal não cantonense nem pequinense. Os dialectos do sul da China são vários e só um profundo conhecedor da dialectologia e da história chinesas poderia dizer qual ou quais os dialectos que os Portugueses primeiramente ouviram e que forma tinham esses dialectos há quatrocentos anos. Estes são problemas que não foram ainda, ao que sabemos, esclarecidos, nem o serão talvez jamais. No entanto, parece provado que, ao tempo, a escassa população desta península era formada principalmente por pescadores originários da província de Fuquien e que foram eles quem erigiu o já mencionado templo da Barra, estabelecendo aí o culto da deusa A-Má.
Um dos maiores conhecedores da língua chinesa entre nós, o Sr. António Ferreira Batalha, sugeriu-me que o lugar poderia ser denominado por eles não como Baía de A--Má, mas como Embocadura de A-Má, expressão em que se empregaria o termo Hau (boca, embocadura) como se emprega ainda hoje na designação de outros ancoradouros por estas proximidades.
O nome seria então A-Ma-Hau, com h fortemente aspirado na pronúncia fuquienense, o que passaria facilmente a A-Ma-K'au com k seguido de aspiração, tal como ainda hoje soa na pronúncia inglesa. A qualquer destas formas poderia corresponder, na nossa língua, a palavra Amacau.
Uma última etimologia, que só encontramos na obra de Luís Gomes, apontada como versão chinesa «mais geralmente aceite», é Má-Kóng 媽港ou A-Má--Kóng 阿媽港 que significa também «baía ou ancoradouro de A-Má».
Este étimo, ignorado ou desprezado por Mons. Manuel Teixeira e apenas ligeiramente citado por L. Gomes, é contudo o mais provável se o confrontarmos com as formas mais antigas da nossa palavra Macau - formas essas a que não se tem dado a atenção devida.
Escasseiam-nos elementos para uma investigação séria neste campo, pois que uma distância de meio mundo nos separa dos arquivos que seria necessário pesquisar. Apenas desejamos levantar aqui o problema, na esperança de que alguém, com melhores possibilidades do que as nossas, diga alguma coisa mais sobre o assunto.
Entre as. muitas variantes da palavra Macau que aparecem nos escritos do séc. XVI
algumas apresentam uma nasalação que não podemos hoje saber se representa um erro de copista ou se corresponde a uma pronúncia autêntica.
Estas formas são Amaquam, Machoam e ainda uma outra que encontrámos apenas numa transcrição do Pe. Manuel Teixeira- Amagão.
Consideremos as duas primeiras, Amaquam e Machoam, que se diz serem as mais antigas formas documentadas em português. A primeira teria sido escrita por Fernão Mendes Pinto naquela famosa carta de 20 de Novembro de 1555 que é geralmente apontada como o mais antigo documento português em que aparece o nome de Macau. Nas edições desta carta que pudemos consultar apenas encontrámos formas que variam entre Maquao, Ama cuao e Amaquá; não possuímos informações concretas a respeito de uma outra ou outras cópias, existentes nos arquivos de Lisboa, onde se encontra a forma Amaquam.
Por seu lado, Machoam aparece na data duma das cópias
de outra carta não menos conhecida - a do Padre Belchior Barreto, que teria sido escrita também de Macau, a 23 de Novembro de 1555.
«Deste Machoam porto da China a 23 de Novébro de 1555» - rezaria a dita carta. Ou-tras cópias, porém, trazem apenas «Deste porto da China... », sem a palavra Machoam ou qualquer outra referência a Macau nem na data nem no texto da carta. É evidente que as duas formas de que tratamos estão longe de ser insuspeitas, tanto mais que é muito duvidoso o próprio facto de Fernão Mendes Pinto ou o Pe. Belchior Barreto terem estado alguma vez em Macau. Contudo, mesmo que sejam adições posteriores, ainda essas variantes merece malgum crédito, se admitirmos que, se alguém assim as escreveu, é porque alguma vez assim as ouviu ou assim as leu. De facto, parece encontrar-se uma confirmação dessa pronúncia Amaquam (mais precisamente [amakã] ou [amakão]) em vários documentos espanhóis do tempo de Filipe II de Espanha, I de Portugal, documentos exarados em Manila e referentes às diligências ordenadas pelo então governador das Filipinas para que em Macau se reconhecesse o rei espanhol.
Nesses documentos, a forma espanhola para designar Macau é Macan. Esta forma, se foi aprendida por contacto com os Portugueses de Macau, é um bom argumento a favor da pronúncia portuguesa [amakão]; se foi levada por emigrantes chineses, os quais iam principalmente da província de Fuquien não deixa de confirmar e etimologia A-Má--Kóng acima referida. A terminação nasal há--de ter algures a sua origem e não deve ter aparecido por acaso.
Note-se ainda o que diz C. R. Boxer em The Great Ship from Amacon (Centro de Es-tudos Históricos Ultramarinos. Lisboa, 1959, p. 13): «Of the shipping used in the Macao-- Japan trade, by far the most cele-brated was the annual carrack, or "Great Ship from Amacon", as the contemporary English termed her».
Como as consoantes finais em chinês são muito ténues, a terminação-Kóng passaria fàcilmente a [-kom] na nossa língua, e daí a [-kã] e [-kão].
Como é sabido, foi precisamente no decorrer do séc. XVI que na língua portu-guesa se completou a fusão das terminações -om e -am numa só: -ão
Quanto ao grupo -qu- de Amaquam, re-produzido com ligeira diferença em Amacuao, e ao -ch- de Machoam, são apenas pormenores ortográficos muito comuns na época, devendo corresponder à pronúncia [k].
Existindo o hábito arcaico e popular de substituir qu por c [k] (como ainda hoje na linguagem popular em corenta por quarenta, canto por quanto, etc.), a influência literária no século XVI levava não só a repor o u onde era devido, mas até a introduzi-lo onde não tinha razão de existir. Assim, encontramos em escritos da época coroniquas, embarquação, requado, etc., em que o u não devia ser pronunciado.
Resta analizar a perda da ressonância nasal na passagem para as formas Amaquao, Maquao e Macau. Esta perda pode ter-se dado, e nesse caso supomos que seria devida a uma questão de eufonia. A pronúncia Macã ou Macão não deixaria de sugerir desagradavelmente a palavra cão, também pronunciada cã, como ainda hoje se ouve em Macau. Por outro lado é possível que os portugueses tivessem ouvido simultaneamente aos Chineses as designações A-Má-Kóng e A-Má--K'au atrás referidas e que, portanto, as formas Amaquam e Amaquao fossem coexis-tentes, sendo a primeira rapidamente preterida pela segunda.
Concluindo:
O nome Macau deve ter sido, a princípio, apenas o do local onde se encontra o Pagode da Barra e onde, segundo a tradição, os nossos pioneiros desembarcaram pela primeira vez.
Enquanto a povoação se estabelecia e aumentava, este nome persistiu na boca do povo, a despeito de todas as designações oficiais, portuguesas ou chinesas.
Povoação ou Porto do Nome de Deus foi o nome cristão que lhe deram as nossas autoridades, nome mudado em 1585 para Cidade do Nome de Deus.
É este o nome que se encontra à entrada do Leal Senado, no letreiro mandado gravar por D. João IV: «Cidade do nome de Deus, não há outra mais leal».
É com este mesmo nome que aparecem datadas ao longo do século XVII as actas e outros documentos camarários do Arquivo do Leal Senado, os quais pessoalmente verifiquei. Mas nesses documentos, posto que encimados pela designação oficial de «Cidade do Nome de Deus» ou «Cidade do Nome de Deus na China» ocorre constantemente a palavra Macao e, ocasionalmente, esta palavra aparece até nas datas: «desta Nobre Cidade do Nome de Deos de Macau». Em 1685 já encontramos apenas «Nobre Cidade de Macao» concorrendo com a designação oficial correcta.
Isto mostra que o nome popular foi o que teve sempre maior vitalidade, vindo a conquistar mesmo as classes cultas que a princípio o repudiaram. Ao mesmo tempo, foi-se generalizando a toda a península, à medida que a nossa cidade paulatinamente avançava até às Portas do Cerco, limite que fica precisamente no istmo.
Aditamento
O presente artigo é revisão e actualização de um outro, com o mesmo título, publicado no Boletim de Filologia - Centro de Estudos Filológicos - tomo XVI (1956-1957), Lisboa 1958, pp. 353-363, e também em separata do mesmo Boletim, completamente esgotada há já anos. Um ano depois desta publicação foi editado em Leiden (Holanda), pela revista T'Oung Pao. vol. XLVII, Livr. 1-2, 1959, um douto artigo sobre o mesmo assunto, A Note on the Origin of the Name ofMacao, do Prof. Soren Egerod da Universidade de Copenhaga (Ostasiatike Institut).
Tendo recebido um exemplar da respectiva separata, por amável oferta do Autor, foi-nos grato verificar que este, sem conhecimento do nosso artigo, su-gere precisamente como "the right etymology" o cantonense Ma-Kong, porto de Ma ou A-Ma.
O Prof. Egerod, grande conhecedor do português e do chinês, tem em conta, como nós, não só as antigas variantes portuguesas como Amaquão, Amacão, mas ainda a final nasal que se reflecte também na forma espanhola Macan, tal como em algumas latinas, italianas e inglesas. O A. supõe ainda que a mesma palavra cantonese Kong se encontra provavelmente em Lam-pacau, que teve também as seguintes formas: "Lampa-can, Lampacão, Lampacham, Lampachão, Lampachau, Lampazau, Langpihtsaou, Lampatao, etc. "
in Revista Cultura, nº 1, ICM, 1986 (apenas o texto)