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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Testemunhos do "1,2,3" de 1966

"12" refere-se ao mês de Dezembro em que ocorreram os incidentes, "3" é o dia dos mesmos. Seguem-se excertos de entrevistas realizadas com macaenses radicados no Brasil, que viveram os acontecimentos. Estas entrevistas fazem parte da tese de mestrado em Antropologia Social "Macaenses em trânsito" de Maíra Simões Claudino dos Santos. Para além dos testemunhos, o texto é da autora da tese.
Testemunho de João Francisco, macaense que ao tempo dos eventos, era ainda jovem. Nasceu em 1950 e rumou ao Brasil em 1967.
"Nessa época, isso foi em 1966, foi quando apareceram guardas... Eu lembro... Que aconteceu um incidente lá em Taipa, península de Macau. Nas ilhas, de Taipa e ilha de Coloane, nós tínhamos um administrador das ilhas. Ele morava em Taipa, mas administrava essas duas ilhas. Então, tinha uma escola lá em Taipa que me parece que os papéis não estavam em ordem e os chineses vinham com muita pressa para tocar a obra pra frente. Bom, o motivo para o atraso eram problemas burocráticos. Isso fez com que desse o início entre o conflito da população chinesa e a administração portuguesa. Houve umas demonstrações, houve pancadarias, teve que colocar polícia em postos especiais da rua... Aí, então com influência da Revolução Cultural da China, com a influência dos guardas vermelhos, aquilo começou a propagar-se cada vez mais, e nesse novo período, nesse período, Macau estava na transição do governador anterior indo embora e o governador novo chegando, e, esse governador novo que estava chegando estava totalmente alheio ao que estava se passando, aí começou as demonstrações propagar-se cada vez mas até que um dia eles invadiram o palácio do governo, exigindo mais, e com isso deu-se um problema muito grave em Macau, greves e problemas de... Como que chama... Como que se traduz?.. Bom, isso foi também manifestações entre policiais, depois de problemas de doenças graves em mulheres, filhos... Esse período foi um período muito conturbado em Macau, e o engraçado é que eu estava no cinema assistindo um filme e o filme foi interrompido por causa do problema que estava acontecendo no palácio, porque estávamos escutando um barulho, e era muito próximo onde fica o palácio do governo. Escutávamos aqueles barulhos, o estouro das granadas daquele lugar. Saí de lá, fui pra casa e de casa acompanhei no radio as informações, aí, teve que entrar a lei marcial que não permitia as pessoas saírem, ou melhor, só num horário, as pessoas saíam pra fazer suas compras. Enfim, era só isso. Foi um período, muito, muito chato, porque os chineses aproveitaram muito bem desse período, e nós portugueses que nos sentíamos superiores aos chineses, passamos a ter que respeitá-los mais."

Para Luis Pedruco o evento do “1, 2, 3” foi uma das causas principais de sua partida para o Brasil:
Foto que foi capa do livro de José Pedro Castanheira "Os 58 Dias Que Abalaram Macau"

"Na época, eu fui fazer o serviço militar e houve uma revolução, uma revolta. Tinha vinte anos. No dia da revolução, eu estava no cinema, uma matinê às duas e meia, quando chegou mais ou menos às três e meia da tarde, um cinema famoso, no centro da cidade, chamado Cinema Apolo, estava vendo um filme e às tantas começaram a abrir portas e correr gente, eu pensei: um incêndio. Fiquei sentado aguardando o movimento todo, o corre-corre, e depois de um certo ponto saí do cinema. Quando saí vi só cabeças na cidade. Tinha uma estátua na frente do cinema, do famoso Coronel Mesquita – esse indivíduo era considerado para os portugueses um herói, porque tinha tomado o Passaleão, que era uma cidadezinha logo na fronteira de Macau, idos tempos. Para os portugueses ele era um herói, para os chineses um invasor. Tem que ver os dois lados da medalha, herói para você invasor para eles. O resultado é o seguinte, aí começaram, aquela história, e ouvi ordens, alguém grita assim: matem os portugueses! Foi um corre-corre danado. Foi engraçado porque a bilhetera do cinema era conhecida, lá todos se conhecem, a mulher dizia assim para mim: deita aqui em baixo porque se não você vai ser linchado. Era chinesa. Eu deitei nos pés dela, fiquei uns minutos lá, meio revoltado: eu deitar aqui, que história é esta? Passado algum tempo, começaram os tiros. Aquela famosa avenida do centro de Macau que é chamada Av. Almeida Ribeiro, quando eu busquei sair eu vi um mar de sapatos e chinelos, todos deram no pé. Chinelos e sapatos no cinema, que coisa louca! Passou um jipe militar, pedi para parar o jipe e fui para o quartel. Eu já tinha passado do recrutamento, já estava em casa, prestava serviço e voltava para casa. No quartel, fui recebido aos gritos pelo comandante: seu imbecil, coisas desse gênero, onde estava você? Eu contei, e estava todo mundo nervoso. Já tinham fechado o quartel, tinham armado trincheiras, metralhadoras, um cena assim, do nada. Eu, às três, estava no cinema e às seis tinha ordem de recolher. Fui um dos primeiros, o primeiro pelotão que saiu do quartel e fomos para o centro da cidade. Eu estava dentro do cinema e três ou quatro horas depois estava fardado, capacete camuflado, com a tropa, para manter a ordem (Doré, 2001: 66).
(...) Passado uns dias a China pôs na fronteira em Macau uma divisão. Uma divisão são 10 mil homens. Aquilo foi apenas um aviso, eles não iam fazer nada. Você sabe que deste lado tem 400, 500 pessoas armadas, você bota 10 mil na fronteira, não fazendo nada, tocando viola, como eles ficaram lá, olhando para Macau, que tinha uns canhões apontados, aquilo era para dizer:quer guerra? Quer força? Foi um momento muito difícil, muita gente foi embora para Portugal. Eu achei uma humilhação enorme, porque os chineses depois de algum tempo obrigaram que o governo português, que seria o dono da terra, oficialmente, na época, pedisse desculpa escrita, falada e televisionada, à população chinesa. Foi recusado pela primeira vez e segunda vez, e aí fizeram força e como a força já estava posta, não teve outro jeito senão aceitar o pedido de desculpas. E o interessante no pedido de desculpas é que o chinês, o oriental, é muito simbólico, não é só um pedido de desculpas e está acabado. Eles fizeram no meio da rua, em frenta à Associação Chinesa, uma mesa comprida, e já como a largura da mesa “x”, de um lado ficavam as autoridades chinesas e do outro lado o governador de Macau, que na época era o General Nobre de Carvalho. Isso depois de muita confusão, conversas em Lisboa, muitas ameaças. Quando chegou o dia em que teve de aceitar esse pedido de desculpas, fizeram uma mesa e no momento em que o governador assinasse, pegasse o livro, e entregasse o documento para a autoridade chinesa, ele teria que se curvar e estender a mão. Enquanto o lado chinês não se curvava, ficava em pé e só estendia a mão. E fizeram uma fotografia nesse momento. Para eles isso daí representava: estão vendo, o fulano se curvando, baixando a cabeça, perante...atrás, uma foto do Mao Tse Tung. Isso tudo tem uma simbologia. É evidente que depois dessa cena toda...quer dizer, a razão pela qual vim para o Brasil, uma das causas foi essa. Alguma coisa me dizia que aquilo ali não dava mais também. Primeiro porque Macau era pequena, depois por esta história, não estava me sentindo bem. Porque o governo português, logo em seguida, declarou mesmo nós entregamos Macau a vocês, se quiserem tome...Quando eu ví esse posicionamento do governo, eu falei daqui a pouco vamos ficar sem pai nem mãe aqui e como é que fica? Esse também foi um momento em que falei para mim mesmo: não, aqui, não fico, vou-me embora, porque o caminho não é este. Já tinha terminado o serviço militar e estava trabalhando no serviço do governo, no Ministério da fazenda de Macau, como escrivão de execuções fiscais. Casei-me e vim para cá. (Doré, 2001: 66-67).
Antonio Bruno Machado de Mendonça nasceu em Macau, em 1948.
Foi em 1966, eu só sabia de uma coisa: não podia ir para a rua. Era lei marcial. Ficávamos dentro de casa. Só depois ouvi falar que o problema era uma escola que havia na Taipa, que não deixaram construir. Todos nós comíamos em casa. No comércio era só vendido para os próprios chineses. Não se vendia nada para nós. Nós éramos considerados como europeus. Claro que não se vendia nada para os portugueses também. Havia problemática que houve. Fazer o quê? Através de um amigo chinês a gente fazia as compras. Ele trazia. (Doré,2001:66)

Roberto, nasceu também entre os meados da década de 40 e 50.
Desde de pequeno já ouvi dizer que esse dia chegaria. Ouvi de alguns chineses adultos, que talvez tivessem alguma mágoa com os não-chineses ou que fossem comunistas radicais? Não liguei muito e achei que fosse uma “besteira”. Mas tornou-se mais real com a revolução dos “guardas vermelhos” que atingiu também Macau nos anos 60. As bandeiras vermelhas da China estavam hasteadas em todas as partes, os “ativistas” vestiam-se de um conjunto de roupa azul (índigo), medalhões com o retrato de Mao Tse Tung, pregadas no peito, e alguns até com bonés do tipo “operário chinês” gritando slogans anti-ocidentais, anti-capitalistas, etc. Os “guardas” proibiam os macaenses, portugueses e qualquer ocidental, de utilizarem qualquer transporte público, as feiras estavam proibidas de venderem comidas para a gente, assim como os restaurantes, cinemas etc., porque a maioria destes estabelecimentos eram de propriedades de chineses. Os meus amigos chineses “viraram a cara” para mim. Mas só depois entendi os seus comportamentos, após a explicação que um deles me deu. Eles tinham que “obedecer” as ordens dos “guardas” por serem chineses e temiam represálias caso não o fizessem, e especialmente se a gente (macaenses e ocidentais) não abandonasse Macau, como o boato teria sido espalhado. Pensei: “Chegou a hora, eles tinham razão quando me disseram que Macau voltaria para a China um dia”. Não voltou daquela vez, mas agora em 1999 voltou.
(Entrevista realizada individualmente em sua casa)

O juiz Rodrigo Leal de Carvalho, o único a exercer funções em Macau, recorda assim os incidentes.
"Tentaram parar-me o carro e forçar-me as portas. A minha volta só via expressões de ódio. Fui andando devagar em primeira, para não atropelar ninguém, mas sem deixar que imobilizassem o carro. Lá acabei por conseguir passar, no meio de uma chuva de pedras." (Pinto,1998).
Relato de João Francisco Lopes Machado, nascido em 1950
"Estava com 16 anos, teve o “1, 2, 3” em que o China estava prestes a invadir Macau, tanto que na companhia da minha mãe, fomos até Hong-Kong e minha mãe levou as jóias dela, pra guardar lá em Hong Kong e eu fui com ela de navio pra guardar as jóias dela. Aí já prontos pra deixar Macau de vez, por causa da invasão chinesa. Naquela época, criou-se a idéia... isso que motivou a imigração da grande população de Macau pra Hong Kong. Isto aí, que fez todo mundo enxergar que Macau realmente não tinha mais futuro, porque seria tomado pela China de um modo ou de outro, não tinha mais aquela segurança de continuar sendo uma colônia portuguesa, então as pessoas começaram a ir embora. E meu pai falou assim: Macau não tem futuro mesmo, a China vai tomar tudo de bom e nós vamos perder tudo, porque naquela época a China não era a China capitalista de hoje, era uma China que realmente iria acabar destruindo  toda a nossa cultura e a gente iria virar refugiado, com certeza. (...) Acredito que Macau... já não se poderia viver, pois depois que passou aqueles acontecimentos em Macau, a gente sentiu que no fundo, no fundo...também como fui embora logo no ano seguinte... mas a mentalidade era realmente que a gente já não dominava Macau como antigamente. Antigamente, antes da Revolução, realmente era mais colonialista, vamos dizer...era mais o estilo português de governar, sem ter que se preocupar com os chineses, depois dos acontecimentos... pode ser que passamos a enxergar os chineses de um modo um  pouco diferente."
Henrique de Senna Fernandes, macaense que nasceu entre os finais da decada de 20 e o início da década de 30...
Anos antes da Revolução Cultural, a arrogância dos funcionários era uma coisa horrível e visível! Aqui é Portugal. Eram todos militares. Vivíamos na ditadura do tempo do Salazar. Colônia era só exploração. E Lisboa não servia as colônias. Sou português, sinto-me português também, mas acho que não poderia viver em Portugal. Eles traziam uma mentalidade e não se modificavam. Os chineses nunca foram colonizados, tinham seus costumes, não eram meia dúzia de portugueses que iriam modificar. O “1, 2, 3” foi como uma onda que cresceu – coisa do Mao, que deviam ser nossas autoridades. Indivíduos que... Havia os chineses corruptos, houve abusos. Os chineses não eram muito cumpridores de leis. Os portugueses também davam pontapés nas mercadorias chinesas e a partir de um certo momento... Começou a fervilhar, fervilhar a comunidade chinesa. O partido comunista fez a rebelião opressiva, rebelião estupidamente opressiva. Contra os chineses, 100 mil pessoas. Com pessoas que não são nem pretos e nem índios, com sua civilização. Havia de tratar dos chineses com certa diplomacia. Realizava-se uma política que não podia ser. O Estado Novo era contra o comunismo. Queriam construir uma escola comunista na Taipa. Os atritos começavam a crescer assim como os requerimentos: “não podemos espalhar o comunismo em Macau”. Os distúrbios na Taipa foram antes do Grande Prêmio de Formula 1 de Macau. A administração da ilha chamou a polícia e fizeram feridos. Os comunistas de Macau começam a se reunir. Na Associação Comercial Chinesa, fazem as demonstrações comunistas. Resolvem ir ao palácio do governo ler a cartilha de Mao. Ocorre que uma grande multidão se reúne em direção ao palácio e deitam abaixo o herói macaense e partem o braço de Jorge Álvares. Outra grande asneira: o encarregado do governo colocou no comando o comandante das forças militares, Mota Cerveira, que amava Macau, mas queria transformá-la à sua maneira. O macaense, pai do chefe executivo hoje em Macau, explicou-lhe que ele deveria ceder, pois não podiam conter os comunistas, mas ele sequer o recebeu. Resultado foram oito mortos, alguns nacionalistas foram entregues. E em Hong Kong não conseguem fazer o mesmo porque era Portugal que os comandavam. Corríamos o risco de perder tudo. E muitos fugiram para Hong Kong (Entrevista realizada em Macau em 06/12/2004).

domingo, 31 de maio de 2020

"O Século ilustrado": 18 Maio 1974

Artigo: "Porque não fomos expulsos de Macau" da autoria de Manuel de Lima publicado na edição nº 1897 de 18 de Maio de 1974 da publicação "O Século Ilustrado".
É sobre os acontecimentos ocorridos em Macau em Dezembro de 1966 (conhecidos como “1-2-3”) e baseia-se numa entrevista a Leopoldo Danilo Barreiros que cedeu à publicação alguns documentos, incluindo "documentos fotográficos" - reproduzidos na entrevista - da obra intitulada "Luta contra as Atrocidades Sanguinárias do lmperialismo Português em Macau", de Setembro de 1967, edição «Aomen Ribao» («Diário de Macau» ).

"Na ilha da Taipa pretendiam os chineses reconstruir a escola comunista que ali mantinham, para o que pediram a devida autorização que, todavia, por motivos de falta de visão de algumas autoridade, não lhes era concedida, isto em flagrante contradição com o que ali se passava em relação aos interesses do grupo de Chang Kai Chek. Daí, os lamentáveis acontecimentos que as fotos documentam e cujo relato, confissão e pedido de desculpas foi feito em documento que a seguir transcrevemos, assinado pelo governador de Macau e apresentado a uma comissão representativa dos diversos sectores sociais do população chinesa."
Palavras de Danilo Barreiros.

Refere-se aos eventos de 1966 e tem por base fotografias publicadas numa publicação de Macau que apresenta uma versão parcial e parcelar dos acontecimentos. 


sábado, 6 de julho de 2019

Histórias Coloniais

"Histórias Coloniais", da Esfera dos Livros, foi lançado no final de 2016 a título póstumo, e é da autoria de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus.
Os autores recorrem a documentos oficiais para relatar oito episódios de violência e repressão ocorridos nas então colónias portuguesas (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé, Goa, Macau e Timor-Leste) entre as décadas de 1920 e 1960.
No caso de Macau, a escolha recaiu sobre os eventos de 1966 (Macau: o motim 1,2,3)tendo os autores recorrido ao Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros (“Incidentes em Macau, 1966-1967”) e Arquivos da Pide (“Macau-Motim 1-2-3, Serviços de Escuta”). Ao longo de 20 páginas são expostos os principais factos dos incidentes com recurso a inúmeros documentos e algumas imagens do AHD, bem como relatos da imprensa.
Tendo por base a informação disponibilizada os autores concluem:
“(...) As responsabilidades por este incidente são, pois evidentes. Autoridades coloniais e forças repressivas atuaram em Macau como o faziam em Angola, na Guiné ou em Moçambique, isto é, com extrema brutalidade e em absoluto desprezo pelas populações. E na ausência do governador, o encarregado de governo terá, então, sido o primeiro responsável, ao mostrar-se intransigente e ao manifestar uma completa falta de tato e sensibilidade para com as especificidades socioculturais do território. Este encarregado de governo era o coronel Carlos Mota Cerveira, «militarão, centralizador, sem sensibilidade política». O próprio ministro do Ultramar, Silva Cunha, terá reconhecido que «não esteve à altura das circunstâncias, dando prova de falta de tato e de não possuir senso político. (...)
No capítulo dos Anexos estão as “Cláusulas do acordo secreto celebrado com as autoridades chinesas”, assinadas pelo governador de Macau, José Nobre de Carvalho, a 29 de Janeiro de 1967, (Fonte: Arquivos da Pide pastas “Macau: Motim 1-2-3) e a “Resposta do Governo de Macau ao protesto que lhe foi apresentado pelos representantes dos habitantes chineses de Macau“, assinada pelo mesmo governador na mesma data.
De acordo com a sinopse da editora "Estes acontecimentos retratam a violência e a brutalidade de uma dominação colonial insensível aos problemas das populações e mostram, ainda, a forma como contribuíram para a formação da consciência nacionalista e como acabaram por acelerar o caminho para a independência dos territórios (ou para a sua integração nos países a que pertenciam). (...) Algumas histórias são praticamente desconhecidas; outras, graças ao acesso a novas fontes encontradas pelos autores, têm aqui versões mais completas do que aquelas que até agora eram do conhecimento público. (...)"

domingo, 3 de dezembro de 2017

Quando Macau mudou para que tudo ficasse na mesma

No dia 3 de Dezembro de 1966, com os ventos da revolução cultural chinesa a soprarem fortes em Macau, uma multidão amotinada atacou vários símbolos da administração portuguesa, incluindo o Palácio do Governo e o Leal Senado.
Foi o culminar de um período de tensão que começou com um incidente relacionado com as obras numa escola da Associação dos Estaleiros da Ilha da Taipa.
Em 2016 a Rádio Macau emitiu uma reportagem da autoria do jornalista Hugo Pinto, na qual se recordam os tumultos e também o que esteve por detrás de toda a agitação. O texto que se segue é uma adaptação do guião da reportagem.
Aqui no blogue existem vários posts sobre o tema; basta utilizar o campo de pesquisa (no topo à esquerda) e/ou a etiqueta "eventos1966" (em baixo à direita).
Esta é uma história de ideias radicais, de duas visões extremas do mundo, de como se confrontaram e de como foram usadas para atingir objectivos não declarados. É uma história de como a radicalização do discurso foi alimentada para construir uma narrativa e conduzir a uma acção. É a história de quando os extremos se opuseram e, em Macau, alguma coisa teve de mudar, para que tudo ficasse na mesma.
A antecâmara
“Eu estava a jantar quando ouvi um barulho enorme. Já sabia um bocadinho de chinês. Cheguei à janela e vi um grupo enorme, que tinha vindo do lado do Hospital Kiang Wu, para baixo, com bandeiras, a ofender os portugueses. Dirigiam-se aqui para a Avenida Almeida Ribeiro, nessa noite, no dia 1. No dia 2, fui trabalhar. Quando fui comprar um maço de cigarros, a vendedora diz que não vendia cigarros a portugueses. Quando saí do serviço e fui apanhar o autocarro para casa, a revisora disse-me que ia deixar-me entrar, mas que, no dia seguinte, não, porque era proibido os portugueses usarem os transportes públicos”.
Há 50 anos, nos primeiros dias de Dezembro de 1966, António Cambeta testemunhou o que pouco antes parecia impensável em Macau.
A população chinesa, desde sempre maioritária na então colónia portuguesa, revoltava-se contra as autoridades. Não era a primeira vez, mas já tinham passado mais de quatro décadas desde a última grande revolta. E agora sopravam da China os ventos da revolução cultural. Uma onda vermelha ameaçava cobrir o país e Macau não escapava. “1,2,3”. Foi assim, numa alusão à data (o dia 3 do mês 12), que ficaram conhecidos os acontecimentos que culminaram um período invulgarmente tumultuoso, que começou a 15 de Novembro.
Na manhã desse dia, cerca de uma centena de jovens começam a montar andaimes e a destelhar três velhas casas na Taipa, na Rua Direita Carlos Eugénio. Ali ao lado pretendia-se construir uma escola primária para os sócios da Associação dos Estaleiros da Ilha da Taipa. Num relatório secreto, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), haveria de escrever que “os comunistas requereram licença para construir uma escola há cerca de oito meses”, mas o pedido ficara esquecido na gaveta. O administrador do Concelho das Ilhas, Rui de Andrade, assistiu à demolição quando passava de carro. Intrigado, enviou polícias ao local. Foram mal recebidos e os desacatos não tardaram, resultando em dois feridos e seis chineses detidos. Entre a comunidade e na imprensa de língua chinesa falava-se em 40 feridos.
Eram falsidades, acusa Moisés Silva Fernandes na obra “Macau na Política Externa Chinesa entre 1949 e 1979”, onde o investigador da Universidade de Lisboa aprofunda o período do “1,2,3”. O académico escreve que o objectivo, traçado pela chamada “elite chinesa”, era provocar uma reacção: em Macau, mas também na China. Era dessa forma que as figuras proeminentes da sociedade chinesa de Macau procuravam legitimar-se perante a liderança comunista. Tinha sido há poucos meses que Mao Tse-tung lançara o país na Revolução Cultural. Na China, estava em curso uma campanha de purificação de todas as esferas da cultura, da política e da sociedade.
Ninguém estava a salvo. Nem o presidente, Liu Shaoqi, que chegou a ser acusado de contra-revolucionário. Algo tinha mudado no outro lado da fronteira, onde as autoridades portuguesas não costumavam ver motivos de preocupação.
Num dos discursos que proferira, Lopes dos Santos, que governou Macau entre Abril de 1962 e Novembro de 1966, afirma que Portugal tinha “uma tradição de paz e amizade (...) sem nunca ter feito a guerra, como o próprio Mao reconhece”.
Em Novembro de 1966, Lopes dos Santos pediu a exoneração alegando motivos familiares. Salazar nomeou como sucessor Nobre de Carvalho, que foi posto ao corrente do que se passava na China com a revolução cultural, mas não em Macau. O novo governador só chegaria a Oriente no dia 25 de Novembro. Até lá, Mota Cerveira seria o encarregado do Executivo. Coube a este comandante militar liderar as primeiras negociações após o incidente da Taipa. A Mota Cerveira os chineses reclamaram uma indemnização para as vítimas da carga policial e a demissão do segundo-comandante da PSP e do administrador do Concelho da Ilhas.
As negociações ainda decorriam quando Nobre de Carvalho chegou a Hong Kong sem saber que se passava em Macau, como confessou o ex-governador ao jornalista Ricardo Pinto, numa reportagem para a TDM, em 1996: “O governador foi daqui [de Lisboa] sem saber o que se estava a passar em Macau. Vim a saber que estavam tendo lugar acontecimentos sérios pelo governador de Hong Kong, quando me foi receber no aeroporto de Kai Tak, e me fez saber que a situação era preocupante”.
Em Macau, Nobre de Carvalho rapidamente mergulhou nos problemas em que o território se afundara. Face à recusa de ceder às exigências chinesas, a imprensa, com o diário Ou Mun à cabeça, intensificava a campanha de ataques contra a administração portuguesa. Os guardas-vermelhos começavam a marchar pela cidade.
Reivindicação sobe de tom
Em Macau há dois anos, onde cumprira o serviço militar, António Cambeta, então funcionário numa agência comercial, olha para trás e recorda que havia entre a comunidade chinesa um mal-estar que, de repente, transbordara: “Havia dentro da população chinesa um rancor acumulado ao longo dos anos, porque a administração portuguesa era toda corrupta e tratava mal os chineses. Não havia chineses em postos de comando. Nunca houve, quase até à entrega de Macau à China. Para tratar qualquer assunto, em qualquer departamento público, era tudo à base de dinheiro. Os chineses já estavam cheios. Aproveitaram a circunstância da revolução cultural na China para dar a volta ao sistema”.
Com o passar do temo, o tom ia subindo. As exigências aumentavam. Não bastavam já as duas demissões, nem as compensações monetárias. Era preciso também apresentar um pedido de desculpas ao jornal Ou Mun, acusado de agitador, e ainda tirar os cassetetes aos polícias. A administração portuguesa tinha também de reconhecer publicamente os erros cometidos a partir de 15 de Novembro. Mas a pressão começou a chegar também de Hong Kong, através da agência de notícias oficial chinesa, a Xinhua. Tudo em crescendo até ao dia 3 de Dezembro, quando o átrio do Palácio do Governo foi invadido. No exterior juntavam-se já centenas de manifestantes. Jovens, na maioria. A polícia carrega. Jactos de água e gás lacrimogéneo são lançados sobre a multidão, que, entretanto, se concentra junto ao tribunal, na Praia Grande, e também no Leal Senado. Sem resistência, a então Câmara Municipal foi invadida e saqueada, bem como a secretaria notarial, ao lado da Farmácia Popular.
Eduardo Tavares, seminarista em 1966, recorda o momento em que o padre Manuel Teixeira, historiador e então membro da comissão para o restauro dos códices rasgados, acorreu ao Leal Senado: “Estava num dos corredores do Seminário de São José e ele [padre Teixeira] desce as escadas do terceiro para o segundo andar, assim muito apressado. Perguntei-lhe, ‘então senhor padre, onde é que vai?’ E diz, ‘ó rapaz, cala-te, vou salvar Macau.’ Porque é que ele diz isso? Porque houve exageros e um dos exageros foi ir ao Leal Senado e deitar as coisas para a rua, livros e outras coisas. Outro foi ir ao cartório notarial e também muitas coisas voaram. E então ele diz que foi salvar aquilo. E parece que foi, que ainda apanhou muita coisa”.
Para o padre Teixeira, aquele tinha sido o pior golpe que o arquivo sofrera. O historiador estimou que um terço dos manuscritos estavam perdidos. Passados 50 anos, o agora ex-padre Eduardo Tavares recorda que, na altura, era difícil não perceber que algo estava mal em Macau, mesmo com a protecção dos superiores, que não queriam os noviços alarmados pela tensão: “A gente ouviu durante aquele ano de 1966, até Julho de 1967, os altifalantes em muitas partes da cidade, com ‘slogans’ contra portugueses, americanos, estrangeiros. Havia ali uma certa xenofobia”.
Um dos símbolos detestados do colonialismo estava no centro do Leal Senado. Era a estátua do herói macaense da batalha do Forte de Passaleão, o coronel Nicolau Mesquita.
A 3 de Dezembro de 1966, a estátua foi derrubada e arrastada para a casa de banho pública da Almeida Ribeiro. “Aqui é o teu lugar”, escreveram. António Cambeta afirma ter visto a estátua ser deitada abaixo por “chineses indonésios”. Também Moisés Silva Fernandes destaca que os “chineses ultramarinos da Indonésia foram instrumentalizados para precipitarem os distúrbios em Macau”. No dia 3, a força da autoridade sentiu-se com maior impacto quando a turba se aproximou do comando da PSP, na Rua Central. Já com os militares nas ruas, abre-se fogo contra a multidão, que começa a dispersar.
O governador impõe o recolher obrigatório.
Depois de, no dia 3, os manifestantes terem atacado os símbolos da administração portuguesa, no dia seguinte foi a vez de os alvos terem sido as instituições ligadas a Taiwan – associações e grupos de apoio a refugiados da República Popular da China.
Como acontecera antes, também desta vez os incidentes foram descritos por vários jornalistas, tanto chineses como ocidentais, como tendo sido organizados, nota Moisés Silva Fernandes. Ainda no dia 4 é feito o balanço dos incidentes: três mortos no dia 3 e cinco no dia seguinte. No total, oito mortos, todos chineses: um operário, um comerciante, um empregado, dois aprendizes e três alunos. Feridos terão sido mais de 200. A violência iria desaparecer das ruas de Macau, mas o mal já estava feito. Ao longo dos anos foram feitas críticas à actuação das forças de segurança – ora pela brutalidade, ora por não terem sabido actuar no tempo certo. António Cambeta, que iria integrar as forças de segurança, garante que havia “falta de preparação”, quer por parte dos polícias, quer por parte das tropas.
Manobras de bastidores
Depois dos incidentes, a necessidade de encontrar um desfecho para a crise levou a que a elite chinesa tivesse criado, com o apoio de Pequim, a Comissão de Luta Contra a Perseguição Portuguesa. Era a chamada “comissão dos 13”, que concertava as posições alinhadas com a China continental para negociar com o governador Nobre de Carvalho. Começavam novas manobras de bastidores.
Em fundo, um ambiente tenso e ameaçador, recorda António Cambeta: “Havia receio. Macau estava bloqueado. Havia navios chineses a controlar toda a área marítima de Macau”. Havia receio entre a comunidade portuguesa, mas também chinesa, acrescenta Cambeta: “A comunidade chinesa estava dividida em várias partes. Aqueles que sabiam a realidade da China tinham receio daquilo que os comunistas pudessem fazer, porque revolução cultural é uma coisa e o Partido Comunista Chinês, até ali, nunca tinha sido hostil para com Macau, antes pelo contrário. Precisava de Macau como contraponto de entrada e saída de mercadorias. O receio que havia era da revolução cultural. A maioria era malta nova, estudantes com outra mentalidade. Se viessem invadir Macau, o que aconteceria aqui? Os próprios habitantes chineses de Macau estavam divididos”.
Hoje, António Cambeta diz que o sentimento de há 50 anos teria ressonâncias quando Macau passou a ser administrada pela China. Era a incerteza. “O sentimento”, diz, “era quase igual”. Se nos anos 1990, a população de Macau vivia com a guerra das seitas nas ruas, nos anos 1960 eram outras as facções que também se digladiavam. Em 1966, assistiu-se ao maior agravamento do conflito entre comunistas e nacionalistas, os dois lados que tinham estendido até Macau a luta travada na clandestinidade. Exilados em Taiwan, os nacionalistas tinham na antiga colónia portuguesa uma importante base de apoio e liberdade de movimentos. Mas os comunistas, em Pequim, estavam atentos e seguiam de perto o que se passava. Salazar recusava dialogar com os comunistas, que considerava o grande inimigo. Devido à ausência de relações diplomáticas entre Portugal e a China, entre 1949 e 1979, as funções de mediação entre as duas partes foram desempenhadas pela chamada elite chinesa de Macau. Desde a chegada dos portugueses, em 1555, as autoridades chinesas usaram mandarins para gerirem Macau e contactarem com a administração portuguesa. O arranjo só foi desfeito em 1849, quando o governador Ferreira do Amaral expulsou as autoridades chinesas de Macau. Desde então, era à elite comercial chinesa do enclave que cabia a mediação. A partir de 1949, com a instalação no poder por parte dos comunistas, a elite chinesa volta a assumir um maior destaque. Em Macau, a elite chinesa controlava associações e escolas, recebia títulos honoríficos de Pequim e de Lisboa, e acumulava dinheiro e poder com as concessões, sobretudo do jogo e do ouro.
O metal mais precioso
A neutralidade de Portugal na Segunda Guerra Mundial deixou Macau de fora do conflito e também do acordo Bretton Woods, assinado com o objectivo de apertar o controlo sobre o preço do ouro no mercado global. Rapidamente, Macau tornou-se uma praça mundial do metal precioso. Entre 1949 e 1969, foram importadas para Macau 900 toneladas de ouro. Não há registos oficiais de terem saído do território, mas é de presumir que os lingotes tenham ido parar sobretudo a Hong Kong, onde terão sido revendidos. Caso contrário, como escreveu o investigador João de Pina-Cabral, as ruas de Macau estariam pavimentadas a ouro.
Desde o final da década de 1940 que o ouro era controlado por um consórcio formado por Pedro Lobo, chefe dos Serviços Económicos de Macau, e pelos empresários chineses YC Liang, e Ho Yin. Eram dois destacados membros da elite chinesa, composta pelos chamados “capitalistas compatriotas vermelhos”. A maioria pertencia à Associação Comercial Chinesa, onde pontificava Ho Yin, o patrão dos patrões.
Mas no final da década de 1950 e o principio da década seguinte, quando Jaime Silvério Marques governou Macau, os interesses desta elite, e em particular de Ho Yin, foram abalados pelas mudanças na atribuição de concessões, como recorda João Guedes: “Corria nessa altura, pouco antes do '1,2,3', que o governo português iria tirar a licença ao Ho Yin”. O investigador da história de Macau e ex-investigador da Polícia Judiciária recorda como importante o momento depois do atentado à bomba falhado contra Ho Yin, em Maio de 1966. A Polícia Judiciária, instalada em Macau havia dois anos, vai entrar em acção e desequilibrar o jogo de forças entre comunistas e nacionalistas: “Nesse momento, a Polícia Judiciária faz uma série de rusgas, nomeadamente em templos budistas, onde estava armazenado o armamento, e era muito, nacionalista. Alguns analistas dizem que isso terá desequilibrado definitivamente o jogo de forças em Macau. E os comunistas, que são muitos, mas não estão armados, finalmente encontram a oportunidade de passar para a mó de cima”.
De acordo com João Guedes, as associações tradicionais em Macau - das desportivas, onde se agrupavam as seitas, às de moradores - eram dominadas pelos nacionalistas, que também contavam com o apoio dos capitalistas: “Os comunistas praticamente não dominavam nada aqui em Macau, incluindo os dirigentes da Associação Comercial Chinesa, que eram todos nacionalistas. A Ho Yin há quem lhe chamasse comunista, no calor do ‘1,2,3’, como também ao Ma Man Kei. Ora, nenhum deles era comunista. O único era o Chui Tak Kei, o homem de quem não se fala. Falava português, é o homem que tem uma intervenção inicial no ‘1,2,3’, para a resolução da escola da Taipa, e depois a sua acção esbate-se, precisamente porque era do partido e o protagonismo é dado depois a Ho Yin e a Ma Man Kei”. João Guedes diz que no “1,2,3” se misturam diferentes agendas, nem sempre declarando à partida os objectivos. Havia muita encenação, diz o investigador: “Todas essas movimentações políticas da Associação Comercial e dos seus membros, e até dos comunistas, foram movimentações muito teatrais. Aquilo não correspondia seriamente ao que se passava. E depois foi por todos aproveitado. Também todo aquele caos da revolução cultural aproveitava a todos, nomeadamente ao governo chinês. Quando as coisas corriam mal, deitava as culpas para cima dos guardas vermelhos e estava resolvida a situação”. Foi neste contexto que a elite chinesa de Macau viu uma oportunidade na instabilidade política. Para Moisés Silva Fernandes, “era uma oportunidade única para os capitalistas compatriotas vermelhos prostrarem e fragilizarem a administração portuguesa”. O objectivo era evitar que a concessão do ouro caísse nas mãos da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, de Stanley Ho.
Mas não estavam em causa apenas os negócios da elite chinesa de Macau. O comércio do ouro também era de grande importância para a China. Com uma moeda que não era aceite no comércio internacional, Pequim vai depender do ouro transaccionado em Macau e Hong Kong: “É preciso ver que apesar de Macau ser muito pequeno em dimensão geográfica, por aqui sempre correram milhões e milhões. Pode dizer-se que cada membro da elite chinesa, como lhe chama Moisés Silva Fernandes, era um potentado e tinha a sua agenda, mas o Ho Yin tinha uma agenda particular, que era a do ouro”, observa João Guedes.
Segundo Moisés Silva Fernandes, a administração portuguesa era apenas “um actor menor no comércio deste precioso metal”, mas era ao mesmo tempo uma garantia. Daí que o regime de Mao Tse-tung, escreveu Moisés Silva Fernandes, tivesse adoptado uma postura de pragmatismo em relação à administração portuguesa de Macau. Nesse sentido, o investigador considera que “a dependência [do ouro] contribuiu para que [Pequim] tudo fizesse para garantir a continuidade da presença portuguesa no enclave (...) entre Dezembro de 1966 e Janeiro de 1967”, os dias mais quentes do “1,2,3”. À China de Mao convinha fazer uma demonstração de força, mas para “soviet” ver, diz João Guedes: “Era preciso, de alguma forma, satisfazer o comunismo e dizer que os imperialistas não estavam aqui à borla, nem com o consentimento dos comunistas chineses, e que quem mandava eram eles. Essa era a agenda do Partido Comunista Chinês, que não pretendia, de forma alguma, expulsar os portugueses daqui. Quem pretendia expulsar os portugueses, e nunca se fala disso, eram os nacionalistas. Eram eles que tinham essa agenda desde finais do século XIX”. Era um jogo de sombras, mas também um jogo de forças, no qual a elite chinesa sabia de antemão que Salazar queria a todo o custo evitar uma repetição do que tinha acontecido em Goa, em 1961, noutro fatídico mês de Dezembro.
A rendição de Goa
Cinco anos antes, em 1961, no dia 18 de Dezembro, a União Indiana atacou Goa, Damão e Diu com 30 mil homens, um número dez vezes superior aos três mil soldados portugueses que defendiam a chamada “Índia portuguesa”. Salazar dissera que não previa “tréguas nem prisioneiros portugueses”, apenas “soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”. Mas o governador Vassalo e Silva desobedeceu às ordens e rendeu-se em menos de 24 horas. Poucos dias depois da invasão de Goa, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo, Franco Nogueira, propôs a Salazar uma viragem na política colonial. A mudança passava pela entrega de Macau à China. Salazar recusou dizendo-se “preso às ideias do passado”. Mas o ditador também se mostrava atento ao perigo vermelho que alastrava na Ásia, ameaçando toda a África. Por todo o lado, agitavam-se movimentos revolucionários e de independência. Salazar e o Estado Novo estavam cada vez mais isolados. “Orgulhosamente sós”.
Uma Igreja empenhada
Em Macau, fiel a Salazar era a Igreja, observa João Guedes: “A Igreja está dentro e fora da política ao mesmo tempo. Estando dentro da política, influencia directamente as decisões que são tomadas pelos políticos e, neste caso, pelo governador Nobre de Carvalho. Mas por outro lado, a Igreja não tem o tempo dos políticos. A Igreja tem a infinidade dos tempos. Há aqui uma questão de princípio muito clara. O Vaticano não reconhece os comunistas. Mais, o Vaticano está em guerra contra os comunistas”.
Para João Guedes, a Igreja tinha uma estratégia contra o inimigo comunista, e os padres em Macau faziam parte do esforço: “O padre Teixeira e todos os outros padres que estavam aqui, não eram de modo nenhum missionários isentos do ponto de vista político. Todos eles eram militantes da União Nacional, o partido único que havia em Portugal. A obrigação deles era dirigir politicamente o seu rebanho. [O bispo] Dom Paulo José Tavares, na altura, toma uma posição de firmeza contra os comunistas. Desde o princípio, dá ordens muito claras aos seus padres, que é lutar contra a subversão e enquadrar os alunos católicos. Ou melhor, os alunos que frequentam o ensino católico. E o ensino católico, nessa altura, tinha nas mãos quase toda a educação em Macau”.
Em Macau, a Igreja era a mais fidedigna caixa de ressonância de Salazar. A instituição há mais tempo em Macau, a Igreja tinha uma influência que ia além da tradicional esfera da comunidade portuguesa. Durante o “1,2,3”, esse poder foi usado, considera João Guedes: “Há uma tentativa de os comunistas obrigarem os estudantes das escolas católicas a seguirem a escola Hou Kong, nomeadamente na invasão do Palácio do Governo, e os alunos das escolas católicas são impedidos de o fazer. Isso demonstra que a Igreja Católica não tinha uma influência teórica sobre a população. Não, ela mandava, porque mandou que os alunos não colaborassem. E atenção, porque na altura, e hoje, a maioria dos professores era chinesa. E os católicos em Macau sempre foram muito poucos”.
A influência da Igreja de Macau chegava longe, sublinha João Guedes: “São os padres que mantêm Salazar informado do que se passava. Suponho que deve ter tido mais importância o que disse o cardeal Cerejeira ao Salazar, do que o que lhe disseram o governador Nobre de Carvalho ou Mota Cerveira, com os relatórios que fizeram aqui”.
Alguma coisa tem de mudar
A meio das negociações entre o governo português de Macau e a “comissão dos 13”, no dia 14 de Janeiro de 1967, Salazar escreve a Nobre de Carvalho. Com os acontecimentos em Goa ainda frescos na memória, o presidente do Conselho dava indicações sobre a atitude a tomar: “Não temos aí forças para bater as forças chinesas – seria uma impossibilidade – mas para garantir a ordem e lutar até ao extremo limite pela dignidade e pela soberania nacional. Contamos aqui que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios”.
Os “maiores sacrifícios” acabaram por ser o que muitos classificaram de humilhação. No dia 29 de Janeiro de 1967, um domingo, Nobre de Carvalho dirige-se à sede da Associação Comercial Chinesa, no Largo do Senado. Ali, em pouco mais de dez minutos, o governador assinaria dois documentos em que as autoridades portuguesas assumem toda a responsabilidade pelo que admitem ser “o incidente sangrento de 15 de Novembro na Taipa” e os “trágicos acontecimentos de 3 de Dezembro”. Comprometem-se também a não permitir “quaisquer actividades” de agentes nacionalistas no território. Ainda nesse dia, na China dá-se por terminada a “revolução cultural” em Macau. E
ra o fim de uma era, outra começava. Eduardo Tavares entende que “o ‘1,2,3’ deixou feridas em Macau que ainda não estão completamente saradas: "Entrei na comunidade chinesa e aperecebi-me que a compreensão não era muito grande. Essa falta de compreensão ainda se mantém. Ainda conheço hoje pessoas com mais de 70 anos que todas as recordações que têm são recordações negativas”. Depois do “1,2,3”, em Macau cumpria-se à letra o pensamento de Don Fabrizio, herói de “O Leopardo”, o romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa sobre os temores e a incerteza das revoluções: “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma".
Agradecimentos: TDM - Rádio Macau (texto); Fotos: arquivo Blog Macau Antigo

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A 1967 Escapade in Macau

Hugh Davies foi um diplomata britânico (reformou-se em 1999) que viveu de perto as consequências da 'revolução cultural' chinesa em Hong Kong e Macau na segunda metade da década de 1960. 
Quatro décadas passadas sobre esses acontecimentos, em 2007, Davies escreveu um artigo - "An Undiplomatic Foray: a 1967 escapade in Macau" - onde relata esses dias 'quentes' (ver outro post) que viveu de perto numa viagem 'especial' ao território onde chegou como turista e ficou hospedado no hotel Caravela (demolido na década de 1970). 
A fotografia acima, onde se pode ver o hotel, a partir da zona da "meia-laranja", não surge no artigo publicado no Journal of the Royal Asiatic Society Hong Kong Branch - Vol. 47 (2007), pp. 115-126 de que apresento alguns excertos.

(...) This short account records a minor diplomatic happening in Macau in which I was involved in 1967, as Hong Kong endured some of its most challenging times in the shadow of the Cultural Revolution then wreaking havoc on the mainland. Macau for me already held a special place in my past. As a young man trying to grasp the history of British involvement on the China Coast, one of the books that had most captured my imagination was Maurice Collis’s Foreign Mud, telling the story of the origins of the Opium Wars. Macau had played a central role in that period. (...) 
In the 1960s, as a young diplomat, I was studying Chinese at the language school attached to the University of Hong Kong. To escape the rigorous rotelearning of long lists of Chinese characters set by my teachers, I had already visited Macau on more than one occasion. At that time the town showed barely any alteration over the previous 150 years. George Chinnery would have easily recognised all the main features and would have found the back streets and alleyways surrounding the ancient façade of the Church of Sao Paulo almost as he had known them in his day. Undoubtedly, however, my most memorable visit was in the autumn of 1967. The Cultural Revolution in China was in full swing. By late 1966 the Red Guards and pro-Communist zealots had effectively assumed power in Macau, at the expense of an enfeebled Portuguese administration powerless to resist. It was at this time that Portugal is said to have told the Chinese government that they were unwilling to continue as the administering power if the Red Guards were not called off. An uneasy compromise was apparently reached, and Macau’s colonial status was maintained. It has always been assumed that those still capable of rational decisions, in a Peking then gone mad with Cultural Revolutionary fervour, saw the danger of taking over Macau in such circumstances. Zhou Enlai, the consummate international diplomat, was the only one capable of bringing some sense to the situation. The obvious fear was that any precipitate action in Macau would provoke an immediate panic in Hong Kong that the same fate awaited the British colony and, with the Chinese economy crumbling around them, the last thing that men such as Zhou Enlai wanted was the loss of all the financial and other benefits accruing to China from Hong Kong. So, while Portugal was humiliated in that period, the trappings of colonial administration were preserved. The Governor remained, and all the senior civil service posts were still kept for Portuguese. The police remained predominantly Portuguese-officered and the junior jobs were largely held by Macanese. Superficially all was as it had been. But the influence of the local Chinese left-wing leaders was now paramount. (...)
O consulado britânico em Macau no ano de 1967. Imagens do artigo
In Macau at that time, Britain still retained a Consulate. The unfortunate Consul, a man no longer in the prime of life, became a soft target for the revenge of the Red Guards. By late May they had paraded daily past his office and residence and made increasingly aggressive demands. This culminated in obliging him to stand for hours outside his office in the heat of the midday sun while their adherents streamed past and screamed abuse. They attacked his office and his residence, both being attractive white-stuccoed, villa-style buildings on the banyan-tree-lined Praya Grande fcing Macau’s outer harbour. Both houses were plastered with Da Zi Bao (Big Character Posters), and besmirched with painted slogans in Chinese and English. ‘Down with British Imperialism’! they screamed. ‘Long live the Great Proletarian Cultural Revolution’, ‘Death to all Running Dogs’, and other encouraging suggestions. (...)
At the ferry terminal, a smartly uniformed young policeman took us under his wing. He welcomed us and confirmed the arrangements. We were booked into the Caravela Hotel on the Praya Grande, and he had tickets for all three of us for the ‘Lovely Paris’ show in the floating casino on the far side of Macau that night. He would pick us up from the Caravela in time for the show, where we could have our dinner too. Emrys and I took a taxi to the Caravela. Sadly, this lovely little hotel no longer exists, a victim of the rush to ruin and rebuild the best of Macau’s architecture in the 1980s and 90s. It really was a jewel of a building. It stood alone in its own neat garden, no doubt for long the residence of some wealthy merchant, grown rich on the pickings of the China trade in the 18th century. It was an exquisite example of the best Portuguese domestic architecture, painted an almost shocking pink outside, with all its decorative lace-like eaves and window recesses picked out in white, and a roof of traditional Mediterranean tiles. Inside it was just as attractive, with a fine mahogany staircase sweeping down into the central hallway and a series of elegantlyfurnished bedrooms around an open balustrade upstairs. It was a privilege to stay there. After checking in, we decided to go out and explore the town. The first thing we saw, from our taxi window, although we determinedly showed no interest in it, was the British Consulate, which stood nearby, absolutely covered in its demeaning graffiti of Red Guard slogans. We made for one of the main hotels for lunch and were gratified to note that one long table was packed end to end with extremely attractive young ladies enjoying their own lunch and smiling demurely in our direction between delicate mouthfuls. Macau was already living up to its reputation. Unknown to us then, we were to encounter them later. Aftet lunch we headed into the centre of town, to do the tourist bit. So we wandered around kr a couple of hours, taldng in some of the usual sights, including the old parts around the famous façade of the Sao Paolo Church. (...)
As we wended our way back along the Praya Grande, we again passed the Consulate and the Consul’s house. Approaching that area, still on guard against the possibility that our presence as representatives of British imperialism might have been detected, we came on a stretch of road under repair. It must have been a considerable excavation, because as we came abreast of it, one of the workers, looking up from his digging, suddenly grinned and held aloft in our direction a piece of dynamite. He brandished it in mock threatening mode, smiling broadly all the while, gold teeth flashing. (...)
For me, that storm-tossed night on the roof of Her Majesty’s Consulate in Macau in 1967 had a particular poignancy. I have often told friends of the time that I helped to haul down the flag on a British outpost in the East.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A estátua de Jorge Álvares e os eventos de 1966

Nos eventos conhecidos como 1,2,3 de Dezembro de 1966 alguns dos confrontos entre polícia e manifestantes tiveram lugar junto ao Palácio do Governo e a esta estátua (eregida em 1954) - enviada a partir de Portugal
Um dos braços da estátua acabou por ser arrancado como a imagem acima documenta. Serenados os ânimos o braço foi 'recolocado' e a estátua ainda hoje permanece no mesmo local.
O monumento assinala a chegada à China do navegador português Jorge Álvares em 1513/14.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O "1,2,3" de 1966 segundo Garcia Leandro

Por esta altura, em 1966, era quase Inverno em Macau mas ao nível político e social viviam-se dias bem quentes no que ficou para a história como o motim do 1,2,3. No blogue existem dezenas de post's sobre o tema (basta consultar as etiquetas ou utilizar o campo de pesquisa), alguns com testemunhos inéditos, e hoje publico mais alguns elementos que ajudam a compreender o que de facto se passou. Desta feita escolhi uns excertos da visão dos acontecimentos por parte do general Garcia Leandro, que foi governador de Macau entre 1974 a 1979 e publicou em 2011 o livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa (1974-1979)”. A imagem é do jornal Star, publicado em Hong Kong.

“As sucessivas revoluções internas que Mao foi desencadeando na China atingiram o seu zénite com a ‘Revolução Cultural’, com consequências graves e violentas em Hong Kong e Macau, em 1966 e 1967. A 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau o governador Nobre de Carvalho. Poucos dias depois, viu-se envolvido na crise do ‘1-2-3’, a mais grave que abalou Macau no século XX e que foi, sem dúvida, o maior levantamento social jamais vivido no Território. Com o apoio político da China maoísta radical, os guardas vermelhos entraram em acção, manifestando-se contra a presença portuguesa e provocando distúrbios públicos, recorrendo à violência física e tentando ocupar edifícios oficiais. Em Hong Kong aconteceu o mesmo.
O novo governador, sem qualquer responsabilidade no que se passara antes da sua chegada e no que veio a ocorrer, foi abandonado pelo Governo de Lisboa e teve de resolver sozinho a situação, tendo a Administração Portuguesa em Macau sido muito humilhada. De um modo que, hoje, é difícil de acreditar!
Em Lisboa, os jornais iam preparando a opinião pública para o pior, chegando mesmo a noticiar «graves acontecimentos»… que não tinham ocorrido. Toda esta crise está bem explicada e detalhada no livro de José Pedro Castanheira ‘Os 58 Dias Que Abalaram Macau’.
A autoridade da Administração só se começou a recompor, de forma difícil e lenta, a partir de 1970. Nobre de Carvalho, que foi ganhando a confiança da população local, teve o seu poder sempre muito condicionado pelos incidentes do ‘1-2-3’, em consequência deste imbróglio, criado pela situação política local e pelas dificuldades de gestão em Lisboa.
Nobre de Carvalho viria a ser apoiado pelos empresários locais e de Hong Kong e concentrou todas as suas capacidades na construção da primeira ponte Macau-Taipa, inaugurada em Outubro de 1974. É ainda durante a sua Administração que se concretizam dois grandes investimentos privados, com muito significado na época: o Hotel Lisboa, da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, em 1970, e o Palácio da Pelota Basca (Jai Alai), em 1974.
Quase no final do mandato de Nobre de Carvalho, no segundo semestre de 1973, viria a ocorrer o ruir brusco e descontrolado da Bolsa de Hong Kong e, em Outubro do mesmo ano, Macau e Hong Kong seriam profundamente abalados pela primeira grande crise mundial do petróleo. Em 1974, a situação agravou-se com a revolução portuguesa de 25 de Abril, que veio pôr, novamente, tudo em causa. Os responsáveis locais e a população foram apanhados de surpresa e o Governo de Macau só veio a reconhecer a nova situação política de Portugal a 29 de Abril… Acontece que o Conselho Legislativo dera, em 22 de Abril, a sua concordância ao governador para ser enviada uma mensagem de apoio e confiança ao professor Marcelo Caetano. Com os acontecimentos do dia 25, caiu-se num impasse, não sendo fácil dar apoio à nova situação que contrariava completamente a linha de orientação anterior. No entanto, no dia 29, seguiria novo telegrama de apoio à revolução, contra a opinião coerente da dra. Graciete Batalha. (Este episódio é explicado num outro capítulo do livro).
Logo nos primeiros dias, sucederam-se os escândalos, publicados diariamente na imprensa. A censura (nunca tinha existido para os jornais em língua chinesa) terminara para a comunicação social portuguesa. E levantaram-se, naturalmente, muitas dúvidas quanto ao futuro de Macau.” (...)


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Os eventos do 1,2,3 de 1966 vistos em Portugal

Impossibilitados de acompanhar o que acontecia em Macau devido à censura, em vários círculos da oposição em Portugal faziam-se cópias dactilografadas das notícias disponíveis que depois eram distribuídas e circuladas. 
Este é um desses casos. 
Uma cópia feita em Coimbra em 1967 reproduzindo notícias do jornal Gazeta Macaense de 31-1-1967.
O documento faz parte do espólio de Maurício Pinto/Judite Mendes de Abreu e está incluído no Ephemera "um projecto que tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais de José Pacheco Pereira, em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte" e que está disponível na internet.
NA: agradeço a José Pacheco Pereira a disponibilidade dada ao meu pedido e a cedência da imagem. Tal como em todos os posts clicar na imagem para ver em tamanho maior.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O "1,2,3" de 1966: testemunho de Maria Manuel Machado

“Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. A Revolução Cultural Chinesa era imparável. Até aí ela não era evidente em Macau. Mas, inevitavelmente, tinha de chegar. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China (que nunca houve), os incidentes visavam, tão-somente, mostrar a Mao Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Pretendiam mostrar o fervor das gentes de Macau, à causa da Revolução Cultural. Claro que o ʻincidente da Taipaʼ podia ter sido evitado. Os portugueses, por manifesta inabilidade, caíram na armadilha. Mas se não fosse esse, seria qualquer outro pretexto. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos. Em Novembro, um grupo de residentes chineses da ilha da Taipa tentou obter uma licença para a construção (ou reconstrução) de uma escola de feição comunista. Na impossibilidade de obter a licença, começaram ilegalmente a edificação. Rui Andrade, o administrador interino das Ilhas saiu de casa. Passou pela escola. Insurgiu-se contra a construção. Resolveu intervir. Apelou à autoridade. E eis como um homem fraco pode fazer história, da pior forma. A 15 de Novembro, a Polícia prendeu, de forma violenta, os responsáveis pela iniciativa, operários de construção, residentes e jornalistas. Foi, obviamente, uma precipitação. Até porque o pedido de licença estava parado numa qualquer gaveta de um qualquer burocrata. Mais, a brutalidade da intervenção foi, manifestamente, desproporcionada, quando era o diálogo e a diplomacia que se exigiam. O 2.º Comandante da PSP, Vaz Antunes, que estava presente durante o incidente, assim não entendeu. A arrogância imperou. A imprensa chinesa, em especial o jornal Ou Mun, e as associações comunistas atacaram em força. De repente, a revolução cultural entrou em Macau. A partir daí, os chineses tiveram necessidade de se manifestar. De provar a Mao Tsé-tung que eram patriotas. Os protestos iniciaram-se e foram sempre em crescendo. Na cidade, os taxistas passaram o sinal. Eram, na sua maioria, indonésios, expulsos por Sukarno. Estavam revoltados contra tudo e contra todos. Buzinavam sem parar. Incendiaram o ambiente. As manifestações sucederam-se. Manifestações com mais de 15.000 pessoas, o que era muito, face à dimensão do território. 

Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. Um potencial revolucionário impressionante. Os Guardas Vermelhos surgiram. O governo ficou debaixo de fogo. De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. Macau estava há alguns meses sem Governador. Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. A arrogância ao diálogo. O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. Não podia ter sido pior. Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. Pior, usaram de arrogância colonialista. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se.
No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. As escolas estavam mobilizadas. Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. Lá estavam guardadas armas e munições. Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. Não havia outra solução. O condutor da camioneta é a primeira vítima. O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. A confusão é enorme. Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. A multidão dispersa-se. Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. A tensão, no entanto, continuou a crescer. Várias famílias portuguesas começaram a preparar-se para abandonar Macau. O ʻ1-2-3ʼ é isso mesmo: mês 12, dia 3. E o futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.
A violência acabou. A repressão amainou. Começou, então, a pressão política. Uma pressão que assumiu proporções inenarráveis. As exigências não se fizeram esperar. Eram pesadas e inegociáveis. Os mortos de 3 e 4 de Dezembro mantinham-se nas urnas, por enterrar. E assim ficaram até à assinatura do acordo, a 29 de Janeiro de 1967. Todos os dias os chineses lembravam os mortos. Publicavam fotografias dos cadáveres. Uma pressão total. Em 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau novo Governador, Nobre de Carvalho. Apenas ao aterrar em Hong Kong, o Governador toma conhecimento da situação em Macau. Até aí nada lhe tinha sido dito. Absolutamente extraordinário. Mal chega a Macau, Nobre de Carvalho tem de iniciar a complexa negociação com os chineses e com Lisboa. O Governo de Lisboa mantinha-se irredutível. Salazar envia um telegrama em que resumia a sua posição: ʻConfirmar que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifíciosʼ. Um telegrama em tudo semelhante ao enviado para a Índia Portuguesa, imediatamente antes da invasão das tropas de Nehru. Um telegrama que não auspiciava nada de bom. No dia 16 de Janeiro, a comunidade chinesa adoptou a ʻpolítica dos três nãosʼ: não entregar impostos; não prestar serviços ao Governo (incluindo abastecimento de água e electricidade); não vender produtos portugueses. Entretanto, emergiram figuras que, até aí, se tinham mantido na sombra. Ho Yin, o líder da comunidade chinesa, é relegado para segundo plano. Emergem dirigentes comunistas. (...). Em Macau, o Conselho de Defesa estava reunido quase em permanência, sob a presidência de Nobre de Carvalho. Eram reuniões contínuas até altas horas da noite. Alinhavam-se argumentos. Definiam-se estratégias. Tudo em vão. As tentativas de chegar a um texto de acordo aceitável pelas duas partes sucediam-se. As negociações eram chefiadas por Mesquita Borges, chefe de gabinete do Governador e integravam, ainda, o Dr. Assumpção, advogado macaense e representante de Macau junto da Câmara Corporativa, em Lisboa e Roque Choi, secretário e braço direito de Ho Yin. Entretanto, por imperativa exigência chinesa, tinham sido demitidos Mota Cerveira, Galvão de Figueiredo e Vaz Antunes. O Comando da Polícia passou a ser exercido, interinamente, pelo capitão Lages Ribeiro.
Finalmente, a 29 de Janeiro, o Governo de Macau e as autoridades da República Popular da China, chegaram a um acordo, assinado na sede da Associação Comercial. Para Portugal, tudo foi humilhante naquele acordo. O local, o conteúdo, a forma. O Governo pediu desculpas à comunidade chinesa. Passou a ser proibido dar apoio ou asilo político aos nacionalistas do Kuomintang. Foram entregues à China cinco guerrilheiros nacionalistas, que foram imediatamente fuzilados. Procedeu-se à indemnização das famílias das vítimas. Ficou claramente marcada a posição da China. Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse.” (...)
Excerto do livro “Há Biscoitos no Armário”, (2011) de Jorge Pinheiro, sobre a vida de Maria Manuel Pimenta de Castro Machado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O “1, 2, 3″: um episódio na primeira pessoa

A propósito dos 45 anos passados sobre os acontecimentos que ficaram conhecidos como "1-2-3"... Quase dois meses que abalaram Macau entre Novembro de 1966 e Janeiro de 1967 como se de uma verdadeiro tufão (na imagem em baixo numa foto de AJMN Silva em 1968) se tratasse.
O senhor Cheong, tem 42 anos de idade. É um pacato funcionário público que frequenta um curso de administração na Universidade de Macau. No entanto, a marca do ” Um, dois três”, ainda o afecta hoje, passados que são 26 anos. Por isso, prestando-se a contar-nos o que viveu nesses dias atribulados de Macau, pede-nos que o identifiquemos apenas pelo apelido. Fotografias? Nem pensar!… É que Cheong, viveu mais intensa e convictamente os acontecimentos de finais de 1966 do que outros, já que era, com apenas 14 anos de idade, um dos jovens guardas vermelhos da escola Hou Kong, quartel-general do maoismo e espelho exemplar da “Grande Revolução Cultural” da China em Macau.
O jovem Cheong, chegou ao Território com a família, em 1962, pouco depois de ter completado a instrução primária em Chongsham, localidade situada a cerca de 40 quilómetros das Portas do Cerco. De imediato ingressou na escola Hou Kong, onde completaria o curso dos liceus. “Nesse tempo, era directora da escola a senhora Tou Lam, mulher do senhor Wong, membro importante do PCC e também um dos dirigentes, na cidade, da luta contra os nacionalistas do Kwomintang”, recorda Cheong, acrescentando ” Registou-se um crescendo na doutrinação política dos alunos ao longo desses quatro anos. Este crescendo, atingiu o auge em 1966, data em que vieram mesmo para Macau, comissários políticos da China para o efeito. Passamos a ter uma hora semanal de doutrinação política que se somava às prelecções sobre a “Grande Revolução Cultural” feitas todos os dias pelos professores das diversas disciplinas. A matemática, a Geografia, ou a Física, tinham sempre, necessariamente alguma coisa a ver com os heróis da revolução, Mao Tsé Tung, Chu En-lai, Chu Té, ou Ye Jienying”.
Cheong, recorda o fervor sentido na altura (que hoje leva à conta da falta de experiência de adolescente): – ” Era como se se tratasse de uma equipa de futebol! Os alunos tinham que bater o adversário e o adversários eram os nacionalistas do Kwomintang liderados por Chiang Kai-shek e os colonialistas portugueses” (tout court, já que desconheciam por inteiro o nome de Salazar). Por isso foi com mágoa (hoje talvez com algum alívio) que, irremediavelmente atrasado, não conseguiu incorporar-se nos grupos de alunos e professores da sua escola, que no dia 3 de Dezembro de 1966 marcharam para o Palácio da Praia Grande, subiram ao primeiro andar do edifício, onde recitaram (junto à porta do gabinete do Governador) palavras de ordem revolucionárias, levantando bem alto nas mãos, o livrinho vermelho de Mao Tsé Tung. Cheong encontrava-se na embocadura da San Ma Lo (avenida Almeida Ribeiro), quando ouviu o boato que inflamou a cidade: “A polícia atacou os professores e alunos, atirando algumas crianças das janelas do primeiro andar!” Claro que nada disto correspondia à verdade (veio a sabê-lo depois), mas na altura o seu desejo foi correr mais depressa ainda para o palácio do governo para se certificar do propalado horror. Como ele milhares de chineses de todos os bairros da a cidade correram também. No entanto, foi impedido de o fazer pela multidão que chegara ante e se concentrava já no Largo do Leal Senado e pelas barreiras policiais que impediam o acesso à rua da Praia Grande.
Cheong misturado entre a multidão viu serem atiradas pedras contra os guardas enfileirados, protegidos por escudos, na Rua Central, enquanto estes respondiam lançando gazes lacrimogéneos que faziam as massas refluir e adensar o largo da edilidade. Sobre as cabeças, a estátua do coronel Mesquita, num brônzeo gesto, segurava a espada que lhe pendia da cintura semi-desembainhada. Dali não vinha perigo, mas era uma figura numa atitude nitidamente, de que se recorda bem.
Cheong, sabia de Mesquita, não através das aulas de história, mas das prelecções dos comissários políticos que o davam como inimigo da China e arquétipo do colonialismo português, juntamente com Ferreira do Amaral, também perpetuado em bronze sobre um alto pedestal em granito, à esquina do Porto Exterior, no largo onde ainda não havia o Hotel Lisboa.
A certa altura, observou a multidão no meio da qual estava mergulhado, desviando as atenções dos cordões de polícia e passando a concentrar-se na tarefa de tentar apear aquele símbolo “odiado”. Os esforços foram vãos durante certo tempo, até que alguns populares subindo ao pedestal, envolveram a estátua em cordas que prenderam a uma camioneta. Esta arrancou com esforço fazendo finalmente com que o metálico vulto se abatesse no solo da praça. A base granítica ficou vazia e as massas soltaram em coro um grito indistinto de vitória. “O colonialismo é um tigre de papel!”.
Consumado o acto simbólico Cheong, que tinha saído irremediavelmente atrasado, decidiu então regressar a casa. Nada mais havia a ver depois daquilo. Para além dos acontecimentos da tarde do dia 3 de Dezembro, o ex-guarda vermelho não recorda mais do que memórias esparsas e indirectas dos acontecimentos. À noite, ouviu através da “Rádio Vila Verde”, a voz de Ho Yin apelar à população chinesa para que se mantivesse nas suas casas cumprindo o recolher obrigatório instaurado nesse próprio dia pelo governador Nobre de Carvalho.
Nos dias subsequentes soube que 8 pessoas tinham sido mortas nas ruas. Depois, soube também que o governo português tinha pedido desculpas formais pelos acontecimentos e pago uma indemnização às vítimas. Cem, ou duzentas mil patacas? não se recorda bem. mas sabe que tal montante daria para comprar então, pelo menos dez apartamentos na cidade. Nos meses subsequentes, a escola Hou Kong foi perdendo lentamente o ânimo revolucionário. Os comissários políticos regressaram à China e as aulas retomaram a sua forma habitual alienando a formação política.
A duas décadas e meia de distância, Cheong admite que nada o movia, nem contra os nacionalistas do Kwomintang, nem contra os portugueses – os dois inimigos principais, segundo os comissários políticos da escola - mas sente ao mesmo tempo que, apesar da frustração por não ter estado presente no Palácio da Praia Grande na hora certa, os seus colegas contribuíram para que algo mudasse em Macau. No entanto, talvez nem tudo na boa direcção É que muita gente de dinheiro fugiu definitivamente para a Formosa, deixando apenas o marasmo económico e o governo ficou inadmissivelmente enfraquecido por muitos anos. Os Kaifong (associações de Moradores) chegaram a fazer serviço de polícia já que esta se encontrava moralmente debilitada. Mas, o que é certo, é que os mesmos (ou quase) que tinham liderado os tumultos de 1966, continuaram a manter as suas posições em Macau. Doze anos mais tarde, estariam também na primeira linha dos que denunciavam os excessos da revolução cultural, acompanhando a ascensão de Deng Xiaoping ao poder em 1978″.
Para Cheong, os acontecimentos de finais de 1966 resumiram-se de facto e apenas, ao produto dos efeitos provocados pelas obras de ampliação de uma pequena escola da Taipa. Os chineses, sublinha, tradicionalmente arreigados à supremacia do bem público sobre eventuais códigos, “não compreenderam os impedimentos legais de origem Ocidental que se opunham à obra, por isso foram para a guerra. Hoje numa altura em que a China caminha para o primado da lei, parece-me mais do que nunca importante reflectir sobre o Um, Dois Três”.
Foi assim que o ex-guarda vermelho adolescente, da escola Hou Kong, terminou o seu relato, olhando para o relógio. Estava atrasado para picar o ponto. Cheong consciente dos seus deveres de funcionário público tinha a consciência de que não se podia atrasar. Afinal os seus instintos contestatários já lá iam havia 28 anos!
Artigo da autoria de João Guedes publicado na Revista Macau Série II, 1994
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