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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Códice Casanatense

O Códice Casanatense (ou Codex Casanatense 1889), datado do século XVI (1540), é um conjunto de 76 aquarelas indo-portuguesas - com legendas - que documentam os povos, costumes e trajes da rota marítima da seda, indo da África à China. Não se conhece o autor, muito provavelmente indiano.
O valioso documento está guardado na Biblioteca Casanatense, em Roma, com o seguinte nome oficial: “Álbum de desenhos ilustrando os usos e costumes das pessoas da Ásia e África com uma breve descrição em língua portuguesa”. Por volta de 1628 o documento ainda esteve em Lisboa sendo dos primeiros com registos iconográficos do Oriente a chegar à Europa. Simão Rodrigues (c. 1560-1644), importante pintor maneirista português teve na sua posso o códice e inspirou-se nele. Era um dos pintores preferidos da Companhia de Jesus em Portugal e criou obras que ajudaram a construir o imaginário visual das missões jesuítas no Oriente, cujos missionários partiam frequentemente de Macau.
Sem uma referência explícita a Macau, o Códice Casanatense, tem no entanto uma aguarela que se pode intitular "Gente da China".
Transcrição (Português Arcaico)
"Jente de terra da china chamão-se chinas sua lei he de jintios esta terra da china he m̃to rica mais bem piriguosa hanaueguaçam peracla porque se perdem m̃tos nauios"

Tradução/Adaptação:
"Gente da terra da China, chamam-se chineses; a sua religião é de gentios (não cristãos). Esta terra da China é muito rica, mas a navegação para lá é muito perigosa, porque se perdem muitos navios."

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os "religiosos de Santo Agostinho" e os 'frescos' da Ermida da Guia

22 de Agosto de 1589
Os religiosos de Santo Agostinho tomaram n'este dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça, em Macau, que já antes haviam fundado os padres hespanhoes da mesma ordem, os quaes o cederam por determinação d'el rei D. Fellipe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no anno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo.
in Commemorações da historia de Macau e das relações da China com os póvos christãos
Curiosidade:
A ermida da Guia é dedicada a Nossa Sra. das Neves. Durante trabalhos de restauro em 1996 foram descobertos alguns 'frescos', incluindo o desenho de uma águia bicéfala. Ainda hoje continua por esclarecer a origem deste 'fresco'. A águia bicéfala é frequentemente associada à Igreja Ortodoxa ou a impérios do Leste Europeu. No entanto, a sua presença na Capela de Nossa Senhora da Guia pode ser explicada por três hipóteses principais que os historiadores têm debatido:
Hipótese Agostiniana: Esta é a mais provável e encontra paralelo numa pedra gravada com um símbolo semelhante e pode ser visto do antigo Leal Senado. A águia bicéfala é um símbolo da Ordem de Santo Agostinho. Embora a capela não fosse formalmente gerida pelos agostinhos, a influência visual desta ordem na Ásia era imensa no século XVII, e o símbolo representa a elevação espiritual e a visão divina.
União Ibérica (1580–1640): O período em que as pinturas foram feitas coincide com a época em que os reis de Espanha (Habsburgo) também eram reis de Portugal. A águia bicéfala era o símbolo heráldico dos Habsburgos. Apesar de Macau manter a bandeira portuguesa, a presença do símbolo imperial em edifícios daquela época era uma forma de reconhecimento da autoridade monárquica global.
Pista Arménia: C. A. Montalto de Jesus sugeriu a presença de comerciantes arménios em Macau como a causa. Para os arménios, a águia bicéfala é um símbolo nacional e religioso antigo. Provas documentais Montalto admitiu não ter encontrado.

domingo, 5 de abril de 2026

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes"

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes, alem de hu grande numero de Christãos da terra, que davaõ larga matéria ao exercicio de nossos ministerios. Frequentavaõ os Sacramentos de oyto em oyto, ou quinze em quinze dias. Nos Domingos, e dias Santos acodiaõ à doutrina perto de mil escravos, cõ os quaes se fez muyto fruto."

Relato relativo a meados do século 16 (1562) incluído no 1º volume de "Oriente conquistado a Jesus Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Goa", obra "Ordenada pelo P. Francisco de Sousa* Religioso da mesma Companhia de Jesus. Lisboa: na Officina de Valentim da Costa Deslandes, Impressor de Sua Magestade, 1710."
* Jesuíta Francisco de Sousa (1649-1712).
Igreja Mater Dei/Ruínas de S. Paulo: o 'santuário dos jesuítas em Macau
(ainda não existia na época deste relato)
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

Em português actual:
"Haveria, neste tempo, na cidade de Macau, novecentos portugueses, além de um grande número de cristãos da terra, que davam ampla matéria ao exercício dos nossos ministérios. Frequentavam os sacramentos de oito em oito, ou de quinze em quinze dias. Aos domingos e dias santos, compareciam à doutrina cerca de mil escravos, com os quais se colheu muito fruto."

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Exacta & accurata delineatio cum orarum maritimarum (...)

Em baixo assinalei as duas localizações de "Macao" neste mapa de 1596: "Exacta & Accurata Delineatio cum Orarum Maritimarum tum etjam locorum terrestrium quae in Regionibus China, Cauchinchina, Camboja sive Champa, Syao, Malacca, Arracan & Pegu (...)"
O documento - também conhecido por Itinerário - foi desenhado por Arnold Floris van Langren e gravado pelo seu irmão Hendrik. Faz parte da obra de Jan Huygen van Linschoten, "Voyage ofte Schipvaert naer Oost ofte Portugaels Indien (...)" publicado em Amsterdão por C. Claesz em 1595-96.
Linschoten regista "Macao", no norte da foz do Rio Cantão, ao sul de "Lampacao" e "Bonna Ventura."
Texto de Günter Schilder (2003) - tradução/adaptação:
Este mapa cobre todo o Extremo Oriente, de Java ao Japão. Uma escala de graus é fornecida ao longo das bordas superior e inferior, indicando a latitude em intervalos de 5°. Um cartucho no canto superior direito contém um título bilingue resumindo os territórios aqui representados: 'A representação ou ilustração verdadeira de todas as costas e terras da China, Cochinchina, Camboja, Sião, Malaca, Arracan e Pegu, bem como de todas as ilhas adjacentes, grandes e pequenas, juntamente com os penhascos, recifes, areias, partes secas e baixios; tudo retirado das cartas marítimas e rotas marítimas mais precisas em uso pelos navegadores portugueses actualmente'. 
Um cartucho no meio, ao longo da borda superior, contém barras de escala em milhas holandesas e espanholas e, abaixo delas, o nome do gravador com o ano e a data do desenho. Os mares contêm desenhos de navios e monstros marinhos, bem como duas rosas dos ventos totalmente desenhadas.
Este mapa de 1595 é um dos primeiros mapas gravados que apresentam o conhecimento português deste área com bastante precisão. A metade esquerda do mapa das Molucas de Petrus Plancius, de 1592, serviu de modelo para a representação das Filipinas, grande parte do atual arquipélago indonésio e as ilhas situadas entre elas até ao Trópico de Câncer. Ao compor o mapa, Plancius utilizou mapas manuscritos do cosmógrafo e cartógrafo português Bartolomeu Lasso. Assim como o mapa do Itinerário, Lasso também mostra toda a ilha de Sumatra e uma parte maior do continente, desde a Baía de Bengala até à costa da China, a uma latitude de 27°N
Assim, o mapa no Itinerário estende-se mais para oeste, mas alcança muito menos para leste do que o mapa de Plancius. Ele não mostra os numerosos grupos de ilhas no Oceano Pacífico. (...)
Hendrik Floris van Langren fez uma representação do Japão, que se tornou obsoleta nesse mesmo ano já que um novo mapa do Japão foi publicado em 1595 no Theatrum Orbis Terrarum. Luis Teixera disponibilizou o desenho original a Abraham Ortelius em 1591 ou no início de 1592. O mapa no Itinerário também mostra uma parte maior do interior chinês do que a mostrada no mapa impresso das Molucas por Plancius. Podemos supor aqui que essa extensão foi baseada no exemplo do mapa da China de Ortelius de 1584. Esse mapa foi composto com a ajuda de informações de Jorge de Barbuda, um português a serviço de Filipe II da Espanha."

sexta-feira, 14 de março de 2025

Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente

"Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente" é o título de um livro editado pela primeira vez em 1812 por Mendo Trigoso (1773-1821), "em conformidade com um manuscrito por ele encontrado e com a tradução italiana do historiador João Baptista Ramuzio (1485-1557)". Seria reeditado em 1946 - imagem acima - com introdução e notas de Augusto Reis Machado pela Agência Geral das Colónias. 

Biografia resumida:
Duarte Barbosa nasceu em Lisboa ca. 1480 e morreu em Cebu em 1521. Foi um viajante e navegador português tendo servido como oficial do Estado Português da Índia entre 1500 e 1516-17.
Duarte Barbosa era filho de Diogo Barbosa, um servidor de D.Álvaro de Bragança que partiu para a Índia em 1501 na armada conjunta com Bartolomeu Marchionni sob o comando de João da Nova. Em 1500 o seu tio Gonçalo Gil Barbosa, após viajar na frota de 1500 de Pedro Álvares Cabral, foi deixado como feitor em Cochim e, em 1502, foi transferido para Cananor. Os locais descritos por Duarte Barbosa sugerem que terá acompanhado o tio nesta viagem até Cochim e Canano, tendo então aprendido a língua local (malabar). Em 1503 foi intérprete de Francisco de Albuquerque nos contactos com o rajá de Cananor. Em 1513 assinou como escrivão de Cananor uma carta para Manuel I de Portugal onde reclamava para si o cargo de escrivão-mor que lhe fora prometido. Em 1514 Afonso de Albuquerque recorreu aos seus serviços como intérprete na tentativa de conversão do rei de Cochim ao Cristianismo, conforme relatou em carta que enviou ao rei. Em 1515 Albuquerque enviou Duarte Barbosa a Calecute para vigiar a construção de duas naus que serviriam numa expedição ao Mar Vermelho, e na qual poderá ter participado já sob o novo governador. Duarte Barbosa regressou a Portugal onde terá terminado os manuscritos, conhecidos como o "Livro de Duarte Barbosa", entre 1517-18. Inicialmente conhecido através do testemunho do italiano Ramusio, o manuscrito original foi descoberto e publicado no início século XIX, em Lisboa.

"Tendo eu, Duarte Barbosa, natural da muito nobre cidade de Lisboa, navegado grande parte da minha mocidade pelas Índias descobertas em nome de el-rei nosso senhor e, tendo visto e ouvido várias coisas que julguei maravilhosas e estupendas, por nunca terem sido vistas e ouvidas por nossos maiores, resolvi-me a escrevê-las para benefício de todos."

Da obra destaco o capítulo "O Grande Reino Da China" (pp. 217-219) em que se pode estabelecer um certo paralelismo com a Suma Oriental de Tomé Pires em termos do primeiro 'olhar' sobre o Oriente no início do século 16. 
Duarte Barbosa, conhecido como o "Notociarista das Índias" diz que "não tenho informação, mas perguntei a mouros e gentios, homens de crédito" pelo que conclui: "É uma grandíssima terra e senhoria pela terra firma, e de longo da costa do mar, povoada também por gentios. (...) Os moradores deste reino são grandes mercadores. São homens brancos e bem despostos. Suas mulheres são de mui formosos corpos. Teem os olhos mui pequenos e nas barbas tres ou quatro cabelos e não mais, e os que mais pequenos teem os hão por mais gentis-homens." (...) Não tocam com a mão o que comem. chegam muito o prato à boca, e com umas tenazes de prata ou pau metem o comer na boca muito miude porque comem muito depressa. (...) fazem muita soma de porcelanas (...) navegam em juncos (...) aqui se cria mui boa seda(...) também levam anfião a que nós chamamos ópio (...) estes chins que vivem de trato e navegação, trazem de contínuo suas mulheres e filhos dentro das naus, onde vivem sempre e não têm casas. Confina este Reino da China com Tartária da banda do norte". 
O Grande Reino da China
Deixando estas ilhas, que sao sem conto, a que nao se sabem os nomes, assim habitadas como desertas, torno-me á costa que de Malaca vai contra os chins, de que nao tenho informagáo, mas perguntei a mouros e gentíos, homens de crédito, e me disseram que eram quatro ilhas habitadas; e, por eles, soube somente que passando o reino de Anseáo, e outros muitos, está o reino da China, que dizem que é urna grandíssima térra e senhorio pela térra firme, e de longo da costa do mar, povoada também de gentíos.
O rei déla é gentío, honra muíto os ídolos, está sempre no sertáo, tem mui grandes e boas cidades, nenhum estrangeiro pode entrar pelo sertáo, sómente nos portos de mar negoceiam; seu maior trato é ñas ilhas.
Se algum embaixador doutro reino vem a ele por mar, primeiro que a ele vá, lhe fazem a saber como lhe trazem certas embaixadas e presentes, entáo o manda ir onde ele está.
Os moradores deste reino sao grandes mercadores, sao homens brancos e bem dispostos. Suas mulheres sao de mui formosos corpos, ele e elas tém os olhos pequeños, ñas bar¬ bas tres ou quatro cábelos nao mais, por gentileza, e, quanto mais pequeños tém os olhos, tanto os háo por mais gentis homens.
Andam as mulheres mui ataviadas de panos de algodáo, seda e la.
Os trajos da gente desta térra sao como os de alemáes.
Comem em mesas altas como nos, com suas toalhas mui alvas, para quantos háo-de comer a urna mesa, póem urna faca, bacio, guardanapo e um pouco de prata ; nao tocam com a máo o que comem, chegam muito o prato á boca, e, com urnas tenazes de prata ou pau metem o comer na boca mui a miude, porque comem muito depressa, e fazem muitos man¬ jares de carnes, pescadas e outras muitas cousas. Comem mui bom pao de trigo, bebem muitas maneiras de vinhos; e, muitas vezes, a cada comer, comem carne de caes, e hao-na por mui boa carne.
Sao homens de muita verdade, porém nao sao bons cavaleiros, mas grandes mercadores, tratantes em toda a mercadoria.
Fazem aqui muita soma de porcelanas, que é boa mercadoria para todas as partes, que se fazem de búzios, de cascas de ovos e claras, e outros materiais, de que se faz urna massa que langam debaixo da térra por espago de tempo, que entre si tém por grandes fazendas e tesouro; porque quanto mais se achega o tempo para as lavrar, vale muito mais; o qual chegado, lavram-nas de muitas maneiras e feigoes, délas grossas, outras finas, e, depois de feitas as vidram e pintam.
Aqui se cria mui boa seda, de que fazem muita quantidade de panos de damasco de cores setins e outros panosrasos e brocadilhos. Também há muito ruibarbo, almíscar, prata, aljófar e pérolas, porém nao sao perfeitos em iedondeza.
Neste reino se fazem muitos brincos formosos e doma¬ dos, como cofres mui ricos, pratos de pau, saleiros e outras subtis coisas, e há na térra para isso homens mui engenhosos.
Calgam botas como gente de térra fría. Navegam em juncos, trazem velas de esteiras como em Mogambique e os cabres e enxárcia de certa verga.
Sao deles grandes corsários, navegam para Malaca com toda a mercadoria da China, que ai vendem mui bem, e carregam de muito ferro, salitre, retrós de cores e outras miudezas, como os venezianos soiam trazer antes as nossas partes, e de pimenta de Samatra e do Malabar, que vale na China a quinze e dezasseis cruzados o quintal, e daí para cima, segundo onde a levam, e, em Malaca a compram a quatro cruzados pouco mais ou menos, Também levam anfiáo a que nós chamamos opio, incensó, coral, paño de Cambaia e Paleacate.
Estes chins que vivem de trato e navegagáo, trazem de continuo suas mulheres e filhos dentro ñas naus, onde vivem sempre, e nao tém casas. Confina este reino da China com Tartária da banda do Norte.

sábado, 8 de março de 2025

O traje da mulher macaense

"O traje da mulher macaense: da saraça ao dó das nhonhonha de Macau" é o título de uma obra de Ana Maria Amaro editada pelo ICM em 1989.
Saraça: do malaio sarásah, tecido de algodão.
Dó: inicialmente usado pelas raparigas que estavam de luto aliviado e mais tarde também pelas mulheres casadas. As cores predominantes eram o verde escuro, lilás, rosa e preto. Composto por saia de lã às riscas verticais de barra preta com “silvas” bordadas; avental escuro com motivos florais ou geométricos; camisa bordada a azul nos punhos e ombreiras; algibeira e colete em geral azuis, o último sobriamente enfeitado com barra de veludo preta; lenço de cabeça e meio-lenço do peito roxo com ramagens e franjados; meias brancas de algodão rendadas e chinelas.
A autora voltaria ao tema com a publicação do artigo "A mulher macaense, essa desconhecida" na Revista de Cultura nº 24, de 1995.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

"Descripção da Cidade do Nome de Deos na China": 2ª parte

Forte de Santiago
No tocante às fortificações, tem esta cidade logo na entrada da barra um forte que chamam o Forte de Santiago (início da construção em 1616), que tem cento e cinquenta paços de comprido e cinquenta e cinco de largo, com que faz uma formosa plataforma, que fica alevantada do mar cinco braças, com um muro fundado em vinte e oito palmos de largo e acabado em dezassete; e esta dita altura é até (a)os parapeitos, que levantam só três palmos da dita plataforma, com que não podem guardar a gente nem artilharia, fazendo conta de lhe porem cestões na ocasião de briga. Está no meio desta praça uma cisterna, aberta no côncavo da rocha, capaz de (acomodar) três mil pipas de água, de que tem a maior parte. As casas que lhe ficam nas costas, pela banda de terra, são bastantes para alojar um capitão com sessenta homens, e aqui por baixo do chão estão casas de munições e mantimentos. Na entrada que tem pela banda da varela está uma casa de quatro águas, grande e formosa. E tem esta praça outra que lhe fica por cima, pegada com ela, a que se tolhe por quinze degraus, onde também está artilharia, e numa e noutra (fortaleza) é grossa (a artilharia). E no andar de cima estão as ditas casas de gasalhado para capitão e soldados. Deste forte que está na praia fica lançada uma cortina de muro (até) ao alto do monte (Penha), que acaba em uma casa, onde, quando aqui vivia o capitão-geral, fazia corpo de guarda.

Baluarte de Nossa Senhora do Bom Parto 
O outro baluarte é de Nossa Senhora do Bom Parto (junto à linha de água no sopé da Colina da Penha - muralha ainda existe na residência oficial do cônsul de Portugal em Macau)), um baluarte pequeno, em forma de triângulo, capaz de jogar dez ou doze peças de artilharia, de que tem seis, convém a saber: uma colubrina de metal de vinte libras, um canhão de metal de trinta (libras), uma meia colubrina de dez (libras), dois terços de canhão de dezoito libras, tudo de metal e (com) pelouros de ferro, e uma peça de ferro de oito libras, de pelouro de ferro.

Baluarte de Nossa Senhora da Penha de França
Em Nossa Senhora da Penha de França, que fica num monte superior a este, está também feito um baluarte pequeno, onde estão dois sagres de metal, que tira cada um com bala de sete libras de ferro.
Baluarte de S. Francisco 
(no extremo da baía construído por volta de 1629 junto à linha de água existindo ainda uma muralha do tempo em que foi construído o quartel de S. Francisco).
O baluarte de São Francisco (imagem acima), que está em forma oval, tem seis peças de metal, convém a saber: duas colubrinas de vinte libras de bala, um canhão de trinta (13,6 Kg), dois meios canhões de vinte (libras) cada um, um terço de canhão de dezoito [libras], todas peças de metal e (com) os pelouros de ferro. Ao pé deste baluarte de São Francisco está uma plataforma onde está uma colubrina, que atira trinta e cinco libras (15,8 Kg) de pelouro de ferro, (sendo) a maior peça que há nesta cidade. Na Praia Grande está uma plataforma, que tem um terço de canhão de metal, que atira bala de dezoito libras de ferro.
Baluarte de Nossa Senhora da Guia
O monte de Nossa Senhora da Guia é o mais alto que há nesta cidade, por cuja causa se faz no cume dele um baluarte que tem cinco peças, convém a saber: uma colubrina bastarda que atira bala de oito libras de ferro, um pedreiro que atira bala de seis libras, três sagres que atira(m) cada um com bala de nove libras de ferro, todas peças de metal. Estão em cima neste monte casas para se poder alojar uma companhia de soldados, e também cisterna de água, mas como fica cavaleiro ao forte de São Paulo tem-se por melhor arrasá-lo, como se pôs já em preço com os chineses, que se obrigam a o fazer por sete mil taéis.
Forte de São Paulo 
(as primeiras fortificações foram concluídas em 1606 e a fortaleza entre 1617 e 1620)
A força de mais consideração e importância que há nesta cidade é a de São Paulo, vivenda dos capitães-gerais, chamada por outro nome a Madre de Deus, que é um monte natural, eminente e cavaleiro a toda a cidade, onde, no cume dele, está feito um muro, começado no alicerce em vinte palmos de largura, com pedra mármore, até que sai em cima da terra em altura de seis palmos, donde começa a ser só de terra e cal, misturada com alguma palha, batida com batedores tão fortemente que fica fortíssimo, e para a bateria muito melhor [do] que se fora de pedra, porque não o abala tanto. 
Sendo que fica tão dura a parede (feita) desta terra e cal, como se fazem todas as casas nesta cidade, que, para lhe abrirem as janelas depois de feitas, o fazem com muitos picões de ferro, com grande força e trabalho. Vão os ditos muros estreitando pela medida de seu escarpe, até ficarem em quinze palmos de grossura em cima, no andaime dos parapeitos. A altura deste muro é de cinquenta palmos, que é o mesmo que cinco braças. Está feito o dito forte em quadro perfeitamente, ficando-lhe em cima uma praça de cem passos de cada lado, e tantos tem de comprimento cada lanço de muro, que vão a fazer nos quatro cantos quatro baluartes em forma de espigão, como da planta se vê.
Fica mais em cima, no meio da dita praça, a que cercam quatro renques de casas, umas em que moram os (capitães)-gerais e as três para os soldados, uma torre cavaleira de três sobrados, que em cada um tem artilharia, em a qual e nos ditos quatro baluartes estão repartidas dezoito peças de artilharia de metal, toda grossa, convém a saber: uma colubrina real, que atira trinta e cinco libras de bala, outra colubrina que atira vinte (libras), duas meias-colubrinas de doze (libras), uma meia-colubrina de dezoito (libras), dois canhões de trinta (libras), sete meios canhões de vinte (libras), um meio canhão de vinte e cinco (libras), três terços de canhão de dezoito (libras), todos (atiram) pelouros de ferro, e cavalgadas estas peças em seus reparos ferrados, muito bem concertados. 
Tem este forte à porta, da banda de dentro, um corpo de guarda. E por uma e outra banda se sobe ao monte, que fica igual com o muro, e no côncavo dele estão abertas casas de munições, que tem bastantes para qualquer guerra, mas não para um cerco de mais de dois anos, a respeito da muita pólvora que gasta esta artilharia grossa, posto que podem ter materiais de que a vão fazendo, pelos muitos que há na terra.

De mantimentos não é tão provida esta cidade, com haver na terra dentro muitos e bons e baratos, porque, como os esperamos da mão dos chineses, em tendo qualquer sentimento de nós, logo nô-los tolhem, sem terem aqueles moradores modo para os irem buscar a outra parte, havendo-os em Cochinchina, que está de Macau cem léguas ao sudoeste, e também [havendo] alguns nas muitas ilhas que cercam a península onde está a cidade, de que as mais são habitadas.

Porto de Macau
A barra desta cidade de Macau era antigamente muito larga, porém, os portugueses moradores dela entupiram a maior parte, a respeito dos holandeses não poderem entrar com suas naus senão por um canal que lhe fica ao longo do dito Forte de Santiago, coisa de seis braças de largura e com fundo de três, ficando lá dentro em muito mais fundo. Desde a dita barra para dentro, até ilha Verde, que fica dentro nela, estão continuamente seis bancões de chineses da armada, que são as suas embarcações, que trazem de lá para vigiar e saber o que fazem os portugueses, se metem nações estrangeiras (em Macau), que é o de que mais se ciam e resguardam.
Entra-se para esta barra por entre muitas ilhas, quase infinitas, as mais delas habitadas, como fica dito. A costa deste reino e terra corre não perfeitamente ao nordeste-sudoeste, porque faz grandes enseadas e nunca vai direita a um rumo. Os ventos que nela cursam, o mais ordinário é o leste, que é o que aqui reina, e com que dão grandes tormentas. De Outubro até meado de Março cursam nortes e nordestes, com que se navega para Malaca e todas as partes a que se vem por ela; e para Japão de meado [de] Maio até todo [o] Agosto com sul, sudoeste e sueste; e para Manila todo o ano. E estas são as monções de ventos e navegações que há nesta costa. Antigamente davam nela grandes tormentas de ventos, que chamam tufões, que arrancavam árvores muito grandes e arrebatavam os homens do chão com grande fúria; depois que para lá levaram um braço do glorioso São Francisco Xavier (...) . Porém, o que têm é só gado, porco, galinhas e marrecas.
Os muros que tem esta cidade estavam quase acabados por Dom Francisco Mascarenhas, o primeiro capitão-geral que teve e que lhe fez as mais destas obras. Porém, os chineses, como são tão desconfiados, fizeram derrubar grande parte deles, dos que estão para a banda da terra, que iam correndo do dito forte de São Paulo, parecendo-lhes que contra eles é que se faziam. E assim ficaram só as (muralhas) que correm em frente do mar e da banda do poente, e uma tranqueira na praia de Cacilhas, onde desembarcou o inimigo quando acometeu esta cidade. A altura destes muros é de duas braças até [a]os parapeitos e a largura fica sendo neles de oito palmos, advertindo que, como o chão por onde vai correndo não é todo igual, senão em partes desce e sobe, também assim fica sendo o muro, ora mais alto ora mais menos, para ficar por cima correndo todo ao nível. É feito da mesma matéria que temos dito, de terra e cal entressachada, alguma palha, e tudo muito calcado, com [o] que são muito fortes.
Na plataforma que têm na Praia Grande, está um terço de canhão de dezoito libras, e noutros dois baluartes, [n]um chamado São Pedro, dois sagres, cada um de bala de sete libras, e noutro chamado São João, um terço de canhão de dezoito libras e uma meia-colubrina bastarda de oito (libras), tudo [de] pelouros de ferro. Em toda a dita artilharia referida têm mais quatro trabucos de metal de vinte e cinco libras cada um, três peças de ferro de sete libras, cinco falcões de bronze, três berços de bronze, dois falcões de ferro, um trabuco de ferro, que estão para se porem onde for necessário.
Há na dita cidade de Macau setenta e três peças de artilharia, afora muitas de particulares e de Sua Majestade, de ferro, que estão feita[s]. Porque tem esta terra uma fundição das melhores que há no mundo, assim de bronze, que antigamente tinha, como de ferro, que o conde de Linhares, vice-rei, lhe mandou fazer, onde se está sempre fundindo artilharia para todo este Estado [da Índia], em preço muito acomodado, que é o de que tem mais necessidade, donde todo ele se proverá, a estar desimpedido o estreito de Singapura, que continuamente nas monções está cercado dos holandeses, como atrás fica dito.
Toda a dita artilharia que tem esta cidade e obras de muros e fortes fez ela à sua custa, sem a Fazenda Real entrar nisso com coisa alguma, em tempo que a viagem de Japão corria quase por sua conta, e particularmente os direitos [a] que chamavam o caldeirão, que são hoje a oito por cento de todas as fazendas que vão para [o] Japão, e antigamente eram a três e a quatro [por cento], e ainda assim lhe rendiam muito. Porém, foram tão largas as despesas que, além da viagem de que Sua Majestade lhe fez mercê, que está hoje empenhada em grandes quantias, a cujo respeito lhe são concedidos os ditos direitos -- porém, com um exacto regimento que o dito conde de Linhares lhe mandou fazer das despesas, que hão-de fazer só as que forem forçosamente necessárias, e para lhe tomarem contas como nunca deram -, de sorte que, conforme o regimento adiante lançado para o administrador da viagem de Japão e este para a cidade, e outras ordens que lhe fez guardar, a fez o dito conde vice-rei muito obediente a todas as [determinações] de Sua Majestade, que dantes não era, a pôs em modo de se tirar dela muito proveito para sua real Fazenda, com a grande cópia de artilharia de ferro e cobre para a Índia, que se manda vir todos os anos.
Não tem Sua Majestade outra renda alguma nesta cidade mais que a das ditas viagens, porque o rei da China, em cuja terra está, lhe arrecada os direitos de tudo o mais, convém a saber: da entrada de todo o género de embarcação que ali venha com fazendas pagam a medição dela conforme o tamanho da embarcação (os patachos de quinhentos ou seiscentos candis, a quinhentas ou seiscentas patacas, pouco mais ou menos), tirando que se, quando vão medir as embarcações, há modo de irem peitando aos medidores que o façam favoravelmente, vem a render muito menos, porque eles buscam o seu proveito mais que o d'el-rei, e não reparam em ir a embarcação carregada do que quer que seja.
Da saída, os direitos que pagam é em Quantão, uma cidade dos chineses onde se vai por um rio dentro, léguas de Macau, onde se faz a feira das fazendas, afora muitas que vêm à formiga. E não é coisa certa, porque fica sendo muito menos quando os chineses não têm algum sentimento dos portugueses de alguma coisa que lhe hajam feito ou dado, ou morto a algum chinês, como acontece muitas vezes, porque tudo lhe[s] fazem pagar a dinheiro, prendendo a lanteia, que é a embarcação onde se vão buscar as fazendas, com alguns cidadãos de consideração que abram a feira. Onde também lhe[s] fazem os chineses muitas avexações, não sendo as menores os furtos e roubos que são notáveis, e os chineses tão inclinados a isso que até as mais miúdas coisas que vendem trabalham sempre por ser com enganos.

Nota: as imagens apresentadas visam uma melhor compreensão do texto e não estão incluídas na obra referida. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

"Descripção da Cidade do Nome de Deos na China": 1ª parte

O "Livro das plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da India Oriental" é de 1635. Com texto de António Bocarro, cronista-mor do Estado da Índia e ilustrações (48) do cartógrafo Pedro Barreto de Resende foi uma encomenda de Filipe III, através do vice-rei da Índia D. Miguel de Noronha, conde de Linhares (Resende era o se secretário), numa altura em que, na zona europeia do Império, se iniciavam já as acções de revolta contra o domínio espanhol, as quais se adensariam cada vez mais até 1640, apenas cinco anos depois.
O autor do texto, além da descrição das cidades e fortalezas da região, efectua ainda um resumo de tudo o que de mais importante havia a destacar em cada uma delas, acrescentando por vezes leituras pessoais sobre o que considerava estar menos bem ao nível político e social e apontando soluções. Bocarro proporciona ainda elementos sobre as rotas comerciais, sintetizando a actividade mercantil dos portugueses, das vias que percorriam, dos produtos que transportavam e do modo como os negociavam.
Sobre Macau - "uma das mais nobres cidades do Oriente" - é então apresentada uma "Descripção da Cidade do Nome de Deos da China" feita por António Bocarro e uma planta do território feita por Pedro Resende onde se evidenciam as muralhas, fortificações militares, igrejas e os edifícios residenciais já existentes no início do século 17.
Bocarro era "cronista e guarda-mor" da Torre do Tombo de Goa e tanto quanto se sabe nunca esteve em Macau pelo que o que escreve só pode ter tido por base testemunhos de outras pessoas e documentos aos quais tinha acesso devido ao cargo que ocupava. Seja como for estamos perante um dos melhores relatos dos primórdios de Macau cujo assentemento remonta a 1557.
Não me vou ocupar dessa parte, mas destaco ainda o facto de ele apresentar um retrato sobre o reino da China: "De maneira que tem a China toda quinhentas e sessenta cidades."

Nota: De forma a facilitar a leitura os excertos que apresento são em português actual com notas de contexto entre parêntesis.

A Cidade do Nome de Deus está em altura de vinte e dois graus e meio da banda do norte, sita na ponta austral duma península, na costa do rei-no da China, à fralda do mar, na província de Quantão, uma das quinze em que se divide este grande reino do estado de Noanxan. Esta ponta da dita península é chamada pelos nossos e pelos naturais Macau. Tem a península uma légua de comprido e no mais largo quatrocentos passos. A cidade fica tendo meia légua de comprimento, e onde mais estreita cinquenta paços e onde mais alarga trezentos e cinquenta. Fica participando de dois mares, do levante e poente. É uma das mais nobres cidades do Oriente, por seu rico e nobilíssimo trato para todas as partes, de toda a sorte de riquezas e coisas preciosas em grande abundância, e de mais número de casados e mais ricos que nenhuns que haja neste Estado (da Índia).
D(esde) o ano de mil quinhentos e dezoito, em que os portugueses a primeira vez vieram à China, com uma embaixada do sereníssimo Rei Dom Manuel,contrataram em vários portos deste reino, e finalmente no porto e ilha de Sanchoão, onde esta cidade tomou seu primeiro princípio e onde, no ano de mil quinhentos cinquenta e dois, faleceu São Francisco Xavier, segundo apóstolo da Índia e padroeiro desta cidade (de Macau). E no ano de mil quinhentos cinquenta e cinco se passou o trato à ilha de Lampacau. E no de mil quinhentos cinquenta e sete se passou para este porto de Macau, onde, com o trato e comércio, se foi fazendo uma populosa povoação. E no (ano) de mil quinhentos oitenta e cinco, sendo vice-rei da Índia Dom Francisco Mascarenhas, foi feita cidade por Sua Majestade, com título do Nome de Deus, dando-lhe por armas a cruz de Cristo e outras liberdades, de que goza com privilégios da cidade de Évora.
É porta por onde veio da Índia à China por mar o apóstolo São Tomé e por onde, nestes tempos, o Santo Evangelho, levado pelos religiosos da Companhia de Jesus, entrou nestes reinos e no de Japão e Cochinchina, com grande glória sua e aumento de sua Igreja.
Os casados que tem esta cidade são oitocentos (e) cinquenta portugueses e seus filhos, que são muito mais bem dispostos e robustos que nenhuns que haja neste Oriente, os quais todos têm, uns por outros, seis escravos de armas, de que os mais e melhores são cafres e de outras nações. Com (o) que se considera que, assim como têm balões que eles remam, pequenos, em que vão a recrear-se por aquelas ilhas, seus amos poderão também ter manchuas maiores, que lhes ser-virão para muitas coisas de sua conservação e serviço de Sua Majestade.
Além deste número de casados portugueses, tem mais esta cidade outros tantos casados entre naturais da terra, chineses cristãos, que chamam jurubaças, de que são os mais, e outras nações, todos cristãos. E assim os portugueses como estes têm suas armas muito boas, de espingardas, lanças e outras sortes delas, e raro é o português que não tem um cabide de seis ou doze mosquetes e pederneiras, e outras tantas lanças, porque os fazem dourados, que juntamente lhe(s) servem de ornamento das casas.
Tem, além disto, esta cidade muitos marinheiros, pilotos e mestres portugueses, os mais deles casados no Reino, outros solteiros, que andam nas viagens de Japão, Manila, Solor, Macáçar, Cochinchina. Destes, mais de cento e cinquenta, e alguns são de grossos cabedais, de mais de cinquenta mil xerafins, que por nenhum modo querem passar a Goa, por não lançarem mão deles ou as justiças (reais) por algum crime ou os vice-reis para serviço de Sua Majestade. E assim (há) também muitos mercadores solteiros, muito ricos, em que militam as mesmas razões.
Tem mais esta cidade capitão-geral, que governa as coisas de guerra, com cento e cinquenta soldados, em que entram dois capitães de infantaria e outros tantos alferes, e sargentos e cabos de esquadra e um ajudante, um ouvidor e um meirinho, que administra(m) justiça. Vence o ouvidor cem mil réis de ordenado, consignados na alfândega de Malaca. E (sobre) ministros eclesiásticos tem um bispo, que hoje é morto e ainda não está provido (substituído), que vence dois mil xerafins de ordenado, pagos na alfândega de Malaca. (...)
continua...

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

The Beginning of the Modern Chinese Press History

林玉鳳撰澳新聞出版史發行 2016.05.06
由文化局和社會科學文獻出版社聯合出版、澳門學者林玉鳳撰寫的《中國近代報業的起點——澳門新聞出版史(1557-1840)》,五日在澳門及內地同時發行。新書發佈會及座談會同日在中國人民大學新聞學院舉行。
社會科學文獻出版社總編輯楊群,澳門特區政府文化局學術及出版處長黃文輝,中國新聞史學會會長方漢奇、副會長王潤澤,北京師範大學傳播學院副院長張洪忠,中國人民大學新聞學院教授趙永華、趙雲澤,中國青年政治學院教授陳丹旭,社會科學文獻出版社當代世界出版分社總編輯高明秀、國際問題編輯室主任王曉卿,以及作者林玉鳳出席新書發佈會。
《中國近代報業的起點——澳門新聞出版史(1557-1840)》研究第一次鴉片戰爭前的澳門新聞出版事業,年限由一五五七年葡人正式入居澳門至一八四○年,時間跨度近三百年,包括耶穌會傳教士利瑪竇和羅明堅的宗教出版活動、基督教新教傳教士...馬禮遜的宗教和新聞出版活動,以及林則徐和馬禮遜的譯報活動等。該書是作者多次到葡萄牙、西班牙、法國、德國、英國、意大利等地圖書館及檔案館尋找第一手資料,在積累十年材料的基礎上撰寫而成,資料翔實,論證嚴密,觀點新穎,除廓清歷史疑團、填補中國新聞史上澳門部分歷史空白外,更從不同角度總結了鴉片戰爭前澳門新聞出版事業在澳門史、中國新聞史、出版技術史以及中西文化交流史上的意義,具有較大的學術價值。
新書出版在北京引起強烈反響。王潤澤認為此書不僅對澳門本地文化歷史研究有重要的補充意義和價值,同時對中國近代報刊起源本身,對起源過程中所呈現的跨文化交流的文化學方面的細節內容,都有重要的學術價值。
在隨後舉行的座談會上,專家學者圍繞該書和“澳門與中國近代新聞史”主題,探討了澳門報業在中西文化交流史上的作用。中國新聞史學會特邀理事、中央民族大學教授白潤生表示,本書的出版,成功的填補了的學術空白,顯示作者的學術眼光和視角,恢復了歷史的真實面貌。
出席座談會的學者有北京大學新聞與傳播學院學術委員會主任程曼麗、中國人民大學新聞學院教授陳力丹、清華大學新聞與傳播學院教授李彬等。會上還舉行了贈書儀式。林玉鳳感謝各方的支持和培養。
Quadro anónimo do chamado período "chinese school". Praia Grande no século 19

O livro “The Begining of The Modern Chinese Press History/Macau Press History 1557-1840”, editado em 2016 é da autoria de Agnes Lam, professora de Comunicação da Universidade de Macau, e reporta-se a um período de cerca de 300 anos entre 1557 a 1840, ou seja, desde a fundação de Macau até à primeira Guerra do Ópio, em meados do século XIX.
Sendo o livro em chinês tive apenas acesso a alguns artigos de jornais sobre o mesmo. Segundo eles, na obra revela-se que ainda antes do "Abelha da China" (1822) surgiu em Macau um jornal em português intitulado “Início do Diário Noticioso” lançado em 1807. Foi fundado por Joaquim Leite. Na falta de algum documento que prove esta título é, no mínimo, estranho. Importa referir que Joaquim José Leite era um jesuíta. Foi reitor do Seminário de S. José.
Presbítero da Congregação da Missão e Superior no colégio de S. José das Missões em Macau, nasceu em Portugal em 1764 e foi para Macau na qualidade de Mestre do Seminário, quando este foi erecto pela rainha D. Maria I. Foi nomeado superior do colégio em 1801. Foi Membro da Sociedade Asiática-Britânica, e Cavaleiro da Ordem de N. S. da Conceição de Vila Viçosa. Morreu com 91 anos a 25 de Junho de 1853.
Além do estudo sobre as publicações em língua portuguesa, a académica revela ainda as origens do título do primeiro jornal chinês moderno. “Inicialmente pensava-se que o primeiro jornal chinês moderno tinha sido publicado pelo missionário alemão Karl Gutzlaff em Cantão, em 1833. Mas descobri que, seis meses antes nesse mesmo ano, o missionário inglês Robert Morrison lançou em Macau o jornal em língua chinesa Tsŭ-wăn-pien”. Apesar das declarações de Agnes Lam, há muito que se sabia esta informação.
Os primórdios da imprensa em Macau estão directamente ligados ao trabalho dos missionários jesuítas. As primeiras impressões foram produzidas segundo o método tradicional chinês de impressão com blocos de madeira e efectuadas pelo padre jesuíta Michele Ruggieri assumindo-se que o primeiro livro foi impresso em 1588.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

"Macao" num mapa da Ásia ca. 1630

Localização de "Macao"
Em cima um mapa da Ásia inserido na obra "Taboas geraes de toda a navegação, divididas e emendadas por Dom Jeronimo de Attayde com todos os portos principaes das conquistas de Portugal delineadas por João Teixeira cosmographo de Sua Magestade, anno de 1630".
O título inclui dezenas de mapas de todo o mundo bem como mapas das várias cidades conquistadas pelos portugueses, com especial incidência na Índia. Macau surge representado neste e noutros mapas - representação cartográfica - como o do Oceano Índico.

Tem algumas semelhanças com o este abaixo... e existe uma 'cópia' espanhola - Portugal estava na altura sob domínio filipino - intitulada "Mapas generales originales y universales des todo el orue con los puertos principales y fortalezas de Ambas Indias y una descripcion topographica de la region Austral Magallonica año de 1692".
Mapa da Ásia de Fernão Vaz Dourado, 1571

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O Atlas de Francisco Rodrigues

Conservado na Biblioteca da Assembleia Nacional Francesa e conhecido como “O Livro de Francisco Rodrigues” é o primeiro Atlas da História Moderna relativo ao sudeste asiático. Datado de 1511-1515 é da autoria do piloto e cartógrafo português Francisco Rodrigues que andou pelas imediações do que viria a ser Macau nesta época.
Folio 37

Luis Keil, no livro de 1933, "Jorge Álvares, o primeiro português que foi à China" refere Francisco Rodrigues...
"(...) João de Barros, o nosso grande historiador do Oriente, na sua Década III, livro VI e cap. II, refere-se a Jorge Alvares e ao padrão que êle levantara, embora não declare ter sido êle o pri¬ meiro que fôra à China. Antecipa, porém, a sua ida de um ano à de Rafael Perestrelo2. A correlação entre a passagem da carta de Jorge de Albu¬ querque e o texto da Década de João de Barros, completa e aclara o conhecimento exacto do feito. Assim podemos hoje saber definitivamente, que o primeiro português que, em nome do Rei de Portugal, desembarcou na China foi Jorge Alvares, localisando o lugar do levantamento do padrão com as armas do Reino, testemunho dessa missão, muito perto do pôrto de Tamau (Ta-raang), a dezoito quilómetros de Cantão, e estabelecendo a data da sua chegada ali, em Junho de 1513'. A história deve conservar êste nome a par dos de Rafael Perestrelo, de Fernão Péres de Andrade e do infeliz embaixador Tomé Pires, boticário do infante D. Afonso. Foram as cartas de Malaca, a que já me referi, recebidas, sem dúvida, pelo rei português depois do meado do ano de 1614, ou ainda outras que se perderam, que decidiram D. Manuel a mandar «assentar a China», dando provisão dela a Fernão Peres de Andrade e enviando uma armada especial em Abril de 1515. Rafael Perestrelo, só depois da chegada a Malaca de Jorge Álvares partiu para Cantão, seguramente na monção de 1516. Por lá se demorou, e, não voltando no tempo normal da monção de regresso, julgaram os de Malaca que estivesse prêso com os seus companheiros Èste facto provocou a ida antecipada de Fernao Péres de Andrade que, chegando tarde a Malaca, logo partiu para a China, mas teve que retroceder por ser adiantada demais a monção de 1516. De volta a Malaca encontrou ali Rafael Perestrelo que vinha muito rico da China Nada mais direi da expedição de Fernão Péres, da de seu irmão e da de Martinho de Melo Coutinho. A história já muito falou nelas. E Jorge Alvares? Quando voltou a Malaca?
Jorge Alvares, parece ter voltado à China depois da sua vinda de Cantão; não encontro, porém, outra referência senão em 1517, quando, num junco, se avista, nas águas da China, com Fernão Péres e o avisa do estado precário em que se encontrava a fortaleza de Malaca. Num dos anos seguintes, 1519, vemo-lo em Tamau juntamente com Jorge Botelho, Álvaro Fuzeiro e Francisco Rodrigues na esquadra de Simão de Andrade. Jorge Alvares deve ter-se sepaparado de Simâo de Andrade e voltado a Malaca, pois em 1620 combate contra o rei de Bintão nas cercanias da cidade, no sítio chamado do Págo, e, depois, na ribeira de Muár, comandando um lanchara'. A viagem da China seduzia-o...
Na monção de 1521, torna a partir para Cantão e, perto dali, encontra Diogo Calvo e Francisco Rodrigues nos seus juncos. Mas os tempos eram adversos aos portugueses. Simâo de Andrade, com as exacões e as temeridades, exasperava os sentimentos dos chineses e comprometera a boa obra encetada por seu irmão Fernâo Péres e por Jorge de Mascarenhas. Os chineses atacam os navios dos portugueses e a situação, havendo-se complicado, torna-se verdadeiramente critica. Jorge Alvares, que assumira o comando dos navios, está muito doente. O junco de Francisco Rodrigues é saqueado. Em 27 de Junho chega Duarte Coelho com dois navios, mas as circunstâncias não se modificam. Jorge Alvares morre nos braços do seu grande amigo Duarte Coelho, na tarde do dia 8 de Julho de 1521. (...)

segunda-feira, 29 de maio de 2023

"Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644"

Sugestão de leitura:
"Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644 - A Synthesis of Portuguese and Chinese Sources", livro da autoria de Tien-Tsé Chang (doutorado em filosofia) publicado em Leyden (Holanda) em  1934.
A obra seria reeditada em 1969 e já na década de 1990 teve direito a tradução para português: "O comércio sino-português entre 1514 e 1644". Uma síntese de fontes portuguesas e chinesas", edição do IPOR em 1997.
É uma das raras, e porventura a primeira, tese de doutoramento de académicos chineses sobre a história de Macau sintetizando e sistematizando as fontes chinesas e portuguesas sobre as relações luso-chinesas.
Quando, em 1934, foi dada à estampa pela primeira vez a obra de Zhang Tianze (Tein-Tsê Chang), Sino-Portuguese trade from 1514 to 1644. A synthesis of Portuguese and Chinese sources, a historiografia das relações entre Portugal e a China encontrava-se ainda em fase de tímido despertar.
O livro de Zhang Tianze, cuja edição em inglês do livreiro E. J. Brill, de Leiden, se encontra já há muito esgotada, e é ao presente editada na versão portuguesa pelo Instituto Português do Oriente, constituiu, na época, um contributo inovador. Desde logo, por se entregar ao estudo dos contactos comerciais entre portugueses e chineses, na “mádia duração”, isto é desde a conquista de Malaca por Albuquerque (1511) até à queda da dinastia Ming, em 1644.
Depois, e principalmente, porque Zhang Tianze desbravava uma via inovadora, no plano metodológico, ao cruzar informações das fontes portuguesas (e outras europeias) e chinesas (e outras asiáticas). Para o leitor ocidental de então, como de hoje, o primeiro capítulo, no qual se faz uma resenha histórica do comércio marítimo chinês desde a Antiguidade até c. 1513, revela-se de grande utilidade. Nos outros seis capítulos desfilam os pontos marcantes para a construção de uma visão panorâmica do comércio luso-chinês entre 1514 e 1644, completada com algumas incursões aos domínios do político-diplomático.
Texto Fund. Oriente.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Ragionamenti di Francesco Carletti Fiorentino (...)

Já em posts anteriores falei de Francesco Carletti (1573-1636). Para a publicação de hoje seleccionei alguns excertos sobre "Amacao" no tempo em que este mercador italiano por lá andou, no final do século 16, tendo assistido a um eclipse e sentido de perto os efeitos de um tufão. Fazem parte do livro "Ragionamenti di Francesco Carletti Fiorentino sopra le cose da lui vedute ne' suoi viaggi Si dell'Indie Occidentali, e Orientali (...) Firenze" publicado em 1701.
Publicado em Firenze (Florença) em 1701.

Primeiros tempos do assentamento português
"(...) Ao cabo de doze dias chegámos à ilha de Amacao, situada a 19 graus de norte, perto de Cantão, terra firme e cidade da China que dá o nome a uma daquelas províncias, a setenta milhas pouco mais ou menos. É uma pequena cidade sem muralhas e sem fortalezas, com umas poucas casas de portugueses, sendo chamada Cidade do Nome de Deus; e se bem que é ilha adjacente à China, contudo é governada por um Capitão Português que vai lá de Goa todos os anos com patente e provisões reais da Coroa de Portugal , para administrar a justiça aos portugueses que ali moram. (...)
Quer, como prémio por este serviço, quer para o recompensar por outros serviços prestados na Índia, em matéria de guerra, à Majestade Católica, é concedido a esse capitão o privilégio de ele só, e não outros durante aquele ano, aprontar uma nau para ir ao Japão, transportando as mercadorias que os habitantes da cidade lá mandam, as quais são compradas duas vezes ao ano, na cidade de Cantão, onde se fazem as feiras. Estas mercadorias são transportadas à Índia oriental no mês de Setembro e Outubro, e ao Japão no mês de Abril e Maio: estas últimas são principalmente seda crua, da qual se transportam em cada viagem setenta e oitenta mil libras de vinte onças cada uma, que eles chamam 'cates'. Também transportam para lá grande quantidade de drapejamentos diversos e muito chumbo (...); e ainda prata pura e zarcão e grande quantidade de almíscar com as suas vesículas, tudo o que se consome nestas partes entre estes povos.. (...)"

Culto da deusa A-Ma
Quando oferecem os alimentos nalguma festa solene, comem-nos perto do ídolo, como vi fazer em Amacao (...); esse ídolo chamava-se 'Ama', por isso a ilha é chamada Amacao, quer dizer 'lugar do ídolo Ama'. Celebram essa festa no primeiro dia da lua nova de Março, que é o seu Ano Novo, sendo celebrado por todo o reino como festa principalíssima. (...) 

Tufão
"L'anno 1599 alli 28 del mese di Luglio, ch'io mi trovava in detta Città d'Amacao, vidi rovinar più di dieci case atterrate dall acqua, e dalle furie del vento Tuffone, che è quel medesimo, che nell Isole Filippine chiamano Uracan."

No ano de 1599, aos 28 do mês de Julho quando eu estava na cidade de Macau, vi mais de 10 ou 12 casas arruinadas pela água e pela força do tufão que nas ilhas Filipinas é chamado pelos castelhanos 'Uracan'. As casas são feitas de terra misturada com cal viva; são fortificações de tantas a tantas braças com tabiques de pedra murados a cal, sendo as paredes estucadas com cal por dentro e por fora, e cobertas de telhas em tudo ao modo da Espanha. Depois de ter soprado com tanta fúria, que não se podia andar pelas ruas nem sequer mostrar lá a cara, o vento parou, tendo passado por todos os rumos da rosa dos ventos, e continuou durante dois dias. além de muitos danos, e naus que fez desviar por toda a costa e portos de China, fez também perder no porto de Amacao uma nau que tinha vindo do Reino do Sião, carregada de lenha chamada comummente pau brasil, que eles neste país chamam 'sapan'. (...)

Eclipse
Enquanto estive lá notei um grande eclipse que sucedeu no ano de 1599 aos 6 de Agosto. Vi na quinta-feira de tarde a lua que se obscureceu quase toda, estando já cheia ao aparecer, a qual saiu fora do horizonte, durando cerca de duas horas: apareceu de cor vermelha muito inflamada, e o pouco que ficava claro era da banda do norte. 
No mesmo ano, no mês de Dezembro, vindo o tempo da partida das naus que da China vão a Goa, pensei embarcar numa delas, levando as mercadorias que tinha comprado nas duas naus que partiam naquele ano."

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

"Porto do Nome de Deos da China"

Numa carta do padre Manoel Teixeira enviada de Macau para a Europa em Dezembro de 1565 pode ler-se "Porto do Nome de Deus" na China. O rei D. Sebastião, numa carta sobre a "conversão da China" que envia ao Bispo D. Belchior Carneiro em 1569 escreve:
"Reverendo Bispo amigo, Eu el Rey vos envio muito saudar Vi vossa carta feyta no porto do Nome de Deos da China em Novembro de mil quinhentos sessenta & nove agradeço vos muito o que tendes feyto nessas partes para reformação dos costumes dos Portuguezes & exemplo dos Chins & tudo he conforme a confiança que de vós tenho (...)" 
De António Bocarro, 1636

Macau seria renomeada Cidade do Porto do Nome de Deus de Macau na China na bula Super Specula Militantis Ecclesiae de 23 de Janeiro de 1576 em que o Papa Gregório XIII a erige em diocese, a mais distante de Roma, recebendo por isso o epíteto de Roma do Extremo Oriente (Goa era a Roma do Oriente) ou "Mãe das Missões da Ásia", segundo Monsenhor Manuel Teixeira. A jurisdição religiosa de Macau abrangia a China, Tartária, Tonquim, Japão, Coreia e ilhas adjacentes.
Em 1586 D. Duarte de Meneses, vice-rei da índia, conferiu ao território a categoria de cidade com o nome de "Cidade do Nome de Deus do Porto de Macau na China".
Numa edição de 1888 do Chinese Recorder and Missionary Journal pode ler-se que no ano de 1583 "Portuguese gave name of Porto de nome de Deos to Macao and Porto de Amacao. The etymology of Macao from its earliest name, Ama ngao, port of Ama, the Goddess of the ancient temple near the Bar fort. Later it was also called Cidade do nome de Deos do Porto de Macao, at present called Cidade do Santo nome de Deos de Macao. Mandarins call it Gaou mun (provincial aou mun) and city "Gaou king". Found in books as Gau kan, Ghao kim and Gau min."

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Mapa "China Regnum"

Este "China Regmum" foi impresso em Antuérpia por Cornelis de Jode no ano de 1593 e é considerado o mais raro e cobiçado mapa da China no século XVI.
Foi publicado na segunda edição do atlas de Gerard De Jode, Speculum orbis terrae (primeira edição Antuérpia: 1578), juntamente com duas páginas de texto em latim (no verso) descrevendo a China.
Baseia-se no modelo de Barbuda mas foi reformulado na orientação norte-sul. A cobertura do mapa foi deslocada para norte para mostrar o nordeste da Tartária e o interior da Ásia, presumivelmente tendo por base fontes jesuítas. De acordo com a Biblioteca da Universidade de Hong Kong este é o primeiro mapa europeu a mostrar a forma "emergente" da península coreana. O estuário do Rio das Pérolas - onde se pode ver "Macao - também é muito detalhado porventura fruto da sua importância comercial.

A localização de "Macao"

O mapa da China, que inclui partes do nordeste da Ásia e do Japão, está dentro de um círculo central. Nos cantos estão cintas ornamentadas, caixas de texto e quatro vinhetas que representam como os europeus imaginavam que os chineses e japoneses viveriam. Essas vinhetas são algumas das primeiras representações da vida quotidiana chinesa e japonesa impressas na Europa. 
Além da China, o mapa também aborda partes do norte da Índia, incluindo uma descrição antiga e relativamente detalhada do rio Ganges e seus afluentes. Ao norte, os mapas detalham as tribos nômades tártaras da Rússia asiática.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Macau em 1557: mapa de Eugénio Beça

Este mapa feito à mão tem como dimensões 32 x 20 cm e foi executado entre as décadas de 1940 e 1950 por Eugénio Albano Ferro de Beça.  Trata-se de uma reconstituição do que era Macau em 1557. Na ausência de qualquer registo cartográfico sobre a presença portuguesa em Macau aquando do 'assentamento' em 1557, Jack Braga solicitou a Eugénio Beça que fizesse um mapa com a localização das principais 'marcas' portuguesas em Macau em meados do século 16.
Eugénio Beça (1905-1968) foi o director gráfico da revista Renascimento, da década de 1940, em Macau e fez ainda parte do primeiro corpo gerente da Academia de Amadores de Teatro e Música do território. 
Entre as 'marcas' são assinalados o Fortim de S. Francisco, a colina de Nossa Sra. da Guia, Cacilhas, a Ilha Verde e S. Tiago da Barra. O mapa mostra ainda o relevo da península e inclui várias bandeiras da monarquia, uma rosa dos ventos e uma caravela portuguesa.

domingo, 13 de novembro de 2022

Christiani pueri institutio

Christiani pueri institutio, adolescentiæ que perfugium autore Ioanne Bonifacio 
Societatis Iesu. 
Cum facultate Superiorum  
Apud Sinas, In Portu Macaensi (Na China, no porto de Macau) 
in Domo Societatis Iesu (Colégio da Companhia de Jesus), anno 1588.
Eis o título completo - "Educação da criança cristã e refúgio da adolescência" - do que é considerado o primeiro livro impresso com caracteres móveis na China; neste caso, foi em Macau, no ano de 1588. É da autoria do jesuíta espanhol (de Salamanca) Juan Bonifacio (1538-1606) e consiste numa antologia de passagens bíblicas, de escritos de filósofos e escritores romanos e de padres da Igrej​a.
Foi um dos cem livros considerados raros por M. August Beyer (1707-1741) como se pode verificar na obra Memoriae historico-criticae librorum rario-rum, publicada em 1734.
O texto, impresso em Macau teve por base a edição de Burgos, de 1586, (existe outra mais antiga de 1575) tendo, segundo os especialistas, sofrido muitas alterações efectuadas pelo padre Alessandro Valignano (1539-1606), Superior Provincial da Província Indiana, com o objectivo de adaptar a obra à educação que se desejava ministrar no Extremo Oriente
PS: Existe uma reedição feita em 1988 pelo ICM. 

segunda-feira, 4 de julho de 2022

As Origens de Macau nas Fontes Ibéricas

A fundação de Macau, em termos globais, foi consequência directa de vários factores complementares, que convirá desde já relembrar com brevidade: em primeiro lugar, a presença portuguesa nos mares do Extremo Oriente, iniciada em 1511 com a conquista de Malaca, que sempre andou intimamente associada a um vasto conjunto de interesses materiais e religiosos, empenhados numa aproximação privilegiada ao Celeste Império; depois, o descobrimento do Japão pelos navegadores portugueses em 1542 ou 1543, causador de um acrescido movimento mercantil nos portos chineses meridionais; e em terceiro lugar, a existência na província chinesa do Guangdong de uma conjuntura interna momentaneamente favorável ao intercâmbio pacífico com os bárbaros estrangeiros. 
O entreposto português de Macau surgiu por volta de 1557, em circunstâncias ainda imperfeitamente esclarecidas. Apenas dois anos antes, os mercadores oriundos de Portugal ainda frequentavam Lampacau, uma pequena ilha desértica da Baía de Cantão, utilizando a península macaense como ponto de escala nas suas deslocações regulares à grande metrópole meridional.
O ancoradouro designado por Macau situava-se então num local deserto, ou escassamente povoado, sem qualquer relevo de maior no contexto regional. Nas décadas seguintes, porém, graças à presença dos portugueses, viria a conhecer um desenvolvimento fulgurante, até se transformar num dos mais importantes portos da Ásia marítima. A génese da cidade do Nome de Deus é um dos temas mais estudados e, simultaneamente, mais confusos da história da presença portuguesa na China, uma vez que a relativa escassez de documentos tem suscitado a proliferação de versões românticas, e indevidamente fundamentadas, do acontecimento.
Excerto de um mapa publicado em 1835

Por isso mesmo, interessará tentar deslindar os circunstancionalismos concretos do precoce aparecimento de um estabelecimento lusitano na embocadura do rio das Pérolas, recorrendo à massa documental quinhentista de origem ibérica actualmente disponível.
O Porto de Macau. Fronteira Extremo-Oriental
Um dos primeiros povoadores de Macau, segundo parece, terá sido o padre Gregório González, sobre o qual quase nada se consegue apurar. Este prelado espanhol, aí por 1573, escreveu uma longa carta
a D. Juan de Borja, então embaixador de Filipe II em Lisboa, dando-lhe conta de alguns sucessos ocorridos na costa meridional da China em anos anteriores. Aparentemente, o padre González fora enviado deMalaca para os portos chineses depois das “pazes comos portugueses”, isto é, logo após a celebração, em1554, de um acordo informal entre Leonel de Sousa e os mandarins de Cantão, com vista à normalização do tráfico luso-chinês. O capitão algarvio Leonel de Sousa apenas regressou a Malaca em Março de 1555, de modo que o vigário só terá rumado ao litoral cantonense na monção desse mesmo ano. Em 1555, depois dos mercadores portugueses terem abandonado os seus acampamentos temporários, o padre Gregório permaneceu “na terra” com “sete cristãos". As autoridades provinciais, segundo alega, aprisionaram-nos a todos, gritando sobretudo com o prelado, perguntando-lhe por que razão se "deixava ficar na terra, que seria alguma traição".
González não menciona explicitamente o lugar onde invernou, nem identifica os seus companheiros de cativeiro; mas parece lógico assumir que teria ficado em Macau com alguns mercadores portugueses. Com efeito, nesse mesmo ano de 1555, alguns deles, e também vários jesuítas, invernaram na ilha de Lampacau sem qualquer oposição dos mandarins de Cantão. Apenas o ancoradouro de Macau, situado no continente, teria sido interdito aos estrangeiros, o que explicaria cabalmente as peripécias vividas pelo religioso espanhol, que veio a ser libertado após o reinício da época mercantil.
Em 1556 a situação parece ter-se repetido. Depois de todos os navios lusitanos terem abandonado o porto de Macau, escala provisória no caminho para Cantão, o padre Gregório, que entretanto tinha convertido alguns chineses e construído uma "igreja de palha", decidiu permanecer naquele ancoradouro com a sua pequena congregação de "75 cristãos". Todos foram novamente aprisionados pelos mandarins provinciais, que, no entanto, voltariam a libertá-los nos primeiros meses do ano reservas. O clérigo espanhol, contudo, declara que depois de 1557 os portugueses puderam residir tranquilamente em Macau, onde, "por decurso do tempo", se veio a fundar "uma povoação muito grande", que doze anos mais tarde contava já com mais de "cinco mil almas cristãs".
A data da fundação do estabelecimento português parece de aceitar, uma vez que frei Gaspar da Cruz, que visitou o litoral chinês em 1556, não faz ainda qualquer referência a tal povoação, no seu extenso Tratado das Coisas da China. (...)
Excerto de um artigo da autoria de Rui Manuel Loureiro publicado na Revista Cultura, Macau, 2002
Nota: imagem não incluída no artigo referido.