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sexta-feira, 16 de maio de 2025

Turistas do "grande paquete" Belgenlande em 1927

Jornal A Pátria Fevereiro 1927

A notícia de Fevereiro de 1927 do jornal macaense "A Pátria" refere "Belengland" mas o paquete de cruzeiros denominava-se "Belgenlande". Pertencia à empresa Red Star Line. A volta ao mundo durava 132 dias visitando 60 cidades em 14 países num total de 28 mil milhas. Este era o terceiro cruzeiro de volta ao mundo. A partida deu-se em Nova Iorque a 14 de Dezembro de 1926 rumo ao Japão. O clima de guerra civil na China impediu a escala em Xangai. Mas na escala em Hong Kong, como era habitual, muitos passageiros aproveitaram para visitar Macau. No regresso chegou a Nova Iorque a 24 de Abril de 1927.
Foi uma época de múltiplos cruzeiros à volta do mundo. Em Março de 1927 era o navio "California" que fazia escala em Hong Kong com 600 passageiros a bordo.
Num artigo publicado na edição de Jan/Mar de 1994 da RC, Henrique de Senna Fernandes explica como era Macau no final da década de 1920:
"Em 1927, reinava em Macau um largo optimismo. O reflexo do mundo em prosperidade chegava até aqui. O Porto Exterior não se revelara ainda o estrondoso falhanço que foi: os relatórios dos responsáveis auguravam um movimento de barcos de grande cabotagem, em manifestações oníricas de grandeza. A indústria de pesca crescia, impressionante. Na Capitania dos Portos estavam registadas mais de mil embarcações. Falava-se muito na modernização de Macau, em tirá-lo do isolamento duma cidade mediterrânica incrustada na China para transformá-lo em burgo activo de arcabouço americano.
Aquele optimismo concretizou-se com a organização e inauguração da primeira e única Feira Industrial, instalada nos terrenos de Mong-Há, mais ou menos no actual bairro dos funcionários junto à Avenida do Coronel Mesquita, onde havia um pequeno lago. Ali mostraram os industriais de Macau as suas potencialidades e, na opinião dos coevos, a Feira honrava a cidade e os organizadores.
Só nos lembramos da parte das diversões. Havia carrocel, montanha russa, "merry-go-round", imensas barracas de tiro e outros jogos em que se ganhavam pequenas lembranças e montes de rebuçados. No lago, havia barcos a remos para os namora-dos e para os românticos.
No enquadramento da época, a Feira foi um triunfo e bafejou Macau da certeza duma completa renovação. A Feira e o porto de grande cabotagem marcavam o começo duma nova era. Neste surto, havia ainda a sensação grata de que Macau iria ser aproveitado pelo turismo com a construção de dois hotéis modernos, o Hotel Riviera, inaugurado em 13 de Fevereiro de 1928, e o President Hotel, o primeiro arranha-céus, que seria inaugurado no Verão daquele ano.(...)
O oportunismo, bafejado pelo sopro de prosperidade, manteve-se em realizações que correspondiam a esse optimismo. Entre outras, aponta-se a inauguração do cabo submarino para a Taipa em 11 de Novembro desse ano. Poucos dias depois, em 19, iniciam-se nos CTT os serviços radiotelegráficos, instalados no 2º andar do novo edifício, com a presença do Governador."

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

"Uma tarde triunfal de sol" no Outono de 1908

No romance "Os Dores", Henrique de Senna Fernandes descreve um dos passatempos preferidos da população local nos primeiros anos do século XX.
"Era uma tarde triunfal de sol, naquele dia de Outono de 1908. O Verão de S. Martinho continuava luminoso, o céu sempre límpido, sem um cisco de nuvem. O canal, entre as ilhas da Taipa e Coloane, fulgia de miríades de cintilações, a paisagem circundante muito nítida, como se desenhada a lápis. (...) Dos cinco passageiros que tinham alugado a embarcação de recreio para a pesca à linha ou à cana, ao largo de Macau, quatro saltaram para terra, mergulhando as pernas na onda ligeira. Desentorpeceram os membros da pouca mobilidade da embarcação, depois de horas de boa safra que enchera os cabazes de peixe".

terça-feira, 15 de outubro de 2024

101º aniversário do nascimento de Henrique de Senna Fernandes

No dia de hoje assinala-se o 101º aniversário do nascimento de Henrique de Senna Fernandes (1923-2010), um dos maiores nomes da cultura macaense.

Capa da edição internacional da Revista Cultura nº 73 - 2023
dedicada ao centenário do nascimento de H. S. F.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A "Rua da Praia Grande" por Henrique Senna Fernandes

  A Praia Grande passou de rua a avenida já na década de 1980 
Duas imagens da década de 1910-20

"A Rua da Praia Grande era a artéria chique, onde residia a gente mais abastada do tempo. Ao cair da tarde, os dandies percorriam-na, caracolando os seus alazões ou a pé, até ao Passeio Público que era o Jardim de S. Francisco, na época, um jardim fechado e muito frondoso, cumprimentando e derriçando as donzelas que vinham de cadeirinha, acompanhadas dos papás circunspectos ou da inevitável chaperone. Ao lusco-fusco, assistia-se ao acender dos candeeiros de petróleo públicos que o encarregado fazia, subindo por uma escada que arrastava consigo, às costas. Nos dias em que a banda do regimento tocava no coreto de S. Francisco, a música chegava claramente até à varanda, à mistura com os pregões tristes dos vendilhões de canja e sopa de fitas e dos achares chineses.

Nas águas da baía, agitava-se o mundo flutuante dos juncos, das lorchas, das sampanas e dos tancares. Escutava-se a cada passo, o estralejar dos panchões, havia sempre o sonido dos gongos e o carpir duma flauta, o murmúrio dos rezos votivos para qualquer morto, perdido no mar. Às nove horas da noite, depois do toque das almas e dos clarins de recolher do quartel, a cidade começava a dormir. A Praia Grande esvaziava-se e ficavam só os embalos do mar de encontro às pedras da muralha, o sussurro das árvores de pagode, ao sopro da viração (...)"
Henrique de Senna Fernandes in "Nam Van"
Henrique de Senna Fernandes (1923-2010) nasceu em Macau a 15 de Outubro de 1923

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

"No Largo da Sé" por Henrique de Senna Fernandes


"No Largo [da Sé], todo rodeado de casas assobradadas, ainda adormecidas, escutavam-se os primeiros pregões do vendedor de pão fresco e o encarregado da iluminação pública apagava os últimos candeeiros de petróleo. Havia poucos madrugadores na missa. Só algumas mulheres de do, correndo as contas do rosário ou debruçadas sobre o confessionário, e ainda grupos que iriam passar o domingo em piqueniques, na terra-china, ou à Praia da Boa Vista, à Areia Preta, ou à Praia de Cacilhas, famosa pela transparência das suas águas. O chique era a missa das onze horas e depois o passeio à Rua Central onde os mouro-mouros tinham os seus estabelecimentos, pejados das últimas novidades da moda, e dali se descia a Calçada de Stº. Agostinho, mais conhecida pela Travessa das Onze Horas, para a Praia Grande".
Henrique de Senna Fernandes*
飛歷奇 (1923-2010) in "Uma Pesca ao Largo de Macau" - Nam Van.
* A 15 de Outubro celebra-se o centenário do nascimento.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

"Nam Van" por Henrique de Senna Fernandes

"Nam Van é o nome chinês da Praia Grande. O longo areal de antanho, de curva graciosa, transformar-se no deslize de séculos, em artéria elegante, centro nevrálgico da vida da Macau e zona residencial preferida pela população. 
Nasci nas suas proximidades e grande parte da minha infância decorreu à sombra das suas árvores centenárias. Vivo hoje mesmo à esquina, numa moradia onde fiz a minha casa e o meu lar. Em certas noites de silêncio e de mistério, ouço o rumorejar das águas, batendo nos granitos, trazendo, com a brisa, os mais estranhos perfumes tropicais. 
A Praia Grande, com a paisagem dos seus juncos e a odisseia dos seus lorcheiros heroicos e aventureiros, inspirou-me os primeiros escritos e embalou-me os sonhos incipientes de escritor. A Praia Grande alimentou o fundo da minha sensibilidade e imaginação, com a nostalgia dos seus crepúsculos e a tristeza das suas neblinas de inverno."

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Elementos para a história do ténis

O Ténis Militar e Naval de Macau foi constituído em 1932 (estatutos de 13 de Abril de 1932 - Portaria 830)  fruto da fusão dos antigos “Ténis Militar” e “Ténis Naval”. Ficava - e ainda fica - junto a Santa Sancha.
Existiram ainda o Ténis Civil e o club de Ténis chinês na Areia Preta
Vista aérea: década 1930/40
Portaria nº 830
A propósito de umas crónicas sobre o surgimento do cinema sonoro, Henrique de Senna Fernandes deixou um testemunho dos anos do ténis em Macau no início do século 20, neste caso, em 1929...
"No capítulo de desporto, havia uma actividade intensa. No campal começava, ainda incipiente, a preparar-se a grande geração dos hoquistas que tanto honrariam Macau. O futebol era marcado pelo “Argonauta”, pelo “Tenebroso” e pelo “team” da Sociedade União Recreativa. Mas foi o ténis que se impôs, com os campeonatos do Ténis Civil e do Ténis Militar e o Grande Torneio de Ténis Xangai-Macau.
Este torneio de ténis, entre Xangai e Macau, realizado em fins de Novembro de 1929, não foi propriamente um despique entre as duas cidades, pois os tenistas visitantes emparceiraram com os nossos em quase todas as partidas. Os tenistas de Xangai eram Mlle. Telma Colaço, Raúl Canavarro (campeão de Xangai), Gordon Lum e Paul Kong, tendo estes dois representado a China no “Davis Cup”. Os tenistas de Macau que participaram nos jogos do Ténis Civil foram Mlle. Emília Figueiredo, D. João de Vila Franca (campeão de Portugal), José Maria de Senna Fernandes, António Melo, Raúl Xavier e Alberto Jorge. Os desafios marcaram, não só pelo vigor empenhado, como também pela elegância desportiva manifestada. A mais impressionante partida que delirou a assistência, foi o despique Portugal-China; dum lado, Raúl Canavarro e D. João de Vila Franca, e doutro, os chineses do “Davis Cup”. Ganhou a China, após luta brava.
Os visitantes conheceram o melhor da hospitalidade macaense. Começou o programa com uma recepção no Clube de Ténis da Areia Preta, onde se realizaram alguns encontros amigáveis. Houve no dia seguinte um passeio a Tong Ká (China), um porto piscatório, a 50 quilómetros, a nordeste de Macau. Os desafios propriamente ditos, tiveram lugar, durante dois dias, no Ténis Civil, terminando o programa com um jantar muito elegante no Hotel Riviera. Os visitantes ainda se demoraram mais alguns dias, a convite doutros clubes de ténis, como o Ténis Militar, o Ténis Naval, etc.. Por último, houve a desforra Portugal-China, com os mesmos parceiros, terminando com a vitória da China, que não foi fácil.”

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

"Um Conto de Natal" de Henrique de Senna Fernandes

Na edição de 23 de Dezembro de 1994 o jornal Ponto Final (Macau) publicou um Conto de Natal inédito da autoria de Henrique de Senna Fernandes em que o próprio explicava:
"O original deste conto não me pertence. Pertence à minha neta Laura, de oito anos, que o rabiscou, numa dúzia de linhas, para um exercício da escola. Enterneceram-me a imaginação revelada e a tocante ingenuidade da história e resolvi desenvolvê-la para que não se perdesse e a própria autora não a votasse ao esquecimento. Basicamente o enredo é dela, eu apenas fiz os acrescentamentos que julguei necessários."
"O garoto tem cinco para seis anos, anda descalço e só em em dias especiais usa umas sapatorras, grandes demais para os seus pezitos e muito gastas. Não sabe quem são os seus pais, nunca os viu, não tem irmãos, nem ninguém que se proclame seu parente. Foi trazido sabe-se lá como e quando, ao sítio, ao cuidado dum casal de velhos, com dois filhos, todos adultos, gente rude e hirsuta, de poucas falas, incapazes de ternura para uma criança. Os quatro moram numa casa sombria de pedra e trabalham no amanho de terra em volta. O garoto vive ao lado, num barraco, feito de tábuas de madeira já podre, que deixa penetrar pelas frinchas a chuva e o vento.
No verão, sofre um calor horrível e sufocante, mordido pelos bicharocos que infestam a palha a servir de cama. No inverno, o frio é como uma geleira e o garoto treme comos parcos agasalhos que o defendem.
Não se sabe qual o nome com que o baptizaram, e, porque todos lhe chama Garoto, acredita que esse é o seu verdadeiro nome. Não vai à escola, mas já moureja com os misteres que lhe dão, em conformidade com a sua idade. Ralhos e berros recebe-os muitos, safanões e carolos também, mas sevícias propriamente ditas, mais cruéis, não moem o seu corpo débil. O que mais lhe dói, é a indiferença geral.
Não tem entrada na casa de pedra, onde arde a lareira no inverno, fica à portas às horas da refeição para receber a sua ração que nunca é suficiente nem saborosa, sendo a fome a sua companheira diária. É ainda muito pequeno para perguntar a razão daquele tratamento e porque não pode juntar-se com aquela gente para o convívio familiar.
A solidão amadurece-o, fica a pensar que nunca teve um brinquedo e porque razão não é como as outras crianças que possuem pais, que brincam despreocupadas, correm, saltam, dão gargalhadas e se vestem bem, sem os farrapos que o cobrem. Todos certamente têm uma cama para dormir.
O seu lugar favorito é o bosque, não muito distante da casa. Conhece as árvores, o pio de cada passarinho, a toca do vivo lebréu. Do lugar pode espreitar a aldeia na curva do vale, com o seu movimento bucólico e repousante de pessoas, automóveis e carroças, um divertimento simples, mas sempre alvoroçante para ele. Conhece os sinos da igreja, muito branco no alto duma eminência e sente sempre o apelo de entrar nela. Os da casa visitam-na uma vez por semana, mas nunca o levam, como se tivessem vergonha dele.
Naquele inverno agreste, de frio cortante como nunca, o padre da igreja aprece, de repente, cheio de perguntas que não sabe responder porque não está habituado a falar com ninguém, com excepção dos passarinhos e animaizinhos do bosque, entre eles, o furtivo lebréu.
Assiste depois, uns passos afastado, ao interrogatório do padre aos adultos da casa. Todos gesticulam muito, as vozes erguem-se irritadas, estão a falar dele, porque aponta, muitas vezes o dedo na sua direcção. Palavras esparsas sobre uma filha do casal que abandonou o lar paterno atrás dum desvairado amor. Sobre essa filha, os quatro adultos têm expressões azedas de desdém e de fúria. Coisas que nada têm que ver com ele e não perceber porque o misturam com a memória da desconhecida.
A conversa sobre de tom, o padre, rubicundo de cólera, vira-lhe as costas, aproxima-se por fim dele, dá-lhe a imagem do Menino Jesus e diz-lhe: - Daqui a uns dias é Natal. Vai à igreja rezar pelo Menino Jesus, que nasceu neste dia. Pede-lhe qualquer coisa e vem depois dizer-me o que lhe pediste.
Nessa noite, os da casa dão-lhe mais agasalhos com que vestir e uma manta mais espessa. Mas continua à porta para as refeições. Não olvida as palavras do padre que lhe martelam a cabeça, no meio da solidão. Nas mãos conserva a imagem oferecida.
O dia de Consoada raia cinzento, com borrifos de chuvisco. O garoto está irrequieto, decido ou não decide em ir à igreja, hesita, mas uma força interior impele-o a cumprir a sugestão do padre. É pouco mais de meio-dia quando se interna no bosque.
Atravessa-o a correr e por uma vereda sinuosa, desce à estrada que o leva directamente à aldeia. Tem os pés calçados das sapatorras e como vai obcecado não se atemoriza com tanta gente que encontra no caminho. Sobe a bonita ladeira e penetra finalmente na igreja.
Defrontam-no a penumbra, os santos dos altares, o colorido dos vitrais simples. Mas os seus olhos fixam-se no presépio alumiado pela velas. Achega-se e instintivamente ajoelha-se diante do Menino deitado que sorri, mãos erguidas.
Baixinho pede. Pede que lhe dê um pai e uma mãe e comida para matar a fome. E mais timidamente, quase a medo, pede-lhe uma cama quentinha para dormir. Tem mais pedidos a fazer, mas não quer abusar. Tudo isto fervorosamente, atropelando as palavras.
Depois procura o padre, mas ele está ocupado nos preparativos para a festa natalícia, tem pessoas que o aguardam. Não tem tempo para o atender e ele regressa ao barraco, com a certeza de que os seus pedidos não chegarão aos ouvidos do Menino Deus.
Ninguém repara nas suas deambulações. Ao cair da tarde, o frio é intenso e o garoto encolhe-se na palha, cobrindo-se com a manta e quase chora escutando o assobio lúgubre do vento que ulula por entre as frinchas do madeirame podre.
Nisto, ouve bater a porta. Com dificuldade, os dentes a tremer, vai abri-la. Um homem e uma mulher, bem vestidos, ambos bonitos, sorriem para ele, com lágrimas nos olhos. ela, muito docemente, ao beijá-lo diz: 
- Não te assustes. Somos teus pais. Vimos buscar-te para levar para casa. Temos muitas guloseimas e brinquedos para ti. 
- E uma caminha quente também?
- Uma caminha quente e muito mais - disse o homem, abraçando-o.
Já não tem frio. Aperta no peito a imagem do Menino Jesus que traz no bolso da camisa. E sai para o relento, entre os pais, para longe da casa de pedra."

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

"Timeless Macao prepares for China"

"After 440 Years of Portuguese Rule Timeless Macao prepares for China" é o título do artigo assinado por Ben Barber e publicado no jornal Toledo Blade (EUA) a 12 de Julho de 1987.
O autor utiliza a ligação marítima entre as cidades de Macau e Hong Kong para fazer um paralelismo sobre o destino comum dos dois territórios no curto prazo:"timelinked fate: by 1999 both will be aken over by communist China"De facto a transferência de soberania de Hong Kong estava marcada para 1997 e a de Macau para Dezembro de 1999.
Em 1987 Macau - "eterna ou intemporal" - segundo o autor, preparava-se para a China. E segundo alguns dos intervenientes ouvidos adivinhava-se "um futuro sombrio" já que "muito estava por esclarecer" incluindo para o período subsequente de 50 anos (até 2049) previsto na Declaração Conjunta assinada por Lisboa e por Pequim.
Um dos residentes em Macau auscultados pelo jornalista era o macaense Henrique de Senna Fernandes. Na época faltavam 12 anos para 1999 e Senna Fernandes dizia não compreender por que razão a China iria querer 'eliminar' a essência do que era Macau acrescentando que não iria abandonar o território. 
Senna Fernandes cumpriu a sua promessa ficando em Macau até à morte em 2010. Nessa altura ainda não estavam tão à vista, como agora, as ingerências de Pequim na política das duas regiões administrativas especiais...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

As seculares árvores de pagode

"Sangra-nos o coração ao ver que hoje pouco ou nada resta das solarengas casas apalaçadas da Praia Grande, que em idade rivalizavam com as centenárias árvores de pagode (banyan trees)"... 
Assim escrevia monsenhor Manuel Teixeira na sua 'bíblia', a Toponímia de Macau. De facto, das casas apalaçadas pouco resta, mas muitas das chamadas árvores de pagode - o nome deve dever-se ao facto destas árvores serem habituais nos templos - ainda hoje existem fazendo jus ao adjectivo "centenárias". Existem várias espécies destas árvores em Macau sendo as mais habituais a Lagerstoemia Indica e a Ficus Microcarpa, também conhecida como baniana chinesa.

Árvore de Pagode no Jardim de S. Francisco.
Foto de McKay Savage. 2006

A imagem de cima é do Jardim de S. Francisco, o primeiro jardim público de Macau que remonta a 1861. Cingindo-me só a zona da baía da Praia Grande, onde ainda existem mais de uma centena destas árvores de grande porte, importa dizer que até ao início da segunda metade do século 19 a orla da Praia Grande não tinha praticamente nenhuma árvore. Foram plantadas algumas, a posteriori, e que depois seriam arrasadas com o tufão de Setembro de 1874.
Na imagem acima - de ca. de 1890 - podem ver-se as árvores, hoje centenárias - plantadas após o tufão de 1874 junto ao Palácio do Governo. Um testemunho de 1892 pode ser lido aqui.
Consultando algumas edições da década de 1890 d'"O Occidente: revista illustrada de Portugal e do extrangeiro" pode ler-se:
"A arteria principal de Macau é a Praia Grande, que se acha povoada de elegantes edificações de architectura europea. (...) As babitações dos Europeus são d'aspecto agradavel, ha algumas mesmo notaveis pelo tamanho e bom gosto, quasi todas as da Praia Grande teem os seus jardins e ostentam na fachada da frente grandes varandas ou galerias. O palacio do Governo, antiga habitação dos Barões do Cercal e o actual edificio dos tribunaes, ex palacio do Governo, são edifícios dignos de especial menção".
Já nos primeiros anos do século 20 o "Ta-ssi-yang-kuo" destaca a fama da baía da Praia Grande: (...) Toma-se um rikchá com um par de cules puxadores e passa-se ao longo da Praia Grande sob a sombra das bellas e antigas arvores de pagode, pendentes sobre o attrahente boulevard que orla a pequena bahia, que dá tão grande fama à colónia. (...)"
Em 1927, num texto sobre as obras do novo porto, João Carlos Alves também elogia a beleza da baía: "A larga Avenida que a circunda, orlada de árvores seculares, constitue um dos melhores passeios da cidade."
Década 1960: já com porte significativo

Num texto em inglês, de 1946, referem-se as "banyan trees" (Ficus benghalensis / Ficus Microcarpa (Figueira asiática)):
"A broad avenue, the Praia Grande, follows the curving eastern shore line of the peninsula. Government buildings and large, beautiful homes, many of south European design, rim its landward edge. Sprawling banyan trees paralleling the sea wall cast ragged shadows across the wide roadway."
Já na segunda metade do século 20 as majestosas e frondosas árvores de pagode também não foram esquecidas por Henrique de Senna Fernandes em alguns dos seus livros.
Na obra Nam Van: "A Praia Grande esvaziava- se e ficavam só os embalos do mar de encontro às pedras da muralha, o sussurro das árvores de pagode, ao sopro da viração."
Na obra Mong-Ha: "A baía da Praia Grande fazia ali a mais graciosa das curvas e o mar rumorejante batia junto às árvores de pagode, nos seus eternos soliloquios. (...)
Eu gostava muito da parte superior do Jardim de S. Francisco, paredes-meias com a Rua Nova à Guia. A área era mais larga que hoje, cobria a Calçada do Quartel que não existia, e estava separada da ala das residências dos oficiais, por um muro formando beco. Havia ali um jardim frondoso e bem tratado com áleas, onde se aprumavam frangipanas e bauínias entre arbustos e outra vegetação. As frangipanas davam as chamadas "flores de S. João" branco-amarelas, de cheiro capitoso. As bauínias abriam as suas flores arroxeadas ou róseas na Primavera e eram um regalo para os olhos. As champacas misturavam-se com as roseiras. Sebes de camélias e damas-da-noite dividiam os caminhos. Pairava no ar uma confusão de aromas inebriantes. De manhã à noite, desbobinava-se a sinfonia zangarreante das cigarras, em labor incansável, desmentindo a fábula conhecida. Nos bancos verdes e já veneráveis, sentavam-se os anciãos chineses que traziam, em gaiolas grandes e pequenas, algumas artisticamente ornamentadas, os seus pássaros favoritos - rouxinóis, chevites, melros, canários e outros - que trinavam à compita com a passarada livre, derramada pelas árvores."
Árvores frondosas, também existem, por exemplo, ao longo da Avenida da República, sendo ali plantadas no início do século 20.
Curiosidade: Na toponímia macaense existe a Rua das Árvores do Pagode. Em 1887 o governador Tomás de Sousa Rosa levou a cabo uma grande acção de florestação do território tendo sido plantadas 60 mil árvores, segundo o Conde de Arnoso.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

"Naquele tempo..."

"(...) Quem desce a Calçada do Gaio e deseja encurtar caminho para a Rua do Campo dobra a esquina e inevitavelmente atravessa, de lés a lés, um dédalo de vias estreitas, dominadas por um casario amontoado e incaracterístico, que constituem o Cheok Chai Un*.
Nem sempre foi assim. O Cheok Chai Un, com a área delimitada pela Rua Nova à Guia, Rua do Brandão, Rua do Campo e pelo tardoz do Colégio de Stª Rosa de Lima, onde se erguem alguns dos restos da antiga muralha de Macau, foi até os princípios dos anos 60, mais ou menos, um bairro muito típico que o progresso dilacerou.
Em tempos mais remotos, pertenceu a uma zona arborizada, que subia a encosta de S. Jerónimo e se estendia, já esparsamente, para as hortas e várzeas do Tap-Seac, na planura do Campo da Victória, zona esta que mereceu dos chineses o nome de Jardim dos Pássaros.
Com o desenvolvimento da Cidade do Nome de Deus, atraindo populações das aldeias circunvizinhas, em demanda de uma vida de melho­res oportunidades, nasceu a povoação de Cheok Chai Un, que, decorridos anos, com a construção da muralha de Macau, ficou a fazer parte da cidade, mantendo-se, todavia, com as características de uma aldeia chinesa, sem se deixar contaminar pela influência da cidade cristã, paredes meias. Nem mesmo com o derrube da citada muralha, quando se transformou em bairro, modificou o seu peculiar cariz. O traçado primitivo de aldeia de cor cinzenta foi alterado com o terrível tufão de 1874, que praticamente arrasou o bairro, com muitas vítimas a lamentar. Substituíram-no ruas e vielas, em linha recta, mas persistiram os casebres e casas pequenas de dois pisos e mais raramente de três pisos. E, com esta feição, durou mais algumas décadas.
Ocupava-o gente ciosa do seu pequeno mundo, muito endógena, casando-se entre si, desconfiada e mesmo hostil a toda a cara estranha que por ali se demorasse, fosse ela europeia, fosse ela chinesa doutros bairros e com hábitos mais citadinos. Tinha o seu mercado e o seu templo, as suas lojecas e casas de pasto, os seus curandeiros e ervanários, as suas casamenteiras e homens-bons que resolviam conflitos de dinheiro, rixas de família, disputas de negócios e outras quesílias. Esses homens-bons gozavam do prestígio da idade e das cãs ou de uma situação económica mais desafogada.
Desde o início, já como povoação, o Cheok Chai Un ficara marcado de má fama. Era um sítio imundo, endeme de muitas doenças, um antro de malandrins e de todo o rebotalho humano. Nem mesmo quando se transformou em bairro, esses rótulos se dissiparam. Sobre­tudo, quanto aos jovens, considerados desordeiros e refilões, sangue nas guelras e mão pronta para todas as tropelias. Havia grande dose de exagero nessa classificação, mas do ferrete ignominioso não se livravam. Tanto assim é que, quando qualquer mancebo se portasse mal, andasse em pancadarias e em outras tranquibérnias, desrespeitoso com as regras da sociedade, apodavam-no, na gíria macaense, de a-tâi de Cheok Chai Un, significando a-tâi um valdevinos. Era um insulto degradante!
A população de Cheok Chai Un orçava à roda de alguns milhares, quase todos gente pobre, amontoados em espaço diminuto que era o seu mundo. Havia, é certo, uma quadrilha de patifes, mas a maioria era ordeira e pacífica, ganhando a dura tigela de arroz de cada dia. Eles, operários, marceneiros, carpinteiros, moços de recado, condutores de jirinquixá, vendedores ambulantes, carregadores de zorras etc. Elas, serventes, tecedeiras, varredoras de rua, penteadeiras, lavadeiras, aguadeiras etc. Eram, por junto, pessoas que se dedicavam a profissões humildes e raro atingiam a condição de patrões.
Em muita casa e casebre, rapariguinhas e velhinhas aplicavam-se na manufactura de incensos e caixas de fósforos. Havia ainda bordadeiras e cerzideiras que ficavam à porta do lar, aproveitando a luz do sol para melhor cumprirem o trabalho, ao mesmo tempo que coscuvilhavam os assuntos do bairro. A iluminação eléctrica só muito tarde ali entrou e eu me lembro ainda de ver os casebres alumiados pela chama bruxuleante das lamparinas de petróleo.
As condições higiénicas eram péssimas, muito referidas pelos relatórios dos Serviços de Saúde, os esgotos primitivos e não havia sanitários, no sentido moderno da palavra. Tão fechado se apresentava o bairro que a passagem do tempo, como se não existissem relógios, era marcada, durante a noite, por certos homens que, de espaço a espaço, tangiam pratos metálicos e bradavam as horas, percorrendo as ruas silenciosas.
Era assim o Cheok Chai Un e assim se conservou, mais ou menos, até os fins dos anos 1950. Quando se principiou o desmantelamento indiscriminado da cidade antiga, também o Cheok Chai Un não escapou. A construção de edifícios de vários andares e de cimento armado destituiu-o das suas características próprias, como, aliás, aconteceu com outros bairros de Macau, confundindo-se com o resto, numa uniformização dolorosa, monótona e inestética.
O meu contato com o Cheok Chai Un iniciou-se nos tempos do liceu. Morava na Estrada de S. Francisco, então, toda arborizada e calçada à portuguesa, e tinha dois caminhos a seguir para a escola. Ou optava por ladear a Boca do Inferno e atravessar a Estrada dos Parses, descendo depois a Calçada do Paiol, ou dobrava para a Rua Nova à Guia. Chegava ao alto da Rua Tomaz da Rosa, trotava de escantilhão abaixo a escadaria e estava no coração do Cheok Chai Un. Aproximava-me do poço e do velho templo de Tou Tei e desembocava na Rua do Campo. Daí, orçando para a direita, pisava em cinco minutos a porta do liceu, ao Tap-Seac. Eu seguia, de preferência, o segundo caminho.
Naquele tempo, não havia ainda no bairro a canalização de água da Companhia, e toda a gente se servia do poço, onde o precioso líquido, sempre potável e cristalino, dava para quem quer que fosse. Por conse­quência, em volta do poço, hoje desaparecido, como, aliás, todos os outros poços públicos, reunia-se de manhã ao anoitecer, sobretudo, o mulherio que ia bater a água, isto é, tirar a água para os baldes, num constante corropio. O local era também o ponto de convívio da vida social, ali se conversava, se mexericava, se elevavam e se destruíam reputações, se conheciam as novidades e a má língua.
Quando eu passava, pouco antes das nove da manhã, havia sempre um ajuntamento de aguadeiras gárrulas e alegres que enchiam os baldes de água e transportavam-nos, para diversos destinos, com o "tám-kón, um varapau de madeira forte, sobre os ombros, um balde seguro por cordas, em cada extremidade. Ganhavam, vendendo a água dos baldes, para as casas onde não havia água da fonte, isto é, água potável, indo o transporte para além de Cheok Chai Un, para a Rua do Campo, a Rua Nova à Guia, a Calçada do Gaio, a Rua do Brandão e cercanias. Havia aguadeiras de todas as idades, mas os meus olhos de rapaz, já espigadote, concentravam-se nas mais moças, usando o tun-sam-fu", a cabaia curta e calças, traje que, apesar de justo ao corpo, não lhes tolhia os movimentos. Morenas de sol, sem maquilhagem ou pó de arroz – coisas impensáveis para o ofício – andavam geralmente descalças, tanto no verão como no inverno. Tinham o peito andrógino, pois enfaixavam-no, apertando, por pudicícia e bom tom, a curva dos seios. O único luxo ou requinte de vaidade estava nos cabelos compridos, arrumados numa única trança que escorria até o fim das costas, o penteado uniforme de todas as raparigas chinesas do povo, de classe proletária. Era uma sedução contemplar essas tranças negras e luzidias, de madeixas enroladas em corda grossa, atadas quase no termo por um cordel vermelho.
Aparentemente simples, o penteado exigia muito cuidado e muito tormento, mas elas entregavam-se docemente àquele masoquismo. Os fios de cabelo eram repuxados e esticados para trás, a ponto de arder o couro cabeludo. Passava-se e repassava-se o pente duro, embebido de óleo de madeira, as mãos da penteadeira também untadas do mesmo óleo, para dar à cabeleira o lustro e a resistência necessários. Os pequenos fios que ficavam no alto da testa e que não obedeciam, espetando-se como finos arbustos agrestes, eram eliminados à linha, um processo de desbaste doloroso que não arrancava, porém, um gemido ou protesto da estoica rapariga que se submetia àquele trato de polé.
Também nas proximidades do poço havia lavadeiras que esfregavam peças de roupa, nos tabuleiros próprios de madeira, hoje desaparecidos, com as máquinas eléctricas de lavar a substituí-los inexoravelmente. Não havia diferença no penteado e na vestimenta, andavam descalças ou, em ocasiões especiais, de chiripo ou tamanco. Lavadeiras e aguadeiras formavam praticamente uma sociedade à parte. Imperavam, mais que os homens, em volta do poço, dispersavam-se para os seus diversos destinos, para voltarem a se reunir mais tarde, vivendo do ofício e no bairro, não saindo dele, mesmo em horas de lazer.
Nem mesmo nos festejos do Ano-Novo Chinês, sentiam a mágica atração de se espraiarem para fora do bairro. Panchões, guloseimas, incensos da devoção, tudo se vendia nas lojecas e no mercado da zona. Até à Guerra do Pacífico, as mesas de clu-clu" ** encham as ruas e vielas e assim se jogava no Grande e Pequeno e noutras combinações, sem precisar de vaguear por outras vias, para além do perímetro de Cheok Chai Un.
Tão bairristas eram que batiam cabeça, a solicitar os bons auspícios e prosperidades, no seu próprio templo, o Tou Tei Mio, em vez de se dirigirem ao Templo da Deusa A-Má, na Barra, ou ao Kun Yam Tóng, em Mong-Há, tradicionais para esta cerimônia, para a população chinesa budista da Cidade do Nome de Deus.
Nas festividades próprias de Tou Tei, no dia 2º do 2º mês lunar, recaindo quase sempre nos primeiros dias de março do calendário gregoriano, por subscrição popular ou por réditos auferidos pelo templo, construía-se um barracão de bambu, onde se representavam peças de autochina,*** por profissionais e amadores, com grande número de assistência. Esse costume ainda se conserva hoje.
As mulheres, casadas ou solteiras, eram, na maioria, analfabetas, porque cedo se consumiam no trabalho. Os homens pouco mais tinham de instrução, também obrigados a mourejar, logo que espigassem. Era uma vida árdua, sóbria, destituída de exigências lúdicas e de conforto, mas as pessoas que a sofriam pareciam contentes ou simplesmente resignadas ou nem sequer pensavam noutra sorte.
Nesse contexto e nos princípios dos anos 1930, apareceu subitamente e por acaso, o Adozindo, o Belo Adozindo, para as raparigas românticas do tempo, que produziu, no seio do Cheok Chai Un, uma pequena revolução. (...)

*Jardim dos Pássaros, como literalmente seria traduzido, corresponde à Horta da Mitra, nome que os portugueses lhe deram, embora menos conhecido.
**Mesas de jogo do Grande-Pequeno.
***Ópera chinesa.
in A Trança Feiticeira de Henrique de Senna Fernandes
Romance cuja acção desenrola-se em Macau entre um rapaz rico de origem portuguesa e uma rapariga pobre chinesa. A tradição e o preconceito alimentam a trama desta história de uma paixão de dois jovens amantes condenada pela intolerância da sociedade.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Travessa dos Anjos

O troço foi baptizado como Travessa dos Anjos em 1869 e foi durante muito tempo zona de ricas mansões de comerciantes chineses abastados nomeadamente no nro. 37 a mansão Song com as suas características persianas horizontais.
 A Travessa dos Anjos junto à Rua do Campo: década 1970
Henrique de Senna Fernandes escreve a esta propósito no texto "Rua das Mariazinhas" publicado no livro Mong-Há pelo ICM em 1998, começando por recordar memórias da década de 1930
"(...) A Travessa dos Anjos que comunica directamente a Rua do Campo com a Rua de S. Domingos, era no meu tempo da Primária uma via típica de casario chinês, mas atapetada de calçada portuguesa. Paredes de tijolos cinzentos, portas de espaldar, casebres alternando-se com edificações de dois pisos, teia de vielas estreitas escoando para ela, muros cercando pátios interiores com outras tantas residências, formando verdadeiras ilhas que se isolavam, quando o portão se encerrava, às tantas da noite.
Como acontece ainda hoje, era um trilho movimentado e ideal para quem quisesse encurtar caminho. Os peões palmilhavam-no à vontade, embaraçados apenas pelos vendilhões ambulantes, o homem dos tin-tins e pelas aguadeiras de trança comprida que iam buscar água aos poços dos pátios. Uma ou outra lojeca mal amanhada quebrava a nota residencial. Casas de pasto não havia, pois a Rua de S. Domingos ficava mesmo à volta da esquina. A travessa era, em conjunto, um bocado de cidade chinesa encravado no coração da "cidade cristã".

Nalgumas portas, porém, velhinhas se sentavam, vendendo em tabuleiros rebuçados e achares chineses, amendoins e pevides de casca preta ou branca, tacos de cana-de-açúcar, cortados com mestria para serem iguais em comprimento. Eu tinha os meus tabuleiros favoritos. Um pelos achares, outro pelos tacos de cana-de-açúcar e outro pelos amendoins. As velhinhas conheciam-me. Tudo se pagava com cobres ou cens que pesavam incomodamente nas nossas algibeiras, cheirando mal. Uma moeda de prata de vinte avos tinha, pelo menos, vinte a trinta cobres ou pouco mais, conforme o câmbio do dia. A garotada só possuía cobres, uma moeda de prata era excepção e uma nota de uma pataca era sentir-se rei. (...)"

sábado, 6 de abril de 2019

A paisagem como 'protagonista' nas obras de Henrique de Senna Fernandes: 2ª parte


“Gostava do rio e do mar, do cheiro a maresia, dos acenos dos Pescadores dos juncos, da nostalgia dos longos e rubros crepúsculos que cobriam os cimos da Lapa e doutras ilhas circundantes duma auréola cegante e doirada. (...)
As raparigas do atelier aproveitavam para passeios à Montanha Russa, ao pinheiral da Guia, à aprazível estância da Flora de vivendas elegantes e fora de portas, espreitando o conjunto harmonioso do Palacete de Verão do Governador e o seu pejado de canteiros e de chafarizes. Ou então iam aos miradouros da Estrada de S. Francisco e da Estrada de Cacilhas, de calma idílica, contemplando os longes do mar mosqueado de juncos e ouvindo em baixo os murmúrios ou os regougos do mar, ao encontro de rochas escavaladas. (...)
Era na contemplação da paisagem, sob a umbela das árvores de pagode e o cheiro da resina dos pinheiros, embalada pelo chilrear da passarada irrequieta que vinha à tona a dor pungente dos arcanos do coração. (...)
Não se saciava da contemplação do mar pontilhado de revérberos do sol, dos juncos que singravam ao largo, rasgando sulcos broncos na massa líquida e movediça. As ilhas distantes azulavam a linha do horizonte. Por trás, algures, estava Hong Kong. (…)
O campo de ténis, não muito distante, ocultava-se por detrás da Cortina dos bambuais. Outro caminho dirigia-se para a zona militar interdita da Fortaleza de D. Maria II. Mais além estendia-se o morro pedregoso da resting de Macau-Seak, guardando os marulhos do mar das Nove Ilhas.” 
in "Os Dores"
"Estava um belo dia de outono para a pesca, o céu límpido, a paisagem toda alumiada de tons metálicos, como só acontece nos meses de Outubro e Novembro. O Belo Adozindo escapulira de casa cedo, evitando encontrar-se com o pai. Eram sete e meia e encaminhava-se para a Praia Grande, onde embarcaria num barco à vela com amigos, para umas horas ao largo de Macau. Ia apetrechado para a pesca, o caniço e as linhas novas, os anzóis vindos de Hong Kong, duma casa da especialidade, o cesto contendo a isca. Vestia-se todo aperaltado e nada conforme como à vontade que tais excursões exigiam. Seria ridículo se não procedesse com naturalidade e espontaneidade, porque era incapaz de se apresentar doutra forma. O grande conquistador da praça tinha responsabilidades quanto a manter a sua fama. Nunca se sabia quem ia encontrar, embora ainda fosse cedo.
Respirou fundo a brisa matinal, a Estrada da Victória era uma recta dourada e não viu nenhum riquechó. Não se sentiu contrariado, cortou o Jardim de Vasco da Gama, ladeando os chafarizes, onde os fios de água prateada saltitavam, como garotos irrequietos. Para encurtar caminho, dobrou a primeira esquina, intemando-se na área do Cheok Chai Un.
Até então, esquivara-se do bairro de má fama, mas não acreditou que alguém fizesse mal, em pleno dia, a um homem pacífico que ia inocentemente à pesca, com o único peso na consciência de faltar ao trabalho. Mas os berros do pai podiam com facilidade serem amansados."

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A paisagem como 'protagonista' nas obras de Henrique de Senna Fernandes: 1ª parte

Exímio contador de histórias e criador de personagens-tipo da sociedade macaense, Henrique de Senna Fernandes (1923-2010) reproduz de forma fiel nas suas obras a paisagem de Macau desde o final do século 19 até ao século 20. As descrições são de tal forma minuciosas que é como que elas próprias se tornassem protagonistas dos contos ou romances.
São muitos os exemplos. Neste post fico-me pelo romance "Os Dores", publicado postumamente em 2012, e pela antiga Baía da Praia Grande. A história do romance passa-se nos primeiros anos de 1900.
Macao bay (Praia Grande) por George Chinnery
“A Baía da Praia Grande recobriase de oiro e sol que declinava atrás da Ilha da Lapa. A água da enchente reverbava em cintilações resplandecentes, murmurava em soliloquies junto da muralha de granito, mas ao longe batia forte nas pedras extremas do fortim 1 de Dezembro. Juncos preguiçosos nos ancoradouros recolhiam as velas. Lorchas e sampanas balanceavam ao sabor da maré. Tancares diminutos, em labor incessante de vaivém, riscavam em tiras de espuma o manto esverdeado da água dos princípios de Setembro. Nos cais de pedra, em plano inclinado, desembarcava-se o pescado do dia, em cestas de vime. (...) 

A orla do casario da Praia Grande, em curva graciosa, duma ponta à outra, desde o Grémio Militar à arruinada Fortaleza do Bom Parto resplandecia, ornada de árvores frondosas (…) Identificou alguns edifícios, a ermida da Penha, o Hotel Bela Vista, o Palacete de Santa Sancha, o Palácio do Governo, o Tribunal, os contornos superiores da Igreja de S. Lourenço, do Seminário de S. José e da Sé Catedral.”

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O "Victoria" nos tempos do cinema mudo

No início do século XX o cinema chegava a Macau. Henrique de Senna Fernandes, apesar de nascido em 1923, registou para memória futura esses tempos no livro "Cinema em Macau". Segundo ele "era uma diversão desprezada, qualquer coisa equiparada à exibição de saltimbancos, apresentado em barracões de feira, que se admirava com curiosidade despicienda e sorriso desdenhoso, e de que até se tinha vergonha de falar”.Nesses tempos dos “filmes mudos em barracões sujos e desconfortáveis, em pleno Bazar, coração da cidade chinesa” surgiram vários cinematógrafos.
Do Chip Seng, na Rua da Caldeira, com bilhetes entre os oito e os 35 avos, ao Tin Lin, no Largo de Hong Kong Mio, com preços entre os dez e os 50 avos. Havia ainda o Olympia, na Rua do Hospital (actual Rua Pedro Nolasco da Silva) e partir de 9 de Janeiro de 1910, na actual Rua do Dr. Soares (então Rua da Cadeia), junto ao edifício do Senado, surge o Victória. Naqueles primeiros tempos, ainda em construção abarracada os filmes exibidos eram essencialmente curtas metragens. O Victória (que tb terá existido na Calçada Oriental) viria a mudar de instalações em 1921 passando para o edifício no cruzamento da Rua dos Mercadores com a Av. Almeida Ribeiro, (até 1971) onde hoje se situa o banco Tai Fung.
Ainda de acordo com Henrique de Senna Fernandes “Apesar de todos os espectáculos, o Vitória foi essencialmente uma casa de cinema. E citamos o Vitória, porque foi nele que se desbobinaram os melhores filmes mudos, não havendo outro cinematógrafo que se lhe equiparasse”.
Vejamos então quais os êxitos de bilheteira da época quando o sonoro dava os primeiros passos e o mudo ainda vingava: “O êxito de Fairbanks era tão grande entre a rapaziada de Macau que, nos dias que se seguiam à estreia das suas películas, desapareciam dos jardins, hortas e quintais, pela cidade e fora de portas, todas as estacas de bambu, convertidas em espadas para a petizada se esgrimir em grupos rivais, com grande perigo para os olhos e desespero de jardineiros e horticultores que então abundavam nesta Terra do Nome de Deus”.
Além de Fairbanks havia ainda Charlie Chaplin: “O maior deles foi sem dúvida Charlot. A sua aparição na tela (...) enchia o Vitória. Os chineses, simplesmente, adoravam-no.”Já quanto às condições da sala de cinema, a opinião era bem diferente: "Quem desconheça o Vitória poderá julgar tratar-se de um cinema confortável, luxuoso, de bons assentos, e à altura dos magnífico, filmes que exibia. (...) Denominando-se a primeira casa de espectáculos, sem outra a fazer-lhe sombra, era, assim, um monumento de desconforto".

domingo, 12 de março de 2017

O Animatógrafo Macau e os "loucos anos 20"

Na edição de Macaenses de 13 de Outubro de 1920 podia ler-se “Desgraçada terra esta onde raras são as boas iniciativas que não baqueiam” a propósito do encerramento do Novo Teatro de Macau.
Dois anos depois abria ao público o Animatógrafo Macau, pelas mãos dum empresário da terra, Filipe Hung.
De acordo com um anúncio da época - imagem ao lado - era “o mais confortável salão cinematografico“.
Ficava na Rua do Hospital (corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva).
Os bilhetes da 1.ª classe custavam 20 avos (1.ª sessão) e 30 avos (2.ª sessão).  A 2.ª classe custava 10 avos (1.ª sessão e 2.ª sessão ). Para os “Praças sem graduação e crianças“ custavam 20 avos "só para a 2.ª sessão".
Desde o surgimento e massificação do cinema a população local tornou-se uma das mais entusiastas do mundo e existiram inúmeras salas ao longo do século XX.
Segundo Henrique de Senna Fernandes (HSF) “O mais remoto cinematógrafo de que temos notícia foi o «Chip Seng», situado na Rua da Caldeira (…). Outro cinematógrafo, também situado no dédalo do Bazar, era o «Tin Lin», no Largo do Hong Kong Mio que, em 4 de Fevereiro de 1909, como reporta «A Verdade» da mesma data, exibia, além de filmes, trabalhos de prestidigitação (…). 
O Teatro D. Pedro V também chegou a funcionar como sala de cinema na década de 1910, e havia ainda o Cinematógrafo Vitória (inaugurado em Janeiro de 1910 imagem abaixo) de que HSF se recorda assim: "Foi nele que se desbobinaram os melhores filmes mudos, não havendo outro cinematógrafo que se lhe equiparasse."
Na década de 1920 o cinema não era totalmente uma novidade mas era mais mudo que sonoro e, para além de Charles Chaplin, destacava-se o actor, realizador e produtor norte-americano, Douglas Fairbanks: “O êxito de Fairbanks era tão grande entre a rapaziada de Macau que, nos dias que se seguiam à estreia das suas películas, desapareciam dos jardins, hortas e quintais, pela cidade e fora de portas, todas as estacas de bambu, convertidas em espadas para a petizada se esgrimir em grupos rivais, com grande perigo para os olhos e desespero de jardineiros e horticultores que então abundavam nesta Terra do Nome de Deus”, palavras de HSF num livro sobre a história do cinema em Macau.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

“A Noite desceu em Dezembro”

“A Noite desceu em Dezembro”, romance de Henrique de Senna Fernandes, escrito em fascículos publicados no jornal Ponto Final, chega agora em formato livro.
A origem deste romance 'inacabado', passado durante a Guerra do Pacífico, remonta a 2010, ano da morte do autor e altura em que o filho, Miguel, encontrou um manuscrito, sem título, onde se pode ler: “Revisto em 1954”. Esse foi o ano em que Henrique Senna Fernandes regressou a Macau, pelo que que o volume poderá ter sido escrito em Coimbra, onde HSF se formou em Direito.
Esta edição já foi anunciada por mais de uma vez mas parece que agora verá a luz do dia.
O ICM fará ainda o lançamento e uma nova edição de "A Trança Feiticeira" e a versão chinesa de "Os Dores".
Biografia resumida
Natural de Macau onde nasceu em 15 de Outubro de 1923, licenciou-se em direito em 1952, na Universidade de Coimbra, terra que o marcou profundamente.
No início dos anos cinquenta, regressou a Macau onde exerceu a advocacia e a docência. Foi professor no Liceu de Macau, à data denominado, "Infante D. Henrique", assim como na Escola Comercial "Pedro Nolasco", de que, durante largos anos, foi também director.
Esteve ainda ligado a actividades de carácter social, cívico, cultural, desportiva, tendo sido, por exemplo, Presidente do Rotary Club de Macau, da Assembleia Geral da Associação Promotora de Instrução dos Macaenses, da Associação dos Advogados de Macau, Director das Bibliotecas "Nacional de Macau" e da "Sir Robert Ho Tung", do Centro de Informação e Turismo, etc., e membro do Conselho Consultivo do Governador de Macau.
Nome maior da literatura macaense, são de sua autoria títulos como "Nan Van - Contos de Macau" (1979), "Amor e Dedinhos de pé", "Trança feiticeira" e "Mong-Há" (1998).
Morreu em Macau, a 4 de Outubro de 2010, vítima de doença prolongada.#

quarta-feira, 16 de outubro de 2013