sábado, 4 de julho de 2026

竹灣海灘 / Praia de Cheok Van

Por estes dias o tempo convida a uma visita à praia. Aqui ficam alguns registos fotográficos da segunda metade do século 20 da 竹灣海灘 / Praia de Cheok Van, na ilha de Coloane. Ainda antes da construção da piscina pública... A última fotografia mostra a Pousada em 1973. Na ilha de Coloane havia ainda a Praia de Hác-Sá (Praia da Areia Preta).


Curiosidade:
A tradução literal é: Praia da Baía dos Bambus (竹 zhú = bambu; 灣 wān = baía; 海灘 hǎitān = praia)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Viúvo macaense" procura "solteira ou viúva não menos de 25 anos"

Na edição de 1 de Novembro de 1919 do jornal O Macaense é publicado este anúncio:
VIUVO MACAENSE, empregado no commercio em Shanghai, salario $350 mensais, achando-se inabilitado de visitar Macau, deseja corresponder com uma solteira ou viuva não menos de 25 anos de idade, natural de Macau, com o fim de matrimonio. Dirigir-se inclusando fotografia a “VIUVO” c/o. British P. O. Box 162, Shanghai.
Na época o "casamento por correspondência" (antecessor dos modernos sites de encontros) era uma ferramenta legítima e comum para quem queria casar dentro do seu grupo étnico/cultural mas vivia longe da terra natal.
Em Xangai existia uma importante comunidade macaense: empregados no comércio, tradutores, escriturários, bancários, etc... O valor do salário era considerado bastante acima da média na época.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Best resort for holiday & honey moon"

Em meados da década de 1960 o Hotel Caravela - localizado na Av. da República, 62-64 - afirmava-se como o melhor refúgio para "férias e luas de mel". O slogan surge numa série de postais ilustrados publicados na altura. 
葡屬澳門明信片-1960年代葡屬澳門西灣金舫酒店Hotel Caravela四景明信片
HOTEL CARAVELA
best resort for HOLIDAY & HONEY MOON famous for its Beautiful Harbour View Luxurious Accommodation & Excellent Service. 
H.K. Booking Tel: K-670265
AVENIDA DE REPUBLICA NO. 62-64,
MACAU
TEL: 5151
HOTEL CARAVELA
o melhor refúgio para FÉRIAS E LUA DE MEL famoso pela sua excelente vista sobre a baía, Alojamento Luxuoso & Excelente Serviço. 
Tel. para Reservas em H.K. [Hong Kong]: K-670265
AVENIDA DA REPÚBLICA Nº 62-64,
MACAU
TEL: 5151
O Hotel Caravela, a Baía da Praia Grande, um dos quartos e o restaurante

O edifício foi construído originalmente em 1933 para residência de Bernardino da Senna Fernandes. Poucos anos depois sofreu obras de remodelação e ampliação. Em 1965 passou a funcionar como hotel com um total de 18/22 quartos. O restaurante de comida portuguesa era bastante apreciado. Os proprietários tinham ainda uma agência de viagens, a Caravela Travel Service. Com recurso a uma pequena frota de autocarros proporcionavam visitas guiadas aos turistas, a maioria de Hong Kong e do Japão. 
Num anúncio do ano da abertura - 1965 - destaca-se:
"Bela situação, paisagem admirável, conforto, comodidade e asseio, a par de tratamento esmerado. Todos os quartos possuem ar condicionado, quartos de banho privativos, rádio e telefone."
Em anúncios em inglês da década 1960 pode ler-se:
"Your entire visit to Macau — guide service, sightseeing, accomodation — can be so simple. Our fleet of buses is ideal for large groups, our cars "just right" for small parties. Ask your Hongkong travel agent to arrange your entire Macau visit with Caravela."
O Caravela encerrou a actividade em 1978 e pouco depois o edifício foi demolido.
Com marcas da arquitectura neo-clássica uma das características especiais eram os azulejos pintados sob os beiras. Localizado numa zona também denominada de 'meia-laranja', originalmente o edifício era branco.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Residência campestre dos governadores"

No final do século 19 Bento da França escrevia assim: "Nos arrabaldes da cidade encontram se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas."
A ilustração reproduz uma fotografia do final do século 19 que mostra o Palacete da Flora. Era aqui a "residência campestre", assim referida porque bastante longe do centro da cidade. Comprado pelo governo na década 1870 era habitualmente usada pelos governadores como residência de Verão. Foi construído originalmente em 1848 pelo Padre Vitorino José de Sousa e Almeida e desenhado pelo arquiteto José Tomás de Aquino. Em redor havia uma extensa área de terreno. Tão extensa que o espaço viria a ser usado como um viveiro de árvores e arbustos. Estão aqui as origens do Jardim da Flora, ainda que numa área muito menor que a original.
O palacete foi destruído em Agosto de 1931, juntamente com várias casas nos arredores, devido a uma violenta explosão num paiol de munições próximo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

As várias 'vidas' do S. S. Tung Shan

O Tung Shan foi um navio a vapor clássico de três andares que operou na rota entre Hong Kong e Macau durante as décadas de 1960 e 1970.
Originalmente construído em 1924 com o nome Sai On, esta embarcação de 1.950 toneladas e 71 metros de comprimento teve vários nomes e utilizações.
Atracado no Porto Interior

Como SS Sai On (1924 - 1943) começou a operar na rota Hong Kong–Cantão (Guangzhou) pela Woo & Mok Ltd. Em 1936, foi vendido à Tung On Steamship Co..

Como Seian Maru (1943 - 1945): Durante a Segunda Guerra Mundial e a ocupação japonesa de Hong Kong, o navio foi confiscado pelo Governo Imperial Japonês. Foi rebaptizado e usado como navio de transporte.

Regresso como Sai On (1945 - 1950): Devolvido aos donos originais após a guerra, o navio sofreu o seu pior dia a 4 de fevereiro de 1947. Enquanto estava atracado em Hong Kong, um incêndio massivo deflagrou a bordo, transformando o navio num inferno. Cerca de 300 passageiros morreram queimados ou sufocados. Foi um dos piores acidentes marítimos de Hong Kong no século XX.

SS Takshing (1950–1968): O casco carbonizado foi submetido a uma reconstrução em Ngau Chi Wan. Foi rebatizado como Takshing (ou Tak Shing), voltando ao serviço activo - pela empresa Tai Yip - totalmente modernizado. Ian Fleming viajou nele até Macau em 1959.

Em 1968 recebeu o seu último nome, Tung Shan. Operou desde esse ano e até Janeiro de 1974 na rota Macau-Hong Kong. Foi retirado de circulação em Janeiro desse ano e desmantelado.
Demorava cerca de quatro horas para completar a viagem. A bordo do Tung Shan, os passageiros tinham à disposição lugares em três decks e desfrutavam de um um cruzeiro cénico de 4 horas pelo Delta do Rio das Pérolas. Estava equipado como camarotes privados confortáveis, salas de jantar e um bar.
O escritor James Kirkup descreveu estas cabines de primeira classe como o "último grito do luxo requintado", decoradas com espelhos, palmeiras e pelúcia rosa, onde se serviam jantares finos
No porão e no convés inferior, os bilhetes eram baratíssimos mas com piores condições. Havia ainda toldos de lona listrada no convés para relaxar e tomar bebidas.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

"Fugir do medico e da pharmacia"

Até meados do século 19, o mar era visto com medo (associado a naufrágios e monstros) e a sociedade em geral (particularmente a aristocracia) valorizava a pele extremamente pálida, já que o bronzeado era sinal de trabalho manual e pobreza.
A viragem para o que conhecemos hoje aconteceu no final do século 19, impulsionada por uma combinação de avanços médicos, transformações sociais da Revolução Industrial e uma grande mudança cultural.
Com o crescimento caótico e poluído das cidades industriais, os médicos começaram a defender o higienismo — a ideia de que o ar puro, a luz solar e a água limpa eram os melhores remédios contra doenças urbanas como a tuberculose e o raquitismo.
Os médicos começaram a receitar banhos de mar frios porque acreditavam que o impacto da água salgada "chocava" e revigorava o sistema nervoso, limpando o organismo. Descobriu-se ainda que a exposição solar combatia bactérias e fortalecia os ossos. A palidez aristocrática começou, lentamente, a perder espaço para o ideal do corpo activo e bronzeado.
Desta forma, actividades ao ar livre como o os passeios a pé ou de bicicleta, e desportos como o ténis e o futebol ganham enorme popularidade
Na península de Macau - marcada ainda por inúmeras enseadas - existiam várias praias. Desde a praia da Boa Vista na Areia Preta (a mais afastada da cidade) à de Cacilhas, da Guia, do Bom Parto, do Bispo (frequentada pelos ingleses, hóspedes do Hotel Bela Vista) e a do Tanque dos Mainatos.
Praia da Areia Preta

A 2 de julho de 1899 o jornal Echo Macaense publicava a notícia "Livro Novo":
"Noções de hygiene e medicina pratica, para uso dos alumnos do seminario diocesano de Macau," acaba de sahir do prelo do seminario, um livro utilissimo para a vida pratica.
Consta-nos que o seu author é o sr. dr. José Gomes da Silva, chefe do serviço de saude, e professor do seminario. Podemos apenas dar uma vista d'olhos ao livro, cuja leitura reservamos para quando tivermos mais vagar. O author, sendo medico, recommenda, como aphorismo hygienico, fugir do medico e da pharmacia.
Eis o que elle diz:
Tudo o que fica dicto nos capitulos anteriores e o mais que poderia dizer-se sobre a hygiene individual, pode synthetisar-se nos seguintes aphorismos:
Comer bem e a tempo. Manter justa proporção entre o exercicio e o alimento. Conservar a pelle sempre limpa e agasalhada. Respirar bom ar. Evitar os excessos de qualquer natureza.
Respeitar os habitos adquiridos. Saber ser feliz.
Fugir do medico e da pharmacia."

domingo, 28 de junho de 2026

Carta para um guarda-marinha da Corveta D. João I no século 19

No canto superior direito (abreviatura de cortesia):
Illmº. Sr. (Ilustríssimo Senhor)
Nome do destinatário (ao centro):
Gonçalo Ayres da Costa Campos
Cargo e localização (em baixo):
Guarda Marinha embarcado
a bordo da corveta D. João em Macao
Embora não existam elementos que permitem datar esta carta, deduzo que seja de meados do século 19. Porquê?
A corveta referida é a D. João I da Marinha Portuguesa. Foi construída em Damão por Jadó Simogi, aproveitando os materiais (madeira teca) da corveta "Infante D. Miguel" (inutilizada) sendo lançada ao mar em 1828.
Com 45,54 m de comprimento de fora a fora; 10,56 m de boca; 6,27 m de pontal; 6027 m de calado a vante e 516 toneladas tinha de armamento: 2 peças de bronze de calibre 18; 1 peça de calibre 3; 16 caronadas de ferro de calibre 32; Armamento portátil: 60 espingardas de fuzil; 20 pistolas de fuzil; 4 bacamartes de canos de bronze; 45 espadas e respetivos cinturões; 60 baionetas e respetivos cinturões; 20 chuços; 90 cartucheiras de cinto.
Em 1842 a lotação era de 161 homens. Navegou até final do século 19 sendo o último registo em Angola.
No século XIX ficou célebre pelas suas missões em vários pontos do mundo: Brasil, Timor, Japão, Angola. Destaco apenas as efectuadas no Extremo Oriente. Entre 1850 e 1860, operou no delta do Rio das Pérolas e desempenhou um papel vital nas relações luso-asiáticas. Aqui ficam algumas das missões em que esteve envolvida:
- Em 1850 largou do Rio de Janeiro para Macau conduzindo o novo Governador Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha.
 - Esteve envolvida em operações de resgate após a trágica explosão da fragata D. Maria II em Macau, em 1850.
- Em Janeiro de 1851 largou de Macau para Hong-Kong, conduzindo o novo Governador, Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco António Gonçalves Cardoso.
- Em 1854, conduzindo o Governador da província e o ministro plenipotenciário francês, largou de Macau para Ning-Pó, fazendo escala por Hong-kong e Amoy.
- Em Julho de 1854 travou combate com os piratas chineses.
- Em 1855, transportou os restos mortais do antigo governador João Maria Ferreira do Amaral de volta para Goa. 
- Ajudou no combate a incêndios devastadores na cidade de Macau em 1856.
Transportou o Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, até ao Japão em 1860, missão que resultou no Tratado de Paz e Comércio entre Portugal e o Japão. Feliciano António Marques Pereira, Capitão de Fragata era o comandante da corveta D. João I. 
- Em 1861, largou em segunda viagem ao Japão, com escala por Xangai, para se proceder ali à ractificação do tratado do comércio luso-japonês, não chegando ao destino devido ao mau tempo.
PS: outras cartaz dirigidas ao mesmo destinatário aqui e aqui.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Estátua de Ferreira do Amaral, uma acácia-rubra e o Liceu em 1968

O Comandante António José de Matos Nunes da Silva exerceu o cargo de Comandante da Defesa Marítima Territorial de 1966 a 1968, acumulando ainda as funções de Capitão dos Portos durante este período. Nesses anos fez centenas de fotografias e slides de Macau que partilhou inúmeras vezes comigo dando-me autorização para as usar em prol da divulgação da história de Macau.
Neste registo em concreto recorri à IA para 'retirar' elementos pessoais e melhorar a qualidade. O enquadramento privilegia o tamanho e beleza proporcionada pela acáçia-rubra. Do lado esquerdo a estátua em bronze do Governador Ferreira do Amaral (hoje pode ser vista nos Olivais, perto do aeroporto de Lisboa). Ao fundo o edifício do Liceu Nacional Infante D. Henrique - inaugurado 10 anos antes - tendo por trás (vista parcial) o edifício residencial Rainha D. Leonor. Do lado direito vê-se uma parte da esplanada que ali existia. A poucas dezenas de metros estava em construção o Hotel Lisboa (inaugurado em Fev. de 1970).

quinta-feira, 25 de junho de 2026

"La Belle de Macao"

Na imagem a capa do livro de romance policial "La Belle de Macao", publicado na colecção "Rafale" em 1955 pela Éditions de la Seine. A obra foi escrita por Diego Michigan.
A capa apresenta uma ilustração estilo pin-up típica dos romances policiais franceses da década de 1950. O livro é um exemplo da literatura pulp francesa com temática de crime e aventura.
Diego Michigan é um pseudónimo colectivo utilizado na época por vários autores literários - entre os quais se incluem a escritora francesa Françoise d'Eaubonne, o autor belga Gérard Prévot, Henri Certigny e André Duquesne - dedicados à produção de romances populares de gangsters para a referida editora.
Livro de bolso típico da época, estamos perante um "thriller" policial caracterizado por uma atmosfera noir, ritmo acelerado e intriga internacional. O enredo mistura crime, suspense e espionagem com o exotismo característicos da cidade de Macau.
A ilustração da capa expõe os elementos visuais característicos do género policial pulp e de espionagem do período pós-guerra, destacando uma personagem feminina com feições ocidentais com uma sombrinha oriental, sentada num riquexó tradicional, enquanto em segundo plano surgem um homem com vestes chinesas.
O género literário pulp têm origem nos EUA (incluindo em revistas) onde marcou toda a primeira metade do século 29. Distinguem-se por uma estética e uma estrutura narrativa concebidas para o consumo rápido e o entretenimento imediato. Visualmente, eram livros de bolso impressos em papel económico de polpa de madeira (daí o nome pulp...), vendidos a preços muito baixos em bancas de rua e estações de comboio. As capas eram deliberadamente provocantes, exibindo ilustrações vibrantes e exageradas que misturavam armas, violência e figuras sensuais de femmes fatales envoltas em fumo de cigarro. Para atrair o público que idolatrava o cinema policial americano, os autores europeus escreviam a um ritmo industrial e utilizavam frequentemente pseudónimos anglo-saxónicos ou exóticos, como o nome "Diego Michigan" sob o qual Françoise d'Eaubonne publicou.
No plano literário, estas obras caracterizam-se por uma escrita directa, desprovida de grandes floreados, onde o foco reside inteiramente numa acção frenética e cheia de reviravoltas. Os diálogos são curtos, cínicos e repletos de calão urbano, moldando personagens moralmente ambíguas, como detectives solitários e criminosos perigosos. Os enredos exploravam de forma ousada o submundo do crime, do jogo e do contrabando, transportando o leitor para cenários obscuros ou localizações exóticas e misteriosas que acentuavam o clima de perigo internacional.
Em Portugal este género ficou conhecido como literatura de cordel. A lendária Colecção Vampiro (lançada em 1947 pela editora Livros do Brasil) capturou perfeitamente o espírito estético e comercial do pulp noir e do hardboiled americano.
Existem dezenas de títulos deste género relacionados com Macau. Em breve retomo o tema.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

"Um dia de gloriosa recordação para Macao"

C. J. Caldeira assina este artigo publicado na "Parte Não Official" do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor de 28 de Junho de 1851.

Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recordação para Macao. Ha 229 annos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella,—um punhado de valentes repellio o formidavel attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d'armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d'Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o mencionam, mas sem maior individuação, e no Macuista Imparcial de 23 de Junho de 1836, lemos tambem algumas noções deste facto.
É por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma noticia sobre este successo, colhida de alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.
Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciais a varios portos, como usavam fazer naquella estação do anno,—vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della tres outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empreza, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.
Surgiram pois sós em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia,—tentaram neste mesmo dia o attaque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porem lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no emtanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Naquelle tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas, e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557; como Republica, somente pelo Senado: só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.
Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escachas, e catraias, desembarcaram uns 800 homens hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barulhento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.
Antonio Rodrigues Cavalhinha assistia então em uma de suas cazas, no campo que fica fronteiro á ellevação onde está hoje a fortaleza da Guia, e sahiu com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Hollandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma como o seu chefe Cornelis Reyers, (ou Kornelis Reyerszoon segundo Ljungstedt) que era tambem o Commandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo ao logar ónde existia o moinho do Padre Almeida, e onde existe um simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradição, recorda este successo.
Alli ficaram sós, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dispararam da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma peça bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia assistiam na mesma Fortaleza, porque no seu Convento proximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao,—e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, incendiando-o e abrazou alguns Hollandezes.
Elles desconfiando de não verem mais gente, e temendo que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinham á vista, receavam de passar quando quizessem penetrar na Cidade.
Reunio-se a gente pelo monte da Guia, onde estava uma peça de ferro (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha d'afóra da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com outro Portuguez, e mais vinte filhos da terra, e alguns moços captivos e todos cobertos entre os rochedos que alli havia, viam d’alto d'este modo os inimigos, fazendo-os vacilar e parar na subida.
Dividiram os Capitães os Cabos que dirigiam as baterias aos postos do Forte de S. Francisco e da Baim porto, contra as forças dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte de terra, deram ordem a que João Soares se expedisse com cincoenta mosqueteiros no posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mór da viagem do Japão, e reconhecendo o medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rosto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se desordenaram, e puzeram em fuga, largando bandeiras, armas, e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deu logar ao povo miudo para ir seguindo-o á sombra dos Portuguezes, e com tanto impeto que uma cafra (negra) fez neste dia de Parseira d'Aljubarrota, asseverando uns que matára alguns Hollandezes com o espeto da cozinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda; assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar precipitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram formalos de novo, para se não perderem todos pela confusão.
Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 300 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, dos quaes até ao seguinte dia só viveram sete.
Nesta occasião aquelles Portuguezes, e alguns Hespanhoes que se acharam aqui, obraram maravilhas, principalmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se póde deixar de admirar a resolução e cometimento de tão poucas contra tantos.
Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser soccorrida, e de se ver depois em grandes apuros,—ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.
Consta que o Regulo de Cantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes approximadamente) de arroz, para os moços que ajudaram a defender a terra, que ficaram forros, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.
Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sugeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros nem baluartes alguns; e tambem delli vieram algumas bombardas.
A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.
A Fortaleza de N. S. da Guia tambem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha á porta da mesma Fortaleza:
"Este forte mandou fazer a Cidade á sua custa pelo Capitão d'Artelharia Antonio Ribeiro d'Raia começou-se em Setembro de 1637 acabou se em Março de 1638 sendo Geral da Camara (d'Noronha)."
A piedade de nossos maicanes não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que esteve de ser presa dos Hollandezes, á especial protecção da Providencia, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.
Procuramos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquelle voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontrámos copia; mas no mesmo Senado existe uma antiga boki onde se lê o seguinte:
"A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S João Baptista — Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespers, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta á Missa Solemne na Sè Cathedral, como tambem as Vesperas.
N. B.
"Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Camara, junta em Conselho no anno de 1622: Isto em reconhecimento da distincta mercê, que Deus Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas, que na Praia de Cassi-lhas desembarcarem de bordo de treze (13) Navios, de que os Moradores alcançaram Victoria no Campo de Moha, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.
Alem desta Festa por voto solemne ficou-se dizendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armava, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.
Esta Missa se chamava da Victoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macao e suas familias, indo as creanças com flores e bandeiras: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n'uma especie de festa d'arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.
São estas as noticias que em pouco tempo podémos colligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem rellação com os factos da nossa historia nacional.
C. J. Caldeira

PS: Há uns tempos 'descobri' um relato desta batalha escrito em Macau meados do século 18; vou analisar - nomeadamente averiguar se Charles Boxer, a autoridade máxima neste assunto, menciona este documento - e depois publico.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A "Batalha de Macau" travada entre 22 e 24 de Junho de 1622

A Batalha de Macau, travada entre 22 e 24 de junho de 1622, é considerada uma das vitórias mais improváveis e espetaculares da história militar luso-asiática. No contexto da Guerra Luso-Holandesa (durante a União Ibérica), a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) tentou conquistar Macau para arrancar de Portugal o lucrativo monopólio do comércio de seda e prata com a China e o Japão.
O que se seguiu foi um autêntico "milagre" militar, onde uma força improvisada derrotou uma armada profissional.

O Cenário e a Desproporção de Forças
A armada holandesa, comandada pelo almirante Cornelis Reijersen, surgiu ao largo de Macau com 13 navios e cerca de 1.300 homens (incluindo soldados europeus, mercenários japoneses e guerreiros de Banda).
Do lado de dentro, Macau estava quase desguarnecida. O grosso dos homens aptos tinha partido na viagem comercial anual para o Japão ou estava a lutar na China Continental contra os tártaros a pedido do Imperador Ming. O Capitão-Mor Lopo Sarmento de Carvalho contava com uma força ínfima:
Cerca de 50 a 150 soldados e moradores luso-macaenses capazes de pegar em armas.
Um contingente de escravos africanos (de Moçambique e Angola) e asiáticos.
Alguns frades e jesuítas dispostos a lutar.
A Fortaleza do Monte, que ainda estava em construção.

O Relato do Confronto
1. O Bombardeamento Inicial (23 de junho)
Os holandeses começaram por bombardear o bastião de São Francisco para criar uma distração. Os marinheiros invasores, confiantes na vitória, passavam a noite a tocar tambores e trombetas, chegando a gritar ameaças para a costa. O capitão Reijersen enviou espiões para saber se a população chinesa da cidade (cerca de 10.000 pessoas) se juntaria a eles; os espiões regressaram informando que os civis chineses tinham simplesmente fugido para o interior, permanecendo neutros.

2. O Desembarque na Praia de Cacilhas (24 de junho)
Ao amanhecer do dia de São João Batista, cerca de 800 soldados holandeses e mercenários desembarcaram na Praia de Cacilhas sob fogo cerrado de um pequeno grupo liderado pelo macaense António Rodrigues Cavalinho. Na escaramuça inicial, o próprio almirante holandês Reijersen foi baleado no ventre e teve de ser evacuado para o navio, passando o comando a Hans Ruffijn.
Os holandeses conseguiram avançar terra adentro, forçando a retirada dos portugueses, e marcharam em direção ao centro da cidade, passando pelas faldas da Colina da Guia.

3. O Tiro de Sorte dos Jesuítas
Foi neste momento que a engenharia e a sorte mudaram o destino da batalha. Na Fortaleza do Monte, o padre jesuíta Giacomo Rho (um matemático e astrónomo italiano) apontou pessoalmente um dos grandes canhões da fortaleza em direção ao corpo principal do exército holandês em avanço.
A bala de canhão atingiu em cheio o carro de pólvora e munições dos holandeses, provocando uma explosão devastadora que quebrou a linha de avanço, espalhou o pânico e deixou os invasores sem capacidade de reabastecimento.

4. A Carga dos Escravos e a Vitória Final
Aproveitando o caos provocado pela explosão, Lopo Sarmento de Carvalho gritou o famoso brado de ataque. Quem liderou a investida mais feroz e decisiva foram os escravos africanos dos moradores de Macau, armados com lanças, alabardas e mosquetes. Motivados pela promessa de alforria em caso de vitória, e os jesuítas que os incentivavam com imagens de São João Batista, os escravos investiram com tanta fúria que os holandeses, aterrorizados, começaram a recuar em debandada.
O comandante holandês substituto, Hans Ruffijn, foi morto no combate. Os invasores fugiram em pânico absoluto de volta à Praia de Cacilhas. Muitos afogaram-se nas águas de Macau quando os barcos de salvamento viraram com o excesso de peso dos soldados em fuga.
Mapa publicado no boletim da Agência Geral das Colónias em 1926


O Rescaldo do "Milagre de São João"

As perdas foram extraordinariamente desproporcionais:
Holandeses: Entre 300 a 500 mortos (incluindo 7 capitães), centenas de feridos e a perda de quase todas as suas armas e bandeiras no campo.
Portugueses: Apenas 4 europeus mortos e cerca de duas dezenas de escravos e locais falecidos.

Consequência Histórica: Impressionado com a lealdade e a eficácia da defesa da cidade (e a bravura dos escravos, muitos dos quais foram imediatamente libertados pelos seus senhores), o Rei de Portugal nomeou no ano seguinte (1623) o primeiro Governador oficial de Macau, fechando as portas a novas investidas europeias e garantindo a permanência portuguesa no território por mais de 350 anos.
São João Batista foi imediatamente declarado o Padroeiro de Macau, e o dia 24 de junho foi celebrado na cidade como o "Dia de Macau" durante séculos.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

"Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau"

Composto por três volumes, "Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau", é um novo dicionário do crioulo de Macau, o patuá, da autoria do investigador português Raul Leal Gaião.
A obra foi publicada com o apoio da Universidade de Macau e apresentada no início do 2.º Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa.
O patuá é um sistema linguístico criado pela comunidade luso-descendente de Macau ao longo de 400 anos. Tem o português como base, mas mistura-o com malaio, cantonense, inglês e espanhol. Segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o patuá está "gravemente ameaçado de extinção".

domingo, 21 de junho de 2026

Bandas musicais macaenses das décadas 1960 e 1970

Na imagem Rui Espírito Santo, o baixista da célebre banda dos anos 60, os "Irmãos Espírito Santo".
Nas décadas de 1960 e 1970 ficaram ainda para a história da música em Macau grupos como os The Thunders, Telecasters, Young Ones, Heartbeats, The Myths, Flipsiders, The Lovers, Colourful Diamonds, etc... 
Nesta era de ouro dos agrupamentos musicais macaenses registaram-se concertos em locais como os hotéis Estoril, Caravela, Club de Macau, Teatro D. Pedro V, Cinema Nam Van, Teatro Cheng Peng, etc... 
The Thunders / Os Trovões

Recupero uma notícia de uma publicação de Hong Kong em 1967 relativa aos "Irmãos Espírito Santo".

Esperitosanto — Five Popular Macau Men
Here are five of the most popular young men in Macau — and they're all brothers. They're the Irmaos Espiritosanto, formed five years ago and now one of Macau's top groups.
Reading from the right, they're Rui (25), Jose (20), Reinaldo (18), Alfredo (16) and Antonio (15).
Rui, the married member of the group, is very proud of his eldest son, Panchito, who is already showing signs of following in dad's footsteps. Despite his tender years, young Panchito can already play the drums and shows ability with several instruments. Rui plays bass guitar in the group and sometimes fills in with a song. Jose, whose ambition is to become Macau's top guitarist, is the group leader and soloist. He is still at school, but hopes to make a career of music. Reinaldo, the rhythm guitarist, is a bird-lover and keen painter. He has done some fine paintings of the Macau's bullfights. Alfredo, who plays the drums, has an unusual hobby — he collects insects and butterflies. The "baby" of the family, Antonio, plays the maraccas and sometimes rhythm.
Tradução/Adaptação

Espírito Santo - Cinco Homens Populares de Macau
Aqui estão cinco dos jovens mais populares de Macau — e são todos irmãos. Eles são os Irmãos Espirito Santo, formados há cinco anos e hoje um dos principais grupos de Macau.
Lendo a partir da direita, eles são Rui (25), José (20), Reinaldo (18), Alfredo (16) e António (15). Rui, o membro casado do grupo, tem muito orgulho do seu filho mais velho, Panchito, que já mostra sinais de seguir os passos do pai. Apesar da sua tenra idade, o jovem Panchito já sabe tocar bateria e mostra habilidade com vários instrumentos. Rui toca baixo no grupo e, às vezes, complementa com uma canção. José, cuja ambição é tornar-se o melhor guitarrista de Macau, é o líder do grupo e solista. Ele ainda está na escola, mas espera fazer carreira na música. Reinaldo, o guitarrista rítmico, é um amante de aves e um pintor dedicado. Ele fez belas pinturas sobre as touradas de Macau. Alfredo, que toca bateria, tem um passatempo invulgar — coleciona insectos e borboletas. O "bebé" da família, António, toca maracas e, às vezes, ritmo.

sábado, 20 de junho de 2026

"Banhos de mar" há um século

Na edição de 23 de Junho de 1926 o jornal "A Pátria" noticiava a instalação de "barracas de banho" no istmo da Ilha Verde.

Banhos de mar
Por iniciativa da Direcção do Clube de Macau, foram levantadas no istmo da Ilha Verde algumas barracas de banho de que se poderão servir os sócios que desejem exercitar-se na arte natatória. O local que nas marés cheias chega a atingir a altura de 6 metros presta-se admiravelmente para êsse fim. Ao lado das barracas foram dispostas algumas mesas e cadeiras que poderão vir a servir para jogar, tomar chá ou refrescos, etc..
O bar instalado provisoriamente na barraca terá instalações melhores se os sócios com a sua presença tornarem o local mais animado. É de esperar, pois, que os sócios e suas famílias aí acorram a passar um bocado da tarde para que se não diga que em Macau tôdas as boas iniciativas morrem.
Na época existia outra 'zona balnear' na Areia Preta. Uma notícia do mesmo jornal a 25 de Julho de 1927 refere:
Praia de banhos
Tem estado cada vez mais concorrida a praia de banhos da Areia Preta, achando-se já ali construidas várias barracas de vários clubes e de famílias particulares, vendo-se tôdas as manhãs e tardes cavalheiros e senhoras praticando o bom exercício de natação.
Informam-nos que com isto muito vêm a perder as mesas do jogo predilecto "ma-cheok".

sexta-feira, 19 de junho de 2026

"Bebida para o Verão"

No Verão de 1933 uma das cervejas que se podia beber em Macau era a Dreher Trieste. Havia ainda a Sakura, Asahi, etc...
DREHER BEER
Cerveja italiana
A melhor qualidade de bebida para verão
À venda nas lojas:«Tai Song Lee» e «Macao Store»
Unicos Agentes:The Italian Agency 
2, Connaught Road Central, HONGKONG

O rótulo da garrafa no anúncio apresenta a inscrição "Dreher Beer" e indica a sua origem em "Trieste", a cidade italiana onde a marca se estabeleceu a partir de 1869. Contudo as origens da Dreher remontam ao final do século XVIII e estão profundamente ligadas à própria evolução das cervejas modernas do tipo lager na Europa Central. Em 1796 Franz Anton Dreher - mestre cervejeiro de origem suábia - adquiriu a pequena cervejaria Klein-Schwechat, localizada perto de Viena de Áustria.
Em 1841 o seu filho, Anton Dreher, assumiu o negócio e revolucionou a indústria mundial. Após viajar e estudar técnicas em Inglaterra e na Alemanha, combinou o método britânico de maltagem com a levedura de baixa fermentação. O resultado foi a criação da Vienna Lager, a primeira cerveja lager clara e brilhante do mundo, o que lhe valeu o título de "Rei da Cerveja".
Devido ao enorme sucesso e à necessidade de expandir a produção, em 1862 Anton Dreher comprou uma cervejaria no distrito de Kőbánya, em Budapeste. A excelente qualidade da água subterrânea daquela região húngara permitiu consolidar a Dreher como uma das maiores produtoras de cerveja do Império Austro-Húngaro.
Em 1869 o filho de Anton Dreher (Anton Dreher Jr.) expandiu o império familiar em direcção ao mar Adriático, comprando uma cervejaria na cidade portuária de Trieste (a do rótulo). Trieste pertencia ao Império Austro-Húngaro na altura, mas viria a integrar o território italiano após a Primeira Guerra Mundial.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Placa de granito da antiga Igreja da SCM

No antigo Leal Senado - actual Instituto para os Assuntos Municipais - existem alguns 'objectos' que não fazem parte da história do edifício tendo sido recolhidos de diversos locais de Macau aos longo dos tempos e pelas mais diversas razões.
Um desses exemplos - e sobre o qual recebo por vezes questões dos leitores - é uma placa de granito que está incrustada numa parede no acesso ao jardim. Esta placa pertencia à antiga igreja da Santa Casa da Misericórdia, localizada ali bem perto e onde está actualmente a SCM, a primeira instituição de beneficência de Macau. A remoção fez-se aquando da demolição da igreja por volta de 1883. Na imagem pode ver-se a Virgem Maria com as mãos ao peito, em sinal de prece pelos pobres e aflitos. Ao lado tem os anjos que seguram o manto, símbolo da protecção aos crentes e da benevolência e compaixão de Nossa Senhora.
PS: O sino que se vê na imagem é o da capela que existia no edifício do Leal Senado.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Loja "A Portugueza" na Rua do Campo

No final do século 19 e início do século 20 a Rua do Campo e a Rua Central eram as principais artérias comerciais da cidade. Refiro-me aos negócios pertencentes a ocidentais, nomeadamente portugueses, já que a zona do bazar era onde se concentrava a maioria do comércio, deste caso dominado pelos chineses. 
No caso da Rua do Campo imperavam as mercearias e botequins onde os principais atractivos eram a venda de produtos portugueses, nomeadamente vinhos correntes, licorosos e enlatados.
Na imagem acima a "Loja A Portugueza" no número 50 da Rua do Campo. Em baixo um anúncio de Abril de 1911 publicado no jornal A Pátria.

Atenção !
LOJA "A Portugueza"
RUA DO CAMPO N.º 50, MACAU.
—+:0:+—
Achando-se o proprietario d'este estabelecimento em condições de competir com qualquer outro do mesmo genero, convida o respeitavel publico a não fazer qualquer acquisição sem primeiro confrontar as qualidades e preços dos generos porque aqui se vendem.
N'este estabelecimento se encontra á venda um grande sortimento de artigos tanto nacionaes como extrangeiros.
— PREÇOS SEM RIVAL —
Francisco dos Santos Ferreira.

Na Rua do Campo havia ainda no início do século 20 - entre outros estabelecimentos - a "Loja Alto Douro" (no número 22), propriedade de António Martins da Silva que garantia que "n'esta rua não há quem venda mais barato" e o "Novo Botequim Portugal" (no número 36) de João José Pedro.

PS: Note-se que a Av. de Almeida Ribeiro só ficou concluída cerca de 1918 e só a partir de então passou a constituir-se com principal artéria comercial de Macau, pela sua extensão e pelo facto de ter comércio dos dois lados da avenida.

terça-feira, 16 de junho de 2026

"A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau"

Ieng Weng Fat, historiador de Macau, lançou no sábado a sua obra mais recente sobre a investigação histórica da proeminente família Chio, que chegou a Macau entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, ou seja, no século XVII.
Intitulado "A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau, and Reconstruction of their Mong-Há Ancestral Shrine", o livro apresenta uma análise sistemática da evolução da família Chio (ou “Zhao”, em mandarim), desde a sua mudança para a antiga aldeia de Mong Há, em Macau, envolvendo dez gerações e mais de três séculos e meio de história familiar.
De acordo com Ieng Weng Fat, o intuito da publicação é de enriquecer o estudo histórico em Macau sobre a família Chio, através de traçar, de forma abrangente e completa, as figuras proeminentes desta família, bem como o percurso do seu desenvolvimento em Macau. A obra
procura “reconstruir a memória histórica da família Chio há muito esquecida”, segundo apresentou o autor.
“No passado, as investigações sobre a família Chio limitavam-se, na sua maioria, a um estudo focado nas conquistas académicas deles. 
Neste livro pretendo delinear a história do desenvolvimento desta família, sobre a sua origem e a passagem ao longo dos séculos”, frisou o autor, no lançamento de livro que decorreu no sábado na livraria Fangsuo, no Grand Lisboa Palace.
O conteúdo do livro estende-se ainda a outras famílias chinesas centenárias em Macau que passaram também a se instalar na aldeia de Mong Há. “Espero que a minha investigação possa fornecer uma base de referência para a indústria cultural de Macau, nomeadamente para os criadores de histórias nas áreas do cinema, da televisão e da literatura”, disse o também membro do Conselho Consultivo de Desenvolvimento Cultural.
A investigação de Ieng Weng Fat para esta obra levou mais de três anos, mas a sua ligação à família Chio remonta a mais de vinte anos, quando conheceu um descendente de família e fez uma visita à Mansão da Família Chio, a segunda residência da família em Macau e agora bem imóvel classificado da RAEM.
Ieng Weng Fat detalha no livro as raízes profundas da família Chio através de uma abordagem que combina a história da arquitectura com a filologia, incluindo um registo genealógico que consta num poema de nomes de geração de 42 versos, transmitido desde a dinastia Song (960–1127).
Segundo registos históricos, a família Chio descende da família Imperial Zhao da dinastia Song, cuja 12.ª geração mudou-se para o condado de Xiangshan para seguir a carreira de alto funcionário. Entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, a 22.ª geração da família mudou-se de Xiangshan para a aldeia de Mong-Há, em Macau.
Depois, em meados do século XIX, a 28.ª geração da família Chio mudou-se de Mong-Há para a Travessa da Porta, onde está a Mansão da Família Chio.
A família Chio é conhecida de ser um clã de eruditos. Após a chegada a Macau, gerações de descendentes da família Chio estudaram com afinco e alcançaram excelentes resultados nos exames imperiais. Entre eles, as gerações 25.ª e 26.ª, da dinastia Qing, foram os mais respeitados porque o pai e o filho alcançaram a posição de ‘Juren’, ranking de pessoas que passaram o exame provincial, segundo ranking mais alto dos exames imperiais. Aqueles que detinham a posição de ‘Juren’ passavam a gozar do estatuto de nobreza e, consequentemente, de privilégios sociais, políticos e económicos.
A conquista académica do pai e filho de Chio contribuiu para uma história muito badalada em Macau na altura e a casa ostentava em tempos uma placa que celebrava as suas realizações.
“Isto marcou uma importante transição de Chio de uma família influente no plano económico para uma família influente no plano cultural”, salientou o autor.
A família Chio também operava uma escola privada numa sala lateral do templo da sua família, em Mong Há, que agora já não existe. Nessa escola ensinavam confucionismo e formaram mais académicos e artistas nessa altura. "(...)
Excerto de notícia da autoria de  Catarina Chan publicada no jornal Ponto Final 8.6.2026
Casa da família Chio nos números 24 e 26 da Travessa da Porta
Foto IC
Curiosidade: 
Apesar do nome em português ser Travessa da Porta, em chinês denomina-se 趙家巷 que significa Rua da Família Zhao (Chio). Fica na zona do antigo bazar chinês, perto da Rua dos Mercadores.
Sugestão de leitura adicional:
"Edifícios Tradicionais Chineses em Macau" de Chan Su Weng e Wong Ieng Kuan, Editora Sinofare Lda., 2002.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Clube Militar distinguido com Menção Honrosa no Platinum Clubs of the World

O Clube Militar de Macau foi distinguido com uma menção honrosa na lista Platinum Clubs of the World para o biénio 2026-2027 em Junho último.
A instituição fundada em 1870 com a designação Grémio Militar foi reconhecida entre os melhores clubes privados globais na categoria de "Clube de Cidade", de uma lista que inclui clubes de Golfe e Iatismo, num processo de selecção que envolveu especialistas de 22 países.
Vista panorâmica ca. 1875/1880

A menção honrosa coloca o Clube Militar de Macau a par de instituições de renome internacional, como o Harvard Club of New York City, nos Estados Unidos, o Bangkok Club, na Tailândia, e o Royal Selangor Club, na Malásia.
A lista Platinum Clubs of the World é actualizada bienalmente e inclui 300 clubes nas categorias de golfe, cidade e iatismo.
Grémio Militar em construção num detalhe de uma fotografia ca. 1868/69 por John Thomson


sábado, 13 de junho de 2026

"Landing Place St Antonio Macao"

Esta ilustração é rara e tem a legenda "Landing Place St. Antonio Macao", ou seja "Cais em Santo António, Macau". 
Na imagem pode ver-se uma pequena embarcação a aproximar-se de um 'pavilhão' com arquitectura chinesa e ao fundo a igreja de Santo António. É muito provavelmente do século 18 tal como o mapa abaixo que permite perceber o quanto o Porto Interior - antes das obras de aterros - estava tão perto da igreja de Santo António que fica junto ao Jardim Luís de Camões.
Em linha recta a perspectiva mostrada corresponde 
à actual Rua do Tarrafeiro numa extensão de cerca de 500 metros.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Barcos da carreira regular Macau-Hong Kong" em 1962



Actualmente são três os barcos que mantêm uma carreira regular entre Macau Hongkong:
Tak Shing — Tai Loy — Fat Shan
Nos três barcos é sensivelmente igual o custo das passagens:
Cabines de 1.ª classe (singelas) $ 20,00 
Cabines de 1.ª classe (duplas)  $ 15,00 (por pessoa) 
Salão de 1.ª classe $ 8,00 
Cabines de 2.ª classe (duplas) $ 10,00 (por pessoa) 
Salão de 2.ª classe $ 6,00
in Anuário de Macau 1962

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Códice Casanatense

O Códice Casanatense (ou Codex Casanatense 1889), datado do século XVI (1540), é um conjunto de 76 aquarelas indo-portuguesas - com legendas - que documentam os povos, costumes e trajes da rota marítima da seda, indo da África à China. Não se conhece o autor, muito provavelmente indiano.
O valioso documento está guardado na Biblioteca Casanatense, em Roma, com o seguinte nome oficial: “Álbum de desenhos ilustrando os usos e costumes das pessoas da Ásia e África com uma breve descrição em língua portuguesa”. Por volta de 1628 o documento ainda esteve em Lisboa sendo dos primeiros com registos iconográficos do Oriente a chegar à Europa. Simão Rodrigues (c. 1560-1644), importante pintor maneirista português teve na sua posso o códice e inspirou-se nele. Era um dos pintores preferidos da Companhia de Jesus em Portugal e criou obras que ajudaram a construir o imaginário visual das missões jesuítas no Oriente, cujos missionários partiam frequentemente de Macau.
Sem uma referência explícita a Macau, o Códice Casanatense, tem no entanto uma aguarela que se pode intitular "Gente da China".
Transcrição (Português Arcaico)
"Jente de terra da china chamão-se chinas sua lei he de jintios esta terra da china he m̃to rica mais bem piriguosa hanaueguaçam peracla porque se perdem m̃tos nauios"

Tradução/Adaptação:
"Gente da terra da China, chamam-se chineses; a sua religião é de gentios (não cristãos). Esta terra da China é muito rica, mas a navegação para lá é muito perigosa, porque se perdem muitos navios."