terça-feira, 1 de setembro de 2026

Novo recorde mensal de audiência

Depois das quase 500 mil visualizações em Março último, o blogue Macau Antigo voltou a registar o melhor mês de sempre em termos de audiência com mais de 700 mil visualizações em Agosto último (711.434), de acordo com a plataforma Blogger onde o projecto está alojado.
Para assinalar mais este marco importante no projecto criado em 2008 e que já conta com cerca de 7 mil postagens e mais de 6 milhões de visualizações, durante o mês de Setembro serão publicados alguns documentos inéditos e outros raros.
Uma fotografia das Ruínas de S. Paulo feita menos de 30 anos depois do derradeiro incêndio de 1835, uma carta escrita em crioulo patuá no século 18 e aguarelas do início do século 19 são alguns dos destaques dos futuros conteúdos em publicações feitas diariamente desde 2008.
Os sucessivos recordes de audiência do Blogue Macau Antigo consolidam o projecto como o maior acervo online sobre a História de Macau e representam um incentivo para continuar a fazer mais e melhor.

Alguns dados estatísticos:
Top 5 dos países de origem dos leitores:
Estados Unidos, Portugal, Brasil, Macau e Singapura.
Total de visualizações desde 2008: 6,4 milhões
Macau Antigo Blog Reaches New All-Time High with Over 700,000 Monthly Views

The historical blog Macau Antigo has broken its all-time audience record, recording 711,434 page views in August, according to figures provided by its host platform, Blogger. This achievement surpasses the blog’s previous record set in March, when it approached the half-a-million mark, further solidifying its status as the largest online archive dedicated to the history of Macau.
Founded in 2008, the daily-updated project has now accumulated over 6.4 million total views and nearly 7,000 published entries. According to readership metrics, the blog's top five audience origins are the United States, Portugal, Brazil, Macau, and Singapore.
To mark this milestone, Macau Antigo will publish a series of rare and previously unpublished historical items throughout September. Among the upcoming highlights are 19th-century watercolors, an 18th-century letter written in Macau’s native Patuá creole, and an exceptionally rare photograph of the St. Paul’s Ruins.

A Rare Glimpse of 19th-Century St. Paul’s
One of the cornerstone releases for September is a rare photograph captured between 1861 and 1863 by pioneering photographer Milton Miller—believed to be one of the earliest photographs ever taken of Macau’s iconic landmark.
Taken less than three decades after the catastrophic fire of January 1835 that destroyed the Jesuit College of St. Paul and the adjacent Mater Dei Church, the photograph offers significant architectural insights:
Structural Remains: Stone walls that once supported the wooden roof remain visible, alongside a vaulted structure with a dome near the back wall.
Missing Bell Tower: The bell tower that historically stood on the right side of the main facade is notably absent. Damaged sections of these walls were likely repurposed to establish the St. Paul’s Catholic Cemetery at the rear of the site, which operated until the opening of St. Michael’s Cemetery in 1854.
Pre-Na Tcha Era: The image captures the site decades before the construction of the neighboring Na Tcha Temple in 1888.
"The successive audience records serve as an incentive to continue expanding and refining this archive, keeping the history of Macau accessible to a global audience," stated the project's creator.

At a Glance: Macau Antigo Statistics
Launch Year: 2008
Total Posts: ~7,000
Total Lifetime Views: 6.4+ Million
Top 5 Geographic Markets: United States, Portugal, Brazil, Macau, Singapore

About Macau Antigo
Established in 2008, Macau Antigo is a daily digital platform dedicated to researching, preserving, and sharing the historical and cultural heritage of Macau through photographs, historical documents, maps, and specialized commentary.

“Macau Antigo” 博客八月浏览量突破70万创历史新高

根据Blogger平台的数据统计,致力于记录与研究澳门历史的“澳门古今”(Macau Antigo)博客在八月份创下历史最高单月浏览量,达到了711,434次。这一成绩超越了该博客在同年三月创下的近50万次浏览纪录,进一步巩固了其作为网络上最大澳门历史数据库的地位。
该项目创立于2008年,保持每日更新,至今已累计发表约7,000篇文章,总浏览量超过640万次。在读者分布方面,访问量排名前五的国家和地区分别为:美国、葡萄牙、巴西、澳门和新加坡。
为庆祝这一重要里程碑,“澳门古今”博客宣布将在9月份陆续公开发布一系列未经披露及罕见的历史文献。预告的重点内容包括:19世纪初的水彩画、写于18世纪的澳门土语(Patuá crioulo)信件,以及一张极其珍贵的圣保禄教堂遗址(大三巴牌坊)早期照片。

19世纪大三巴牌坊珍贵旧照曝光
在9月即将发布的文献中,最引人瞩目的是摄影先驱米尔顿·米勒(Milton Miller)于1861月至1863年间拍摄的大三巴牌坊照片。该照片被认为是这一澳门标志性建筑现存最早的照片之一。

这张照片拍摄于1835年1月摧毁圣保禄学院及附设的圣母雪地殿教堂的惨烈大火发生后不到30年,展示了许多宝贵的建筑细节:
建筑遗存: 照片中仍可见当年支撑木制屋顶的部分石墙,以及靠近后墙处带穹顶的拱顶结构。
消失的钟楼: 原本位于教堂主界面右侧的钟楼在照片中已不复存在。据分析,这些受损的墙体很可能被拆卸并用于在教堂后方修建圣保禄公墓(供天主教徒使用),该公墓一直使用至1854年城外圣弥额尔小堂公墓启用为止。

哪吒庙修建前貌: 照片记录了该区域在1888年于圣母雪地殿教堂旧址后方修建哪吒庙之前的原始面貌。
“持续创下的浏览纪录是对本项目的极大鼓舞,激励我们继续做好做优,让澳门的历史文化能够面向全球传播。”博客创办人表示。

数据一览:“澳门古今”博客统计
创立年份: 2008年
累计文章: 约 7,000 篇
历史总浏览量: 640万+ 次
8月单月浏览量: 711,434 次
主要读者来源(前五名): 美国、葡萄牙、巴西、澳门、新加坡

关于“澳门古今”(Macau Antigo)
“澳门古今”博客成立于2008年,是一个每日更新的数字平台,旨在通过历史照片、文献、地图及专业点评,研究、保护和分享澳门的历史与文化遗产。


Conjunto raríssimo de quatro vistas no início do século XIX. Estamos perante pinturas a óleo sobre latão de 9x13cm. A primeira retrata Macau vista do continente com embarcações ocidentais; a segunda, os fortes de Boca Tigre na foz do Rio das Pérolas; a terceira, Whampoa vista da Ilha de Dane; e a quarta, os Hongs de Cantão hasteando as bandeiras dinamarquesa, espanhola, americana, sueca, britânica e holandesa. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

"Poema do Camilo Pessanha"

No ano em que se celebra o centenário da morte de Camilo Pessanha...
Capa da primeira edição de
CLEPSYDRA / POÊMAS de Camillo Pessanha
 Edições Lusitania, 1920
Única obra poética publicada em vida do autor.

佩桑哈,卡米洛。
CLEPSYDRA / POÊMAS,里斯本,Edições Lusitania,1920年
第一版
非常罕见的版本,是作者生前唯一出版的诗作。
Em cima, um anúncio publicado em Maio de 1922 no jornal de Macau O Liberal. Embora não seja legível o livro estava à venda na Firma Tantino (agência comercial) localizada no Largo do Senado.

domingo, 30 de agosto de 2026

"From here we can see a nice view of China"

Na imagem um slide da década 1960/70 com uma vista da China a partir da colina da Penha. Em baixo o canal de acesso ao Porto Interior. Na altura Macau era uma das poucas portas de acesso onde turistas ocidentais e orientais (japoneses, coreanos...) podiam observar de perto o território da China continental ainda  bastante fechado ao Ocidente e sem acesso para a esmagadora maioria dos turistas.
Só a partir da década 1980 a situação começou a mudar no âmbito das políticas de abertura e reforma económica impulsionadas por Deng Xiaoping.
A placa apresenta texto japonês escrito verticalmente no lado esquerdo, formatado para que um leitor japonês leia da direita para a esquerda e de cima para baixo.

The sign features Japanese text written vertically on the left side, formatted for a Japanese reader to read from right to left (top to bottom).

いらっしゃいませ
ここから中国
の中山県は
はっきり見えます

Welcome
From here, you can clearly see the nice view of China 

Bemvindo
Daqui podemos tem-se uma bela vista da China.

Na época esta zona da China denominava-se Zhongshan/中山県. Actualmente a zona pertence ao município de Zhuhai/珠海, na província de Guangdong.

Hiragana: Os caracteres curvos e mais simples (いらっしゃいませ, から, クリア, 見る) são escritas fonéticas japonesas nativas usadas para gramática e palavras funcionais.

Hiragana: The curved, simpler characters (いらっしゃいませ, ここから, はっきり, 見えます) are native Japanese phonetic scripts used for grammar and functional words.

Kanji: Os caracteres logográficos chineses (中国, 中山県, 見) foram 'emprestados' ao sistema de escrita japonês.

Hiragana: The curved, simpler characters (いらっしゃいませ, ここから, はっきり, 見えます) are native Japanese phonetic scripts used for grammar and functional words.

sábado, 29 de agosto de 2026

Praia Grande num guache sobre papel de medula

Vista da Praia Grande
guache sobre papel de medula (pith paper) com linhas de enquadramento pintadas 
17,8 x 28,5 cm
Primeira metade do século 19

View of the Praya Grande, Macau
gouache on pith paper with painted framing lines
17.8 x 28.5cm
Early 19th century

澳門南灣風光
水粉 - 帛本 - 附畫框線
17.8 x 28.5厘
19世纪上半叶

Vista panorâmica da baía da Praia Grande a partir da Fortaleza do Bom Parto, um dos temas mais emblemáticos da arte de exportação chinesa (China Trade paintings) da primeira metade do século XIX produzida nos ateliers de pintura de Cantão e Macau destinadas ao mercado ocidental e por norma sem assinatura do autor.

Panoramic view of Praia Grande Bay from the Bom Parto Fort, one of the most emblematic themes of Chinese export art (China Trade paintings) from the first half of the 19th century. Produced in the painting workshops of Canton and Macau for the Western market, these works were typically unsigned by the artist.

《从烧灰炉炮台远眺南湾景色》,为十九世纪上半叶外销画(中国外销画)中最具代表性的题材之一。此类画作多由广州及澳门的画室为西洋市场绘制,按惯例均无作者签名。

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"Yu Yee Tea": anúncio de 1925

Anúncio de 1925, em português, do "Yu Yee Tea" (ou "Yu Yee Chá"), produto comercializado por Lam Kut Cheong, com sede em Hong Kong, e recomendado para vários males como diarreia, cólicas e dores de cabeça. Inclui uma declaração (cópia) assinada por A. M. da Silva a atestar os bons efeitos do chá.
O texto começa por apresentar o produto como uma cura certa para uma vasta e diversa lista de enfermidades, que inclui diarreia, cólicas, indigestão, constipação, febre, dores de cabeça, dores de ventre e indisposição geral. Este tipo de publicidade era muito característica dos elixires e remédios patenteados da época, que prometiam resolver múltiplos problemas de saúde antes da introdução das regulamentações farmacêuticas modernas.
Para facilitar a compra, o anúncio lista vários estabelecimentos comerciais situados na prestigiada Rua San Malo, em Macau — nomeadamente as lojas Chip Seng, Wa Si e Lam Cho —, demonstrando que, embora a firma produtora Lam Kut Cheong estivesse sediada no número 23 da Gage Street, em Hong Kong, o seu mercado alvo estendia-se fortemente à colónia vizinha. A referência a San Malo é muito curioso já que se trata da transliteração fonética do nome "Avenida de Almeida Ribeiro" em cantonense.
Como estratégia de validação, a segunda metade do anúncio exibe a cópia de uma carta de recomendação dirigida à firma, assinada por A. M. da Silva, residente na Wanchai Road, número 177, também em Hong Kong. Nesta declaração o autor afirma ter tido o prazer de comprovar os maravilhosos efeitos do Yu Yee Chá no alívio de indigestões e dores, recomendando-o como um tónico indispensável que deve achar-se sempre nas casas de família devido à sua eficácia e pronto alívio. Silva destaca ainda o produto como o melhor substituto para o vulgarmente chamado "Chá-Patrício" - uma provável referência a mezinhas tradicionais ou chás caseiros fabricados localmente por compatriotas, garantindo que o Yu Yee Tea possui um efeito muito mais rápido. O uso de um testemunho com apelido de matriz portuguesa pode considerar-se uma tática comercial inteligente para atrair e conquistar a confiança da comunidade lusófona em Macau. Do ponto de vista linguístico, o documento preserva fielmente a ortografia da época, visível em grafias antigas como "diarrhea", "colica", "commumente" e "effeito".
O produto era também conhecido como Yee Yee Tong ou Er Yee Tea / 二如亭 / 二如大藥房.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

"Movimento do Porto" no primeiro semestre de 1835

Neste artigo publicado no jornal Chronica de Macao a 25 de Julho de 1835 dá-se conta do "Movimento do Porto" entre Janeiro de Julho desse ano.
Nesse período 19 navios espanhóis realizaram 51 viagens para Macau, transportando uma grande quantidade de arroz (mais de 383 mil sacos) e feijão-mungo. Embora o arroz pagasse apenas emolumentos (e não direitos alfandegários), a receita da Alfândega mantinha-se aceitável devido ao regime de franquia.
O autor do artigo sublinha que a Alfândega é a única fonte de rendimento de Macau. Defende, por isso, a urgência de implementar o sistema de depósito para mercadorias europeias para garantir a sustentabilidade da cidade e o pagamento dos funcionários públicos, apelando à atenção do Governo.
O ópio é apontado como o principal e mais importante ramo comercial da época. O artigo nota com optimismo que Macau estava a conseguir praticar melhores preços e a atrair mais comércio de ópio do que a ilha de Lintin (ponto central do contrabando na altura), com as embarcações a preferir descarregar directamente em Macau para negociar com os mercadores chineses.
O preço do arroz fixava-se em três patacas, prevendo-se uma colheita abundante na China. Nota-se ainda que as restantes mercadorias da Europa e da Ásia se mantinham estáveis, com exceção do vinho tinto, que estava escasso e, por isso, valorizado.
Pintura da Praia Grande - autor anónimo ca. 1840
Vista a partir do actual cruzamento da rua do Campo com a Av. da Praia Grande

Movimento do Porto
Desde Janeiro até ao presente os dezanove Navios Hespanhoes, como se ve do mapa abaixo, tem feito cincoenta e huma viagens, e tem trazido 383,702 sacos de Arros e 1,890 ditos de Mungo. Tem dado pouco interesse á Alfandega, porque naõ pagaõ direitos de arros só pagaõ emolumentos; mas n'este anno tem a Alfandega rendido soffrivelmente, pela razaõ da Franquia, e mais renderá admittindo-se-lhe tambem depozito dos generos d'Europa. Sabemos, que já se tem lembrado do depozito, porém ignoramos se ha ou naõ ha ideya de o fazer effectivo; he certo, que o unico rendimento d'esta Cidade he a Alfandega, se está naõ render, entaõ naõ sabemos o que será d'esta Cidade, e dos seus empregados publicos; por isso esta repartiçaõ deve merecer toda a attençaõ do Governo.
O opio, esse importante, e unico ramo de commercio, em que traficaõ, e especulaõ os negociantes nacionaes, e estrangeiros, tem sido procurado aqui, e tem tido melhor preço que em Lintim, e ha esperança de que venha tudo para aqui. Ha dias chegaraõ dous navios de Lintim com Opio, e na Rada importava o opio para esta Cidade, fizeraõ tambem entrega d'elle a Chinas, que acharaõ mais conveniencia em recebe-lo cá, do que em Lintim, que naõ tem tido nem tanta extracçaõ, nem taõ bom preço.
O Arros tem tido variaçaõ no preço e agora está a tres patacas; a colheita d'este anno na China hade ser mais abundante, que a do anno passado, porém assim mesmo, he provavel continue a conservar o preço com pequena differença.
Os outros generos d'Europa e Azía naõ tem tido alterações: vinho tinto ha pouco, e tem preço.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Marco toponímico Conselheiro Borja

As traseiras das Ruínas de S. Paulo foram durante muitos anos um depósito improvisado de artefactos que o progresso obrigou a retirar dos locais originais. É o caso deste marco toponímico com a inscrição em português e chinês fotografado na década 1960:
Governo Conselheiro Borja 路政參布 (Rua/Travessa Conselheiro Borja)
Em Macau existe uma avenida, uma rua e uma travessa com o seu nome.
Custódio Miguel Borja (1849-1911) foi governador de Macau e Timor entre 16.10.1890 e 24.03-1894. Nesse âmbito foi também Ministro plenipotenciário de Portugal na China, Japão e Tailândia.
Seria exonerado a 10 de Novembro de 1893:
"Hei por bem exonerar o capitão de fragata supranumerario da armada conselheiro Custodio Miguel Borja do logar de governador da provincia de Macau e Timor para que fôra nomeado em decreto de 2 de abril de 1890 e que serviu com zêlo e intelligencia O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."
Seguiu-se José Maria de Sousa Horta e Costa, nomeado novo governador no mesmo dia:
"Attendendo ás circumstancias que concorrem no capitão de estado maior de engenheria do exercito de Portugal José Maria de Sousa Horta e Costa hei por bem nomeal o para o logar que se acha vago de governador da provincia de Macau e Timor O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

António Manuel 黎光藻: 1931-2026

Morreu a semana que passou aos 95 anos António Manuel Brito Lai, "o alfaiate que vestiu presidentes, governadores, diplomatas e muita gente anónima em Macau", segundo a TDM.
Retrato em desenho por IA a partir de fotografia

Nascido em 1931 na China continental veio para Macau durante a guerra sino-japonesa e abriu a alfaiataria António Manuel que marcou a cidade na segunda metade do século 20 em 1943. O governo, funcionários públicos, militares e polícias foram os seus clientes principais na loja sita no nº 25 da Rua Nossa Sra. do Amparo.

domingo, 23 de agosto de 2026

Uma visita guiada em 1867

Entre 11 e 14 de Fevereiro de 1867 o jovem Conde Ludovic de Beauvoir, acompanhando o Duque de Penthièvre numa viagem à volta do mundo, visitam Macau. Partiram em Abril de 1866 e visitaram a Austrália, a ilha de Java, o Sião, Hong-Kong, Macau e Cantão, depois a China do Norte, o Japão e a Califórnia e voltaram para França em Setembro de 1867.
Os viajantes franceses chegaram a Macau vindos de Hong Kong a bordo do vapor a pás Fire-Dart e partiram em direcção a Cantão poucos dias depois.
Dois anos depois o conde publica um livro sobre a viagem. Num tom muito crítico resume o declínio económico da cidade afirmando que, se não fosse o êxodo forçado dos cules e o lucrativo contrabando de ópio, a "erva cresceria nas ruas de Macau abandonada". Para ele, o dinamismo comercial tinha sido totalmente absorvido pela vizinha Hong Kong britânica, restando a Macau a dependência deste comércio humano degradante e que só seria proibido uma década depois.

Excertos do diário a 12 de Fevereiro (tradução/adaptação) publicado em Voyage autour du monde: Java, Siam, Canton" logo em 1869:
"Graciosamente conduzidos durante a primeira parte do dia por Dom Osório, ajudante de campo do Governador, e durante a segunda por Sua Excelência em pessoa, Dom José Maria da Ponte e Horta, major de artilharia, visitamos hoje toda a possessão, o que é fácil, visto parecer-me ter cinco quilómetros de comprimento por dois de largura. Esta península tem exatamente a forma de uma pegada humana, cujo calcanhar está voltado para o mar, enquanto o polegar termina numa língua de terra com quatrocentos metros de largura que a une à grande ilha de Hiang-Chan.
O calcanhar é formado por nove altas colinas rochosas que dominam os fortes de Bom Parto, Barra, São João e São Jerónimo; a grande curva interior da planta do pé está preenchida pelas habitações amontoadas dos chineses, que são em número de cento e vinte e cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses estão domiciliados no lado oposto e exterior. A Praia Grande, esplanada marítima, é o seu boulevard; solares de grades escuras, o Palácio do Governador, a Capitania do Porto, vivendas oficiais ou comerciais estão ali alinhadas, apresentando absolutamente o cunho colorido, arqueado e monástico da mãe-pátria.
Suponha-se então que uma muralha escala o peito do pé (...) e que todas as articulações dos dedos se crispam e se erguem; não são mais do que montanhas em sobressalto no topo das quais se erguem os fortes de São Francisco, da Guia, de São Paulo do Monte e sete ou oito outros; depois vêm a planície cultivada pelos hortelãos, a aldeia de Mong-Há e a barreira de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As estradas que seguimos na nossa interessante viagem são escavadas em cornija no granito e do efeito mais pitoresco; uma centena de canhões de grande calibre apontados nas alturas partilham a tarefa de defender a península do lado do mar envolvente ou de bombardear o bairro das cento e vinte e cinco mil tranças em caso de motim.
Depois visitamos a Praça da Sé, a catedral, os velhos paços do concelho onde fica o Senado e onde figura esta inscrição desde 1654: CIDADE DO NOME DE DEOS NAO HA OUTRA MAIS LEAL. 
Percorremos os quartéis, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída em 1594 pelos Jesuítas e hoje três quartos incendiada, o Asilo dos Pobres, etc., etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimados por cruzes, ornados com santos em nichos, cobertos de frescos curiosos. Adicione a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o imenso chapéu preto e oblongo sob o qual caminham os monjes, a cornoita branca das Freiras da Caridade, e jurar-se-ia, garanto-lhe, que estamos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova.
Após os espetáculos modernos que nos acabam de dar, há dez meses, os mundos inteiramente novos e os mundos asiáticos onde, pelo menos, a invasão industrial tem todo o cunho da atualidade, é como uma ilusão encontrar à porta do Império do Meio uma caixa de doces antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que não houve nesta terra distante senão os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças. (...)
O crepúsculo está a terminar no momento em que termina também para nós o território da colónia: estamos sobre a estreita língua de terra que liga Macau a Hiang-Chan. A cerca de duzentos metros de nós, tanto à direita como à esquerda, quebram-se as vagas da maré montante, e a barreira granítica do Império chinês detém-nos. Ei-lo, pois, o famoso solo onde flutua livremente a bandeira amarela do Imperador!*
Mas que desilusão! É coberta de imundícies, de podridão e dos trapos dos descendentes do Fogo que nos aparece a Terra Celestial das Flores. Um grupo de cerca de sessenta homens vestidos de branco, batendo em tam-tams e uivando com uma voz aguda, leva um morto a sepultar e desfila diante de nós (...). 
Foi neste mesmo lugar que morreu assassinado o penúltimo Governador de Macau, o valente Ferreira do Amaral. Tendo tomado em mãos a reivindicação inteira de Macau por Portugal, atraiu a si a cólera dos mandarins de Cantão, que queriam a todo o custo manter os seus esbirros com paridade de autoridade na colónia portuguesa. Não recorreram à guerra aberta e lutaram pelo homicídio, o que lhes custava bem menos caro: a 22 de Agosto de 1849, os seus sicários lançaram-se sobre Amaral no momento em que ele passeava a cavalo ao longo desta muralha com um ajudante de campo, e levaram até aos pés do Governador de Cantão a cabeça e as mãos ensanguentadas do desgraçado oficial. (...)"
* Porta do Cerco

sábado, 22 de agosto de 2026

"Praça Luiz de Camões"

Nesta placa toponímica fotografada no início da década 1980 a grafia é "Praça Luiz de Camões" com os caracteres chineses ao lado na vertical (白鴿巢前地) que significam "Em frente ao ninho das pombas brancas" e que entre a comunidade chinesa é conhecido como Pa Kap Chau: 白 (Pa / Bái): Branco 鴿 (Kap / Gē): Pombo / Pomba 巢 (Chau / Cháo): Ninho.

Em baixo uma sinalética do LS (Leal Senado) assinala uma "estação de triciclos"; 站車輪三 - lido da direita para a esquerda, ou seja, um local onde estavam estacionados riquexós. Se a memória não me falha diz-se em cantonense Sam Leun Ché.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O fim da iluminação pública a petróleo

No "Relatório da vereação da Câmara que funcionou durante o biénio de 1924-1925" (Leal Senado), fica-se a saber que só nesses anos terminou a "iluminação a petróleo" passando a iluminação pública a ser exclusivamente "eléctrica".

"Quando a nossa vereação tomou conta da administração municipal, existia em Macau a iluminação eléctrica juntamente com a iluminação a petróleo. Esta última era incompleta, não só porque as lâmpadas eram dum poder iluminante muito reduzido, como também produziam um aspecto desagradável os postes de entena, na sua maioria carcomidos e em misérrimo estado de conservação.
Resolveu a nossa vereação substituir a iluminação a petróleo por iluminação eléctrica, instalando-se para isto as necessárias lâmpadas eléctricas.
Além disto foi instalado um grande número de lâmpadas para iluminar as novas vias públicas.
Se bem que existam ainda algumas vias que carecem dum reforço de iluminação, contudo pode considerar-se, dum modo geral, que a cidade está presentemente bem iluminada.
A vereação não descurou também a questão do alinhamento dos postes, conseguindo, por acôrdo com a Direcção das Obras Públicas, Capitania e Companhia da Luz Eléctrica e Telégrafo, suprimir um grande número de postes desnecessários, na Rua da Praia Grande, e colocando os outros debaixo dum certo alinhamento acabando assim com o mau aspecto de uma linha sinuosa de postes, alguns dos quais colocados quási no meio da rua.
Ficou combinada, por preço insignificante, a remoção dos postes da Estrada Conselheiro Ferreira de Almeida, para uma nova avenida, trabalho que não chegou a executar-se por falta do alinhamento da nova estrada. Logo que tal alinhamento fôr dado pela Direcção das Obras Públicas, o trabalho poderá imediatamente ser executado, acabando-se assim com a anormalidade de postes, no meio duma estrada estreita como é a referida. (...)

Aspecto do final da rua da Praia Grande na década 1920
Iluminação pública em 1º plano à direita
Ao fundo a 1ª versão do que é hoje uma biblioteca pública no Jardim S. Francisco

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Casa-Forte que acabou Fortaleza

Entrada da Fort. do Monte
Postal da década 1970

Se a História de Macau fosse escrita por um romancista de génio — digamos, um Camilo de sobrancelhas carregadas e pena afiada — ninguém acreditaria nela.
Porque Macau, desde o berço, parece ter sido governada por uma lógica própria, meio divina, meio trapalhona, sempre engenhosa e invariavelmente portuguesa.
No princípio eram os jesuítas.
Não apenas pregadores, mas administradores, urbanistas, diplomatas, médicos, contabilistas e, quando necessário, cobradores de impostos com zelo quase bíblico.
D. Melchior Carneiro, bispo e fundador político da cidade, organizou o Leal Senado, a Santa Casa, o Hospital de S. Rafael — e, sobretudo, o sistema que garantia a sobrevivência de tudo isto: o célebre um por cento dos lucros do comércio da seda e da prata do Japão.
Ora, esse um por cento não era bagatela. Era fortuna. E fortuna, como bem sabia qualquer padre prudente, precisa de paredes grossas. Assim nasceu a obra que hoje chamamos Fortaleza do Monte — mas que, na sua origem, não era fortaleza nenhuma. Era casa forte, cofre monumental, arca de pedra onde os jesuítas pretendiam guardar o tesouro que sustentava Macau.
A ideia de fortaleza viria depois, como tantas coisas em Portugal: por necessidade, improviso e um certo fatalismo que transforma depósitos em bastiões.
Na segunda década do século XVII ergueu-se, pois, a grande torre: paredes de um metro e dez, porta de dupla segurança, escadas lançadas com método e ambição.
Não era ainda fortaleza, mas já tinha o ar severo de quem guarda dinheiro alheio.
E como não havia militares disponíveis — nem vontade de os pagar — a obra ficou entregue aos padres e aos seus escravos. Uns construíam, outros carregavam, todos obedeciam. Macau, desde cedo, habituou-se a esta mistura de devoção e contabilidade.
Quando, a 24 de Junho de 1622, os holandeses tentaram desembarcar, a casa forte ainda não era fortaleza completa. Mas era o que havia.
Os jesuítas, que tinham aprendido a manejar canhões com a mesma destreza com que manejavam almas, puseram os escravos a postos. E, segundo testemunhos dos próprios invasores, deram-lhes uma mistura de vinhos — português, chinês e o que mais houvesse — que produziu nos pobres diabos uma coragem tão súbita quanto devastadora.
Os escravos lançaram-se sobre os holandeses com fúria bíblica. Uma bala disparada da torre — ainda inacabada — veio cair no exacto local onde hoje se ergue o Monumento da Vitória.
Foi milagre, disseram uns. Foi vinho, disseram outros. Foi Macau, digo eu.
Mas a glória durou pouco.
Em 1623, o governador D. Francisco de Mascarenhas, recém-chegado e sem residência digna, decidiu que a casa forte — agora fortaleza — não podia continuar nas mãos de padres.
Mandou vir um destacamento espanhol de Manila e tomou a fortaleza à força, expulsando os jesuítas como se fossem intrusos naquilo que eles próprios haviam erguido para guardar o tesouro da cidade.
E assim, a casa forte dos jesuítas, defendida por escravos, só voltou à Coroa quando militares espanhóis a conquistaram.
Depois disso, o Monte foi residência de governadores, quartel, presídio, comando militar, abrigo de polícias e, por fim, museu.
Cada época deixou-lhe uma cicatriz, uma pedra, uma história.
E assim ficou para a posteridade: começou casa forte, tornou-se fortaleza, foi defendida por escravos, tomada por espanhóis, abandonada por soldados, ressuscitada como museu. Uma obra que nasceu para guardar dinheiro e acabou a guardar memórias.

Artigo da autoria de João Guedes publicado a 13.7.2026 na página da rede social FB "Macau Meio Milénio de Aventura".
Vista parcial da cidade a partir da Fort. do Monte: década 1980

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Fotografia rara de Jack Braga no Seminário de S. José

Jack Braga com seminaristas e padres do Seminário de S. José ca. 1927

As ligações do historiador e erudito luso-descendente José Maria Braga (1897-1988) - conhecido como Jack Braga ao Seminário de São José em Macau são profundas e marcaram o início do seu percurso como um dos maiores investigadores da história da presença portuguesa no Extremo Oriente.
Após a sua família se reinstalar em Macau vinda de Hong Kong no início dos anos 20, José Maria Braga ingressou no corpo docente do Seminário. 
Foi durante vários anos como professor de Inglês, Literatura Inglesa e Inglês Comercial.Impacto na diáspora: Os seus alunos eram jovens macaenses que, graças a esta formação prática em inglês, viriam a alimentar as redes comerciais e a diáspora de Macau para cidades como Hong Kong, Xangai e Cantão.
Foi precisamente nos corredores do Seminário de São José que Jack Braga despertou e consolidou a sua paixão pela investigação documental e história.
Na altura em que Braga ensinava no Seminário, o principal historiador de Macau em actividade era o Padre Régis Gervaix, que ali leccionava francês. Quando Gervaix partiu para a Universidade de Pequim em 1925, Braga assumiu informalmente o testemunho da investigação histórica local.
O Seminário e o seu espólio serviram de inspiração para os seus estudos focados na Companhia de Jesus e no Padroado Português no Oriente. Importa ainda referir que quando o jovem Manuel Teixeira chegou a Macau em 1924, com apenas 12 anos*, para ingressar no seminário, encontrou Jack Braga como seu professor. Refiro-me a Monsenhor Manuel Teixeira que considerou Jack, a par de Charles Boxer, como um dos dois maiores historiadores de Macau.
* estará o ainda menino Manuel Teixeira na fotografia de grupo?

Jack Braga na década 1920

Aquando da morte de Jack Braga em 1988 o padre Manuel Teixeira escreveu no jornal Gazeta Macaense:
"Acaba de falecer em San Francisco, EUA, com 90 anos de idade, este nosso velho amigo. Digo «velho amigo», porque a nossa amizade nunca foi ensombrada durante 64 anos.
Quando chegámos a Macau em 1924, era ele um jovem professor de 28 anos no Seminário de S. José, onde ensinava Inglês e Literatura inglesa.
O único historiador que então florescia era o Pe. Régis Gervaix, nosso professor de Francês, no mesmo Seminário onde leccionava Braga. Mas Gervaix foi convidado pelo Governo Chinês para professor de Literatura francesa na Universidade de Pequim, para onde partiu em 1925.
Jack Braga, que já desde 1920 se interessava pela história de Macau, retomou a bandeira nas suas mãos e ergueu-a triunfante. Durante uma dezena de anos, foi ele o grande historiador desta terra, como o Pe. Gervaix desde 1916. Os seus trabalhos, publicados em Inglês, tornaram Macau muito conhecido no estrangeiro.
Havia outro grande historiador: era Montalto de Jesus, que já em 1902 publicara a sua obra magistral «Historic Macao», que se esgotou rapidamente. Foi Jack Braga que o levou a publicar uma 2a edição e tratou de todos os arranjos; mas, quando esta saiu em 1926, caiu o Carmo e a Trindade; o livro foi queimado junto ao Tanque do Mainato e o seu autor condenado pelo Tribunal, vindo a morrer na miséria. Ainda espera a sua reabilitação. Ficou de pé apenas Jack Braga.
Jack Braga e Boxer completavam-se. Ambos produziram muitíssimo. Braga bem merecia uma condecoração do Governo, que eu propûs várias vezes, mas sem efeito.
Macau tem ainda uma dívida em aberto para com estes seus dois filhos, Montalto e Braga, grandes historiadores da sua terra.
Até quando?"
Igreja do Seminário de S. José
Ilustrações criadas por IA a partir de postais ilustrados
Nota 1:
Jack foi agraciado a título póstumo por Portugal com o grau de Grande Oficial de Ordem de Infante D. Henrique. Inglaterra condecorou-o em 1950 com o título de "Chevalier of the Order of Saint James of the Sward".

Nota 2: Na foto de grupo pode ainda ver-se sentado ao centro Pedro José Lobo (1892-1965)  que chegou a Macau oriundo de Timor em 1901 com apenas 9 anos; e na ponta do lado direito António André Ngan Im Ieoc (1907-1982), ordenado sacerdote em 1931vindo a ser o primeiro padre de origem chinesa a assumir os cargos de vigário-geral e governador do Bispado na Diocese de Macau.

domingo, 16 de agosto de 2026

"Please keep the city clean"

Em 1984 foi iniciada a implementação de um novo sistema de deposição e recolha dos resíduos sólidos adaptado às novas necessidades do território. A alteração foi acompanhadas por acções de sensibilização à população, nomeadamente com recurso a campanhas publicitárias. Na imagem um cartaz colocado na rua junto à entrada do casino do Hotel Lisboa.

sábado, 15 de agosto de 2026

"Macao in colour: Bonus Album"

As décadas de 1950 a 1980 foram de ouro para os postais ilustrados. Na primeira imagem uma colecção de postais (a nº 1) intitulada "Macau in Colour" numa solução com um marketing atractivo. Sob o slogan "Mail the postcards! Save the miniatures!" o consumidor era atraído pela múltipla vantagem da compra ("bonus album"): podia enviar pelo correio os postais no seu tamanho normal e ficar com a reprodução em miniatura dos mesmos. 
Na capa, em maior destaque uma vista panorâmica da Baía da Praia Grande. Trata-se de uma edição do final da década 1960. 
Pode ver-se o edifício Rainha D. Leonor, o Liceu (inaugurado em 1958) e o início da construção do Hotel Lisboa (inaug. em 1970).
Estátua de Ferreira do Amaral, Liceu e Ed. Rainha D. Leonor
Entrada do templo de Kun Iam Tong
(Av. do Coronel Mesquita)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Renovação do Teatro Cheng Peng em 1952

Anúncio do cinema/teatro Cheng Peng (清平戲院) a anunciar (1952) a remodelação/modernização das instalações. Dundado originalmente em 1875, foi o primeiro teatro de Macau projectado especificamente para a Ópera Chinesa. Em 1952 passou por reformas para incluir tecnologias modernas como o som da RCA e sistemas de ar condicionado para competir com os cinemas contemporâneos.

Parte Superior (Colunas da direita para a esquerda):

全部新型裝置
建築堂煌華麗
北極冷氣調節
RCA 聲影機
舒適無匹座椅
選映首輪粵片
專演巨型猛班

Texto à Esquerda (Endereço):
院址 — 清平新街二十三號

Parte Inferior (Centro e Direita):
Logotipo: 清平 (Cheng Peng) / Teatro Cheng Peng

Texto em destaque: 快將開幕 ‧ 注意日期
Texto na base: 雄踞濠江 ‧ 劇藝新宮

Tradução:
Características e Instalações:
Instalações totalmente novas e modernas.
Arquitectura magnífica e luxuosa.
Ar condicionado "Pólo Norte" (ajuste térmico).
Projetores de som e imagem da marca RCA.
Assentos de conforto incomparável.
Exibição seleccionada de filmes de primeira linha em Cantonense.
Especializado em performances de grandes companhias de ópera/teatro.

Endereço:
Sede: Travessa do Auto Novo, n.º 23 (Macau).

Anúncio Principal:
Grande inauguração em breve! Fique atento à data.

Slogan na base: O novo palácio das artes dramáticas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

"A moderna e airosa ermida de Nossa Senhora da Penha"

Situada no topo da Colina da Penha, a primitiva Ermida de Nossa Senhora da Penha de França foi edificada em 1622. Ao longo dos tempos foi alvo de várias remodelações. A ilustração feita por IA a partir de fotografia mostra o aspecto que tinha na primeira metade do século 20.
Nomes em chinês pela qual se designa 主教山聖堂 / 主教山教堂

Fresca e airosa, ergue-se, no alto da Penha, a Ermida de Nossa Senhora. É um dos pontos que nos saltam à vista, enquanto nos deslocamos, em passeio ameno, pelas Avenidas que correm ao longo da parte sul da colina. De linhas modernas arquitectónicas, erguendo-se altaneiro o minarete da torre, marca bem a sua presença no cenário desta parte da península.
Domina a enseada da Praia Grande, toda a parte central da cidade, e a marginal do Porto Interior, até se perder de vista, avançando a prospectiva pelo território chinês, num deslumbrante espectáculo, esfumando-se à distância nos cimos das montanhas.
Ponto de interesse paisagístico, de crenças religiosas e de tradições históricas, cremos ser um dos mais apreciados dos que nos visitam e é, com certeza, um dos sítios que vive no coração de todos os portugueses que aqui residem.
Ao lado da Ermida, está a residência episcopal do Bispo da Diocese e, logo na encosta, virada para a cidade, a imagem da Senhora de Lurdes, na sua pitoresca gruta.
Lugar de peregrinações anuais, sobretudo no dia 13 de Maio, também o tem sido em horas de aflição da população citadina. Muito teriam que nos narrar as calçadas que conduzem ao cimo dessa colina se nos quisessem confiar as suas memórias.
E volvendo os olhares sobre o passado vamos descortinar uma ligeira notícia sobre essa colina que não foi descuidada na defesa desta parcela nacional. 
Embora quase à vista estivessem a Fortaleza do Bom Parto e a de S. Tiago da Barra, aproveitou-se a posição do alto da colina que melhor dominaria as proximidades. Com referência ao ponto de vista de fortificação, diz-nos o padre jesuíta José Montanha, na sua obra manuscrita do século XVII «Aparatos para a História do Bispado de Macau», depois de nos descrever o Baluarte do Bom Parto, o seguinte:  «... e deste Baluarte corre o pano de muro para Oeste, e para alto e meio da Ilha está a Hermida de N. Sra. de Penha e desta Hermida descobre o mar da parte de Oeste, e tem uma peça de bronze de seis libras invocada de N. Sra. de Penha, e correndo a ilha da parte de sudeste a largo de tiro de peça está a Fortaleza da Barra».
Numa carta geográfica de Macau, da «Ásia Portuguesa» de Manuel de Faria e Sousa, a Ermida da Penha é-nos apresentada com ligação com a fortaleza do Bom Parto e ainda hoje há vestígios de fortes muralhas, que devem ser os restos das então existentes, com orientação para esse lado.
Noutra carta de Macau, do século XVII, (depois de 1638), extraída duma antiga gravura holandesa, é-nos indicada a posição da Ermida e Fortaleza da Penha, no cimo da colina.
Na descrição de Macau feita pelo italiano Marco de Avalo, incluída na relação da viagem do holandês Rechteren às Índias Orientais (1628-1632), lê-se:
«Edificaram aí uma cidade que é rodeada duma forte muralha e de bons baluartes. Há na ilha três montanhas que constituem como que um triângulo e um forte sobre cada uma delas. Chama-se o mais considerável forte de S. Paulo... Chama-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de la Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome. Está guarnecido com 6 pequenas peças, de 6 a 8 libras de bala».
Na gravura holandesa a que nos referimos anteriormente, «está a muralha que rodeia a ermida coroada de ameias e canhoneiras», na fortificação do alto da Penha. 
Disto podemos inferir que aquela pequena elevação foi de grande valor para a fortificação e defesa da cidade. Mas à medida que se foram apagando as fumaças dos canhões, foi-se erguendo mais a capelinha e a Fé dos portugueses, até prevalecerem sobre os escombros das ruínas dessas heróicas construções.
Ambas erguidas em horas de glorioso patriotismo, aliaram-se em espiritualidade para perpetuar a alma portuguesa, sem desmerecer de quanto foram e serão os corações dos nossos antepassados.
in Macau Boletim Informativo (R.C.S.E.) 15 Set. 1955 
(excepto ilustração por IA e foto a cores)
O aspecto actual resulta das obras de remodelação concluídas em 1935.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Anúncio "Pedido de desculpas"

Anúncio publicado na imprensa chinesa de Macau em Junho de 1965 onde uma empresa pede desculpas públicas pela ruptura de stock do refrigerante Fanta (traduzido na época como "Fanta Orange Juice" / 發達橙汁), devido ao enorme sucesso de vendas.

道歉啓事
敝公司監製之發達橙汁
自銷售以來,荷蒙社會各界一致愛護,銷路超乎預算,故以往數天曾供不應求,有勞貴顧客函電催速,殊深歉仄。 爲酬雅意,特電美國廠方盡速空運發達橙汁原材料到澳,由卽日起將源源不斷供應。特此道歉,並敬申謝悃。
澳門可口可樂汽水廠敬啓 電話:三五〇五 三五八八

Tradução/Adaptação
Anúncio de Desculpas
O Fanta Orange Juice produzido sob a supervisão da nossa empresa, desde o início das suas vendas, tem recebido o apoio unânime de todos os sectores da sociedade. As vendas superaram em muito as nossas estimativas, razão pela qual a oferta não conseguiu satisfazer a procura nos últimos dias. Lamentamos profundamente o incómodo causado aos nossos estimados clientes que nos contactaram por carta ou telefone para solicitar o envio rápido do produto.
Em retribuição pela vossa preferência, enviámos um telegrama urgente para a fábrica nos Estados Unidos para que transportassem, por via aérea e o mais rapidamente possível, os ingredientes originais do Fanta Orange Juice para Macau. A partir de hoje, o fornecimento será retomado de forma contínua. Apresentamos aqui as nossas sinceras desculpas e os nossos profundos agradecimentos.
Atenciosamente, Fábrica de Refrigerantes Coca-Cola de Macau Telefone: 3505 / 3588

Nota:
"發達橙汁" (Fanta): Hoje em dia, a Fanta é universalmente conhecida na China e em Macau como 芬達 (Fēndá). No entanto, neste anúncio antigo, usaram o nome 發達 (que se lê Fāt-daht em cantonense, soando muito parecido com "Fanta", mas com o significado auspicioso de "ficar rico" / "prosperar").

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Travessa da Ribeira

Na imagem uma placa toponímica anterior a 1999 da Travessa da Ribeira, na zona do Patane.
 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A 'febre' das bicicletas no início do século 20

Data de 1899 a criação da primeira empresa dedicada à construção, venda e conserto de bicicletas e riquexós. Denominada Macao Cycle Depôt, pertencia a L. A. da Silva e estava localizada nos números 97 e 99 da Praia Grande.
No início do século 20 era Carlos Ayres o proprietário da empresa que importava marcas como a "Raleight" de Inglaterra . O entusiasmo pela nova modalidade de passeio foi tal na sociedade macaense que nessa altura já existiam cerca de uma dezena de estabelecimentos onde era possível alugar bicicletas.
Num anúncio da empresa em 1910 podia ler-se:
MACAO CYCLE DEPOT
Esta conhecida e antiga loja de bicycletas acaba de receber de Londres uma remessa de bicycletas para homens e senhoras e de varios outros accessorios, taes como: cornetas acusticas, lanternas, travões, gomma, tinta, rodas, borracha interna e externa, presilhas para calças, etc. etc. Vão ser postas á disposição do respeitavel publico para aluguel muitas bicycletas novas. Pede-se aos amantes do sport de bicycletas uma visita a este estabelecimento onde se encontram á venda todos os accessorios de bicycletas e machinas completas por preços convidativos.
Macau, 28 de março de 1910.
Carlos Ayres.
Num relatório da polícia local de 1920 descreve-se o número de bicicletas como um "formigueiro perigoso" registando-se inúmeros acidentes, nomeadamente com peões e os primeiros carros que circulavam na cidade.
Perante este cenário de caos, o Leal Senado viria a criar três espaços (com diferentes horários) para se aprender a andar de bicicleta: no Campo de Mong-Há, na Avenida da República (desde o Tanque dos Mainatos até à Fortaleza da Barra) e na Avenida Vasco da Gama.
Ao mesmo tempo no Código de Posturas da cidade os agentes de autoridade tinham responsabilidade de fiscalizar com mais afinco a circulação de bicicletas e aplicar multas. Bicicleta sem campainha dava lugar a uma coima de duas patacas. A falta de lanterna custava uma pataca de multa.

domingo, 9 de agosto de 2026

Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro / 盧伯德圓形地

A Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro fica junto à Fortaleza da Taipa e não é por acaso...
盧伯德圓形地
盧伯德: Transliteração fonética de Loureiro
圓形地: significa terreno circular/rotunda


Filho de José da Silva de Loureiro (1745-1820) e de Genoveva Flora Joaquina da Cunha (1753-1833) ambos nascidos e falecidos em Ponta Delgada, Pedro José da Silva Loureiro nasceu em Ponta Delgada (Açores) a 29 de Junho de 1792.
Chegou pela primeira vez a Macau, como guarda marinha, acabando por fazer quase toda a sua carreira militar no Oriente. Em 1824 foi promovido a 2.º tenente da Armada e a 1.º tenente em 1853, sendo reformado em capitão de fragata da Armada de Goa.
Foi durante alguns anos capitão do porto de Macau sendo encarregado pelo Governador Ferreira do Amaral de construir o Forte da Taipa, facto que marcou a ocupação definitiva daquela ilha. Foi também comerciante, sendo eleito almotacé da Câmara em 1827. Casou em Macau (S. Lourenço) a 12-04-1826 com Ana Rosa Inocência do Espírito Santo Pereira de Almeida. Tiveram 16 filhos. Quatro deles, Luís, Pedro, Francisco e Eduardo frequentaram o Seminário de S. José em 1840.
Morreu a 16 de Setembro de 1855 de "uma apoplexia fulminante". Era 1.º tenente da armada. Foi sepultado no Cemitério de S. Miguel.
Notícia no Boletim da Província de Macau, Timor e Solor a 22 de Setembro de 1855:
Necrologia.
No dia 16 do corrente ás 5 horas da manhã falleceu o 1o. Tenente da Armada Pedro José da Silva Loureiro, Capitão do Porto de Macau. Uma apoplexia fulminante o roubou a este mundo, e cobrio em um instante de pesado luto a sua extremosa e inconsolavel familia.
Era um portuguez estabelecido ha muitos annos em Macau onde o prendeu o amor, que sempre consagrou a sua carinhosa e triste esposa.
Excellente pai, empregou todos os meios ao seu alcance para educação de seus filhos, objecto de seus disvellos e do seu orgulho, e morreu aos 63 annos de idade, legando-lhes essa riquesa que nenhuma das vicissitudes do mundo pode jamais tirar.
Numeroso concurso de pessoas entre os quaes se viam as mais notaveis da Provincia, tanto nacionaes como estrangeiras, acompanharam o enterro ao cemiterio de S. Miguel, e uma guarda do Batalhão de Artilheria com a banda de musica do mesmo corpo, e commandada por um official de patente igual á do fallecido, lhe fez as honras funebras do estilo.
Foi sepultado as 6 horas da tarde.
Deos lhe conserve a alma em sua santa gloria, e seu corpo descance em paz.
Na edição de 6 de Outubro desse ano na mesma publicação a família publica:
D. ANNA ROSA LOUREIRO e suas filhas e filho agradecem a todas as pessoas, a quem o não tenham feito mais particularmente, a bondade, que tiveram, de assistir no funeral de seu muito presado esposo e pai Pedro José da Silva Loureiro, e esperam que esta falta de lembrança se considere unicamente devida ao estado de afflicção e desgosto em que ficaram por tam triste e inesperado acontecimento.
Macao 6 de Outubro de 1855.
Fortaleza da Taipa no séc. 21

A primeira filha do casal, Genoveva Rosa Joaquina do Espírito Santo Loureiro (1827-?) casou na capela da Residência do Governador com Isidoro Francisco Guimarães (1808-1863), governador de Macau (1851-1863), capitão de mar-e-guerra, do Conselho de S. M. F., e visconde da Praia Grande de Macau.