quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Prémio Fundação Jorge Álvares – General Vasco Rocha Vieira – Amizade Portugal-China

A Fundação Jorge Álvares lançou este ano a primeira edição do Prémio General Vasco Rocha Vieira-Amizade Portugal-China. 
O objetivo é incentivar o estudo e a investigação das relações entre Portugal e a República Popular da China, através de Macau, bem como reconhecer as instituições que promovam iniciativas relevantes no sentido de reforçar a aproximação entre as comunidades portuguesa, chinesa e macaense. 
O prémio compreende duas categorias: instituições, a atribuir em anos pares, a começar em 2026; e trabalhos de investigação, a atribuir em anos ímpares, a começar em 2027. O valor do prémio é de vinte cinco mil euros.
Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo, Praia Grande, Macau
Desenho a lápis criado por IA a partir de fotografia de Rui Ochoa

Objectivo: Homenagear o último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, incentivando o estudo, investigação e projetos que reforcem os laços entre Portugal, China e Macau.
Periodicidade e Valor: Prémio anual de 25.000,00€, atribuído alternadamente a instituições (cultura, língua, educação, filantropia) e trabalhos de investigação.
Edição 2026 (Instituições): Focada em entidades que promovam o estreitamento das relações entre as comunidades.
Edição 2027 (Investigação): Tema definido como “Da assinatura da Declaração Conjunta à transferência da Administração Portuguesa de Macau”.
Candidaturas para 2026 (instituições): de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2026.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)

É apresentado hoje em Lisboa o livro "Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)". Da autoria do historiador Alfredo Gomes Dias, a obra apresenta "as grandes linhas do pensamento e da acção do último Governador de Macau, o general Vasco Rocha Vieira".

Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo
Foto de capa de Rui Ochoa

De acordo com a editora Guerra & Paz, o livro é "baseado nos documentos pessoais do general Rocha Vieira e nas conversas que o autor com ele manteve, esta obra reflecte o complexo processo de transição da administração de Macau de Portugal para a China, concluído com a cerimónia da transferência em 19 de Dezembro de 1999."
Na obra revela-se "a perspectiva do Governador de Macau sobre a sua acção política, quer nas diversas áreas da administração do território quer nas relações que manteve com os órgãos da República, em Lisboa, e com as autoridades chinesas."
"Macau: A Última Transição" é desde já uma fonte documental "essencial para todos aqueles que se queiram dedicar ao estudo dos últimos anos da presença portuguesa em Macau."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Picturesque Macao: 1926

Há 100 anos era publicado "Picturesque Macao", livro da autoria de "J. Braga" (Jack M. Braga/José Maria Braga) com edição de Henrique Nolasco da Silva e impressão da Livraria Po Man Lau (Largo do Senado, 12). 
Foi escrito em inglês para atrair o público de Hong Kong e turistas que visitassem o território durante um certame que estava em preparação. A obra é ainda valorizada pelas fotografias da época que registam locais emblemáticos como a Porta do Cerco, a Gruta de Camões ou as Ruínas de S. Paulo.
Excerto:
Introduction
Actuated solely by a desire to provide an illustrated handbook with, if I may modestly say so, interesting historical references, I set myself somewhat over a year ago to collect from many sources the meagre notes which are published this day.
I claim nothing of originality in the work: it was first suggested to me by Mr. Charles Gerken, at that time editor of the “Hongkong Sunday Herald”, for publication in his paper, and I have leisurely sought for details regarding the romantic nooks of Picturesque Macao.
Early in August the publishers of this work requested me to furnish the letterpress for a number of pictures intended for exhibition at the Macao Industrial Fair in October, 1926. Though loth to present for public gaze notes but hastily assembled and necessarily incomplete, I decided to offer them for publication, despite inaccuracies and shortcomings, feeling that their deficiences would be overlooked in the practical purpose to which the writer hopes his little work of love will be applied.
There are places which once seen are never forgotten and Macao is one of them. To the jaded spirit of an over-worked body and the tortured nerves of the tired business man Macao offers its priceless possession—an unhurried quiet—an atmosphere of peace.
Tradução/Adaptação:
Introdução
Movido unicamente pelo desejo de fornecer um guia ilustrado com referências históricas interessantes — se assim posso dizer modestamente —, propus-me, há pouco mais de um ano, a reunir de diversas fontes as parcas notas que são publicadas hoje.
Não reivindico qualquer originalidade nesta obra: ela foi-me sugerida pela primeira vez pelo Sr. Charles Gerken, na altura editor do "Hongkong Sunday Herald", para publicação no seu jornal, e tenho procurado pausadamente detalhes sobre os recantos românticos da Macau Pitoresca.
No início de Agosto, os editores desta obra solicitaram-me que fornecesse o texto para uma série de fotografias destinadas a serem exibidas na Feira Industrial de Macau em Outubro de 1926.* Embora relutante em apresentar ao olhar do público notas reunidas apressadamente e necessariamente incompletas, decidi oferecê-las para publicação, apesar das imprecisões e falhas, sentindo que as suas deficiências seriam relevadas perante o propósito prático ao qual o escritor espera que o seu pequeno trabalho de amor seja aplicado.
Existem lugares que, uma vez vistos, jamais são esquecidos, e Macau é um deles. Ao espírito exausto de um corpo sobrecarregado e aos nervos torturados do homem de negócios cansado, Macau oferece a sua posse mais valiosa: um sossego sem pressas — uma atmosfera de paz.
Picturesque Macau
by J. Braga. Edited by Henrique Nolasco Da Silva
Printed and Published by
Po Man Lau, 1926

* A Exposição Industrial e Feira de Macau realizou-se de 7 de Novembro a 12 de Dezembro de 1926 numa vasta área das várzeas de Mong Ha (perto do Templo de Kun Iam Tong) atraindo 290.000 visitantes. Idealizado no governo de Carlos da Maia ocorreu já no governo de Maia Magalhães.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana (1930)

MACAO. Geog. 
Colonia portuguesa de la costa S. de China (prov. de Kwang-tung) en la desembocadura del Cantón, á 101 km. al SE. de Cantón y á 60 km. al O. de Hong-Kong, en una pequeña península, unida con la isla de Hiang-shan por medio de un pequeño istmo. Las murallas que existían en toda la long. de la frontera, y en cuyas puertas había antiguamente centinelas chinos, están totalmente derruídas. En la península, además de la ciudad de Macao, hay tres ald., á saber: Mong-ha, Patane y Lappa. También pertenecen al dominio portugués las islas Taipa y Colovane [Coloane]. Su extensión total es de 11,75 km², con 78.627 h., de ellos 3.898 portugueses y algunos españoles é ingleses que lo sano del clima atrae de Hong-Kong. Macao perteneció, hasta 1844, al gobierno general de Goa, y forma, desde 1896, un solo gobierno. El comercio, monopolizado por los chinos, es muy importante.

MACAO. (Llamada en portugués Cidade do Santo Nome de Dios de Macao.) 
Geog. Ciudad de la costa meridional de China, correspondiente á la prov. de Kwang-tung y sit., aproximadamente, á los 22º 20' N., al OSO. de Hong-Kong y á unos 100 km. de Cantón. Forma parte de la colonia portuguesa del mismo nombre y se levanta á orill. del estuario del río de Cantón ó de las Perlas, en el extremo S. de una península, cortada por numerosos esteros, que la convierten en isla. La ciudad propiamente dicha cuenta 74.866 h., de los que 3.919 son blancos, entre ellos 3.780 portugueses; 60.057 chinos, y 154 pertenecen á diversas naciones. Se divide en dos barrios, el chino y el europeo, y está rodeada de colinas con fuertes de poca importancia. En el barrio europeo, bien edificado, aunque con muchas pendientes, hay buenas casas con jardines, un paseo llamado Praia Grande, el hospital, el Senado, cinco templos, entre ellos la catedral de San Pablo; varias capillas y un muelle semicircular que mide más de 1 km. En un jardín cercano á la iglesia de San Antonio se encuentra una gruta donde, según la tradición, terminó Camoens sus Lusiadas. El barrio chino es sucio y de calles estrechas, pero muy animado y comercial. La rada, defendida por algunos islotes, tiene muy poco fondo, de manera que los buques de gran porte tienen que anclar á 9 ó 10 km. de la ciudad. El comercio, antes muy importante, ha decaído; se reduce casi todo al de tránsito y está, en su mayor parte, en manos de los chinos. En 1910 se exportaron por él mercancías consistentes en añil, arroz, azúcar, té, seda, etc., evaluadas en 6.707.360 escudos, y se importaron por valor de 7.322.040.

in Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, 1930
Inclui uma fotografia tirada da colina da Guia sobre a Fortaleza do Monte e Porto Interior


Tadução/Adaptação

MACAU. Geogr. 
Colónia portuguesa da costa sul da China (província de Kwang-tung) na foz do Cantão, a 101 km ao SE de Cantão e a 60 km ao O de Hong Kong, numa pequena península, unida à ilha de Hiang-shan por meio de um pequeno istmo. As muralhas que existiam em toda a extensão da fronteira, e em cujas portas havia antigamente sentinelas chinesas, estão totalmente destruídas. Na península, além da cidade de Macau, há três aldeias, a saber: Mong-ha, Patane e Lapa. Também pertencem ao domínio português as ilhas da Taipa e Coloane. Sua extensão total é de 11,75 km², com 78.627 habitantes, dos quais 3.898 portugueses e alguns espanhóis e ingleses que o clima saudável atrai de Hong Kong. Macau pertenceu, até 1844, ao governo geral de Goa e forma, desde 1896, um só governo. O comércio, monopolizado pelos chineses, é muito importante.


MACAU. (Chamada em português Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.) 
Geogr. Cidade da costa meridional da China, correspondente à província de Kwang-tung e situada, aproximadamente, aos 22º 20' N., ao OSO de Hong Kong e a cerca de 100 km de Cantão. Faz parte da colônia portuguesa de mesmo nome e ergue-se à margem do estuário do rio de Cantão ou das Pérolas, no extremo sul de uma península, cortada por numerosos esteiros, que a convertem em ilha. A cidade propriamente dita conta com 74.866 habitantes, dos quais 3.919 são brancos (entre eles 3.780 portugueses); 60.057 chineses, e 154 pertencem a diversas nações. Divide-se em dois bairros, o chinês e o europeu, e está rodeada de colinas com fortes de pouca importância. No bairro europeu, bem edificado, embora com muitas ladeiras, há boas casas com jardins, um passeio chamado Praia Grande, o hospital, o Senado, cinco templos, entre eles a catedral de São Paulo; várias capelas e um cais semicircular que mede mais de 1 km. Num jardim próximo à igreja de Santo António encontra-se uma gruta onde, segundo a tradição, Camões terminou os seus Lusíadas. O bairro chinês é sujo e de ruas estreitas, mas muito animado e comercial. A enseada, defendida por alguns ilhéus, tem pouca profundidade, de modo que os navios de grande calado têm de ancorar a 9 ou 10 km da cidade. O comércio, anteriormente muito importante, entrou em declínio; reduz-se quase todo ao de trânsito e está, na sua maior parte, nas mãos dos chineses. Em 1910, exportaram-se por ali mercadorias consistentes em aniz, arroz, açúcar, chá, seda, etc., avaliadas em 6.707.360 escudos, e importaram-se valores de 7.322.040.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Flora Cochinchinensis" de João de Loureiro (1717-1791)

O ananás, fruto nativo da América do Sul, nomeadamente do Brasil, foi introduzido na China pelos portugueses através de Macau no final do século XVI, sendo o ano de 1594 a data histórica mais consensual para este marco por via dos registos documentais chineses. Após terem descoberto a fruta no Brasil, os navegadores portugueses transportaram as plantas nas suas embarcações para outros destinos. Devido à resistência da planta, esta sobreviveu às longas viagens marítimas, passando primeiro por entrepostos em África e depois em Goa, na Índia, antes de chegar ao enclave de Macau. A partir deste ponto estratégico, a planta espalhou-se rapidamente pela província de Guangdong e por todo o sul da China, nomeadamente em Fujian, onde o clima subtropical favoreceu uma adaptação perfeita. Existem referências em crónicas chinesas da dinastia Ming que descrevem uma "fruta estranha com pele de escamas e uma coroa de folhas" vinda das mãos dos "estrangeiros do mar" (os portugueses). 
Em chinês, a fruta é chamada de Feng Li (鳳梨) - significa "pêra fénix", devido à semelhança da sua coroa de folhas com as penas da cauda de uma fénix e à textura da sua polpa - e também de Boluò (菠萝), nome mais habitual em Macau e que aparece em textos médicos e botânicos pouco tempo depois dessa introdução.
Além do ananás, os portugueses foram responsáveis pela introdução na China do milho, batata-doce, amendoim, malagueta, tabaco...
Planta do Ananás: ilustração criada com recurso a IA

No livro publicado em 1790 (2 volumes em latim) - "Flora cochinchinensis: sistens plantas regno Cochinchina nascentes, quibus accedunt aliae observatae Sinensi imperio, Africa Orientali, Indiaeque locis variis, omnes dispositae secundum systema sexuale Linnaeanum" o padre jesuíta João de Loureiro - viveu em Macau entre 1779 e 1782 - antes de regressar a Lisboa, classifica a planta como Bromelia ananas.
João de Loureiro nasceu em Lisboa em 1717. Aos 15 anos ingressou na Companhia de Jesus, partindo pouco depois para as missões no Oriente. Após passagens por Goa e Macau, estabeleceu-se em 1742 na Cochinchina, região que hoje corresponde ao centro e sul do Vietname, onde permaneceria durante 36 anos. A sua permanência prolongada num período de instabilidade política deveu-se ao seu valor prático para a corte local, onde serviu como matemático e, sobretudo, como médico. Foi a necessidade de curar sem acesso a fármacos europeus que o levou a estudar profundamente a flora local e a medicina tradicional, tornando-se um botânico autodidata de excecional rigor.
Em 1777/79 Loureiro retirou-se para Macau, permanecendo no território até 1781. No regresso a Lisboa ainda passa por Moçambique onde continua a recolher plantas. A espantosa colecção que reuniu despertou o interesse da comunidade científica europeia.
A sua obra principal, a Flora Cochinchinensis, foi publicada em 1790 (um ano antes de morrer)  pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Escrito em latim e organizado segundo o sistema sexual de Lineu, o livro descreve mais de mil e duzentas espécies, muitas das quais desconhecidas na Europa, como certas variedades de citrinos e plantas medicinais asiáticas. 
MONOGYNIA. GENUS I. BROMELIA.
Charact. Gener. Cal. 3 - fidus, superus. Petala 3 : squamâ nectariferâ ad basim. Bacca 3 - locularis. Lin. syst. pl. G. 427.
Sp. 1. BROMELIA ANANÁS. v. Thái Thom. Differ. spec. Brom. foliis ciliato-spinosis: spicâ comosâ. Lin. sp. 1. Hab.; & notæ. Caulis 1 - pedalis, perennis, crassus, teres, erectus, foliis ad basim imbricatus, fructu magno, solitario terminatus. Folia 3 - pedalia, subulata, margine utrâque spinosa, canaliculata, crassa, cinereo-glauca, glabra, reclinata. Bacca composita, 8 pollices longa, cylindracea, saepe sub-conica, ovata, aut subrotunda, diametro 5 - pollicari, rubra, squamosa. Flores nitidè purpurei, singulis baccae squamis singuli adnati, supra medium exerti, ante maturescentiam baccae decidui. Cal. 3 - fidus, minimus. Corolla oblonga, campanulata, 3 - petala, in acutum definens. Filamenta 6, tenuia receptaculo inserta. Stigmata 3: stylo profundè 3 - sulcato, & in tres facilè divisibili. Baccae partiales inferae, oblongae, coalitae, succosae, odorae, dulcissimae, sub-acidae, sapidissimae, salubres, 1 - loculares: seminibus tribus, longiusculis.
Habitat in magnâ copiâ in agris, & hortis Cochinchinae, ubi, quamvis optima, vili pretio venditur, praecipuè in provinciâ Doung-nai ad decimum gradum latitudinis Borealis. Anassa. Rumph. Amb. l. 8. cap. 41. tab. 81. Ananás. Tournef. Inst. p. 653. tab. 426, 427, 428. Acosta. Arom. p. 44. Virtus: fructus. Diuretica, Stomachica. Ex fermentatâ fit vinum, & hujus spiritus, sapidum quidem, sed minus salubre. Varietas Bromeliae occurrit, in Cochinchinâ dicta Thom nép, cujus fuetus sapore non inferior, in maturescentiâ permanet viridis, & pulpa alba, sed specie non differens.

MONOGYNIA (Uma só estames/estilete). GÉNERO I. BROMELIA.
Características do Género: Cálice trilobado, superior. 3 Pétalas: com escama nectarífera na base. Baga com 3 lóculos. (Ref. Linnaeus).
Espécie 1. BROMELIA ANANÁS. Nome vulgar: Thái Thom. Diferença da espécie: Bromélia de folhas com espinhos ciliados: espiga com penacho. Habitat e Notas: Caule de 1 pé de altura, perene, grosso, cilíndrico, ereto, com folhas sobrepostas na base, terminado por um fruto grande e solitário. As folhas têm 3 pés de comprimento, em forma de sovela, espinhosas em ambas as margens, sulcadas, grossas, de cor cinza-azulado, lisas e reclinadas. A baga é composta, com 8 polegadas de comprimento, cilíndrica, frequentemente subcónica, oval ou arredondada, com 5 polegadas de diâmetro, vermelha e escamosa. As flores são de um roxo brilhante, cada uma ligada a uma escama da baga, projetando-se acima do meio, caindo antes da maturação do fruto. Cálice muito pequeno. Corola oblonga, em forma de sino, com 3 pétalas terminando em ponta. 6 filamentos finos inseridos no recetáculo. 3 estigmas: estilete profundamente sulcado em 3 e facilmente divisível em três partes. As bagas parciais são inferiores, oblongas, fundidas, suculentas, perfumadas, muito doces, ligeiramente ácidas, de sabor muito agradável, saudáveis, com 1 lóculo e três sementes compridas.
Habitat: Em grande abundância nos campos e hortas da Cochinchina [atual Vietname], onde, embora de excelente qualidade, é vendido a preço baixo, especialmente na província de Dong Nai, aos dez graus de latitude Norte. 
Referências: Anassa (Rumphius), Ananás (Tournefort), Acosta (Aromatum et Medicamentorum). 
Virtudes: Do fruto: Diurético e estomacal. Do fruto fermentado faz-se vinho e um espírito (destilado), saboroso, mas menos saudável. 
Variedade: Ocorre uma variedade de Bromélia, chamada na Cochinchina de Thom nép, cujo fruto não é inferior em sabor, permanece verde na maturação e tem a polpa branca, mas não difere na espécie.

Nota: Entre as várias espécies da flora de Macau que João de Loureiro classificou, aqui ficam alguns exemplos: Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"...
Terá por certo recorrido ao Horto dos Jesuítas/Horta da Companhia de Jesus, junto ao colégio de S. Paulo. Na toponímia local chegou a a existir a Rua da Horta da Companhia, actual Rua de D. Belchior Carneiro.

Curiosidade: 
A palavra ananás deriva de "nana" - termo nativo Tupi - que significa "fruto excelente".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Visão de um dominicano sobre os jesuítas no início do séc. 18

RELATION DE LA NOUVELLE PERSECUTION DE LA CHINE, JUSQU'A LA MORT DU CARDINAL DE TOURNON: DRESSE'E Par le R. P. FRANÇOIS GONZALES DE S. PIERRE, Religieux de l'Ordre de S. Dominique, & Missionnaire Apostolique à la Chine, SUR Une plus ample Relation des Missionnaires du même Ordre, qui ont été chassés de la Chine. MDCC XIV."
"RELAÇÃO DA NOVA PERSEGUIÇÃO DA CHINA, ATÉ À MORTE DO CARDINAL DE TOURNON: PREPARADA Pelo R. P. FRANCISCO GONZALES DE S. PEDRO, Religioso da Ordem de S. Domingos e Missionário Apostólico na China, BASEADA NUMA Relação mais ampla dos Missionários da mesma Ordem que foram expulsos da China. 1714."

O Padre Francisco González de San Pedro foi um missionário espanhol da Ordem dos Dominicanos e uma das vozes mais críticas e influentes no debate religioso da Ásia do início do século XVIII. Actuando como Missionário Apostólico na China, ele tornou-se um aliado próximo do Cardeal de Tournon durante a célebre "Questão dos Ritos". San Pedro posicionou-se firmemente contra a estratégia de adaptação dos Jesuítas, que permitiam aos convertidos chineses a prática de ritos ancestrais; para ele, tais actos eram formas de idolatria incompatíveis com o cristianismo. Após a expulsão de vários missionários e a morte do Cardeal de Tournon em Macau, San Pedro publicou o seu relato em 1714 com o intuito de denunciar o que considerava ser uma perseguição à "verdadeira fé" e uma excessiva submissão das autoridades locais aos interesses jesuítas e chineses.
Na sua descrição de Macau, o autor apresenta a cidade não como uma colónia europeia plena, mas como um território de equilíbrio precário e soberania dividida. Ele sublinha que, embora os portugueses tenham erguido a cidade, o domínio supremo pertence ao Imperador da China, o que obriga os habitantes a viverem sob a constante vigilância e "vexames" dos Mandarins de Xiangshan, sempre ávidos por tributos. 
A população é descrita como um mosaico social onde a maioria chinesa, maioritariamente "pagã", convive com uma mistura de nações e poucos portugueses de origem, muitos dos quais vivendo em condições de pobreza. Para o autor, esta realidade social torna Macau um local de trânsito e logística — uma porta essencial para as missões no interior da China e do Sudeste Asiático — em vez de um centro de conversão directa.
Um dos pontos mais detalhados do seu relato é o choque cultural e religioso que presenciava nas ruas. San Pedro descreve com amargura como as procissões e sacrifícios rituais chineses, envolvendo queima de figuras de cartão e oferendas de animais, ocorriam publicamente, por vezes coincidindo com solenidades católicas e diante das portas das igrejas. Ele critica abertamente o Bispo de Macau e as ordens religiosas locais, especialmente os Jesuítas, pela sua passividade perante estas práticas. Administrativamente, ele detalha o funcionamento do Senado, composto por juízes e cidadãos eleitos que geriam a justiça civil e a polícia, e a presença das cinco casas religiosas da cidade. Em suma, a Macau de San Pedro é um retrato de uma cidade sitiada por interesses políticos e financeiros, onde a Igreja estava profundamente dividida e a autoridade portuguesa era constantemente desafiada pela proximidade do poder imperial chinês.

Excerto:
"Description de la Ville de Macao.
MACAO est une petite ville, bâtie il y a déjà long-tems par les Portugais, qui obtinrent cet emplacement de l'Empereur de la Chine, à la charge de lui païer un tribut annuel, outre d'autres droits. Cette ville est habitée par des gens de diverses nations: une moitié de la ville est de Chinois tous païens, excepté un petit nombre de Chretiens, qui ne passent pas quarante ou cinquante: l'autre est composée d'un mélange de gens ramassez de toutes les autres nations, la plûpart très-pauvres; & il n'y a qu'un très-petit nombre de vrais Portugais. Le domaine souverain de cette Ville apartient à l'Empereur de Chine, & elle est soumise à la juridiction du Gouverneur de la ville de Hiang-xan, éloignée de Macao d'une journée de chemin. L'Empereur entretient dans le voisinage des murailles de Macao des Soldats & des Capitaines, & il y a dans la ville même des tribunaux des Mandarins Chinois, qui viennent regulierement de Hiang-xan, où ils font leur residence, y tenir leur seance, lors que les affaires du Gouvernement le demandent.
Tous les Chinois qui demeurent à Macao dépendent absolument de ces tribunaux. Ils ont leurs temples d’idoles hors de la ville: mais ils font publiquement leurs processions superstitieuses dans les rues de Macao, comme dans les autres villes de la Chine. Et ce qui nous affligea le plus, c’est un jour dans l’Octave du Rosaire, que le saint Sacrement étoit exposé chez nous, ils préparerent un sacrifice tout vis à vis dans la petite place qui est devant notre Eglise. Il consistoit dans un bufet garni d’oiseaux artificiels, très-délicatement faits, de deux cerfs & de certains habits. Le tout étoit de carton & devoit être brûlé à l’honneur de leurs Ancêtres défunts. Il y avoit outre cela beaucoup de fruits, & diverses autres choses bonnes à manger, avec un cochon, & une chevre, qu’ils avoient tuez, & qui étoient exposez sur une table portative très-bien ornée. Ils porterent tout cela en procession avec des Étendards, des flambeaux, des trompettes & autres instrumens de Musique, hors de la ville devant un sepulchre, où se fit le sacrifice. Nous vîmes passer aussi plusieurs fois devant la porte de notre Couvent, qui est situé au milieu de la ville, les processions qu’ils font pour aller ensevelir leurs morts, ou pour leur rendre les honneurs acoutumez. Et une chose singuliere qui nous étonna, c’est qu’à un des convois, le fils du défunt, qui selon l’usage des Chinois doit porter avec d’autres le cercueil de son pere, ne le portoit pas: mais portoit à la place la machine de la Tablette; s’imaginant sans doute que l’ame du défunt étoit dedans.
On n’y voit aucune apparence de l’exercice de la Religion Chrétienne parmi les Chinois, excepté chez quelques-uns, qui l’embraissent plûtôt par nécessité, que par une véritable piété. Nous n’osons non plus rien faire pour les instruire ou pour les attirer à notre sainte Foi, parce que les Mandarins y apporteroient d’abord un obstacle invincible; outre que l’Empereur ne permet pas aux Européens d’y faire aucune fonction de Missionnaires, sous peine d’être bannis de Macao. C’est ce qui rend cette Ville un lieu de passage plûtôt que de Mission: car comme c’est le seul endroit où les Européens puissent demeurer librement avec les Chinois, c’est de-là que les Missionnaires de toutes les Nations se répandent ensuite par toute la Chine, par le Tonquin, par la Cochinchine, & par les autres Roiaumes voisins. On y voit des Religieux de divers Ordres: il y a des Jesuites, des Jacobins, des Augustins, & des Cordeliers, qui y ont chacun leur Couvent; mais ces deux derniers ne sont composez que de deux ou trois Religieux chacun."


Suite de la description de Macao. 
Il y a à Macao cinq maisons religieuses, favoir un Couvent de notre Ordre, où l’on a coutume d’entretenir regulierement deux ou trois Religieux, dont l’un est le Vicaire, qui a foin de la maison, & l’autre ou les deux autres font des vieillards ou des Religieux qui par leurs infirmitez ne font plus en état de rendre service dans les Missions, ni de remplir les autres emplois de notre Ordre dans ces païs-là. ...Couvent d’Augustins, qui en entretient deux ou trois : un College de Jésuites, qui est le plus nombreux de tous: & enfin un Monastere de Religieuses de sainte Claire. 
Le Vicaire de notre Couvent, dans le tems que nous y arrivâmes, étoit le Pere Sebastien de saint Antoine, homme de peu de science, & qui avoit été fait Vicaire, par raport à Diego de Pigno de Texeira présentement Capitaine General de Macao, qui l'amena de Goa comme son ami particulier, aiant été élevé ensemble au Noviciat de Goa, où cet Officier avoit pris l'habit de notre Ordre, soit par devotion, ou veritablement dans le dessein d'être Religieux : ce que nous n'avons pas apro-fondi. Il obtint la charge de Capitaine General de Macao, du Vice-Roi de Goa à la priere du Pere François Pinto, Jésuite, Provincial du Japon, resident à Macao, comme il paroît par une lettre de ce Vice-Roi écrite au Pere Pinto, donnée par ce Pere à M. le Patriarche, & dont nous avons une copie. Cette raison fit que le Pere Sebastien prit de fausses impressions sur les affaires de M. le Patriarche, s'attacha au parti du Capitaine General & des Jésuites, & comme eux ne voulut point reconnoître M. le Patriarche : quoique tout notre Ordre dans les Indes défendit, & défend encore sa juridiction. Au mois de Juillet de la même année le Pere Pierre d’Amaral vint de Goa à Macao, pour succeder au Pere Sebastien dans la charge de Vicaire & de Visiteur de notre Cou...Couvent. Il avoit des talens bien au dessus de son prédecesseur, & la conduite qu’il a tenüe a manifesté sa vertu à tout le monde, ainsi qu’on le verra dans la suite de cette Relation. Le Domaine immediat de Macao apartient au Roi de Portugal, & de lui dependent absolument tous les autres habitans, excepté les Chinois, qui dépendent, comme nous l’avons deja remarqué, de l’Empereur de la Chine. Sa Majesté Portugaise entretient dans la ville une garnison composée de peu de soldats; sous un Gouverneur qui a le titre de Capitaine General. Les Portugais ne laissent pas d’être exposez à de grandes vexations & à de grandes injustices de la part des Mandarins Chinois, qui sont toujours avides d’argent, & qui veulent en avoir à quelque prix que ce soit; & ces vexations sont telles, que s’ils les souffroient chrétiennement, ils s’aquerreroient un grand merite devant Dieu & devant l’Eglise, en conservant avec tant de souffrances, cette ville, qui est la porte, non seulement pour la Mission de la Chine : mais encore pour plusieurs autres. Mais ils ne s’aquierent que peu de merites, la conservant seulement par des motifs tous humains, & se rendant toujours les persecuteurs des Missionnaires, au lieu d’être leur refuge & leur apui."

Tradução/Adaptação:

Descrição da Cidade de Macau. 
MACAU é uma pequena cidade, construída há já muito tempo pelos Portugueses, que obtiveram este local do Imperador da China, com a obrigação de lhe pagar um tributo anual, além de outros direitos. Esta cidade é habitada por pessoas de diversas nações: uma metade da cidade é de Chineses, todos pagãos, exceto um pequeno número de Cristãos, que não passam de quarenta ou cinquenta: a outra é composta por uma mistura de pessoas reunidas de todas as outras nações, a maioria muito pobre; e há apenas um número muito pequeno de verdadeiros portugueses. O domínio soberano desta Cidade pertence ao Imperador da China, e ela está submetida à jurisdição do Governador da cidade de Hiang-xan, distante de Macau uma jornada de caminho. O Imperador mantém, na vizinhança das muralhas de Macau, Soldados e Capitães, e há na própria cidade tribunais de Mandarins Chineses, que vêm regularmente de Hiang-xan, onde têm a sua residência, para realizar as suas sessões quando os assuntos do Governo o exigem.
Todos os Chineses que residem em Macau dependem absolutamente destes tribunais. Eles têm os seus templos de ídolos fora da cidade: mas realizam publicamente as suas procissões supersticiosas nas ruas de Macau, tal como nas outras cidades da China. E o que mais nos afligiu foi que, um dia durante a Oitava do Rosário, estando o Santíssimo Sacramento exposto entre nós, eles prepararam um sacrifício mesmo em frente, na pequena praça que fica diante da nossa Igreja. Este consistia num bufete guarnecido de pássaros artificiais, feitos com muita delicadeza, de dois veados e de certas vestes. Tudo era de cartão e devia ser queimado em honra dos seus Antepassados falecidos. Havia, além disso, muitas frutas e diversas outras coisas boas de comer, com um porco e uma cabra que haviam matado, e que estavam expostos sobre uma mesa portátil muito bem adornada. Levaram tudo isto em procissão, com estandartes, archotes, trombetas e outros instrumentos de Música, para fora da cidade, diante de um sepulcro onde se realizou o sacrifício. 
Vimos também passar várias vezes diante da porta do nosso Convento, que está situado no meio da cidade, as procissões que fazem para ir enterrar os seus mortos ou para lhes prestar as honras habituais. E uma coisa singular que nos espantou foi que, num dos cortejos, o filho do defunto, que segundo o costume dos Chineses deve carregar com outros o caixão do seu pai, não o carregava: mas carregava, em vez disso, a armação da Tabuleta [ancestral]; imaginando, sem dúvida, que a alma do falecido estava lá dentro.
Não se vê ali qualquer aparência do exercício da Religião Cristã entre os Chineses, excepto em alguns poucos, que a abraçam mais por necessidade do que por uma verdadeira piedade. Nós também não ousamos fazer nada para os instruir ou para os atrair à nossa santa Fé, porque os Mandarins colocariam imediatamente um obstáculo invencível; além de que o Imperador não permite aos Europeus exercerem ali qualquer função de Missionários, sob pena de serem banidos de Macau. É isto que torna esta Cidade um lugar de passagem mais do que de Missão: pois, sendo o único local onde os Europeus podem residir livremente com os Chineses, é de lá que os Missionários de todas as Nações se espalham em seguida por toda a China, pelo Tonquim, pela Cochinchina e pelos outros Reinos vizinhos. Veem-se ali Religiosos de diversas Ordens: há Jesuítas, Jacobinos [Dominicanos], Agostinhos e Cordelários [Franciscanos], que têm ali, cada um, o seu Convento; mas estes dois últimos são compostos apenas por dois ou três Religiosos cada um.

Continuação da descrição de Macau.
Há em Macau cinco casas religiosas, a saber: um Convento da nossa Ordem, onde se costuma manter regularmente dois ou três Religiosos, sendo um o Vigário, que cuida da casa, e o outro ou os outros dois são idosos ou Religiosos que, pelas suas enfermidades, já não estão em condições de prestar serviço nas Missões, nem de cumprir as outras funções da nossa Ordem naqueles países; o Convento de Agostinhos, que mantém dois ou três [religiosos]: um Colégio de Jesuítas, que é o mais numeroso de todos: e, por fim, um Mosteiro de Religiosas de Santa Clara. 
O Vigário do nosso Convento, na época em que lá chegámos, era o Padre Sebastião de Santo António, homem de pouca ciência, e que fora feito Vigário por conta de Diogo do Pinho Teixeira, atualmente Capitão-Geral de Macau, que o trouxe de Goa como seu amigo particular, tendo sido criados juntos no Noviciado de Goa, onde este Oficial havia tomado o hábito da nossa Ordem, fosse por devoção ou verdadeiramente com o intuito de ser Religioso: o que não aprofundámos. Ele obteve o cargo de Capitão-Geral de Macau do Vice-Rei de Goa, a pedido do Padre Francisco Pinto, Jesuíta, Provincial do Japão, residente em Macau, como consta de uma carta desse Vice-Rei escrita ao Padre Pinto, entregue por este Padre ao Senhor Patriarca, e da qual temos uma cópia. Esta razão fez com que o Padre Sebastião formasse falsas impressões sobre os assuntos do Senhor Patriarca, ligando-se ao partido do Capitão-Geral e dos Jesuítas e, tal como eles, não quis de modo algum reconhecer o Senhor Patriarca: embora toda a nossa Ordem nas Índias defendesse, e ainda defenda, a sua jurisdição. No mês de julho do mesmo ano, o Padre Pedro de Amaral veio de Goa para Macau, para suceder ao Padre Sebastião no cargo de Vigário e de Visitador do nosso Convento Ele tinha talentos muito superiores aos do seu predecessor, e a conduta que manteve manifestou a sua virtude a todo o mundo, como se verá na continuação desta Relação. O domínio imediato de Macau pertence ao Rei de Portugal, e dele dependem absolutamente todos os outros habitantes, exceto os Chineses que dependem, como já observámos, do Imperador da China. Sua Majestade Portuguesa mantém na cidade uma guarnição composta por poucos soldados, sob um Governador que tem o título de Capitão-Geral. Os Portugueses não deixam de estar expostos a grandes vexames e a grandes injustiças por parte dos Mandarins Chineses, que estão sempre ávidos de dinheiro e que o querem obter a qualquer preço; e estes vexames são tais que, se os sofressem cristãmente, adquiririam um grande mérito diante de Deus e diante da Igreja, ao conservarem com tanto sofrimento esta cidade, que é a porta, não apenas para a Missão da China, mas também para várias outras. Mas eles adquirem apenas poucos méritos, conservando-a somente por motivos puramente humanos, e tornando-se frequentemente os perseguidores dos Missionários, em vez de serem o seu refúgio e apoio."
Igreja e Convento S. Domingos ca. 1900
Foto de Man Foc/Man Took/Man Fook 

Nota: O Convento de S. Domingos - demolido no início do séc. 20 - estava anexado à igreja com o mesmo nome - que ainda existe - fundada em 1587 sendo a primeira igreja construída pela Ordem dos Dominicanos na China. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Macau na 2ª viagem de circum-navegação do navio-escola Sagres: 1983-84

O navio-escola Sagres esteve quatro vezes em Macau. A primeira vez aconteceu em Janeiro de 1979. Esteve depois em Dezembro de 1983 e em Agosto e Novembro de 1993. Em 2010, em mais uma viagem à volta do mundo, o Sagres tencionou atracar mais uma vez em Macau mas a China interditou a entrada, argumentando não permitir a atracagem a navios de guerra.

1 de Julho de 1983 foi o dia da Largada para a 2ª Viagem de Circum-Navegação do navio-escola Sagres, uma viagem que durou 296 dias e que tinha como objectivos a instrução de cadetes da Escola Naval e o reforço dos laços com as comunidades portuguesas e territórios sob administração portuguesa. O comandante era o capitão-de-fragata António Luciano Homem de Gouveia.
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

O navio-escola Sagres esteve em Macau entre 13 e 26 de Dezembro de 1983. Esteve aberto a visitas da população e realizaram-se recepções oficias a bordo. Foi emitido um postal comemorativo pelos correios de Macau para assinalar a presença do navio-escola.
Para além de Macau, outras duas escalas tiveram grande destaque foram o Havai e o Japão.

Acácio Sousa, era na altura Cabo CM (condutor de máquinas) no navio-escola Sagres. Tinha 25 anos. Agora recordou para o blogue Macau Antigo a passagem por Macau há 43 anos...

13.12.83

A Sagres antecipou em dois dias a chegada a Macau devido a condições de navegação e ventos favoráveis que teve no decorrer deste trânsito de Shanghai até Macau, tendo a Sagres entrado no Porto Exterior de Macau a navegar em 'Árvore Seca' (todo o velame encontrava-se ferrado) e com a 'Máquina Parada'. Navegávamos a 11 nós, pelas 13h fundeou ao largo de Coloane, à entrada do Porto de Macau de onde suspendeu pelas 17h para atracar na Ponte Cais, em Macau às 18h no Porto Exterior.
À nossa chegada lá estavam os esterlotes dos panchões com as respectivas danças do dragão e do leão em ambiente de festa.
Foi a 2ª vez que o navio-escola Sagres escalou o território de Macau onde a sua guarnição passou as festas natalícias e onde aconteceram diversas iniciativas, programadas pela comissão organizadora nomeada pelo governador do território*. A Comissão Organizadora preparou uma visita a Guangzhou na Província de Cantão, e no Hotel Casino Lisboa, fomos agraciados com uma recepção dada pelos camaradas de Marinha destacados em Macau.
Na noite de 24 para 25 de Dezembro de 1983, celebramos a bordo o nosso Natal.
Entrada do Hotel Lisboa
26.12.83
Com o apoio exemplar do então Cte da Defesa Marítima de Macau, Cte Nobre de Carvalho**, pelas 23 horas demos início ao moroso processo de largada, para além de ser de noite, a Sagres teria de sair do Porto Exterior, local onde esteve atracada e teria de navegar num canal construído de propósito para a Sagres, navegando em águas rasas na Foz do Rio das Pérolas. Neste percurso foi acompanha por duas vedetas da Capitania do Porto de Macau e foi já perto de Coloane que o silêncio e a noite foram subitamente cortados, quando um rebocador dos Serviços de Marinha, agitando rastos de luz com os seus holofotes e apitando em tom festivo, começou a transmitir música portuguesa pelos seus altifalantes, desde o Fado às Marchas Populares, passando pela «Marcha dos Marinheiros» e o fado «Caravelas».
Durante meia hora o Estuário do Rio das Pérolas tornara-se praça Portuguesa, numa conquista irreprimível. Por fim e já com os últimos convidados, os Oficiais da Armada em serviço no território, entre os quais, o Cte Nobre de Carvalho, Chefe dos Serviços de Marinha e o Cte Arménio Fidalgo (da PMF) já a bordo da Vedeta da Policia Marítima Fiscal, que os levaria a Terra, a Sagres despediu-se com o som grave da sua 'sereia' enquanto se ouve um «Até à Próxima Camaradas» gritado a plenos pulmões.
A «Sagres» levava a sua guarnição reforçada, com a presença de um Jornalista da Rádio Macau e um Redactor do Gabinete de Comunicação Social, transportados para uma Experiência a Bordo da «Sagres». Eram 24 horas quando tudo terminou e iniciamos a viagem rumo a Singapura."
Hotel Presidente (1º plano) e Hotel Lisboa (parcialmente) ao fundo à esq.

* Vasco de Almeida e Costa (1932-2010), também ele da Marinha (era na altura capitão-de-mar-e-guerra), foi governador entre 1981 e 1986.
** Capitão-de-Fragata, João Manuel Velhinho Pereira Nobre de Carvalho.
Nota: Fotografias do grupo existente no FB alusivo ao evento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Istmo Taipa-Coloane: 1964 a 1968

As obras do istmo de 2200 metros de comprimento e 7 metros de largura que ligou as ilhas da Taipa e Coloane - onde fica actualmente a zona denominada Cotai - começaram a 1 de Junho de 1964. Ao fim de quatro anos - e de serem conquistados ao mar cerca de 400 hectares de terras - a empreitada ficou concluída. A inauguração oficial esteve marcada para 28 de Maio de 1968 (uma data simbólica para o Estado Novo) mas o artigo abaixo refere 2 de Junho.
Artigo publicado no Boletim Geral do Ultramar ( XLIV- 516) de Junho de 1968:
O governador de Macau, brigadeiro Nobre de Carvalho, procedeu, em 2 de Junho, no meio do maior entusiasmo das populações locais, à inauguração da estrada de ligação entre as ilhas de Taipa e Coloane, empreendimento de grande envergadura e da máxima projecção no futuro económico dos dois territórios. A estrada, com um comprimento de 2225 metros, assenta numa estrutura trapezoidal, com uma base inferior de 37 metros e base superior de 10,06 metros, e com a altura de 7 metros. 
A obra importou em 22 150 contos*. Assistiram à cerimónia personalidades do maior relevo na vida oficial e particular da Província, portuguesas e chinesas, registando-se, também, a presença de muito público. Num gesto pleno de simbolismo, o casal mais idoso do concelho das Ilhas, depois da inauguração oficial, deu os primeiros passos na nova estrada, no meio dos maiores aplausos da assistência. As populações das duas ilhas ficam, assim, mais estreitamente irmanadas, podendo ajudar-se, mutuamente, no desenvolvimento dos seus recursos naturais que oferecem incontestável abundância, sendo a primeira vantagem desta ligação a possibilidade de Coloane fornecer água potável à Taipa, onde ela escasseia. 
Falou o director das Obras Públicas, Eng.º Tomás Siu, e depois o brigadeiro Nobre de Carvalho que proferiu um discurso em que começou por prestar homenagem aos governadores seus antecessores que, de qualquer maneira, intervieram no empreendimento, agora tornado realidade. Mais adiante, o orador acentuou que este melhoramento estava perfeitamente dentro da política da Revolução Nacional, a propósito do que lembrou o nome do prestigioso estadista, Professor Doutor Oliveira Salazar, que vem presidindo com tanta dignidade e patriotismo aos destinos da Nação portuguesa. O governador de Macau rendeu, igualmente, homenagem ao Presidente da República a quem a Nação deve tantos e assinalados serviços. Por fim, o orador acentuou que o Ministro do Ultramar muito se tem preocupado com os complexos problemas da Província, dando o maior apoio às iniciativas do Governo de Macau. As cerimónias tiveram a presença de representantes de todos os órgãos da Informação pública locais, incluindo a Rádio, uma equipa da televisão de Hong-Kong e representantes da Imprensa estrangeira.
* cerca de 4 milhões de patacas.

Do Desenho à Litografia: O Processo e os Intervenientes

Esta "Vue génerale de Macao" foi publicada na edição de 6 de Fevereiro de 1858 da publicação francesa "L'Illustration - Journal Universel". Tem como legenda "Vue génerale de Macao d'aprés un déssin envoyé par M. E. Roux"
Seria depois publicada em outros jornais um pouco por todo o mundo e com ligeiras diferenças. E isto porque no século 19 o processo de composição para impressão assumia-se como uma reinterpretação artística do desenhador original. Em alguns casos a 'gravura' também podia ser colorida. Como se pode verificar neste exemplo, parecem iguais mas não são...

Do Desenho à Estampa: O Processo e os Intervenientes

1. O Desenhador (O Autor)
Profissional: Artista ou Desenhador 
Função: É quem faz o levantamento visual no local. Produz o original em papel (lápis ou aguarela). 

2. O Gravador (O Artífice Polivalente)
Técnico especializado que traduz o desenho para uma matriz que pode ser de diferentes suportes:
Sobre Madeira (Xilogravura): Se a imagem fosse para um jornal (como o Arquivo Pitoresco em Portugal), o gravador esculpia um bloco de madeira. Ele criava as hachuras em relevo para que pudessem ser impressas juntamente com o texto metálico.
Sobre Pedra (Litografia): Se o objetivo fosse uma estampa de maior qualidade, o gravador (aqui chamado de litógrafo) desenhava sobre uma pedra calcária com materiais gordurosos. É um processo químico, mas a mão que define o traço é a do gravador.
Sobre Metal (Calcografia): Para edições de luxo, o gravador utilizava o buril ou ácidos para abrir sulcos em chapas de cobre ou aço.

Nota: O gravador era tão importante que, muitas vezes, o seu nome aparece gravado na base da imagem (ex: "Gravado por..."), pois era ele quem decidia como interpretar as sombras e as texturas do desenho original.

3. O Impressor (O Mestre da Prensa)
O Impressor é o responsável pela oficina. Ele prepara as tintas, molha o papel (para que este aceite melhor a tinta) e opera as prensas. O seu domínio sobre a pressão da máquina é o que evita que as linhas finas (as hachuras) fiquem empastadas.

4. O Iluminador ou Colorista (O Acabamento)
Profissional: Colorista (frequentemente artistas anónimos em oficinas).
Este profissional aplicava a cor à mão, exemplar a exemplar, usando aguarela. Ele não gravava nada; apenas acrescentava valor estético à impressão a preto e branco que saía da prensa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

John MacDonald: 1936-2026

Morreu John Macdonald o lendário piloto britânico de automóveis e motociclos, sediado em Hong Kong, frequentemente apelidado de "Rei de Macau". É o único piloto a vencer as três principais categorias no Circuito da Guia em quatro e duas rodas: o Grande Prémio de Macau (1965, 1972, 1973, 1975), a Corrida da Guia (1972) e o Grande Prémio de Motociclismo (1969).
O anúncio da morte foi feito nas redes sociais pelo amigo Eli Solomon, historiador e escritor radicado em Singapura: "É com profunda tristeza que informo o falecimento de John Macdonald no domingo, 25 de Janeiro, aos 89 anos, após uma longa doença." 
Ainda segundo Eli, "a sua mente permanecia tão lúcida como sempre, e ele e Angus Lamont continuaram a trabalhar em King of Macau até ao final do ano passado", pelo que espera-se que o livro "King Of Macau" seja publicado nos próximos meses.
Nascido em 1936 em Inglaterra, John MacDonald começou por correr em motos em 1957 no Circuito de Silverstone . Em 1962 participou no Rali da África Central e no ano seguinte no Rali Internacional da Escócia, num Land Rover. Nesse ano de 1963 mudou-se para Hong Kong tendo ingressado na polícia local.  Na então colónia britânica foi proprietário da Camlex Garage, em Kowloon.
Em 1964, participou pela primeira vez no Grande Prémio de Macau (automóveis) terminando em 6º lugar. No ano seguinte voltou a participar e saiu vitorioso. Em 1967 o Grande Prémio de Motos de Macau passou a fazer parte do GP e MacDonald alinhou numa Yamaha tendo desistido na segunda volta com o motor partido. Em 1972 conquistou a vitória na prova rainha do GP e na primeira edição da Corrida da Guia.  Emm 1973 volta a vencer o Grande Prémio de Macau ao volante de um Brabham BT40. Em 1975 ganhou o seu quarto e último Grande Prémio de Macau conduzindo um Ralt RT1. A última participação ocorreu em 1976.
XVI GP 1969. Brabham FVA 

Em 1983 J. M. deixou Hong Kong e mudou-se com a mulher para Andorra. Em 1992, no 25º aniversário do GP Motos, John regressou a Macau fazendo parte da parada comemorativa ao volante da ‘velhinha’ Yamaha 250. Os últimos anos foram vividos nas Maurícias.
Em 12 anos de carreira John Macdonald venceu mais de 100 corridas e mais de uma dezena de Grandes Prémios: para além das vitórias em Macau, foi vencedor na Malásia, Filipinas, Singapura e Indonésia.
Macau é a grande montra da sua carreira como piloto. Foi o primeiro e único a ganhar tanto o Grande Prémio de Macau de duas como de quatro rodas e é também o único piloto que venceu o Grande Prémio de Macau, o Grande Prémio de Motos de Macau e a Corrida da Guia.
John MacDonald (born May 27, 1936 in Worcester) is a racing car driver and a motor-cycle racer of Hong Kong. He was originally from England, where he started his career racing motorcycles, then cars until he served at the National service. He then lived in Hong Kong and raced as a competitor of Hong Kong, where he owned a garage business. 
He is only person who won all international races of Macau; Macau Grand Prix (1965, 1972, 1973, 1975), Macau Motorcycle Grand Prix (1969) and Guia Race (1972). Also he is the most Macau Grand Prix winner with 4 wins and the first winner of the Guia Race in 1972. 
John Macdonald no Grande Prémio de Macau:
Estreia e Primeiros Sucessos: Estreou-se em 1964, conquistando a primeira vitória absoluta em 1965, ao volante de um monolugar Lotus 18.
Versatilidade (Motos): Participou na primeira edição do GP de Motos (1967), vindo a vencer a prova em 1969.
Domínio em 1972: Venceu o Grande Prémio com 30 segundos de vantagem e conquistou também a primeira edição da Corrida da Guia (Mini Cooper S).
Recordista: Em 1973, tornou-se o primeiro piloto a somar três vitórias no Grande Prémio, estabelecendo o recorde da volta.
Despedida: Alcançou a sua quarta e última vitória no GP em 1975, despedindo-se do circuito em 1976.
No total, MacDonald somou seis vitórias no Circuito da Guia, cimentando o seu nome na história do automobilismo em Macau.
Espaço "John MacDonald" no Museu do Grande Prémio de Macau: estátua de cera, réplica do Austin Mini Cooper S com que venceu a Corrida da Guia em 1972, e da Yamaha TD2C.