sábado, 21 de fevereiro de 2026

"A principal festividade entre os chineses é o dia de Ano Novo"

O principal festival principal entre os chineses é o dia de Ano Novo. Ninguém se preocupa com negócios e todos se ocupam em banquetear-se. Este dia é por eles considerado como um dia de jejum, o qual se diz ter sido estabelecido para evitar casos de embriaguez. Cada homem veste roupas novas e, mesmo aqueles que vivem em extrema pobreza, aparecem neste dia com algo novo.
Oito dias antes do ano novo, quase todas as lojas começam a decorar-se com artigos novos, tais como flores artificiais, papel de joss, etc., de diferentes desenhos e cores; enquanto nas ruas se vêem flores em vasos, brinquedos, curiosidades e coisas afins. Estas destinam-se todas à venda. Aqui e ali, também se encontram diferentes grupos de chins activamente ocupados no jogo. Na água, os barcos estão todos alegremente decorados com bandeiras. O número de barcos nesta ocasião é muito grande. A música e os foguetes são indispensáveis, tanto de dia como de noite.
Na véspera do ano novo, o concurso de gente e o seu entusiasmo aumentam. O jogo multiplica-se proporcionalmente e não há lugar onde não se veja. À noite, tanto a praça do mercado como o porto tornam-se belos por via de imensas iluminações, naturalmente acompanhadas, especialmente, por música e pelo atroar dos foguetes. Os barcos, quando iluminados, produzem um efeito óptimo. A compra e a venda são extensas, mas nunca deixam de ser acompanhadas, mesmo nesta época feliz, por numerosos furtos.
Assim que chega a meia-noite do último dia do ano, todas as lojas fecham e todo o tipo de trabalho cessa. O festival continua por um número maior ou menor de dias, geralmente não excedendo oito, e estes são os dias que os chins consideram como os principais. Ao nono dia, quando as lojas começam a abrir para o negócio ordinário, há de novo festejos, que consistem simplesmente em soltar foguetes, queimar papel de ritual, e assim sucessivamente.
O segundo dia da segunda lua é o dia dedicado aos deuses domésticos. Esta festa é celebrada em várias partes da cidade por sociedades, sendo as despesas suportadas por subscrição. Cada uma destas sociedades ergue uma tenda no local escolhido para o efeito, e nestas tendas há sempre uma boa exposição de pinturas. Toca-se música dentro da tenda e, no exterior, queimam-se panchões a intervalos. Durante o tempo da festa, oferecem-se sacrifícios na tenda, uns após outros. Quando muita gente se reúne, queima-se um panchão exposto de forma vertical. Assim que este cai, todos se lançam sobre ele, e aquele que o apanhar primeiro ganha um prémio e será considerado feliz durante todo o ano. Mais alguns destes panchões ou grandes panchões são queimados a intervalos, e as partes que os recolhem têm os mesmos interesses que o primeiro.
Os panchões são todos numerados e, consequentemente, a qualidade e o valor de cada um estão indicados. Aqueles que os apanharam são obrigados a apresentar outros semelhantes para o mesmo fim. Para que nenhum dos intervenientes que os apanhou falte ao cumprimento da sua obrigação, os directores tomam nota e guardam um memorando com os nomes dos indivíduos. Sob o nome de cada um, indica-se o número que ele deve fornecer. Estes actos são apenas praticados pelas classes comuns. Os ricos realizam os seus sacrifícios nas suas próprias casas, mas muitos deles aparecem no referido festival como espectadores.
O festival dura habitualmente dois ou três dias e termina com a queima de um outro tipo de fogo-de-artifício, que tem lugar na noite do último dia. Nele são colocadas figuras que se movem pelo fogo, representando personagens dramáticas. O título da peça é representado em caracteres sagrados e o fogo-de-artifício é composto por tantas partes quantos os actos da representação teatral que se pretende imitar. O primeiro acto é representado na parte inferior do fogo-de-artifício e, assim que termina, aparece o segundo acto, e assim sucessivamente até que todos os actos estejam findos.
A festa da deusa Kuonyn celebra-se ao décimo nono dia da mesma lua. Esta festa consiste em sacrifícios realizados nas casas, no mar e nos templos; e nesta ocasião há sempre uma grande quantidade de comida oferecida, além de pequenos pedaços de papel dourado e prateado.
Nos últimos dias da mesma lua, que é o princípio da Primavera, os chins começam a fazer sacrifícios sobre as lápides dos seus parentes falecidos. Estes sacrifícios duram geralmente mais de vinte dias. Colocam-se vitualhas perto das lápides, e queimam-se roupas de papel e pequenos pedaços de papel dourado e prateado. Quando os sacrifícios estão na véspera de terminar, uma parte da comida é distribuída pelos pobres, que nestas ocasiões costumam reunir-se em grande número.

Tradução/Adaptação minha do texto da autoria de Manuel de Castro Sampaio (post de ontem). Ilustrações criadas por IA.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

The principal festival with the Chinese is New Year's Day

The principal festival with the Chinese is New Year's Day. No one cares about business, and everyone is occupied in feasting. This day is considered by them as a fast day, which it is said was established in order to avoid cases of intoxication. Every man dresses in new clothes, and even those who live in extreme poverty appear on this day with something new.
Eight days before the New Year, nearly all the shops commence to decorate with new articles, such as artificial flowers, joss paper, etc., of different designs and colours, while in the streets are to be seen flowers in pots, toys, curiosities, and such-like things. These are all intended for sale. Here and there, too, are to be met with different groups of Chinese busily engaged in gambling. On the water, the boats are all gaily decorated with banners. The number of boats on this occasion is very great. Music and fire crackers are indispensable, both in the daytime and at night.
On the eve of the New Year, the concourse of people and their enthusiasm increase. The gambling multiplies proportionably, and there is no place where it is not to be seen. At night, both the marketplace and the harbour are rendered beautiful by immense illuminations, of course accompanied especially with music and the firing of crackers. The boats, when illuminated, produce a fine effect. The buying and selling are very extensive, but never fail to be accompanied, even at this happy season, by numerous thefts.
As soon as midnight of the last day of the year arrives, all the shops close and work of all kinds ceases. The festival continues for a greater or lesser number of days, generally not exceeding eight, and these are the days which the Chinese look upon as the principal ones. On the ninth day, when the shops begin to open for the ordinary business, there is again a feast which consists simply in firing crackers, burning joss paper, and so on.
The second day of the second moon is the day dedicated to the household gods. This feast is celebrated in various parts of the city by societies, and the expenses are borne by subscription. Each of these societies builds a tent in the locality chosen for the purpose, and in these tents there is always a goodly display of pictures. Music is played inside the tent and outside fire crackers are burnt at intervals. During the time of the feast, sacrifices are offered in the tent one after another. When many people meet there, a kind of firework is burnt. As soon as it falls, everyone rushes upon it, and he who picks it up first wins a prize and will be considered happy for the whole year. Some more of these fireworks or big crackers are burnt at intervals, and the parties who pick them up have the same interests as the first one.
The fireworks are all numbered and, consequently, the quality and value of each is indicated. Those who have picked them up are obliged to present similar ones for the same purpose. In order that no one of the party who has picked them up shall fail in fulfilling his obligation, the directors take and keep a memorandum of the names of the individuals. Underneath the name of each is indicated the number he has to supply. These acts are only practised by those of the common classes. The rich perform their sacrifices in their own houses, but many of them appear at the above festival as spectators.
The festival usually lasts for two or three days and ends with the burning of another kind of firework, which takes place on the night of the last day. Figures are placed on it which are moved by the fire, representing dramatic characters. The title of the piece is represented in sacred characters and the firework is composed of as many parts as there are acts in the theatrical performance which has to be imitated. The first act is represented on the lower part of the firework and, as soon as it comes to an end, the second act appears, and so on until all the acts are finished.
The feast of the goddess Kuonyn is celebrated on the nineteenth day of the same moon. This feast consists of sacrifices performed in the houses, at sea, and in joss houses; and on this occasion there is always a great quantity of food offered, in addition to small pieces of gilt and silver paper.
On the last days of the same moon, which is the beginning of Spring, the Chinese commence to make sacrifices over the gravestones of their deceased relations. These sacrifices usually last more than twenty days. Victuals are placed near the gravestones, and paper clothes and small pieces of gilt and silver paper are burnt. When the sacrifices are on the eve of terminating, a part of the food is given away to the poor, who on these occasions generally muster in great numbers.

Excerto de "Manners & Customs of the Chinese at Macao", publicado em Xangai em 1877. Trata-se da versão em inglês (tradução de Rufino Francisco Martins) da obra publicada dez anos anos em Hong Kong - "Os Chins de Macau" - da autoria de Manuel Castro Sampaio.  

Este livro é considerado um dos primeiros e mais detalhados estudos etnográficos sobre a comunidade chinesa em Macau escritos por um português. Nele, Sampaio descreve com rigor os costumes, a religião, as festividades e a organização social da população local.
O livro inclui esta "Planta Topographica do Bazar de Macau"

Manuel de Castro Sampaio nasceu no Porto a 28 de Agosto de 1827. Com uma formação académica superior, licenciou-se em Medicina, o que lhe conferiu um rigor científico e uma capacidade de observação que marcariam todo o seu percurso profissional e intelectual no Oriente. Assentou praça no Exército em 1845 e três anos depois partiu para Macau em 1848, integrando o quadro de saúde do Ultramar.
Ao longo da sua estadia em Macau, Sampaio desenvolveu uma carreira multifacetada. No plano militar e administrativo, ascendeu ao posto de capitão e exerceu cargos de grande responsabilidade, como o de Secretário da Junta da Fazenda. O seu prestígio intelectual valeu-lhe o reconhecimento internacional, tendo sido distinguido como sócio-correspondente da Real Sociedade Asiática de Londres (Royal Asiatic Society), uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo dedicadas ao estudo das culturas orientais.
No campo das letras teve um papel preponderante na imprensa de Macau sendo editor a colaborador activo do periódico Ta-Ssi-Yang-Kuo (Arquivos do Extremo Oriente), iniciado em 1863. Colaborou ainda com a Gazeta de Macau e o Echo do Povo. Ainda em Portugal fundara o Voz do Alentejo.
Entre 1871 e 1873 foi Governador de Timor, um mandato onde se empenhou na organização administrativa e na melhoria das condições de saúde pública. 
Após décadas de serviço no Oriente, Manuel de Castro Sampaio regressou a Portugal, vindo a morrer em Lisboa, a 12 de outubro de 1875.

Para além dos livros já referidos foi ainda autor de: 
Pobreza envergonhada (Valença, 1852); Ensaios Poeticos (1858); Compendio de hygiene popular – tradução livre do texto de D. Francisco Tamires Vaz, (Elvas, 1860); Victimas de uma paixão (Lisboa, 1863); Memorias dos festejos realizados em Macau no fausto nascimento de S. A. o sr. D. Carlos Fernando (Macau, 1864); Compendio de Ortographia (Macau, 1864).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em memória do pai...

Em Maio de 2019 a galeria At Light, no Pátio do Padre Narciso em Macau, acolhia a exposição "Casa das Duas Filhas - Fotos da Família de José Vicente Jorge".
As duas filhas (de José Vicente Jorge) que deram o mote à mostra eram Henriqueta* e Maria. As irmãs foram as mães dos primos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge que acabariam por casar.
Pedro e Graça são um exemplo na perpetuação da memória da história da família intimamente ligada a Macau. Basta lembrar livros como "A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô" (1992), "Danilo no Teatro da Vida" (2010), "José Vicente Jorge: Macaense ilustre" (2012), entre outros, mas também inúmeras iniciativas de índole cultural, incluindo exposições com as pinturas de Pedro Barreiros que morreu a 15 de Janeiro de 2022.
Pintura de Pedro Barreiros: exposição em 2013

Miguel Barreiros, filho de Pedro, não teve oportunidade de ver esta exposição e após a morte do pai prometeu "dar continuidade" ao seu trabalho "para preservar a memória da nossa família de Macau e do meu bisavô, José Vicente Jorge".
Por estes dias recebi um e-mail do Miguel com votos de "Kung Hei Fat Choi! 恭喜發財" onde explica que o pai "tinha a tradição de celebrar o Ano Novo Chinês partilhando um desenho do animal do zodíaco que iniciava o seu ciclo". Na ausência física do pai, Miguel decidiu "retomar esse gesto em memória dele e em honra às nossas raízes de Macau. Partilho convosco este desenho que fiz inspirado nessa tradição e pela mestria dos seus traços. É a minha forma de o homenagear e de manter viva a sua arte e o seu espírito."
Aqui fica... Kung Hei Fat Choi e um abraço Miguel!
* Henriqueta Pacheco Jorge Barreiros - filha de José Vicente Jorge e mulher de Danilo Barreiros - foi aluna de Camilo Pessanha (1867-1926) em Macau. Henriqueta ambicionava ir estudar para Portugal mas o pai não concordava. Foi Pessanha que não só o convenceu como pagou uma mesada à estudante. 
Pedro Barreiros (1943-2022), filho de Danilo Barreiros e neto de José Vicente Jorge que foi amigo de Pessanha, revelou esta história em Outubro de 1990 aquando de uma exposição em Macau com pinturas suas sobre Pessanha: "Foi Camillo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a “gentil menina” e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!"

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ano Novo Chinês na década 1990 por Vitor Cordeiro

Vitor Cordeiro trabalhou na Companhia de Electricidade de Macau (CEM) nas décadas de 1980/90. Nesses anos registou por diversas vezes imagens dos "momentos de vivência de espiritualidade" durante o Ano Novo Lunar nos templos de A Ma e Kun Iam Tong”. 
De um conjunto de fotografias feitas a preto e branco entre 1992 e 1999 concebeu uma exposição em 2014, a "Cultos, Templos, Ou Mun” de que na altura o blogue Macau Antigo deu notícia. Aqui ficam alguns desses registos.


Biografia
Vítor Cordeiro nasceu no Cadaval em 1953. Engenheiro electrotécnico, desde muito cedo manifestou interesse pela fotografia, mas foi a partir de 1983, altura em que se radica em Macau para exercer a sua actividade profissional, que passou a ter uma relação mais íntima com a objectiva. Sendo a Ásia uma área de interacção de diferentes culturas proporcionou-lhe um vasto e diversificado registo de imagens, levando-o a desenvolver ainda mais o gosto pela fotografia e entre 1992 e 1996 participa no curso de fotografia do Instituto Politécnico de Macau. Regressado a Portugal em 2000, embora rendido ao digital, mantém ainda o hábito de registar imagens em película a preto e branco, que trabalha num pequeno laboratório improvisado em sua casa.
Exposições e prémios
2º prémio no concurso de fotografia - Navio Escola Sagres (Macau) - 1984; Exposição colectiva (Macau)- 1996; Menções honrosas nos concursos da Junta de Turismo da Ericeira - 2001 a 2004; Exposição colectiva solidária (Cascais) – 2010, 2011, 2012, 2013, 2014. Exposições Individuais: Fotografia de Macau - Clube EDP (Lisboa) – 2009. Cultos, Templos, Ou Mun - Ano Novo Lunar em Macau na Delegação Económica e Comercial e Turismo de Macau (Lisboa) - 2010; Biblioteca Municipal do Cadaval; Festival Finisterra – Hotel Sana Sesimbra; Marshopping (Matosinhos), Palácio de Cristal (Coimbra) - 2012. Expressões Lorosae -Timor: Clube EDP (Lisboa); Clube TAP (Lisboa); Coop. Comunicação e Cultura (Torres Vedras) - 2010; Biblioteca Municipal do Cadaval; Palácio do Gelo (Viseu)- 2011; Elos Clube Lisboa e Maristas Carcavelos - 2012. A Música de Pragança: Junta de Freguesia de Lamas (Cadaval); Clube Pessoal EDP (Lisboa) –2011; Assembleia da República (Lisboa) e Pragança (Cadaval) - 2012.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

As danças do Leão e do Dragão durante o ano novo chinês

Esta fotografia - colorida por IA - é dos primeiros anos da década de 1960. Ao fundo vista parcial do campo de jogos do Liceu e do edifício residencial Rainha D. Leonor. Do lado direito vê-se parte do Padrão Henriquino, colocado frente à entrada do Liceu (na Praia Grande) nas comemorações do Ano Henriquino em 1960. Não tenho elementos que permitem perceber o evento, mas está por certo relacionado com a Dança do Leão ou a Dança do Dragão. As duas performances fazem parte da cultura chinesa e ocorrem em diversas ocasiões, incluindo no Ano Novo Chinês.
Dança do Leão
A Dança do Leão é um dos rituais mais vibrantes do Ano Novo Lunar, funcionando como uma ferramenta espiritual para purificar o ambiente e atrair prosperidade. É também um ritual noutras festividades ao longo do ano, casamentos, inaugurações, etc... 
Ao contrário do dragão, o leão é operado por apenas dois dançarinos que, através de uma coreografia vigorosa baseada nas artes marciais, dão vida a um animal irrequieto. O ponto alto da performance é o ritual Cai Qing, onde o leão "caça" e come uma alface normalmente pendurada à porta de estabelecimentos. Escondido entre as folhas, encontra-se sempre um envelope vermelho (hongbao) com dinheiro, que serve como oferta de gratidão e pagamento simbólico. Após "comer" a alface e o envelope, o leão 'cospe' as folhas sobre o público, um gesto que simboliza a partilha da fortuna e das bênçãos para o novo ciclo. Todo o espetáculo é ritmado por tambores e gongos constantes, cujo som estridente tem a missão crucial de espantar os maus espíritos.
O Simbolismo e o Ritual
Espantar o mal: O principal objetivo da dança é afastar os maus espíritos e a má sorte acumulada no ano anterior através do som alto dos tambores e da figura imponente do animal.
O Ritual "Cai Qing" (Colher o Verde): Este é o momento mais icónico. O leão "caça" uma alface (ou outra hortaliça) pendurada na porta de lojas ou casas. Dentro da alface há um envelope vermelho (hongbao) com dinheiro. O leão "come" a alface e depois a cospe para fora, simbolizando a disseminação da fortuna e prosperidade para o dono do local.
Diferenças Visuais e Técnicas
Estrutura: Ao contrário do dragão (que precisa de muitos homens), o leão é operado por apenas dois dançarinos: um controla a cabeça (e as pálpebras/orelhas) e o outro 'faz' as costas e a cauda.
Estilos: Existem dois estilos principais: o do Norte, que é mais acrobático e o leão parece um cão peludo, e o do Sul (mais comum em Macau e Hong Kong), que foca na expressão facial e no poder das artes marciais. Tradicionalmente, são as escolas de Kung Fu que realizam as danças, pois os movimentos exigem uma base de pernas (postura de cavalo) extremamente forte e grande agilidade física.

Dança do Dragão
A Dança do Dragão é outro dos espetáculos bastante aguardados nas celebrações do Ano Novo Lunar Chinês, simbolizando poder, sorte e prosperidade. Longe de ser apenas uma performance, é um ritual que visa afastar os maus espíritos e trazer boa fortuna para o ano que se inicia.
Os dragões, figuras lendárias e benevolentes na cultura chinesa, são representados por longas estruturas flexíveis, manobradas por uma equipa de dançarinos. Cada parte do corpo do dragão – da cabeça maciça e expressiva à cauda ondulante – exige coordenação perfeita e força física. Guiados por um "Portador da Pérola" que simula o objecto da sabedoria e do poder, o dragão serpenteia entre as multidões, realizando movimentos que imitam o seu voo e a sua busca por harmonia.
Durante os festejos do Ano Novo, a Dança do Dragão "desperta" a energia da comunidade. Ao som ensurdecedor de tambores, gongos e pratos – que não só animam o ritmo, mas também espantam o azar – o dragão ganha vida, movendo-se com agilidade e majestade. A dança, muitas vezes realizada em procissões vibrantes pelas ruas, atrai multidões, que acreditam que tocar no corpo do dragão traz sorte.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ano do Cavalo: Feliz Ano Novo Chinês | 春节快乐 | Happy Chinese New Year

駿馬賀歲 喜迎新春  年是馬年,象徵着活力、自由與前進
Year of the Horse, a symbol of energy, freedom, and progress
Ano do Cavalo: símbolo de energia, liberdade e progresso
駿馬大吉  2026 新年快乐 
Que o cavalo lhe traga boa sorte e um Feliz Ano Novo de 2026!

PS: imagem criada por IA  a partir de pintura do século 19.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Ano Jubilar da Dioecesis Macaonensis

"De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia 1576-2026" é o mote do Ano Jubilar da Diocese de Macau (Dioecesis Macaonensis), a primeira do Extremo-Oriente.
Foi estabelecida a 23 de Janeiro de 1576 pela bula "Super Specula Militantis Ecclesiae" emitida pelo Papa Gregório XIII, desligando-se da diocese de Malaca. Desde início foi consagrada a Santa Catarina de Senna e São Francisco Xavier.
Aguarela das Ruínas de S. Paulo - 1951
pelo pintor macaense Luís Demée (1929-2014)

Celebrações
Até Janeiro de 2027 um vasto programa assinala a efeméride com exposições, espectáculos musicais, competições desportivas e simpósios académicos que pretendem promover uma reflexão sobre os últimos quatro séculos e meio de missão em Macau.
A grande cerimónia comemorativa está marcada para o dia 31 de Outubro de 2026 e inclui uma recepção e uma Celebração Eucarística. Os fiéis vão unir-se em torno da Eucaristia nesta ocasião para demonstrar gratidão a Deus "pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meios" e rezar "para que Ele continue a orientar o caminho a seguir" nos anos vindouros, segundo a Diocese.
Emissão filatélica
A Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações (CTT) emitiu uma emissão filatélica especial que "integra um conjunto de quatro selos, sendo que cada um apresenta um edifício emblemático intimamente associado ao catolicismo em Macau: (...) o Paço Episcopal, a Igreja de S. Lázaro, o Seminário de S. José e a Sede da Cáritas de Macau." 
A emissão inclui ainda um bloco "com a imagem de um mapa antigo da região como fundo a contrastar com o recém-construído Centro Católico da Diocese em primeiro plano, aludindo a uma fusão entre o velho e o novo para delinear o contexto histórico e expressar ainda a importância de Macau como berço e centro da expansão do catolicismo no Oriente. A parte inferior do bloco ilustra várias igrejas listadas como património cultural de Macau, que destacam, no seu conjunto, o profundo valor histórico, cultural e social da Diocese de Macau."

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Marciano Baptista: do desenho a lápis à aguarela

O Forte de S. Tiago da Barra é uma das muitas aguarelas produzidas por Marciano Baptista  (1826-1896) na segunda metade do século 19. No espólio de José Maria (Jack) Braga (1897-1988) à guarda da Biblioteca Nacional da Austrália está o desenho a lápis e caneta que Marciano fez antes da aguarela. A indicação manuscrita no desenho - "S. Tiago Fort, Macao by M. Baptista" - terá sido feita por Marciano ou por Braga, quando fez a doação do seu espólio em 1966. Tal como Marciano, também Jack Braga, viveu em Hong Kong.
Uma pequena descoberta para assinalar os 200 anos do nascimento daquele que é considerado o maior nome da pintura macaense no século 19. Em baixo o resultado de uma imagem criada por IA onde solicitei a sobreposição do desenho e da aguarela.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ano Novo chinês em 1926

Há 100 anos o ano novo chinês teve início a 13 de Fevereiro. Era o Ano do Tigre - também de fogo. Nesse dia um grupo de turistas passou pela cidade e registou para a posteridade o momento.
Juncos ancorados no Porto Interior na década 1920

Notícia do jornal A Pátria a 12 de Fevereiro de 1926:
Ano Novo Chinês
Grande numero de licenças para o jôgo de clu clu têm sido passadas na Secretaria Geral do Govêrno, cêrca de mil, vendo-se grande movimento nas vias públicas onde se encontram muitos estabelecimentos com artísticas decorações e reclamos engraçados.
A festa do Ano Novo representa para os chineses a mais importante e, por êsse facto, usam êles nestes dias os seus melhores vestidos o que dá um aspecto muito interessante ao movimento da cidade, especialmente nas grandes artérias, sendo o número principal desta festa o jôgo de clu clu.
Atraída por êstes tradicionais costumes, também a população não chinesa tem por hábito freqüentar os lugares de jôgo nestes dias, fazendo as suas paradazinhas, as quais por vezes atingem grossas quantias, pelo que, se tornam muito interessantes as suas fisionomias quando voltam para casa, notando-se vulgarmente mais tristeza que alegria, mas... lá está o ditado «Quem corre por gôsto não cansa.»

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Prémio Fundação Jorge Álvares – General Vasco Rocha Vieira – Amizade Portugal-China

A Fundação Jorge Álvares lançou este ano a primeira edição do Prémio General Vasco Rocha Vieira-Amizade Portugal-China. 
O objetivo é incentivar o estudo e a investigação das relações entre Portugal e a República Popular da China, através de Macau, bem como reconhecer as instituições que promovam iniciativas relevantes no sentido de reforçar a aproximação entre as comunidades portuguesa, chinesa e macaense. 
O prémio compreende duas categorias: instituições, a atribuir em anos pares, a começar em 2026; e trabalhos de investigação, a atribuir em anos ímpares, a começar em 2027. O valor do prémio é de vinte cinco mil euros.
Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo, Praia Grande, Macau
Desenho a lápis criado por IA a partir de fotografia de Rui Ochoa

Objectivo: Homenagear o último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, incentivando o estudo, investigação e projetos que reforcem os laços entre Portugal, China e Macau.
Periodicidade e Valor: Prémio anual de 25.000,00€, atribuído alternadamente a instituições (cultura, língua, educação, filantropia) e trabalhos de investigação.
Edição 2026 (Instituições): Focada em entidades que promovam o estreitamento das relações entre as comunidades.
Edição 2027 (Investigação): Tema definido como “Da assinatura da Declaração Conjunta à transferência da Administração Portuguesa de Macau”.
Candidaturas para 2026 (instituições): de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2026.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)

É apresentado hoje em Lisboa o livro "Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)". Da autoria do historiador Alfredo Gomes Dias, a obra apresenta "as grandes linhas do pensamento e da acção do último Governador de Macau, o general Vasco Rocha Vieira".

Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo
Foto de capa de Rui Ochoa

De acordo com a editora Guerra & Paz, o livro é "baseado nos documentos pessoais do general Rocha Vieira e nas conversas que o autor com ele manteve, esta obra reflecte o complexo processo de transição da administração de Macau de Portugal para a China, concluído com a cerimónia da transferência em 19 de Dezembro de 1999."
Na obra revela-se "a perspectiva do Governador de Macau sobre a sua acção política, quer nas diversas áreas da administração do território quer nas relações que manteve com os órgãos da República, em Lisboa, e com as autoridades chinesas."
"Macau: A Última Transição" é desde já uma fonte documental "essencial para todos aqueles que se queiram dedicar ao estudo dos últimos anos da presença portuguesa em Macau."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Picturesque Macao: 1926

Há 100 anos era publicado "Picturesque Macao", livro da autoria de "J. Braga" (Jack M. Braga/José Maria Braga) com edição de Henrique Nolasco da Silva e impressão da Livraria Po Man Lau (Largo do Senado, 12). 
Foi escrito em inglês para atrair o público de Hong Kong e turistas que visitassem o território durante um certame que estava em preparação. A obra é ainda valorizada pelas fotografias da época que registam locais emblemáticos como a Porta do Cerco, a Gruta de Camões ou as Ruínas de S. Paulo.
Excerto:
Introduction
Actuated solely by a desire to provide an illustrated handbook with, if I may modestly say so, interesting historical references, I set myself somewhat over a year ago to collect from many sources the meagre notes which are published this day.
I claim nothing of originality in the work: it was first suggested to me by Mr. Charles Gerken, at that time editor of the “Hongkong Sunday Herald”, for publication in his paper, and I have leisurely sought for details regarding the romantic nooks of Picturesque Macao.
Early in August the publishers of this work requested me to furnish the letterpress for a number of pictures intended for exhibition at the Macao Industrial Fair in October, 1926. Though loth to present for public gaze notes but hastily assembled and necessarily incomplete, I decided to offer them for publication, despite inaccuracies and shortcomings, feeling that their deficiences would be overlooked in the practical purpose to which the writer hopes his little work of love will be applied.
There are places which once seen are never forgotten and Macao is one of them. To the jaded spirit of an over-worked body and the tortured nerves of the tired business man Macao offers its priceless possession—an unhurried quiet—an atmosphere of peace.
Tradução/Adaptação:
Introdução
Movido unicamente pelo desejo de fornecer um guia ilustrado com referências históricas interessantes — se assim posso dizer modestamente —, propus-me, há pouco mais de um ano, a reunir de diversas fontes as parcas notas que são publicadas hoje.
Não reivindico qualquer originalidade nesta obra: ela foi-me sugerida pela primeira vez pelo Sr. Charles Gerken, na altura editor do "Hongkong Sunday Herald", para publicação no seu jornal, e tenho procurado pausadamente detalhes sobre os recantos românticos da Macau Pitoresca.
No início de Agosto, os editores desta obra solicitaram-me que fornecesse o texto para uma série de fotografias destinadas a serem exibidas na Feira Industrial de Macau em Outubro de 1926.* Embora relutante em apresentar ao olhar do público notas reunidas apressadamente e necessariamente incompletas, decidi oferecê-las para publicação, apesar das imprecisões e falhas, sentindo que as suas deficiências seriam relevadas perante o propósito prático ao qual o escritor espera que o seu pequeno trabalho de amor seja aplicado.
Existem lugares que, uma vez vistos, jamais são esquecidos, e Macau é um deles. Ao espírito exausto de um corpo sobrecarregado e aos nervos torturados do homem de negócios cansado, Macau oferece a sua posse mais valiosa: um sossego sem pressas — uma atmosfera de paz.
Picturesque Macau
by J. Braga. Edited by Henrique Nolasco Da Silva
Printed and Published by
Po Man Lau, 1926

* A Exposição Industrial e Feira de Macau realizou-se de 7 de Novembro a 12 de Dezembro de 1926 numa vasta área das várzeas de Mong Ha (perto do Templo de Kun Iam Tong) atraindo 290.000 visitantes. Idealizado no governo de Carlos da Maia ocorreu já no governo de Maia Magalhães.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana (1930)

MACAO. Geog. 
Colonia portuguesa de la costa S. de China (prov. de Kwang-tung) en la desembocadura del Cantón, á 101 km. al SE. de Cantón y á 60 km. al O. de Hong-Kong, en una pequeña península, unida con la isla de Hiang-shan por medio de un pequeño istmo. Las murallas que existían en toda la long. de la frontera, y en cuyas puertas había antiguamente centinelas chinos, están totalmente derruídas. En la península, además de la ciudad de Macao, hay tres ald., á saber: Mong-ha, Patane y Lappa. También pertenecen al dominio portugués las islas Taipa y Colovane [Coloane]. Su extensión total es de 11,75 km², con 78.627 h., de ellos 3.898 portugueses y algunos españoles é ingleses que lo sano del clima atrae de Hong-Kong. Macao perteneció, hasta 1844, al gobierno general de Goa, y forma, desde 1896, un solo gobierno. El comercio, monopolizado por los chinos, es muy importante.

MACAO. (Llamada en portugués Cidade do Santo Nome de Dios de Macao.) 
Geog. Ciudad de la costa meridional de China, correspondiente á la prov. de Kwang-tung y sit., aproximadamente, á los 22º 20' N., al OSO. de Hong-Kong y á unos 100 km. de Cantón. Forma parte de la colonia portuguesa del mismo nombre y se levanta á orill. del estuario del río de Cantón ó de las Perlas, en el extremo S. de una península, cortada por numerosos esteros, que la convierten en isla. La ciudad propiamente dicha cuenta 74.866 h., de los que 3.919 son blancos, entre ellos 3.780 portugueses; 60.057 chinos, y 154 pertenecen á diversas naciones. Se divide en dos barrios, el chino y el europeo, y está rodeada de colinas con fuertes de poca importancia. En el barrio europeo, bien edificado, aunque con muchas pendientes, hay buenas casas con jardines, un paseo llamado Praia Grande, el hospital, el Senado, cinco templos, entre ellos la catedral de San Pablo; varias capillas y un muelle semicircular que mide más de 1 km. En un jardín cercano á la iglesia de San Antonio se encuentra una gruta donde, según la tradición, terminó Camoens sus Lusiadas. El barrio chino es sucio y de calles estrechas, pero muy animado y comercial. La rada, defendida por algunos islotes, tiene muy poco fondo, de manera que los buques de gran porte tienen que anclar á 9 ó 10 km. de la ciudad. El comercio, antes muy importante, ha decaído; se reduce casi todo al de tránsito y está, en su mayor parte, en manos de los chinos. En 1910 se exportaron por él mercancías consistentes en añil, arroz, azúcar, té, seda, etc., evaluadas en 6.707.360 escudos, y se importaron por valor de 7.322.040.

in Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, 1930
Inclui uma fotografia tirada da colina da Guia sobre a Fortaleza do Monte e Porto Interior


Tadução/Adaptação

MACAU. Geogr. 
Colónia portuguesa da costa sul da China (província de Kwang-tung) na foz do Cantão, a 101 km ao SE de Cantão e a 60 km ao O de Hong Kong, numa pequena península, unida à ilha de Hiang-shan por meio de um pequeno istmo. As muralhas que existiam em toda a extensão da fronteira, e em cujas portas havia antigamente sentinelas chinesas, estão totalmente destruídas. Na península, além da cidade de Macau, há três aldeias, a saber: Mong-ha, Patane e Lapa. Também pertencem ao domínio português as ilhas da Taipa e Coloane. Sua extensão total é de 11,75 km², com 78.627 habitantes, dos quais 3.898 portugueses e alguns espanhóis e ingleses que o clima saudável atrai de Hong Kong. Macau pertenceu, até 1844, ao governo geral de Goa e forma, desde 1896, um só governo. O comércio, monopolizado pelos chineses, é muito importante.


MACAU. (Chamada em português Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.) 
Geogr. Cidade da costa meridional da China, correspondente à província de Kwang-tung e situada, aproximadamente, aos 22º 20' N., ao OSO de Hong Kong e a cerca de 100 km de Cantão. Faz parte da colônia portuguesa de mesmo nome e ergue-se à margem do estuário do rio de Cantão ou das Pérolas, no extremo sul de uma península, cortada por numerosos esteiros, que a convertem em ilha. A cidade propriamente dita conta com 74.866 habitantes, dos quais 3.919 são brancos (entre eles 3.780 portugueses); 60.057 chineses, e 154 pertencem a diversas nações. Divide-se em dois bairros, o chinês e o europeu, e está rodeada de colinas com fortes de pouca importância. No bairro europeu, bem edificado, embora com muitas ladeiras, há boas casas com jardins, um passeio chamado Praia Grande, o hospital, o Senado, cinco templos, entre eles a catedral de São Paulo; várias capelas e um cais semicircular que mede mais de 1 km. Num jardim próximo à igreja de Santo António encontra-se uma gruta onde, segundo a tradição, Camões terminou os seus Lusíadas. O bairro chinês é sujo e de ruas estreitas, mas muito animado e comercial. A enseada, defendida por alguns ilhéus, tem pouca profundidade, de modo que os navios de grande calado têm de ancorar a 9 ou 10 km da cidade. O comércio, anteriormente muito importante, entrou em declínio; reduz-se quase todo ao de trânsito e está, na sua maior parte, nas mãos dos chineses. Em 1910, exportaram-se por ali mercadorias consistentes em aniz, arroz, açúcar, chá, seda, etc., avaliadas em 6.707.360 escudos, e importaram-se valores de 7.322.040.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Flora Cochinchinensis" de João de Loureiro (1717-1791)

O ananás, fruto nativo da América do Sul, nomeadamente do Brasil, foi introduzido na China pelos portugueses através de Macau no final do século XVI, sendo o ano de 1594 a data histórica mais consensual para este marco por via dos registos documentais chineses. Após terem descoberto a fruta no Brasil, os navegadores portugueses transportaram as plantas nas suas embarcações para outros destinos. Devido à resistência da planta, esta sobreviveu às longas viagens marítimas, passando primeiro por entrepostos em África e depois em Goa, na Índia, antes de chegar ao enclave de Macau. A partir deste ponto estratégico, a planta espalhou-se rapidamente pela província de Guangdong e por todo o sul da China, nomeadamente em Fujian, onde o clima subtropical favoreceu uma adaptação perfeita. Existem referências em crónicas chinesas da dinastia Ming que descrevem uma "fruta estranha com pele de escamas e uma coroa de folhas" vinda das mãos dos "estrangeiros do mar" (os portugueses). 
Em chinês, a fruta é chamada de Feng Li (鳳梨) - significa "pêra fénix", devido à semelhança da sua coroa de folhas com as penas da cauda de uma fénix e à textura da sua polpa - e também de Boluò (菠萝), nome mais habitual em Macau e que aparece em textos médicos e botânicos pouco tempo depois dessa introdução.
Além do ananás, os portugueses foram responsáveis pela introdução na China do milho, batata-doce, amendoim, malagueta, tabaco...
Planta do Ananás: ilustração criada com recurso a IA

No livro publicado em 1790 (2 volumes em latim) - "Flora cochinchinensis: sistens plantas regno Cochinchina nascentes, quibus accedunt aliae observatae Sinensi imperio, Africa Orientali, Indiaeque locis variis, omnes dispositae secundum systema sexuale Linnaeanum" o padre jesuíta João de Loureiro - viveu em Macau entre 1779 e 1782 - antes de regressar a Lisboa, classifica a planta como Bromelia ananas.
João de Loureiro nasceu em Lisboa em 1717. Aos 15 anos ingressou na Companhia de Jesus, partindo pouco depois para as missões no Oriente. Após passagens por Goa e Macau, estabeleceu-se em 1742 na Cochinchina, região que hoje corresponde ao centro e sul do Vietname, onde permaneceria durante 36 anos. A sua permanência prolongada num período de instabilidade política deveu-se ao seu valor prático para a corte local, onde serviu como matemático e, sobretudo, como médico. Foi a necessidade de curar sem acesso a fármacos europeus que o levou a estudar profundamente a flora local e a medicina tradicional, tornando-se um botânico autodidata de excecional rigor.
Em 1777/79 Loureiro retirou-se para Macau, permanecendo no território até 1781. No regresso a Lisboa ainda passa por Moçambique onde continua a recolher plantas. A espantosa colecção que reuniu despertou o interesse da comunidade científica europeia.
A sua obra principal, a Flora Cochinchinensis, foi publicada em 1790 (um ano antes de morrer)  pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Escrito em latim e organizado segundo o sistema sexual de Lineu, o livro descreve mais de mil e duzentas espécies, muitas das quais desconhecidas na Europa, como certas variedades de citrinos e plantas medicinais asiáticas. 
MONOGYNIA. GENUS I. BROMELIA.
Charact. Gener. Cal. 3 - fidus, superus. Petala 3 : squamâ nectariferâ ad basim. Bacca 3 - locularis. Lin. syst. pl. G. 427.
Sp. 1. BROMELIA ANANÁS. v. Thái Thom. Differ. spec. Brom. foliis ciliato-spinosis: spicâ comosâ. Lin. sp. 1. Hab.; & notæ. Caulis 1 - pedalis, perennis, crassus, teres, erectus, foliis ad basim imbricatus, fructu magno, solitario terminatus. Folia 3 - pedalia, subulata, margine utrâque spinosa, canaliculata, crassa, cinereo-glauca, glabra, reclinata. Bacca composita, 8 pollices longa, cylindracea, saepe sub-conica, ovata, aut subrotunda, diametro 5 - pollicari, rubra, squamosa. Flores nitidè purpurei, singulis baccae squamis singuli adnati, supra medium exerti, ante maturescentiam baccae decidui. Cal. 3 - fidus, minimus. Corolla oblonga, campanulata, 3 - petala, in acutum definens. Filamenta 6, tenuia receptaculo inserta. Stigmata 3: stylo profundè 3 - sulcato, & in tres facilè divisibili. Baccae partiales inferae, oblongae, coalitae, succosae, odorae, dulcissimae, sub-acidae, sapidissimae, salubres, 1 - loculares: seminibus tribus, longiusculis.
Habitat in magnâ copiâ in agris, & hortis Cochinchinae, ubi, quamvis optima, vili pretio venditur, praecipuè in provinciâ Doung-nai ad decimum gradum latitudinis Borealis. Anassa. Rumph. Amb. l. 8. cap. 41. tab. 81. Ananás. Tournef. Inst. p. 653. tab. 426, 427, 428. Acosta. Arom. p. 44. Virtus: fructus. Diuretica, Stomachica. Ex fermentatâ fit vinum, & hujus spiritus, sapidum quidem, sed minus salubre. Varietas Bromeliae occurrit, in Cochinchinâ dicta Thom nép, cujus fuetus sapore non inferior, in maturescentiâ permanet viridis, & pulpa alba, sed specie non differens.

MONOGYNIA (Uma só estames/estilete). GÉNERO I. BROMELIA.
Características do Género: Cálice trilobado, superior. 3 Pétalas: com escama nectarífera na base. Baga com 3 lóculos. (Ref. Linnaeus).
Espécie 1. BROMELIA ANANÁS. Nome vulgar: Thái Thom. Diferença da espécie: Bromélia de folhas com espinhos ciliados: espiga com penacho. Habitat e Notas: Caule de 1 pé de altura, perene, grosso, cilíndrico, ereto, com folhas sobrepostas na base, terminado por um fruto grande e solitário. As folhas têm 3 pés de comprimento, em forma de sovela, espinhosas em ambas as margens, sulcadas, grossas, de cor cinza-azulado, lisas e reclinadas. A baga é composta, com 8 polegadas de comprimento, cilíndrica, frequentemente subcónica, oval ou arredondada, com 5 polegadas de diâmetro, vermelha e escamosa. As flores são de um roxo brilhante, cada uma ligada a uma escama da baga, projetando-se acima do meio, caindo antes da maturação do fruto. Cálice muito pequeno. Corola oblonga, em forma de sino, com 3 pétalas terminando em ponta. 6 filamentos finos inseridos no recetáculo. 3 estigmas: estilete profundamente sulcado em 3 e facilmente divisível em três partes. As bagas parciais são inferiores, oblongas, fundidas, suculentas, perfumadas, muito doces, ligeiramente ácidas, de sabor muito agradável, saudáveis, com 1 lóculo e três sementes compridas.
Habitat: Em grande abundância nos campos e hortas da Cochinchina [atual Vietname], onde, embora de excelente qualidade, é vendido a preço baixo, especialmente na província de Dong Nai, aos dez graus de latitude Norte. 
Referências: Anassa (Rumphius), Ananás (Tournefort), Acosta (Aromatum et Medicamentorum). 
Virtudes: Do fruto: Diurético e estomacal. Do fruto fermentado faz-se vinho e um espírito (destilado), saboroso, mas menos saudável. 
Variedade: Ocorre uma variedade de Bromélia, chamada na Cochinchina de Thom nép, cujo fruto não é inferior em sabor, permanece verde na maturação e tem a polpa branca, mas não difere na espécie.

Nota: Entre as várias espécies da flora de Macau que João de Loureiro classificou, aqui ficam alguns exemplos: Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"...
Terá por certo recorrido ao Horto dos Jesuítas/Horta da Companhia de Jesus, junto ao colégio de S. Paulo. Na toponímia local chegou a a existir a Rua da Horta da Companhia, actual Rua de D. Belchior Carneiro.

Curiosidade: 
A palavra ananás deriva de "nana" - termo nativo Tupi - que significa "fruto excelente".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Visão de um dominicano sobre os jesuítas no início do séc. 18

RELATION DE LA NOUVELLE PERSECUTION DE LA CHINE, JUSQU'A LA MORT DU CARDINAL DE TOURNON: DRESSE'E Par le R. P. FRANÇOIS GONZALES DE S. PIERRE, Religieux de l'Ordre de S. Dominique, & Missionnaire Apostolique à la Chine, SUR Une plus ample Relation des Missionnaires du même Ordre, qui ont été chassés de la Chine. MDCC XIV."
"RELAÇÃO DA NOVA PERSEGUIÇÃO DA CHINA, ATÉ À MORTE DO CARDINAL DE TOURNON: PREPARADA Pelo R. P. FRANCISCO GONZALES DE S. PEDRO, Religioso da Ordem de S. Domingos e Missionário Apostólico na China, BASEADA NUMA Relação mais ampla dos Missionários da mesma Ordem que foram expulsos da China. 1714."

O Padre Francisco González de San Pedro foi um missionário espanhol da Ordem dos Dominicanos e uma das vozes mais críticas e influentes no debate religioso da Ásia do início do século XVIII. Actuando como Missionário Apostólico na China, ele tornou-se um aliado próximo do Cardeal de Tournon durante a célebre "Questão dos Ritos". San Pedro posicionou-se firmemente contra a estratégia de adaptação dos Jesuítas, que permitiam aos convertidos chineses a prática de ritos ancestrais; para ele, tais actos eram formas de idolatria incompatíveis com o cristianismo. Após a expulsão de vários missionários e a morte do Cardeal de Tournon em Macau, San Pedro publicou o seu relato em 1714 com o intuito de denunciar o que considerava ser uma perseguição à "verdadeira fé" e uma excessiva submissão das autoridades locais aos interesses jesuítas e chineses.
Na sua descrição de Macau, o autor apresenta a cidade não como uma colónia europeia plena, mas como um território de equilíbrio precário e soberania dividida. Ele sublinha que, embora os portugueses tenham erguido a cidade, o domínio supremo pertence ao Imperador da China, o que obriga os habitantes a viverem sob a constante vigilância e "vexames" dos Mandarins de Xiangshan, sempre ávidos por tributos. 
A população é descrita como um mosaico social onde a maioria chinesa, maioritariamente "pagã", convive com uma mistura de nações e poucos portugueses de origem, muitos dos quais vivendo em condições de pobreza. Para o autor, esta realidade social torna Macau um local de trânsito e logística — uma porta essencial para as missões no interior da China e do Sudeste Asiático — em vez de um centro de conversão directa.
Um dos pontos mais detalhados do seu relato é o choque cultural e religioso que presenciava nas ruas. San Pedro descreve com amargura como as procissões e sacrifícios rituais chineses, envolvendo queima de figuras de cartão e oferendas de animais, ocorriam publicamente, por vezes coincidindo com solenidades católicas e diante das portas das igrejas. Ele critica abertamente o Bispo de Macau e as ordens religiosas locais, especialmente os Jesuítas, pela sua passividade perante estas práticas. Administrativamente, ele detalha o funcionamento do Senado, composto por juízes e cidadãos eleitos que geriam a justiça civil e a polícia, e a presença das cinco casas religiosas da cidade. Em suma, a Macau de San Pedro é um retrato de uma cidade sitiada por interesses políticos e financeiros, onde a Igreja estava profundamente dividida e a autoridade portuguesa era constantemente desafiada pela proximidade do poder imperial chinês.

Excerto:
"Description de la Ville de Macao.
MACAO est une petite ville, bâtie il y a déjà long-tems par les Portugais, qui obtinrent cet emplacement de l'Empereur de la Chine, à la charge de lui païer un tribut annuel, outre d'autres droits. Cette ville est habitée par des gens de diverses nations: une moitié de la ville est de Chinois tous païens, excepté un petit nombre de Chretiens, qui ne passent pas quarante ou cinquante: l'autre est composée d'un mélange de gens ramassez de toutes les autres nations, la plûpart très-pauvres; & il n'y a qu'un très-petit nombre de vrais Portugais. Le domaine souverain de cette Ville apartient à l'Empereur de Chine, & elle est soumise à la juridiction du Gouverneur de la ville de Hiang-xan, éloignée de Macao d'une journée de chemin. L'Empereur entretient dans le voisinage des murailles de Macao des Soldats & des Capitaines, & il y a dans la ville même des tribunaux des Mandarins Chinois, qui viennent regulierement de Hiang-xan, où ils font leur residence, y tenir leur seance, lors que les affaires du Gouvernement le demandent.
Tous les Chinois qui demeurent à Macao dépendent absolument de ces tribunaux. Ils ont leurs temples d’idoles hors de la ville: mais ils font publiquement leurs processions superstitieuses dans les rues de Macao, comme dans les autres villes de la Chine. Et ce qui nous affligea le plus, c’est un jour dans l’Octave du Rosaire, que le saint Sacrement étoit exposé chez nous, ils préparerent un sacrifice tout vis à vis dans la petite place qui est devant notre Eglise. Il consistoit dans un bufet garni d’oiseaux artificiels, très-délicatement faits, de deux cerfs & de certains habits. Le tout étoit de carton & devoit être brûlé à l’honneur de leurs Ancêtres défunts. Il y avoit outre cela beaucoup de fruits, & diverses autres choses bonnes à manger, avec un cochon, & une chevre, qu’ils avoient tuez, & qui étoient exposez sur une table portative très-bien ornée. Ils porterent tout cela en procession avec des Étendards, des flambeaux, des trompettes & autres instrumens de Musique, hors de la ville devant un sepulchre, où se fit le sacrifice. Nous vîmes passer aussi plusieurs fois devant la porte de notre Couvent, qui est situé au milieu de la ville, les processions qu’ils font pour aller ensevelir leurs morts, ou pour leur rendre les honneurs acoutumez. Et une chose singuliere qui nous étonna, c’est qu’à un des convois, le fils du défunt, qui selon l’usage des Chinois doit porter avec d’autres le cercueil de son pere, ne le portoit pas: mais portoit à la place la machine de la Tablette; s’imaginant sans doute que l’ame du défunt étoit dedans.
On n’y voit aucune apparence de l’exercice de la Religion Chrétienne parmi les Chinois, excepté chez quelques-uns, qui l’embraissent plûtôt par nécessité, que par une véritable piété. Nous n’osons non plus rien faire pour les instruire ou pour les attirer à notre sainte Foi, parce que les Mandarins y apporteroient d’abord un obstacle invincible; outre que l’Empereur ne permet pas aux Européens d’y faire aucune fonction de Missionnaires, sous peine d’être bannis de Macao. C’est ce qui rend cette Ville un lieu de passage plûtôt que de Mission: car comme c’est le seul endroit où les Européens puissent demeurer librement avec les Chinois, c’est de-là que les Missionnaires de toutes les Nations se répandent ensuite par toute la Chine, par le Tonquin, par la Cochinchine, & par les autres Roiaumes voisins. On y voit des Religieux de divers Ordres: il y a des Jesuites, des Jacobins, des Augustins, & des Cordeliers, qui y ont chacun leur Couvent; mais ces deux derniers ne sont composez que de deux ou trois Religieux chacun."


Suite de la description de Macao. 
Il y a à Macao cinq maisons religieuses, favoir un Couvent de notre Ordre, où l’on a coutume d’entretenir regulierement deux ou trois Religieux, dont l’un est le Vicaire, qui a foin de la maison, & l’autre ou les deux autres font des vieillards ou des Religieux qui par leurs infirmitez ne font plus en état de rendre service dans les Missions, ni de remplir les autres emplois de notre Ordre dans ces païs-là. ...Couvent d’Augustins, qui en entretient deux ou trois : un College de Jésuites, qui est le plus nombreux de tous: & enfin un Monastere de Religieuses de sainte Claire. 
Le Vicaire de notre Couvent, dans le tems que nous y arrivâmes, étoit le Pere Sebastien de saint Antoine, homme de peu de science, & qui avoit été fait Vicaire, par raport à Diego de Pigno de Texeira présentement Capitaine General de Macao, qui l'amena de Goa comme son ami particulier, aiant été élevé ensemble au Noviciat de Goa, où cet Officier avoit pris l'habit de notre Ordre, soit par devotion, ou veritablement dans le dessein d'être Religieux : ce que nous n'avons pas apro-fondi. Il obtint la charge de Capitaine General de Macao, du Vice-Roi de Goa à la priere du Pere François Pinto, Jésuite, Provincial du Japon, resident à Macao, comme il paroît par une lettre de ce Vice-Roi écrite au Pere Pinto, donnée par ce Pere à M. le Patriarche, & dont nous avons une copie. Cette raison fit que le Pere Sebastien prit de fausses impressions sur les affaires de M. le Patriarche, s'attacha au parti du Capitaine General & des Jésuites, & comme eux ne voulut point reconnoître M. le Patriarche : quoique tout notre Ordre dans les Indes défendit, & défend encore sa juridiction. Au mois de Juillet de la même année le Pere Pierre d’Amaral vint de Goa à Macao, pour succeder au Pere Sebastien dans la charge de Vicaire & de Visiteur de notre Cou...Couvent. Il avoit des talens bien au dessus de son prédecesseur, & la conduite qu’il a tenüe a manifesté sa vertu à tout le monde, ainsi qu’on le verra dans la suite de cette Relation. Le Domaine immediat de Macao apartient au Roi de Portugal, & de lui dependent absolument tous les autres habitans, excepté les Chinois, qui dépendent, comme nous l’avons deja remarqué, de l’Empereur de la Chine. Sa Majesté Portugaise entretient dans la ville une garnison composée de peu de soldats; sous un Gouverneur qui a le titre de Capitaine General. Les Portugais ne laissent pas d’être exposez à de grandes vexations & à de grandes injustices de la part des Mandarins Chinois, qui sont toujours avides d’argent, & qui veulent en avoir à quelque prix que ce soit; & ces vexations sont telles, que s’ils les souffroient chrétiennement, ils s’aquerreroient un grand merite devant Dieu & devant l’Eglise, en conservant avec tant de souffrances, cette ville, qui est la porte, non seulement pour la Mission de la Chine : mais encore pour plusieurs autres. Mais ils ne s’aquierent que peu de merites, la conservant seulement par des motifs tous humains, & se rendant toujours les persecuteurs des Missionnaires, au lieu d’être leur refuge & leur apui."

Tradução/Adaptação:

Descrição da Cidade de Macau. 
MACAU é uma pequena cidade, construída há já muito tempo pelos Portugueses, que obtiveram este local do Imperador da China, com a obrigação de lhe pagar um tributo anual, além de outros direitos. Esta cidade é habitada por pessoas de diversas nações: uma metade da cidade é de Chineses, todos pagãos, exceto um pequeno número de Cristãos, que não passam de quarenta ou cinquenta: a outra é composta por uma mistura de pessoas reunidas de todas as outras nações, a maioria muito pobre; e há apenas um número muito pequeno de verdadeiros portugueses. O domínio soberano desta Cidade pertence ao Imperador da China, e ela está submetida à jurisdição do Governador da cidade de Hiang-xan, distante de Macau uma jornada de caminho. O Imperador mantém, na vizinhança das muralhas de Macau, Soldados e Capitães, e há na própria cidade tribunais de Mandarins Chineses, que vêm regularmente de Hiang-xan, onde têm a sua residência, para realizar as suas sessões quando os assuntos do Governo o exigem.
Todos os Chineses que residem em Macau dependem absolutamente destes tribunais. Eles têm os seus templos de ídolos fora da cidade: mas realizam publicamente as suas procissões supersticiosas nas ruas de Macau, tal como nas outras cidades da China. E o que mais nos afligiu foi que, um dia durante a Oitava do Rosário, estando o Santíssimo Sacramento exposto entre nós, eles prepararam um sacrifício mesmo em frente, na pequena praça que fica diante da nossa Igreja. Este consistia num bufete guarnecido de pássaros artificiais, feitos com muita delicadeza, de dois veados e de certas vestes. Tudo era de cartão e devia ser queimado em honra dos seus Antepassados falecidos. Havia, além disso, muitas frutas e diversas outras coisas boas de comer, com um porco e uma cabra que haviam matado, e que estavam expostos sobre uma mesa portátil muito bem adornada. Levaram tudo isto em procissão, com estandartes, archotes, trombetas e outros instrumentos de Música, para fora da cidade, diante de um sepulcro onde se realizou o sacrifício. 
Vimos também passar várias vezes diante da porta do nosso Convento, que está situado no meio da cidade, as procissões que fazem para ir enterrar os seus mortos ou para lhes prestar as honras habituais. E uma coisa singular que nos espantou foi que, num dos cortejos, o filho do defunto, que segundo o costume dos Chineses deve carregar com outros o caixão do seu pai, não o carregava: mas carregava, em vez disso, a armação da Tabuleta [ancestral]; imaginando, sem dúvida, que a alma do falecido estava lá dentro.
Não se vê ali qualquer aparência do exercício da Religião Cristã entre os Chineses, excepto em alguns poucos, que a abraçam mais por necessidade do que por uma verdadeira piedade. Nós também não ousamos fazer nada para os instruir ou para os atrair à nossa santa Fé, porque os Mandarins colocariam imediatamente um obstáculo invencível; além de que o Imperador não permite aos Europeus exercerem ali qualquer função de Missionários, sob pena de serem banidos de Macau. É isto que torna esta Cidade um lugar de passagem mais do que de Missão: pois, sendo o único local onde os Europeus podem residir livremente com os Chineses, é de lá que os Missionários de todas as Nações se espalham em seguida por toda a China, pelo Tonquim, pela Cochinchina e pelos outros Reinos vizinhos. Veem-se ali Religiosos de diversas Ordens: há Jesuítas, Jacobinos [Dominicanos], Agostinhos e Cordelários [Franciscanos], que têm ali, cada um, o seu Convento; mas estes dois últimos são compostos apenas por dois ou três Religiosos cada um.

Continuação da descrição de Macau.
Há em Macau cinco casas religiosas, a saber: um Convento da nossa Ordem, onde se costuma manter regularmente dois ou três Religiosos, sendo um o Vigário, que cuida da casa, e o outro ou os outros dois são idosos ou Religiosos que, pelas suas enfermidades, já não estão em condições de prestar serviço nas Missões, nem de cumprir as outras funções da nossa Ordem naqueles países; o Convento de Agostinhos, que mantém dois ou três [religiosos]: um Colégio de Jesuítas, que é o mais numeroso de todos: e, por fim, um Mosteiro de Religiosas de Santa Clara. 
O Vigário do nosso Convento, na época em que lá chegámos, era o Padre Sebastião de Santo António, homem de pouca ciência, e que fora feito Vigário por conta de Diogo do Pinho Teixeira, atualmente Capitão-Geral de Macau, que o trouxe de Goa como seu amigo particular, tendo sido criados juntos no Noviciado de Goa, onde este Oficial havia tomado o hábito da nossa Ordem, fosse por devoção ou verdadeiramente com o intuito de ser Religioso: o que não aprofundámos. Ele obteve o cargo de Capitão-Geral de Macau do Vice-Rei de Goa, a pedido do Padre Francisco Pinto, Jesuíta, Provincial do Japão, residente em Macau, como consta de uma carta desse Vice-Rei escrita ao Padre Pinto, entregue por este Padre ao Senhor Patriarca, e da qual temos uma cópia. Esta razão fez com que o Padre Sebastião formasse falsas impressões sobre os assuntos do Senhor Patriarca, ligando-se ao partido do Capitão-Geral e dos Jesuítas e, tal como eles, não quis de modo algum reconhecer o Senhor Patriarca: embora toda a nossa Ordem nas Índias defendesse, e ainda defenda, a sua jurisdição. No mês de julho do mesmo ano, o Padre Pedro de Amaral veio de Goa para Macau, para suceder ao Padre Sebastião no cargo de Vigário e de Visitador do nosso Convento Ele tinha talentos muito superiores aos do seu predecessor, e a conduta que manteve manifestou a sua virtude a todo o mundo, como se verá na continuação desta Relação. O domínio imediato de Macau pertence ao Rei de Portugal, e dele dependem absolutamente todos os outros habitantes, exceto os Chineses que dependem, como já observámos, do Imperador da China. Sua Majestade Portuguesa mantém na cidade uma guarnição composta por poucos soldados, sob um Governador que tem o título de Capitão-Geral. Os Portugueses não deixam de estar expostos a grandes vexames e a grandes injustiças por parte dos Mandarins Chineses, que estão sempre ávidos de dinheiro e que o querem obter a qualquer preço; e estes vexames são tais que, se os sofressem cristãmente, adquiririam um grande mérito diante de Deus e diante da Igreja, ao conservarem com tanto sofrimento esta cidade, que é a porta, não apenas para a Missão da China, mas também para várias outras. Mas eles adquirem apenas poucos méritos, conservando-a somente por motivos puramente humanos, e tornando-se frequentemente os perseguidores dos Missionários, em vez de serem o seu refúgio e apoio."
Igreja e Convento S. Domingos ca. 1900
Foto de Man Foc/Man Took/Man Fook 

Nota: O Convento de S. Domingos - demolido no início do séc. 20 - estava anexado à igreja com o mesmo nome - que ainda existe - fundada em 1587 sendo a primeira igreja construída pela Ordem dos Dominicanos na China.