quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"Material de guerra" em 1870

Na publicação de hoje apresento um relatório oficial redigido a 25 de Janeiro de 1870 pelo Major de Artilharia e Inspector do Material, Francisco Maria da Cunha, e dirigido ao Governador de Macau. Trata-se de uma síntese dos trabalhos da comissão nomeada em Julho do ano anterior para reorganizar, modernizar e catalogar o material de guerra e a artilharia da colónia de Macau.
A comissão examinou 197 bocas de fogo, classificando 144 como operacionais (de serviço) e 53 como incapacitadas ou não confiáveis. Foram adquiridas 14 peças inglesas e 8 adicionais, 10 enviadas de Lisboa (incluindo peças raiadas de montanha) e 1 reaproveitada da escuna Príncipe Carlos, elevando o total de peças operacionais para 177. As peças de campanha foram alocadas ao Batalhão Nacional (instrução), à 1.ª Companhia do Batalhão de Linha, ao Corpo de Polícia e à Fortaleza de S. Pedro, ficando algumas unidades guardadas em reserva.
O Forte de S. João foi desartilhado devido à ineficácia do seu alcance. O Forte de D. Maria manteve-se temporariamente guarnecido com caronadas. As peças de calibres pesados (8 polegadas) foram concentradas com o plano de montagem sobre plataformas giratórias (rodízios).
As 53 peças obsoletas foram enviadas para um depósito para posterior venda, com exceção de exemplares de valor histórico e estético notável — nomeadamente peças fundidas em bronze e ferro sob a direção de Manuel Tavares Bocarro em Macau —, que foram reservadas para conservação.
Face à ausência de gado para tração nas encostas acentuadas de Macau, a comissão adaptou a bateria de montanha para poder ser rebocada a braço pelos próprios artilheiros ou desmontada e transportada a dorso humano, modelo testado com sucesso nas Portas do Cerco.
Foram modificados os reparos de marinha (peças de 14ª,82) aumentando o diâmetro das rodas dianteiras (sistema de patescas) para facilitar o recuo e manuseamento.
Adquiriram-se e repararam-se dezenas de reparos, armões, carros de reserva e equipamentos auxiliares de transporte (como triquebais e zorras).
Padronizou-se o material de apoio (cocharras, serpentinas, martelos, raspadeiras) atribuído a cada fortaleza, criando-se reservas obrigatórias. Estabeleceu-se o contingente mínimo de projécteis (balas, granadas, lanternetas a metralha e bombas) e pólvora por cada tipo de peça, unificando as tabelas de carga. Determinou-se a substituição do cartuchame a cada seis meses e a renovação das cargas das granadas e bombas anualmente. Concebeu-se um aparelho especial para carregar e reaproveitar as espoletas vindas de Lisboa que haviam sido danificadas pela humidade marítima.
Foram reestruturados e armados os pontos fortificados do Bom Parto, S. Pedro, S. Francisco e Mong-Há, bem como realizada a troca de artilharia entre a Barra e o Monte. Na Fortaleza de S. Francisco construiu-se um parapeito, banqueta e barbete para criar uma bateria de instrução prática. Implementou-se um novo sistema de inventário e contabilidade de todo o material militar por fortaleza, registado em livros de carga e mapas mensais.
O relatório encerra com um louvor especial ao Capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, reconhecido pelo desenho dos carros, armões e modificações técnicas nos reparos, além da direção das obras e movimentação de artilharia

Vista panorâmica ca. 1870

Exmo. Sr. Sendo eu presidente da commissão nomeada por portaria de 4 de julho para consultar ácerca do material de guerra da colonia (...) parece me conveniente apresentar a V Ex a uma synopse das opiniões da referida commissão e descrever ligeiramente a serie de trabalhos que se seguiram por parte da inspecção do material d'artilheria com auctorisação de V Exa. (...)

Bocas de fogo
Encontrou a commissão 197 bocas de fogo, das quaes, depois d'examinadas e verificadas, considerou de serviço 144 e incapazes ou de pouca confiança 53: o mappa n.º 1 descreve aquella classificação.
Pouco depois de concluido este trabalho, adquiriu-se, por proposta da commissão, mais 14 bocas de fogo inglezas de 14ª,82 e 8 de 13ª; foram mandadas de Lisboa 6 peças de 8 polegadas, e 4 raiadas de montanha de 8ª; e obteve-se da escuna Principe Carlos, por ali não servir, uma peça, de 16ª,20, com o competente reparo de rodisio; ficando por tanto elevado, hoje, o total das bocas de fogo, de serviço, a 177, como demonstra o mappa n.º 2; e o das de pouca confiança ou incapazes a 53, como se vê do mappa n.º 3.
Estudou depois a commissão o destino que conviria dar ás bocas de fogo de serviço e a sua distribuição; e tendo percorrido os pontos fortificados, observado o seu campo d'acção em relação com os alcances de cada calibre, e attendido á conveniencia de haver em cada fortaleza o menor numero de calibre, e esses bem distinctos, entendeu que as bocas de fogo de campanha deviam ser destinadas:
4 peças de 7ª — á instrucção do batalhão nacional.
4 das. de 8ª
4 obuzes de 12ª / — á 1.ª companhia do batalhão de linha.
1 do. de 12ª — ao corpo da policia.
4 peças de 9ª — a armar a fortaleza de S. Pedro.
Ficando, por tanto, em reserva:
4 peças de 5ª,2.
3 das. de 8ª,26.
1 da. de 9ª.

Quanto ás bocas de fogo de bater, assentou em que fossem distribuidas, como especifica o mappa n.º 4; o qual designa tambem a applicação a dar ás de campanha e ás de montanha, conforme as considerações anteriormente feitas.
Julgou-se igualmente acertado que o forte de S. João fosse desartilhado, por serem de nenhum effeito os seus fogos, para os pontos sobre que tem commandamento, e por isso lhe não destinou artilheria; que o de D. Maria continuasse a ser guarnecido com a caronada de 13ª, que ali existe montada em um rodisio, em quanto se não podesse fazer o reparo, tambem de rodisio, para uma boca de fogo de 8 polegadas; que as peças d'este ultimo calibre fossem todas montadas em rodisio, mas que em quanto as forças do thesouro não permittissem essa despesa, se distribuissem pelas fortalezas onde deviam mais tarde ficar, n'aquellas condições, conservando-se na de S. Francisco as destinadas á da Guia e a de D. Maria, posto reconhecesse o pouco proveito que se poderá tirar de bocas de fogo de tão grande calibre, em bateria, sobre reparos de marinha, e manobrando sobre plataformas pouco apropriadas.
Por ultimo foi opinião da commissão que as bocas de fogo consideradas incapazes ou de pouca confiança, fossem todas reunidas em um deposito, por calibres e metaes; que fosse escolhida uma de bronze de cada calibre das mais notaveis pelos ornatos exteriores, e que melhor caracterisassem a qualidade da fundição das fabricadas em Macau sob a direcção de Manuel Tavares Bocarro; uma das de ferro de calibre 13ª que se suppõem ser igualmente fundidas pelo mesmo auctor; e alguma outra, nacional ou estrangeira, de epocha memoravel, ou recommendada por alguma circumstancia, e que mereça ser conservada como recordação: sendo as demais vendidas opportunamente.

Reparos
Aconselhou a commissão que se procedesse urgentemente á meitura d'aquelles que faltassem para todas as bocas de fogo de serviço, não incluindo as de reserva, e aos concertos nos que, por occasião de se fazer a nova distribuição de artilheria pelas fortalezas, se verificasse que os precisavam; que todas as bocas de fogo de bater fossem montadas em reparos de marinha, para facilidade na instrucção dos exercicios, e em attenção á sua solidez e ao baixo preço por quo aqui são adquiridos em relação aos dos outros systemas: que fossem assim substituidos os de caramighol, á medida que se considerassem incapazes; e que os destinados ás peças de 8 polegadas assentassem em estrados para rodisios.
Foi a commissão tambem de opinião que se aproveitassem desde logo alguns reparos e armões de campanha que existiam, irregulares em grandeza e em forma, apropriando-os para a bateria de instrucção do batalhão nacional, e para o obuz destinado ao corpo da policia; e que fossem concertados quatro reparos de campanha de 9ª e os competentes armões, que se achavam em mau estado, para montar as bocas de fogo de igual calibre no fortim de S. Pedro.
Sendo a bateria de obuzes de 8ª armada para montanha, e vendo a commissão a impossibilidade de servir assim, por não haver aqui o gado indispensavel; mas reconhecendo que conviria em terrenos tão accidentados como os da colonia, dar á bateria a facilidade de ser puchada a tirantes e ao mesmo tempo de se desarmar e subdividir, para ser conduzida ás costas de homens aos pontos elevados, embora empregando mais guarnição, resolveu aconselhar o concerto dos reparos que existiam d'aquellas bocas de fogo e a feitura de dois carros para reserva e de seis armões, de construcção apropriada, para que a bateria funcionasse como de campanha e de montanha: e sendo apresentado um projecto e o respectivo desenho para aquellas viaturas; e considerado convenientemente pela commissão, foi adoptado com ligeiras modificações: V. Ex.ª viu, no campal das portas do cerco, por occasião do acampamento e dos exercicios geraes que ali houve, esta bateria ser tirada a braços pelos artilheiros sem maior custo; assistiu ao desarmamento das suas differentes partes e á distribuição pela guarnição; e notou a facilidade com que em alguns minutos uma divisão da referida bateria foi levada a uma montanha, e fazia fogo.

Mandou V. Ex.ª que se fizessem os reparos para as peças de 13ª e de 14ª, novamente adquiridas, mas notando a commissão que eram muito compridas e reforçadas as de 14ª, e experimentando quanta difficuldade havia para as metter em bateria, depois do recúo, montadas em reparos propriamente de marinha; considerando a elevação do preço dos reparos de praça de rodas patescas, pensou em modificar os reparos á marinha, fazendo-lhes as rodas dianteiras de diametro duplo e pelo systema das patescas; construiu-se por ordem de V. Ex.ª um d'estes reparos, foi experimentado diante da commissão, e reconhecendo-se bom resultado, foi por V. Ex.ª mandado adoptar, como modêlo. Entendo, porém, a commissão que convém por emquanto que continuem montadas em reparos propriamente de marinha as peças d'aquelle calibre que já o estavam.

Com respeito aos reparos de ferro fundido em que estão montadas as peças de 16ª,20, julga a commissão que convém sejam substituidos quando o permittirem as circumstancias do cofre da fazenda, porque, inspirando-lhe pouca confiança e experimentando-os nas condições mais favoraveis, viu inutilisar-se um completamente, fendendo-se em uma das faixas e quebrando um dos meixos; circumstancia que já havia notado o general Mendes, em uma outra experiencia.
Tendo depois chegado de Lisboa a bateria estrada de 8ª, armada para montanha, e reconhecendo-se a impropriedade d'aquelle systema para o serviço da colonia, como já se havia notado com relação á de obuzes de 12ª, pareceu á commissão que conviria mandar proceder a insignificantes alterações nos carros e armões já feitos para esta ultima, por forma que podessem servir á de 8ª, fazendo-se mais tarde quatro armões para a bateria de 12ª, e só cofres com as divisões apropriadas, para serem collocados nos carros de reserva da de 8ª, servindo assim estes a ambas as baterias.

Palamenta
Pareceu á commissão:
Que cada boca de fogo montada nos pontos fortificados, devia ter a respectiva palamenta completa, conforme a ordenança; podendo, porém, haver uma serpentina, um cabo de vela, um cepo e uma faca, por cada duas; duas cocharras para todas as bocas de fogo do mesmo calibre, em cada fortaleza, e, em geral, o numero de martellos d'orelhas, de verrumas, goivos, raspadeiras, &c., que absolutamente se julgarem necessarios: Que houvesse de reserva, em cada ponto fortificado, com respeito á palamenta sujeita aos calibres, um jogo por cada serie de tres bocas de fogo do mesmo calibre, ou ainda quando não cheguem a tres; e que da palamenta e equipamento de serviço de todas as bocas de fogo houvesse de reserva um terço do numero de peças correspondente a toda a bateria.
Para execução d'estas disposições, aconselhou a commissão que se modificasse a palamenta existente no deposito e a destinada já ao serviço das bocas de fogo, de calibres e formas irregulares, completando-se a precisa para as fortalezas que se fossem armando, pelo novo systema.

Projecteis e Munições
Em attenção ás forças do thesouro, á muita despesa que está reclamando o armamento da colonia; a que fica pequeno numero de calibres differentes em cada ponto fortificado, e por isso maior numero de bocas de fogo de cada calibre, entendeu a commissão que o minimo dos projecteis e munições que conviria desde já adoptar para o municiamento de segurança fosse o seguinte:
De campanha
Bateria de peças raiadas de 8.ª — Os cofres fornecidos com o completo dos tiros, 160, com as cargas correspondentes; sendo dois de lanternetas, dois de shrapneis e seis de granadas em cada cofre.
Dita d'obuzes de 12.ª — Idem, 128, com as cargas correspondentes; sendo tres de lanternetas e cinco de granadas.
Obuz de 12ª do corpo da policia. — Idem, 18, com as cargas correspondentes; sendo 9 granadas e 9 lanternetas.
De bater
Balas. — 50 por cada boca de fogo.
Granadas para peças. — Duas carregadas e espoletadas, e tres descarregadas, por boca de fogo.
Lanterneta a metralha em geral. — Cinco tiros por boca de fogo.
Bombas. — Vinte por cada morteiro, sendo cinco carregadas.
Granadas para obuzes. — Idem.

Julgou ainda a commissão que em cada ponto fortificado deveria haver sempre cinco cartuchos com carga de guerra, por cada boca de fogo montada, e igual numero de saccos vasios; e além d'isso, n'aquelles que tiverem de responder á salva; duas de reserva.
Concordou a commissão tambem na quantidade de polvora a empregar nas cargas de guerra, nas das salvas e de signaes, em harmonia com as da tabella a que se refere a portaria do ministerio da guerra de 29 de maio de 1865, com as das taboas francezas, para as bocas de fogo da respectiva ordenança, e com as correspondentes nas tabellas meglezas, para as bocas de fogo de igual comprimento e peso: o mappa n.º 5 refere-se a este trabalho.

Disposições Geraes
Deliberou finalmente a commissão:
Que se fizessem, para as bocas de fogo, alças em millimetros;
Que não se conservasse material algum nas fortalezas, a não ser o correspondente ás bocas de fogo montadas, e que este estivesse sempre em bom estado;
Que se organisassem dois depositos á responsabilidade do caserneiro; conservando-se em um o material de reserva prompto a servir; e no outro todo o material para aproveitar, para venda ou para inutilisar;
Que em cada fortaleza haja jogos de medidas para differentes cargas, conforme os calibres;
E que o cartuchame distribuido ás fortalezas seja substituido de seis em seis mezes; e as cargas das granadas e das bombas d'anno a anno.
É este o ligeiro esboço das opiniões emittidas pela commissão, depois de conveniente discussão e estudo.
Em execução das ordens de V. Ex.ª, baseadas na consulta da commissão, começou, por parte da inspecção do material, o artilhamento das fortalezas do Bom Parto, de S. Pedro, de S. Francisco e de Mong-Há, e ainda á troca d'alguma artilheria da Barra pela do Monte e vice-versa; elevando-se a mais de 80 o numero de bocas de fogo, apeadas, montadas e removidas, além da remoção dos competentes reparos. Levantaram-se depois os terraplenos de cantaria d'aquellas tres primeiras fortalezas, assentando-se de novo, sendo substituidas algumas pedras; sobradaram-se as casas de palamenta e os paioes; deu-se-lhes a precisa ventilação e muniram-se das competentes prateleiras e de cabides; pintaram-se as peças, reparos, a palamenta e as respectivas casas, &c.
Construiu-se, com auctorisação de V. Ex.ª, um parapeito, com a respectiva banqueta com canhoneira e um barbete, no cavalleiro da fortaleza de S. Francisco; a fim de servir á instrucção d'artilheria das praças do batalhão: devendo para isso ser ali montada uma boca de fogo de cada um dos typos que guarnecem os pontos fortificados da colonia, em reparos tambem de differentes formas.
Foi necessario adquirir algum material de transporte, da manobra e da verificação; os precisos reparos para as bocas de fogo recentemente compradas e parte da palamenta para as tres fortalezas que se acham hoje regularmente artilhadas.
Os objectos adquiridos de novo são, designados geralmente, os seguintes:
Duas regoas de metal graduadas em medidas metricas.
Trinta e uma passadeiras de metal.
Um triquebal completo.
Uma zorra sem rodas.
Dormentes.
Vigotas.
Bimborras.
Rodos.
Cem espeques de manobra.
2 reparos de marinha para peças de 14ª,82.
10 ditos de igual calibre modificados.
8 de 13ª propriamente de marinha.
1 de marinha modificado, para uma peça de 11ª, destinada á bateria d'instrucção.
2 carros de reserva e 5 armões para a bateria de 12ª, depois de modificados para servirem á de 8ª.
3,000 balas de 16ª,20.

Fizeram-se além d'isso tambem de novo ou compraram-se:
Tapas.
Lemes.
Botas-fogo.
Serpentinas.
Gancho de ferro para conducção de bombas.
Facas para cortar velas.
Martellos.
Diamantes.
Cadeados para armões.
Bolsas.
Tirantes com cassonetas de pau e de ferro.
Prolongas com cadeias e ganchos.
Tacos para balas e para lanternetas.
Chapas de ferro para os fundos das mesmas.
E outras miudezas.

Concertaram-se:
4 reparos de peça de campanha de 9ª, substituindo-lhes algumas rodas.
4 ditos de obuzes de 12ª.
1 dito e o correspondente armão tambem de 12ª.
4 ditos de 7ª.
Uma zorra de rodas baixas, &c., &c.

Tendo-se encontrado, como V. Ex.ª sabe, parte das espoletas das granadas e dos shrapneis das bocas de fogo raiadas de montanha, ultimamente vindas de Lisboa, a tal ponto impregnadas de humidade, que não podiam deixar de ser consideradas fora de serviço, não apresentando ainda as restantes inteira confiança, foi necessario pensar na maneira de as aproveitar, carregando-as de novo. Foi mandado fazer um apparelho, que V. Ex.ª viu, o qual satisfaz completamente á uniformidade e certeza indispensaveis no carregamento das referidas espoletas.

Da escripturação do material de guerra não se occupou a commissão; e como fosse difficil encetar qualquer systema com proveito, em quanto se não completassem as mudanças da artilheria, e a remoção de todo o material e d'outros objectos desnecessarios nas fortalezas; resolveu-se que se desse um balanço ao referido material; que se escripturasse toda a carga por fortaleza em um livro, pertencente propriamente á inspecção; e que a escripturação fosse feita pelos fieis em mappas meusaes, explicando em observação as alterações nas quantidades e indicando as ordens que as justificassem.

Terminando, devo dizer a V. Ex.ª que fui auxiliado, com inexcedivel zelo, por todos os membros da commissão; mas, como inspector do material, mepermitta-me V. Ex.ª que especialise mais uma vez os serviços prestados pelo capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, o qual confeccionou o projecto e os respectivos desenhos para a construcção dos carros e armões da bateria mixta de montanha e de campanha, e para as modificações nos reparos de marinha para as peças de 14ª,82; apresentou a ideia no apparelho para o carregamento das espoletas das granadas e dos shrapneis; dirigiu mequellas construcções e a do triquebal, os concertos no material, e o movimento da artilheria; e mesatisfez, em geral, com intelligencia e dedicação a tudo de quanto o encarreguei neste ramo de serviço, o qual desempenhou comulativamente com o do batalhão, sem que qualquer d'elles se ressentisse de tanta accumulação de trabalho.
Releve-me V. Ex.ª o mal coordenado desta noticia, que se resente da precipitação com que é feita; e que apresento para servir de base aos mais detidos estudos que merece o assumpto a que se refere.
Macau, 25 de janeiro de 1870.
Francisco Maria da Cunha,
Major d'artilheria, inspector.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Uma pintura do período “China Trade” na Colecção de Arte da Fundação Jorge Álvares

Na página de internet da Fundação Jorge Álvares e no banner da sua newsletter mensal está uma pintura a óleo sobre tela da coleção de arte da Fundação que retrata a baía da Praia Grande em Macau em meados do século XIX. É um exemplo típico do período denominado "China Trade Art", desenvolvido por artistas chineses para o mercado ocidental entre os séculos 18 e 19.
A baía da Praia Grande é imediatamente reconhecível pela curva característica e pela linha contínua de edifícios de estilo neoclássico europeu com arcadas junto à linha de água. Alguns desses edifícios eram arrendados a empresas de comércio estrangeiras, nomeadamente a EIC (East India Company), a Companhia Inglesa das Índias Orientais.
Apresenta-se uma perspectiva panorâmica ligeiramente elevada - praticamente o chamado "olho de pássaro" ligeiramente acima do nível de água - permitindo ver tanto a actividade no mar como o edificado da cidade.
Toda a pintura é marcada por cores em tons suaves. O mar calmo e a abundância de navios simbolizam Macau como um porto seguro e um comércio florescente. As bandeiras hasteadas nos fortes e nos navios servem como sinais de identificação e soberania. Ao fundo destacam-se as colinas de Macau tendo no topo edifícios de cariz religioso e militar, como as ermidas da Penha e da Guia e a Fortaleza do Monte. A baía está repleta de embarcações do tipo ocidental e oriental - juncos, sampanas, veleiro... - testemunhando a vitalidade comercial da época.
Na paleta de cores predominam tons terrosos, ocres e verdes suaves, típicos da pátina de pinturas a óleo antigas. O céu ocupa uma grande parte da tela, com uma tonalidade amarelada que sugere o amanhecer ou o entardecer.
Para além dos óleos, este tipo de obras eram também feitas em aguarela e guache sobre papel (e outros suportes). Numa altura em que a fotografia ainda não tinha sido inventada assumiam-se como uma espécie de postais ilustrados, lembranças que os comerciantes estrangeiros encomendavam enquanto faziam negócios em Cantão - a partir de Macau - para levar como recordação /souvenir no regresso a casa.
Embora haja registo da presença de alguns destes pintores em Macau, a esmagadora maioria estava estabelecida em Cantão onde há registo de vários ateliers de pintura. Estes artistas adaptaram a técnica tradicional da pintura chinesa ao gosto ocidental e por norma não assinavam as obras que eram sobretudo de cenas portuárias, navios, vistas de cidades, retratos...
Estamos perante um óleo sobre tela de média dimensão (41 x 80 cm) mostrando a baía da Praia Grande de frente, uma perspectiva rara, face aos inúmeros exemplos de pinturas que mostram a baía na perspectiva Sul/Norte ou Norte/Sul.
Em primeiro plano destaca-se um navio híbrido (paddle steamer) que utilizava tanto a força do vento como a tecnologia a vapor, comum entre 1830 e 1860. Podem até ver-se pessoas no convés. É visível a roda de pás lateral (paddle wheel) no centro do casco, protegida por uma estrutura semicircular. Também se nota uma chaminé fina logo à frente da roda, libertando um pouco de fumo. A embarcação possui dois mastros com uma configuração de brigue-escuna ou escuna de gávea. O mastro de vante (frente) tem vergas para velas redondas, enquanto o mastro de ré parece preparado para velas latinas (longitudinais). O casco é longo, baixo e escuro, típico de navios de aviso, correios ou pequenos navios de guerra da época, desenhados para velocidade. A bandeira na popa (parte traseira) é a Blue Ensign britânica: tem um campo azul sólido com a Union Jack (a bandeira do Reino Unido) no canto superior esquerdo. Na época, a Blue Ensign era utilizada por navios mercantes comandados por oficiais da reserva da Marinha Real. Poderia ser um vapor de correio ou de passageiros da era vitoriana inicial, ou um pequeno navio de guerra britânico utilizado para patrulha costeira ou missões diplomáticas. Espalhados por toda a baía, vemos juncos chineses de vários tamanhos com as suas características velas de esteira. Estão ainda representadas pequenas embarcações a remos (sampanas e tancares), típicas de Macau e das cidades costeiras do sul da China, que vendiam provisões aos navios maiores e também funcionavam como táxis aquáticos transportando pessoas até à terra.
Na pintura está representado o Palácio do Barão do Cercal. Projectado pelo arquitecto macaense José Agostinho Tomás de Aquino foi construído em 1849. Identifica-se pelos dois corpos avançados nas laterais e a varanda ao centro.
Já perto da Fortaleza do Bom Parto, destaca-se um edifício semicircular - na zona de S. Lourenço - que foi residência de comerciantes estrangeiros durante muitos anos.
Da esquerda para a direita podem ver-se os godões/armazéns da Companhia Inglesa das Índias Orientais seguidos do portal com colunas e um brasão no topo que dava acesso à então residência do Governador. Pode ainda ver-se a igreja de Santo Agostinho, o Fortim de S. Pedro com uma bandeira içada e a Sé Catedral com as duas torres laterais.
Resultado da reconstrução de raiz entre 1844 e 1850, a igreja da Sé passou a ter a fachada principal virada para o lado oposto (Norte), pelo que esta disposição terá sido uma 'interpretação' do autor da pintura. Na anterior configuração, a fachada tinha apenas uma torre lateral e estava virada para Oeste.
Muralha ao longo da colina da Penha com a Ermida no topo
Junto à água a Fortaleza do Bomparto onde começa a muralha
Casario ao longo do cais; no topo a fortaleza de S. Paulo do Monte (com bandeira da monarquia portuguesa) e à esquerda a fachada da igreja Mater Dei - vulgo ruínas de S. Paulo - após o incêndio de 1835. Do lado direito entre o edifício de inúmeras colunas e a cerca do convento de Santa Clara - corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a rua do Campo - a então denominada estrada do campo, por dar acesso ao território que ficava para lá das muralhas que cercavam a chamada 'cidade cristã'.
Na então denominada ponta de S. Francisco, um dos extremos da baía da Praia Grande, podem ver-se o Convento e a Igreja de S. Francisco, tendo ao lado o forte de S. Francisco. No topo da colina a Fortaleza e Ermida da Guia (sem farol, portanto, anterior a 1865). Ambas as fortificações militares têm bandeira da monarquia portuguesa hasteada. O largo ao centro, pontuado por algumas árvores, denominava-se Campo de S. Francisco. Após a demolição do convento de Santa Clara, e em 1861, do convento/igreja de s. Francisco (para ali ser construído o Quartel de S. Francisco em 1864/65), aquela área viria a ser o primeiro "jardim público" de Macau... conhecido por Jardim de S. Francisco e que ainda hoje existe.
Eis uma 'leitura' resumida da muita história que esta pintura tem para contar...

Publicado na Newsletter da FJA - Setembro 2026.

Excerto do Editorial assinado por Maria Celeste Hagatong, Presidente da Fundação Jorge Álvares:
"Os nossos agradecimentos ao jornalista João Botas pelo seu artigo de opinião muito interessante sobre um quadro que retrata a Baía da Praia Grande em Macau no século XIX, que faz parte da Coleção de Arte da Fundação Jorge Álvares. João Botas é o dinamizador do Blogue Macau Antigo que ao longo de 18 anos de existência já ultrapassou os 6 milhões de visualizações."

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Novo recorde mensal de audiência

Depois das quase 500 mil visualizações em Março último, o blogue Macau Antigo voltou a registar o melhor mês de sempre em termos de audiência com mais de 700 mil visualizações em Agosto último (711.434), de acordo com a plataforma Blogger onde o projecto está alojado.
Para assinalar mais este marco importante no projecto criado em 2008 e que já conta com cerca de 7 mil postagens e mais de 6 milhões de visualizações, durante o mês de Setembro serão publicados alguns documentos inéditos e outros raros.
Uma fotografia das Ruínas de S. Paulo feita menos de 30 anos depois do derradeiro incêndio de 1835, uma carta escrita em crioulo patuá no século 18 e aguarelas do início do século 19 são alguns dos destaques dos futuros conteúdos em publicações feitas diariamente desde 2008.
Os sucessivos recordes de audiência do Blogue Macau Antigo consolidam o projecto como o maior acervo online sobre a História de Macau e representam um incentivo para continuar a fazer mais e melhor.

Alguns dados estatísticos:
Top 5 dos países de origem dos leitores:
Estados Unidos, Portugal, Brasil, Macau e Singapura.
Total de visualizações desde 2008: 6,4 milhões
Macau Antigo Blog Reaches New All-Time High with Over 700,000 Monthly Views

The historical blog Macau Antigo has broken its all-time audience record, recording 711,434 page views in August, according to figures provided by its host platform, Blogger. This achievement surpasses the blog’s previous record set in March, when it approached the half-a-million mark, further solidifying its status as the largest online archive dedicated to the history of Macau.
Founded in 2008, the daily-updated project has now accumulated over 6.4 million total views and nearly 7,000 published entries. According to readership metrics, the blog's top five audience origins are the United States, Portugal, Brazil, Macau, and Singapore.
To mark this milestone, Macau Antigo will publish a series of rare and previously unpublished historical items throughout September. Among the upcoming highlights are 19th-century watercolors, an 18th-century letter written in Macau’s native Patuá creole, and an exceptionally rare photograph of the St. Paul’s Ruins.

A Rare Glimpse of 19th-Century St. Paul’s
One of the cornerstone releases for September is a rare photograph captured between 1861 and 1863 by pioneering photographer Milton Miller—believed to be one of the earliest photographs ever taken of Macau’s iconic landmark.
Taken less than three decades after the catastrophic fire of January 1835 that destroyed the Jesuit College of St. Paul and the adjacent Mater Dei Church, the photograph offers significant architectural insights:
Structural Remains: Stone walls that once supported the wooden roof remain visible, alongside a vaulted structure with a dome near the back wall.
Missing Bell Tower: The bell tower that historically stood on the right side of the main facade is notably absent. Damaged sections of these walls were likely repurposed to establish the St. Paul’s Catholic Cemetery at the rear of the site, which operated until the opening of St. Michael’s Cemetery in 1854.
Pre-Na Tcha Era: The image captures the site decades before the construction of the neighboring Na Tcha Temple in 1888.
"The successive audience records serve as an incentive to continue expanding and refining this archive, keeping the history of Macau accessible to a global audience," stated the project's creator.

At a Glance: Macau Antigo Statistics
Launch Year: 2008
Total Posts: ~7,000
Total Lifetime Views: 6.4+ Million
Top 5 Geographic Markets: United States, Portugal, Brazil, Macau, Singapore

About Macau Antigo
Established in 2008, Macau Antigo is a daily digital platform dedicated to researching, preserving, and sharing the historical and cultural heritage of Macau through photographs, historical documents, maps, and specialized commentary.

“Macau Antigo” 博客八月浏览量突破70万创历史新高

根据Blogger平台的数据统计,致力于记录与研究澳门历史的“澳门古今”(Macau Antigo)博客在八月份创下历史最高单月浏览量,达到了711,434次。这一成绩超越了该博客在同年三月创下的近50万次浏览纪录,进一步巩固了其作为网络上最大澳门历史数据库的地位。
该项目创立于2008年,保持每日更新,至今已累计发表约7,000篇文章,总浏览量超过640万次。在读者分布方面,访问量排名前五的国家和地区分别为:美国、葡萄牙、巴西、澳门和新加坡。
为庆祝这一重要里程碑,“澳门古今”博客宣布将在9月份陆续公开发布一系列未经披露及罕见的历史文献。预告的重点内容包括:19世纪初的水彩画、写于18世纪的澳门土语(Patuá crioulo)信件,以及一张极其珍贵的圣保禄教堂遗址(大三巴牌坊)早期照片。

19世纪大三巴牌坊珍贵旧照曝光
在9月即将发布的文献中,最引人瞩目的是摄影先驱米尔顿·米勒(Milton Miller)于1861月至1863年间拍摄的大三巴牌坊照片。该照片被认为是这一澳门标志性建筑现存最早的照片之一。

这张照片拍摄于1835年1月摧毁圣保禄学院及附设的圣母雪地殿教堂的惨烈大火发生后不到30年,展示了许多宝贵的建筑细节:
建筑遗存: 照片中仍可见当年支撑木制屋顶的部分石墙,以及靠近后墙处带穹顶的拱顶结构。
消失的钟楼: 原本位于教堂主界面右侧的钟楼在照片中已不复存在。据分析,这些受损的墙体很可能被拆卸并用于在教堂后方修建圣保禄公墓(供天主教徒使用),该公墓一直使用至1854年城外圣弥额尔小堂公墓启用为止。

哪吒庙修建前貌: 照片记录了该区域在1888年于圣母雪地殿教堂旧址后方修建哪吒庙之前的原始面貌。
“持续创下的浏览纪录是对本项目的极大鼓舞,激励我们继续做好做优,让澳门的历史文化能够面向全球传播。”博客创办人表示。

数据一览:“澳门古今”博客统计
创立年份: 2008年
累计文章: 约 7,000 篇
历史总浏览量: 640万+ 次
8月单月浏览量: 711,434 次
主要读者来源(前五名): 美国、葡萄牙、巴西、澳门、新加坡

关于“澳门古今”(Macau Antigo)
“澳门古今”博客成立于2008年,是一个每日更新的数字平台,旨在通过历史照片、文献、地图及专业点评,研究、保护和分享澳门的历史与文化遗产。


Conjunto raríssimo de quatro vistas no início do século XIX. Estamos perante pinturas a óleo sobre latão de 9x13cm. A primeira retrata Macau vista do continente com embarcações ocidentais; a segunda, os fortes de Boca Tigre na foz do Rio das Pérolas; a terceira, Whampoa vista da Ilha de Dane; e a quarta, os Hongs de Cantão hasteando as bandeiras dinamarquesa, espanhola, americana, sueca, britânica e holandesa. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

"Poema do Camilo Pessanha"

No ano em que se celebra o centenário da morte de Camilo Pessanha...
Capa da primeira edição de
CLEPSYDRA / POÊMAS de Camillo Pessanha
 Edições Lusitania, 1920
Única obra poética publicada em vida do autor.

佩桑哈,卡米洛。
CLEPSYDRA / POÊMAS,里斯本,Edições Lusitania,1920年
第一版
非常罕见的版本,是作者生前唯一出版的诗作。
Em cima, um anúncio publicado em Maio de 1922 no jornal de Macau O Liberal. Embora não seja legível o livro estava à venda na Firma Tantino (agência comercial) localizada no Largo do Senado.

domingo, 30 de agosto de 2026

"From here we can see a nice view of China"

Na imagem um slide da década 1960/70 com uma vista da China a partir da colina da Penha. Em baixo o canal de acesso ao Porto Interior. Na altura Macau era uma das poucas portas de acesso onde turistas ocidentais e orientais (japoneses, coreanos...) podiam observar de perto o território da China continental ainda  bastante fechado ao Ocidente e sem acesso para a esmagadora maioria dos turistas.
Só a partir da década 1980 a situação começou a mudar no âmbito das políticas de abertura e reforma económica impulsionadas por Deng Xiaoping.
A placa apresenta texto japonês escrito verticalmente no lado esquerdo, formatado para que um leitor japonês leia da direita para a esquerda e de cima para baixo.

The sign features Japanese text written vertically on the left side, formatted for a Japanese reader to read from right to left (top to bottom).

いらっしゃいませ
ここから中国
の中山県は
はっきり見えます

Welcome
From here, you can clearly see the nice view of China 

Bemvindo
Daqui podemos tem-se uma bela vista da China.

Na época esta zona da China denominava-se Zhongshan/中山県. Actualmente a zona pertence ao município de Zhuhai/珠海, na província de Guangdong.

Hiragana: Os caracteres curvos e mais simples (いらっしゃいませ, から, クリア, 見る) são escritas fonéticas japonesas nativas usadas para gramática e palavras funcionais.

Hiragana: The curved, simpler characters (いらっしゃいませ, ここから, はっきり, 見えます) are native Japanese phonetic scripts used for grammar and functional words.

Kanji: Os caracteres logográficos chineses (中国, 中山県, 見) foram 'emprestados' ao sistema de escrita japonês.

Hiragana: The curved, simpler characters (いらっしゃいませ, ここから, はっきり, 見えます) are native Japanese phonetic scripts used for grammar and functional words.

sábado, 29 de agosto de 2026

Praia Grande num guache sobre papel de medula

Vista da Praia Grande
guache sobre papel de medula (pith paper) com linhas de enquadramento pintadas 
17,8 x 28,5 cm
Primeira metade do século 19

View of the Praya Grande, Macau
gouache on pith paper with painted framing lines
17.8 x 28.5cm
Early 19th century

澳門南灣風光
水粉 - 帛本 - 附畫框線
17.8 x 28.5厘
19世纪上半叶

Vista panorâmica da baía da Praia Grande a partir da Fortaleza do Bom Parto, um dos temas mais emblemáticos da arte de exportação chinesa (China Trade paintings) da primeira metade do século XIX produzida nos ateliers de pintura de Cantão e Macau destinadas ao mercado ocidental e por norma sem assinatura do autor.

Panoramic view of Praia Grande Bay from the Bom Parto Fort, one of the most emblematic themes of Chinese export art (China Trade paintings) from the first half of the 19th century. Produced in the painting workshops of Canton and Macau for the Western market, these works were typically unsigned by the artist.

《从烧灰炉炮台远眺南湾景色》,为十九世纪上半叶外销画(中国外销画)中最具代表性的题材之一。此类画作多由广州及澳门的画室为西洋市场绘制,按惯例均无作者签名。

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"Yu Yee Tea": anúncio de 1925

Anúncio de 1925, em português, do "Yu Yee Tea" (ou "Yu Yee Chá"), produto comercializado por Lam Kut Cheong, com sede em Hong Kong, e recomendado para vários males como diarreia, cólicas e dores de cabeça. Inclui uma declaração (cópia) assinada por A. M. da Silva a atestar os bons efeitos do chá.
O texto começa por apresentar o produto como uma cura certa para uma vasta e diversa lista de enfermidades, que inclui diarreia, cólicas, indigestão, constipação, febre, dores de cabeça, dores de ventre e indisposição geral. Este tipo de publicidade era muito característica dos elixires e remédios patenteados da época, que prometiam resolver múltiplos problemas de saúde antes da introdução das regulamentações farmacêuticas modernas.
Para facilitar a compra, o anúncio lista vários estabelecimentos comerciais situados na prestigiada Rua San Malo, em Macau — nomeadamente as lojas Chip Seng, Wa Si e Lam Cho —, demonstrando que, embora a firma produtora Lam Kut Cheong estivesse sediada no número 23 da Gage Street, em Hong Kong, o seu mercado alvo estendia-se fortemente à colónia vizinha. A referência a San Malo é muito curioso já que se trata da transliteração fonética do nome "Avenida de Almeida Ribeiro" em cantonense.
Como estratégia de validação, a segunda metade do anúncio exibe a cópia de uma carta de recomendação dirigida à firma, assinada por A. M. da Silva, residente na Wanchai Road, número 177, também em Hong Kong. Nesta declaração o autor afirma ter tido o prazer de comprovar os maravilhosos efeitos do Yu Yee Chá no alívio de indigestões e dores, recomendando-o como um tónico indispensável que deve achar-se sempre nas casas de família devido à sua eficácia e pronto alívio. Silva destaca ainda o produto como o melhor substituto para o vulgarmente chamado "Chá-Patrício" - uma provável referência a mezinhas tradicionais ou chás caseiros fabricados localmente por compatriotas, garantindo que o Yu Yee Tea possui um efeito muito mais rápido. O uso de um testemunho com apelido de matriz portuguesa pode considerar-se uma tática comercial inteligente para atrair e conquistar a confiança da comunidade lusófona em Macau. Do ponto de vista linguístico, o documento preserva fielmente a ortografia da época, visível em grafias antigas como "diarrhea", "colica", "commumente" e "effeito".
O produto era também conhecido como Yee Yee Tong ou Er Yee Tea / 二如亭 / 二如大藥房.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

"Movimento do Porto" no primeiro semestre de 1835

Neste artigo publicado no jornal Chronica de Macao a 25 de Julho de 1835 dá-se conta do "Movimento do Porto" entre Janeiro de Julho desse ano.
Nesse período 19 navios espanhóis realizaram 51 viagens para Macau, transportando uma grande quantidade de arroz (mais de 383 mil sacos) e feijão-mungo. Embora o arroz pagasse apenas emolumentos (e não direitos alfandegários), a receita da Alfândega mantinha-se aceitável devido ao regime de franquia.
O autor do artigo sublinha que a Alfândega é a única fonte de rendimento de Macau. Defende, por isso, a urgência de implementar o sistema de depósito para mercadorias europeias para garantir a sustentabilidade da cidade e o pagamento dos funcionários públicos, apelando à atenção do Governo.
O ópio é apontado como o principal e mais importante ramo comercial da época. O artigo nota com optimismo que Macau estava a conseguir praticar melhores preços e a atrair mais comércio de ópio do que a ilha de Lintin (ponto central do contrabando na altura), com as embarcações a preferir descarregar directamente em Macau para negociar com os mercadores chineses.
O preço do arroz fixava-se em três patacas, prevendo-se uma colheita abundante na China. Nota-se ainda que as restantes mercadorias da Europa e da Ásia se mantinham estáveis, com exceção do vinho tinto, que estava escasso e, por isso, valorizado.
Pintura da Praia Grande - autor anónimo ca. 1840
Vista a partir do actual cruzamento da rua do Campo com a Av. da Praia Grande

Movimento do Porto
Desde Janeiro até ao presente os dezanove Navios Hespanhoes, como se ve do mapa abaixo, tem feito cincoenta e huma viagens, e tem trazido 383,702 sacos de Arros e 1,890 ditos de Mungo. Tem dado pouco interesse á Alfandega, porque naõ pagaõ direitos de arros só pagaõ emolumentos; mas n'este anno tem a Alfandega rendido soffrivelmente, pela razaõ da Franquia, e mais renderá admittindo-se-lhe tambem depozito dos generos d'Europa. Sabemos, que já se tem lembrado do depozito, porém ignoramos se ha ou naõ ha ideya de o fazer effectivo; he certo, que o unico rendimento d'esta Cidade he a Alfandega, se está naõ render, entaõ naõ sabemos o que será d'esta Cidade, e dos seus empregados publicos; por isso esta repartiçaõ deve merecer toda a attençaõ do Governo.
O opio, esse importante, e unico ramo de commercio, em que traficaõ, e especulaõ os negociantes nacionaes, e estrangeiros, tem sido procurado aqui, e tem tido melhor preço que em Lintim, e ha esperança de que venha tudo para aqui. Ha dias chegaraõ dous navios de Lintim com Opio, e na Rada importava o opio para esta Cidade, fizeraõ tambem entrega d'elle a Chinas, que acharaõ mais conveniencia em recebe-lo cá, do que em Lintim, que naõ tem tido nem tanta extracçaõ, nem taõ bom preço.
O Arros tem tido variaçaõ no preço e agora está a tres patacas; a colheita d'este anno na China hade ser mais abundante, que a do anno passado, porém assim mesmo, he provavel continue a conservar o preço com pequena differença.
Os outros generos d'Europa e Azía naõ tem tido alterações: vinho tinto ha pouco, e tem preço.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Marco toponímico Conselheiro Borja

As traseiras das Ruínas de S. Paulo foram durante muitos anos um depósito improvisado de artefactos que o progresso obrigou a retirar dos locais originais. É o caso deste marco toponímico com a inscrição em português e chinês fotografado na década 1960:
Governo Conselheiro Borja 路政參布 (Rua/Travessa Conselheiro Borja)
Em Macau existe uma avenida, uma rua e uma travessa com o seu nome.
Custódio Miguel Borja (1849-1911) foi governador de Macau e Timor entre 16.10.1890 e 24.03-1894. Nesse âmbito foi também Ministro plenipotenciário de Portugal na China, Japão e Tailândia.
Seria exonerado a 10 de Novembro de 1893:
"Hei por bem exonerar o capitão de fragata supranumerario da armada conselheiro Custodio Miguel Borja do logar de governador da provincia de Macau e Timor para que fôra nomeado em decreto de 2 de abril de 1890 e que serviu com zêlo e intelligencia O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."
Seguiu-se José Maria de Sousa Horta e Costa, nomeado novo governador no mesmo dia:
"Attendendo ás circumstancias que concorrem no capitão de estado maior de engenheria do exercito de Portugal José Maria de Sousa Horta e Costa hei por bem nomeal o para o logar que se acha vago de governador da provincia de Macau e Timor O ministro e secretario d estado dos negocios da marinha e ultramar assim o tenha entendido e faça executar."

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

António Manuel 黎光藻: 1931-2026

Morreu a semana que passou aos 95 anos António Manuel Brito Lai, "o alfaiate que vestiu presidentes, governadores, diplomatas e muita gente anónima em Macau", segundo a TDM.
Retrato em desenho por IA a partir de fotografia

Nascido em 1931 na China continental veio para Macau durante a guerra sino-japonesa e abriu a alfaiataria António Manuel que marcou a cidade na segunda metade do século 20 em 1943. O governo, funcionários públicos, militares e polícias foram os seus clientes principais na loja sita no nº 25 da Rua Nossa Sra. do Amparo.

domingo, 23 de agosto de 2026

Uma visita guiada em 1867

Entre 11 e 14 de Fevereiro de 1867 o jovem Conde Ludovic de Beauvoir, acompanhando o Duque de Penthièvre numa viagem à volta do mundo, visitam Macau. Partiram em Abril de 1866 e visitaram a Austrália, a ilha de Java, o Sião, Hong-Kong, Macau e Cantão, depois a China do Norte, o Japão e a Califórnia e voltaram para França em Setembro de 1867.
Os viajantes franceses chegaram a Macau vindos de Hong Kong a bordo do vapor a pás Fire-Dart e partiram em direcção a Cantão poucos dias depois.
Dois anos depois o conde publica um livro sobre a viagem. Num tom muito crítico resume o declínio económico da cidade afirmando que, se não fosse o êxodo forçado dos cules e o lucrativo contrabando de ópio, a "erva cresceria nas ruas de Macau abandonada". Para ele, o dinamismo comercial tinha sido totalmente absorvido pela vizinha Hong Kong britânica, restando a Macau a dependência deste comércio humano degradante e que só seria proibido uma década depois.

Excertos do diário a 12 de Fevereiro (tradução/adaptação) publicado em Voyage autour du monde: Java, Siam, Canton" logo em 1869:
"Graciosamente conduzidos durante a primeira parte do dia por Dom Osório, ajudante de campo do Governador, e durante a segunda por Sua Excelência em pessoa, Dom José Maria da Ponte e Horta, major de artilharia, visitamos hoje toda a possessão, o que é fácil, visto parecer-me ter cinco quilómetros de comprimento por dois de largura. Esta península tem exatamente a forma de uma pegada humana, cujo calcanhar está voltado para o mar, enquanto o polegar termina numa língua de terra com quatrocentos metros de largura que a une à grande ilha de Hiang-Chan.
O calcanhar é formado por nove altas colinas rochosas que dominam os fortes de Bom Parto, Barra, São João e São Jerónimo; a grande curva interior da planta do pé está preenchida pelas habitações amontoadas dos chineses, que são em número de cento e vinte e cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses estão domiciliados no lado oposto e exterior. A Praia Grande, esplanada marítima, é o seu boulevard; solares de grades escuras, o Palácio do Governador, a Capitania do Porto, vivendas oficiais ou comerciais estão ali alinhadas, apresentando absolutamente o cunho colorido, arqueado e monástico da mãe-pátria.
Suponha-se então que uma muralha escala o peito do pé (...) e que todas as articulações dos dedos se crispam e se erguem; não são mais do que montanhas em sobressalto no topo das quais se erguem os fortes de São Francisco, da Guia, de São Paulo do Monte e sete ou oito outros; depois vêm a planície cultivada pelos hortelãos, a aldeia de Mong-Há e a barreira de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As estradas que seguimos na nossa interessante viagem são escavadas em cornija no granito e do efeito mais pitoresco; uma centena de canhões de grande calibre apontados nas alturas partilham a tarefa de defender a península do lado do mar envolvente ou de bombardear o bairro das cento e vinte e cinco mil tranças em caso de motim.
Depois visitamos a Praça da Sé, a catedral, os velhos paços do concelho onde fica o Senado e onde figura esta inscrição desde 1654: CIDADE DO NOME DE DEOS NAO HA OUTRA MAIS LEAL. 
Percorremos os quartéis, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída em 1594 pelos Jesuítas e hoje três quartos incendiada, o Asilo dos Pobres, etc., etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimados por cruzes, ornados com santos em nichos, cobertos de frescos curiosos. Adicione a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o imenso chapéu preto e oblongo sob o qual caminham os monjes, a cornoita branca das Freiras da Caridade, e jurar-se-ia, garanto-lhe, que estamos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova.
Após os espetáculos modernos que nos acabam de dar, há dez meses, os mundos inteiramente novos e os mundos asiáticos onde, pelo menos, a invasão industrial tem todo o cunho da atualidade, é como uma ilusão encontrar à porta do Império do Meio uma caixa de doces antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que não houve nesta terra distante senão os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças. (...)
O crepúsculo está a terminar no momento em que termina também para nós o território da colónia: estamos sobre a estreita língua de terra que liga Macau a Hiang-Chan. A cerca de duzentos metros de nós, tanto à direita como à esquerda, quebram-se as vagas da maré montante, e a barreira granítica do Império chinês detém-nos. Ei-lo, pois, o famoso solo onde flutua livremente a bandeira amarela do Imperador!*
Mas que desilusão! É coberta de imundícies, de podridão e dos trapos dos descendentes do Fogo que nos aparece a Terra Celestial das Flores. Um grupo de cerca de sessenta homens vestidos de branco, batendo em tam-tams e uivando com uma voz aguda, leva um morto a sepultar e desfila diante de nós (...). 
Foi neste mesmo lugar que morreu assassinado o penúltimo Governador de Macau, o valente Ferreira do Amaral. Tendo tomado em mãos a reivindicação inteira de Macau por Portugal, atraiu a si a cólera dos mandarins de Cantão, que queriam a todo o custo manter os seus esbirros com paridade de autoridade na colónia portuguesa. Não recorreram à guerra aberta e lutaram pelo homicídio, o que lhes custava bem menos caro: a 22 de Agosto de 1849, os seus sicários lançaram-se sobre Amaral no momento em que ele passeava a cavalo ao longo desta muralha com um ajudante de campo, e levaram até aos pés do Governador de Cantão a cabeça e as mãos ensanguentadas do desgraçado oficial. (...)"
* Porta do Cerco

sábado, 22 de agosto de 2026

"Praça Luiz de Camões"

Nesta placa toponímica fotografada no início da década 1980 a grafia é "Praça Luiz de Camões" com os caracteres chineses ao lado na vertical (白鴿巢前地) que significam "Em frente ao ninho das pombas brancas" e que entre a comunidade chinesa é conhecido como Pa Kap Chau: 白 (Pa / Bái): Branco 鴿 (Kap / Gē): Pombo / Pomba 巢 (Chau / Cháo): Ninho.

Em baixo uma sinalética do LS (Leal Senado) assinala uma "estação de triciclos"; 站車輪三 - lido da direita para a esquerda, ou seja, um local onde estavam estacionados riquexós. Se a memória não me falha diz-se em cantonense Sam Leun Ché.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O fim da iluminação pública a petróleo

No "Relatório da vereação da Câmara que funcionou durante o biénio de 1924-1925" (Leal Senado), fica-se a saber que só nesses anos terminou a "iluminação a petróleo" passando a iluminação pública a ser exclusivamente "eléctrica".

"Quando a nossa vereação tomou conta da administração municipal, existia em Macau a iluminação eléctrica juntamente com a iluminação a petróleo. Esta última era incompleta, não só porque as lâmpadas eram dum poder iluminante muito reduzido, como também produziam um aspecto desagradável os postes de entena, na sua maioria carcomidos e em misérrimo estado de conservação.
Resolveu a nossa vereação substituir a iluminação a petróleo por iluminação eléctrica, instalando-se para isto as necessárias lâmpadas eléctricas.
Além disto foi instalado um grande número de lâmpadas para iluminar as novas vias públicas.
Se bem que existam ainda algumas vias que carecem dum reforço de iluminação, contudo pode considerar-se, dum modo geral, que a cidade está presentemente bem iluminada.
A vereação não descurou também a questão do alinhamento dos postes, conseguindo, por acôrdo com a Direcção das Obras Públicas, Capitania e Companhia da Luz Eléctrica e Telégrafo, suprimir um grande número de postes desnecessários, na Rua da Praia Grande, e colocando os outros debaixo dum certo alinhamento acabando assim com o mau aspecto de uma linha sinuosa de postes, alguns dos quais colocados quási no meio da rua.
Ficou combinada, por preço insignificante, a remoção dos postes da Estrada Conselheiro Ferreira de Almeida, para uma nova avenida, trabalho que não chegou a executar-se por falta do alinhamento da nova estrada. Logo que tal alinhamento fôr dado pela Direcção das Obras Públicas, o trabalho poderá imediatamente ser executado, acabando-se assim com a anormalidade de postes, no meio duma estrada estreita como é a referida. (...)

Aspecto do final da rua da Praia Grande na década 1920
Iluminação pública em 1º plano à direita
Ao fundo a 1ª versão do que é hoje uma biblioteca pública no Jardim S. Francisco

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Casa-Forte que acabou Fortaleza

Entrada da Fort. do Monte
Postal da década 1970

Se a História de Macau fosse escrita por um romancista de génio — digamos, um Camilo de sobrancelhas carregadas e pena afiada — ninguém acreditaria nela.
Porque Macau, desde o berço, parece ter sido governada por uma lógica própria, meio divina, meio trapalhona, sempre engenhosa e invariavelmente portuguesa.
No princípio eram os jesuítas.
Não apenas pregadores, mas administradores, urbanistas, diplomatas, médicos, contabilistas e, quando necessário, cobradores de impostos com zelo quase bíblico.
D. Melchior Carneiro, bispo e fundador político da cidade, organizou o Leal Senado, a Santa Casa, o Hospital de S. Rafael — e, sobretudo, o sistema que garantia a sobrevivência de tudo isto: o célebre um por cento dos lucros do comércio da seda e da prata do Japão.
Ora, esse um por cento não era bagatela. Era fortuna. E fortuna, como bem sabia qualquer padre prudente, precisa de paredes grossas. Assim nasceu a obra que hoje chamamos Fortaleza do Monte — mas que, na sua origem, não era fortaleza nenhuma. Era casa forte, cofre monumental, arca de pedra onde os jesuítas pretendiam guardar o tesouro que sustentava Macau.
A ideia de fortaleza viria depois, como tantas coisas em Portugal: por necessidade, improviso e um certo fatalismo que transforma depósitos em bastiões.
Na segunda década do século XVII ergueu-se, pois, a grande torre: paredes de um metro e dez, porta de dupla segurança, escadas lançadas com método e ambição.
Não era ainda fortaleza, mas já tinha o ar severo de quem guarda dinheiro alheio.
E como não havia militares disponíveis — nem vontade de os pagar — a obra ficou entregue aos padres e aos seus escravos. Uns construíam, outros carregavam, todos obedeciam. Macau, desde cedo, habituou-se a esta mistura de devoção e contabilidade.
Quando, a 24 de Junho de 1622, os holandeses tentaram desembarcar, a casa forte ainda não era fortaleza completa. Mas era o que havia.
Os jesuítas, que tinham aprendido a manejar canhões com a mesma destreza com que manejavam almas, puseram os escravos a postos. E, segundo testemunhos dos próprios invasores, deram-lhes uma mistura de vinhos — português, chinês e o que mais houvesse — que produziu nos pobres diabos uma coragem tão súbita quanto devastadora.
Os escravos lançaram-se sobre os holandeses com fúria bíblica. Uma bala disparada da torre — ainda inacabada — veio cair no exacto local onde hoje se ergue o Monumento da Vitória.
Foi milagre, disseram uns. Foi vinho, disseram outros. Foi Macau, digo eu.
Mas a glória durou pouco.
Em 1623, o governador D. Francisco de Mascarenhas, recém-chegado e sem residência digna, decidiu que a casa forte — agora fortaleza — não podia continuar nas mãos de padres.
Mandou vir um destacamento espanhol de Manila e tomou a fortaleza à força, expulsando os jesuítas como se fossem intrusos naquilo que eles próprios haviam erguido para guardar o tesouro da cidade.
E assim, a casa forte dos jesuítas, defendida por escravos, só voltou à Coroa quando militares espanhóis a conquistaram.
Depois disso, o Monte foi residência de governadores, quartel, presídio, comando militar, abrigo de polícias e, por fim, museu.
Cada época deixou-lhe uma cicatriz, uma pedra, uma história.
E assim ficou para a posteridade: começou casa forte, tornou-se fortaleza, foi defendida por escravos, tomada por espanhóis, abandonada por soldados, ressuscitada como museu. Uma obra que nasceu para guardar dinheiro e acabou a guardar memórias.

Artigo da autoria de João Guedes publicado a 13.7.2026 na página da rede social FB "Macau Meio Milénio de Aventura".
Vista parcial da cidade a partir da Fort. do Monte: década 1980

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Fotografia rara de Jack Braga no Seminário de S. José

Jack Braga com seminaristas e padres do Seminário de S. José ca. 1927

As ligações do historiador e erudito luso-descendente José Maria Braga (1897-1988) - conhecido como Jack Braga ao Seminário de São José em Macau são profundas e marcaram o início do seu percurso como um dos maiores investigadores da história da presença portuguesa no Extremo Oriente.
Após a sua família se reinstalar em Macau vinda de Hong Kong no início dos anos 20, José Maria Braga ingressou no corpo docente do Seminário. 
Foi durante vários anos como professor de Inglês, Literatura Inglesa e Inglês Comercial.Impacto na diáspora: Os seus alunos eram jovens macaenses que, graças a esta formação prática em inglês, viriam a alimentar as redes comerciais e a diáspora de Macau para cidades como Hong Kong, Xangai e Cantão.
Foi precisamente nos corredores do Seminário de São José que Jack Braga despertou e consolidou a sua paixão pela investigação documental e história.
Na altura em que Braga ensinava no Seminário, o principal historiador de Macau em actividade era o Padre Régis Gervaix, que ali leccionava francês. Quando Gervaix partiu para a Universidade de Pequim em 1925, Braga assumiu informalmente o testemunho da investigação histórica local.
O Seminário e o seu espólio serviram de inspiração para os seus estudos focados na Companhia de Jesus e no Padroado Português no Oriente. Importa ainda referir que quando o jovem Manuel Teixeira chegou a Macau em 1924, com apenas 12 anos*, para ingressar no seminário, encontrou Jack Braga como seu professor. Refiro-me a Monsenhor Manuel Teixeira que considerou Jack, a par de Charles Boxer, como um dos dois maiores historiadores de Macau.
* estará o ainda menino Manuel Teixeira na fotografia de grupo?

Jack Braga na década 1920

Aquando da morte de Jack Braga em 1988 o padre Manuel Teixeira escreveu no jornal Gazeta Macaense:
"Acaba de falecer em San Francisco, EUA, com 90 anos de idade, este nosso velho amigo. Digo «velho amigo», porque a nossa amizade nunca foi ensombrada durante 64 anos.
Quando chegámos a Macau em 1924, era ele um jovem professor de 28 anos no Seminário de S. José, onde ensinava Inglês e Literatura inglesa.
O único historiador que então florescia era o Pe. Régis Gervaix, nosso professor de Francês, no mesmo Seminário onde leccionava Braga. Mas Gervaix foi convidado pelo Governo Chinês para professor de Literatura francesa na Universidade de Pequim, para onde partiu em 1925.
Jack Braga, que já desde 1920 se interessava pela história de Macau, retomou a bandeira nas suas mãos e ergueu-a triunfante. Durante uma dezena de anos, foi ele o grande historiador desta terra, como o Pe. Gervaix desde 1916. Os seus trabalhos, publicados em Inglês, tornaram Macau muito conhecido no estrangeiro.
Havia outro grande historiador: era Montalto de Jesus, que já em 1902 publicara a sua obra magistral «Historic Macao», que se esgotou rapidamente. Foi Jack Braga que o levou a publicar uma 2a edição e tratou de todos os arranjos; mas, quando esta saiu em 1926, caiu o Carmo e a Trindade; o livro foi queimado junto ao Tanque do Mainato e o seu autor condenado pelo Tribunal, vindo a morrer na miséria. Ainda espera a sua reabilitação. Ficou de pé apenas Jack Braga.
Jack Braga e Boxer completavam-se. Ambos produziram muitíssimo. Braga bem merecia uma condecoração do Governo, que eu propûs várias vezes, mas sem efeito.
Macau tem ainda uma dívida em aberto para com estes seus dois filhos, Montalto e Braga, grandes historiadores da sua terra.
Até quando?"
Igreja do Seminário de S. José
Ilustrações criadas por IA a partir de postais ilustrados
Nota 1:
Jack foi agraciado a título póstumo por Portugal com o grau de Grande Oficial de Ordem de Infante D. Henrique. Inglaterra condecorou-o em 1950 com o título de "Chevalier of the Order of Saint James of the Sward".

Nota 2: Na foto de grupo pode ainda ver-se sentado ao centro Pedro José Lobo (1892-1965)  que chegou a Macau oriundo de Timor em 1901 com apenas 9 anos; e na ponta do lado direito António André Ngan Im Ieoc (1907-1982), ordenado sacerdote em 1931vindo a ser o primeiro padre de origem chinesa a assumir os cargos de vigário-geral e governador do Bispado na Diocese de Macau.