terça-feira, 21 de julho de 2026

Antigo Tribunal volta a ser Tribunal

Numa altura em que foi anunciado que no final deste mês o Tribunal de Última Instância  da RAEM passará a funcionar na Avenida da Praia Grande, n.º 459, recordo alguns pormenores sobre o edifício que remonta a 1951 e onde nessa época funcionou um tribunal.
Após o final das obras em 1951

O edifício foi projectado pelo arquitecto António Lei em 1949 sendo uma obra de referência do estilo modernista clássico em Macau. As características arquitectónicas principais incluem: uma fachada simétrica de grandes dimensões e quatro colunas jónicas.
Constituído por três pisos começou por albergar as repartições de finanças, registos e administração civil. Foi ainda Tribunal Judicial da Comarca. No pós 1999 e após muitos anos de abandono sofreu obras e no piso térreo realizaram-se várias exposições.

Ca. 1955 já com a Estátua de Jorge Álvares em frente
Sensivelmente a mesma perspectiva mas no séc. 21

Excertos do jornal Notícias de Macau a 21.6.1952:
"(...) Visita ao Palácio das Repartições
Pelas 10.15 horas, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província, visitou o Palácio das Repartições Públicas, em cujo rés-do-chão se encontram instalados os Serviços de Fazenda e Contabilidade, no primeiro andar os Serviços de Justiça e, no segundo, os Serviços de Administração Civil, a Administração do Concelho e o Tribunal Administrativo.
Os Srs. Comandante Sarmento Rodrigues e Marques Esparteiro foram recebidos, à entrada do imponente edifício, por várias altas individualidades, civis, militares e eclesiásticas e Chefe dos Serviços ali estabelecidos, cujas dependências Suas Exas. visitaram com interesse, tendo para com todos os funcionários, indistintamente, palavras amáveis.
O ilustre Titular da Pasta do Ultramar a todos impressionou com a captivante simpatia da sua pessoa e trato lhano.
A inauguração do Tribunal Judicial da Comarca
Finda a visita ao Palácio das Repartições, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província e outras altas individualidades, dirigiu-se ao primeiro andar, afim de inaugurar as novas instalações do Tribunal Judicial da Comarca, onde já se encontravam outras entidades, distintas senhoras, e numeroso público. (...)"
Fachada do edifício após 1999 tendo sido retirados a inscrição em numeração romana de 1951 e o escudo de Portugal.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A morte de um agente de emigração chinesa

LEILÃO
POR ordem do ill.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Bernardino de Sena Fernandes, encarregado do consulado de Perú, os abaixo assignados venderão em hasta publica, no dia sexta-feira 3 de fevereiro, ao meio dia, nas casas n.º 53, sita na Praia Grande, toda mobilia do defunto Eᴅᴜᴀʀᴅᴏ M. Dɪ-Nᴇɢʀᴏ, constando de guarnição de sala, sofás, espelhos, piano, magnificas estampas em molduras, candieiros de augmento de pendurar, cadeiras, mesas de marmore, camas, commodas, lavatorios, armarios, mesas de jantar, e varios outros artigos, segundo o catalogo que se publicará.
E TAMBEM, Uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos, &c., &c., &c.
MARQUES & C.ᵃ Macau, 30 de janeiro de 1871.

Eduardo M. Dinegro era cidadão peruano e morreu a 24 de Janeiro de 1871 em Hong Kong. A existência de um consulado do Perú em Macau deve-se ao comércio/tráfico de cules/coolies (trabalhadores chineses contratados, muitas vezes sob condições de quase escravatura) entre 1851 e 1874. O Perú era um dos principais destinos para onde estes trabalhadores eram enviados para trabalhar nas plantações agrícolas e nas minas.
Com a abolição progressiva da escravatura negra no Perú (concluída na década de 1850), a elite proprietária de terras deparou-se com uma grave escassez de mão-de-obra. A importação de trabalhadores chineses sob contratos de servidão surgiu como a alternativa económica para sustentar a agricultura e a exploração mineira.
Macau transformou-se no principal porto de embarque devido às proibições impostas pelos britânicos noutras regiões da costa chinesa. Agentes privados e firmas locais (como a Dinegro & Landabaso) implantaram-se em Macau servindo de intermediários e operando os chamados "barracões", onde os trabalhadores eram reunidos (quando chegavam da China continental), os contratos eram assinados e os embarques eram organizados.

O inventário dos bens a leilão revela que Eduardo M. Di-Negro pertencia à elite abastada de Macau. Tal como a localização da residência, no nº 53 da Praia Grande, a maio da baía semi-circular. Desde o "piano" às "magnificas estampas em molduras" passando pelas "Mesas de marmore", espelhos, "sofás", "candieiros de augmento de pendurar" e, por fim, mas não menos importante, "uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos".
Ter uma carruagem e cavalos na Macau oitocentista era um sinal claro de imensa riqueza. Manter cavalos e carruagem era um sinal de ostentação já que nas estreitas e íngremes ruas da cidade este meio de transporte era altamente desaconselhável sendo usadas habitualmente as chamadas liteiras (ou palanquins), cadeiras de braços compridos à frente e atrás, que eram levadas por homens.

domingo, 19 de julho de 2026

"Empire Baby": uma relíquia fotográfica "Made in Macau"

No universo do coleccionismo de objectos vintage, há pequenas peças que contam grandes histórias sobre a globalização e a indústria transformadora de meados do século passado. A Empire Baby, promovida na sua embalagem original como "The Wonder Camera" (A Câmara Maravilha), é um exemplo perfeito deste encanto nostálgico.
Trata-se de uma câmara de tamanho ultra-compacto (daí o nome "Baby"), feita de baquelite ou plástico moldado preto, equipada com uma lente ótica simples ("Optical Crystal Lens"). O design minimalista inclui uma pequena alça de transporte para o pescoço e um característico botão de disparo vermelho.
Este modelo foi concebido para utilizar rolos de película de formato 127 ("Standard 127 Film"), permitindo tirar até 16 fotografias por rolo. O manual de instruções que acompanha o produto convida o utilizador a divertir-se ao sol ("Fun in the sun") e garante que, com um pouco de prática, qualquer pessoa será capaz de tirar fotografias com aspecto profissional.
A inscrição "MADE IN MACAU" é bem visível tanto na caixa de cartão amarelada como no pequeno folheto de instruções. A embalagem detalha ainda que o design do produto foi registado no Reino Unido ("Design Regd No. 890884 U.K."), sob o número 731.
Refira-se que este modelo também foi amplamente fabricado em Hong Kong.
Contexto
Até meados dos anos 70, a economia de Macau era dominada pelo setor têxtil, pela pesca e pelo tradicional fabrico de panchões (os cartuchos de pólvora para festividades). No entanto, no final dessa década, tornou-se urgente diversificar a economia local através de um verdadeiro salto tecnológico.
No início da década de 1980 - época de ouro do sector dos plásticos e produtos electrónicos de Macau - existiam no território cerca de 30 fábricas dedicadas ao fabrico de brinquedos, flores artificiais e artigos electrónicos. Nesse período grandes marcas multinacionais de brinquedos estabeleceram-se ou subcontrataram produção em Macau, incluindo a prestigiada Matchbox (famosa pelos carrinhos de metal) e a Harbour Ring. Eram produzidos em fábricas como a Perfekta Toys Ltd., a Sin Nung Toys Factory, a Wing Tat Plastic Toys Factory, a Kam Long Industrial Co. Ltd. e a Ho Tin Industries Ltd.

O catálogo era vastíssimo e os produtos "Made in Macau"/ "Fabriqué a Macau" / "Fabricado em Macau" eram exportados para todo o mundo. Produziam-se em grande escala brinquedos mecânicos e de corda, binóculos, aparelhos de rádio, relógios e pequenas câmaras fotográficas analógicas de plástico.
Em 1985, os brinquedos e os produtos electrónicos já representavam 31% de todas as exportações de Macau. No auge, em 1988, existiam no território 59 fábricas de brinquedos e plásticos, que davam emprego a cerca de 7 mil trabalhadores e representavam 10% do total das exportações locais.
Era também o fim de uma época. Com a abertura económica da República Popular da China no final dos anos 80, o preço da mão de obra no continente chinês tornou-se imbatível. As fábricas de Macau acabaram por fechar as portas e deslocalizar as linhas de montagem para a província vizinha de Guangdong (Cantão).

sábado, 18 de julho de 2026

Uma viagem à "esplanada" na década 1970

O temo quente convida a mais tempo em esplanadas. Estas fotografia documenta o espaço assim conhecido em português na década de 1970. Para a comunidade chinesa era a "Casa de Chá do Cavalo de Bronze". 

Localizada sob uma fileira de figueiras-de-bengala na então denominada Av. Dr. Oliveira Salazar (frente ao Liceu) o espaço tinha esta designação por ficar próximo da estátua do governador Ferreira do Amaral, designada popularmente pelos chineses como "estátua do cavalo de bronze".

銅馬茶座:位於蘇亞利斯博士大馬路一列大榕樹下的茶座,由於在銅馬像附近,故名“銅馬茶座”(1970年代)

PS: Um outro espaço muito semelhante existiu nas décadas 1950/60 mas a construção do Hotel Lisboa 'obrigou' à deslocalização.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd. / 澳門逸園賽狗股份有限公司

O ano de 1963 marcou o 'renascimento' do Canídromo em Macau pela concessionária Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd. /  澳門逸園賽狗股份有限公司.
Após uma interrupção de duas décadas, a reabertura oficial das corridas de galgos ocorreu a 28 de Setembro de 1963, no então designado Campo Desportivo 28 de Maio. O espaço esteve em funcionamento durante mais de meio século até ao encerramento definitivo em Julho de 2018 e por esta altura está a ser demolido.
Entrada do Canídromo em slides das décadas 1960/70

O anúncio em chinês abaixo é de 1963

澳門逸園賽狗有限公司
每逢星期六、星期日
下午七時半開始售票 八時正開跑
入場門券:
會員席 每位三元
公眾席 每位一元
包廂 每座六十元
(每座供六位用另兩個侍應牌)
(逢星期四起在新馬路逸園總會公開預售)
會員招待站: 新馬路卅一號逸園賽狗總會二樓
(供會員休息貯放行李) 電話:三四八六

Tradução/Adaptação:
Companhia de Corridas de Galgos Macau Yat Yuen, Limitada
Todos os Sábados e Domingos
Bilheteira abre às 19h30 
Início das corridas às 20h00 em ponto
Bilhetes de Entrada:
Bancada de Sócios: 3 patacas por pessoa
Bancada do Público: 1 pataca por pessoa
Camarote: 60 patacas por camarote
(Capacidade para 6 pessoas, inclui 2 passes de serviço para empregados)
Pré-venda ao público a partir de cada quinta-feira na Sede da Yat Yuen, na Avenida de Almeida Ribeiro)
Posto de Atendimento a Sócios: 2.º andar da Sede da Companhia de Corridas de Galgos Yat Yuen, N.º 31, Avenida de Almeida Ribeiro (San Ma Lo)
(Espaço para repouso de sócios e depósito de bagagem) Telefone: 3486

Factura de 1989

Postal da década 1980

Programa de 1996

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Aniversário do Centro Histórico de Macau como Património Mundial da Humanidade

Nunca é demais recordar que a data de 15 de Julho de 2005 marca um dos momentos mais importantes da história recente de Macau. Foi o dia em que o Centro Histórico de Macau foi oficialmente inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO durante a 29.ª sessão do Comité do Património Mundial realizada em Durban, na África do Sul. Com esta distinção, tornou-se o 31.º sítio classificado como Património Mundial na China.
O que é o Centro Histórico de Macau?
Trata-se de uma zona urbana contínua que reflecte mais de 450 anos de coexistência e fusão cultural entre o Oriente (China) e o Ocidente (Portugal). O conjunto classificado é composto por 22 monumentos históricos e 8 praças (largos).

Ilustração criada por IA a partir de fotografia da década 1940

Monumentos Históricos (22)

Templo de A-Má (o edifício mais antigo de Macau)
Quartel dos Mouros 
Casa do Mandarim (residência tradicional de Zheng Guanying)
Igreja de São Lourenço (e o seu adro)
Igreja e Seminário de S. José (incluindo o adro e a escadaria)
Teatro D. Pedro V (o primeiro teatro de estilo ocidental da China)
Biblioteca Sir Robert Ho Tung
Igreja de Santo Agostinho
Edifício do Leal Senado
Sam Kai Vui Kun (Templo de Kuan Tai)
Santa Casa da Misericórdia (edifício sede)
Igreja da Sé (Catedral)
Casa de Lou Kau
Igreja de S. Domingos
Ruínas de S. Paulo (antiga Igreja da Madre de Deus, vestígios do Colégio de S. Paulo, adro e escadaria)
Templo de Na Tcha (junto às Ruínas de S. Paulo)
Troço das Antigas Muralhas de Defesa
Fortaleza do Monte
Igreja de Santo António (e o seu adro)
Casa Garden (antiga residência e actual sede da Fundação Oriente)
Cemitério Protestante (incluindo a Capela de Morrison)
Fortaleza da Guia (incluindo a Capela de Nossa Senhora das Neves e o Farol da Guia)
Ruínas de S. Paulo / Largo da Companhia de Jesus

Praças e Largos (8)

Largo da Barra (em frente ao Templo de A-Ma)
Largo do Lilau 
Largo de Santo Agostinho
Largo do Senado 
Largo da Sé
Largo de S. Domingos
Largo da Companhia de Jesus (em frente às Ruínas de S. Paulo)
Largo de Camões (junto à entrada do Jardim de Camões)


A UNESCO atribuiu este estatuto devido ao valor universal excepcional do território. Macau funcionou como um porto internacional de extrema importância onde se cruzaram tendências arquitetónicas, estéticas, religiosas, tecnológicas e gastronómicas europeias e chinesas, criando uma identidade multicultural e arquitectónica única no mundo. Um património ímpar que deve ser preservado...

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Luto na Colónia"

Na sequência da morte do governador Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940, nesse dia e no seguinte, foram proibidos "divertimentos" em hotéis, restaurantes, casas de espectáculos e outros lugares". No jornal A Pátria de 10 de Julho uma pequena notícia refere o "Luto na Colónia:
"Por virtude do luto determinado pelo Govêrno da Colónia pelo falecimento de S. Exa. o Governador, os proprietarios e gerentes de hoteis, restaurantes*, casas de espectaculos e outros lugares onde se realizam divertimentos publicos, foram avisados de que, sob pena de desobediencia aos mandados da autoridade, hoje e amanhã, 10 e 11 do corrente mês, não são permitidos quaisquer divertimentos que nêsses estabelecimentos é costume realizar. A este respeito foi publicado um Edital da Administração do Concelho."

No dia seguinte à morte o jornal A Pátria não se publicou. No dia 10, os cinemas Vitória, Capitol e Apollo, que já tinham contratos de publicidade publicando regularmente anúncios viram os anúncios dos filmes 'cortados'.

O funeral realizou-se a 11 de Julho. No dia 10 o jornal A Pátria antecipava o programa das cerimónias fúnebres:
Nos actos funebres para o funeral de S. Exa. o Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, Sua Exa. o Encarregado do Governo determinou que se observe o cerimonial seguinte:
O cadáver de Sua Exa. o Governador ficará exposto no salão nobre do Leal Senado da Camara de Macau a pedido do povo desta cidade, feito ao Govêrno da Colonia por intermédio da Vereação, desde hoje, 10, até á saída do funeral, sendo o ataúde conduzido e colocado na eça pelos Vogais do Conselho do Govêrno.
O cadáver emquanto estiver em câmara ardente será velado por turnos organizados pelo Chefe da Repartição Central dos Serviços de Administração Civil e Chefe do Estado Maior, incumbidos de dirigir os funerais.
Amanhã, ás 11 horas, deverá ter lugar o funeral, que sairá do edificio do Leal Senado da Câmara de Macau para a Sé Catedral, onde o féretro ficará depositado até seguir para a Metrópole, sendo a chave da urna funerária entregue ao Sr. Encarregado do Govêrno.
Toda a fôrça armada disponivel formará em alas nas ruas por onde passar o cortejo fúnebre.
Uma bateria de artilharia achar-se-á postada nos terrenos do Pôrto Exterior a fim de dar a salva da ordenança, de 21 tiros.
Durante o dia de hoje e amanhã a Fortaleza do Monte dará um tiro de peça de meia em meia hora, desde as 8 ás 19 horas.
Durante os mesmos dias a bandeira Nacional será colocada a meia adriça, em todos os edificios públicos.
Durante 2 dias, a contar de hoje, é suspenso o serviço em todas as Repartições públicas dependentes do Govêrno, exceptuando aquelas em que o serviço pela sua natureza, não possa ser interrompido; ficam proibidos todos os espectaculos ou divertimentos públicos durante os referidos dias, ordenando as autoridades todas as demonstrações que costumam praticar-se em ocasiões semelhantes.
O funeral de S. Exa. é feito por conta do Estado."

terça-feira, 14 de julho de 2026

O funeral de Tamagnini Barbosa em Julho de 1940

Retrato a óleo (oficial) 
Imagem restaurada com a recurso a IA

A morte do governador (pela terceira vez) Artur Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940 ocupou toda a primeira página da edição desse dia do jornal A Pátria.
O padre Manuel Teixeira assina o artigo "Preito de Saudade" onde escreve ter acompanhado o governador nos últimos momentos de vida no Palacete de Santa Sancha, a residência oficial.
"Rodeado por quase todos, senão todos os Chefes de Repartição, assistido pelos médicos do corpo e da alma, amparado pelos amigos e tendo á cabeceira o seu filho estremecido, ás 7.25 horas da manhã*, S. Exa. o Governador* da Colónia, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, expirou plácidamente no ósculo do Senhor, com a cabeça inclinada para o lado direito."
A grande mancha da capa do jornal tem como título "O Governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa, faleceu ás 7.25 horas de hoje" e inclui uma fotografia.

"Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o governador predilecto de Macau, deixou hoje de viver nêste mundo de misérias e amarguras. De meia em meia hora a voz da artilharia está anunciando a todos a morte do preclaro cidadão.
Nesta mimosa e serena cidade de Macau, a que ele tanto se afeiçoou, berço de entes queridos, irmãos e filhos, nesta parcela de Imperio Colonial Português a que sempre dedicou cuidados especiais e pela qual, pelo muito que lhe queria, não hesitou em abandonar a situação culminante a que o seu mérito o guindára, para, sem olhar á saude, á categoria e aos proventos, vir ocupar o mesmo lugar com que iniciára quasi, há bem longos anos, a sua notavel carreira politica, Artur Tamagnini exalou o seu ultimo alento, após um prolongado e cruciante sofrimento, de que afectuosas dedicações não conseguiram salvá-lo.
Neste tão decantado e mimoso torrão português findou a existencia de Artur Tamagnini Barbosa, longe dos entes queridos — apenas o acompanhava um filho, Marco Antonio — sem conseguir vêr coroado do completo exito que desejava o seu esfôrço patriotico e desassombrado em prol de Macau.
Cidadão honesto, sincero, patriota, a sua vida, toda de trabalho, de honradêz, de lealdade e de dedicação pode sêr exposta á luz clara do dia, para exemplo dos que queiram seguir, sem tergiversar, a estrada do Dever.
O grande, imenso prestigio que carinhosamente cercava a inconfundivel figura de Tamagnini Barbosa, a admiração e o respeito que lhe tributavam as autoridades inglesas e chinesas e outras das circunvisinhanças desta Colónia, revelam bem o aprêço em que era tido o distinto colonialista nestas melindrosas paragens do Extremo-Oriente, hoje mais que nunca o ponto nevrálgico do mundo.
Estimado de longa data por tôda a comunidade chinesa e população macaense e europeia, era o perfeito colonizador e o mais excelente representante da civilização portuguesa. As manifestações de consideração e amizade de que foi alvo durante todos os periodos do seu govêrno em Macau são o melhor testemunho de quanto valia Sua Excelencia, que com lhaneza e refinado trato sabia manter a estima e o respeito de todos.
Artur Tamagnini de Sousa Barbosa foi nomeado a primeira vez governador de Macau por decreto de 1 de Junho de 1918, tomando posse em 12 de Outubro do mesmo ano. Uma mudança de ministério alguns mêzes depois originou o seu regresso a Portugal.
Por decreto de 19 de Junho de 1926 foi, pela segunda vez, nomeado governador da Colónia, o primeiro governador que para Macau foi nomeado pelo governo da Ditadura, tomando posse em 8 de Dezembro do mesmo ano, cargo que deixou em 1931 aureolado de invulgar prestigio nos meios estrangeiros, cujas autoridades frequentemente o visitavam.
Nomeado pela terceira vez governador de Macau, por decreto de 12 de Dezembro de 1936, cargo de que tomou posse em 11 de Abril de 1937, a morte abruptamente lhe interrompeu a carreira, hoje, ás 7.25 horas, contando 59 anos de idade.
A seus queridos filhos e irmãos e mais familia enlutada apresenta A Voz de Macau sentidas condolencias."
Aspecto do cortejo fúnebre a 11 de Julho de 1940
entre o Largo do Senado e o Largo de S. Domingos
Foto colorida com recurso a IA.
Original muito provavelmente da autoria de Neves Catela

Nota: Devido à Segunda Guerra Mundial o caixão forrado de zinco ficou muitos anos depositado na igreja da Sé. O corpo do governador só foi transladado para Portugal a 7 de Dezembro de 1946 a bordo do paquete Quanza que chegou a Lisboa a 21 de Janeiro de 1940 tendo nesse dia sido realizado um novo funeral no cemitério do Alto de S. João.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Brasão de Armas na Porta do Cerco

Entre a ideia e a concretização do Museu Camões passaram tantas décadas que muitas peças do património arquitectónico - que pelas mais diversas razões tiveram de ser retiradas dos locais originais - foram sendo depositados em espaços como as traseiras das Ruínas de S. Paulo e a Fortaleza do Monte.
Aquando da Implantação da República em 1910 (Portugal) muitos dos símbolos monárquicos que estavam em edifícios/monumento foram retirados*. Foi o caso do escudo heráldico português que estava ao centro no topo do arco da Porta do Cerco. Tudo indica que foi removido para a Fortaleza do Monte. De uma fotografia de 1987 ali tirada identifiquei o que me parece ser o referido brasão. Tem a bordadura com os castelos e o interior preenchido com as "quinas". 
O escudo está danificado, apresentando uma fractura horizontal proeminente na rocha que pode ter ocorrido aquando da remoção e/ou transporte. A fotografia maior é do período anterior a 1910 vendo-se a bandeira da monarquia.

 

A disposição heráldica apresentada (quinas laterais na vertical e não inclinadas) foi fixada em Portugal no final do século XV (reinado de D. João II, em 1481). No entanto, o estilo da pedra, a textura e os elementos decorativos esculpidos na parte superior sugerem que se trata de uma obra produzida entre os séculos XVIII e XIX (períodos barroco e neoclássico). Ora a Porta do Cerco foi construída em 1870/71 pelo que considero a hipótese provável. Mas poderá ter tido outra origem...
* No caso da toponímia a Rua Nova Del Rei passou a denominar-se Rua Cinco de Outubro.

domingo, 12 de julho de 2026

Mercado Vermelho/紅街市

Desenhado em 1934 pelo arquitecto macaense Júlio Alberto Basto, o que viria a ficar conhecido como Mercado Vermelho, foi construído para dar resposta ao crescente aumento populacional nomeadamente para zonas longe do centro da cidade. O local escolhido era então bastante amplo e com poucos edifícios.
Trata-se de um edifício típico do estilo art deco. Tem três pisos, desenho simétrico, uma torre do relógio ao centro e uma torre de vigia em cada esquina. Entrou em funcionamento em Julho de 1936.
Desenho/Planta de 1934

De acordo com a arquitecta Ana Tostões o edifício "
representa a primeira construção claramente devedora das correntes do movimento moderno internacional""desenvolve‐se em três pisos, definindo o quarteirão a partir das quatro torres situadas em cada esquina. Desenhado segundo dois claros eixos de simetria, com a torre do relógio no centro, enquadrando a entrada principal, e as restantes em cada esquina. A entrada principal é marcada por uma ampla abertura, que se conjuga com o corpo da torre do relógio, mais alta e recuada em relação ao plano da fachada. A estrutura em betão, formada pelo sistema de pilar‐viga, é assumida como gramática formal marcando o ritmo, desenhando-se as aberturas das janelas nos espaços intersticiais da estrutura portante."
Apesar de ser conhecido desde cedo como "Mercado Vermelho" 紅街市 (Hung Kai Si em cantonense) devido à cor dos tijolos, o nome formal foi Mercado Municipal da Avenida Horta e Costa. Fica localizado na esquina desta avenida com a  Avenida Almirante Lacerda.
Oficialmente receberia a designação: Mercado Municipal Almirante Lacerda (提督街市), uma homenagem a Hugo de Lacerda Castelo Branco (Almirante Lacerda), figura proeminente em Macau, responsável por importantes obras portuárias e aterros na zona no início do século XX.
O Mercado Vermelho está inscrito na Lista do Património de Macau sendo classificado como "edifício de valor arquitectónico".
O mercado abriu ao público em Julho de 1936
Na altura da construção o mercado é referido como estando localizado na Av. Horta e Costa.
Jornal A Voz de Macau em Julho de 1936

Na edição de 7.7.1936 o jornal A Voz de Macau refere que o edifício seria inaugurado em breve:
"O edificio, com dois pavimentos, afóra o terraço, construção em cimento armado, é amplo, majestoso, podendo dizêr-se que é o melhor existente em tôdo o Extremo Oriente. Os seus compartimentos, muito claros, são espaçosos e higienicos, havendo um espaço destinado a frigorifico e junto á escada que conduz ao pavimento superior um outro espaço reservado a elevadôr."


sábado, 11 de julho de 2026

怡神你令最

Na imagem um anúncio da Coca-Cola para o ano de 1964 em Macau (do Anuário desse ano). A bebida era produzida pela "Macau Industrial Limitada" a "engarrafadora autorizada" da bebida denominada em chinês 可 口 可 乐.
 A marca chegou ao território em 1949 e só depois foi criada uma fábrica.
A imagem da campanha publicitária era igual para todo o mundo mas adaptada a cada mercado. Em Macau o mote da campanha estava expresso com os caracteres 怡神你令最 que significam "Mais refrescante e revigorante".

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas, da autoria do chantre António André Ngan.

Nas imagens 6 livros (de poucas páginas) de edições entre 1963 e 1982 da Imprensa Nacional de Macau.



quarta-feira, 8 de julho de 2026

Companhia "Tai-Sang" dos vapores de carreira Macau-Hongkong

Anúncio de 1939 da Companhia "Tai-Sang" - 泰商 - dos vapores de carreira Macau-Hongkong.
Companhia "Tai-Sang" dos vapores de carreira Macau-Hongkong

Os vapôres "Kau-Tung" e "Macau", com explendidas acomodações, dotados com as mais aperfeiçoadas e higienicas acomodações e tendo um pessoal esmerado fazem as carreiras entre esta cidade e Hongkong, com o seguinte horario, e por preços muito convidativos:

Vapor "Macau"
De Hongkong para Macau Ás 8.15 horas
De Macau para Hongkong Ás 16 horas.

Vapor "Kau-Tung"
De Hongkong para Macau Ás 14,30 horas.
De Macau para HongkongÁs 3.30 horas da madrugada

1a. classe = $3.00; ida e volta = $5.00; 2a. classe = $2.00; 3a. classe = $1.40.
Os passageiros do deck pagam $0,70, e no porão $0,30.

As passagens de Macau para Hongkong são pagas em notas chinêzas só nas 2a., 3a. classes e no porão, e de Hongkong para Macau em notas europeias.

Quaisquer informações são prestadas pelo telefone No. 2353 a bordo dos referidos vapores,ou pelo telefone da Companhia "Tai-Sang", No. 973, Avenida Almeida Ribeiro (Hotel Central, 1.º andar)


Um dos vapores da empresa na ponte-cais nº10

Os vapores Macau (澳門) e Kau-Tung (九江) eram gémes. Foram construídos em 1903 e tinham1.665 toneladas. Transportavam carga e centenas de passageiros, incluindo no "porão", o bilhete com o preço mais baixo.
Note-se a regra de pagamento: passagens baratas podiam ser pagas em "notas chinesas" (da província de Guangdong), mas as classes altas ou viagens a partir de Hong Kong exigiam "notas europeias" (como os dólares de Hong Kong emitidos por bancos britânicos ou as patacas de Macau), reflectindo a complexidade monetária da região antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
A empresa tinha o escritório no 1º andar do Hotel Central.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Uma placa toponímica especial

É uma das artérias mais conhecidas de Macau. A placa toponímica reflecte as especificidades de alguns nomes de ruas no território. Neste caso, o nome em português nada tem a ver com o nome em chinês.

Transcrição dos Caracteres (da direita para a esquerda, de cima para baixo):
Coluna da direita: 亞美打利庇盧 (À-měi-dǎ-lì-bì-lú)
Coluna da esquerda: 大馬路(新馬路) (Dà mǎlù (Xīn mǎlù))

Tradução e Significado:
亞美打利庇盧 (Àmei dǎlì bìlú): Transliteração fonética para chinês do nome "Almeida Ribeiro" 
大馬路 (Dà mǎlù): Significa literalmente "Grande Avenida" ou "Estrada Principal".
(新馬路) (Xīn mǎlù): Significa "Estrada Nova" ou "Avenida Nova". É o nome popular e mais comum pelo qual os habitantes de Macau conhecem esta famosa avenida.

PS: esta placa é recente; antigamente não existia a transliteração fonética para chinês de "Almeida Ribeiro".