domingo, 8 de dezembro de 2019

Macaenses prisioneiros de guerra

Depois da invasão japonesa de Hong Kong (foto acima) a 8 de Dezembro de 1941 - poucas horas depois do ataque a Pearl Harbour - muitos portugueses/macaenses (luso-descendentes oriundos de Macau)  que tinha ali uma importante comunidade - lutaram e morreram na defesa da colónia britânica incorporados na Hong Kong Volunteer Defence Corps - Companhias nº 5 e 6 com um total de 200 homens - no que ficou conhecido como a Batalha de Hong Kong. Os que se tornaram prisioneiros de guerra - p.o.w., num total de 7000 de diferentes nacionalidades - foram internados em campos de concentração não só em Hong Kong (Sham Shui Po and Stanley) como também no Japão onde foram usados como mão de obra escrava.
A rendição de Hong Kong no dia de Natal, 25 de Dezembro de 1941, e ficou conhecida como "Black Christmas".
Grupo de prisioneiros - a maioria portugueses de Macau - fotografados a 28 de Agosto de 1945 no Campo de Prisioneiros de Sendai (Japão), quase duas semanas depois da rendição japonesa.


Postal do Serviço de Prisioneiros de Guerra da Cruz Vermelha Portuguesa - Delegação de Macau. Data de 1944 e foi enviado de Macau para Hong Kong. O postal tem como destinatário um campo de prisioneiros de guerra em Hong Kong (Camp N), colónia britânica invadida pelos japoneses no início de Dezembro de 1941. 
Carmelina Rodrigues, refugiada em Macau oriunda de Hong Kong, recorreu aos serviços da Cruz Vermelha Portuguesa - Serviço de Prisioneiros de Guerra para fazer chegar notícias a um familiar, muito provavelmente o marido, capitão José S. Rodrigues.
Panorâmica de Macau na década 1940: 
ao centro o Hospital de S. Rafael, actual consulado de Portugal em Macau.
Sugestão de leitura: "Macau 1937-1945: os anos da guerra", João F. O. Botas, IIM, 2012

sábado, 7 de dezembro de 2019

"Jóia das Terras do Oriente"

Em Abril de 1942 a revista "Panorama" (nº 8) publica um artigo sobre Macau assinado pelo "Comandante Jaime do Inso" intitulado "Macau Jóia das Terras do Oriente". É o que reproduzo neste post bem como as imagens que ilustram o artigo.

 Macau, a cidade Santa, a jóia das Terras do Oriente é um mimo de paisagem e um mimo de tradição. Ali se abriga um pedaço da China milenária, imbuído da alma prodigiosa da gente de Portugal, que desde séculos criou fundas raízes de simpatia entre os filhos do ex-celeste Império. 
O Oriente é, por excelência, a terra dos imponderáveis, e daquele contacto, único na história dos europeus no Extremo-Oriente, das psicologias opostas, como são as das duas civilizações, a ocidental e a chinesa, resultaram também aspectos únicos no campo material, como são aqueles que nos oferece Macau, diferentes de tudo quanto a expansão europeia criou em terras de Catai. 
Macau, com as suas ruas e calçadas tão tipicamente portuguesas, como se não vê em mais colónia alguma do Oriente; com as suas casinhas de côres garridas, como num cenário, espalhadas pelos montes; com as suas vielas e becos nos velhos bairros e edifícios modernos nas novas avenidas, os seus miradoiros, as suas ruínas, muralhas e templos com os sinos a dobrar, aparece-nos como um presépio encantador, em dias de primavera, evocando a maior saudade de Portugal! ´
Macau, com seu bairro china ou Bazar, onde fervilha o formigueiro chinês, num vai-vém constante, por entre os Cou-laus ou restaurantes, as cozinhas ambulantes, os gerinshás e as notas garridas das Pi-pá-chai; com os seus inúmeros Pagodes, onde, na sombra, se divisa Buda por entre as volutas do sândalo queimado; Macau, onde se respira a atmosfera calma e perturbante da China que nos atrai e embriaga, que se detesta e se repele, só para mais nos cingir e dominar, Macau é, ainda, um símbolo do encantamento da China que, quanto mab nos martiriza, mais nos prende e lhe faz querer. 
Macau, janela aberta sôbre a vastidão infinda da Terra Amarela, é um oasis de placidez, estação de repouso inegualável, preciosa e bela, jóia lusitana encastoada nas longínquas costas da China, onde tantos estrangeiros iam respira r uma atmosfera de estranha quietitude no meio da vertiginosa vida do Oriente, naquela mística embaladora que lhe empresta a pátina do tempo, numa evocação nostálgica das aventuras doutras eras. Mas não é uma cidade morta, longe disso! Tanto em terra como no mar, tem uma vida própria, inconfundível, e conhecemos-lhe dias duma palpitação febril e feliz, tanto entre a multidão chinesa como na comunidade europeia. 
O europeu, assim que chega - ou chegava - ao Oriente, como que sobe, domina, sente-se mais alguém, abrem-se-lhe novos horizontes e, em contrapartida, quando regressa ou regressava ao Ocidente, volta ao nível anterior, numa descida tão brusca e desastrada, que não era raro sentir-se ferido... Era assim a vida na China, fácil, faustuosa, servindo-nos vários criados, como o meio impõe, decorrendo num turbilhão constante em que um ano vale por três, durante os quais, numa vida intensa, tôdas as agruras que a China nos reserva, e não só a China como os europeus que lá vivem, como que se esbatem e apagam num sonho de sêdas, num mistério opiante...
Mas, voltemos à paisagem de Macau, recordemos um pouco. A Avenida Almeida Ribeiro, o coração da cidade, regorgita de gente, naquele cenario típico das casas cobrindo os passeios, com arcadas, as paredes revestidas de taboletas, bandeiras e lanternas, ostentando tudo aquela ornamentação tão característica e caprichosa dos extravagantes caracteres chineses, tão decorativos como enigmáticos. Dir-se-ia uma amostra da colmeia da China imensa, asfixiante, onde a custo se divisa um europeu ou eurasiano, como os ingleses chamam aos descendentes de europeus com sangue asiático. Pululam os ric-shós, passam chinas carregando cestos pendentes de bambus, açodados; chineses de calças e cabaia, outras já envergando as nossas saias, acotovelam-se nos passeios, enquanto o moço A-tai, o nosso chauffeur habitual, aparece, calmo e cuidadoso, conduzindo o carro, e vamos encetar o passeio que nunca cansa, tão variados e típicos sfo os panoramas da minúscula e encantadora Macau. Já corremos pelo Patane, bairro excêntrico e marítimo, ao fundo do Pôrto Interior, para contornar os novos atêrros e o antigo Campo de Corridas, subúrbios, por assim dizer, se tal nome se pode aplicar a Macau, e ei-nos na região paradisíaca do Jardim da Flora, pelas estradas assombreadas que vão à Montanha Russa, até começarmos a ascenção da Guia, onde a cada volta da encosta a vista se deleita num variar incessante da paisagem que, vista uma vez, não esquece mais. Oêste lado, é o casario polícromo de Macau que se estende até ao nível da água, com manchas de verdura, como o Jardim da Gruta de Camões emergindo por entre um xadrez de velhos telhados que fazem lembrar Alfama, ou as tôrres dispersas dos templos cristãos; do outro, é a paisagem da Rada, como que mergulhada num sonambulismo fatídico, onde as águas mortas estão salpicadas das sombras das lorchas, embarcações estranhas, típicas, de velas de esteira amarela, que se abrem como braços presos a um destino de séculos sem fim, mergulhados muna tristeza indisível, imensa, que constitui um encanto pungente, um veneno, uma traição da China obcecante ... 
Mas eis que já se divisa, numa volta da estrada, o alto da Penha, com seu templo antigo, hoje restaurado - um monumento - onde os nossos marinheiros de antanho iam depôr suas promessas à chegada a Macau, como que tecendo um fio de religiosidade entre a barra do Tejo e as distanciadas paragens, daquelas partes da China, como então se chamava. O panorama é soberbo! A nossos pés, estende-se um mapa em relêvo, rico de côres e de contrastes, em recortes caprichosos no arrendado da costa, uma paisagem preciosa e insuspeitada em Portugal. 
Em cima e já perto de nós, eleva-se o primeiro farol que iluminou as costas da China - o da Guia - e vamos agora na descida vertiginosa, deixando o cemitério dos Parses, em alcandorada vertente sôbre a Rada, para penetrarmos de novo na cidade, onde, àquela hora, nos hotéis europeus e chineses, se rende o tradicional culto ao chá.
Mas não é para nenhum daqueles pontos de reunião, tão apreciados no Oriente, que nos dirigimos agora, mas sim para um recinto delicioso, discreto e bordado de verdura, fora do bulício da cidade: o Ténis dos Estrangeiros. Tarde encantadora, quási ao pôr do Sol, o céu deslumbrante de côres, como as dos poentes orientais. A assistência cosmopolita e requintada, toilletes vaporosas, um serviço de chá primoroso, capaz de satisfazer a um sonho de gulosos... Aquele entardecer tem qualquer coisa de subtil beleza e encantamento, soa-nos como uma música suave e exótica, aparece-nos como uma visão de terra de fadas, que se fixa uma vez e não mais se apaga. - Play - e a voz duma inglesa, arremeçando a bola, solta-se, em nota sonora, a chamar-nos ao nosso mundo... 
É manhã. Estamos a bordo da velha Pátria, filha da alma generosa dos portugueses do Brasil, no Pôrto Exterior de Macau, já com pressão nas caldeiras. Na modorra duma neblina que envolve tudo, como visco pardacento, naquela tão característica paisagem da China que pesa como chumbo e nos embota os nervos, toca à faina, subimos à ponte e damos a ordem: -Larga! - o navio deixa a bóia e vamos tateando pelo canal, Rada fora, rumo à ilha de Coloane, donde, em 1910, expulsámos os piratas, para ali fazermos exercícios de artilharia, segundo as ordens do Chefe. Colocam-se as bóias, servindo de balizas, fundeam-se os alvos, inicia-se o tiro com o navio a navegar, só com intervalo para as refeições, e a atmosfera torna-se enervante, aquece, custa a respirar. 'É que, ao largo, há dias que anda um tufão que parece exitante, pára e avança lentamente, e mal termina a faina do dia, recebe-se um aviso de tufão dizendo que êste, quási parado, caminha agora, ràpidamente, em direcção à Colónia Interrompe-se o descanço, recolhe-se tudo a bordo e, ferro em cima, regressamos a Macau, desta vez ao Pôrto Interior para, com maior segurança, recebermos a indesejável visita da tempestade devastadora.
Pelo estreito canal que leva à Ilha Verde, onde o navio se recolhe, era como se a Pátria fôsse navegando pela rua marginal, tão chegada ia à terra. Pegou-se na bóia, as amarras dobradas, máquinas prontas, e aguentámos na ponte, durante dez horas, a espantosa violência do temporal, sem que pudessemos valer a naufragos que passavam perto - tanto era o vento que nem deixava falar! O tufão passou, sombrio e terrível, um dilúvio de água, um inferno de vento, naufrágios, mortes, desastres, um cataclismo de horrores, até que volta a bonança e se reganha a vida que estivera paralizada. O formigueiro humano recrudesce - dir-se-ia, com mais fôrça, - após estes cataclismos que periódicamente assolam a China. Voltam os dias de primavera, volta a sorrir a terra, volta a animar-se o mar, reaparecem as sêdas e as silhuetas das Pi-pa-chai, a vida espraia-se de novo naquele ondear incessante e bonançoso que é a característica da China nos intervalos das procelas. É manhã, um sol doirado ilumina os telhados. Tocam os sinos para a missa e, na velha Fortaleza do Monte tremula, há quatro séculos, a bandeira de Portugal! É assim Macau - A Cidade Santa, a jóia das Terras do Oriente!


Jaime do Inso (1880-1967) foi um oficial da marinha Portuguesa que serviu em Macau e Timor na primeira metade do século XX.  Pertenceu à chamada geração de orientalistas portugueses, juntamente com nomes como Wenceslau de Moraes, Alberto Osório de Castro e Camilo Pessanha. Escreveu várias obras sobre a China e Macau que podem ser vistas aqui no blogue.

Biografia resumida
Jaime Correia de Inso nasceu a 12 de Outubro de 1880 em Nisa. Aos 18 anos assentou praça no regimento da Infantaria 22 e integrou, no ano seguinte, o corpo de alunos da Armada. Em 1903 é promovido a guarda-marinha e três anos depois a segundo-tenente. Ao longo da carreira ascendeu ainda à posição de capitão-tenente e capitão-de-fragata, cargo no qual passou à reserva em 1938.
Em Macau, terra à qual dedicou praticamente toda a sua obra literária, serviu na Estação Naval e também na Marinha Colonial, tendo comandado a canhoeira “Pátria” entre 1926 e 1929, altura em que esta se encontrava em serviço no Mar da China. Durante o período em que esteve em comissão de serviço no Extremo Oriente manteve uma colaboração com o semanário de Macau “A Pátria”. Já em Portugal, os seus contributos para a imprensa estenderam-se entre outros, ao jornal “Diário de Notícias”.
Em 1932 e 1933 Jaime do Inso publica duas edições de autor, respectivamente, “O Caminho do Oriente” e “Visões da China”. 
Sobre o primeiro, o conde de Penha Garcia, que assina o prefácio da obra, escreve: "O autor conhece bem esse maravilhoso caminho, elaborou através de um enredo simples uma série de descrições de viagem palpitantes de vida, que terminam com um pequeno drama sentimental vivido em Macau.” 
Ao longo da carreira militar dirigiu a Escola Prática de Artilharia Naval e prestou serviço na Direcção Naval do Atlântico-Sul, no Corpo de Marinheiros, na Majoria General da Armada, na Intendência do Arsenal e no Estado-Maior Naval, tendo ainda desempenhado funções de defensor oficioso no Tribunal da Marinha. Já no fim da carreira teve a seu cargo a direcção da Biblioteca e do Museu da Marinha, ao qual legou alguns objectos seus e um espólio fotográfico. Morreu em Lisboa a 7 de Outubro de 1967.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Loteria da Santa Casa Misericórdia

Ainda antes do Governo de Macau fazer concursos para a concessão da exploração de jogos chineses mediante pagamento de uma renda fixa, foram introduzidas em Macau em 1810 lotarias do tipo ocidental, as primeiras do género em toda a Ásia. Surgiram na sequência de uma Carta Régia de Junho de 1810 que autorizou as instituições de beneficência a emitir lotaria anualmente, com vista a “manter as instituições assistenciais em funcionamento”. Esta norma foi depois aplicada pelo Senado em Macau - Alvará de 5 de Julho de 1810 - e manteve-se até pelo menos à década de 1960.
Eram uma forma de angariação directa de fundos para fins altruísticos: para comprar roupa, comida ou medicamentos aos mais necessitados; para ajudar na construção de escolas; etc... sendo que entre 10 a 15% dos lucros revertiam para o governo que depois os canalizava para o Leal Senado sendo usados em obras públicas.
A exploração destas lotarias esteve 'entregue' durante mais de um século à Santa Casa da Misericórdia de Macau, instituição criada em 1569.

Na imagem ao lado: Bilhetes no valor de 50 avos cada de uma extracção da Lotaria da Santa Casa da Misericórdia de Macau em Setembro de 1900

No Artigo 94.° dos Estatutos da Irmandade pode ler-se:
"O amanuense extraordinário para o serviço da loteria terá a seu cargo todo e qualquer expediente referente á loteria que lhe  fôr incumbido, e escripturará especialmente o livro de registo dos bilhetes premiados, divididos em decimas, com as descargas respectivas que costumam ser feitas á medida que os concessionários da revenda dos bilhetes apresentarem os bilhetes premiado para serem inutilisados."
Os bilhetes das lotarias da Santa Casa da Misericórdia foram emitidos nos termos de regulamento específico. Na fase inicial chamavam-se "loterias" e a Santa Casa era directamente responsável pela emissão, havendo quatro a seis sorteios por ano sob a superintendência da autoridade competente da Administração Portuguesa de Macau. A partir de 1833, a Repartição Superior da Fazenda da Província de Macau começou a organizar concursos públicos para propostas em carta fechada para a arrematação da revenda em  exclusivo dos bilhetes de lotaria. A exploração seria arrematada a quem oferecesse o prémio mais elevado e a validade do contrato de concessão a celebrar seria de um ano, com vista a promover a eficiência da exploração das lotarias. Os bilhetes de lotarias eram emitidos até um limite determinado, sendo os lucros apurados após o pagamento dos prémios, rendimento do vendedor e demais custos inerentes ao seu lançamento, revertidos para a Santa Casa da Misericórdia. Os limites dos bilhetes, sem valor total e valor facial variavam de ano para ano. 

in Boletim do Governo: 1864
O auge das receitas desta lotaria registou-se entre 1890 e 1910. Chegaram a realizar-se sorteiros todos os meses. Em 1895 registaram-se alguns problemas nestas emissões; o governador ordenou um inquérito e o director da fazenda (finanças) e o provedor da sanrta Casa seriam demitidos e enviados para Lisboa.
Em 1898 foram lançados 10 000 bilhetes de valor facial de 4 patacas, sendo o valor total 40 mil patacas, enquanto à Santa Casa da Misercórdia foram entregues 3 200 patacas.
Em 1902 foi introduzida legislação específica emanada de Lisboa. "Attendendo ao desenvolvimento que tem attingido a loteria da Santa Casa da Misericórdia de Macau e á necessidade de fixar n'um diploma legal as condições de existência da mesma loteria e a partilha dos respectivos lucros"... enunciava o despacho do Ministério da Marinha e Ultramar para ditar como lei:
1.° Fica legalisado o estabelecido para a loteria da Santa Casa da Misericórdia de Macau, com as seguintes modificações:  1.° A adjudicação será feita em praça publica, com as necessárias solemnidades e garantias estabelecidas pela lei. 2.° A percentagem a pagar pelo adjudicatário não será inferior a 8 por cento nem superior a 10 por cento da importância dos bilhetes emittidos. 3.° O praso da adjudicação não será inferior a cinco annos nem superior a 8 annos. 4.° Os lucros líquidos serão divididos da seguinte forma:  50 por cento pertencerão ao Estado, dando entrada no cofre da Fazenda Provincial. D'esta parte será separada importância não inferior a um quinto, para ser transferida para o reino como subsidio ao Instituto Ultramarino; 15 por cento entrarão no cofre do Leal Senado, para terem á applicação em obras de utilidade geral;  35 por cento serão reservados para a Santa Casa da Misericórdia, a fim de serem empregados, por esta, em obras de beneficência publica." Assina O Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, no Paço, em 28 de junho de 1902 - Rei - Antonio Teixeira de Souza.
A Santa Casa estava tão dependente deste tipo de financiamento que só assim se percebe esta disposição legal:  O diploma legislativo n.º 20, de 18 de Junho de 1925, concede, provisoriamente, à Santa Casa da Misericórdia um subsídio anual de $6.000,00 sempre que esteja suspenso o exclusivo da renda de bilhetes da lotaria da mesma Santa Casa.
Em 1963, década em que terminou este tipo de lotarias, o limite da emissão foi de 4 000 bilhetes com o valor facial de 2 patacas cada, sendo o valor total de 8000 patacas. Ao longo do ano, houve 4 séries de lotarias cujos sorteios se realizaram em datas predeterminadas em cada estação do ano. E para cada série, o limite de bilhetes lançados era de 1000, os quais eram premiados 120 com valores diferentes.
Uma emissão de 1903 (cima) e outra de 1933 (baixo) 
Curiosidades:
O Governo de Macau autorizou lotarias de forma pontual para outras instituições...
Em 1852 o Senado foi autorizado a emitir lotarias cujas receitas se destinavam a financiar as escolas a cargo da instituição.
Em Janeiro de 1862, a“Nova Escola Macaense”, fruto da iniciativa privada - tinha uma secção de ensino secundário e outra de ensino primário, admitindo estudantes do sexo feminino e com isenção de propinas para os pobres - foi financiada com a emissão de uma única série de bilhetes de lotaria, com vista a obter fundos no valor de 1200 patacas.
Em Junho de 1862 o Procurador do Leal Senado de Macau, Lourenço Marques, apresentou uma proposta para a construção de um monumento no Jardim da Vitória, em memória da felicíssima vitoria contra os holandeses em 1622. A deliberação tomada foi no sentido de que as despesas inerentes àquele monumento seriam satisfeitas por meio de uma lotaria, para além de subscrições pessoais.
Em 1927, a emissão conjunta de bilhetes de uma lotaria especial por parte da Santa Casa da Misericórdia e do Hospital Kiang Wu com vista a angariar fundos destinados às acções filantrópicas. No âmbito desta série de lotaria, foi prevista a emissão de 22 000 bilhetes de valor de 10 patacas, sendo o valor total  220 mil patacas. As receitas foram distribuídas da seguinte forma: 70% ou 154 mil patacas destinadas a prémios; 7,5% para os vendedores; 1% para instituições ultramarinas; os restantes 21,5% são repartidos em partes iguais pela Santa Casa e pelo Hospital Kiang Wu, depois de deduzidas as despesas inerentes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Histoire Populaire de Macao

Eudore de Colomban é o autor de "Histoire Populaire de Macao" publicado pela Diocese de Macau em 1924.
  

Trata-se de um estudo monográfico em língua francesa, original e na sua primeira edição profusamente ilustrado. 
O estudo teve origem num concurso oficial aberto pelo Governador de Macau Rodrigo José Rodrigues em 1923 para a publicação de uma monografia destinada à divulgação e ao ensino da história de Macau.
Eudore Colomban é na verdade o pseudónimo do padre Régis Gervaix (1873-1940), missionário francês - chegou à China em 1898 - na Diocese de Macau entre 1916 e 1925 e professor do Seminário. 

A partir de 1925 foi para Pequim convidado para professor de literatura francesa na Universidade local. Esta história de Macau foi primeiramente publicada em capítulos no Boletim Eclesiástico da Diocese sob o título "Histoire populaire de Macao" onde o autor também publicou artigos como o "Expedição de Fernão Peres de Andrade de Cantão (1517)".

Obras publicadas:
- Silhouettes portugaises d'Asie, 
Tipografia dos Padres Salesianos, Macau, 1921.
- Histoire populaire de Macao, Sep. do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Ano XXIII, n.º 266-267, Macau, 1925.
- Resumo da História de Macau, edição de Jacinto José do Nascimento Moura, Macau, 1927. (várias edições posteriores).
- Hommes et choses d'Extrême-Occident (2 séries), Orfanato Imaculada conceição, Macau, 1919
- Zéphyrin Guillemin: évèque de Cybistra, préfet apostolique de Canton (1814-1886), Macau, 1919.
- Grisailles (3 séries), Imprimerie de la Politique de Pékin, 1924.
- Brimborions (2 vol.), Imprimerie de la Politique de Pékin, 1927.
- Esquisses jaunes, Pékin: Impr. de la Politique de Pékin, 1928.
- Histoire abrégée de Macao (2 vol.). Impr. de la Politique de Pekin, 1928. (imagem ao lado)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O primeiro hospital do tipo ocidental na Ásia

As primeiras instituições de Macau foram a Misericórdia, o Hospital de S. Rafael*, o Senado da Câmara, o Colégio de São Paulo e a Diocese de Macau.
O Hospital de São Rafael, o primeiro do tipo ocidental na Ásia, foi fundado em 1569 pelo Bispo D. Belchior Carneiro, ficando a ser administrado pela Santa Casa da Misericórdia. A população local chamava-lhe I Yan Miu - Templo da Cura.

Configuração anterior à reconstrução de 1939
*Começou por se chamar Hospital dos Pobres e só no final do século 18 assumiu o nome de S. Rafael.
A actual configuração do edifício remonta a 1939. O hospital seria encerrado em 1975. Foi sede da Autoridade Monetária e Cambial de Macau na década de 90 e tornou-se Consulado Geral de Portugal em Macau em 1999.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

"Chegaram os primeiros refugiados portugueses de Xangai"

O primeiro período da diáspora macaense ocorreu em meados do século XIX e os principais destinos foram Hong Kong (a nascer na altura) e Xangai. Em 1877 já existiam 300 portugueses em Xangai e em 1883 passam para o dobro. Entre 1880 e 1952 foram perto de 5 mil.
Os movimentos migratórios macaenses seriam marcados pela invasão japonesa a partir de 1937, a II Guerra Mundial e a Guerra Civil na China, que obrigou milhares de macaenses residentes em Xangai a regressarem a Macau. 
Sobre este último conflito, o jornal Notícias de Macau dá conta da chegada do primeiro grupo de "refugiados portugueses de Xangai" a Macau a 19 Maio de 1949.
Primeira página do jornal Notícias de Macau. Edição de 19 de Maio de 1949
Na década de 1940 na cidade chinesa de Xangai estavam registados no consulado português 1214 portugueses/macaenses. Com a guerra civil chinesa regressaram a Macau e em 1950 já eram apenas 61 os registados em Xangai (iriam depois para o Japão).
Entre 1949 e 1951 Macau acolheu perto de 500 refugiados oriundos de Xangai. Muitos deles já eram portugueses/macaenses de segunda geração, ou seja, nascidos nas cidades que os pais escolheram para viver. A partir do território, que mais uma vez mostrava a sua solidariedade, estes macaenses partiriam para uma nova diáspora e espalharam-se por cinco continentes estabelecendo-se em países como Brasil, Austrália, EUA, Canadá e Portugal, entre outros. O padre Lancelote Rodrigues iria destacar-se no apoio aos refugiados em Macau.

Sugestão de leitura: Romance "A Mãe" de Rodrigo Leal de Carvalho.
Este romance inspira-se em factos reais e narra a saga de Natasha Korbachenko. Nascida na Sibéria, exilada para a Manchúria devido à revolução bolchevista, Natasha parte depois para Xangai, onde sobrevive dedicando-se à prostituição. Ali conhece um estudante russo judeu (Vassili Yakovitch) com quem casa e tem cinco filhos. No momento em que Vassili se torna professor numa instituição de ensino superior em Xangai, eclode a guerra do Pacífico, sendo Xangai ocupada pelos japoneses, que iniciam uma perseguição aos judeus. A família Yakovitch foge para Macau onde irá viver enquanto aguarda a chegada de um visto de entrada nos Estados Unidos. No final da guerra, todos os vistos para entrada da família nos EUA são aprovados, menos o do filho Ivan, por ser deficiente mental. São então assolados pelo terrível dilema entre desistir do sonho americano ou abandonar o filho em Macau.
Excertos:
 “Macau estava cheia de refugiados das mais variadas províncias da China, de países do Sueste Asiático e outros, fugidos às fomes e à guerra, europeus de múltiplas nacionalidades, de Hong Kong e de Xangai, todos à procura de abrigo”. (...) 
“Mas para ela e para a família que não tinham passaporte? E quem não tem passaporte, não tem pátria. Sem papéis, não se é ninguém, não se existe. (...) ”

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Jerinxás e Riquexós


Hoje em dia ainda podemos ver alguns riquexós - bicicletas de três rodas/triciclos - atravessando becos estreitos, incluindo ruas de paralelepípedos e avenidas ladeadas por arranha-céus em Macau. Meio de transporte histórico, eles sobreviveram ao tempo e continuam sendo parte integrante da vida na cidade. Inventados no Japão em meados do século 19, surgiram pouco depois. Originalmente tinham duas rodas e eram puxados pelo motorista a pé, com os passageiros sentados atrás. Eram conhecidos como jerinxás. 




Nowadays we can still see some rickshaws - tri-wheels bicycle - traversing narrow alleyways, including cobblestone streets and skyscraper-lined avenues in Macau. An historic mode of transport, they have survived time and remain an integral part of city living.
Invented in Japan in mid 19th century, they appeared in China at the end of the 19th century; originally they had two wheels and were pulled by their driver on foot, with passengers seated at the back. They were known as jerinxás. 

Jerinxá em Macau - décadas 1920 e 1950

domingo, 1 de dezembro de 2019

Travessa dos Algibebes

A Travessa dos Algibebes fica entre a Rua dos Mercadores e a Rua da Palha, a zona onde se concentravam as lojas desta antiga profissão.
Durante muito tempo, havia uma diferença entre alfaiates e algibebes. O alfaiate fazia fatos enquanto o algibebe (do árabe al-gebabb) vendia roupa já feita, nova ou usada. 
Na toponímia ficou o registo dessas duas profissões distintas antigamente mas desde o início do século 20 restou apenas a expressão alfaiate, que curiosamente também dá nome a uma travessa em Macau.
Década 1970 vs 2013
Este pequeno altar fica junto à Rua de S. Paulo

sábado, 30 de novembro de 2019

"Faded Glory Restored in Macao"


Após obras profundas de remodelação o hotel Bela Vista reabriu ao público em 1992 é é disso que trata o artigo do New York Times intitulado "Faded Glory Restored in Macao" e publicado a 27 de Fevereiro de 1994.

Reproduzo a seguir um artigo escrito na mesma altura, mas noutra publicação, da autoria de Marc A. Thiessen
Em Março de 1999 o hotel fecharia definitivamente as portas para pouco depois passar a ser a residência oficial do Cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong.

For the two centuries before the British set foot in Asia, the Portuguese colony of Macau was Europe's gateway to China. But with the establishment of Hong Kong a short distance up the Chinese coast, Macau was eclipsed as a trading post and the colony was all but forgotten by its Portuguese masters. It became a haven for spies, arms merchants, gamblers and opium dealers, and a Siberia for second-rate Portuguese civil servants.
Today, however, Macau is experiencing a sudden and dramatic resurgence. After years of neglect, Portugal has recently taken a renewed interest in its last colonial possession. New construction is everywhere, visitors from Hong Kong and the mainland are flocking to it, and the government is on a campaign to preserve the isthmus' 400-year Portuguese heritage before Macau is handed over to China on Dec. 20, 1999.
Central to the Portuguese revival is the recent restoration of the extraordinary Hotel Bela Vista. Located on Penha Hill, overlooking the captivating Praia Grande Bay, the Bela Vista (Portuguese for "beautiful view") is a spectacular Portuguese colonial mansion with a colorful history. Built in 1870, the Bela Vista has been (between stints as a hotel) a Portuguese secondary school, a billet for British civil servants studying Cantonese, a hostel for refugees escaping Japanese occupation of Hong Kong and Shanghai, and a clandestine casino. Thanks to the renovation, the hotel's graying exterior has been replaced with a bright yellow-and-white facade, and on stepping into the lobby you feel as if you are entering the foyer of an old Portuguese family home.
There is no registration counter; the receptionist sits behind a beautiful antique desk under the winding staircase. Relax in a comfortable easy chair as she checks you in, then follow her to one of the hotel's eight rooms or suites, each decorated simply but elegantly in Portuguese style, accented with Oriental antiques. After checking in, take lunch on the Bela Vista's gorgeous veranda. On an average weekday, you'll find Portuguese government officials dining around you (the governor's mansion is a stone's throw away), and on weekends you'll see many foreign expatriates escaping Hong Kong's hectic pace.
After lunch, spend the day exploring Macau's winding back streets, where you can find Chinese antiques for half the price of shops on Hong Kong's Hollywood Road. Peer out at mainland China through the old border gate. Stop by St. Paul's Cathedral (which burned in 1835 during the Opium Wars, leaving nothing but the facade standing), and then visit the wine stores near the Leal Senado, Macau's legislature, where you can buy wonderful Portuguese wines and vintage Ports for a song.
The hotel's kitchen specializes in "Macanese" cuisine, incorporating Chinese and Portuguese culinary traditions. Begin with a plate of traditional Portuguese antipasto or dim sum dumplings filled with spicy Portuguese sausage. For the main course, try the specialty of the house: African Chicken, marinated in coconut milk and grilled to perfection. The wine list offers French and Californian selections, but you're in Macau, so choose from the hotel's extensive offering of Portuguese wines--they're inexpensive and terrific.
Of course, the highlight of the evening will be an after-dinner cigar, enjoyed with a selection from the Bela Vista's considerable cellar of excellent tawny and vintage Ports. We enjoyed a velvety bottle of vintage 1963 Krohn. The Bela Vista's humidor has a small, but high quality, selection of cigars, focusing principally on Cohibas and Davidoffs. Maitre d'hotel Alain Gomis says his dream is to build a cigar room supplied with nothing but the finest Ports and cigars.
For now, sit on the veranda, where at night the lights of the two bridges connecting the Macau peninsula to Taipa Island are strung across the horizon like glowing pearls. Or relax in the bar, which evokes the hotel's colonial feel better than any other room: solid white wood bar, plush green chairs, ceiling fans, tall palms and dark wood tables fitted with large, cigar-friendly Chinese porcelain ashtrays. Or, with cigar in hand, venture out to Macau's legendary casinos, including the gaudy casino at the Hotel Lisboa.
Simply put, the Bela Vista is a romantic reminder of Portugal's colonial past, and today stands as Macau's unquestioned crown jewel--well worth a day's excursion on your next visit to Hong Kong.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

"A Macao, le colonialisme survit, comme à Hong-Kong par la grâce de la Chine"

Excerto do artigo da autoria de Stephen Hugh-Jones intitulado "A Macao, le colonialisme survit, comme à Hong-Kong par la grâce de la Chine" e publicado em Janeiro de 1967 no Le Monde Diplomatique.

Pendant combien de temps encore la République populaire de Chine pourra-t-elle tolérer la présence du colonialisme à sa porte? Jusqu’en novembre, la colonie britannique de Hong-Kong et la colonie portugaise de Macao – toutes deux indubitablement chinoises par la géographie, la race et la culture – semblaient être les seules colonies au monde à l’abri de la virulence de l’anticolonialisme chinois. On n’en est plus aussi certain aujourd’hui.
A la mi-novembre des troubles ont éclaté à Macao, la police ayant empêché quelque peu brutalement certains Chinois (de race, il s’entend) de détruire un immeuble à la place duquel ils envisageaient de construire une école nouvelle. Des émeutes s’ensuivirent, on appela la troupe, il y eut des coups de feu, et des morts. Une foule chantant les pensées de Mao Tse-toung mit l’hôtel de ville à sac.
La réaction chinoise a été significative. Le 30 novembre, l’officielle agence d’information «Chine nouvelle» accusa les autorités portugaises de Macao de «sanglantes atrocités fascistes». Le 8 décembre, elle rapportait que les Chinois indignés condamnaient les «impérialistes» portugais, terme que Pékin avait jusqu’alors scrupuleusement évité d’utiliser en parlant des Portugais de Macao. Et le 11 décembre l’agence assimilait les Portugais aux «impérialistes anglo-américains».
Pékin pourrait s’il le voulait balayer la colonie en un éclair: et bien qu’il ait manifestement décidé de ne pas le faire, il faut tenir compte de cet avertissement. Les ennemis du colonialisme peuvent fort bien penser que le temps n’est pas encore mûr. En 1963 M. Khrouchtchev reprocha aux Chinois de ne pas vouloir libérer Hong-Kong et Macao. Ils lui rétorquèrent que ces colonies faisaient partie des territoires chinois perdus à la suite de «traités inégaux» et devant être récupérés quand les Chinois en jugeraient le moment venu – et que les Russes feraient bien de réfléchir aux conséquences qu’entraînerait une révision de tous les «traités inégaux». C’était une assez bonne réponse ad hominem, (...)

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Triumph TR2

Sucessor do TR1, o TR2 foi um modelo desportivo da marca britânica Triumph produzido entre 1953 (apresentado pela primeira vez no Salão de Genebra em Março de 1953) e 1955 (quando surgiu o TR3). Tinha um motor de 4 cilindros e 1991 cc e 90 cavalos de potência. Tinha como velocidade máxima os 172.7 km/hora e demorava 12 segundos a atingir os 100 km/hora.
Na primeira edição do GP de Macau o Triumph TR2  ocupou todos os lugares do pódio. Eduardo de Carvalho (na imagem acima), por Macau, ficou em 1º, seguido de Paul Du Toit  (carro nº 8 nas imagens abaixo) e de Reginaldo da Rocha (carro nº 14). 
Os "três magníficos" do GP de 1954
Na década de 1950 o carro viria ainda a 'subir' ao pódio em 1955 e 1957. Sempre na terceira posição e com o mesmo piloto, N. C. Fullford, por Hong Kong.

O Triumph TR2 de Eddie Carvalho no Museu do GPM
O Triumph TR2 à e vencedor do GP de 1954 à escala 1/43

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Refugiados chineses

(...) Macau tornou-se num abrigo para os refugiados, não apenas durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Japão ocupou as áreas vizinhas de Macau, mas também depois da guerra, quando os tumultos sociais no Sudeste Asiático e na África forçaram os chineses do ultramar a deixarem os seus países e a tornarem-se «chineses repatriados» em Macau, juntamente com os repatriados vindos do continente após os vários tumultos sociais. É por isso que os repatriados vindos da Birmânia, Indonésia, Indochina, Moçambique e de outros países, constituem uma grande percentagem da população de Macau e que fazem com que a sua cultura ultramarina seja mais forte. Muitos deles ainda mantêm a nacionalidade do país de onde vieram, enquanto muitos dos seus descendentes emigraram para outros lugares e adoptaram a nacionalidade de um país terceiro.
Nos anos 50, na República Popular da China, foram tomadas medidas diplomáticas para diminuir a tensão. Eliminou-se a possibilidade de dupla nacionalidade por parte de muitos dos chineses do ultramar residentes nos países do Sudeste Asiático. (...)
Excerto de artigo da autoria da Gary Ngai.

Distribuição de arroz aos refugiados no Campo dos Operários no final da década 1950

Excerto de documento assinado por Richard Brown, responsável pelo departamento de refugiados e migrações dos EUA, em 1962, dando conta da situação dos refugiados em Macau na época e do auxílio prestado pelo país.
Hon Philip A Hart, US Senate 
Dear Senator Hart 
I refer to your letter of July 25 1962 requesting a report of the refugee situation in the Portugese Province of Macau and a description of Far East refugee program FERP activities Since the occupation of mainland China in 1949 by the Communists.
Macau like Hong Kong has seen an almost continuous influx of refugees escaping from Communist tyranny. The refugee problem in Macau has however taken a different aspect from that in Hong Kong. This difference is due in part to basic differences between the two areas and until recently to the relatively easy movement of people between the two oversea possessions.
The British Colony of Hong Kong is roughly 20 times larger in area and its population of about 3.3 million is 16 times that of Macau. The annual Government revenue for Macau in 1960 was US $4 million while that of Hong Kong for the same year was US $151 million.
Hong Kong depends for its wealth on its industries and commerce while Macau has little of either and derives most of its income from import duties and the granting of concession licenses for gold importation and gambling.
In view of its larger size Hong Kong has offered far greater opportunities to refugees than Macau. This combined with easy movement between the two areas has resulted in a very high proportion of the refugees entering Macau moving onward in a short time to Hong Kong. 
Indicative of this is the fact that while the population of Hong Kong has mushroomed since 1949 and includes over 1 million refugees that of Macau has remained fairly static during the same period. Since Hong Kong was the final destination of almost all refugees fleeing Red China the FERP relief efforts were centered there until 1960. Late in 1959 attention was focused on Macau because of the condition of those refugees remaining there instead of proceeding to Hong Kong. These were blind refugees who after fleeing or being forced to leave Communist China were found to be living in great squalor and want on the streets of Macau.
In 1960 the American Foundation for Overseas Blind AFOB with the help of FERP funds began the construction of a center for blind refugees where they could be registered cared for and given vocational training and classes in braille. At about the same time as the AFOB commenced its program in Macau the National Catholic Welfare Conference NCWC started several projects for the relief of other refugees remaining in Macau. These included a nursery and clinic for refugee children a small housing project of 80 cottages and with funds made available by the US contribution to World Refugee Year a community center where vocational training and other services could be made available to refugees. In addition to these projects American surplus agricultural commodities were distributed in Macau by the NCWC and CARE.
During 1960 FERP contracts in the amount of $96,000 were signed for relief projects in Macau. This amounted to nearly 10 percent of the total FERP program for that year. In 1961 increasingly strict controls were placed by the British on travel from Macau culminating in September with the virtual halting of legal immigration to Hong Kong from Macau.
The great influx of refugees into Hong Kong from China in May of 1962 was matched by a proportionate increase for Macau. With the halting of legal migration to Hong Kong this influx has led to an unprecedented increase in the number of refugees staying in Macau Illegal smuggling of refugees from Macau to Hong Kong carried on with great energy and no small profit by small boat owners in both colonies has maintained to a considerable extent the flow of refugees from Macau to Hong Kong and while causing concern to the British authorities has helped to keep the situation in Macau from becoming more serious than it otherwise might have been (...)
Excerto de um memorandum de Martin J. Forman que esteve em Macau para se inteirar sobre o problema dos refugiados nos primeiros na década de 1960.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Vista aérea da Taipa: 1934

Em 1934 o "Dilly" voou no céu de Macau.
Num dos registos fotográficos pode ver-se a ilha da Taipa.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Museu Marítimo: tudo começou há 100 anos

A criação em Macau de um museu dedicado ao estudo e divulgação das actividades relacionadas com o mar remonta ao ano de 1919. Por iniciativa do então adjunto do capitão dos Portos de Macau, primeiro-tenente Artur Leonel Barbosa Carmona, foi criado o espaço no Quartel dos Mouros. O Museu Marítimo e de Pescarias ficou instalado na Capitania dos Portos até ser mudado, em 1934, para o Hangar da Aviação Naval que viria a ser bombardeado em Fevereiro de 1945.
Em 1986, por iniciativa do Comandante António Martins Soares, então capitão dos portos de Macau, uma antiga moradia (de cor verde construída na década 1950) localizada no Largo do Pagode da Barra, foi adaptada para albergar o espólio do Museu. Este espaço foi inaugurado em 1987 (7 de Novembro) com o nome de Museu Marítimo de Macau  e Centro de Estudos Marítimos de Macau mas depressa se tornou pequeno. 
Assim a 24 de Junho de 1990 inaugurava-se um edifício construído de raiz - autoria do arquitecto Carlos Bonina Moreno - que ainda hoje alberga o Museu Marítimo de Macau.
Pode ver um exemplar de um bilhete de entrada no museu na década de 1980 aqui.

Curiosidade: 
Na Exposição Universal de Paris de 1900, foram exibidos cinco modelos à escala de embarcações chinesas que seriam agraciados com Grand Prix na mostra e que faziam parte do espólio do primeiro museu marítimo de Macau, datado de 1919, mas que foram destruídos aquando do bombardeamento do hangar do Porto Exterior em 1945. *
Um desses modelos pode ver-se na imagem do lado esquerdo.

* Em 1950, reconhecendo o erro, o Governo dos EUA indemnizou Portugal num montante superior a 50 milhões de Dólares

The history of the Macau maritime museum dates back to 1919, where the Marine Department had a room of exhibits in what is now its headquarters, in the Moorish Barracks.
In 1934 pieces belonging to the museum were moved to a hangar in the Naval Aviation Centre (outer harbour) destroyed by the attack of the U.S. Navy airplanes in the beggining of 1945.
In 1986, Commander António Martins Soares, the Macao harbour master, proposed the idea of a museum. It opened in a two-storey colonial house from 1950's (green - see photo)  in the Largo do Pagode de Barra in 1987. Because the space was too small, the government decided that they needed a larger area and a new building was built and opened on 24th June 1990.
Sugestão de leitura:
"Museu Marítimo de Macau": de Manuel Bairrão Oleiro e Rui Brito Peixoto, Macau , 1992.