sábado, 21 de abril de 2018

O fascínio do Templo de A-Ma

Dos mapas mais antigos às fotografias digitais, dos desenhos às pinturas, das gravuras, aguarelas e pinturas a óleo, o templo de A-Ma é desde sempre um dos motivos eleitos quer por anónimos quer pelos artistas conhecidos.
Uma das primeiras referências bibliográficas remonta ao século XVI quando o missionário Matteo Ricci (1552-1610) visitou Macau em 1582 e descreveu o templo em "A China no Seculo XVI: Os Diários de Matteo Ricci".

Depois dele e ao longo de vários séculos, foram muitos os pintores que se renderam ao fascínio do local. Veja-se este desenho da autoria de Chrétien-Louis-Joseph de Guignes (1759-1845), publicado no livro “Voyages a Peking, Manille et l’Île de France faits dans l’intervalle des années 1784 à 1801”. 

Borget
E ainda os trabalhos do britânico George Chinnery (imagem abaixo), do pintor francês Auguste Borget (imagem acima), do médico britânico Thomas Watson e do macaense Marciano Baptista.
G. Chinnery

Thomas Watson
Jules Itier não esqueceu o espaço nos primeiros registos fotográficos do território em 1844 e já em meados do século XX merecem destaque os registos a preto e branco do português José Neves Catela.


Borget
Born into a well-to-do family in Issoudun, Auguste Borget forsook a career in banking to study art. He attended the atelier of Jean-Antoine Gudin in Paris, and became a close friend of Honoré de Balzac, with whom he shared na apartment. In October 1836 Borget embarked on a tour westwards around the world, sketching as he went; in the course of this journey he spent over ten months on the China coast in 1838-9. His Chinese scenes were
published as lithographs with accompanying text in La Chine etles Chinois (1842).
Watson
The Scottish-born Thomas Boswall Watson came to Macau as a physician in 1846; he moved on to Hong Kong in 1856, and returned to Britain in 1859. In Macau he became the friend, doctor and pupil of George Chinnery during the artist’s last years. He was himself a capable amateur artist, and some (although by no means all) of his drawings are evidently inspired by Chinnery’s work. Watson acquired a number of drawings by Chinnery, some of which - it has been speculated - were given to him in lieu of medical fees.
Chinnery
English painter, active for almost all his career in the Eastern world. After leaving London in 1802 he worked in India until 1825 and then for the rest of his life in Macao, from which he made visits to Canton and Hong Kong. He made his living principally as a portraitist, but his reputation now rests mainly on the pictures of Indian and Oriental life and scenery that he made for his own pleasure.
Templo de T'in Hau - ilustração século XIX - autor desconhecido

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Aomen Shi quan tu / City plan of Macau / Mapa da cidade de Macau

Aomen Shi quan tu / City plan of Macau / Mapa da Cidade de Macau
Reproduzido no "Anuário Comercial e Industrial 1952/53 / From "Commercial and Industrial Yearbook" 1952/53.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Aforamentos...

"(...) À chegada a Macau, seguindo o conselho do chefe de repartição do Ministério do Ultramar, MSM fica hospedado no hotel Hing Kee, na Praia Grande, perto do Palácio do Governo. Mais tarde muda-se para uma casa na rua do Padre António (freguesia de S. Lourenço).
Em Outubro de 1903 assina um contrato de aforamento com o governo de Macau (3 avos/m2) de um terreno com 600 m2 sito na encosta da “montanha e matta da Guia”. No ano seguinte inicia a construção de uma mansão naquele local, na encosta da Colina da Guia, sobranceira ao cemitério dos Parses. Fica no cruzamento da Rampa da Guia (actual Estrada do Engenheiro Trigo com a Estrada de Cacilhas, Estrada dos Parses e Calçada da Vitória). Na época os regulamentos não exigiam a elaboração de uma planta para as habitações construídas fora dos limites da cidade, mas Silva Mendes, meticuloso, manda fazer o projecto talvez porque a construção foi feita em regime de empreitada. MSM acompanhava o andamento das obras e quando não gostava do resultado final mandava fazer de novo.
A obra fica pronta por volta de 1906/7. Na edição de 14 de Dezembro de 1908 da revista “Illustração Portugueza” (nº 147) surge uma fotografia da Casa Silva Mendes com a legenda “Pharol da Guia e Casa Silva Mendes”. Só em 1913 foram construídos os muros que delimitavam o terreno com um total de perto de 2000 m2. A propriedade tinha um poço e, alguns anos mais tarde, passa a ter uma cisterna. Para isso MSM faz um aforamento de um terreno com 300 m2 em Outubro de 1914. A fachada principal dava para a Estrada de Cacilhas mas a entrada para a casa fazia-se pela Rampa da Guia. Num registo de aforamentos da época surge a designação Vila Silva Mendes. (...)"

in Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931, João Botas, autor/ICM, 2017



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Relatórios sobre a Gruta de Camões no final do século 19

Relatório do Director das Obras Públicas da Província de Macau e Timor José Maria de Sousa Horta e Costa relativo ao ano de 1885 e datado de 1 de Julho de 1886.
“No jardim da gruta de Camões, fizeram-se trabalhos mais importantes. Levantou-se um grande muro, que abatera com as chuvas em que se despenderam $430,00. Abriram-se novas ruas, construiu-se um pequeno jardim com canteiros limitados por pedras britadas e de cores differentes, compraram-se em Cantão muitas plantas para o adornar, bettonaram-se muitas ruas, empregando uma dosagem tal, que resistisse ás chuvas, como de facto tem succedido, construiu-se um viveiro com canteiros limitados de tijolo vermelho, levantou-se provisoriamente um kiosque de bambú e óla para a banda de musica, mandaram-se fazer 20 bancos de madeira, que custaram $120,00, picaram-se todos os degráos de cantaria ali existentes, e fizeram-se outros trabalhos para adorno e embellezamento.
Este sítio, ultimamente adquirido pelo governo, não só pela tradição historica, que lhe está ligada, mas por ser um dos pontos mais bellos e pittorescos de Macau, merece que se lhe preste uma grande attenção, e não hesito em confessar, que esta direcção não tem tempo nem pessoal para cuidar devidamente. É n’este sitio, que se ergue a gruta, onde, si vera est fama, o nosso eminente epico, Luiz de Camões, compôz parte do seu magnifico poema, conhecido hoje em todo o mundo civilizado, e traduzido em quasi todas as linguas.
Esta gruta formosissima achava-se precedida por um portico de alvenaria, e tapada com uma grade de madeira, que a desfeiavam bastante, e sobre ella levantava-se um kiosque de pouco gosto e em máo estado. Tudo isto foi arrancado, conservando-se apenas a obra da natureza, devendo mais tarde este local ser devidamente adornado.
O que ha a fazer aqui? Muito, mas a verba distribuida é tão pequena, que pouco sobrará depois de pagar as despezas ordinarias. E é pena isto. Ha aqui local proprio para se construir um lago, cujas aguas, subindo por meio de bombas, de poços existentes ali, desçam depois formando repuxo. Tem espaço para reter alguns animaes mais raros, e tornar-se assim de curiosidade zoológica, e o viveiro, já mencionado, e magnificamente disposto para ali se dislfibuirem, por classes e familias, differentes plantas, podendo fazer-se assim um attencioso estudo da flora da colonia, o que com certeza é util e instructivo.
Apezar porém de tudo isto, da falta de meios, de tempo e de pessoal, eu jamais descurarei este local, que a cidade de Macau tanto deve appreciar, e que por tantos motivos lhe deve ser caro”.

José Maria de Sousa Horta e Costa que esteve em Macau como Director das Obras Públicas em 1886 (na altura tenente de Engenharia); seria governador de Macau entre 1894 e 1896.

Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor referido ao ano de 1985 elaborado pelo Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos e datado de 1 de Fevereiro de 1886.
“1885 - Bairro de S. António: “Do lado N fica a casa ou palacete e uma formosissima quinta; cujo dono ha pouco era o sr. Comendador Lourenço Marques, e que actualmente pertence ao estado. N’esta quinta está a gruta histórica de Camões. Foi esta importantissima e formosa propriedade comprada ha pouco pelo Ex. mo Sr. Governador Thomaz Roza, logo que soube que o proprietario a negociava com os missionarios francezes. Por 35:000 patacas se satisfez um dever patriotico, por todos sentido e já pela illustrada sociedade de Geographia lembrado, por ocasião da celebração do tricentenario do Camões.*
Descrever a belleza d’aquella quinta, fallar d’aquellas gigantescas arvores, cujas, raizes abraçando caprichosamente as rochas, encantam e extasiam o observador, não é para aqui, nem eu, por incompetente, assumiria tal encargo. Muitas aplicações pode ter tal vivenda, supponho porem que a melhor entre todas, e a que está lembrando aos que a conhecem, é para museu, jardim zoologico e botanico. Em melhores condições naturaes não está decerto o bello e novo museu em Singapura. A idea não é minha, mas seguramente applicação melhor e mais conveniente não pode ter. Corre que ha muito em tão importante e instructivo melhoramento pensa o Ex.mo Sr. Thomaz de Souza Roza. Se conseguir realisal-o, é mais uma obra grandiosa do seu governo.
Em linha com a entrada de tão formosa e encantadora vivenda estão extensas ruínas, esqueletos de dois palacetes, triste recordação do anno de 1874. Pertencem ao mesmo sr. Commendador Lourenço Marques. Diz-se que o seu proprietario tenta de novo erguei-os para arrendar, pois que para si destina parte do grande palacio, que formando do lado SO a face do quadrado do espaçoso largo, foi agora erguido sobre as ruínas d’ um outro palacete que o mesmo tufão em intima alliança com um voraz incendio, conseguira abater. Igual sorte ia tendo a igreja de Santo Antonio que fica ao S. Em geral os edificios d’esta freguezia são de modesta apparencia.”
Augusto Pereira Tovar de Lemos ( ? - 1933), chefe de serviço honorário da província de Moçambique, chegou a Macau no transporte «África», a 1 de Janeiro de 1882, acompanhando como médico, o 1.º Batalhão do Regimento de Infantaria do Ultramar. Em Maio de 1884 foi nomeado cumulativamente ao serviço do 3.º Batalhão e Chefe interino do Serviço de Macau e Timor. Foi depois chefe interino algumas vezes (1885, 1887 e 1888), substituindo o Dr. Gomes da Silva, ausente por licença graciosa e/ou em missão de serviço a Timor e Sião. Regressou a Portugal em Outubro de 1889 para tratamentos e não mais regressou tendo morrido em Janeiro de 1933.
*A ideia de adquirir o Jardim Luís de Camões foi do antigo Capitão do Porto de Macau, João Eduardo Scarnichia, enquanto deputado em Lisboa, em 1880; o interesse de padres franceses em ali instalar um sanatório levou o governador Tomás de Souza Roza (1883-86) a decidir comprar a propriedade à família Marques.

terça-feira, 17 de abril de 2018

O número 1 da Rua Silva Mendes


Em Macau existe a chamada Casa Memorial de Sun Iat Sen. Ao contrário do que muitos pensam, não foi nunca a sua residência. Foi mandada fazer em 1912/1913, pela sua mulher, Lu Muzhen e pelo filho, Sun Fó /孫科, no nº 1 da Rua de Silva Mendes, junto à Av. Sidónio Pais, na zona da Flora.
Sun Iat Sen é o 4º em último plano a contar da direita
O edifício destruído em Agosto de 1931 pela explosão do paiol da Flora

Em Agosto de 1931 ficou praticamente toda destruída na sequência da explosão do Paiol da Flora sendo reconstruída em 1933. Em 1958 tornou-se Casa Memorial e foi aberta ao público como se mantém até hoje. De seguida, reproduz-se um texto da autoria de Luís Gonzaga Gomes, escrito em 1953, sobre aspectos da vida de Sun Iat Sen.
"O vulto mais proeminente da história contemporânea da China é, sem dúvida, Sun-Iât-Sin, que os chineses deificaram, cognominando-o de “Kuók-Fu”, isto é, “pai da nação”, não só por ter ele sido um dos principais fautores da República Chinesa, como ainda pelo facto de ter sacrificado, com modelar abnegação, toda a sua vida, em proveito da grande reforma social, que visava transformar o seu país numa nação próspera o europeizadamente civilizada.
Natural de Tch’ói-Hâng, insignificante vilório que dista apenas uns poucos de quilómetros de Macau, era petiz de treze anos quando partiu para Honolulu, a fim de se juntar a um irmão mais velho que prosperava nessa longínqua “Pérola do Pacífico”.
Após cinco anos de estudos elementares, regressou à terra natal, para seguir pouco depois para Hongkong, onde fez os preparatórios no “Queen’s College” e, em 1892, formou-se brilhantemente no “Medicai College” dessa mesma cidade.
Os ininterruptos vexames impostos pelo estrangeiro à sua pátria, despertaram pouco a pouco, lentamente, no seu ser o espírito de revolta, e não lhe foi difícil ver que o motivo primacial porque o seu país se encontrava debilitado e incapaz de reagir à então desenfreada cupidez dos estranhos, residia na completa inépcia do caquético e anacrónico regime monárquico, totalmente arruinado e enfraquecido pela corrosiva venalidade e pela estulta incompetência de imbecilizados eunucos que eram os que nesse tempo retinham de facto, nas suas mãos, os destinos da nação chinesa.
O malogrado Kuóng-Sôi, jovem e inexperiente monarca, quando subiu ao trono, em 1875, tentara reformar o país. Mal avisado, porém, pelo aliás bem intencionado Hóng-lâu-Uâi, ousou prematuramenta derruir, no curto espaço de cem dias, costumes e leis milenariamente consuetudinários mas, traído vilmente pelo seu lugar-tenente, Un-Sâi-Hói (Yuan-Shih-Kai) - o maior funâmbulo da política chinesa que, vindo depois a ser Presidente da República, tentou restabelecer a Monarquia, proclamando-se seu imperador,— foi por este entregue à valetudinária e cruel imperatriz reinante que, ao saber que uma das intenções do incauto Kuóng-Sôi era afastá-la definitivamente do trono, não hesitou em repetir um desses actos de tragédia medieval, fazendo sequestrar o malaventurado imperador, durante quarenta longos anos, entre as quatro paredes desprovidas de janelas dum dos pavilhões da Cidade Interdita.
Gorara assim um infortunado tentame cujo desígnio almejava uma drástica reforma do complicado sistema político chinês - a introdução do sistema democrático, no seu aspecto mais liberal possível, em substituição dum absolutismo intransigente e imutavelmente conservador.
Desfeita a ténue esperança que os espíritos liberais - os verdadeiros patriotas daquela época - mal vislumbraram, não existia outro meio de salvar a nação, que estava caminhando a passos largos para o vórtice, senão escorraçar do mando os odiados eunucos, conselheiros da déspota imperatriz-mãe, e segregar do mando os incompetentes e malversadores mandarins, os sátrapas do sistema monárquico chinês.
Não era fácil lutar contra os interesses dum sistema político que séculos de experiências constituíra em uma admirável organização; contra uma escola mental, formada por retrógrados letrados que, por se encontrarem obcecados com os obsoletos conceitos filosóficos dos seus cânones clássicos se julgavam possuidores da sabedoria universal, repudiando por isso qualquer ideia inovadora; contra os mandarins, classe privilegiada que retinham o poder e a riqueza; e, contra milhões de indivíduos mal dispostos a ceder o seu modo do vida que supunham irrefragavelmente o melhor do mundo por outro deles inteiramente desconhecido. Provocar, pois, uma revolução, num meio tão hostil, era tarefa hercúlea que demandava longos anos de proselitismo para se poder obter algumas probabilidade de êxito.
Estava, porém, lançada a sorte, e Sun-lât-Sin não trepidaria ante nenhuma dificuldade. Impulsivo, dominando facilmente quem o ouvia com a magia das suas palavras, principiou a sua campanha de aliciação, organizando uma sociedade secreta que tentou um ataque contra o “Yamen” de Cantão, em 1895. Fracassada a tentativa e acossado pela polícia manchú, o visionário patriota foi obrigado a exilar-se. Fugiu para Hauai, para Londres, para terras diversas, sempre perseguido. Na sua vagabundagem, de cidade em cidade, o seu lúcido espírito não descansava, ia observando, estudando e absorvendo novas idéias que ficariam mais tarde consubstanciadas no “Sám-Mân-Tchü-I” (os Três Princípios do Povo). Em todos os lugares ondo encontrava um núcleo de compatriotas não lhe faltava o apoio moral e financeiro dos mesmos.
Durante esse agitadíssimo período da sua vida, Sun-Iât-‘Sin   teve de albergar-se  várias vezes em Macau, e, numa ocasião estabeleceu a sua residência e consultório na Rua das Estalagens, no prédio onde hoje se encontra instalada a firma de sedas “U-Tip-P’ât-Tâu”, porventura o primeiro onde a clínica europeia foi exercida por um cidadão chinês. Sun-Iât-Sin, necessitava de se dedicar à, sua profissão de médico, não só para ocultar a sua verdadeira actividade, como para obter recursos, a fim de poder manter-se, tanto a si como aos seus correligionários mais necessitados.
Esse consultório em breve se transformou em refúgio dos mais importantes monarcómanos, tais como: lèong-Hók-Leng, lâu-Lit, Uóng-Hák-Kéong, o mais ardente de todos, lu-Tchéong-Pou e outros. Pela calada da noite, os conjurados efectuavam o seu corrilho no consultório e aí recebiam as instruções do chefe, e, numa mesma cama, dormiam os lugares-tenentes de Sun-Iât-Sin, quando após horas de truculenta discussão a fadiga os obrigava a descansar.
Como médico, Sun-Iât-Sin era extremamente habilidoso. Entre a sua numerosa clientela, figurava um nevrópata, filho do ricaço Lou, que, minado pela atroz doença que o lançava em constantes ataques de melancolia, depois de ter recorrido sem sucesso algum à ciência dos mais famosos curandeiros da época, só alcançou ser curado por Sun-Iât-Sin.
Grato   por  quem   conseguira   restituir a serenidade ao espírito atribulado do seu estremecido filho, Lou-Si   ofereceu-lhe   um  medaIhão de oiro,   onde  estava  gravado  o eterno testemunho   do   seu  reconhecimento, nos seguintes termos:  “São mútuas a sua habilidade e a sua bondade”. Pouco depois, Sun-Iât-Sin teve de abandonar o seu consultório para ir exercer a sua actividade de revolucionário em outros lugares.
Todos os seu pertences foram então confiados à guarda de Ièong-H’ók-Leng e, quando este morreu, foram entregues aos cuidados da viúva do ricaço Lou-Si. Entre essas relíquias existia um filtro onde lèong-H’ók-Leng pincelara este conceito ditado pela sua admiração ao caudilho: “Ansioso desígnio tão puro como a água”. Com o decorrer dos anos, o filtro passou a ser propriedade de Lèong-Im-Mêng, director que foi da Escola Secundária Sông-Sât de Macau, que o ofereceu ao Museu dos Cinco Andares de Cantão, a fim do mesmo poder ser admirado e reverenciado por todos os cantonenses.


No intuito de perpetuar a memória de Sun-Iât-Sin em Macau, Tch’àn-Tchân-U, aliás Tch’ân-Meng-Sü, quando foi escolhido pelo general Tchèong-Kái-Seak para presidente do Governo Provincial de Kuóng-Tông, com sede em Cantão, pensou em adquirir o edifício onde aqui esteve instalado o consultório de Sun-Iât-Sin, a fim de o transformar em um “Pavilhão de Recordação de Tchông-Sán”. Esta ideia, porém, não chegou a vingar porque Tch’àn-Meng-Sü pouco tempo se demorou no poder, em virtude do golpe de estado, provocado em 28 e 29 de Abril de 1931, pelo seu rival o general Tch’àn-Tchái-T’óng, comandante do  8.° Corpo do Exército Nacional Revolucionário.
Em frente do Quartel de Artilharia, na Rua Silva Mendes, existia uma casa que servira de habitação à mulher de Sun-Iât-Sin e que foi destruída no pavoroso desastre da explosão do paiol da Flora, em 1928. Em seu lugar ergue-se hoje um magnífico edifício (foto acima), em estilo mourisco-modernista, encontrando-se no meio do seu pequeno jardim a estátua de Sun-Iàt-Sin, em bronze e tamanho natural. É nesta casa que o seu filho Sün-Fó, um dos mais importantes vultos da política chinesa, costuma residir, quando de passagem por Macau para a sua aldeia natal."
PS: utilizando o motor de pesquisa do blogue e/ou as "etiquetas" podem ser encontrados inúmeros posts sobre o tema.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

As ilhas num folheto turístico: década 1980

Templos, praias, pousadas, estradas, fábrica de panchões, as vilas da Taipa e Coloane bem como as estradas são algumas das informações dadas num guia turístico do início da década de 1980 sobre Macau de que apresento aqui apenas a parte relativa às ilhas.
A Ponte Macau-Taipa inaugurada a 5 Outubro 1974 - imagem acima - foi decisiva para o desenvolvimento das ilhas. Antes fora o istmo - zona actualmente denominada por Cotai - a ligar as ilhas da Taipa e Coloane (imagem abaixo).
Imagem da década de 1980 antes dos aterros que transformaram esta zona.
Praia de Hác Sa (tradução: areia preta)
Na Taipa
Coloane

domingo, 15 de abril de 2018

A 'gare marítima' da Ponte-Cais nº 16



1951年4月7日十六號碼頭(Ponte 16) 由澳督柯維納(Albano Rodrigues de Oliveira)剪綵開幕啟用。澳門大資本家傅德蔭在1947年已提出拆卸舊16號碼頭,並出資重新建造新碼頭,政府考慮到其計劃有利澳門經濟發展及其逼切性,予以批准。傅德蔭委托施約翰工程師負責新碼頭設計,由周滋汎負責拆卸舊碼頭,並承建新碼頭。該碼頭位於新馬路與內港交界,是澳門重要的海上門戶。由於十六號碼頭昔日停泊傅氏旗下德記船務公司行走港澳的「大來號」客輪,所以又稱為「大來碼頭」和「德記碼頭」;當時傅德蔭的辦公室也設於十六號碼頭。
A inauguração da Ponte Cais nº 16 ocorreu a 7 de abril de 1951 (ainda que na fachada surge o ano 1948), era governador Albano Rodrigues de Oliveira. O projecto para o novo cais no Porto Interior nasceu em 1947 e foi financiado pelo empresário e magnata do jogo, Fu Tak Iam. Preparava-se para abrir uma empresa de navegação marítima (a Tak Kee Shipping & Trading Co. Ltd que faria as ligações Macau-Hong Kong) com as mais modernas embarcações e precisava de uma doca que correspondesse às exigências de embarcações como o Tai Loy (大來), o 'grande' ferry da época (capacidade para mais de 700 passageiros) e o primeiro com casco de aço a ser construído em hong Kong depois da segunda guerra mudial. A ponte-cais, curiosamente, também viria a ficar conhecida entre os chineses, como o "grande cais".
Na imprensa da época a inauguração da nova gare marítima não passou despercebida:
"No dia 7 de Abril de 1951, inaugurou-se a ampla Ponte-cais n.º 16, sólida construção, em cimento armado, de linhas modernas e singelas, situada mesmo à entrada da Avenida Almeida Ribeiro, a principal artéria da cidade."
 
 O Tai Loy atracado na ponte-cais 16 tendo atrás o Grand Hotel Kuok Chai

sábado, 14 de abril de 2018

Ligações telefónicas de e para a Taipa: 1954

No Boletim Oficial do final de Outubro de 1954 a Repartição Central dos Serviços dos Correios, Telégrafos e Telefones de Macau dava a conhecer as "instruções" para se fazer "qualquer chamada" telefónica de Macau para a Taipa e vice-versa e ainda "entre os telefones da Taipa". Neste último caso "levanta-se o auscultador e quando ouvir a nota cantante e alternada (sinal da estação), faz-se o número desejado".
Largo do Senado na década de 1950 com cabine telefónica
Pedido instalação telefónica: 1976

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Through China with a Camera (1898)

Macao is interesting as the only Portuguese settlement to be found on the coast of China. It may be reached by steamer either from Hongkong or Canton, and it is a favourite summer resort for the residents of our own little colony. In that pretty watering-place we may enjoy the cool sea-breezes, and almost fancy, when promenading the broad Praya Grande, as it sweeps round a bay truly picturesque, that we have been suddenly transported to some ancient continental town. Macao is a magnificent curiosity in its way. The Chinese say it has no right to be there at all ; that it is built on Chinese soil ; whereas the Portuguese, on their part, allege that the site was ceded to the King of Portugal in return for services rendered to the Government of China.
These services, however, cannot have been properly appreciated, for the Chinese in 1573, built a barrier-wall across the isthmus on which the town stands, to shut out the foreigners. The place has had a chequered history since the time of its original foundation, sometimes being under its own legitimate Government, and at others being claimed and ruled by the Chinese. But its history, however important to the parent country, had better be left alone, more especially as there are passages in it which reflect no great lustre on the nation whom Camoens adorned.
The main streets in Macao are deserted. The houses there are painted in a variety of strange colours, some of the windows being fringed with a rim of red, which gives them the look of inflamed eyes in the painted cheeks of the dwellings. But there are magnificent staircases, wide doorways and vast halls, though the inmates for the most part are a very diminutive race; they are called Portuguese, but they suffer by comparison with the more recent arrivals from the parent land, being darker than the Portuguese of Europe, and darker even than the native Chinese. There is trade going on the streets, but it is of a very languid kind, and the gambling-houses, or the cathedral are the chief places of resort. The forts are, of course, garrisoned with troops from Europe.
At 4 p.m. or thereabouts, the settlement wakes up; carriages whirl along the road; sedan chairs struggle shorewards, that their occupants may taste the sea-breeze; and the mid-day solitudes of the Praya Grande have been converted into a fashionable promenade. Ladies are there too, attired in the lightest costumes and the gayest colours; some of them pretty, but the majority sallow-faced and uninteresting, and decked out with ribbons and dresses, whose gaudy tints are so inhar- moniously contrasted, that one wonders how Chinnery the painter could have spent so many of his days among a com- munity so wanting in artistic tastes. The young men - for there seem to be no old men here, at least all dress alike, quite irrespective of years - are a slender race, but not more slender than diminutive.
But if Macao is interesting as a Portuguese settlement, and the only one which now remains to Portugal of those which her early traders founded in China, it can also boast of historic associations, giving it a special and independent Approach to Buddhist Temple, Macao, attraction. Here the poet Camoens found a retreat, and here too, Chinnery produced a multitude of sketches and paintings, which have really had some influence on art in the south of China. (...)
Excerto do Livro Through China with a Camera (1898), John Thomson
John Thomson (1837-1921) fez a sua primeira visita à China entre 1868 e 1872 registando a vida e os costumes locais através da fotografia. Visitou Macau, Hong Kong, Guangzhou, Shantou, Fuzhou, Xiamen, Taiwan, Shanghai, Ningbo, Nanjing, Sichuan, Tianjin, Beijing e Pequim, entre outros locais.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

“Ancoradouro da Taipa: Nomes do Passado e do Presente”


A exposição “Ancoradouro da Taipa: Nomes do Passado e do Presente” está patente na Casa de Nostalgia das Casas da Taipa até 18 de Junho (excepto à 2ª feira), entre as 10 e as 19 horas.
A actual zona do COTAI era onde se localizava em tempos o Ancoradouro da Taipa, pelo qual passavam frequentemente muitas embarcações comerciais estrangeiras. Com a apresentação dos topónimos do passado e do presente, a exposição que decorrerá na zona do Ancoradouro da Taipa, dá a conhecer este pedaço de terra aos visitantes e episódios históricos que aí tiveram lugar.
A mostra inclui numerosos artefactos de significado histórico, incluindo mapas antigos de Macau tais como o “Mapa do Ancoradouro da Taipa e de Macau do século XVIII” e o “Mapa de Macau e das ilhas das imediações (1891)”, assim como livros antigos como Hai Dao Tu Shuo (Roteiro Náutico) e Guangdong Tongzhi da dinastia Qing.
A este propósito recordo algumas informações sobre a Taipa. Veja-se o que refere o "Regulamento da Alfândega de de Macao" em 1845 sobre a Taipa (excerto):
Art. 1- Os capitaens de navios mais embarcaçoens mercantes nacio naes ou estrangeiros que a Rada de Macao ou Taipa sáo a receber o registo de Alfandega bem assim a vizita do guarda mor de quem suas vezes fizer; os navios que ancorarem da Barra com carga receberað alem da vizita os guardas que o guarda mor collocar para vigia navio
Art. 2- Quando os navios a descarregar mercadorias para os capitaes sáo obrigados a no registo se effectuara a dentro do porto ou na Taipa.
Art. 3 - Os navios que entrarem ancoradouro da Taipa poderāo para Macao ou para outros alli estacionados ou ficarem com mercadorias abordo não sendo a nenhum fazer leiloens de alguma alli.
Art. 4 - He exceptuado da regra cima o artigo Opio.
Art. 5 - Os navios que na Taipa findos 14 dias sáo a pagar a ancoragem de 5 mazes toneladas e esta ancoragem vallera o navio por hum anno quer entrem ou saiāo dentro do anno huma ou vezes sáo sujeitos a ancoragem so embarcaçoens de 100 toneladas cima. Art. 6 - Quando tenhão de em Macao os capitaens dos dentro de 48 horas depois de sáo obrigados appresentar manifesto n alfandega em Portuguez com a divida descripcio dos artigos volumes marcas numeros e dos consignatários.
Art. 7 - Os capitaens dos fundeados na Taipa ou no rio essencialmente responsavies abordo inteira execuqāo das ordens que forem communicadas da parte dálfandega. (...)
Mapa de 1912

No livro de "Instrucc̨ões para navegar nos mares da India e China" escrito por James Horsburgh em 1845 também encontramos referências à Taipa:
(...)"Porto de Macao" que se forma entre a peninçula e a Grande Ilha Tui Lien Chau a Oeste hé estreito na entrada porèm tem 21 e 20 pés na baixamar chegado Forte de S Yago o qual está situado na ponta de Leste e daqui ao longo da de Leste Até á Cidade os fundos continuaõ quasi a ser os mesmos. Hum navio que vai para o porto he preciso que passe pella Taipa visto haver 13 pés na baixamar pelo meio do caminho entre a Taipa e a entrada do porto, porêm so mente 12 e 11 pés pelo grande espaço entre Cai cong e Macao.
O canal fica numa linha recta des o âncoradouro de Taipa atè á entrada do porto e para evitar a Pedra Mio (huma rodha alagada obra de 3 de milha a Leste da ponta do NE de Macacarira) he preciso cônservar a ponta do NE da montanha aberta a Leste de Macacarira ou ao passalla vê-se hum pouco mais do que por meio canal para a banda de Caicong. Daqui, goverme-se direito para a entrada do porto visto não haver outro perigo, excepto Panlangchi, huma rocha que ha da banda de Leste do canal do qual demora a ponta exterior do Mallou chou grande O 16 SO e a ponta do Forte de S Yago. (...). A ponta do NE da montanha enfiada pela ponta de Leste de Macacarira conduz saffo a Oeste de Pan Lang Chi e hum navio não hirà mui chegado a ella se a caso se não puzer a Leste de tirada da ponta de Oeste de Cai cong até à ponta do Forte de S Yago. Esta ponta se deverá montar de bastantemente perto ao entrar no porto e se quasi chegado à terra de Leste até ao ancoradouro que está emparelhado com a cidade. Alcançando licença do Governador hum navio destroçado pode virar de crena e reparar se neste porto, e em tal caso concederaó a hum Pratico o trazello da Rada, ou da Taipa, ao porto; porêm qualquer navegante adherindo às instrucções precendetes ou tendo em seu poder o excelente plano do Capitaõ P Heywoode, publicado por Laurie e Whittle em 1809, pode entrar com segurança na Taipa sem Pratico. (...)


terça-feira, 10 de abril de 2018

Os "stereoviews" de Milton M. Miller

Em 1862 a empresa norte-americana E. & H. T. Anthony publicou e vendeu stereoviews feitos por Milton Miller na China, Macau e Japão. Nessa colecção - Anthony's Stereoscopy Views - surge pelo menos uma paisagem de Macau - a Baía da Praia Grande - com o nº 25, intitulado "View in Macao - showing fort on the Hill".
Não se conhece ao certo quantas mais existem do território nesta colecção da empresa sedeada na Broadway em Nova Iorque. Em pesquisas efectuadas até agora detectei pelo menos mais uma fotografia de M. Miller feita em Macau com a legenda "a pregnant girl in Macao", um retrato de uma mulher grávida. Seriam de facto os retratos - que de certa forma Miller reinventou - que o tornariam famoso na época. 
Existe ainda uma foto com a legenda "View in Macao - showing fort on the Hill" que pode ser muito provavelmente a mesma deste stereoview: no topo vê-se a Fortaleza da Guia (ainda sem o Farol); em baixo está o Jardim de S. Francisco e o Convento de S. Francisco (demolido em 1861 para a construção do quartel como mesmo nome), faltando o Grémio (Clube) Militar que só seria construído em 1870

Mas quem foi Marshall Milton Miller?
No final da segunda guerra do ópio (1856-1860), franceses, norte-americanos e britânicos juntaram-se contra as forças da Dinastia Qing. Antes, na Primeira guerra do ópio (1839-1842) os britânicos também venceram e viriam a ficar com a soberania do que viria a ser Hong Kong. É pois entre meados e o final do século 19 que vários fotógrafos do ocidente rumam ao Oriente e fazem registos fotográficos, não só da colónia britânica, mas também da China, Japão e Macau. Ocorrem-me de repente os nomes de William Floyd e John Thomson. O do post de hoje, M. Miller, é menos conhecido, mas não menos importante.


Parte da Baía da Praia Grande em 1859
Em 1861 Miller coloca um anúncio no jornal "The Friend of China and Hong Kong Gazette" pedindo ajuda a quem possa ter informações sobre negativos roubados do seu estúdio em Cantão. Sabe-se que este norte-americano (1830-1899) começou por trabalhar num estúdio em S. Francisco (EUA) de Robert H. Vance por volta de 1856. Vance formaria uma sociedade com Charles Leander Weed - Weed & Howard studio, em Cantão - que levou Miller consigo (na verdade chegaria pouco depois, a 19 de Julho de 1860) quando resolveu fazer fotografias no Oriente por volta de 1860 tendo-se estabelecido em Hong Kong (chegou a 19 Janeiro 1860) com um estúdio de retratos. De acordo com a imprensa da época (anúncios), o estúdio estava equipado com uma "large solar camera by witch photographic portraits can be taken life size; this is the new invention to wich the Advertisers should call special attention".Em 1861 Weed mudou-se para Xangai e Miller ficou com o negócio mudando o nome para Miller & Co. Photographers. Depois de viajar e fotografar a China. Macau, Hong Kong e o Japão, regressaria à sua terra Natal, Vermont, em 1863, tendo-se retirado pouco depois e dedicado ao imobiliário.
Antes de partir Miller vende a empresa. A 5 de Janeiro de 1864 no jornal Hongkong Daily Press anuncia-se a inauguração de um novo estúdio de fotografia: "The undersigned late of the Firm of Miller & Co., Photographers, beg to inform the Community of this Colony that they have opened a Gallery in the house No. 68, Queen’s Road nearly opposite the Oriental bank, and are prepared to practise Photography in all its branches on an extensive and improved scale. Their Stock of Appliances and Materials embrace all the latest improvements and inventions. All orders for taking Views of Houses, Landscapes, Shipping, Likenesses of Horses and Favorite Animals, & Co., will be promptly and attentively executed."
Os negativos deixados por Miller e outros fotógrafos da época a trabalhar em Hong Kong seriam mais tarde (1868) comprados por William Pryor Floyd que fundou a Floyd & Co. (1868-1874).
Sugestão de Leitura: History of Photography in China: Chinese Photographers 1844-1879. Da autoria de Terry Bennett


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Obras do arquitecto Raúl Chorão Ramalho


Raúl Chorão Ramalho (1914- 2002) foi um arquitecto português que se destacou na geração de arquitetos modernistas em Portugal no período posterior à 2ª Guerra Mundial. Deixou obras construídas em Portugal Continental, Açores, Madeira, Macau e Brasil.
Frequentou o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa e a Escola de Belas-Artes do Porto, que conclui em 1947. Entre 1942 e 1945 trabalhou com os arquitectos Paulo Cunha e Carlos Ramos, trabalhou nos Serviços de Urbanização da Câmara Municipal de Lisboa (com Faria da Costa e Keil do Amaral) e na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização do Ministério das Obras Públicas. A partir de 1945 trabalhou em regime de profissão liberal.
Foi membro fundador do ICAT: Iniciativas Culturais, Arte e Técnica em 1946, ano em que participou na I Exposição Geral de Artes Plásticas, Lisboa (fez parte da comissão organizadora das exposições posteriores e participou nas mostras de 1947, 1948, 1951). Participou no I Congresso Nacional de Arquitectura (1948) e teve intervenção activa no Sindicato Nacional dos Arquitectos. Em 1950 abandonou o urbanismo para se centrar na arquitectura. Foi eleito Membro Honorário da Associação dos Arquitetos Portugueses em 1994 e recebeu o Prémio de Arquitectura AICA-Ministério da Cultura em 1997.

Projectada em 1963 pelo arquitecto Chorão Ramalho, a Escola Comercial Pedro Nolasco constitui uma das obras mais relevantes da arquitectura modernista de Macau. 
Sobre este edifício inaugurado a 28 de Maio de 1966, José Manuel Fernandes diz tratar-se de uma "Obra notável pela utilização de volumetrias articuladas entre si, com jardins, pátios e recreios, e também pela utilização de grelhas de ventilação adequadas ao clima local (1963-69: com painel de esgrafitos sobre mármore, de Luísa Fernandes). Funciona actualmente no espaço a Escola Portuguesa de Macau. Há muito que o edifício merecia ser classificado por forma a ser devidamente preservado.
Chorão Ramalho assinou os seguintes projectos em Macau:
Infantário Avé Maria, Estrada de Cacilhas (1963/70); Escola Comercial Pedro Nolasco, (1963/1966) - imagens acima - Av. Inf. D. Henrique; Torre de Habitação para Funcionários Municipais, Av. Sidónio Pais (1962/67); conjunto de "Casas Económicas" na Ilha Verde (1961/62); "casas para funcionários superiores", Av. Coronel Mesquita (1961/62).

domingo, 8 de abril de 2018

A colecção de arte chinesa de Silva Mendes


(...) “É lamentável que em Macau, onde tantas obras de arte se concentraram, nunca um museu se houvesse fundado, que ao menos parte delas recolhesse”. A afirmação é de Silva Mendes numa crónica publicada a 14 de Março de 1920 no jornal “O Macaense” onde acrescenta que “tudo se tem dispersado; e com mágoa há pouco tempo lemos numa revista inglesa de arte que não há muitos anos foi daqui para Londres levado bom número de pinturas de Chinnery, entre as quais uma de grandes dimensões representando uma vista panorâmica desta colónia.”
Ironia da história, a sua colecção de objectos de arte (barros, cerâmicas, quadros, bronzes, estátuas, etc…) virá a ser parte substancial de um museu de Macau logo após a sua morte em 1931. São então muitas as vozes que se fazem ouvir em Macau reclamando a compra da colecção de objectos de arte chinesa que os herdeiros tinham tornado público que iriam vender.
Numa notícia do início de 1932 um jornal local descreve a colecção. “Muito antes do falecimento do Sr. Silva Mendes, o jornal chinês de Hong Kong, Va Seng, publicava notas acerca de pinturas da sua colecção, algumas das quais classificava de relíquias. E, se é certo que nem todas terão o mesmo valor, não é menor verdade que são para cima de tresentas e cincoenta pinturas, escolhidas por (como dizem os coleccionadores chineses) o homem que mais conhecia a pintura chinesa no Sul da China. Mas não só as pinturas, embora seja o forte da colecção. São os barros: cerca de tresentos exemplares de vários tipos, espécimes das épocas que vão de Sung a Ch'in Lung. É a estatuária de bronze de Tang e Ming. São os bronzes preciosos de On a Sung. É a loiça funerária das mesas épocas. É a estatuária de barro, moderna, mas de autores afamados já no Sul da China, como Chang Nam e Pun Ioc Si. São, embora muito desfalcadas pela explosão do paiol da Flora, as porcelanas delicadas dos séculos XVIII e XIX. São os quadros de Chinnery: um auto-retrato, um crayon, quatro quadros pequenos, uma aguarela e duas paisagens do norte da Europa. São muitas, muitas, muitas coisas mais, que seria impossível citar aqui. Sem acrescentar que entre essas preciosidades se encontram algumas que interessam, particularmente, a Macau, como os cobiçados quadros de Chinnery, que nesta terra viveu e ensinou, como os dos seus discípulos Marciano Baptista e Lam Kua e como os de Belsito. É certo que só um destes pintores é português. Mas todos o são na arte; todos fixaram, na tela, motivos portugueses; todos sentiram a alma portuguesa.
Na edição de 23.2.1932 o jornal "A Voz de Macau" publica um artigo intitulado "Um Brado" onde é notório o apelo ao governo para adquirir o espólio de Silva Mendes. “Os jornais de Hong Kong anunciam a venda da colecção Dr. Silva Mendes: uma rara oportunidade para coleccionadores. À venda a bem conhecida colecção do Dr. Silva Mendes, etc... Numa época em que, como se diz, a preocupação da humanidade é o culto da arte, ler tal notícia sem um calafrio, sem um estremecimento, sem um protesto, seria uma manifestação de indeferentismo que, felizmente, se não nota em todos. Ainda há quem pratique um pouco esse culto e vibre de indignação ao ver anunciada, em língua estrangeira, a venda de uma colecção preciosa, seleccionada, durante trinta anos por um artista português em terra portuguesa. É na verdade uma rara oportunidade; uma oportunidade que devia ser aproveitada, não por coleccionadores estranhos, mas pelo Governo da Província. Macau passaria a ter um museu, digno desse nome, com a dupla qualidade de ser um elemento valiosíssimo para aqueles que quizessem dedicar-se ao estudo da arte chinesa e de atraír à Colónia curiosos, coleccionadores, artistas e estudiosos que, para isso, é sobejamente conhecida a colecção. (…) Há muito, há dezenas de anos, que se sentiu em Macau a utilidade e necessidade de um Museu. O Museu Luís de Camões foi aberto ao público há uns três ou quatro anos, e para o ser, foi necessário que as direcções que por ele passaram dispusessem de uma enorme força de vontade e se sujeitassem a muito trabalho e muitas sensaborias. É que o Museu não teve, nunca, nem dotação nem rendimentos; dos objectos que o constituem, uns são oferecidos e outros (a maior parte) depositados, confiados à guarda, conservação e responsabilidade individual dos membros da Direcção.
Possue já, é certo, alguns documentos de valor para estudo da nossa influência no Oriente; mas está longe de atingir os fins que tem em vista uma instituição desta natureza, o que só conseguirá quando o Governo da Província se decidir a aproveitar oportunidades raras, como a que se lhe depara agora. Está à venda a colecção Dr. Silva Mendes, um museu que, como disse o doutor Juiz Brito e Nascimento na sua oração fúnebre, "está aí a lembrar a administração da colónia a indesculpável incúria de não ter feito o mesmo em quatro séculos do governo. Que se procure, desde já, reparar essa incúria de quatro séculos. Que a administração da Colónia não perca a oportunidade de enriquecer o Museu Luís de Camões, enriquecendo, assim, o património artístico a legar aos vindouros.”
A 7 de Março de 1932 o presidente da direcção do Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões num ofício enviado ao Governador “chama a atenção do governo” para o facto de embora o museu “possua já alguns documentos de valor para o estudo na nossa influência no Oriente, está ainda longe de atingir os fins a que se propõe uma instituição desta natureza”. E assim, explica-se que “está agora à venda, anunciada já em jornais de Hong Kong, a colecção do falecido doutor Manuel da Silva Mendes, conhecida pelos objectos de valor que possui e que, adquirida para o Museu, o tornaria um dos melhores do sul da China, fazendo com que a Colónia fosse visitada por grande número de coleccionadores estrangeiros.” Mas, porque o museu “não tem dotação” sugere-se que seja “nomeada uma comissão a fim de estudar as possibilidades e condições de compra e fazer as propostas necessárias.”
Dois dias depois (9.3.1932) surge um despacho do governo (P.P. 813/1932) em que se propõe para analisar o assunto o Inspector da Instrução Pública. Este, logo no dia 10, propõe três nomes para essa comissão. O Encarregado do Governo, João Pereira de Magalhães, aceita a proposta e em Abril nomeia uma comissão “para estudar as possibilidades e condições de compra da colecção dos objectos de arte de Silva Mendes”. A comissão é presidida por António Augusto de Vasconcelos Raposo (sub-director dos Serviços de Fazenda e Contabilidade) e conta ainda com Pedro Guimarães Lobato (professor do Liceu) e Horácio Pais Laranjeira (advogado, foi ainda director da biblioteca nacional e do museu Luís de Camões sendo também coleccionador de arte chinesa).
Os membros da comissão admitem “não ter conhecimentos suficientes para definir o interesse que os objectos possam ter” (5.4.1932) e solicitam o apoio da Repartição do Expediente Sínico a quem dirigem de imediato um questionário e uma lista “dos objectos de arte chinesa que o governo pretende adquirir”. Dessa lista, que não se sabe se reflecte toda a colecção ou apenas os objectos que as autoridades admitiam comprar, fazem parte “7 quadros com incrustações de louça, um grupo de 9 objectos de louça azul, um grupo de 176 objectos de louça (porcelana), um grupo de 105 objectos de louça (porcelana) azul e branco, um grupo de 12 objectos de esmalte, um grupo de 28 objectos de jade, um grupo de 27 quadros, um grupo de 300 objectos de louça tipo Shek-Wan (barros), um grupo de 336 pinturas e álbuns, um grupo de 18 táboas com inscripções, um grupo de 60 objectos de bronze, um grupo de 50 objectos de louça tumular, um grupo de 32 objectos de louça, um grupo de 35 objectos de louça branca (porcelana e barros), um grupo de 12 estátuas (em bronze, madeira dourada e em pasta coberta com folha d’oiro), um grupo de 7 estátuas (em barro).” (...)

in Biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931), da autoria de João F. O. Botas, co-edição: autor/ICM, 2017
Nota: as fotos (das peças )deste post são da autoria de José Santos e foram tiradas em 1973.