quarta-feira, 29 de abril de 2026

O novo Centro Católico da Diocese de Macau

No ano em que a Diocese de Macau comemora o 450º aniversário* (fundação em 1676) será inaugurado o novo edifício do Centro Católico em Junho próximo. O edifício é composto por 17 pisos e inspira-se no conceito de "encontro entre Deus e a Humanidade". Foi desenhado em "forma de abraço, com uma cruz no topo para simbolizar a presença de Deus". Uma pintura na fachada inclui a inscrição "come and see" (Vinde e Vede), convidando à entrada do público.
Está localizado no cruzamento da Avenida da Praia Grande com a rua do Campo, no mesmo local onde foi construído o anterior edifício na década 1950. Ali, no nrº 113 da Rua da Praia Grande, estava localizada a biblioteca D. Policarpo, o Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social (criado em 1977) e a Livraria S. Paulo (do lado da Rua do Campo).
As novas instalações vão incluir uma capela, unidade hoteleira, instalações para refeições, salas de aula, salas de conferências e espaços para exposições.

O painel central em primeiro plano ilustra a passagem bíblica do Encontro de Jesus com a Mulher Samaritana no Poço de Jacob (João 4). Há uma legenda discreta no mosaico que identifica a cena em chinês e inglês: "撒瑪黎雅婦人 / Samaritan Woman".
Jesus é representado sentado, com vestes em tons de azul e branco, numa postura de diálogo e acolhimento. A Samaritana está de pé, segurando um cântaro amarelo, simbolizando a "água viva" referida na passagem.
O mural lembra outros existentes em Macau, nomeadamente os da autoria de Francisco Borboa.
Antigo edifício do Centro Católico construído na década 1950

*"Lema das comemorações "De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia".

terça-feira, 28 de abril de 2026

Cena do quotidiano da Rua de S. Lourenço na década 1960

A imagem é um registo histórico da Macau dos anos 60, capturando a essência da vida de bairro. O cenário é a Rua de São Lourenço, onde a arquitectura de matriz europeia (notória nas janelas de persianas e no edifício ao fundo, o Instituto Salesiano) serve de moldura para uma vivência puramente asiática. Em destaque as estruturas efémeras do comércio de rua, tão típicas da cidade.
A parede do edifício funciona como um "outdoor" orgânico, revelando a penetração de marcas globais e regionais na economia local: Green Spot, Orange Crush, Vitasoy e Sunkist são alguns dos cartazes expostos.
Neste exemplo da natureza híbrida da realidade de Macau sobressai o comércio de rua improvisado servindo refeições rápidas e bebidas (incluindo chá, certamente). No letreiro de fundo vermelho os caracteres em branco indicam 內育电冻冰水, ou seja, venda de bebidas frescas e nutritivas. No armário de vidro à direita estão o que parecem ser pães e bolos. Ao lado uma um expositor dedicado à venda de cigarros, organizados meticulosamente.
Sobre a calçada de paralelepípedos uma mulher usa uma cana de bambú para transportar aos ombros duas latas (possivelmente com água). Por último, ao fundo pode ver-se um antigo marco do correio (vermelho).

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Serviço de Correios no Leal Senado

No início da década de 1920 a Estação dos Correios que existia num pequeno edifício de apenas um piso construído no final do século 19 junto ao Palácio das Repartições - onde está hoje o Hotel Metrópole - foi transferida para uma parte do rés-do-chão do edifício do Leal Senado.
Do lado direito da fachada do edifício podia ler-se em português, francês e inglês:
ESTAÇÃO CENTRAL DOS CORREIOS E TELEGRAFOS / BUREAU DE POSTE CENTRAL / CENTRAL POST OFFICE. Pode também ver-se uma pequena caixa postal receptáculo da correspondência. Destaco ainda o facto de ao centro do edifício do estar instalado um relógio.

Ao lado ainda não tinha sido construído o edifício do Teatro/Cinema Apollo. O novo edifício dos CTT seria construído em frente entre 1929 e 1931 sendo inaugurado no final desse ano.
A província de Macau faz parte da União Postal Universal a que aderiu em 1 de Julho de 1877. Além disso a província mantém acordos particulares internacionais com a República da China, Colónia britânica de Hongkong e Filipinas e serviço especial com o Japão sôbre a permutação de fundos, por serem os países que mais interessam à vida da colónia pela sua proximidade, entretendo-se assim relações mais íntimas, para o melhoramento dos serviços nas permutações postais.
A sua organização interna de acôrdo com as leis internacionais e as exigências que a civilização moderna impõe, data de 11 de Dezembro de 1902, em que foram regulamentados os serviços postais de todas as colónias portuguesas.
Porém sómente em 1912, isto é, dez anos passados até esta data, é que a pouco e pouco se tem tornado efectiva essa organização.
Na capital da província acham-se estabelecidas três estações urbanas.
A Central de Macau onde se acha instalada a Secretaria da Repartição Superior dos Correios e que é o centro principal de todo o movimento postal da Colónia. Está situada no Largo do Leal Senado no prolongamento da Avenida Almeida Ribeiro, a maior artéria da cidade, instalada ainda imprópriamente numa das dependências do dito estabelecimento municipal do Leal Senado da Câmara de Macau, na parte europeia da cidade, próxima da maioria das repartições do Estado. Está-se tratando da sua instalação em edifício apropriado, havendo vários projectos e a devida autorização para a sua construção.
Temos a Estação das Portas do Cêrco, que serve principalmente de serviço de trânsito postal atravez a fronteira, sendo do lado português servida por estafetas nacionais que entregam e recebem todo o tráfico postal permutado entre a China e entre esta grande República e Hongkong.
E por último temos a Estação de Ship-Seng, situada quási no embarcadouro do cais dos vapores de Hongkong. Esta estação apesar de ter apenas sido aberta à exploração em Abril de 1919, é hoje a segunda estação postal da província pelo seu movimento e está destinada a ser um dos grandes centros de tráfico postal pela sua grande importância no tráfico marítimo entre os portos de Macau e os da China e Hongkong, servindo não só grande parte da população marítima como a comercial que, pelas condições da sua excelente situação, dela se aproveitam para as suas rápidas transações. São ali aceites correspondências ordinárias para a China e Hongkong até 15 minutos antes da partida dos vapores e objectos registados, à mesma hora, para Hongkong e Cantão. (...)
Excerto (apenas texto) do Anuário de Macau 1921.

domingo, 26 de abril de 2026

大三巴牌坊 por 李德勝

Li Dezhi / Li Desheng (李得之) é o autor desta obra a tinta da china que mostra as ruínas de S. Paulo (大三巴牌坊). Ainda que sendo receite, foi feita em 2012, remete para tempos bem antigos. Mostra a fachada da antiga igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo) vista a partir do acesso ao Pátio do Espinho (茨林圍).

Coluna da Direita (Título e Contexto):
Transcrição: 茨林圍望大三巴牌坊。壬辰年蟬聲初聞時。雨歇轉晴。撥溪李得之德勝寫生。
Tradução/Adaptação: "Vista das Ruínas de São Paulo a partir do Pátio do Espinho (茨林圍). No ano de Rénchén (2012), quando se ouvem as primeiras cigarras. A chuva parou e o tempo abriu. Pintado no local por Li Dezhi (nome artístico Desheng)."
Coluna da Esquerda (Descrição da Paisagem):
"曲徑迂迴小巷通,道廊那堂鼎其融。一堵泥墻喧市隔,對門鄰里樂相通。"
Tradução/Adaptação: "O Pátio do Espinho e as Ruínas de São Paulo parecem unir-se numa só estrutura. Caminhos sinuosos e vielas estreitas conectam-se; os corredores e a igreja fundem-se em harmonia. Uma muralha de taipa (terra/barro) isola o barulho da cidade, enquanto vizinhos de portas opostas partilham alegremente a sua convivência."
Esta outra obra do mesmo autor sobre as ruínas de S. Paulo foi feita em 2008.

Os quatro caracteres maiores no topo são escritos num estilo estilizado:
Transcrição: 澳門聖迹 (Àomén Shèngjì)
Tradução/Adaptação: "Sítio Sagrado de Macau".
A coluna de texto mais pequeno indica o momento da criação e o autor:
Transcrição: 戊子年秋月畫於濠江 李德勝
Tradução/Adaptação: "Pintado no mês de outono do ano de Wuzi, em Haojiang (Macau), por Li Desheng."
Nota: O ano de Wuzi (戊子年) no ciclo chinês refere-se, neste contexto contemporâneo, ao ano de 2008. Haojiang (Rio das Ostras) é um nome poético e histórico muito comum para designar a cidade de Macau.

李德勝, também conhecido pelo pseudónimo de Qu Beizhai, nasceu em Xiaolan, Zhongshan, em 1963. Estudou caligrafia e pintura sob a tutela de Pan Dongliang na juventude. Licenciou-se em Educação em Artes Visuais pelo Instituto Politécnico de Macau e é mestre em Ensino e Investigação de Pintura Chinesa pela Academia de Belas Artes de Cantão. Tem exposto com regularidade em Macau e na China continental.

sábado, 25 de abril de 2026

A excepção à regra no processo da descolonização

Uma das questões centrais do 25 de Abril de 1974 foi o processo de descolonização das então colónias portuguesas (designadas províncias ultramarinas na época).
Na edição de 11 de Setembro de 1974, o jornal Tai Chung Pou (chinês e publicado em Macau) escreve: "o Chefe da Repartição do Gabinete do Governo de Macau, Tenente Coronel Henrique Manuel Lages Ribeiro, apontou que uma notícia emanada da agência noticiosa Reuters fora mal interpretada, e que Macau tem uma posição peculiar", pois "a maneira de resolver o seu futuro é diferente em relação a outros territórios ultramarinos portugueses." 
O jornal acrescenta, citando Almeida Santos, na altura ministro português da Coordenação Interterritorial: "seria permitido a todos os territórios ultramarinos portugueses escolher a forma de independência como meio para solucionar o seu próprio problema, com a excepção de Macau que, sendo um território muito especial, requer uma maneira também especial para solucionar o seu problema".

No livro “Macau nos anos da revolução portuguesa 1974-1979”, Garcia Leandro escreve: "a República Popular da China teve o cuidado de, em 1972, no Comité de Descolonização da ONU, deixar bem claro que o futuro destas duas possessões europeias [Macau e Hong Kong] não faria parte da agenda das actividades daquele organismo, sendo o assunto tratado bilateralmente".
A legislação que entrou em vigor em Portugal a partir do 25 de Abril de 1974 só seria publicada no Boletim Oficial de Macau a 11 de Maio desse ano. Nomeadamente a "Lei nº1/74 de 25 de Abril" e outros decretos da Junta de Salvação Nacional.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

"A Hora Presente da Nação"

A notícia da revolução de Abril de 1974 em Portugal só chegou aos jornais de Macau alguns dias depois. A primeira informação pública sobre os acontecimentos em Lisboa foi dada aos microfones da rádio Macau, através de Rui de Mascarenhas, cantor português de enorme sucesso na época e que por esses dias atuava em Macau no âmbito do evento "Abril em Portugal", organizado pelo Hotel Lisboa (STDM), actuando no restaurante Portas do Sol.

Na imagem a primeira página do jornal Gazeta Macaense de 27 de Abril de 1974.
Excertos:
CONSTITUÍDA A JUNTA DE SALVAÇÃO NACIONAL
Lisboa, Abr. 25 (R)
O general António Spínola, presidente da Junta Militar, fez esta manhã uma breve alocução ao País pela televisão, tendo depois apresentado outros cinco membros da junta. A Junta Militar de Salvação compromete-se a garantir a sobrevivência de Portugal como nação soberana e independente na "sua integridade multi-continental". Além do general Spínola fazem parte da junta os seguintes oficiais superiores: 
General do exército Francisco da Costa Gomes; Brigadeiro do exército Jaime Silvério Marques; Capitão-de-mar-e-guerra José Batista Pinheiro Azevedo; Capitão-de-fragata António Rosa Coutinho; General Manuel Diogo Neto e coronel Carlos Galvão de Melo, ambos da aeronáutica. O general Diogo Neto foi o único que não esteve presente na emissão televisionada, por se encontrar ausente no ultramar.
(...)
Tudo indica que 25 de Abril de 1974 vai entrar na História Política Portuguesa como mais uma efeméride célebre.
De facto, as últimas vinte horas que se viveram em Portugal Continental devem registar-se como das mais dramáticas e surpreendentes da vida nacional nos últimos 48 anos.
O «Movimento das Forças Armadas», cuja chefia até à hora do fecho desta edição (18 horas), ainda se não conhece com exactidão, parece ter abalado profundamente os alicerces em que há muitos anos assentava o edifício político nacional. Se for confirmado por individualidades verdadeiramente respeitáveis na vida nacional o que tem vindo a ser proclamado, de há 20 horas para cá, pelo chamado «Movimento das Forças Armadas», prova-se que a palavra e a propaganda podem ter mais força do que poderosas armas de guerra. O Movimento soube aplicar o sistema ao iniciar a sua acção com a conquista dos mais poderosos meios de informação do País.
Continua-se a aguardar a revelação dos nomes dos principais responsáveis pelo «Movimento das Forças Armadas» e as declarações que então deverão ser feitas por aqueles sobre quem cairão as responsabilidades de governar a Nação. Logo que nos cheguem mais elementos informativos, faremos a sua transmissão, certos de que a Nação Portuguesa, que não é apenas Portugal Europeu, há-de sentir que mudanças de fórmulas políticas não correspondem a quebras de unidade, antes procuram atingir, servindo o ideal comum e antigo de amor à Pátria e a sua grandeza histórica.
Que mudem os sistemas políticos será sempre secundário, pois o que importa é que os governantes de ontem, de hoje e de amanhã, sejam verdadeiros portugueses, pois isso é, sobretudo e sobre todos, o que interessa. (...)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Passeio de lages de pedra"

 

Publicado no Boletim da Província de Macau e Timor com a data de 24 de Abril de 1870 este "annuncio" da Repartição D'Obras Públicas informa que na "Segunda-feira 9 de maio p.v., ao meio dia, se arrematará em hasta publica, a quem menor preço offerecer, a continuação do passeio de lages de pedra, igual ao que já está feito, desde o fim da praia grande até ao Bom Parto. A licitação terá lugar na sala da repartição de obras publicas, no edificio do extincto convento de S. Domingos."

Nesta fotografia feita ca. 1870 pode ver-se o referido "passeio de lages de pedra" no que era então "o fim da Praia Grande", perto do então Palácio do Cercal (onde está actualmente o Palácio do Governo). A extensão do passeio até ao Bom Parto (onde começa a actual Av. da República) era apenas mais uma etapa... A ligação por estrada desde o início da Praia Grande (Junto ao Jardim de S. Francisco) até à entrada do Porto Interior - circundando toda a baía da Praia Grande - só ficaria concluída na década de 1910. Daí que esse troço final tivesse recebido o nome de Av. da República, o regime político entretanto implantado em Portugal.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A última viagem do jetfoil Madeira

Nos últimos anos já não tinha as cores e parte do design de origem, mas o jetfoil Madeira fica para a história como um dos lendários modelos Boeing 929 que moldaram a ligação marítima entre Hong Kong e Macau ao longo do século 20.
Ainda navegavam os mais antigos hydrofoil quando o Madeira entrou ao serviço a 22 de Abril  de 1975 estabelecendo um novo padrão nas viagens marítimas entre as duas cidades, com uma velocidade e estabilidade excecionais, como se estivesse a voar sobre o mar... Saiu da fábrica da Boeing em Fevereiro de 1975 e chegou a Hong Kong em Março. Foi o primeiro dos jetfoil da Far Eastern Hydrofoil Company - antecessora da actual TurboJET - e navegou durante 50 anos!
Com um custo de 18 milhões de dólares de Hong Kong, o Madeira navegou para Macau pela primeira vez com passageiros a bordo no dia 25 de Abril de 1975 partindo às 9h da manhã de Hong Kong. Nesse dia completou três viagens de ida e volta. O tempo de viagem foi reduzido de 1 hora e 15 minutos para apenas 50 minutos, enquanto a capacidade de passageiros duplicou para cerca de 280. Cada bilhete custava 30 HKD nos dias úteis e 35 HKD nos fins de semana e feriados, acrescida de 5 HKD de taxa de embarque. Sensivelmente os mesmos valores em patacas.
A FEH reforçou a sua aposta nos jetfoils após o grande sucesso do Madeira e do Santa Maria, que se juntou à frota mais tarde, ainda em 1975. Nos primeiros quatro anos de actividade foram transportados pelos jetfoil cerca de 5 milhões de passageiros. O sucesso foi de tal ordem que no início da década de 1980 a FEH foi pioneira no serviço de navegação nocturna em ferries de alta velocidade, equipando os jetfoils com sistemas avançados de visão nocturna. O pico da era dourada deste meio de transporte seria atingido na década de 1990 quando estavam ao serviço 16 unidades.
Em funcionamento regular até Novembro de 2013, altura em que colidiu com um objecto desconhecido no mar, permaneceu no estaleiro desde então e foi agora desmantelado. Neste fim de uma era, em 2025 deixaram de estar ao serviço outros velhinhos jetfoil como o Taipa, Terceira, Funchal e S. Jorge. Resta apenas o Flores embora também já não esteja operacional. Na verdade o Flores foi o primeiro a ser construído pela Boeing em 1974, mas só entrou ao serviço em Macau mais tarde, já que foi comprado em segunda mão, depois da estreia no Hawai.
Bilhete de jetfoil em 1979: uma viagem custava 38 HKD (ca. 40 patacas)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Avenida do Aviso Gonçalves Zarco / 貢沙威塞古兵艦大馬路

Julgo ser caso único na toponímica macaense um navio ser nome de rua. Neste caso, a Avenida do Aviso Gonçalves Zarco (em chinês: 貢沙威塞古兵艦大馬路), que existiu na zona dos aterros do Porto Exterior. 
Quando foi baptizada começava na então denominada Avenida do Dr. Oliveira Salazar* (frente ao Centro Náutico da Mocidade Portuguesa), e terminava na Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, próximo da "Chácara Leitão". Quando a conheci nas décadas 1980/1990 começava na Avenida da Amizade*, em frente ao Hotel Mandarim Oriental e junto à Tribuna do Grande Prémio e termina vana Rua de Luís Gonzaga Gomes, frente ao antigo Complexo Escolar, actual Instituto Politécnico. Desapareceu da toponímia local entretanto..
貢沙威塞古兵艦大馬路 / KÔNG SÁ VAI SÁK KU PÊNG LÁM TÁI MÁ LOU
由友誼大馬路,東方文華酒店對面,靠近 G.P.M.看台處起,至高美士街。澳門學校綜合體對面止。這條路以前從葡萄牙青年航海中心對面,薩拉沙大馬路及賽車看台旁側起,至羅理基博士大馬路,一稱為“乳豬園”的房產附近止。
É preciso recuar quase um século para perceber as origens...

Encomendados ao abrigo do Programa Naval Português da década de 1930, os navios 'gémeos' Gonçalves Zarco e Gonçalo Velho são denominados avisos coloniais de 2ª classe  e estiveram ao serviço de Marinha de Guerra Portuguesa. Construídos nos estaleiros Hawthom-Leslie (Inglaterra) em 1932 tiveram por missão reforçar e manter a capacidade de presença naval nos vários territórios do então Império Colonial Português, assegurando a soberania de Portugal.
Foram baptizados com os nomes de dois dos navegadores portugueses envolvidos na descoberta das ilhas do Atlântico: Gonçalo Velho Cabral e João Gonçalves Zarco. Depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, os navios foram equiparados a fragatas, recebendo o prefixo F nos seus números de amura, pintado no costado.
"Gonçalves Zarco" em Macau em meados da década 1950

O NRP Gonçalves Zarco (F476) esteve ao serviço entre 1933 e 1964 tendo efectuado três comissões de serviço em Macau, em 1935, Set. 1938 a Abril de 1939 e de 1956 a 1964, durante os quais passou 17 meses na Índia Portuguesa e 20 meses em Timor.Em Macau 'apanhou' dois violentos tufões, o «Glória», em 1957 e em 1962 quando estava em Hong Kong o «Wanda»
Estava equipado com duas peças de 120 mm (visíveis na proa e na popa) e armamento antiaéreo, essencial para o policiamento marítimo.
Possuía turbinas a vapor que lhe permitiam uma velocidade de cerca de 16,5 nós, ideal para longas travessias.
Como se pode verificar nas imagens, na proa e na popa, estavam instaladas lonas que serviam de toldo. Quando operavam em regiões tropicais ou subtropicais (como Macau) o toldo servia para manter o convés e as áreas habitáveis por baixo dele minimamente frescos. Na zona de sombra a guarnição podia descansar ou realizar tarefas ao ar livre sem estar exposta directamente ao sol forte. Normalmente estes toldos eram montados apenas quando o navio estava fundeado ou atracado, pois não aguentariam a força do vento ou do mar durante a navegação em alto mar.

"Gonçalves Zarco" inscrito no casco

Aviso de 2ª classe «Gonçalves Zarco»
Deslocamento: 1 784 tons (outras fontes: 1174 tons) (1933); 1 500 tons (1959)
Comprimento: 81,5 m; Boca: 10,8 m; Calado: 3,5 m; Sensores: radar de navegação e ASDIC (1959); Propulsão: 2 turbinas a vapor de 2 000 SHP, servidas por dois eixos permitiam atingir os 16,5 nós, de velocidade máxima.
Armamento: 3 peças de 120 mm e 2 peças de 40 mm (1933); 3 peças de 120 mm, 5 peças de 40 mm, 4 morteiros lança bombas, 2 calhas lança-bombas de profundidade (1959)
Tripulação/Equipagem: 142 homens
Atracado à entrada do Porto Interior ca. 1956

Na década de 1950 os dois navios oram alvo de grandes modificações sendo equipados com armamento e sensores para guerra anti-submarina. A partir de 1961 deixaram de ser empregues como unidades combatentes em 1961. O Gonçalo Velho foi abatido ao serviço, mas o Gonçalves Zarco seria transformado em navio hidrográfico condição que manteve até 1964, ano em que foi transformado em batelão (desmantelado em 1994). Seria então o navio de guerra mais velho em serviço em todo o mundo. Navegou o equivalente a 17 voltas à Terra.

Desfiles da guarnição do "Gonçalves Zarco" em Macau

A última missão do Gonçalves Zarco: 14 de Outubro de 1956 a 28 de Março de 1964:

14.10.1956: Vindo do estado da Índia Portuguesa chegou a Macau. 
20.10.1956: A fim de receber beneficiações, partiu para Hong Kong sob comando do capitão-tenente António Garcia Braga.
8.3.1957: regresso a Macau trazendo a bordo para o Porto Interior o novo governador, Capitão-tenente Pedro Correia de Barros.
Dezembro 1959: ida a Hong Kong.
15.07.1963: Após reparações seguiu para Timor. Chegados a Timor, não havia condições de reabastecer o navio de combustível pelo que a 9 de Setembro seguiu até Darwin. Partiu de Timor a 2 de Janeiro de 1964 e chegou a Hong Kong a 12 de Janeiro de 1964 seguindo depois para Macau.
10.3.1964: Partida para Hong Kong com objectivo de efectuar uma inspecção geral, raspagem e pintura do fundo.
28.3.1964: Partida para Portugal com honras de fogo de artifício e "na véspera, em jeito de despedida, os marinheiros organizaram um cortejo em riquexós, pelas ruas da cidade, cantando e queimando panchões".
16.5.1964: Chegada a Lisboa. Segundo Eduardo Tomé num artigo publicado em Fevereiro de 1997 na Revista Macau, "a aguardar a tripulação no cais estavam apenas os familiares, nada de entidades oficiais, nem mesmo da marinha, tão pouco a imprensa. Restava-lhes a consolação do dever cumprido e o feito de terem conseguido trazer para Portugal aquela relíquia naval, que, com galhardia, desempenhou durante nove anos consecutivos a última missão de soberania de um navio da Armada Portuguesa, nas águas de Macau e Timor".

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Praça do Império: dos brasões florais aos brasões de pedra

O Jardim da Praça do Império - junto ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém - foi alvo de restauro em 2023.
O projecto original é da autoria do Arquitecto Cottinelli Telmo e Lacerda Marques, de 1940. Em 1961, por ocasião da 11ª Exposição Nacional de Floricultura e ainda no âmbito das chamadas comemorações henriquinas de 1960 foram ali construídos 32 brasões florais que representam as capitais de distrito portuguesas e as então províncias ultramarinas. Neste restauro os referidos brasões já muito degradados - havia também o brasão floral da Cruz de Cristo - foram reinventados em pedra de calçada portuguesa nas tradicionais cores branca, cinza claro, cinza escuro, preta e rosa.

domingo, 19 de abril de 2026

Origens do Fai Chi Kei/筷子基

Hoje em dia a zona de Fai Chi Kei/Patane - perto da antiga Ilha Verde - é uma área residencial de torres altas densamente povoada. O nome remonta à década de 1920 aquando dos inúmeros aterros feitos no âmbitos das "Obras dos Portos". 
Fai Chi Kei (em chinês: 筷子基) significa, literalmente, "Aterro dos Pauzinhos". 筷子 (Fai Chi) é o mesmo que os pauzinhos de comer e 基 (Kei) remete para aterro ou dique. Foi esta a fisionomia com que aquela zona ficou na sequência dos referidos aterros na década 1920.
Sendo das zonas mais pobres da cidade era primitivamente povoada de barracas. Não tinha abastecimento de água nem saneamento. Em 1936 foi ali inaugurado o chamado Bairro 28 de Maio*, 14 blocos de dois pisos com 448 fogos numa área de 20.394 metros quadrados. Entretanto as áreas em redor foram sendo aterradas. Já na década de 1970 o arquitecto Manuel Vicente assinou um projecto de dois grandes edifícios (que tb remetem para os referidos pauzinhos) demolidos na década 2010.
* alusão ao 10º aniversário do golpe que implantou a ditadura em Portugal; em 1931 fora construído nas imediações o Bairro Tói Sán/Tamagnini Barbosa.


sábado, 18 de abril de 2026

Rua da Ressureição / 大三巴右街

Com pouco mais de 100 metros de extensão, a Rua da Ressureição está entre as mais pequenas ruas de Macau. Paralela à escadaria de acesso à fachada da antiga igreja Mater Dei, começa do lado esquerdo do primeiro lanço da escadaria - dá acesso à Travessa da Paixão - e termina ao cimo da Calçada de S. Francisco Xavier (que dá acesso ao Pátio do Espinho).
Nesta fotografia da década 1970, para além da placa toponímica com as características da época, podem ver-se as canas de bambú quando ainda eram usadas como estendal de roupa e uma pequena banca de venda de souvenirs para os turistas que visitavam às Ruínas de S. Paulo. Os vários cartazes publicitários indicam que ali se vendiam as respectivas marcas de cigarros e bebidas. Exemplos: Coca-Cola, Pepsi-Cola e Vitasoy (維他奶), marca conhecida de leite de soja.
O outro lado da rua numa fotografia do séc. 21

Em Macau, é muito comum que os nomes das ruas em chinês e português não sejam traduções literais um do outro. Este é mais um caso. Ressurreição refere-se ao conceito cristão da Ressurreição de Jesus mas a designação em chinês é 大三巴右街, que significa "Rua à Direita de São Paulo":
大三巴: lê-se Dàsānbā, nome chinês para São Paulo (transliteração fonética). 
右: Significa Direita.
街: Significa Rua.
A Rua da Ressureição no início da década 1950
Assinalado o local da primeira fotografia

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Nas Praias de Iwo Jima / Sands of Iwo Jima / 硫磺島浴血戰

Nesta fotografia um grupo de jovens está frente a um cartaz - feito de bambú - em inglês, português e chinês - nos aterros da Praia Grande - de promoção ao filme "Nas Praias de Iwo Jima / Sands of Iwo Jima / 硫磺島浴血戰", de 1949, protagonizado por John Wayne.
Tudo indica que os edifícios ao fundo são os primeiros edifícios residenciais ali construídos, já na zona aterrada frente ao Jardim de S. Francisco. O filme teve em exibição nos cinemas Vitória, Capitol, ou Apollo.

Cartaz do filme na época

Assinalei a amarelo o que foram os primeiros edifícios residenciais ali construídos, já na zona aterrada frente ao Jardim de S. Francisco.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

"Looking towards the coast of Red China from the centre of Macau town"

Nick De Morgoli (1916-2000)* é o autor desta fotografia de meados da década 1950. Foi divulgada para todo o mundo por uma agência noticiosa com a legenda: "Macau - Portugal's Colony on the Chinese Mainland". "Macau - Colónia de Portugal no continente Chinês. Olhando em direção à costa da China Vermelha (Comunista) a partir do centro da cidade de Macau. Juncos e sampanas apinham-se na água e circulam entre as ilhas vizinhas."
Fotojornalista francês trabalhou para os grandes títulos da imprensa mundial e agências noticiosas entre as décadas de 1930 e 1960. Na verdade a fotografia não foi feita "a partir do centro da cidade", mas da colina da Penha. O Palacete de Santa Sancha (não se vê) fica do lado esquerdo; Em frente a entrada no Porto Interior (pequena colina da Barra à esquerda) e as ilhas em redor. A do lado direito é a da Lapa que esteve sob domínio português até à década de 1940.

Junto publico mais algumas imagens das décadas 1940 a 1960 tiradas sensivelmente do mesmo local, o Miradouro de Nossa Senhora da Penha no final da Estrada de D. João Paulino. No slide acima pode ver-se parcialmente o edifício Skyline.

O Partido Comunista chinês subiu ao poder em 1949. "Red China"/China Vermelha/China Comunista passou a ser a expressão usada a partir de então.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Blogue Macau Antigo ultrapassa os 4 milhões de visitas e bate recorde mensal

Nos últimos oito meses o blogue Macau Antigo registou mais de um milhão de pageviews, superando a marca dos 4 milhões de acessos desde a criação do projecto em 2008.
Este mês de Março chegou ao fim como o melhor de sempre. Perto de 500 mil visualizações (486,058) em apenas um mês. São quase 16 mil visitas por dia!
Criado no final de 2008 o projecto tem mais de 6300 entradas publicadas (posts) consolidando-se como o maior acervo documental online sobre a história de Macau, disponível 24 por dia em várias línguas e em todo o mundo.
Os dados estatísticos são da plataforma Blogger onde o blogue Macau Antigo está alojado.

Neste post duas fotografias raras que mostram o antigo Convento e Igreja de S. Francisco, demolidos ca. 1860 para dar lugar ao Quartel de S. Francisco poucos anos depois e do qual ainda resta a muralha. A configuração actual do antigo quartel já resulta de transformações posteriores.Uma foto é de Milton Miller ca. 1860 no sistema 'stereoview'; a outra é da mesma época e foi publicada em 1868 na The China Magazine (Hong Kong) e é de autor desconhecido. A fraca qualidade da impressão fez com que tivesse passado despercebida até agora. Com recurso à IA consegui 'recuperar' a imagem com a legenda "The Public Gardens Macao and Convent of San Francisco", ou seja, "Jardim Público e Convento de S. Francisco".
'Descobri' as duas fotografias recentemente no âmbito das pesquisas que faço para o blogue Macau Antigo. Juntam-se assim aquele que se pensava ser o único registo fotográfico do Convento e Igreja de s. Francisco feito por Jules Itier no sistema daguerreótipo em 1844.

The China Magazine: 1868

Imagem restaurada por IA
Stereoview de Miller

A new milestone for Macau Antigo blog

Over the last eight months, the Macau Antigo blog has registered more than one million page views, surpassing the milestone of 4 million hits since the project’s inception in 2008.
This past March concluded as the blog's best month on record, reaching nearly 500,000 views (486,058) in just 31 days—averaging almost 16,000 visits per day.
Founded in late 2008, the project now features over 6,300 published entries, consolidating its position as the largest online documentary archive on the history of Macau. The content is available 24/7 in multiple languages to a global audience. These statistical insights are provided by the Blogger platform, where the site is hosted.

Rare Historical Discovery
Attached are two rare photographs showing the former Convent and Church of St. Francis, which were demolished around 1860 to make way for the St. Francis Barracks. While the current configuration of the barracks reflects later transformations, the original wall still remains.
The First Image: A "stereoview" captured by Milton Miller circa 1860.
The Second Image: Published in 1868 in The China Magazine (Hong Kong) by an unknown author. Due to poor print quality, this image remained unnoticed until now; it has been "recovered" using AI enhancement.
I "discovered" these two photographs recently during my ongoing research for the Macau Antigo blog. They now join what was previously thought to be the only existing photographic record of the Convent and Church of St. Francis: the 1844 daguerreotype by Jules Itier.


《澳門舊事》博客邁向新里程碑:瀏覽量突破四百萬

同時公佈兩張消失已久的聖方濟各修院稀有歷史照片
【澳門,2026年4月14日】 知名歷史研究博客《澳門舊事》(Macau Antigo)今日宣佈邁入全新發展里程碑。在過去的八個月內,該博客記錄了超過一百萬次頁面瀏覽,使其自2008年創立以來的總點擊率正式突破四百萬次大關。
剛剛過去的三月份更是創下了博客成立以來的單月最高紀錄,在短短31天內達到了近50萬次(486,058次)瀏覽,平均每日訪問量近16,000次。

全球最大的澳門歷史線上檔案庫
自2008年底創立至今,《澳門舊事》已發佈超過6,300篇條目。憑藉其豐富的文獻資料,該項目已鞏固了其作為全球最大澳門歷史線上紀錄檔案庫的地位。博客內容通過 Blogger 平台託管,提供多種語言版本,全天候向全球讀者開放。
重大發現:聖方濟各修院及教堂稀有影像首度曝光
除了流量上的突破,博客創辦人近期在研究中取得了重大的歷史發現。隨本稿附上兩張極其罕見的歷史照片,展示了已於1860年左右拆除的原聖方濟各修院及教堂(Convent and Church of St. Francis)。

該址隨後被改建為加思欄兵營(St. Francis Barracks)。雖然兵營建築在隨後的歲月中歷經多次修繕更迭,但原有的圍牆至今依然屹立。

這次發現的兩張影像分別為:
第一張影像: 由米爾頓·米勒(Milton Miller)於1860年左右拍攝的「立體照片」(Stereoview)。
第二張影像: 於1868年刊載於香港《中國雜誌》(The China Magazine),作者不詳。由於原始印刷質量欠佳,這張照片一直未被史學界重視。近期通過人工智能(AI)增強技術修復後,其珍貴細節才得以重現。
在此之前,學界普遍認為由於勒·伊蒂耶(Jules Itier)於1844年拍攝的銀版攝影法照片,是聖方濟各修院唯一的影像記錄。這兩張新照片的加入,為研究19世紀澳門城市變遷提供了彌足珍貴的新證據。
關於《澳門舊事》(Macau Antigo)
《澳門舊事》是一個致力於收集、整理與分享澳門歷史文獻、老照片及相關研究的博客項目,旨在保存這座城市的集體記憶,並推動澳門歷史文化在數位時代的全球傳播。