No artigo "O Buddhismo e os Pagodes de Macau" publicado no jornal O Macaense de 12 de Outubro de 1919 (Ano I, Número 23, página 1) Manuel da Silva Mendes começa por enquadrar o budismo como um cosmoteísmo em que o universo é divino e constitui uma comunhão total. Esclarece que figuras como Buddha (Sakya Muni), Amitabha ou os bodhisattvas não são deuses no sentido tradicional, mas sim seres que atingiram a perfeição e a integração na Alma Universal através da abnegação, da virtude e da aniquilação do egoísmo. Ao contrário do cristianismo, o budismo não conceptualiza o cosmos como um local de julgamento final de salvos e condenados, mas sim como um processo contínuo de aperfeiçoamento, salvação e pacificação universal.
Descreve a evolução histórica dos pagodes — originados a partir de simples capelas e relicários erguidos sob árvores sagradas em honra de Sakya Muni — e aponta que, em Macau, os pagodes seguem princípios rigorosos de simetria e simplicidade estrutural. Embora careçam de monumentalidade arquitectónica e contem geralmente com poucos pavimentos, o autor destaca que a verdadeira beleza reside na ornamentação decorativa e, sobretudo, nos telhados curvos e esmaltados, ricamente enfeitados com dragões, fénix e símbolos budistas em faiança (como os de Shek Wan)*.
Silva Mendes sublinha o bom gosto dos bonzos chineses na escolha de locais pitorescos e isolados, rodeados de natureza, para a implantação dos templos. Destaca três locais principais na região:
Templo de A-Má (Má Kok Miu / Barra): Valorizado pelo pitoresco cenário natural onde está inserido.
Templo de Monghá (Kuan Yin Tong): Considerado o mais artístico e rico em pormenores decorativos, destacando-se o seu amplo átrio, a fachada em granito bem lavrado e os frisos ornamentados em faiança.
Templo de Lin Fong (Portas do Cerco): Notável pela atmosfera de isolamento e culto aos seus ídolos.
Manuel da Silva Mendes conclui que, apesar de os tempos modernos demonstrarem alguma escassez de recursos e de fé em comparação com o esplendor passado, locais como o Templo de Monghá continuam a ser procurados por muitos romeiros e aflitos (com destaque para o culto a Kuan Yin e à divindade das águas A-Má / Tien Hao, bem como as festividades dedicadas a Ti Chong Wong em Lin Fong Miu), merecendo o devido respeito pela eficácia e alívio espiritual que proporcionam aos crentes em momentos difíceis.
* MSM fez uma colecção desta cerâmica que ainda hoje pode ser vista no Museu de Arte de Macau
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| Templo de A-Ma: postal raro colorido manualmente. Década 1920/30 |
Transcrição do artigo
Os pagodes hão de ser vistos, para serem comprehendidos, á luz da fé e do sentimento buddhicos. O universo é, na doutrina buddhista, um cosmoteismo; o cosmos é divino. O todo universal constitue uma comunhão, que inclue as existencias celestes e terrestres, os seres que sentem e os seres que não sentem.
Buddha Sakya Muni, buddha Amitabha, buddha Brahma, os bodhisattvas, os Arhats não são deuses. Na religião buddhista não ha deuses nem ha deuses. Ha seres perfeitos — e esses o foram — que por suas virtudes se consubstanciaram na Alma Universal.
Os homens são concretas mefesações no seu ser material e espiritual do todo structural cosmico. O seu ultimo destino é o seio da Alma Universal; a purificação pela abnegação da personalidade até ao aniquilamento, na prática do bem, da propria vontade é o meio, é a via que conduz ao final termo, á existencia tranquila e feliz no ritmo da Alma do Cosmos.
O egoismo da personalidade traz os homens desviados do conhecimento do seu destino e da felicidade. Aquele e esta só se alcançam pelo aniquilamento do egoismo, pelo desprendimento de apetites, pela abdicação da personalidade no amor dos outros seres, pela meditação, pelas boas obras, pela insistente prática da virtude.
A actividade do universo toda se dirige no sentido do aperfeiçoamento dos seres que o constituem, no encaminhar da multidão das existencias a um ritmo sincronico. O cosmos, deus, luta por se integrar; luta pela perfeição. Muitos seres atingiram já o final termo, o nirvana, a grande paz, a absoluta tranquilidade, a existencia sem vontade, a existencia satisfeita...
Muitos outros seres existem transviados, presos na engrenagem de sucessivas existencias de vida e de morte. Mas ha no Cosmos providencia. Os bodhisattvas velam por êles e mais cedo ou mais tarde os levam á via da perfeição; e o cosmos na sua inconcontavel multidão de seres ha de por fim palpitar como uma só Alma.
Ao contrario do cristianismo que na consumação dos séculos faz da terra, dos astros e de tudo uma fogueira e recolhe todas as almas desde a de Adão até á do Anti Cristo umas ao Ceu a passar aí a eternidade com o Padre Eterno e outras ao Inferno a passá-la com o Diabo, o buddhismo não queima nada, melhora o mundo, aperfeiçoa-o, salva a humanidade e todos os seres.
Sakya Muni, seis séculos antes de Cristo, foi o fundador da religião buddhista. Pela prática sistematica da virtude, pela abnegação, pela meditação, sentiu-se iluminado; e Brahma então lhe disse: Ensina aos outros homens a Verdade, tu que agora a vês. E daí Sakya Muni, o novo buddha, o Santo, começou de prégár aos homens como a salvação pode ser alcançada. Por isso ele é, no buddhismo, o Revelador, o Salvador, o Mestre.
Com as suas maximas, com os seus preceitos, com o seu exemplo, começou então a religião buddhista de formar-se e depressa se completou com adições que os Arhats, discipulos do Mestre, lhe fizeram. Intervein tambem logo a metafisica clerical, oficial, profissional; interveiu simultaneamente a superstição; e de tudo isto se formou um vasto corpo de doutrinas religiosas, incongruente, sim, mas perfumado de poesia.
Reliquias do buddha, do santo Sakya Muni, após a sua morte, foram repartidas pelos paizes que tinham abraçado a sua doutrina, e depositadas em capelas que, para as guardar, foram erigidas á sombra de copadas arvores em memoria daquela sob a qual êle pela vez primeira se sentiu iluminado.
Destas capelas solitarias, relicarios que não templos, á forma dos actuaes pagodes a distancia; quasi nula, depressa foi transposta: em volta do sagrado vaso incisas inscrições muraes, a figura do Santo em mais relevo insculpida, depois a representação antropomorfica de buddhas, do mesmo Sakya Muni, de bodhisattvas, de Arhats, de Espiritos Protectores, de Espiritos Malignos e das demais entidades superiores e inferiores que a sempre e em toda a parte fertil imaginação de crentes rapidamente cria.
E aí temos porque, sem necessidade de mais razões dar, os pagodes ainda hoje em toda a China se vêem com a estrutura arquitetónica de capelas, uns de um só pavilhão, outros compostos de varios pavilhões ou compartimentos, separados por pateos ou estreitos corredores. Assim são tambem os pagodes de Macau.
O principio que determina nos pagodes o plano de projecção é o da simetria. Tanto o corpo principal como os corpos lateraes, os pateos, os corredores, os motivos decorativos, os detalhes são todos planeados simetricamente. Por isso no conjunto não ha variedade: ha monotonia, e tudo se resume em um grupo de capelas separadas umas das outras por alpendres, pateos ou corredores. Nos templos buddhistas não ha grandeza. Raros são aqueles que tem mais de um pavimento; e o segundo, aqueles que o têm, não é construido para efeitos arquitetónicos, senão para acomodar a desmesurada altura de alguns idolos.
A pobreza dos desenhos arquiteturaes dos pagodes é até certo ponto compensada pela profusão dos detalhes decorativos e principalmente pela forma e ornamentação da cobertura. O telhado é, com efeito, a parte verdadeiramente graciosa do edificio. Recurvos nas extremidades, revestidos de telhas esmaltadas, profusamente ornamentados de dragões, phoenix, kilins e outros grotescos animaes, prendem a atenção de quem os contempla.
No centro e no norte da China para maior efeito ornamental alguns telhados são duplos, outros triplo s sobrepostos uns aos outros. No sul, onde os vendavais são frequentes, este desdobramento seria perigoso. Um ou outro, porém, se encontra desse tipo, não em Macau, mas em diferentes pontos do interior da provincia de Kuang Tung, principalmente em megaros menos expostos á acção das intemperies.
Os bonzos chinêses tiveram sempre o bom gosto de escolher para assento de seus pagodes os mais pitorescos sitios. Onde houver espesura de arvoredo, uma pena de agua, penedia encastelada, natureza virgem, haverá um pagode: Barra, Monghá, Portas do Cerca, Gruta de Camões. O buddhismo requer isolamento; é uma religião de meditação, mais do que de palavras. Foi em retiro, sob uma bodhi, que Sakya Muni alcançou buddhaísar-se; o santo Buddhidharma deixou as suas pégadas impressas na rocha de Siu Lam Si, sobre a qual nove anos passou meditando os sutras.
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| Templo de Lin Fong Ilustração criada por IA a partir de foto ca. 1900/1910 |
Não devem em demasia á Arte os pagodes de Macau. Ha-os mais cotados na provincia de Kuang Tung. Todavia, os três, da Barra (Má Kok Miu), de Monghá (Kuan Yin Tong) e das Portas do Cerco (Lin Fong Miu), são dignos de serem visitados: o da Barra pelo pitoresco do sitio em que os bonzos o engastaram; o de Monghá pela sua arquitectura e decoração; e o das Portas do Cerco pela solidão em que bonzos e fieis ali tem seus idolos como mortos.
E' de todos, o de Monghá, da invocação de Kuan Yin, o mais artistico. Amplo o atrio; bela a fachada; o grande portal da entrada, escadas, colunas em bem lavrada cantaria de granito; sobre os tectos, kilins, phoenix, dragões e outros simbolos buddhistas em esplendida faiança de Seak Wan; um elaboratissimo friso em faiança da mesma procedencia, representando cênas religiosas, ao longo da fachada. E' belo.
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| Templo de Kun Iam. Ilustração criada por IA a partir de foto da década 1920 |
Mas os tempos que correm, são de pouca fé. Escasseia dinheiro para o luzimento do culto. Idolos que outrora, de longo, arrastavam em romaria multidões a seus pés, e de ex-votos faziam seus templos famosos, poucos restam com o pristino prestigio. Vamos que os de Macau menos do que o maior numero dos de fóra tem sofrido. Kuan Yin de Monghá ouve ainda as preces fervorosas de muitos pecadores e é so-lagio de muitos aflitos; no dia 19 da 6a. lua enegreceu beneficiente divindade, tão espessa é a nuvem de romeiros que vai ali prestar-lhe culto. Em grande prestigio tem ainda Má Kok Miu a sua Tien Hao ou Neung Má, a padroeira de quem anda sobre as aguas e das mulheres que desejam a sua prole assegurada. Fiéis sem conta no dia 23 da 3a. lua em cada ano assistem á glorificação desta mãe dos espiritos celestes e de todos os fieis buddhistas que, para esplendor do culto, lhe vão deixar seu óbulo. Em Lin Fong Miu celebra-se tambem com grande pompa anualmente no dia 3 da 7a. lua o poderoso Ti Chong Wong, o Rei das Entranhas da Terra, o Juiz Soberano do Reino dos Mortos. Em Hong Kong Miu é a Chü Soi que rendem no dia 7 da 7a. lua culto os fieis buddhistas com profusão de manifestações festivas. Não está morta, pois, a fé. E se vã quisermos que intrinsecamente seja, concedamos ao menos que é muitas vezes eficaz alivio em momentos dificeis da vida, e, por isso, quando por mais não seja, respeitemo-la.
Silva Mendes."






































