segunda-feira, 2 de março de 2026

"Carreiras de Camionetas" em 1948

Na imagem abaixo um bilhete de autocarro do final da década 1940. A viagem começava no cais dos vapores (Poto Interior, junto à ponte-cais nº12) seguia pela Rua da Barra, depois pela Av. da República e Rua da Praia Grande até chegar ao "Aterro da Praia Grande" onde no cruzamento junto ao Jardim de S. Francisco, virava à esquerda para a Rua do Campo, até chegar ao destino final, o Bairro Tamagnini Barbosa (Toi San). 
Companhia de Auto-Ómnibus de Macau
澳門公共汽車公司
UA 7777 20 c. (20 avos)
Cais de vapores de Hongkong e Macau
港澳碼頭
Rua da Barra
媽閣
Avenida República
西灣
Aterro da Praia Grande
游泳場
Portas do Cerco
關閘
Bairro T. Barbosa
台山 
Este bilhete é válido só para uma viagem e é intransmissível
此票祇用壹次不得轉給別人

Terminada a segunda guerra mundial foi reactivado o serviço de transporte público na cidade de Macau. O Leal Senado lançou o concurso ganho pelo Companhia de Auto-Ónibus de Macau (com sede na Rua das Lorchas). Ficou com o exclusivo da operação a partir de 2 de Julho de 1947 e por um período de seis anos. Na prática o serviço só começou no final de Março de 1948 e com dois itinerários, segundo um anúncio publicado no dia 24 desse mês no jornal Notícias de Macau:
Carreiras de Camionetas da "Companhia de Auto-Omnibus de Macau"
com sede na Rua das Lorchas, No. 43
Seguem por enquanto 2 itinerários:
1.º  Partida na Rua Visconde Paço d'Arcos (ao Cais dos vapores), seguindo pela Av. Almeida Ribeiro, Praia Grande, Rua do Campo, Av. Conselheiro Ferreira de Almeida, Av. Horta e Costa e regresso ao ponto de partida pela Avenida Marginal.*
2.º  Partida do mesmo ponto, seguindo as camionetas em sentido inverso do anterior.
As carreiras funcionam todos os dias das 7 às 24 horas, sendo os intervalos entre duas camionetas entre 8 a 12 minutos.
Preço dos bilhetes — 20 avos para qualquer distância dentro dum itinerário.

Na década de 1950 a empresa tinha 25 viaturas ao serviço e cinco itinerários custando cada viagem 20 avos por pessoa. 
* A Avenida Marginal referida é o troço ao longo do Porto Interior: desde a Av. do Almirante Lacerda passando pela Rua da Ribeira do Patane até ao Cais dos Vapores, onde ficava o ponto de partida e de chegada dos autocarros, uma zona muito movimentada por ser a ligação de Macau com o exterior. Em cima uma fotografia da época onde assinalei a paragem dos autocarros, junto à ponte-cais nº 12.

domingo, 1 de março de 2026

1 de Março de 1926

Há 100 anos, a 1 de Março de 1926, uma segunda-feira, morria na sua casa na Rua da Praia Grande às 8 da manhã, o poeta português Camilo Pessanha (1867-1926), que, em Macau, foi durante muitos anos advogado, juiz, professor do liceu e coleccionador de obras de arte.
Duas horas depois parte substancial da sociedade macaense, ainda sem saber da notícia, comparecia para a inauguração do edifício sede do BNU, muito perto da casa onde vivia Pessanha. A cerimónia contou com a presença do governador de Macau, Maia de Magalhães, do bispo D. José da Costa Nunes, "e tudo quanto Macau conta de mais distinto", segundo uma notícia do jornal "A Pátria".
Imagem criada por IA

PS: Existem em arquivo várias publicações sobre os dois temas - basta utilizar o campo de pesquisa - e em breve publicarei mais.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Geographica: El hombre y la tierra": 1973

"Geographica: El hombre y la tierra" é uma enciclopédia de 10 volumes publicada pela Plaza & Janés em Barcelona, em 1973. Esta obra, profusamente ilustrada e escrita em espanhol, oferece uma cobertura detalhada da geografia mundial, incluindo mapas e fotografias, sendo um material de consulta clássico da época. Macau está referido na parte dedicada à Ásia (Volume 5).
Legendas das duas fotografias (agência Salmer):

Sampanes en la bahía de Macao, colonia portuguesa desde el siglo XVI y cuyo mayor esplendor ostentó durante el siglo XVIII, eclipsado más tarde por el puerto de Hong Kong. La principal riqueza de esta actual provincia de ultramar se basa en la pesca, habiendo surgido una serie de industrias para la conserva y salazón del pescado.

Desde los primeros tiempos de la colonización portuguesa, Macao fue un centro misionero de jesuítas, cuya labor aún puede verse en los edificios religiosos que se encuentran en la parte europea de la ciudad, entre los que destaca, como monumento del pasado, la fachada de la antigua catedral de San Pablo.
Sampanas na baía de Macau, colónia portuguesa desde o século XVI e cujo maior esplendor ostentou durante o século XVIII, eclipsado mais tarde pelo porto de Hong Kong. A principal riqueza desta actual província de ultramar baseia-se na pesca, tendo surgido uma série de indústrias para a conserva e salga do peixe.

Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, Macau foi um centro missionário de jesuítas, cujo trabalho ainda pode ser visto nos edifícios religiosos localizados na parte europeia da cidade, entre os quais se destaca, como monumento do passado, a fachada da antiga catedral de São Paulo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O Zodíaco chinês e o Cavalo de fogo

No contexto das celebrações do Ano Novo Lunar, o Zodíaco Chinês, conhecido como Shengxiao, assume um papel central na cultura e na espiritualidade do país. Diferente do sistema ocidental baseado em constelações mensais, este horóscopo assenta num ciclo de doze anos, onde cada ano é representado por um animal específico: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco. Segundo a tradição, a ordem destes animais foi determinada por uma mítica corrida organizada pelo Imperador de Jade. Mais do que uma simples contagem do tempo, acredita-se que o animal regente do ano de nascimento influencia profundamente a personalidade, a sorte e a compatibilidade social de cada indivíduo.

O Cavalo no Zodíaco Chinês
O Cavalo ocupa a sétima posição no ciclo e é tradicionalmente associado a características como o entusiasmo, a independência e uma energia inesgotável. As pessoas nascidas sob este signo são frequentemente vistas como o "alma da festa", possuindo uma natureza comunicativa e um desejo intrínseco de liberdade. No entanto, o sistema chinês é ainda mais complexo, combinando estes doze animais com os cinco elementos essenciais: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água.

O Cavalo de Fogo: fenómeno raro e intenso
Quando o signo do Cavalo se cruza com o elemento Fogo - o que acontece apenas uma vez a cada 60 anos - surge o Cavalo de Fogo (Wu Wu). Este é considerado um dos signos mais poderosos e, simultaneamente, mais temidos da astrologia chinesa. Enquanto um Cavalo comum já é energético, o elemento Fogo amplifica essa força para níveis vulcânicos, resultando em personalidades extremamente inteligentes, carismáticas e audazes, mas também impulsivas e teimosas. 
O último ano do Cavalo de Fogo ocorreu em 1966, ano da Revolução Cultural na China marcado pelo movimento dos Guardas Vermelhos e pela purga ideológica de Mao Tsé-Tung.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ano Novo Chinês em 1837: Galo de fogo

O Ano Novo Chinês de 1837 - começou a 5 de Fevereiro - foi o Ano do Galo (Galo de Fogo).

Letter from Macau, by Henrietta Shuck (1817-1844), the First American Female Missionary to China, to her father

"Jan. 27, 1837
In a few days from this time the Chinese new year will commence. Precisely at the beginning of the New Year’s Day, they bathe their bodies in perfumed water, dress in their nicest clothes, and, remaining at home, worship their household gods, and fire off crackers. After they have concluded family worship, they go to worship the gods at the temples. All mercantile business is stopped for eight or ten days, during which time visits of rejoicing are made to their friends and relations, that are all returned; and they invite each other to indulge in the joy of the Chuntseu — ‘the wine of spring.’ From the ‘Yuetan,’ or New Year’s Day, to the fifteenth of the month, they choose lucky days to suspend flower lanterns on the houses and temples. Those days are lucky, they consider, when the wind blows from the north, west, east-north, or north-east. I expect the place will be quite in an uproar, and we shall have nothing but noise and bustle for a number of days."

Carta de Macau, de Henrietta Shuck (1817-1844), a primeira missionária americana na China, para o pai.

"27 de Jan. de 1837
Dentro de poucos dias, a partir desta data, terá início o ano novo chinês. Precisamente ao romper do Dia de Ano Novo, eles banham os corpos em água perfumada, vestem as suas melhores roupas e, permanecendo em casa, prestam culto aos seus deuses domésticos e rebentam panchões. Depois de concluírem o culto familiar, dirigem-se aos templos para adorar os deuses. Toda a actividade comercial é interrompida por oito ou dez dias, período durante o qual são feitas visitas de celebração a amigos e parentes, as quais são todas retribuídas; e convidam-se uns aos outros para desfrutar da alegria do Chuntseu — ‘o vinho da primavera’. Desde o ‘Yuetan’, ou Dia de Ano Novo, até ao décimo quinto dia do mês, escolhem dias de sorte para pendurar lanternas de flores nas casas e nos templos. Consideram que esses dias são de sorte quando o vento sopra de norte, oeste, leste-nordeste ou nordeste. Prevejo que o lugar fique num alvoroço total e que não teremos nada além de ruído e azáfama durante vários dias."

Retrato incluído no livro de J. B. Jeter de 1849:
"Memoir of Henrietta Shuck First American Female Missionary to China"

The title of the first American female missionary to China belongs to Henrietta Hall Shuck, a native of Virginia who felt a profound religious calling from a very young age. In 1835, at the age of only 18, she married the Baptist missionary Jehu Lewis Shuck and set sail for the East under the Baptist Board of Foreign Missions. After spending time in Singapore they arrived in Macau in 1836. The missionaries worked there about six years, until the end of the first Opium War (1839–1842). Henrietta established a small boarding school, with two to eight pupils at a time. She also bore another son, Ryland, and a delicate daughter, Henrietta. In 1842 the couple eventually settled in Hong Kong in 1842, following the conclusion of the First Opium War.
Unlike many women of her era who were viewed merely as "assistant missionaries" to their husbands, Henrietta took a leading and highly active role in her work. She established some of the first schools for Chinese children in Hong Kong, focusing on literacy and education while raising her own children in often difficult and precarious conditions. Her letters home were widely published in the United States, providing many Americans with their first detailed—though Western-centric—glimpses into Chinese life and culture. Tragically, her journey was cut short in 1844 when she died following the birth of their fifth child, at the age of 27. Despite her brief life, her legacy became a cornerstone for the women's missionary movement, proving that women could endure the rigors of international service and paving the way for future pioneers.
Ilustração criada por IA a partir do retrato

Natural da Virgínia e fervorosa na sua fé baptista, Henrietta Hall Shuck, partiu para o Oriente em 1835, com apenas 18 anos, logo após casar com o também missionário Jehu Lewis Shuck. O casal chegou a Macau em 1836 onde Henrietta fundou um pequeno colégio interno, com turmas de dois a oito alunos. Teve ainda outro filho, Ryland, e uma filha, Henrietta.
Em 1842 mudaram-se para Hong Kong, logo após a fundação da colónia britânica na sequência da Primeira Guerra do Ópio.
Ao contrário de muitas esposas de missionários da época, que eram vistas apenas como acompanhantes, Henrietta assumiu um papel protagonista e muito activo. Fundou uma das primeiras escolas para crianças chinesas em Hong Kong, dedicando-se à alfabetização e ao ensino religioso, enquanto criava os seus próprios filhos em condições muitas vezes precárias. As suas cartas para os Estados Unidos foram amplamente publicadas e serviram como uma das principais fontes de informação para o público americano sobre a vida e a cultura na China naquele período. Morreu a 26 de Novembro de 1844, com apenas 27 anos, devido a complicações no parto do quinto filho. Apesar da sua curta vida, o seu legado tornou-se um pilar para o movimento missionário feminino, provando que as mulheres podiam suportar os rigores do serviço internacional e abrindo caminho para futuras missionárias.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Novas notas de 500 e 1000 patacas

Já está em circulação uma nova série de notas de 1.000 e 500 patacas, completando assim a mais recente emissão do BNU-Macau que nos últimos dois anos contemplou também as notas de 10, 20, 50 e 100 patacas.
Imagens do BNU - Macau
Tal como nas anteriores, também nestas o design tem como inspiração a história reproduzindo mapas que mostram a forma como o território se transformou com os aterros. 
As novas notas incluem características de segurança que incluem padrões cintilantes que mudam de cor ao inclinar a nota, filamentos de segurança de metal e marcas de água em forma de flor de lótus. Foram ainda incorporadas características para invisuais, como marcas tácteis e marcas em braille.
Em tons de verde a nota de 500 patacas tem na frente uma flor de lótus bem como as fachadas antiga e nova do edifício da sede do Banco Nacional Ultramarino. No verso a flor de lótus, uma árvore e uma mapa de Macau em 1986. Seguindo o mesmo design a nota de 1000 patacas é em tons laranja mudando o mapa que é de 2022.
O BNU foi o primeiro banco emissor de papel-moeda em Macau, logo no início do século 20 e é actualmente um dos bancos emissores para o Governo da RAEM. As notas da primeira emissão entraram em circulação em 19 de Janeiro de 1906 e tinham os valores de 1, 5, 10, 20, 50 e 100 patacas.
PS: A emissão mais recente do Bando da China segue a mesma lógica. No caso da de 500 patacas na frente está o edifício sede do banco e no verso o templo de A-Ma. A nota de 1000 patacas apresenta um junco chinês no verso.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Queimar incenso no ano novo chinês

Durante as celebrações do Ano Novo Chinês, o ritual de queimar incenso (shàngxiāng) nos templos é uma das tradições mais profundas e espirituais, servindo como uma ponte entre o mundo terreno e o divino.
Este ritual, realizado por pessoas de todas as idades, funciona como uma forma de comunicação com as divindades e antepassados, onde o fumo perfumado transporta as preces, os agradecimentos e os desejos de prosperidade para o ciclo que se inicia. Ao segurarem o incenso com ambas as mãos em sinal de profundo respeito, os fiéis pedem protecção, saúde e harmonia familiar, depositando as varetas/paus de incenso em queimadores ornamentados que purificam o ambiente. Esta prática marca a transição entre o passado e o futuro, servindo como um gesto de humildade e esperança que define a atmosfera espiritual das festividades.
Ilustração criada por IA tendo por base um templo em Macau

Queimar incenso não é apenas um ato simbólico; é uma forma de comunicação. Acredita-se que o fumo que sobe carrega as preces, os agradecimentos e os desejos de boa sorte dos fiéis até aos deuses e aos antepassados. No início de um novo ciclo lunar, este gesto serve para pedir proteção e saúde para a família, atrair prosperidade e sucesso nos negócios, limpar as energias negativas do ano que passou.
O ritual segue uma etiqueta específica. Os fiéis seguram as varetas de incenso com as duas mãos, elevando-as à altura do peito ou da testa em sinal de respeito. O incenso é colocado em grandes recipientes de metal ou pedra (ding), muitas vezes decorados com dragões ou símbolos auspiciosos, localizados à entrada ou no pátio central dos templos.
O cenário é marcado pelo aroma intenso do sândalo e pelas nuvens de fumo que criam uma atmosfera de solenidade e introspeção, contrastando com a agitação festiva das ruas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Caracteres chineses na entrada do Templo de A-Ma / 妈阁庙

Esta ilustração produzida por IA foi feita a partir de uma fotografia da década 1950. Mostra a entrada do Templo de A-Ma (ou Ma Kok Miu), o templo mais antigo de Macau com uma história que remonta a 1488 (dinastia Ming).
No topo - horizontal - 媽祖閣 -  Templo de Mazu.
Mazu é a deusa do mar e protectora dos pescadores e marinheiros. 
Painel da esquerda - 澤潤生民  - "Sua benevolência nutre e protege o povo."
Refere-se às bênçãos da divindade que trazem prosperidade e sustento à população.
Painel da direita - 德周飽宇 - "Sua virtude envolve e preenche todo o universo."
Exalta o poder espiritual infinito da deusa.
Ao Fundo (interior do portal) - 神山第 - "A Primeira Montanha Sagrada."
Origem do nome "Macau":
Acredita-se que o nome Macau derive deste templo localizado no acesso ao Porto Interior.  Reza a história que quando os navegadores portugueses ali chegaram e perguntaram o nome do local os habitantes responderam "A-Ma-Gau" (Baía de A-Má). Fonéticamente adoptaram o nome "Macau".
A Divindade:
O templo é dedicado a Mazu, a deusa do mar e protectora dos pescadores e marinheiros; figura central na cultura popular chinesa e no Taoísmo.
Património da Humanidade:
Está classificado pela UNESCO desde 2025 como Património Mundial da Humanidade.
Arquitectura e Cultura:
O complexo é composto por vários pavilhões de oração, portais e pátios construídos na encosta de uma colina, integrando-se com a natureza. É um local de harmonia entre o Confucionismo, o Taoísmo, o Budismo e múltiplas crenças populares.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Camões no Oriente"

"Camões no Oriente" é o mais recente título da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (ilustrações de Rui Sousa) a integrar a Biblioteca Digital da Fundação Jorge Álvares.
Da colecção "Portugueses no Oriente", vocacionada para o público juvenil, fazem ainda parte os títulos "Missão Impossível", "A Nau do Trato" e "Encontros na Cidade Proibida" – "os quais, além de animadas aventuras dos seus jovens intervenientes, contêm muita Informação histórica de fácil leitura e aprendizagem. Estas edições, não comerciais, foram especialmente encomendadas pela Fundação Jorge Álvares às autoras, tendo sido distribuídos vários exemplares pelas bibliotecas que integram a Rede de Bibliotecas Escolares nacional. A Nau do Trato foi por sua vez traduzida para chinês numa iniciativa do então Embaixador de Portugal em Pequim, José Augusto Duarte."

Excerto:
"No ano 1562 o vice ‑rei, que era D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, nomeou Luís de Camões Provedor dos Defuntos em Macau. Este cargo era muito apetecido por ser bem pago pela coroa portuguesa e não só. O Provedor de Defuntos tinha como missão fazer o inventário de todos os bens deixados por portugueses que morressem em Macau. Devia vendê‑los em leilão e guardar o dinheiro que obtivesse para o entregar aos herdeiros ou à coroa, mas tinha o direito de ficar com uma percentagem. Só podia exercer o cargo quem soubesse ler, escrever, interpretar leis. E, naturalmente, convinha que fosse honesto para não dar informações erradas aos herdeiros e à coroa e para não se apropriar daquilo que não lhe pertencia. Já viviam então muitos portugueses em Macau e praticamente todos se dedicavam ao comércio. A exceção era os padres. O imperador da China tinha autorizado os portugueses a instalarem ‑se em Macau para comerciarem em 1557. 
A partir de então a cidade, que fica situada na foz do rio das Pérolas começou a desenvolver‑se não só devido à presença dos portugueses mas também porque muitos chineses foram atraídos pelos negócios que ali podiam fazer. Naquele porto o movimento era cada vez mais intenso. Naus vindas de Goa transportavam produtos europeus, ouro da costa oriental da África, tecidos da Índia especiarias das ilhas Molucas e outros produtos de outras regiões da Índia e do Pacífico. Em Macau tudo isso se vendia com lucro e por lá se compravam porcelanas e sedas da China. A partir de certa altura, passou a haver também comércio com o Japão, onde as naus se dirigiam sobretudo para comprar prata. De modo que, quem fosse corajoso, hábil e tivesse sorte, conseguia enriquecer. Quanto mais trocas se fizessem, mais a coroa lucrava porque as naus tinham de pagar taxas alfandegárias em todos os portos dominados pelos portugueses. (...)
Segundo a tradição, o poeta subia com frequência a colina de Patane e sentava ‑se a escrever no interior de uma formação rochosa, que passaria à história como «penedo de Camões ou gruta de Camões». Ninguém sabe se realmente teria escrito naquele lugar ou não, mas se o fez escolheu bem porque naquele tempo, sem construções em volta, podia desfrutar de uma bela vista e porque em dias de calor e humidade desfrutaria também de sombra e frescura. Quem hoje visita Macau, se passar pela dita «gruta» ali encontrará um busto do poeta em bronze.(...)" 
Todas as obras desta colecção podem ser acedidas e descarregadas no site da FJA. 


No site está ainda disponível informação sobre o concurso "Vale a Pena Ler" para o ano lectivo 2025/26 e que tem como destinatários, nesta edição, as escolas de Portugal Continental e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Para esta iniciativa a Fundação Jorge Álvares "convida todos os alunos e professores a mergulharem nos fascinantes conteúdos da sua Biblioteca Digital e a participarem num concurso único, onde o conhecimento, a imaginação e a criatividade se encontram para dar vida a novas ideias!"
O concurso destina-se a alunos do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, sendo a participação individual, mas sempre no contexto escolar, com o acompanhamento de um(a) professor(a) responsável.
O período de candidaturas decorre entre 15 de Março e 23 de Abril de 2026.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

"A principal festividade entre os chineses é o dia de Ano Novo"

O principal festival principal entre os chineses é o dia de Ano Novo. Ninguém se preocupa com negócios e todos se ocupam em banquetear-se. Este dia é por eles considerado como um dia de jejum, o qual se diz ter sido estabelecido para evitar casos de embriaguez. Cada homem veste roupas novas e, mesmo aqueles que vivem em extrema pobreza, aparecem neste dia com algo novo.
Oito dias antes do ano novo, quase todas as lojas começam a decorar-se com artigos novos, tais como flores artificiais, papel de joss, etc., de diferentes desenhos e cores; enquanto nas ruas se vêem flores em vasos, brinquedos, curiosidades e coisas afins. Estas destinam-se todas à venda. Aqui e ali, também se encontram diferentes grupos de chins activamente ocupados no jogo. Na água, os barcos estão todos alegremente decorados com bandeiras. O número de barcos nesta ocasião é muito grande. A música e os foguetes são indispensáveis, tanto de dia como de noite.
Na véspera do ano novo, o concurso de gente e o seu entusiasmo aumentam. O jogo multiplica-se proporcionalmente e não há lugar onde não se veja. À noite, tanto a praça do mercado como o porto tornam-se belos por via de imensas iluminações, naturalmente acompanhadas, especialmente, por música e pelo atroar dos foguetes. Os barcos, quando iluminados, produzem um efeito óptimo. A compra e a venda são extensas, mas nunca deixam de ser acompanhadas, mesmo nesta época feliz, por numerosos furtos.
Assim que chega a meia-noite do último dia do ano, todas as lojas fecham e todo o tipo de trabalho cessa. O festival continua por um número maior ou menor de dias, geralmente não excedendo oito, e estes são os dias que os chins consideram como os principais. Ao nono dia, quando as lojas começam a abrir para o negócio ordinário, há de novo festejos, que consistem simplesmente em soltar foguetes, queimar papel de ritual, e assim sucessivamente.
O segundo dia da segunda lua é o dia dedicado aos deuses domésticos. Esta festa é celebrada em várias partes da cidade por sociedades, sendo as despesas suportadas por subscrição. Cada uma destas sociedades ergue uma tenda no local escolhido para o efeito, e nestas tendas há sempre uma boa exposição de pinturas. Toca-se música dentro da tenda e, no exterior, queimam-se panchões a intervalos. Durante o tempo da festa, oferecem-se sacrifícios na tenda, uns após outros. Quando muita gente se reúne, queima-se um panchão exposto de forma vertical. Assim que este cai, todos se lançam sobre ele, e aquele que o apanhar primeiro ganha um prémio e será considerado feliz durante todo o ano. Mais alguns destes panchões ou grandes panchões são queimados a intervalos, e as partes que os recolhem têm os mesmos interesses que o primeiro.
Os panchões são todos numerados e, consequentemente, a qualidade e o valor de cada um estão indicados. Aqueles que os apanharam são obrigados a apresentar outros semelhantes para o mesmo fim. Para que nenhum dos intervenientes que os apanhou falte ao cumprimento da sua obrigação, os directores tomam nota e guardam um memorando com os nomes dos indivíduos. Sob o nome de cada um, indica-se o número que ele deve fornecer. Estes actos são apenas praticados pelas classes comuns. Os ricos realizam os seus sacrifícios nas suas próprias casas, mas muitos deles aparecem no referido festival como espectadores.
O festival dura habitualmente dois ou três dias e termina com a queima de um outro tipo de fogo-de-artifício, que tem lugar na noite do último dia. Nele são colocadas figuras que se movem pelo fogo, representando personagens dramáticas. O título da peça é representado em caracteres sagrados e o fogo-de-artifício é composto por tantas partes quantos os actos da representação teatral que se pretende imitar. O primeiro acto é representado na parte inferior do fogo-de-artifício e, assim que termina, aparece o segundo acto, e assim sucessivamente até que todos os actos estejam findos.
A festa da deusa Kuonyn celebra-se ao décimo nono dia da mesma lua. Esta festa consiste em sacrifícios realizados nas casas, no mar e nos templos; e nesta ocasião há sempre uma grande quantidade de comida oferecida, além de pequenos pedaços de papel dourado e prateado.
Nos últimos dias da mesma lua, que é o princípio da Primavera, os chins começam a fazer sacrifícios sobre as lápides dos seus parentes falecidos. Estes sacrifícios duram geralmente mais de vinte dias. Colocam-se vitualhas perto das lápides, e queimam-se roupas de papel e pequenos pedaços de papel dourado e prateado. Quando os sacrifícios estão na véspera de terminar, uma parte da comida é distribuída pelos pobres, que nestas ocasiões costumam reunir-se em grande número.

Tradução/Adaptação minha do texto da autoria de Manuel de Castro Sampaio (post de ontem). Ilustrações criadas por IA.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

The principal festival with the Chinese is New Year's Day

The principal festival with the Chinese is New Year's Day. No one cares about business, and everyone is occupied in feasting. This day is considered by them as a fast day, which it is said was established in order to avoid cases of intoxication. Every man dresses in new clothes, and even those who live in extreme poverty appear on this day with something new.
Eight days before the New Year, nearly all the shops commence to decorate with new articles, such as artificial flowers, joss paper, etc., of different designs and colours, while in the streets are to be seen flowers in pots, toys, curiosities, and such-like things. These are all intended for sale. Here and there, too, are to be met with different groups of Chinese busily engaged in gambling. On the water, the boats are all gaily decorated with banners. The number of boats on this occasion is very great. Music and fire crackers are indispensable, both in the daytime and at night.
On the eve of the New Year, the concourse of people and their enthusiasm increase. The gambling multiplies proportionably, and there is no place where it is not to be seen. At night, both the marketplace and the harbour are rendered beautiful by immense illuminations, of course accompanied especially with music and the firing of crackers. The boats, when illuminated, produce a fine effect. The buying and selling are very extensive, but never fail to be accompanied, even at this happy season, by numerous thefts.
As soon as midnight of the last day of the year arrives, all the shops close and work of all kinds ceases. The festival continues for a greater or lesser number of days, generally not exceeding eight, and these are the days which the Chinese look upon as the principal ones. On the ninth day, when the shops begin to open for the ordinary business, there is again a feast which consists simply in firing crackers, burning joss paper, and so on.
The second day of the second moon is the day dedicated to the household gods. This feast is celebrated in various parts of the city by societies, and the expenses are borne by subscription. Each of these societies builds a tent in the locality chosen for the purpose, and in these tents there is always a goodly display of pictures. Music is played inside the tent and outside fire crackers are burnt at intervals. During the time of the feast, sacrifices are offered in the tent one after another. When many people meet there, a kind of firework is burnt. As soon as it falls, everyone rushes upon it, and he who picks it up first wins a prize and will be considered happy for the whole year. Some more of these fireworks or big crackers are burnt at intervals, and the parties who pick them up have the same interests as the first one.
The fireworks are all numbered and, consequently, the quality and value of each is indicated. Those who have picked them up are obliged to present similar ones for the same purpose. In order that no one of the party who has picked them up shall fail in fulfilling his obligation, the directors take and keep a memorandum of the names of the individuals. Underneath the name of each is indicated the number he has to supply. These acts are only practised by those of the common classes. The rich perform their sacrifices in their own houses, but many of them appear at the above festival as spectators.
The festival usually lasts for two or three days and ends with the burning of another kind of firework, which takes place on the night of the last day. Figures are placed on it which are moved by the fire, representing dramatic characters. The title of the piece is represented in sacred characters and the firework is composed of as many parts as there are acts in the theatrical performance which has to be imitated. The first act is represented on the lower part of the firework and, as soon as it comes to an end, the second act appears, and so on until all the acts are finished.
The feast of the goddess Kuonyn is celebrated on the nineteenth day of the same moon. This feast consists of sacrifices performed in the houses, at sea, and in joss houses; and on this occasion there is always a great quantity of food offered, in addition to small pieces of gilt and silver paper.
On the last days of the same moon, which is the beginning of Spring, the Chinese commence to make sacrifices over the gravestones of their deceased relations. These sacrifices usually last more than twenty days. Victuals are placed near the gravestones, and paper clothes and small pieces of gilt and silver paper are burnt. When the sacrifices are on the eve of terminating, a part of the food is given away to the poor, who on these occasions generally muster in great numbers.

Excerto de "Manners & Customs of the Chinese at Macao", publicado em Xangai em 1877. Trata-se da versão em inglês (tradução de Rufino Francisco Martins) da obra publicada dez anos anos em Hong Kong - "Os Chins de Macau" - da autoria de Manuel Castro Sampaio.  

Este livro é considerado um dos primeiros e mais detalhados estudos etnográficos sobre a comunidade chinesa em Macau escritos por um português. Nele, Sampaio descreve com rigor os costumes, a religião, as festividades e a organização social da população local.
O livro inclui esta "Planta Topographica do Bazar de Macau"

Manuel de Castro Sampaio nasceu no Porto a 28 de Agosto de 1827. Com uma formação académica superior, licenciou-se em Medicina, o que lhe conferiu um rigor científico e uma capacidade de observação que marcariam todo o seu percurso profissional e intelectual no Oriente. Assentou praça no Exército em 1845 e três anos depois partiu para Macau em 1848, integrando o quadro de saúde do Ultramar.
Ao longo da sua estadia em Macau, Sampaio desenvolveu uma carreira multifacetada. No plano militar e administrativo, ascendeu ao posto de capitão e exerceu cargos de grande responsabilidade, como o de Secretário da Junta da Fazenda. O seu prestígio intelectual valeu-lhe o reconhecimento internacional, tendo sido distinguido como sócio-correspondente da Real Sociedade Asiática de Londres (Royal Asiatic Society), uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo dedicadas ao estudo das culturas orientais.
No campo das letras teve um papel preponderante na imprensa de Macau sendo editor a colaborador activo do periódico Ta-Ssi-Yang-Kuo (Arquivos do Extremo Oriente), iniciado em 1863. Colaborou ainda com a Gazeta de Macau e o Echo do Povo. Ainda em Portugal fundara o Voz do Alentejo.
Entre 1871 e 1873 foi Governador de Timor, um mandato onde se empenhou na organização administrativa e na melhoria das condições de saúde pública. 
Após décadas de serviço no Oriente, Manuel de Castro Sampaio regressou a Portugal, vindo a morrer em Lisboa, a 12 de outubro de 1875.

Para além dos livros já referidos foi ainda autor de: 
Pobreza envergonhada (Valença, 1852); Ensaios Poeticos (1858); Compendio de hygiene popular – tradução livre do texto de D. Francisco Tamires Vaz, (Elvas, 1860); Victimas de uma paixão (Lisboa, 1863); Memorias dos festejos realizados em Macau no fausto nascimento de S. A. o sr. D. Carlos Fernando (Macau, 1864); Compendio de Ortographia (Macau, 1864).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em memória do pai...

Em Maio de 2019 a galeria At Light, no Pátio do Padre Narciso em Macau, acolhia a exposição "Casa das Duas Filhas - Fotos da Família de José Vicente Jorge".
As duas filhas (de José Vicente Jorge) que deram o mote à mostra eram Henriqueta* e Maria. As irmãs foram as mães dos primos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge que acabariam por casar.
Pedro e Graça são um exemplo na perpetuação da memória da história da família intimamente ligada a Macau. Basta lembrar livros como "A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô" (1992), "Danilo no Teatro da Vida" (2010), "José Vicente Jorge: Macaense ilustre" (2012), entre outros, mas também inúmeras iniciativas de índole cultural, incluindo exposições com as pinturas de Pedro Barreiros que morreu a 15 de Janeiro de 2022.
Pintura de Pedro Barreiros: exposição em 2013

Miguel Barreiros, filho de Pedro, não teve oportunidade de ver esta exposição e após a morte do pai prometeu "dar continuidade" ao seu trabalho "para preservar a memória da nossa família de Macau e do meu bisavô, José Vicente Jorge".
Por estes dias recebi um e-mail do Miguel com votos de "Kung Hei Fat Choi! 恭喜發財" onde explica que o pai "tinha a tradição de celebrar o Ano Novo Chinês partilhando um desenho do animal do zodíaco que iniciava o seu ciclo". Na ausência física do pai, Miguel decidiu "retomar esse gesto em memória dele e em honra às nossas raízes de Macau. Partilho convosco este desenho que fiz inspirado nessa tradição e pela mestria dos seus traços. É a minha forma de o homenagear e de manter viva a sua arte e o seu espírito."
Aqui fica... Kung Hei Fat Choi e um abraço Miguel!
* Henriqueta Pacheco Jorge Barreiros - filha de José Vicente Jorge e mulher de Danilo Barreiros - foi aluna de Camilo Pessanha (1867-1926) em Macau. Henriqueta ambicionava ir estudar para Portugal mas o pai não concordava. Foi Pessanha que não só o convenceu como pagou uma mesada à estudante. 
Pedro Barreiros (1943-2022), filho de Danilo Barreiros e neto de José Vicente Jorge que foi amigo de Pessanha, revelou esta história em Outubro de 1990 aquando de uma exposição em Macau com pinturas suas sobre Pessanha: "Foi Camillo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a “gentil menina” e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!"

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ano Novo Chinês na década 1990 por Vitor Cordeiro

Vitor Cordeiro trabalhou na Companhia de Electricidade de Macau (CEM) nas décadas de 1980/90. Nesses anos registou por diversas vezes imagens dos "momentos de vivência de espiritualidade" durante o Ano Novo Lunar nos templos de A Ma e Kun Iam Tong”. 
De um conjunto de fotografias feitas a preto e branco entre 1992 e 1999 concebeu uma exposição em 2014, a "Cultos, Templos, Ou Mun” de que na altura o blogue Macau Antigo deu notícia. Aqui ficam alguns desses registos.


Biografia
Vítor Cordeiro nasceu no Cadaval em 1953. Engenheiro electrotécnico, desde muito cedo manifestou interesse pela fotografia, mas foi a partir de 1983, altura em que se radica em Macau para exercer a sua actividade profissional, que passou a ter uma relação mais íntima com a objectiva. Sendo a Ásia uma área de interacção de diferentes culturas proporcionou-lhe um vasto e diversificado registo de imagens, levando-o a desenvolver ainda mais o gosto pela fotografia e entre 1992 e 1996 participa no curso de fotografia do Instituto Politécnico de Macau. Regressado a Portugal em 2000, embora rendido ao digital, mantém ainda o hábito de registar imagens em película a preto e branco, que trabalha num pequeno laboratório improvisado em sua casa.
Exposições e prémios
2º prémio no concurso de fotografia - Navio Escola Sagres (Macau) - 1984; Exposição colectiva (Macau)- 1996; Menções honrosas nos concursos da Junta de Turismo da Ericeira - 2001 a 2004; Exposição colectiva solidária (Cascais) – 2010, 2011, 2012, 2013, 2014. Exposições Individuais: Fotografia de Macau - Clube EDP (Lisboa) – 2009. Cultos, Templos, Ou Mun - Ano Novo Lunar em Macau na Delegação Económica e Comercial e Turismo de Macau (Lisboa) - 2010; Biblioteca Municipal do Cadaval; Festival Finisterra – Hotel Sana Sesimbra; Marshopping (Matosinhos), Palácio de Cristal (Coimbra) - 2012. Expressões Lorosae -Timor: Clube EDP (Lisboa); Clube TAP (Lisboa); Coop. Comunicação e Cultura (Torres Vedras) - 2010; Biblioteca Municipal do Cadaval; Palácio do Gelo (Viseu)- 2011; Elos Clube Lisboa e Maristas Carcavelos - 2012. A Música de Pragança: Junta de Freguesia de Lamas (Cadaval); Clube Pessoal EDP (Lisboa) –2011; Assembleia da República (Lisboa) e Pragança (Cadaval) - 2012.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

As danças do Leão e do Dragão durante o ano novo chinês

Esta fotografia - colorida por IA - é dos primeiros anos da década de 1960. Ao fundo vista parcial do campo de jogos do Liceu e do edifício residencial Rainha D. Leonor. Do lado direito vê-se parte do Padrão Henriquino, colocado frente à entrada do Liceu (na Praia Grande) nas comemorações do Ano Henriquino em 1960. Não tenho elementos que permitem perceber o evento, mas está por certo relacionado com a Dança do Leão ou a Dança do Dragão. As duas performances fazem parte da cultura chinesa e ocorrem em diversas ocasiões, incluindo no Ano Novo Chinês.
Dança do Leão
A Dança do Leão é um dos rituais mais vibrantes do Ano Novo Lunar, funcionando como uma ferramenta espiritual para purificar o ambiente e atrair prosperidade. É também um ritual noutras festividades ao longo do ano, casamentos, inaugurações, etc... 
Ao contrário do dragão, o leão é operado por apenas dois dançarinos que, através de uma coreografia vigorosa baseada nas artes marciais, dão vida a um animal irrequieto. O ponto alto da performance é o ritual Cai Qing, onde o leão "caça" e come uma alface normalmente pendurada à porta de estabelecimentos. Escondido entre as folhas, encontra-se sempre um envelope vermelho (hongbao) com dinheiro, que serve como oferta de gratidão e pagamento simbólico. Após "comer" a alface e o envelope, o leão 'cospe' as folhas sobre o público, um gesto que simboliza a partilha da fortuna e das bênçãos para o novo ciclo. Todo o espetáculo é ritmado por tambores e gongos constantes, cujo som estridente tem a missão crucial de espantar os maus espíritos.
O Simbolismo e o Ritual
Espantar o mal: O principal objetivo da dança é afastar os maus espíritos e a má sorte acumulada no ano anterior através do som alto dos tambores e da figura imponente do animal.
O Ritual "Cai Qing" (Colher o Verde): Este é o momento mais icónico. O leão "caça" uma alface (ou outra hortaliça) pendurada na porta de lojas ou casas. Dentro da alface há um envelope vermelho (hongbao) com dinheiro. O leão "come" a alface e depois a cospe para fora, simbolizando a disseminação da fortuna e prosperidade para o dono do local.
Diferenças Visuais e Técnicas
Estrutura: Ao contrário do dragão (que precisa de muitos homens), o leão é operado por apenas dois dançarinos: um controla a cabeça (e as pálpebras/orelhas) e o outro 'faz' as costas e a cauda.
Estilos: Existem dois estilos principais: o do Norte, que é mais acrobático e o leão parece um cão peludo, e o do Sul (mais comum em Macau e Hong Kong), que foca na expressão facial e no poder das artes marciais. Tradicionalmente, são as escolas de Kung Fu que realizam as danças, pois os movimentos exigem uma base de pernas (postura de cavalo) extremamente forte e grande agilidade física.

Dança do Dragão
A Dança do Dragão é outro dos espetáculos bastante aguardados nas celebrações do Ano Novo Lunar Chinês, simbolizando poder, sorte e prosperidade. Longe de ser apenas uma performance, é um ritual que visa afastar os maus espíritos e trazer boa fortuna para o ano que se inicia.
Os dragões, figuras lendárias e benevolentes na cultura chinesa, são representados por longas estruturas flexíveis, manobradas por uma equipa de dançarinos. Cada parte do corpo do dragão – da cabeça maciça e expressiva à cauda ondulante – exige coordenação perfeita e força física. Guiados por um "Portador da Pérola" que simula o objecto da sabedoria e do poder, o dragão serpenteia entre as multidões, realizando movimentos que imitam o seu voo e a sua busca por harmonia.
Durante os festejos do Ano Novo, a Dança do Dragão "desperta" a energia da comunidade. Ao som ensurdecedor de tambores, gongos e pratos – que não só animam o ritmo, mas também espantam o azar – o dragão ganha vida, movendo-se com agilidade e majestade. A dança, muitas vezes realizada em procissões vibrantes pelas ruas, atrai multidões, que acreditam que tocar no corpo do dragão traz sorte.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ano do Cavalo: Feliz Ano Novo Chinês | 春节快乐 | Happy Chinese New Year

駿馬賀歲 喜迎新春  年是馬年,象徵着活力、自由與前進
Year of the Horse, a symbol of energy, freedom, and progress
Ano do Cavalo: símbolo de energia, liberdade e progresso
駿馬大吉  2026 新年快乐 
Que o cavalo lhe traga boa sorte e um Feliz Ano Novo de 2026!

PS: imagem criada por IA  a partir de pintura do século 19.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Ano Jubilar da Dioecesis Macaonensis

"De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia 1576-2026" é o mote do Ano Jubilar da Diocese de Macau (Dioecesis Macaonensis), a primeira do Extremo-Oriente.
Foi estabelecida a 23 de Janeiro de 1576 pela bula "Super Specula Militantis Ecclesiae" emitida pelo Papa Gregório XIII, desligando-se da diocese de Malaca. Desde início foi consagrada a Santa Catarina de Senna e São Francisco Xavier.
Aguarela das Ruínas de S. Paulo - 1951
pelo pintor macaense Luís Demée (1929-2014)

Celebrações
Até Janeiro de 2027 um vasto programa assinala a efeméride com exposições, espectáculos musicais, competições desportivas e simpósios académicos que pretendem promover uma reflexão sobre os últimos quatro séculos e meio de missão em Macau.
A grande cerimónia comemorativa está marcada para o dia 31 de Outubro de 2026 e inclui uma recepção e uma Celebração Eucarística. Os fiéis vão unir-se em torno da Eucaristia nesta ocasião para demonstrar gratidão a Deus "pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meios" e rezar "para que Ele continue a orientar o caminho a seguir" nos anos vindouros, segundo a Diocese.
Emissão filatélica
A Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações (CTT) emitiu uma emissão filatélica especial que "integra um conjunto de quatro selos, sendo que cada um apresenta um edifício emblemático intimamente associado ao catolicismo em Macau: (...) o Paço Episcopal, a Igreja de S. Lázaro, o Seminário de S. José e a Sede da Cáritas de Macau." 
A emissão inclui ainda um bloco "com a imagem de um mapa antigo da região como fundo a contrastar com o recém-construído Centro Católico da Diocese em primeiro plano, aludindo a uma fusão entre o velho e o novo para delinear o contexto histórico e expressar ainda a importância de Macau como berço e centro da expansão do catolicismo no Oriente. A parte inferior do bloco ilustra várias igrejas listadas como património cultural de Macau, que destacam, no seu conjunto, o profundo valor histórico, cultural e social da Diocese de Macau."

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Marciano Baptista: do desenho a lápis à aguarela

O Forte de S. Tiago da Barra é uma das muitas aguarelas produzidas por Marciano Baptista  (1826-1896) na segunda metade do século 19. No espólio de José Maria (Jack) Braga (1897-1988) à guarda da Biblioteca Nacional da Austrália está o desenho a lápis e caneta que Marciano fez antes da aguarela. A indicação manuscrita no desenho - "S. Tiago Fort, Macao by M. Baptista" - terá sido feita por Marciano ou por Braga, quando fez a doação do seu espólio em 1966. Tal como Marciano, também Jack Braga, viveu em Hong Kong.
Uma pequena descoberta para assinalar os 200 anos do nascimento daquele que é considerado o maior nome da pintura macaense no século 19. Em baixo o resultado de uma imagem criada por IA onde solicitei a sobreposição do desenho e da aguarela.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ano Novo chinês em 1926

Há 100 anos o ano novo chinês teve início a 13 de Fevereiro. Era o Ano do Tigre - também de fogo. Nesse dia um grupo de turistas passou pela cidade e registou para a posteridade o momento.
Juncos ancorados no Porto Interior na década 1920

Notícia do jornal A Pátria a 12 de Fevereiro de 1926:
Ano Novo Chinês
Grande numero de licenças para o jôgo de clu clu têm sido passadas na Secretaria Geral do Govêrno, cêrca de mil, vendo-se grande movimento nas vias públicas onde se encontram muitos estabelecimentos com artísticas decorações e reclamos engraçados.
A festa do Ano Novo representa para os chineses a mais importante e, por êsse facto, usam êles nestes dias os seus melhores vestidos o que dá um aspecto muito interessante ao movimento da cidade, especialmente nas grandes artérias, sendo o número principal desta festa o jôgo de clu clu.
Atraída por êstes tradicionais costumes, também a população não chinesa tem por hábito freqüentar os lugares de jôgo nestes dias, fazendo as suas paradazinhas, as quais por vezes atingem grossas quantias, pelo que, se tornam muito interessantes as suas fisionomias quando voltam para casa, notando-se vulgarmente mais tristeza que alegria, mas... lá está o ditado «Quem corre por gôsto não cansa.»

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Prémio Fundação Jorge Álvares – General Vasco Rocha Vieira – Amizade Portugal-China

A Fundação Jorge Álvares lançou este ano a primeira edição do Prémio General Vasco Rocha Vieira-Amizade Portugal-China. 
O objetivo é incentivar o estudo e a investigação das relações entre Portugal e a República Popular da China, através de Macau, bem como reconhecer as instituições que promovam iniciativas relevantes no sentido de reforçar a aproximação entre as comunidades portuguesa, chinesa e macaense. 
O prémio compreende duas categorias: instituições, a atribuir em anos pares, a começar em 2026; e trabalhos de investigação, a atribuir em anos ímpares, a começar em 2027. O valor do prémio é de vinte cinco mil euros.
Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo, Praia Grande, Macau
Desenho a lápis criado por IA a partir de fotografia de Rui Ochoa

Objectivo: Homenagear o último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, incentivando o estudo, investigação e projetos que reforcem os laços entre Portugal, China e Macau.
Periodicidade e Valor: Prémio anual de 25.000,00€, atribuído alternadamente a instituições (cultura, língua, educação, filantropia) e trabalhos de investigação.
Edição 2026 (Instituições): Focada em entidades que promovam o estreitamento das relações entre as comunidades.
Edição 2027 (Investigação): Tema definido como “Da assinatura da Declaração Conjunta à transferência da Administração Portuguesa de Macau”.
Candidaturas para 2026 (instituições): de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2026.