quinta-feira, 30 de julho de 2026

Recensão de "Suma Oriental" de Tomé Pires por João Guedes

Com uma mestria de escrita ao alcance de poucos, o jornalista, escritor e historiador João Guedes (há mutos anos radicado em Macau - eleva o conceito de recensão literária ao patamar do sublime com uma análise crítica de clareza cristalina e sem pretensões eruditas.
Rui Manuel Loureiro é muito provavelmente o maior especialista em Tomé Pires, a par de Armando Cortesão

Deixo o exemplo da obra "Suma Oriental", o primeiro grande tratado de geografia asiática escrito por um europeu, redigido entre 1512 e 1515 pelo boticário e diplomata português Tomé Pires (ca. 1465-ca.1540). A obra descreve rotas comerciais, portos, reinos e produtos desde o Mar Vermelho até à China, sendo fundamental para conhecer a visão portuguesa do Oriente no século XV
Um dos 4 selos postais comemorativos da "Fundação de Macau"
Emitidos em 1955 nunca chegaram a circular devido à melindrosa situação política vivida na China após a implantação da República Popular em 1949

Texto de João Guedes

TOMÉ PIRES O EMBAIXADOR QUE LEVOU PORTUGAL À CHINA E A CHINA NÃO QUIS SABER
Há homens que nascem para a glória, outros para o desastre, e alguns — os mais raros — para ambos ao mesmo tempo.
Tomé Pires, boticário de Leiria, era daqueles homens que acreditavam que o universo cabia numa caixa de remédios. Se lhe dessem o mar, ele pesava-o; se lhe dessem a China, ele catalogava-a; se lhe dessem o ópio, ele cheirava-o, anotava-o e talvez — quem sabe — o experimentasse com a curiosidade científica dos que não têm medo de pecar.
Não sabemos se recebeu a famosa “caixa de ópio” que a lenda lhe atribui. Mas conhecendo o homem, não seria de espantar que algum mercador árabe, desses que fumam a vida como quem fuma um cachimbo, lhe tivesse oferecido uma amostra, dizendo:
— Leva isto, português, que cura dores e abre horizontes.
Tomé, metódico, teria respondido:
— Abre horizontes? Então é droga de boticário.
E guardava-a no inventário, entre o ruibarbo e o benjoim.
A Suma Oriental é um milagre: escrita por um homem que nunca teve tempo para ser escritor, tornou-se o primeiro grande manual do Oriente para o Ocidente.
Camilo, se a tivesse lido, teria dito:
Este boticário escreve como quem sangra um paciente: com precisão, com frieza e com uma pontinha de sadismo científico.
E não estaria errado.
Tomé descreve tudo: os portos, as gentes, as drogas, os vícios, os reis, os preços, os cheiros, as mentiras e até os sonhos dos mercadores. É um inventário do mundo antes de o mundo saber que estava a ser inventariado.
Aqui entra a tragédia com humor.
Tomé Pires acreditava, com a convicção dos ingénuos e dos profetas, que nove naus portuguesas bastavam para tomar a China.
Nove.
Nem dez, nem vinte, nem uma armada. Nove.
Camilo teria rido até às lágrimas:
Nove naus para derrubar um império que tinha mais habitantes do que Portugal tinha sardinhas.
Mas Tomé acreditava. E acreditava porque via o mundo como boticário: se uma dose cura, nove doses salvam o paciente.
O problema é que a China não era paciente. Era dragão.
A viagem para Cantão foi triunfal. A subida para Pequim, promissora. A chegada à corte Ming, desastrosa.
Os antigos senhores de Malaca, despejados pelos portugueses, já lá estavam a envenenar o ambiente. O intérprete muçulmano foi preso. As credenciais não foram aceites. Os mandarins desconfiavam de tudo, sobretudo de portugueses que falavam alto e prometiam mundos.
Tomé Pires, que sonhava apresentar-se ao Imperador como quem se apresenta a Deus, acabou numa espécie de limbo burocrático, onde cada dia era igual ao anterior e cada esperança morria antes de nascer.
A prisão de Tomé Pires não foi épica. Não houve correntes, nem torturas, nem masmorras húmidas. Houve algo pior: indiferença imperial.
Ser ignorado pela China era pior do que ser morto pela China.
Camilo teria escrito:
O pior suplício não é o cutelo, é o desprezo.
E assim foi.
Tomé desapareceu na névoa da burocracia Ming, como um papel que cai atrás de uma mesa e ninguém se dá ao trabalho de apanhar.
Há quem diga que Tomé Pires foi libertado. Há quem diga que viveu anos na China. Há quem diga que teve uma filha chinesa, vista por um jesuíta que jurava ter falado com ela.
Se é verdade? Ninguém sabe.
Mas é tão belo que devia ser verdade.
Imagino-a assim: uma mulher de olhos escuros, com um sorriso que mistura Oriente e Ocidente, dizendo ao padre:
— Meu pai era português. Um dos primeiros. Um que veio falar com o Imperador e ficou por aqui.
E o jesuíta, comovido, anotava no diário:
— Há portugueses que não voltam porque não podem. E há portugueses que não voltam porque o coração fica preso.
Tomé Pires terá morrido em Pequim. Ou terá morrido algures na China, longe de tudo o que conhecia. Ou terá morrido livre, mas exilado.
Qualquer das versões é trágica. Qualquer das versões é camiliana.
Porque Tomé Pires é daqueles homens que nascem para não regressar.

Parte do manuscrito "Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chijs compilada por Thome Pirez" existente na Biblioteca da Assembleia Nacional de França
Tomé Pires, Índia (?), c. 1515, versão copiada por Francisco Rodrigues, 1516 (c.).

[No topo da página]
Libro primeiro da summa Oriental
e discursos das tres Arabias, feliz, petrea
e deserta, egipto, persia, atee cambaya
do gram Cam e china.

Summa oriental que trata do maar roxo
utheo os chijs copilada por thome pirez

Livro primeiro repartiçam da asia
com affrica

[Texto Principal]
Asia a partam dafrica pella bamda do maar mediterramjo por alexandria e dahi por deserto e monte synay pello rio nylo e do maar oceano pello meodja segundo a opinjã e repartiçam da parte daethiopia e abipia pella arabia feliz 

nacimento do nylo

Oquelle libro primeiro eujny primajrally traz dno nacimemto do cabo de boa esperamça. E tem primejro diabipia em q̃ heos nom chamjdos no fim da jndia simjlc com arabia feliz q̃ faz na navegacell pasa com ligeiro curso aegypto e vaye ao maar mediterramjo tenjdo por bãcos dy gles he principall lhe damjata pasa per uua ljnguba da cidade do cairo em julho e agost̃o q̃e he ljngua a terra e as gentes comem ea forza do nylo vem aos altos e tem em guardado e fazendas e como essga ljngua dam lugar que tomara a erguar e dentro de desembro e janejro
dizem os do egipto que este njlagre procede dy abissys gentes e para pello quall sam ffrancos em toda a terra do soldam e sam estimados a abipia entre os djsso vyolentramente e nem bebm tam na ljngua: e a comjnhã abipia

[Secção Abipia]
Abipia

Comfina abipia da bamda do maar roxo com a fabya feliz da bamda do maar oceano des guarda fuyat hetijomto como se faza nom que hayua no maar com ffromtejra ljguedas da bamda daffrica com os do nyl̃ e erem parte daethiopia. Sam fffracos tem gramde terra e senre.
quemtjza mjrcamti bell dela / ha mjamtrjmjmudo ouro em q̃ntjda. nem tem portos no maar vem faza qujs tratq̃ em zalla e hebar bora e djmtro no ffruto nos portos darabya sam estas gentes
toz mjuradas amtjgos e trjopec e dẽs sam de catoljco e de noffa ffe. vado na testa um lugar de bautjsmo / tem patrjarcas e bispos e outro religjosos vãm a jerusalẽs e a mamte synay mujtos
marias e adans / sam abridos nestas partes por vracos e ffrade e ffeos. cavalejros e mjuytos dezes e ffeos e mujdo espaçosos e vem ordem principalj mente em bem galla

[Secção Inferior]
E adem de que a parte de dalaq̃ he e naquẽ tratam com estes abespns valem na abexpja aguoa tofada fofas ffeguas e tratam mjngno pano e barros de cambaya e alguuas de prada com tas de toas sorte q̃ ysta ljno panos bramgos e tamaras e ffructos e mjffiaço

[Rodapé]
Mecaderias da bipia
ouro marfim caballos e ffrancos mamtjmentos

Tradução/Adaptação deste texto em português quinhentista

Título e Introdução]
Livro primeiro da Suma Oriental
e discursos das três Arábias: Feliz, Petreia e Deserta; do Egito, da Pérsia, até Cambaia, do Grão-Cão e da China.
Suma Oriental que trata desde o Mar Vermelho até aos Chins, compilada por Tomé Pires.

Livro Primeiro: Divisão da Ásia com a África
[A Divisão Geográfica e o Nilo]
A Ásia separa-se da África pelo lado do Mar Mediterrâneo por Alexandria e, daí, pelo deserto e Monte Sinai, pelo rio Nilo e pelo Oceano a sul, segundo a opinião e divisão da parte da Etiópia e Abissínia pela Arábia Feliz.

Nascimento do Nilo

Este livro primeiro trata inicialmente do nascimento junto ao Cabo da Boa Esperança. E tem primeiro a Abissínia, onde os homens são chamados, no fim da Índia, semelhantes aos da Arábia Feliz, que faz navegação e passa com curso ligeiro ao Egito e vai para o Mar Mediterrâneo. Tendo por bancos de areia Damietta, passa por uma língua de terra da cidade do Cairo em julho e agosto — e é por essa língua de terra que as gentes comem. E a força do Nilo vem aos altos e mantém guardadas as fazendas; e conforme essa língua de terra dá lugar, começa a baixar entre dezembro e janeiro. Dizem os do Egito que este milagre procede das gentes da Abissínia, motivo pelo qual os francos [cristãos] são respeitados em toda a terra do Sultão e são muito estimados. A Abissínia entra por estes territórios com grande força e não se bebe senão na língua [do rio]; e assim é a comunhão abissínia.

[Etiópia / Abissínia]
Abissínia
Confina a Abissínia, do lado do Mar Vermelho, com a Arábia Feliz; do lado do Mar Oceano, estende-se até à Etiópia, tal como se faz notar que não há no mar fronteiras ligadas com a África, com os do Nilo, e eram parte da Etiópia. São francos [cristãos], têm uma grande terra e senhorio. Há grande quantidade de comércio dela; há muito ouro em quantidade. Não têm portos no mar; vêm fazer o seu comércio a Zeila, Barbara e Massuá. Nos portos da Arábia estão estas gentes misturadas, antigas e prósperas. Quanto a Deus, são católicos e da nossa fé; trazem na testa uma marca de batismo. Têm patriarcas, bispos e outros religiosos. Vão a Jerusalém e ao Monte Sinai muitos "marias" e "adões" [homens e mulheres cristãos]. São respeitados nestas partes como frades e fiéis cavaleiros, muitos deles fidalgos e muito ponderados, e têm posições de grande importância, principalmente em Bengala.

[Comércio e Mercadorias]
E de Áden até à parte de Dahlak, no interior, negoceiam com estes abissínio-etíopes. Na Abissínia valem muito a água salgada, éguas, panos finos, jarros/vasilhas de Cambaia e algumas peças de prata, contas de toda a sorte que venham de lá, panos de linho brancos, tâmaras, frutos e miçangas.

Mercadorias da Abissínia:
Ouro, marfim, cavalos, cristãos [escravos/servos] e mantimentos.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Fotografias raras do Monumento aos Piratas em Coloane


Ainda não existia a igreja S. Francisco Xavier
Foi construída em 1928
Ao fundo era um orfanato dirigido pelas irmãs canossianas

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Conselho de Guerra no julgamento de piratas em 1910

Um monumento que existe em Coloane frente à igreja não passa despercebido mas imagino que a maioria das pessoas que por ali passa desconhece a sua origem. Remonta a 1910 quando ainda havia ataques de piratas...
O monumento da vitória sobre os piratas
fotografia da década 1950

Foto de Luís Almeida Pinto. 2025
A fundo a Igreja de S. Francisco Xavier
ainda não existia quando o monumento foi construído no final de 1910

A 5 de Maio de 1910 um grupo de piratas assaltou uma escola na aldeia de Tong-Hang, distrito de San-Neng, (perto de Macau) raptaram 17 alunos e um ajudante de cozinheiro e levaram-nos para Coloane, exigindo $35.000.00 de resgate. Perante o conhecimento dos factos - já em Julho - e apelos dos familiares dos sequestrados, o governador Eduardo Marques ordenou uma força militar atacar os piratas e libertar as crianças.
É assim que começa a operação militar na Ilha de Coloane. Após um contingente inicial ter sido repelido a tiro, foi mobilizada uma força composta por polícias europeus, tropas chinesas, indianas e paquistanesas, marinheiros e as lanchas-canhoneiras Pátria e Macau. 
Lancha canhoneira "Macau" na década 1910

Os combates tiveram início a 14 de Julho com o bombardeamento da orla de Coloane, prolongando-se por vários dias devido à dificuldade em diferenciar a população dos piratas e em localizar os reféns. A 19 de Julho, as tropas descobriram a primeira caverna, resgatando 11 crianças e detendo sete piratas. Nos dias seguintes, recorrendo ao uso de enxofre para forçar a saída dos ocupantes, foram invadidas outras cavernas, como a da praia de Hác-Sá, o que permitiu libertar mais crianças e capturar dezenas de meliantes.
No total, foram capturados cerca de 300 piratas e a maioria das crianças regressou para junto dos pais, enquanto as não reclamadas foram assistidas pela Santa Casa da Misericórdia e pelo Hospital de S. Rafael, acabando algumas por ser adoptadas na comunidade. 

jornal A Verdade 8.9.1910

O desfecho deu-se a 30 de Agosto de 1910 com o julgamento em Conselho de Guerra no Quartel de S. Francisco - processo que contou com a participação do jurista e poeta Camilo Pessanha -, culminando na condenação de oito cabecilhas a 28 anos de degredo em Moçambique. 
1910年路環島打擊海盜行動中逮捕的海盜

Esta fotografia mostra cinco dos piratas presentes ao Conselho de Guerra no que parece ser o pátio do Quartel de S. Francisco em Agosto de 1910. Têm de cada lado dois militares do exército português de serviço em Macau.

domingo, 26 de julho de 2026

Uma caso de polícia em 1910

Prisão importante
Foi preso na tarde de domingo findo, em Macau, Antoine Rogazzacci, que dizem ser subdito francez, acusado de, por meio de ameaça á mão armada, ter obrigado o gerente do hotel Boa Vista, o sr. A. Vernon, a passar-lhe um vale na importancia de $10.000, pagavel á vista em Hongkong.
Sobre o caso forneceu-nos um dos empregados do hotel Boa Vista os seguintes informes:
Na noite de 18 de agosto findo, dois dias depois de se alojar no hotel, Rogazzacci, tendo entrado, de revolver em punho, no quarto do sr. Vernon, exigiu que este lhe passasse um vale na importancia de $10.000, cobravel na missão franceza de Hongkong.
Munido d’esse documento, seguiu Rogazzacci na manhã imediata para Hongkong, sem, comtudo, ter ali conseguido resultado algum, porquanto o sr. Vernon tinha telegrafado para a missão franceza, recomendando que se não efectuasse o pagamento; embarcando de tarde para aquella colonia, afim de ratificar pessoalmente o seu telegrama e narrar pormenorizadamente o sucedido.
Rogazzacci voltou no dia 19 de agosto a esta cidade, e, como não tivesse encontrado o sr. Vernon, embarcou novamente no dia imediato para Hongkong, d'onde, á mesma hora da manhã, regressava o sr. Vernon.
Irritado e contrafeito por esse desencontro, Rogazzacci escreveu ao sr. Vernon, dizendo que o seu revolver, que não tinha sido usado na noite de 18, serviria na primeira oportunidade em que elle, sr. Vernon, fosse encontrado.
Informada a policia do caso, foi por muitos dias vigiada a chegada de todos os vapores da carreira, vindo finalmente Rogazzacci a ser preso, na tarde do ultimo domingo, 4 do corrente, proximo da estação da Rua da Felicidade, a requisição do sr. Xavier, runner do referido hotel, depois de o mesmo Rogazzacci ter desembarcado do vapor Hoi-sang, da carreira de Cantão.
Ao efectuar-se a prisão, foi encontrado em poder do preso um revolver.
Rogazzacci foi remetido na terça-feira ao tribunal judicial, onde se está preparando o competente processo crime.
in jornal A Verdade 8.9.1910

sábado, 25 de julho de 2026

"Sinais indicativos de tufão"

Julho é por norma um mês de muita chuva em Macau, prenunciando a época dos tufões.  Refira-se chuva diluviana... intensa e muitas das vezes num curto espaço de tempo. Nesta altura o tufão Noul aproxima-se da região.
Nos primórdios do século 20 os sinais de tufão eram içados nos mastros da Fortaleza da Guia, Fortaleza do Monte, Capitania dos Portos e Taipa. Eram ainda usados silvos de sereia ou tiros de peça na Fortaleza do Monte, de acordo com a intensidade prevista da tempestade tropical.
Zona da Av. da República em 1983 durante o tufão Ellen

A história regista que os tufões mais graves a atingir Macau ocorreram no mês de Setembro. Aqui ficam alguns exemplos:

22 Setembro 1874 - o mais grave de sempre
2 Setembro 1937 - ainda não havia a prática de atribuir nomes
3 Setembro 1948 - Gertrudes
8 Setembro 1949 - Lise
22 Setembro 1957 - Gloria
1 Setembro 1962 - Wanda
5 Setembro 1964 - Ruby
10 Setembro 1964 - Sally
9 Setembro 1983 - Ellen
17 Setembro 1993 - Becky
16 Setembro 1999 - York
"Sinais indicativos de tufão" há um século: 1926/27
A escala máxima era "8"
Curiosidades:
Os nomes surgiram após a segunda guerra mundial e começaram por ser femininos por influência de uma prática militar; os meteorologistas inspiraram-se nas tradições navais e em hábitos pessoais para baptizar as tempestades com nomes de esposas, namoradas ou mães. A partir da década 1970 terminou este critério.

Macau faz parte do Comité de Tufões da Ásia, os Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau criaram uma lista com 10 nomes inspirados na cultura e geografia da cidade.
Esses nomes entram num "saco comum" com os nomes escolhidos pelos outros países da região (China, Japão, Hong Kong, etc.) e vão sendo usados um a um à medida que surgem novas tempestades no Oceano Pacífico.
Lista actual: Bebinca (Sobremesa da gastronomia macaense) - usado em 2000; Sanba (Ruínas de S. Paulo); Vongfong (Vespa); Nuri (Papagaio); Penha (Colina da Penha); Muifa (Flor de ameixoeira); Baboqu (Espécie de pássaro); Peilou (Nomenclatura local); Pulasan (fruta tropical); Soulik (Nome regional).

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma mansão na Rua do Hospital

A Igreja Batista de Macau ( 澳門浸信教會), também conhecida como Primeira Igreja Batista de Macau, é a igreja batista chinesa mais antiga de Macau e está localizada na Rua de Pedro Nolasco da Silva, nº 41.
Legenda: "John and Lillian Galloway Mission House Macao (1935)"

As origens remontam a Dezembro de 1903 quando o reverendo Charlton Todd e a mulher foram enviados a Macau pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos para realizarem trabalho missionário. Em 1904 há registo de terem baptizado cinco pessoas e, em 1905, o número de membros tinha crescido para vinte e cinco. A igreja foi formalmente estabelecida nesse ano como "Igreja Fé e Bênção", a antecessora da atual Igreja Batista de Macau. Inicialmente, alugaram uma casa de três andares na Rua do Campo para reuniões e trabalho missionário.
Em 1908, o Rev. Charlton Todd morreu vítima de doença enquanto regressava aos Estados Unidos para um relatório missionário. No mesmo ano, a igreja americana enviou o Reverendo John Galloway para assumir o cargo que, juntamente com Lilian Lamont Reeves Todd Galloway, a viúva do Rev. Charlton Todd, desenvolveu o trabalho missionário em Macau. Mais de uma década depois os dois viriam a casar.
A Igreja Batista de Macau estabeleceu sucessivamente a "Escola Primária Pui Chi", a "Escola Secundária Pui Ching" (1908-24) e a "Escola de Orientação Espiritual para Meninas" (1913-31). Também adquiriram embarcações para ajudar os filhos dos pescadores a aprender a ler e para transportar alimentos e mantimentos para hospitais de leprosos.
Em 1927, utilizando uma doação da mãe do Reverendo Charlton Todd, a igreja adquiriu o terreno da actual 'sede' da igreja e que na época chamava-se "Todd Memorial Hall" (Salão Memorial Todd). Assim nasce a mansão no então nº 9 da Rua do Hospital (referência ao Hospital S. Rafael), o actual nº 41 da Rua Pedro Nolasco da Silva onde fica a Igreja Baptista de Macau.
A fotografia faz parte do livro "Like A Tree Planted By Streams of Water" da autoria de R. Lawrence Ballew, publicado em 2020.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

"Tourist Map"

Nas imagens um mapa desdobrável publicado entre o final da década 1970 e o início da década 1980 com as descrições dos pontos turísticos de Macau em português, chinês e inglês.
Na 'capa' uma fotografia - a preto e branco com estética retro/vintage - com um casal de jovens turistas numa pausa durante um passeio. O homem está de pé precisamente a consultar um mapa/guia desdobrável. O mote da campanha expresso no folheto é "Descubra Macau sozinho e verá como é interessante." Para maior facilidade de consulta os sítios de visita recomendada têm a indicação das coordenadas do mapa.
Macau
Fundada oficialmente em 1557, a cidade está marcada pela presença portuguesa de mais de 4 séculos. É interessante verificar o contraste que a cidade nos oferece, na sua arquitectura de estilos português e chinês que ainda mantém.
Permita-nos sugerir alguns pontos de interesse que não devem ser esquecidos:
A fachada de São Paulo (I-15), que outrora fora uma catedral e destruída por um violento incêndio em 1835; a Fortaleza do Monte (I-16), que ostenta belíssimos canhões outrora fundamentais para a defesa da cidade; o Farol da Guia (O-15), o primeiro a ser construído na Costa do Sul da China; a Porta do Cerco (N-2), fronteira que separa Macau da China; a Ermida da Penha e Residência Episcopal (E-23); o Jardim de Lou Lim Ioc (M-13), construído segundo a traça dos jardins clássicos de Sou Chow, China; o Pagode de A-Ma ou Barra (B-23), o mais antigo em Macau; o Templo de Kun Iam (O-10), onde foi assinado o 1.º Tratado de amizade entre a China e os Estados Unidos da América; o Museu e a Gruta de Camões (H-13), em homenagem ao grande poeta.
Descubra Macau sozinho e verá como é interessante. Nas Ilhas visite a Casa Museu da Taipa, Avenida da Praia.
澳 門
澳門是在一五五七年正式被葡萄牙人所建立,已有四百多年歷史。遊覽澳門可以看到富有特色之葡萄牙及中國色彩的建築物。
下列旅遊勝地是遊客遊覽澳門時不容錯過的:大三巴牌坊 (I-15) 原是一座大教堂,在一八三五年被火焚毀;中央大炮台 (I-16) 在一六二二年當荷蘭人入侵澳門時用來防禦本市,是大炮台歷史上最光榮的一刻;松山燈塔 (O-15) 是首座在南中國海岸所建立的;關閘 (N-2) 分隔著澳門及中華人民共和國;西望洋教堂及主教私邸 (E-23);盧廉若公園 (M-13) 是以中國蘇州的古典公園爲榜樣而建造的;媽閣廟 (B-23) 是澳門最古老的廟宇;觀音堂 (O-10),中國與美國曾在此地簽訂通商友好條約;賈梅士石洞 (H-13) 爲紀念偉大的葡萄牙詩人而建立。
這些旅遊勝地祗是一種提議,你們遊覽澳門時可以發現到更多有趣的事物。在離島,遊客可以前往氹仔海邊馬路參觀一座住宅式博物館。
Macau
Macau was officially founded in 1557 with the Portuguese presence for more than 400 years. Macau offers an interesting architecture, being a contrast of Portuguese and Chinese styles that still maintains.
Following are some places of interest that you should not miss:
The Ruins of St. Paul (I-15), once an imposing cathedral, destroyed by a fire in 1835; the Monte Fortress (I-16), from where the cannons defended the City of the Dutch invasion in 1622; the Guia Lighthouse (O-15), the first of its kind built on South China Coast; the Border Gate (N-2), the entry point from Macau to P.R. China; the Penha Church and Bishop's Residence (E-23); Lou Lim Ieoc Garden (M-13), modelled from the classical gardens of Soo Chow, China; A-Ma Temple (B-23), the oldest one in Macau; Kun Iam Temple (O-10), where the first friendship treaty between China and USA was signed; the Museum and Camões Grotto (H-13), in memory of the great Portuguese poet.
These places are mere suggestions. Find out Macau by yourself and you'll see how interesting it will be. In the Islands visit the House Museum of Taipa in Avenida da Praia.

Impresso na Imprensa Oficial de Macau
澳門政府印刷署機印
Printing by Imprensa Oficial de Macau

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Uma antiga inscrição no "Hospital da Santa Caza da Mizericordia"

ESTE HOSPITAL DA SANTA
CAZA DA MIZERICORDIA
MANDOU FAZER LUIS COE
LHO SENDO PROVEDOR
NO ANNO DE 1747.
Em português corrente, "Este hospital da Santa Casa da Misericórdia mandou fazer Luís Coelho sendo provedor no ano de 1747."
Numa leitura individual e sem contexto a inscrição em pedra induz em erro. Na verdade refere-se a uma reconstrução do referido hospital. Uma das várias reconstruções de que foi alvo o hospital fundado no século 16 (1569) por D. Belchior Carneiro como Hospital da Misericórdia, sendo o primeiro hospital de medicina ocidental da Ásia
Principais reconstruções ao longo dos tempos:
1640; 1747; 1887; 1912-1913; 1938-39; década 1980/90. 
O antigo hospital alberga desde 1999 o Consulado de Portugal.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Antigo Tribunal volta a ser Tribunal

Numa altura em que foi anunciado que no final deste mês o Tribunal de Última Instância  da RAEM passará a funcionar na Avenida da Praia Grande, n.º 459, recordo alguns pormenores sobre o edifício que remonta a 1951 e onde nessa época funcionou um tribunal.
Após o final das obras em 1951

O edifício foi projectado pelo arquitecto António Lei em 1949 sendo uma obra de referência do estilo modernista clássico em Macau. As características arquitectónicas principais incluem: uma fachada simétrica de grandes dimensões e quatro colunas jónicas.
Constituído por três pisos começou por albergar as repartições de finanças, registos e administração civil. Foi ainda Tribunal Judicial da Comarca. No pós 1999 e após muitos anos de abandono sofreu obras e no piso térreo realizaram-se várias exposições.

Ca. 1955 já com a Estátua de Jorge Álvares em frente
Sensivelmente a mesma perspectiva mas no séc. 21

Excertos do jornal Notícias de Macau a 21.6.1952:
"(...) Visita ao Palácio das Repartições
Pelas 10.15 horas, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província, visitou o Palácio das Repartições Públicas, em cujo rés-do-chão se encontram instalados os Serviços de Fazenda e Contabilidade, no primeiro andar os Serviços de Justiça e, no segundo, os Serviços de Administração Civil, a Administração do Concelho e o Tribunal Administrativo.
Os Srs. Comandante Sarmento Rodrigues e Marques Esparteiro foram recebidos, à entrada do imponente edifício, por várias altas individualidades, civis, militares e eclesiásticas e Chefe dos Serviços ali estabelecidos, cujas dependências Suas Exas. visitaram com interesse, tendo para com todos os funcionários, indistintamente, palavras amáveis.
O ilustre Titular da Pasta do Ultramar a todos impressionou com a captivante simpatia da sua pessoa e trato lhano.
A inauguração do Tribunal Judicial da Comarca
Finda a visita ao Palácio das Repartições, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província e outras altas individualidades, dirigiu-se ao primeiro andar, afim de inaugurar as novas instalações do Tribunal Judicial da Comarca, onde já se encontravam outras entidades, distintas senhoras, e numeroso público. (...)"
Fachada do edifício após 1999 tendo sido retirados a inscrição em numeração romana de 1951 e o escudo de Portugal.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A morte de um agente de emigração chinesa

LEILÃO
POR ordem do ill.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Bernardino de Sena Fernandes, encarregado do consulado de Perú, os abaixo assignados venderão em hasta publica, no dia sexta-feira 3 de fevereiro, ao meio dia, nas casas n.º 53, sita na Praia Grande, toda mobilia do defunto Eᴅᴜᴀʀᴅᴏ M. Dɪ-Nᴇɢʀᴏ, constando de guarnição de sala, sofás, espelhos, piano, magnificas estampas em molduras, candieiros de augmento de pendurar, cadeiras, mesas de marmore, camas, commodas, lavatorios, armarios, mesas de jantar, e varios outros artigos, segundo o catalogo que se publicará.
E TAMBEM, Uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos, &c., &c., &c.
MARQUES & C.ᵃ Macau, 30 de janeiro de 1871.

Eduardo M. Dinegro era cidadão peruano e morreu a 24 de Janeiro de 1871 em Hong Kong. A existência de um consulado do Perú em Macau deve-se ao comércio/tráfico de cules/coolies (trabalhadores chineses contratados, muitas vezes sob condições de quase escravatura) entre 1851 e 1874. O Perú era um dos principais destinos para onde estes trabalhadores eram enviados para trabalhar nas plantações agrícolas e nas minas.
Com a abolição progressiva da escravatura negra no Perú (concluída na década de 1850), a elite proprietária de terras deparou-se com uma grave escassez de mão-de-obra. A importação de trabalhadores chineses sob contratos de servidão surgiu como a alternativa económica para sustentar a agricultura e a exploração mineira.
Macau transformou-se no principal porto de embarque devido às proibições impostas pelos britânicos noutras regiões da costa chinesa. Agentes privados e firmas locais (como a Dinegro & Landabaso) implantaram-se em Macau servindo de intermediários e operando os chamados "barracões", onde os trabalhadores eram reunidos (quando chegavam da China continental), os contratos eram assinados e os embarques eram organizados.

O inventário dos bens a leilão revela que Eduardo M. Di-Negro pertencia à elite abastada de Macau. Tal como a localização da residência, no nº 53 da Praia Grande, a maio da baía semi-circular. Desde o "piano" às "magnificas estampas em molduras" passando pelas "Mesas de marmore", espelhos, "sofás", "candieiros de augmento de pendurar" e, por fim, mas não menos importante, "uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos".
Ter uma carruagem e cavalos na Macau oitocentista era um sinal claro de imensa riqueza. Manter cavalos e carruagem era um sinal de ostentação já que nas estreitas e íngremes ruas da cidade este meio de transporte era altamente desaconselhável sendo usadas habitualmente as chamadas liteiras (ou palanquins), cadeiras de braços compridos à frente e atrás, que eram levadas por homens.

domingo, 19 de julho de 2026

"Empire Baby": uma relíquia fotográfica "Made in Macau"

No universo do coleccionismo de objectos vintage, há pequenas peças que contam grandes histórias sobre a globalização e a indústria transformadora de meados do século passado. A Empire Baby, promovida na sua embalagem original como "The Wonder Camera" (A Câmara Maravilha), é um exemplo perfeito deste encanto nostálgico.
Trata-se de uma câmara de tamanho ultra-compacto (daí o nome "Baby"), feita de baquelite ou plástico moldado preto, equipada com uma lente ótica simples ("Optical Crystal Lens"). O design minimalista inclui uma pequena alça de transporte para o pescoço e um característico botão de disparo vermelho.
Este modelo foi concebido para utilizar rolos de película de formato 127 ("Standard 127 Film"), permitindo tirar até 16 fotografias por rolo. O manual de instruções que acompanha o produto convida o utilizador a divertir-se ao sol ("Fun in the sun") e garante que, com um pouco de prática, qualquer pessoa será capaz de tirar fotografias com aspecto profissional.
A inscrição "MADE IN MACAU" é bem visível tanto na caixa de cartão amarelada como no pequeno folheto de instruções. A embalagem detalha ainda que o design do produto foi registado no Reino Unido ("Design Regd No. 890884 U.K."), sob o número 731.
Refira-se que este modelo também foi amplamente fabricado em Hong Kong.
Contexto
Até meados dos anos 70, a economia de Macau era dominada pelo setor têxtil, pela pesca e pelo tradicional fabrico de panchões (os cartuchos de pólvora para festividades). No entanto, no final dessa década, tornou-se urgente diversificar a economia local através de um verdadeiro salto tecnológico.
No início da década de 1980 - época de ouro do sector dos plásticos e produtos electrónicos de Macau - existiam no território cerca de 30 fábricas dedicadas ao fabrico de brinquedos, flores artificiais e artigos electrónicos. Nesse período grandes marcas multinacionais de brinquedos estabeleceram-se ou subcontrataram produção em Macau, incluindo a prestigiada Matchbox (famosa pelos carrinhos de metal) e a Harbour Ring. Eram produzidos em fábricas como a Perfekta Toys Ltd., a Sin Nung Toys Factory, a Wing Tat Plastic Toys Factory, a Kam Long Industrial Co. Ltd. e a Ho Tin Industries Ltd.

O catálogo era vastíssimo e os produtos "Made in Macau"/ "Fabriqué a Macau" / "Fabricado em Macau" eram exportados para todo o mundo. Produziam-se em grande escala brinquedos mecânicos e de corda, binóculos, aparelhos de rádio, relógios e pequenas câmaras fotográficas analógicas de plástico.
Em 1985, os brinquedos e os produtos electrónicos já representavam 31% de todas as exportações de Macau. No auge, em 1988, existiam no território 59 fábricas de brinquedos e plásticos, que davam emprego a cerca de 7 mil trabalhadores e representavam 10% do total das exportações locais.
Era também o fim de uma época. Com a abertura económica da República Popular da China no final dos anos 80, o preço da mão de obra no continente chinês tornou-se imbatível. As fábricas de Macau acabaram por fechar as portas e deslocalizar as linhas de montagem para a província vizinha de Guangdong (Cantão).

sábado, 18 de julho de 2026

Uma viagem à "esplanada" na década 1970

O temo quente convida a mais tempo em esplanadas. Estas fotografia documenta o espaço assim conhecido em português na década de 1970. Para a comunidade chinesa era a "Casa de Chá do Cavalo de Bronze". 

Localizada sob uma fileira de figueiras-de-bengala na então denominada Av. Dr. Oliveira Salazar (frente ao Liceu) o espaço tinha esta designação por ficar próximo da estátua do governador Ferreira do Amaral, designada popularmente pelos chineses como "estátua do cavalo de bronze".

銅馬茶座:位於蘇亞利斯博士大馬路一列大榕樹下的茶座,由於在銅馬像附近,故名“銅馬茶座”(1970年代)

PS: Um outro espaço muito semelhante existiu nas décadas 1950/60 mas a construção do Hotel Lisboa 'obrigou' à deslocalização.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd. / 澳門逸園賽狗股份有限公司

O ano de 1963 marcou o 'renascimento' do Canídromo em Macau pela concessionária Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd. /  澳門逸園賽狗股份有限公司.
Após uma interrupção de duas décadas, a reabertura oficial das corridas de galgos ocorreu a 28 de Setembro de 1963, no então designado Campo Desportivo 28 de Maio. O espaço esteve em funcionamento durante mais de meio século até ao encerramento definitivo em Julho de 2018 e por esta altura está a ser demolido.
Entrada do Canídromo em slides das décadas 1960/70

O anúncio em chinês abaixo é de 1963

澳門逸園賽狗有限公司
每逢星期六、星期日
下午七時半開始售票 八時正開跑
入場門券:
會員席 每位三元
公眾席 每位一元
包廂 每座六十元
(每座供六位用另兩個侍應牌)
(逢星期四起在新馬路逸園總會公開預售)
會員招待站: 新馬路卅一號逸園賽狗總會二樓
(供會員休息貯放行李) 電話:三四八六

Tradução/Adaptação:
Companhia de Corridas de Galgos Macau Yat Yuen, Limitada
Todos os Sábados e Domingos
Bilheteira abre às 19h30 
Início das corridas às 20h00 em ponto
Bilhetes de Entrada:
Bancada de Sócios: 3 patacas por pessoa
Bancada do Público: 1 pataca por pessoa
Camarote: 60 patacas por camarote
(Capacidade para 6 pessoas, inclui 2 passes de serviço para empregados)
Pré-venda ao público a partir de cada quinta-feira na Sede da Yat Yuen, na Avenida de Almeida Ribeiro)
Posto de Atendimento a Sócios: 2.º andar da Sede da Companhia de Corridas de Galgos Yat Yuen, N.º 31, Avenida de Almeida Ribeiro (San Ma Lo)
(Espaço para repouso de sócios e depósito de bagagem) Telefone: 3486

Factura de 1989

Postal da década 1980

Programa de 1996

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Aniversário do Centro Histórico de Macau como Património Mundial da Humanidade

Nunca é demais recordar que a data de 15 de Julho de 2005 marca um dos momentos mais importantes da história recente de Macau. Foi o dia em que o Centro Histórico de Macau foi oficialmente inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO durante a 29.ª sessão do Comité do Património Mundial realizada em Durban, na África do Sul. Com esta distinção, tornou-se o 31.º sítio classificado como Património Mundial na China.
O que é o Centro Histórico de Macau?
Trata-se de uma zona urbana contínua que reflecte mais de 450 anos de coexistência e fusão cultural entre o Oriente (China) e o Ocidente (Portugal). O conjunto classificado é composto por 22 monumentos históricos e 8 praças (largos).

Ilustração criada por IA a partir de fotografia da década 1940

Monumentos Históricos (22)

Templo de A-Má (o edifício mais antigo de Macau)
Quartel dos Mouros 
Casa do Mandarim (residência tradicional de Zheng Guanying)
Igreja de São Lourenço (e o seu adro)
Igreja e Seminário de S. José (incluindo o adro e a escadaria)
Teatro D. Pedro V (o primeiro teatro de estilo ocidental da China)
Biblioteca Sir Robert Ho Tung
Igreja de Santo Agostinho
Edifício do Leal Senado
Sam Kai Vui Kun (Templo de Kuan Tai)
Santa Casa da Misericórdia (edifício sede)
Igreja da Sé (Catedral)
Casa de Lou Kau
Igreja de S. Domingos
Ruínas de S. Paulo (antiga Igreja da Madre de Deus, vestígios do Colégio de S. Paulo, adro e escadaria)
Templo de Na Tcha (junto às Ruínas de S. Paulo)
Troço das Antigas Muralhas de Defesa
Fortaleza do Monte
Igreja de Santo António (e o seu adro)
Casa Garden (antiga residência e actual sede da Fundação Oriente)
Cemitério Protestante (incluindo a Capela de Morrison)
Fortaleza da Guia (incluindo a Capela de Nossa Senhora das Neves e o Farol da Guia)
Ruínas de S. Paulo / Largo da Companhia de Jesus

Praças e Largos (8)

Largo da Barra (em frente ao Templo de A-Ma)
Largo do Lilau 
Largo de Santo Agostinho
Largo do Senado 
Largo da Sé
Largo de S. Domingos
Largo da Companhia de Jesus (em frente às Ruínas de S. Paulo)
Largo de Camões (junto à entrada do Jardim de Camões)


A UNESCO atribuiu este estatuto devido ao valor universal excepcional do território. Macau funcionou como um porto internacional de extrema importância onde se cruzaram tendências arquitetónicas, estéticas, religiosas, tecnológicas e gastronómicas europeias e chinesas, criando uma identidade multicultural e arquitectónica única no mundo. Um património ímpar que deve ser preservado...

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Luto na Colónia"

Na sequência da morte do governador Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940, nesse dia e no seguinte, foram proibidos "divertimentos" em hotéis, restaurantes, casas de espectáculos e outros lugares". No jornal A Pátria de 10 de Julho uma pequena notícia refere o "Luto na Colónia:
"Por virtude do luto determinado pelo Govêrno da Colónia pelo falecimento de S. Exa. o Governador, os proprietarios e gerentes de hoteis, restaurantes*, casas de espectaculos e outros lugares onde se realizam divertimentos publicos, foram avisados de que, sob pena de desobediencia aos mandados da autoridade, hoje e amanhã, 10 e 11 do corrente mês, não são permitidos quaisquer divertimentos que nêsses estabelecimentos é costume realizar. A este respeito foi publicado um Edital da Administração do Concelho."

No dia seguinte à morte o jornal A Pátria não se publicou. No dia 10, os cinemas Vitória, Capitol e Apollo, que já tinham contratos de publicidade publicando regularmente anúncios viram os anúncios dos filmes 'cortados'.

O funeral realizou-se a 11 de Julho. No dia 10 o jornal A Pátria antecipava o programa das cerimónias fúnebres:
Nos actos funebres para o funeral de S. Exa. o Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, Sua Exa. o Encarregado do Governo determinou que se observe o cerimonial seguinte:
O cadáver de Sua Exa. o Governador ficará exposto no salão nobre do Leal Senado da Camara de Macau a pedido do povo desta cidade, feito ao Govêrno da Colonia por intermédio da Vereação, desde hoje, 10, até á saída do funeral, sendo o ataúde conduzido e colocado na eça pelos Vogais do Conselho do Govêrno.
O cadáver emquanto estiver em câmara ardente será velado por turnos organizados pelo Chefe da Repartição Central dos Serviços de Administração Civil e Chefe do Estado Maior, incumbidos de dirigir os funerais.
Amanhã, ás 11 horas, deverá ter lugar o funeral, que sairá do edificio do Leal Senado da Câmara de Macau para a Sé Catedral, onde o féretro ficará depositado até seguir para a Metrópole, sendo a chave da urna funerária entregue ao Sr. Encarregado do Govêrno.
Toda a fôrça armada disponivel formará em alas nas ruas por onde passar o cortejo fúnebre.
Uma bateria de artilharia achar-se-á postada nos terrenos do Pôrto Exterior a fim de dar a salva da ordenança, de 21 tiros.
Durante o dia de hoje e amanhã a Fortaleza do Monte dará um tiro de peça de meia em meia hora, desde as 8 ás 19 horas.
Durante os mesmos dias a bandeira Nacional será colocada a meia adriça, em todos os edificios públicos.
Durante 2 dias, a contar de hoje, é suspenso o serviço em todas as Repartições públicas dependentes do Govêrno, exceptuando aquelas em que o serviço pela sua natureza, não possa ser interrompido; ficam proibidos todos os espectaculos ou divertimentos públicos durante os referidos dias, ordenando as autoridades todas as demonstrações que costumam praticar-se em ocasiões semelhantes.
O funeral de S. Exa. é feito por conta do Estado."

terça-feira, 14 de julho de 2026

O funeral de Tamagnini Barbosa em Julho de 1940

Retrato a óleo (oficial) 
Imagem restaurada com a recurso a IA

A morte do governador (pela terceira vez) Artur Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940 ocupou toda a primeira página da edição desse dia do jornal A Pátria.
O padre Manuel Teixeira assina o artigo "Preito de Saudade" onde escreve ter acompanhado o governador nos últimos momentos de vida no Palacete de Santa Sancha, a residência oficial.
"Rodeado por quase todos, senão todos os Chefes de Repartição, assistido pelos médicos do corpo e da alma, amparado pelos amigos e tendo á cabeceira o seu filho estremecido, ás 7.25 horas da manhã*, S. Exa. o Governador* da Colónia, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, expirou plácidamente no ósculo do Senhor, com a cabeça inclinada para o lado direito."
A grande mancha da capa do jornal tem como título "O Governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa, faleceu ás 7.25 horas de hoje" e inclui uma fotografia.

"Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o governador predilecto de Macau, deixou hoje de viver nêste mundo de misérias e amarguras. De meia em meia hora a voz da artilharia está anunciando a todos a morte do preclaro cidadão.
Nesta mimosa e serena cidade de Macau, a que ele tanto se afeiçoou, berço de entes queridos, irmãos e filhos, nesta parcela de Imperio Colonial Português a que sempre dedicou cuidados especiais e pela qual, pelo muito que lhe queria, não hesitou em abandonar a situação culminante a que o seu mérito o guindára, para, sem olhar á saude, á categoria e aos proventos, vir ocupar o mesmo lugar com que iniciára quasi, há bem longos anos, a sua notavel carreira politica, Artur Tamagnini exalou o seu ultimo alento, após um prolongado e cruciante sofrimento, de que afectuosas dedicações não conseguiram salvá-lo.
Neste tão decantado e mimoso torrão português findou a existencia de Artur Tamagnini Barbosa, longe dos entes queridos — apenas o acompanhava um filho, Marco Antonio — sem conseguir vêr coroado do completo exito que desejava o seu esfôrço patriotico e desassombrado em prol de Macau.
Cidadão honesto, sincero, patriota, a sua vida, toda de trabalho, de honradêz, de lealdade e de dedicação pode sêr exposta á luz clara do dia, para exemplo dos que queiram seguir, sem tergiversar, a estrada do Dever.
O grande, imenso prestigio que carinhosamente cercava a inconfundivel figura de Tamagnini Barbosa, a admiração e o respeito que lhe tributavam as autoridades inglesas e chinesas e outras das circunvisinhanças desta Colónia, revelam bem o aprêço em que era tido o distinto colonialista nestas melindrosas paragens do Extremo-Oriente, hoje mais que nunca o ponto nevrálgico do mundo.
Estimado de longa data por tôda a comunidade chinesa e população macaense e europeia, era o perfeito colonizador e o mais excelente representante da civilização portuguesa. As manifestações de consideração e amizade de que foi alvo durante todos os periodos do seu govêrno em Macau são o melhor testemunho de quanto valia Sua Excelencia, que com lhaneza e refinado trato sabia manter a estima e o respeito de todos.
Artur Tamagnini de Sousa Barbosa foi nomeado a primeira vez governador de Macau por decreto de 1 de Junho de 1918, tomando posse em 12 de Outubro do mesmo ano. Uma mudança de ministério alguns mêzes depois originou o seu regresso a Portugal.
Por decreto de 19 de Junho de 1926 foi, pela segunda vez, nomeado governador da Colónia, o primeiro governador que para Macau foi nomeado pelo governo da Ditadura, tomando posse em 8 de Dezembro do mesmo ano, cargo que deixou em 1931 aureolado de invulgar prestigio nos meios estrangeiros, cujas autoridades frequentemente o visitavam.
Nomeado pela terceira vez governador de Macau, por decreto de 12 de Dezembro de 1936, cargo de que tomou posse em 11 de Abril de 1937, a morte abruptamente lhe interrompeu a carreira, hoje, ás 7.25 horas, contando 59 anos de idade.
A seus queridos filhos e irmãos e mais familia enlutada apresenta A Voz de Macau sentidas condolencias."
Aspecto do cortejo fúnebre a 11 de Julho de 1940
entre o Largo do Senado e o Largo de S. Domingos
Foto colorida com recurso a IA.
Original muito provavelmente da autoria de Neves Catela

Nota: Devido à Segunda Guerra Mundial o caixão forrado de zinco ficou muitos anos depositado na igreja da Sé. O corpo do governador só foi transladado para Portugal a 7 de Dezembro de 1946 a bordo do paquete Quanza que chegou a Lisboa a 21 de Janeiro de 1940 tendo nesse dia sido realizado um novo funeral no cemitério do Alto de S. João.