quarta-feira, 24 de junho de 2026

"Um dia de gloriosa recordação para Macao"

C. J. Caldeira assina este artigo publicado na "Parte Não Official" do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor de 28 de Junho de 1851.

Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recordação para Macao. Ha 229 annos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella,—um punhado de valentes repellio o formidavel attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d'armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d'Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o mencionam, mas sem maior individuação, e no Macuista Imparcial de 23 de Junho de 1836, lemos tambem algumas noções deste facto.
É por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma noticia sobre este successo, colhida de alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.
Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciais a varios portos, como usavam fazer naquella estação do anno,—vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della tres outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empreza, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.
Surgiram pois sós em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia,—tentaram neste mesmo dia o attaque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porem lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no emtanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Naquelle tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas, e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557; como Republica, somente pelo Senado: só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.
Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escachas, e catraias, desembarcaram uns 800 homens hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barulhento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.
Antonio Rodrigues Cavalhinha assistia então em uma de suas cazas, no campo que fica fronteiro á ellevação onde está hoje a fortaleza da Guia, e sahiu com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Hollandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma como o seu chefe Cornelis Reyers, (ou Kornelis Reyerszoon segundo Ljungstedt) que era tambem o Commandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo ao logar ónde existia o moinho do Padre Almeida, e onde existe um simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradição, recorda este successo.
Alli ficaram sós, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dispararam da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma peça bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia assistiam na mesma Fortaleza, porque no seu Convento proximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao,—e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, incendiando-o e abrazou alguns Hollandezes.
Elles desconfiando de não verem mais gente, e temendo que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinham á vista, receavam de passar quando quizessem penetrar na Cidade.
Reunio-se a gente pelo monte da Guia, onde estava uma peça de ferro (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha d'afóra da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com outro Portuguez, e mais vinte filhos da terra, e alguns moços captivos e todos cobertos entre os rochedos que alli havia, viam d’alto d'este modo os inimigos, fazendo-os vacilar e parar na subida.
Dividiram os Capitães os Cabos que dirigiam as baterias aos postos do Forte de S. Francisco e da Baim porto, contra as forças dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte de terra, deram ordem a que João Soares se expedisse com cincoenta mosqueteiros no posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mór da viagem do Japão, e reconhecendo o medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rosto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se desordenaram, e puzeram em fuga, largando bandeiras, armas, e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deu logar ao povo miudo para ir seguindo-o á sombra dos Portuguezes, e com tanto impeto que uma cafra (negra) fez neste dia de Parseira d'Aljubarrota, asseverando uns que matára alguns Hollandezes com o espeto da cozinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda; assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar precipitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram formalos de novo, para se não perderem todos pela confusão.
Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 300 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, dos quaes até ao seguinte dia só viveram sete.
Nesta occasião aquelles Portuguezes, e alguns Hespanhoes que se acharam aqui, obraram maravilhas, principalmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se póde deixar de admirar a resolução e cometimento de tão poucas contra tantos.
Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser soccorrida, e de se ver depois em grandes apuros,—ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.
Consta que o Regulo de Cantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes approximadamente) de arroz, para os moços que ajudaram a defender a terra, que ficaram forros, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.
Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sugeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros nem baluartes alguns; e tambem delli vieram algumas bombardas.
A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.
A Fortaleza de N. S. da Guia tambem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha á porta da mesma Fortaleza:
"Este forte mandou fazer a Cidade á sua custa pelo Capitão d'Artelharia Antonio Ribeiro d'Raia começou-se em Setembro de 1637 acabou se em Março de 1638 sendo Geral da Camara (d'Noronha)."
A piedade de nossos maicanes não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que esteve de ser presa dos Hollandezes, á especial protecção da Providencia, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.
Procuramos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquelle voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontrámos copia; mas no mesmo Senado existe uma antiga boki onde se lê o seguinte:
"A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S João Baptista — Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespers, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta á Missa Solemne na Sè Cathedral, como tambem as Vesperas.
N. B.
"Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Camara, junta em Conselho no anno de 1622: Isto em reconhecimento da distincta mercê, que Deus Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas, que na Praia de Cassi-lhas desembarcarem de bordo de treze (13) Navios, de que os Moradores alcançaram Victoria no Campo de Moha, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.
Alem desta Festa por voto solemne ficou-se dizendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armava, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.
Esta Missa se chamava da Victoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macao e suas familias, indo as creanças com flores e bandeiras: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n'uma especie de festa d'arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.
São estas as noticias que em pouco tempo podémos colligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem rellação com os factos da nossa historia nacional.
C. J. Caldeira

PS: Há uns tempos 'descobri' um relato desta batalha escrito em Macau meados do século 18; vou analisar - nomeadamente averiguar se Charles Boxer, a autoridade máxima neste assunto, menciona este documento - e depois publico.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A "Batalha de Macau" travada entre 22 e 24 de Junho de 1622

A Batalha de Macau, travada entre 22 e 24 de junho de 1622, é considerada uma das vitórias mais improváveis e espetaculares da história militar luso-asiática. No contexto da Guerra Luso-Holandesa (durante a União Ibérica), a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) tentou conquistar Macau para arrancar de Portugal o lucrativo monopólio do comércio de seda e prata com a China e o Japão.
O que se seguiu foi um autêntico "milagre" militar, onde uma força improvisada derrotou uma armada profissional.

O Cenário e a Desproporção de Forças
A armada holandesa, comandada pelo almirante Cornelis Reijersen, surgiu ao largo de Macau com 13 navios e cerca de 1.300 homens (incluindo soldados europeus, mercenários japoneses e guerreiros de Banda).
Do lado de dentro, Macau estava quase desguarnecida. O grosso dos homens aptos tinha partido na viagem comercial anual para o Japão ou estava a lutar na China Continental contra os tártaros a pedido do Imperador Ming. O Capitão-Mor Lopo Sarmento de Carvalho contava com uma força ínfima:
Cerca de 50 a 150 soldados e moradores luso-macaenses capazes de pegar em armas.
Um contingente de escravos africanos (de Moçambique e Angola) e asiáticos.
Alguns frades e jesuítas dispostos a lutar.
A Fortaleza do Monte, que ainda estava em construção.

O Relato do Confronto
1. O Bombardeamento Inicial (23 de junho)
Os holandeses começaram por bombardear o bastião de São Francisco para criar uma distração. Os marinheiros invasores, confiantes na vitória, passavam a noite a tocar tambores e trombetas, chegando a gritar ameaças para a costa. O capitão Reijersen enviou espiões para saber se a população chinesa da cidade (cerca de 10.000 pessoas) se juntaria a eles; os espiões regressaram informando que os civis chineses tinham simplesmente fugido para o interior, permanecendo neutros.

2. O Desembarque na Praia de Cacilhas (24 de junho)
Ao amanhecer do dia de São João Batista, cerca de 800 soldados holandeses e mercenários desembarcaram na Praia de Cacilhas sob fogo cerrado de um pequeno grupo liderado pelo macaense António Rodrigues Cavalinho. Na escaramuça inicial, o próprio almirante holandês Reijersen foi baleado no ventre e teve de ser evacuado para o navio, passando o comando a Hans Ruffijn.
Os holandeses conseguiram avançar terra adentro, forçando a retirada dos portugueses, e marcharam em direção ao centro da cidade, passando pelas faldas da Colina da Guia.

3. O Tiro de Sorte dos Jesuítas
Foi neste momento que a engenharia e a sorte mudaram o destino da batalha. Na Fortaleza do Monte, o padre jesuíta Giacomo Rho (um matemático e astrónomo italiano) apontou pessoalmente um dos grandes canhões da fortaleza em direção ao corpo principal do exército holandês em avanço.
A bala de canhão atingiu em cheio o carro de pólvora e munições dos holandeses, provocando uma explosão devastadora que quebrou a linha de avanço, espalhou o pânico e deixou os invasores sem capacidade de reabastecimento.

4. A Carga dos Escravos e a Vitória Final
Aproveitando o caos provocado pela explosão, Lopo Sarmento de Carvalho gritou o famoso brado de ataque. Quem liderou a investida mais feroz e decisiva foram os escravos africanos dos moradores de Macau, armados com lanças, alabardas e mosquetes. Motivados pela promessa de alforria em caso de vitória, e os jesuítas que os incentivavam com imagens de São João Batista, os escravos investiram com tanta fúria que os holandeses, aterrorizados, começaram a recuar em debandada.
O comandante holandês substituto, Hans Ruffijn, foi morto no combate. Os invasores fugiram em pânico absoluto de volta à Praia de Cacilhas. Muitos afogaram-se nas águas de Macau quando os barcos de salvamento viraram com o excesso de peso dos soldados em fuga.
Mapa publicado no boletim da Agência Geral das Colónias em 1926


O Rescaldo do "Milagre de São João"

As perdas foram extraordinariamente desproporcionais:
Holandeses: Entre 300 a 500 mortos (incluindo 7 capitães), centenas de feridos e a perda de quase todas as suas armas e bandeiras no campo.
Portugueses: Apenas 4 europeus mortos e cerca de duas dezenas de escravos e locais falecidos.

Consequência Histórica: Impressionado com a lealdade e a eficácia da defesa da cidade (e a bravura dos escravos, muitos dos quais foram imediatamente libertados pelos seus senhores), o Rei de Portugal nomeou no ano seguinte (1623) o primeiro Governador oficial de Macau, fechando as portas a novas investidas europeias e garantindo a permanência portuguesa no território por mais de 350 anos.
São João Batista foi imediatamente declarado o Padroeiro de Macau, e o dia 24 de junho foi celebrado na cidade como o "Dia de Macau" durante séculos.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

"Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau"

Composto por três volumes, "Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau", é um novo dicionário do crioulo de Macau, o patuá, da autoria do investigador português Raul Leal Gaião.
A obra foi publicada com o apoio da Universidade de Macau e apresentada no início do 2.º Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa.
O patuá é um sistema linguístico criado pela comunidade luso-descendente de Macau ao longo de 400 anos. Tem o português como base, mas mistura-o com malaio, cantonense, inglês e espanhol. Segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o patuá está "gravemente ameaçado de extinção".

domingo, 21 de junho de 2026

Bandas musicais macaenses das décadas 1960 e 1970

Na imagem Rui Espírito Santo, o baixista da célebre banda dos anos 60, os "Irmãos Espírito Santo".
Nas décadas de 1960 e 1970 ficaram ainda para a história da música em Macau grupos como os The Thunders, Telecasters, Young Ones, Heartbeats, The Myths, Flipsiders, The Lovers, Colourful Diamonds, etc... 
Nesta era de ouro dos agrupamentos musicais macaenses registaram-se concertos em locais como os hotéis Estoril, Caravela, Club de Macau, Teatro D. Pedro V, Cinema Nam Van, Teatro Cheng Peng, etc... 
The Thunders / Os Trovões

Recupero uma notícia de uma publicação de Hong Kong em 1967 relativa aos "Irmãos Espírito Santo".

Esperitosanto — Five Popular Macau Men
Here are five of the most popular young men in Macau — and they're all brothers. They're the Irmaos Espiritosanto, formed five years ago and now one of Macau's top groups.
Reading from the right, they're Rui (25), Jose (20), Reinaldo (18), Alfredo (16) and Antonio (15).
Rui, the married member of the group, is very proud of his eldest son, Panchito, who is already showing signs of following in dad's footsteps. Despite his tender years, young Panchito can already play the drums and shows ability with several instruments. Rui plays bass guitar in the group and sometimes fills in with a song. Jose, whose ambition is to become Macau's top guitarist, is the group leader and soloist. He is still at school, but hopes to make a career of music. Reinaldo, the rhythm guitarist, is a bird-lover and keen painter. He has done some fine paintings of the Macau's bullfights. Alfredo, who plays the drums, has an unusual hobby — he collects insects and butterflies. The "baby" of the family, Antonio, plays the maraccas and sometimes rhythm.
Tradução/Adaptação

Espírito Santo - Cinco Homens Populares de Macau
Aqui estão cinco dos jovens mais populares de Macau — e são todos irmãos. Eles são os Irmãos Espirito Santo, formados há cinco anos e hoje um dos principais grupos de Macau.
Lendo a partir da direita, eles são Rui (25), José (20), Reinaldo (18), Alfredo (16) e António (15). Rui, o membro casado do grupo, tem muito orgulho do seu filho mais velho, Panchito, que já mostra sinais de seguir os passos do pai. Apesar da sua tenra idade, o jovem Panchito já sabe tocar bateria e mostra habilidade com vários instrumentos. Rui toca baixo no grupo e, às vezes, complementa com uma canção. José, cuja ambição é tornar-se o melhor guitarrista de Macau, é o líder do grupo e solista. Ele ainda está na escola, mas espera fazer carreira na música. Reinaldo, o guitarrista rítmico, é um amante de aves e um pintor dedicado. Ele fez belas pinturas sobre as touradas de Macau. Alfredo, que toca bateria, tem um passatempo invulgar — coleciona insectos e borboletas. O "bebé" da família, António, toca maracas e, às vezes, ritmo.

sábado, 20 de junho de 2026

"Banhos de mar" há um século

Na edição de 23 de Junho de 1926 o jornal "A Pátria" noticiava a instalação de "barracas de banho" no istmo da Ilha Verde.

Banhos de mar
Por iniciativa da Direcção do Clube de Macau, foram levantadas no istmo da Ilha Verde algumas barracas de banho de que se poderão servir os sócios que desejem exercitar-se na arte natatória. O local que nas marés cheias chega a atingir a altura de 6 metros presta-se admiravelmente para êsse fim. Ao lado das barracas foram dispostas algumas mesas e cadeiras que poderão vir a servir para jogar, tomar chá ou refrescos, etc..
O bar instalado provisoriamente na barraca terá instalações melhores se os sócios com a sua presença tornarem o local mais animado. É de esperar, pois, que os sócios e suas famílias aí acorram a passar um bocado da tarde para que se não diga que em Macau tôdas as boas iniciativas morrem.
Na época existia outra 'zona balnear' na Areia Preta. Uma notícia do mesmo jornal a 25 de Julho de 1927 refere:
Praia de banhos
Tem estado cada vez mais concorrida a praia de banhos da Areia Preta, achando-se já ali construidas várias barracas de vários clubes e de famílias particulares, vendo-se tôdas as manhãs e tardes cavalheiros e senhoras praticando o bom exercício de natação.
Informam-nos que com isto muito vêm a perder as mesas do jogo predilecto "ma-cheok".

sexta-feira, 19 de junho de 2026

"Bebida para o Verão"

No Verão de 1933 uma das cervejas que se podia beber em Macau era a Dreher Trieste. Havia ainda a Sakura, Asahi, etc...
DREHER BEER
Cerveja italiana
A melhor qualidade de bebida para verão
À venda nas lojas:«Tai Song Lee» e «Macao Store»
Unicos Agentes:The Italian Agency 
2, Connaught Road Central, HONGKONG

O rótulo da garrafa no anúncio apresenta a inscrição "Dreher Beer" e indica a sua origem em "Trieste", a cidade italiana onde a marca se estabeleceu a partir de 1869. Contudo as origens da Dreher remontam ao final do século XVIII e estão profundamente ligadas à própria evolução das cervejas modernas do tipo lager na Europa Central. Em 1796 Franz Anton Dreher - mestre cervejeiro de origem suábia - adquiriu a pequena cervejaria Klein-Schwechat, localizada perto de Viena de Áustria.
Em 1841 o seu filho, Anton Dreher, assumiu o negócio e revolucionou a indústria mundial. Após viajar e estudar técnicas em Inglaterra e na Alemanha, combinou o método britânico de maltagem com a levedura de baixa fermentação. O resultado foi a criação da Vienna Lager, a primeira cerveja lager clara e brilhante do mundo, o que lhe valeu o título de "Rei da Cerveja".
Devido ao enorme sucesso e à necessidade de expandir a produção, em 1862 Anton Dreher comprou uma cervejaria no distrito de Kőbánya, em Budapeste. A excelente qualidade da água subterrânea daquela região húngara permitiu consolidar a Dreher como uma das maiores produtoras de cerveja do Império Austro-Húngaro.
Em 1869 o filho de Anton Dreher (Anton Dreher Jr.) expandiu o império familiar em direcção ao mar Adriático, comprando uma cervejaria na cidade portuária de Trieste (a do rótulo). Trieste pertencia ao Império Austro-Húngaro na altura, mas viria a integrar o território italiano após a Primeira Guerra Mundial.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Placa de granito da antiga Igreja da SCM

No antigo Leal Senado - actual Instituto para os Assuntos Municipais - existem alguns 'objectos' que não fazem parte da história do edifício tendo sido recolhidos de diversos locais de Macau aos longo dos tempos e pelas mais diversas razões.
Um desses exemplos - e sobre o qual recebo por vezes questões dos leitores - é uma placa de granito que está incrustada numa parede no acesso ao jardim. Esta placa pertencia à antiga igreja da Santa Casa da Misericórdia, localizada ali bem perto e onde está actualmente a SCM, a primeira instituição de beneficência de Macau. A remoção fez-se aquando da demolição da igreja por volta de 1883. Na imagem pode ver-se a Virgem Maria com as mãos ao peito, em sinal de prece pelos pobres e aflitos. Ao lado tem os anjos que seguram o manto, símbolo da protecção aos crentes e da benevolência e compaixão de Nossa Senhora.
PS: O sino que se vê na imagem é o da capela que existia no edifício do Leal Senado.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Loja "A Portugueza" na Rua do Campo

No final do século 19 e início do século 20 a Rua do Campo e a Rua Central eram as principais artérias comerciais da cidade. Refiro-me aos negócios pertencentes a ocidentais, nomeadamente portugueses, já que a zona do bazar era onde se concentrava a maioria do comércio, deste caso dominado pelos chineses. 
No caso da Rua do Campo imperavam as mercearias e botequins onde os principais atractivos eram a venda de produtos portugueses, nomeadamente vinhos correntes, licorosos e enlatados.
Na imagem acima a "Loja A Portugueza" no número 50 da Rua do Campo. Em baixo um anúncio de Abril de 1911 publicado no jornal A Pátria.

Atenção !
LOJA "A Portugueza"
RUA DO CAMPO N.º 50, MACAU.
—+:0:+—
Achando-se o proprietario d'este estabelecimento em condições de competir com qualquer outro do mesmo genero, convida o respeitavel publico a não fazer qualquer acquisição sem primeiro confrontar as qualidades e preços dos generos porque aqui se vendem.
N'este estabelecimento se encontra á venda um grande sortimento de artigos tanto nacionaes como extrangeiros.
— PREÇOS SEM RIVAL —
Francisco dos Santos Ferreira.

Na Rua do Campo havia ainda no início do século 20 - entre outros estabelecimentos - a "Loja Alto Douro" (no número 22), propriedade de António Martins da Silva que garantia que "n'esta rua não há quem venda mais barato" e o "Novo Botequim Portugal" (no número 36) de João José Pedro.

PS: Note-se que a Av. de Almeida Ribeiro só ficou concluída cerca de 1918 e só a partir de então passou a constituir-se com principal artéria comercial de Macau, pela sua extensão e pelo facto de ter comércio dos dois lados da avenida.

terça-feira, 16 de junho de 2026

"A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau"

Ieng Weng Fat, historiador de Macau, lançou no sábado a sua obra mais recente sobre a investigação histórica da proeminente família Chio, que chegou a Macau entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, ou seja, no século XVII.
Intitulado "A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau, and Reconstruction of their Mong-Há Ancestral Shrine", o livro apresenta uma análise sistemática da evolução da família Chio (ou “Zhao”, em mandarim), desde a sua mudança para a antiga aldeia de Mong Há, em Macau, envolvendo dez gerações e mais de três séculos e meio de história familiar.
De acordo com Ieng Weng Fat, o intuito da publicação é de enriquecer o estudo histórico em Macau sobre a família Chio, através de traçar, de forma abrangente e completa, as figuras proeminentes desta família, bem como o percurso do seu desenvolvimento em Macau. A obra
procura “reconstruir a memória histórica da família Chio há muito esquecida”, segundo apresentou o autor.
“No passado, as investigações sobre a família Chio limitavam-se, na sua maioria, a um estudo focado nas conquistas académicas deles. 
Neste livro pretendo delinear a história do desenvolvimento desta família, sobre a sua origem e a passagem ao longo dos séculos”, frisou o autor, no lançamento de livro que decorreu no sábado na livraria Fangsuo, no Grand Lisboa Palace.
O conteúdo do livro estende-se ainda a outras famílias chinesas centenárias em Macau que passaram também a se instalar na aldeia de Mong Há. “Espero que a minha investigação possa fornecer uma base de referência para a indústria cultural de Macau, nomeadamente para os criadores de histórias nas áreas do cinema, da televisão e da literatura”, disse o também membro do Conselho Consultivo de Desenvolvimento Cultural.
A investigação de Ieng Weng Fat para esta obra levou mais de três anos, mas a sua ligação à família Chio remonta a mais de vinte anos, quando conheceu um descendente de família e fez uma visita à Mansão da Família Chio, a segunda residência da família em Macau e agora bem imóvel classificado da RAEM.
Ieng Weng Fat detalha no livro as raízes profundas da família Chio através de uma abordagem que combina a história da arquitectura com a filologia, incluindo um registo genealógico que consta num poema de nomes de geração de 42 versos, transmitido desde a dinastia Song (960–1127).
Segundo registos históricos, a família Chio descende da família Imperial Zhao da dinastia Song, cuja 12.ª geração mudou-se para o condado de Xiangshan para seguir a carreira de alto funcionário. Entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, a 22.ª geração da família mudou-se de Xiangshan para a aldeia de Mong-Há, em Macau.
Depois, em meados do século XIX, a 28.ª geração da família Chio mudou-se de Mong-Há para a Travessa da Porta, onde está a Mansão da Família Chio.
A família Chio é conhecida de ser um clã de eruditos. Após a chegada a Macau, gerações de descendentes da família Chio estudaram com afinco e alcançaram excelentes resultados nos exames imperiais. Entre eles, as gerações 25.ª e 26.ª, da dinastia Qing, foram os mais respeitados porque o pai e o filho alcançaram a posição de ‘Juren’, ranking de pessoas que passaram o exame provincial, segundo ranking mais alto dos exames imperiais. Aqueles que detinham a posição de ‘Juren’ passavam a gozar do estatuto de nobreza e, consequentemente, de privilégios sociais, políticos e económicos.
A conquista académica do pai e filho de Chio contribuiu para uma história muito badalada em Macau na altura e a casa ostentava em tempos uma placa que celebrava as suas realizações.
“Isto marcou uma importante transição de Chio de uma família influente no plano económico para uma família influente no plano cultural”, salientou o autor.
A família Chio também operava uma escola privada numa sala lateral do templo da sua família, em Mong Há, que agora já não existe. Nessa escola ensinavam confucionismo e formaram mais académicos e artistas nessa altura. "(...)
Excerto de notícia da autoria de  Catarina Chan publicada no jornal Ponto Final 8.6.2026
Casa da família Chio nos números 24 e 26 da Travessa da Porta
Foto IC
Curiosidade: 
Apesar do nome em português ser Travessa da Porta, em chinês denomina-se 趙家巷 que significa Rua da Família Zhao (Chio). Fica na zona do antigo bazar chinês, perto da Rua dos Mercadores.
Sugestão de leitura adicional:
"Edifícios Tradicionais Chineses em Macau" de Chan Su Weng e Wong Ieng Kuan, Editora Sinofare Lda., 2002.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Clube Militar distinguido com Menção Honrosa no Platinum Clubs of the World

O Clube Militar de Macau foi distinguido com uma menção honrosa na lista Platinum Clubs of the World para o biénio 2026-2027 em Junho último.
A instituição fundada em 1870 com a designação Grémio Militar foi reconhecida entre os melhores clubes privados globais na categoria de "Clube de Cidade", de uma lista que inclui clubes de Golfe e Iatismo, num processo de selecção que envolveu especialistas de 22 países.
Vista panorâmica ca. 1875/1880

A menção honrosa coloca o Clube Militar de Macau a par de instituições de renome internacional, como o Harvard Club of New York City, nos Estados Unidos, o Bangkok Club, na Tailândia, e o Royal Selangor Club, na Malásia.
A lista Platinum Clubs of the World é actualizada bienalmente e inclui 300 clubes nas categorias de golfe, cidade e iatismo.
Grémio Militar em construção num detalhe de uma fotografia ca. 1868/69 por John Thomson


sábado, 13 de junho de 2026

"Landing Place St Antonio Macao"

Esta ilustração é rara e tem a legenda "Landing Place St. Antonio Macao", ou seja "Cais em Santo António, Macau". 
Na imagem pode ver-se uma pequena embarcação a aproximar-se de um 'pavilhão' com arquitectura chinesa e ao fundo a igreja de Santo António. É muito provavelmente do século 18 tal como o mapa abaixo que permite perceber o quanto o Porto Interior - antes das obras de aterros - estava tão perto da igreja de Santo António que fica junto ao Jardim Luís de Camões.
Em linha recta a perspectiva mostrada corresponde 
à actual Rua do Tarrafeiro numa extensão de cerca de 500 metros.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Barcos da carreira regular Macau-Hong Kong" em 1962



Actualmente são três os barcos que mantêm uma carreira regular entre Macau Hongkong:
Tak Shing — Tai Loy — Fat Shan
Nos três barcos é sensivelmente igual o custo das passagens:
Cabines de 1.ª classe (singelas) $ 20,00 
Cabines de 1.ª classe (duplas)  $ 15,00 (por pessoa) 
Salão de 1.ª classe $ 8,00 
Cabines de 2.ª classe (duplas) $ 10,00 (por pessoa) 
Salão de 2.ª classe $ 6,00
in Anuário de Macau 1962

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Códice Casanatense

O Códice Casanatense (ou Codex Casanatense 1889), datado do século XVI (1540), é um conjunto de 76 aquarelas indo-portuguesas - com legendas - que documentam os povos, costumes e trajes da rota marítima da seda, indo da África à China. Não se conhece o autor, muito provavelmente indiano.
O valioso documento está guardado na Biblioteca Casanatense, em Roma, com o seguinte nome oficial: “Álbum de desenhos ilustrando os usos e costumes das pessoas da Ásia e África com uma breve descrição em língua portuguesa”. Por volta de 1628 o documento ainda esteve em Lisboa sendo dos primeiros com registos iconográficos do Oriente a chegar à Europa. Simão Rodrigues (c. 1560-1644), importante pintor maneirista português teve na sua posso o códice e inspirou-se nele. Era um dos pintores preferidos da Companhia de Jesus em Portugal e criou obras que ajudaram a construir o imaginário visual das missões jesuítas no Oriente, cujos missionários partiam frequentemente de Macau.
Sem uma referência explícita a Macau, o Códice Casanatense, tem no entanto uma aguarela que se pode intitular "Gente da China".
Transcrição (Português Arcaico)
"Jente de terra da china chamão-se chinas sua lei he de jintios esta terra da china he m̃to rica mais bem piriguosa hanaueguaçam peracla porque se perdem m̃tos nauios"

Tradução/Adaptação:
"Gente da terra da China, chamam-se chineses; a sua religião é de gentios (não cristãos). Esta terra da China é muito rica, mas a navegação para lá é muito perigosa, porque se perdem muitos navios."

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Comemorações do Dia de Portugal em 1956

O DIA DE PORTUGAL foi assinalado nesta Província com várias festividades entre as quais GRANDIOSO DESFILE MILITAR, eloquente romagem à gruta de Camões E SESSÃO CULTURAL NO TEATRO D. PEDRO V
a todas presidindo Sua Exa. o Governador da Província ALMIRANTE JOAQUIM MARQUES ESPARTEIRO

O Dia de Portugal revestiu-se, este ano, de grande esplendor. Quer no Portugal metropolitano quer no Portugal ultramarino como nos agregados portugueses no estrangeiro, o Dia de Portugal foi comemorado, por ser consagrado à lusitanidade espalhada pelo mundo e, também, em homenagem a Camões esse imortal cantor das glórias nacionais, no dia do aniversário do seu falecimento.
Prestaram, assim os portugueses, no mundo a mais eloquente e mais patriótica homenagem ao poeta máximo da Lusitanidade e, especialmente, nesta terra, onde segundo reza a tradição Camões escreveu parte do seu imortal poema — os Lusíadas.
O programa das grandiosas festividades do dia 10 foi rigorosamente cumprido, tendo presidido a todas S. Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
O dia 10 de Junho foi de sol radioso e temperatura amena, associando-se assim o tempo a tão esplendorosa homenagem, dando-lhe maior brilho.
Amanheceu e ao som dos clarins em marchas de continência ergueu-se no topo dos mastros dos quartéis e fortalezas a Bandeira Nacional. Em todos os edifícios públicos foi também hasteada a Bandeira de Portugal.

A parada militar
O desfile de forças militares e militarizadas, em parada, é sempre um espectáculo grandioso que faz vibrar os corações portugueses pois, isso basta para, em pensamento, evocar esses heróis que outrora em "perigos e guerras esforçados" deram novos mundos ao mundo, levando a bandeira portuguesa às mais longínquas paragens. E os soldados que vemos agora marchar são descendentes desses portugueses que Camões cantou nos poemas mais belos que, no dizer dum distinto escritor, por si só, vale uma literatura inteira.
A parada militar estava anunciada para às 10 horas. Mas, muito antes, milhares de pessoas ocupavam lugares ao longo do trajecto anunciado para o desfile.
Nas proximidades do Palácio do Governo da Praia Grande, em talhados especiais, tomaram lugar funcionários civis e militares, comerciantes, clero, escolas portuguesas e chinesas e os seus professores, colégios, praças do exército e da armada, etc..
Na varanda do rés-do-chão do Palácio assistiram ao desfile, a convite do governo, o Conselho do Governo, Corpo Consular, Chefes de Serviços, membros dos mais categorizados da comunidade chinesa e estrangeira, e oficiais do Exército e da Armada. Nas varandas superiores, a Exma. Sra. Dra. Da. Laurinda Marques Esparteiro e muitas outras senhoras portuguesas, chinesas e estrangeiras.
Em frente ao Palácio erguia-se a tribuna de honra decorada com as cores nacionais e vasos com viçosos arbustos. À esquerda da tribuna estava formada a guarda de honra que era constituída por um grupo de castelos da Mocidade Portuguesa com bandeira e banda de música, sob o comando de Franklin Barnes. Em frente da guarda de honra estava formada a guarda de honra da banda Musical da Polícia de Segurança Pública com o vistoso fardamento de gala, capacete e dólman branco e calça azul escuro.
Poucos minutos antes das 10 horas estavam formadas alas compactas de povo ao longo da Rua da Praia Grande e imediações, que a Polícia de Trânsito, superiormente dirigida pelo sr. tenente Henrique Fontes, auxiliado por chefes e subchefes, continha o povo dentro dos lugares marcados, a fim de não estorvar o desfile.
Momentos depois um breve toque de clarim e a introdução do Hino Nacional anunciaram a chegada de Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro, que vinha acompanhado de seu ajudante de campo sr. capitão José Vaz Dias da Silva. Sua Exa. envergava o uniforme branco de almirante, ostentando a banda de seda verde, insígnia da grã-cruz de Ordem Militar de Avis.
Acompanhado agora pelo Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa sr. Intendente José Peile da Costa Pereira, Sua Exa. o Governador passou revista à guarda de honra, dirigindo-se depois à tribuna, onde assistiu ao desfile, ladeado pelos srs. Brigadeiro João Carlos Quinhones Portugal da Silveira, Comandante Militar da Província e capitão-de-fragata José Coutinho Garrido, Capitão dos Portos. Na mesma tribuna assistiram ao desfile os srs. Dr. Edmundo de Senna Fernandes, Juiz da Comarca, substituto, e D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo da Diocese, ajudantes e secretário.
A's 10.05 horas chegou um carro militar do qual se apeou o comandante das forças em parada, tenente-coronel Silva Carvalho, pedindo licença para se iniciar o desfile, ordem que foi imediatamente transmitida por uma estafeta-motociclista.
As forças em parada desfilaram pela seguinte ordem: Bandeira Nacional, coluna apoiada sob o comando do sr. major Marques de Carvalho, banda de corneteiros, comando da coluna apeada, batalhão de caçadores 1, a três companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Veiga, batalhão de caçadores 2, a quatro companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Cambraia Duarte, companhia independente de caçadores, uma companhia de atiradores sob o comando do sr. capitão Tamegão.
Seguiu-se a coluna motorizada sob o comando do sr. major Barata da Cruz, constituído pelo comando da coluna, 1 pelotão de canhões anti-carro e o agrupamento de baterias de artilharia; 1 bateria de artilharia ligeira 8,8 sob o comando do sr. capitão Mendes, uma bateria de artilharia anti-aérea de 4 e uma bateria de artilharia anti-aérea de 7,5.
Desfilou depois o esquadrão de cavalaria motorizado com dois pelotões de reconhecimento e um pelotão auto-transportado; uma companhia de engenharia com um pelotão de sapadores e um pelotão de transmissões, comandadas, respectivamente, pelos srs. capitães Abrantes da Silva e Mesquita Borges, fechando o desfile das forças militares com um destacamento sanitário e uma equipa de desempenagem.

As forças militarizadas desfilaram pela seguinte ordem:
Uma coluna apeada das forças da polícia marítima, a um pelotão, sob o comando do sr. chefe Luz, uma coluna apeada da polícia de segurança pública, a uma companhia a quatro pelotões, sob o comando do sr. tenente Correia Marques, uma coluna motorizada, com um pelotão de motos e viaturas especiais, sob o comando do sr. tenente Palma Viçoso.
Fechava o desfile uma coluna motorizada de viaturas especiais dos bombeiros municipais, sob o comando do sr. ajudante Assis.
Por último desfilou a guarda de honra da Mocidade Portuguesa e a banda musical da polícia de segurança pública.

A patriótica romagem à Gruta de Camões
Finda a parada, as mesmas entidades que referimos e milhares de pessoas acorreram ao velho jardim de Camões, onde se ergue a secular gruta, um altar evocativo do grande Vate, nestas longínquas paragens onde a velha lenda afirma, que Camões escreveu parte do seu poema e o formoso soneto "Alma minha gentil". Muito antes das 11 horas, já se encontravam no jardim milhares de crianças e jovens do liceu, das escolas secundárias e primárias católicas portuguesas e chinesas, com os seus estandartes e muitos jovens, de ambos os sexos, sobraçando viçosos ramos de flores naturais. Acompanhavam-nos os seus professores, padres, leigos e religiosas de vários colégios da colónia.
O jardim sempre belo, estava mais florido naquela manhã de sol.
A chegada de Sua Exa. o Governador da Província, as escolas saudaram o primeiro magistrado, que se dirigiu para a tribuna erguida em frente do busto de Camões, assistindo à cerimónia evocativa do aniversário da morte do poeta, ladeado pelos srs. José Peile da Costa Pereira, Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa e António de Magalhães Coutinho, Presidente do Leal Senado da Câmara. Por detrás e ao lado, em lugares especiais, o Prelado da Diocese, o Juiz da comarca, Comandante Militar, a esposa de Sua Exa. o Governador, outras senhoras portuguesas e estrangeiras e chinesas, individualidades mais representativas da província, e oficiais do exército e da marinha. Flutuavam na tribuna, ao centro, a Bandeira Nacional e dos lados os pavilhões de Nuno Álvares, da Mocidade Portuguesa e do Governador da Província.
Proferiu uma alocução interessante, oportuna e repassada de patriotismo, o sr. António Augusto da Canhota, professor da escola comercial "Pedro Nolasco da Silva" alocução a que se podia chamar, com mais propriedade "conferência", pelo que a publicaremos na íntegra, oportunamente.
Portugal vive integralmente nos "Lusíadas"
— disse o orador
Seguiu-se uma palestra em língua chinesa, dirigida aos jovens das escolas chinesas, alusiva a Camões, pelo rev. Padre Lei Chông U, director da escola secundária chinesa "Mong Tak".
Findas as palestras, Sua Exa. o Governador e comitiva, dirigiu-se para o lado esquerdo da gruta, assistindo ao desfile da Mocidade Portuguesa, dos jovens estudantes de ambos os sexos, das crianças das escolas primárias portuguesas e chinesas que depunham flores junto do busto, flores naturais, viçosas e lindas, em homenagem ao grande poeta Camões — edificante exemplo de respeito e veneração pelo grande português, de portugueses e chineses, de muçulmanos e caenses, irmanados no mesmo fervor espiritual e profundo respeito por Portugal eterno.
Era meio dia quando se ouviu o primeiro tiro de canhão, da salva de 21 tiros que a fortaleza do Monte disparou assinalando nestas paragens o Dia de Portugal.

A recepção e cumprimentos no Palácio do Governo da Praia Grande
Foi cerca das 12,30 horas, que se aglomeraram inúmeras pessoas no átrio do Palácio, a fim de apresentar cumprimentos a Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, na pessoa do seu legítimo representante em Macau, Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
De acordo com o protocolo desta cerimónia, foi feita a chamada das entidades indicadas na Reforma de Administração Ultramarina, pelo sr. tenente Lopes da Costa, oficial às ordens de Sua Exa. o Governador. E além dessas entidades, funcionalismo, oficialidade do exército e da armada, apresentaram cumprimentos membros dos mais categorizados da comunidade chinesa, associações, comerciantes, industriais, médicos, engenheiros, advogados, e inúmeras pessoas em número muito superior a um milhar.
Sua Exa. o Governador estava ladeado pelo Juiz da Comarca, Prelado da Diocese, Comandante Militar, Vice-presidente do Conselho de Governo, ajudantes e secretário do Prelado, a todos estendendo a mão com o seu peculiar sorriso.

No Hospital de S. Rafael
Findos os cumprimentos, registou-se uma surpresa, extra-programa. Soubemos que Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, resolveram, assinalando dia tão festivo, inaugurar, embora numa breve visita, novos e importantes melhoramentos no Hospital de S. Rafael da Santa Casa da Misericórdia. E fomos ver, também esses melhoramentos.
Na antiga dependência destinada a quarto das enfermeiras de serviço, no primeiro andar, foi instalada uma "incubadora eléctrica", aparelho gem do mais moderno fabrico americano, o qual, com acessórios, importou em cerca de cinco mil patacas. O aparelho não só regula electricamente a temperatura e grau de humidade necessários, como o fornecimento de oxigénio, numa combinação técnica admirável, e que é a última palavra no género e único em Macau. Assim um recém-nascido que careça desses cuidados, será salvo em tão útil como "humano" aparelho E, numa volta pelo primeiro andar, vimos também que quase tudo está pintado de novo, especialmente na maternidade; na sala de trabalhos substituíram as antigas "banheirinhas" por lavatórios de porcelana, com instalações apropriadas para aquecimento de água; marmorites nos pavimentos e paredes; divisórias envidraçadas, aquecimento, lavatórios de lavagem de bebés, mais crescidinhos, junto da enfermaria das parturientes e muitos outros arranjos em obediência às exigências dos mais modernos apetrechamentos tendo em vista a higiene e o conforto nos hospitais.
Notava-se em Sua Exa. o Governador e em Sua Exma. Esposa incontida satisfação por verificar o crescente progresso daquele hospital.
Os ilustres visitantes foram recebidos à entrada do Hospital e acompanhados na visita aos novos melhoramentos pelo dr. Barros Lopes, seu Director, pelo Provedor, sr. dr. Damião Rodrigues, e pelos srs. 1.º Tenente Lourenço Pereira, mordomo, e pelos mesários Mário Pereira, Joas Lopes, Alfredo Silva e pela farmacêutica do hospital sra. dra. D. Maria José da Cruz Neves, e pelos srs. drs. Edmundo e Henrique Senna Fernandes.
À já na despedida, a uma pergunta nossa, disse-nos um mesário a origem da verba despendida naqueles melhoramentos, tendo alguns beneméritos oferecido alguns materiais de construção.
E quem havia de dizer, que o produto da festa dos santos populares do mercado de S. Domingos, do ano passado, iniciativa louvável a todos os títulos da Exma. Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, viria a transformar-se em obra tão útil e de tão elevado alcance social, em benefício do Hospital de S. Rafael, em suma, da população de Macau-ricos, remediados e pobres.

Nos salões do Palácio do Governo da Praia Grande
Houve recepção das 18 às 20 horas, onde mais uma vez se apreciou a franca hospitalidade portuguesa. Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa foram duma extrema amabilidade para os seus convidados, portugueses, chineses e estrangeiros, numerosas senhoras que emprestaram ao ambiente a graciosidade das suas "toilettes" vaporosas e coloridas.
Foi servido um delicado "cocktail", executando a orquestra Vila Verde escolhidas músicas.
Esta recepção deixou gratas recordações a todas as pessoas que assistiram à requintada festa.
Assistiram, também, as mesmas entidades e individualidades a que já nos referimos.
No Teatro de D. Pedro V a sessão cultural dedicada ao imortal Camões
Eram 21,45 horas, quando começou. Na primeira fila tomaram lugar Sua Exa. o Governador e Exma. Esposa, o Venerando Prelado da Diocese, Juiz Substituto, Comandante Militar e noutras filas, várias pessoas e entidades portuguesas e estrangeiras.
A sessão iniciou-se com o Hino da Mocidade Portuguesa, cantado pelo orfeão da M.P., seguindo-se as canções populares portuguesas pelo mesmo orfeão "A nossa terra", "O mendigo" e "O trevo". O orfeão, com boa afinação de todos os seus naipes foi dirigido pelo assistente eclesiástico da Mocidade Portuguesa rev. Padre Barcelos Mendes, sendo muito aplaudido.
Seguiu-se uma notável conferência pelo sr. Dr. José Tertuliano Cabral, vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, subordinada ao título "Camões, o príncipe dos poetas portugueses", conferência em que versou os temas "A síntese da lírica medieval", "Glória da poesia renascentista" e "Fonte de inspiração para as correntes poéticas posteriores".
O seu trabalho prendeu a assistência, pelo real valor da tese que apresentou em que comprovou, demonstrando profunda análise de Camões e das suas obras, da sua época e da influência das obras de Camões até nossos dias.
Na sua conferência disse o orador, na sua modéstia tantas vezes demonstrada, como o seu valor: "um infinitamente pequeno, vai falar dum infinitamente grande".
Podemos dizer sem receio de desmentido que o conferencista estava à altura do seu trabalho, do seu profundo conhecimento da Obra de Camões e da literatura portuguesa de que é distinto professor.
Dado o tamanho da sua notável conferência não cabe nesta ligeira reportagem impressiva, pelo que oportunamente será publicada na íntegra. Os trabalhos que o fazer-se deles um resumo é quase um crime.
A sessão cultural que foi promovida, como a romagem patriótica à gruta de Camões, pelo Conselho de Instrução Pública, de Macau, terminou com o Hino Nacional, cantado pelo Orfeão da Mocidade Portuguesa, regido pelo Rev. Padre Barcelos Mendes e acompanhado ao piano pelo Rev. Padre Lancelote, ouvido no mais profundo e emocionante silêncio, de pé por toda a assistência.
Iluminações de gala
Assinalaram a noite festiva de 10 de Junho — Dia de Portugal, apresentando feérico aspecto as fachadas dos edifícios, nomeadamente o Palácio do Governo da Praia Grande, das Repartições, dos Correios, e Leal Senado, quartéis e fortalezas, esquadras da polícia, etc.
Artigo publicado nas páginas 1 e 6 do Notícias de Macau de 12.6.1956

Na capa da edição de 12.6.1956 do "Notícias de Macau"


"Como nos anos anteriores foi o DIA DE PORTUGAL aqui festejado com brilho e acentuado espírito patriótico no dia 10 do corrente, dia consagrado ao imortal Poeta Luís de Camões. Nesta cidade revestem-se essas comemorações de especial significado por, segundo a tradição, ter o Poeta escrito em Macau parte do seu imorredoiro Poema. Para festeja esta grande Festa Nacional foi elaborado o seguinte programa que se cumpriu integralmente:
1- Às 8.00 horas – Hastear da Bandeira Nacional nos edifícios das Repartições Públicas, Quartéis e Fortalezas.
2- Às 10.00 horas – Parada militar com desfile das forças diante da tribuna colocada em frente ao Palácio da Praia Grande, no qual tomarão parte contingentes da força do Exército da Polícia de Segurança Pública, da Polícia Marítima e do Corpo de Bombeiros Municipais, sendo a guarda de honra a Sua Exa. o Governador prestada pela Milícia da Mocidade Portuguesa.
3- Às 11.00 horas – Cerimónia pública no Jardim da Gruta de Camões em que farão alocuções os Srs. António da Canhota, professor da Escola Comercial “Pedro Nolasco” e Lei Chêng U, director da escola chinesa “Meng Tak”, depois do que desfilarão os alunos das escolas e da Mocidade Portuguesa, perante o busto do poeta.
4- Às 12.00 horas – Salva de 21 tiros na Fortaleza do Monte.
5- Às 12.30 horas – Recepção na Residência do Governo às corporações oficiais, funcionários e cidadãos desta província que desejem apresentar cumprimentos.
6- Das 18.00 às 20.00 horas – Recepção no Palácio do Governo da Praia Grande.
7- Às 21.45 horas – Sessão cultural no Teatro “D. Pedro V”, promovido pelo Conselho de Instrução Pública, ao qual o vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. José Tertuliano Cabral, proferirá uma conferência subordinada ao título: “Camões, o príncipe dos poetas portugueses”. Cooperará no sarau o Orfeão da Mocidade Portuguesa.
8- Das 21.00 às 24.00 horas – Iluminação de gala nos edifícios públicos e quartéis que o possam fazer."
Artigo “Comemorações do Dia de Portugal.” 
publicado no Boletim Informativo da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral – Secção de Propaganda e Turismo. Ano III, nº 60, 15.6.1956

terça-feira, 9 de junho de 2026

Antigos "Cruzeiros"

A presença de cruzeiros (grandes cruzes de pedra ou madeira) no adro ou em frente às igrejas é uma tradição profundamente enraizada na Europa e muitos países espalharam esse hábito pelos então territórios conquistados um pouco por todo o mundo. Portugal não foi excepção. Em Macau embora muitos já tenham desaparecidos, ainda existem alguns.
Entre os que desapareceram pela voragem do tempo contam-se o do Largo do Senado junto à Igreja de Misericórdia e o que ficava junto à Igreja e Convento de S. Francisco. A cruz é o elemento simbólico do cristianismo. Sendo o seu elemento mais universal assinala o sagrado sobre o profano. Para além da função religioso tinham também um função Social e de identidade, assumindo-se como "ponto de encontro" por excelência de um determinado local. Eram o centro da vida social da aldeia ou vila (em frente à igreja principal) e era ali que se discutiam negócios, que se davam novidades e se tomavam decisões comunitárias.
Entre os cruzeiros que ainda hoje se podem encontrar em Macau estão os do Largo da Sé (embora numa versão moderna pois o anterior estava danificado), junto à igreja de S. Lázaro, da igreja do Carmo (Taipa), Igreja S. Francisco Xavier (Coloane), Ermida da Penha, Igreja de Santo António, etc...
No adro da igreja de Santo António com a inscrição "1638"

O do adro da Igreja de Santo António afere que a construção da igreja na actual localização é datável de 1638, data inscrita no cruzeiro de pedra existente no adro. Embora a primitiva construção seja anterior. É mesmo a mais antiga de Macau remontando ao final do século 16.
A referida construção de pedra e cal e estilo neoclássico sofreu inúmeras remodelações, nomeadamente, em 1810 e 1876

A razão da sua construção resulta da combinação de funções religiosas, sociais e até práticas, funcionando como a sagração do espaço público. O cruzeiro funcionava como uma extensão do altar para o exterior. Marcava o limite entre o mundo profano (a rua) e o mundo sagrado (a igreja). Ao colocar uma cruz na frente do edifício, toda a praça ou adro passava a ser considerada solo sagrado, preparando o fiel espiritualmente antes de ele cruzar o umbral da porta.
Cruzeiros assinalados num 'mapa' do século 17

Muitas vezes, as igrejas eram pequenas demais para acolher multidões em festas populares. Assim os padres pregavam junto ao cruzeiro - púlpito ao ar livre - para que todos na praça pudessem ouvir. Eram também usados em procissões e vias-sacras com uma escala, uma "estação" onde se rezava e entoavam cânticos.
Cruzeiro junto à Igreja/Convento de S. Francisco: pintura 1812

Assumindo a função de protecção espiritual acreditava-se que a cruz protegia a comunidade contra pestes, tempestades e "más energias". Alguns exemplares foram erguidos enquanto "marcos de piedade", fruto de promessas de famílias ricas ou por ordens religiosas (como os Franciscanos ou a Ordem de Cristo) para incentivar a oração dos transeuntes.
Em tempos antigos, os cemitérios situavam-se junto aos adros das igrejas e aí o cruzeiro servia como um monumento central de oração pelas almas ali enterradas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os "religiosos de Santo Agostinho" e os 'frescos' da Ermida da Guia

22 de Agosto de 1589
Os religiosos de Santo Agostinho tomaram n'este dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça, em Macau, que já antes haviam fundado os padres hespanhoes da mesma ordem, os quaes o cederam por determinação d'el rei D. Fellipe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no anno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo.
in Commemorações da historia de Macau e das relações da China com os póvos christãos
Curiosidade:
A ermida da Guia é dedicada a Nossa Sra. das Neves. Durante trabalhos de restauro em 1996 foram descobertos alguns 'frescos', incluindo o desenho de uma águia bicéfala. Ainda hoje continua por esclarecer a origem deste 'fresco'. A águia bicéfala é frequentemente associada à Igreja Ortodoxa ou a impérios do Leste Europeu. No entanto, a sua presença na Capela de Nossa Senhora da Guia pode ser explicada por três hipóteses principais que os historiadores têm debatido:
Hipótese Agostiniana: Esta é a mais provável e encontra paralelo numa pedra gravada com um símbolo semelhante e pode ser visto do antigo Leal Senado. A águia bicéfala é um símbolo da Ordem de Santo Agostinho. Embora a capela não fosse formalmente gerida pelos agostinhos, a influência visual desta ordem na Ásia era imensa no século XVII, e o símbolo representa a elevação espiritual e a visão divina.
União Ibérica (1580–1640): O período em que as pinturas foram feitas coincide com a época em que os reis de Espanha (Habsburgo) também eram reis de Portugal. A águia bicéfala era o símbolo heráldico dos Habsburgos. Apesar de Macau manter a bandeira portuguesa, a presença do símbolo imperial em edifícios daquela época era uma forma de reconhecimento da autoridade monárquica global.
Pista Arménia: C. A. Montalto de Jesus sugeriu a presença de comerciantes arménios em Macau como a causa. Para os arménios, a águia bicéfala é um símbolo nacional e religioso antigo. Provas documentais Montalto admitiu não ter encontrado.

domingo, 7 de junho de 2026

"Leitura" de um dos pavilhões do Templo de A-Ma

Este é um dos vários pavilhões do Templo de A-Ma. À semelhança dos demais a actual configuração remonta a 1828. Para esta 'leitura' subjectiva recorri a ilustrações - aguarelas -feitas por IA e partir de fotografias.

As inscrições são em escrita Lishu (escrita oficial/clerical), o que lhes confere uma aparência mais quadrada e monumental.

1. Dístico da Direita
Transcrição: 春風靜秋水明貢士波臣知中國有聖人伊母也力
Tradução Comentada: "A brisa da primavera é calma e as águas do outono são límpidas. Os oficiais e os súbditos do mar reconhecem que na China existe uma Santa; isto deve-se ao poder de protecção divina da Mãe (Mazu)."

2. Dístico da Esquerda
Transcrição: 海日紅江天碧樓船艘艚涉大川如平地唯德之休
Tradução Comentada: "O sol do mar é rubro e o céu sobre o rio é azul-safira. Grandes navios e embarcações atravessam os vastos oceanos como se caminhassem em terra plana; isto é a glória da sua virtude."
Os cantos do beiral terminam com figuras de dragão com a boca aberta. São os Chiwen, um dos nove filhos do Dragão, que, por gostarem de engolir fogo, são colocados nos telhados para proteger a estrutura contra incêndios e raios.

Painel Central (Superior)
Este é o relevo mais dinâmico e situa-se logo abaixo do telhado principal.
Três figuras principais: À esquerda e ao centro, dois Qilins (quimeras chinesas com corpo de escamas e cascos) que parecem estar a interagir ou a "brincar" com elementos circulares. À direita, uma ave de grande porte (provavelmente uma fénix ou um pavão mitológico) com as asas abertas, voltada para os Qilins.
Significado: Esta composição representa a "Harmonia Universal". O Qilin simboliza a paz e a benevolência, enquanto a ave mitológica representa a virtude. Juntos, indicam que este portal é um lugar onde a energia celestial está em equilíbrio.

Painel Lateral Esquerdo (acima da janela)
 Um cenário naturalista focado em aves pernaltas, identificadas como Garças (Xianhe). Elas aparecem integradas num cenário de rochas e vegetação (provavelmente pinheiros ou ameixeiras).
Significado: A garça é o símbolo máximo da Longevidade e da elevação espiritual. Estar no lado esquerdo reforça a ideia de uma vida longa e estável para quem entra.

Painel Lateral Direito (acima da janela)
Outra cena de fauna e flora, mas aqui a figura central é uma ave com plumagem exuberante e cauda longa, uma Fénix (Fenghuang) ou um faisão ornamental, pousada num ramo florido.
Significado: A fénix representa a Beleza, a Graça e a Prosperidade. Enquanto no lado esquerdo o enfoque é longevidade, o lado direito destaca a prosperidade.