Por estes dias, pelas piores razões, ouve-se falar com insistência de Estreito de Ormuz e Omã. Por causa disso, lembrei-me que no Museu Nacional de Omã, Palácio do Fort Muscat, Mascate, entre as várias peças expostas, está um canhão português que data do século XVII e que foi fabricado em Macau.
A peça em questão foi classificada como um falconete – um tipo de peça de artilharia muito eficaz contra a infantaria – e foi fabricado em 1643 por Manuel Tavares Bocarro, um dos mais famosos fabricantes de armas daquela época que tinha em Macau uma fundição de artilharia e um paiol de pólvora. Na arma estão inscritas as palavras "Viva el rei do Joao IV", e "Macao En Caza da Polvra 1643".
Macau era há muito o grande centro de fabrico destas peças essenciais para a manutenção da presença portuguesa na vasta região oriental. Em Fevereiro de 1629 o rei de Portugal envia uma carta ao vice-rei da Índia onde reitera a necessidade da ida de oficiais da guarnição de Macau para Goa a fim de ensinar a fundir artilharia de "ferro coado".
Manuel Tavares Bocarro (Goa, c. 1605-Macau, 1652), neto de Francisco Dias e filho de Pedro Dias Bocarro, mestre das Fundições de Goa, chegou a Macau em 1625, tendo sido o mais célebre fundidor do Oriente até 1652. Nessa qualidade fundiiu inúmeras bocas-de-fogo, sinos e estátuas (as das ruínas de S. Paulo, por exemplo).
Quando estava em Goa o cronista António Bocarro (1594-1652) escreve a propósito de Macau em 1635 que "este lugar possui uma das melhores fundições de canhões no mundo, quer de bronze, que já tem ha muito ou de ferro, que foi feita por ordem do Vice-rei, Conde de Linhares (D. Miguel de Noronha, 4º conde 23º vice-rei, 1585-1647), e onde é fundida continuamente artilharia para todo o seu Estado (da India), a preço muito razoável".
Duas das bocas-de-fogo feitas por Bocarro estão na Torre de Londres, outras duas, provenientes do galeão Santíssimo Sacramento (naufrágio de 1647) e do Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro, estão na África do Sul, onde foram declaradas património nacional em 1986.
Mas há mais...
Uma outra peça de fogo, denominada "Merian Si Jagur" (Senhor da Fertilidade), é actualmente património nacional da Indonésia e pode ser vista no Museu Nacional de Djakarta. Resulta da conquista Malaca pelos holandeses em 1641.
Mas voltemos à peça do museu de Omã...
Está decorada com quatro anéis com folhas de acantos e as 'asas' são na forma de leões. A inscrição "MACAO / EN CAZA / DA POLVRA / 1643" está numa esfera que simboliza o mundo encimada por uma figura humana. Por cima tem a legenda: "VIVA ELREI DÕ IOÃO / 4º".
A peça de 1643 foi fundida na “Caza da Polvra” (Pólvora) e sendo feia em bronze tem a tonalidade do ouro.
Data também de 1643 a única carta que se conhece escrita por Manuel Tavares Bocarro dirigida ao rei D. João IV. Na missiva - que terá ido juntamente com a peça oferecida ao rei -solicita o hábito de Cristo que há muito lhe havia sido prometido. Nesse ano o rei já havia sido aclamado e reconhecido em Macau.
Na peça a figura de um guerreiro antigo com um barrete emplumado simboliza o rei. Os elementos decorativos são de facto singulares, alguns diferentes do que Bocarro costuma usar, nomeadamente a em forma de pata de ave/galinha e as faces dos munhões ornamentadas. Não aparecem as habituais 'armas' de Macau já que foi uma peça feita a título pessoal pelo fundidor para oferta. Dá-se o caso de nem D. João IV ter recebido a peça, nem Bocarro ter recebido o hábito de Cristo...
A pólvora eram um bem escasso como se pode verificar neste ofício do rei dirigido aos Oficiais da Câmara da Cidade de Macau em 1709:
"(..) Eu o Rei vos envio muito saudar, mandando vir no meu Conselho Ultramarino, a representação, que me fizestes sobre vários particulares pertencentes à conservação, e aumento desses moradores, ensinando ser conveniente, o atalhar-se o gasto, que se faz de
pólvora nas Salvas das fortalezas, o que os Capitães gerais dessa Cidade senão intrometam no governo desse Senado. Me pareceu dizer-vos que ao Capitão geral se ordena, não consinta, que se gaste pólvora em salvas particulares, e desnecessárias, por ser assim obrigado, e lhe não ser prometido o contrário, sob
pena de a pagar de sua fazenda, e que se não intrometa no governo político, económico desse Senado, deixando-vos usar livremente da jurisdição que por direito vos compete."
Revista ICOMAM nº 7, 2011 (Basiliscoe Press, Leeds), uma edição especial (imagem acima) dedicada ao sultanato de Oman, onde está o artigo "Portuguese legacy".













































