sábado, 7 de novembro de 2026

"Golfo di Macao"

"Quantung, e Fokien, Provincie della China, Dedicate Al Motlo Reverendo Padre Carlo Trigona, dell Compagnia di Gesu, Teologo diu Monsignor Illustriss. Arciuescovo di Palermo, etc." é o título deste mapa  que mostra parte do sul da China e regiões adjacentes. Foi publicado em 1691/96 pelo conceituado cartógrafo italiano Vincenzo Maria Coronelli.
Abrange principalmente as províncias chinesas de Guangdong (Quantung) e Fujian (Fokien), destacando de igual modo a ilha de Taiwan (Formosa), o Mar da China e parte da ilha de Luzon nas Filipinas na secção inferior. Como cosmógrafo oficial da República de Veneza e fundador da prestigiada Accademia Cosmografica degli Argonauti, Coronelli baseou a sua cartografia nos relatos de missionários jesuítas e em fontes geográficas precedentes, como o influente Novus Atlas Sinensis de Martino Martini.
Do ponto de vista artístico e documental, a peça enriquece a representação do território com cartelas ornamentadas, ilustrações detalhadas de navios da época e referências às principais rotas comerciais marítimas que ligavam pontos estratégicos como Macau, Formosa e Manila.
Inclui a referência a "Golfo di Macao" no "Mare Della China" que, sendo rara, pode-se encontrar em alguns documentos do primeiro quartel do século 19.

De todos os mapas de Coronelli, este é o que se foca mais detalhadamente sobre o Delta do Rio das Pérolas e Macau, figurando também entre as representações mais pormenorizadas de Taiwan do século XVII.

Para as regiões do continente, Coronelli baseou-se essencialmente em dois mapas de Joan Blaeu: Quantung, Imperii Sinarum Provincia Duodecima e Fokien Imperii Sinarum Provincia Undecima. Estes mapas, de Guangdong e Fujian, respetivamente, surgiram no atlas do jovem Blaeu, o qual apresentava os mapas do cartógrafo jesuíta Martino Martini (1655). O trabalho de Martini manteve-se como o estado da arte para o mapeamento da China continental, e a interpretação de Coronelli dessa cartografia foi a melhor do final do século XVII.

A representação que Coronelli faz de Luçon (Filipias) é enigmática. Surge consideravelmente a oeste da sua localização real, sensivelmente ao sul exacto de Taiwan. A fonte para este posicionamento das Filipinas é incerta, contudo não deriva nem de Martini nem de Blaeu, cujos mapas gerais da China posicionavam o arquipélago de forma correcta. É mais provável que o mau posicionamento de Luçon seja uma tentativa intencional de ilustrar o importante triângulo comercial e diplomático entre Macau, Manila e Fujian.
O próprio mapeamento de Taiwan (Formosa, nome dados pelos portugueses) constitui um desvio surpreendente em relação a qualquer mapa anterior. Coronelli não revela a sua fonte, mas esta é certamente posterior a qualquer fonte holandesa contemporânea de Blaeu, uma vez que, em 1661, os holandeses foram expulsos de Taiwan pelo general chinês Zheng Chenggong. Coronelli dispunha de excelentes fontes entre os jesuítas no Extremo Oriente, o que pode explicar o detalhe apresentado. Através deles, poderá inclusivamente ter tido acesso a mapas chineses.
Este mapa surgiria no Corso geografico universale de 1692 de Coronelli bem como no Atlante veneto e no Isolario, de 1696.
Vincenzo Maria Coronelli (1650-1718) foi um importante cartógrafo e criador de globos do século XVII, sediado em Veneza. Coronelli nasceu como o quinto filho de um alfaiate veneziano. Sem probabilidade de herdar o negócio do pai, tornou-se aprendiz de um gravador de xilogravura em Rávena. Por volta de 1663, ingressou na Ordem dos Franciscanos e, em 1671, entrou no convento veneziano de Santa Maria Gloriosa dei Frari.
Coronelli destacou-se nos domínios da cosmografia, matemática e geografia. Ficou sobretudo conhecido pelos seus globos. Em 1678, recebeu a encomenda para construir os seus primeiros grandes globos por parte de Ranuccio II Farnese, Duque de Parma. Cada globo, soberbamente gravado, tinha 1,5 metros de diâmetro. Luís XIV de França, tendo ouvido falar dos magníficos globos de Parma, convidou Coronelli para ir a Paris, onde, entre 1681 e 1683, construiu um par de globos ainda mais impressionante, medindo mais de 3,6 metros de diâmetro e pesando 2 toneladas cada um. 
Os globos valeram-lhe o patrocínio de Luís XIV e o acesso privilegiado a informações cartográficas francesas oriundas de fontes jesuítas no Novo Mundo, particularmente do Louisiana. Coronelli regressou a Veneza e continuou a publicar globos, mapas e atlas, admirados em toda a Europa pela sua beleza, precisão e detalhe. No auge da sua carreira, Coronelli fundou a primeira sociedade geográfica do mundo, a Accademia Cosmografica degli Argonauti, e foi agraciado com o título oficial de Cosmógrafo da República de Veneza. Em 1699, em reconhecimento do seu extraordinário feito e saber académico, foi também nomeado Padre-Geral da Ordem dos Franciscanos. Morreu em Veneza aos 68 anos.
Actualmente os seus globos podem ser contemplados na Bibliothèque Nationale François Mitterrand em Paris, na Biblioteca Marciana em Veneza, na Biblioteca Nacional da Áustria, no Globe Museum em Viena, na Biblioteca da Abadia de Melk, na Biblioteca de Coleções Especiais da Texas Tech University, bem como obras de menor dimensão em Tréveris, Praga, Londres e Washington D.C.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

"Gudões sitas na Ponta da Rede"


AVISO
Pelo juizo de direito d'esta cidade, se hão de vender em leilão á porta do tribunal de justiça no dia segunda-feira, 13 do corrente, ao meio dia, as casas n.º 29 denominada " Gudões " sitas na Ponta da Rede pertencente a Francisco Antonio da Silva, a quem mais der sobre o preço de sete mil e cem patacas ($7,100). Macau, 4 de dezembro de 1869.
ANTONIO RANGEL,
Ajudante do escrivão Silveira. 
Gudões eram armazéns. Em inglês godown com origem histórica no sul da Ásia, derivado do termo malaio gudang. Ponta da Rede ficava no início do Porto Interior, pouco depois do Pagode da Barra.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Alan Jones: 1946-2026

O australiano Alan Jones, campeão mundial de Formula 1 (pela equipa Williams) em 1980 morreu hoje aos 80 anos. Participou no Grande Prémio de Macau nas edições de 1976, 1977, 1978 e 1987. Regressou em 1989 para uma corrida de exibição.

Alan Jones no GM de 1977 ao lado do RALT RT1 Ford BDA (F2)
Três anos depois seria campeão do mundo de F1
Foto de Sue Weaver

Alan Jones no GPM:

Grande Prémio de Macau de 1976 
(Monolugares / Formula Pacific)
Carro / Equipa: March (Ford-Cosworth BDA V8 / Hart) inscrito pela famosa equipa Theodore Racing, gerida por Teddy Yip.
Resultado: Abandonou (a vitória foi do seu colega de equipa Vern Schuppan).
Alan Jones estabeleceu um recorde de volta impressionante de 2:21.44, uma marca histórica que permaneceu imbatível durante oito anos. 

Grande Prémio de Macau de 1977 
(Formula Atlantic)
Carro / Equipa: Ralt RT1 (Ford) da equipa Theodore Racing.
Resultado: Abandono (DNF). Jones envolveu-se num duelo aceso com Riccardo Patrese, mas acabou por retirar-se devido a problemas mecânicos. 

Grande Prémio de Macau de 1978 
(Formula Atlantic)
Carro / Equipa: March 782 da equipa Theodore Racing.
Jones completou aqui a sua terceira presença consecutiva na prova de monolugares, partilhando a grelha de partida com outra futura lenda da F1, Keke Rosberg. 

Macau Guia Race de 1987 
(Carros de Turismo / Grupo A)
Carro / Equipa: Toyota Supra Turbo.
Abandono. Numa corrida marcada pelo piso molhado à partida e pelo domínio absoluto dos BMW M3 da equipa Schnitzer, Alan Jones acabou por não terminar a prova. 

Corrida de Campeões de Macau de 1989
Carro: Mazda MX-5.
Alan Jones regressou a Macau a convite especial de Teddy Yip para participar numa corrida de exibição de veteranos, que reuniu antigos campeões e lendas mundiais do desporto automóvel em carros idênticos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O "Lago da Exposição" de 1926

Há 100 anos, por esta altura, Macau preparava-se para a inauguração da primeira Feira/Exposição Industrial do território. Foi inaugurada num domingo, 7 de Novembro de 1926, na baixa ou várzea de Mong-Há, onde na época ainda existiam três lagos com água de nascente. Um deles, o maior, serviu de cenário ao evento. A ideia de realizar feiras anuais em Macau surgira dois anos antes pelo governador Rodrigo Rodrigues. Viria a concretizar-se através da Secção de Propaganda da Direcção das Obras dos Portos.
"Um aspecto do lago da Exposição": jornal A Pátria

A Feira de Macau representou um marcante certame comercial, cultural e recreativo que mobilizou o território ao longo de mais de um mês, reunindo cerca de 60 pavilhões e 800 expositores. O evento destacou uma vasta oferta de produtos locais e regionais vindos de Macau, Hong Kong e Cantão — desde vinhos, chá e tabaco até setores industriais como cimento, eletricidade, artigos navais e têxteis —, além de contar com a participação activa das escolas locais.
A inauguração oficial ficou marcada por discursos de altas figuras cívicas e religiosas, acolhendo desde logo uma enorme afluência de público. Devido ao sucesso da iniciativa o encerramento foi prorrogado duas vezes, terminando em meados de dezembro. O recinto funcionou como um verdadeiro centro de entretenimento popular, oferecendo diversões como uma roda eléctrica e carrossel vindos de Manila, passeios de barco, serenatas, competições desportivas, a primeira gincana automóvel do território, atuações culturais e exibições cinematográficas.
Em termos de impacto e público, a feira superou todas as expectativas ao registar um total de 289.536 entradas — com o dia da abertura a atingir cerca de 15.000 visitantes —, atraindo aproximadamente 50.000 forasteiros.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

"Refugiados de Shanghai": Setembro 1937

7 Setembro 1937

16 Setembro 1937


A guerra sino-japonesa estava apenas no início e Macau iria acolher milhares de refugiados da China continental e de Hong Kong até ao final do conflito em 1945.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

"Aviso" na Ilha Verde em 1846

AVISO
Os proprietarios desta Ilha reservam para seu recreio, e dos Collegiaes a seu cargo, os Domingos, dias Santos e Quartas-feiras de cada semana; e assim previnem que a nenhuma familia he permittido vir a ella em taes dias.

Chamamos a attenção publica sobre o aviso que acima vai estampado, e que se acha afixado na Ilha Verde. A condescendencia com que aquella Ilha tem sido sempre franqueada, para recreio e diversão do publico, reclama da parte deste toda a deferencia para com proprietarios della; é de esperar por tanto que o publico saberá ter toda a consideração precisa com os desejos dos mesmos, não concorrendo á Ilha nos dias designados no aviso; mostrando assim que sabe tambem respeitar, como lhe cumpre, o sagrado direito da propriedade, não querendo desfruta-la sem o indispensavel consentimento do seu ligitimo senhor.

in Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor, 1846

A Ilha Verde (no topo à esquerda) num detalhe de mapa do século 19

domingo, 1 de novembro de 2026

Meia Laranja - Sam Ka Tchun - 半邊橙

A Meia Laranja é um miradouro e ponto de referência na zona costeira da baía da Praia Grande (Sai Van), actualmente designado como Miradouro de Henry Dunant (1828-1910), homenagem a Jean-Henri Dunant, filantropo suíço, co-fundador da Cruz Vermelha Internacional. Situa-se numa saliência em formato semicircular (daí a designação popular) junto à água na Avenida da República, construída nos primeiros anos do século 20.
Uma imagem icónica do local ao longo de praticamente um século foi a da estrutura improvisada de ponto de pesca artesanal. A primeira sequência de fotografias é das décadas 1960-70.

Em baixo conjunto de registos da década de 1990 e já no século 21.




Há 40 anos António Jorge da Silva Soares criava estas obras de arte naquele local.
Duas aguarelas da autoria de António Jorge da Silva Soares feitas em Novembro de 1986 e incluídas na mostra "Macau à Margem dos Arranha-Céus" de 1993
António Jorge da Silva Soares (1916-2020) foi aluno do Colégio Militar entre 1926 e 1933. Frequentou a Escola Naval e tornou-se piloto-aviador naval, tendo posteriormente ingressado nos Transportes Aéreos Portugueses, TAP, em 1947.
E por falar em aviação, o primeiro voo comercial da Air Macau realizou-se a 9 de novembro de 1995, ligando Macau a Pequim e a Xangai. A companhia aérea foi formalmente criada a 13 de Setembro de 1994.

sábado, 31 de outubro de 2026

"Viagem a Macau: Diário dum Grumete a bordo do N. R. P. João de Lisboa"

"Viagem a Macau" — Diário dum Grumete a bordo do N. R. P. João de Lisboa" é um pequeno livro de 77 páginas, edição de autor, escrito em 1996 por Mário Gonçalves (com residência em Maçussa - Azambuja).
Conta a história da sua viagem - então com 17 anos - no N. R. P. João de Lisboa (Aviso de 2ª classe) iniciada a 6 de Março de 1949 e terminada em Outubro de 1951, tendo por base um diário que escreveu na época.
No prólogo pode ler-se:
"Numa curta vida de voluntário da Armada, de 1 de Maio de 1947 a 22 de Outubro de 1952, usufrui nesses anos de juventude duma riqueza de experiência da vida e de conhecer algum Mundo que me vinculou para sempre a esse período.   A par dos princípios de disciplina e estudo que a Escola de Alunos Marinheiros me proporcionou, do primeiro contacto com o mar na viagem da Sagres em 1948 à costa oeste dos Estados Unidos, continuando com a fiscalização da costa norte portuguesa no N. R. P. Flores, ao treino no N. R. P. Vouga e à última e inconcluída comissão no N. R. P. João de Lisboa, finalizando com a demorada estadia curativa na Serra do Caramulo, tudo foi uma rápida aventura da qual algumas memórias e documentos sobreviveram arrecadados nas subsequentes dezenas de anos, e que agora na 3ª fase da vida pude activá-los porque recordar é viver. 
Viver pois na homenagem aos que comigo neste mundo já não estão, saudar e conviver com os que a estas letras ainda chegarem. 
Recordar o espírito de amor a Portugal que testemunhei em cada porto onde apareciam portugueses, desde as colónias lusas da América aos que em Hong-Kong viviam, passando pelos da Índia, na interminável Diáspora dos filhos desta terra terem de pelo mundo procurar um futuro melhor do que aquele que na terra mãe lhe é inexplicavelmente arisco ao longo de quase 9 séculos de história, em que tanta riqueza se trouxe para este cantinho, tanta riqueza se ofertou e se fez ostentação para afinal, em cada geração que passa, continuarmos a ser um país pobre, parecendo que não nos sabemos governar."
É complementado por excertos de uma narrativa publicada em 1951 na revista Defesa Nacional pelo então Primeiro-Tenente António da Costa Pereira e inclui uma recorte de imprensa do jornal "Notícias de Macau" (10 de Maio de 1949) que noticiava a chegada do aviso "João de Lisboa" e o alvoroço e alegria gerados na comunidade portuguesa do Extremo Oriente.
O autor contextualiza a sua vida como voluntário da Armada entre 1 de Maio de 1947 e 22 de Outubro de 1952. Reflecte sobre a formação na Escola de Alunos Marinheiros, outras comissões (como no N. R. P. Flores e N. R. P. Vouga) e o valor de "recordar é viver". Destaca a importância de dar a ver a vida de bordo vista a partir da "coberta" (o poiso dos marinheiros) e a realidade da diáspora portuguesa pelo mundo.
Termina com uma reflexão sobre o valor da amizade desinteressada e do "espírito de corpo" característico do pessoal da Armada.
Estamos pois perante um testemunho importante e raro porquanto é feito pela perspectiva de quem vivia a bordo na coberta e não era oficial, o tipo de relatos mais habituais em livros.

Transcrição da notícia de capa da edição de 10.5.1949 do Notícias de Macau (não incluída no livro bem como a foto-montagem abaixo):
 
Salve, Marinheiros de Portugal!
A chegada do Aviso "João de Lisboa"
Constituiu motivo de grande alegria para a população desta colónia portuguesa do Extremo Oriente. 
Como era esperado, entrou ontem, por volta das 10 horas, aproximadamente, no nosso porto, o Aviso de 2a. classe da Marinha de Guerra Portuguesa “João de Lisboa”, que aqui vem em missão de soberania. A’ entrada das águas de Macau, o Aviso deu a salva do estilo, respondendo, como era da praxe, da terra, uma bar bateria de artilharia posta na Colina da Guia.   Cerca de uma hora antes, largara ao seu encontro uma vedeta da Capitania dos Portos, levando a bordo o Capitão dos Portos, Sr. Comandante, Augusto Castro Rodrigues, o Comandante da Polícia Marítima e Fiscal, 1o. Tenente, Sr. António Lopes Marques, e o Ajudante de Campo de Sua Exa. o Governador da Colónia, Sr. Capitão José Rodrigues de Oliveira e vários oficiais da nossa marinha de guerra. As duas referidas entidades foram apresentar os primeiros cumprimentos de boas vindas. 
O Aviso recém-chegado fundeou no Quadro de navios de guerra, na Barra, amarrando na boia que fica à popa do Aviso “Pedro Nunes”. 
O Aviso “João de Lisboa” é comandado pelo Capitão-tenente Sr. João Xavier Rainha-Lho Rosa, que já esteve em Macau, embarcado no Aviso “Gonçalves Zarco”, trazendo Como Imediato, o 1o. Tenente Sr. António Benard da Costa Pereira. Pelas 12 horas, o Comandante, Sr. Capitão-tenente Ramalho Rosa foi a bordo do Aviso “Pedro Nunes”, apresentar cumprimentos ao seu colega, Sr. Capitão Joaquim José da Costa, Comandante do referido Aviso.   Pelas 15 horas, o Sr. Comandante Ramalho Rosa esteve na Capitania dos Portos, a apresentar cumprimentos ao Capitão dos Portos, Sr. Capitão de fragata Augusto de Castro Rodrigues. Meia hora depois o Comandante do Aviso “João de Lisboa” dirigiu-se ao Palácio da Praia Grande, apresentando cumprimentos a Sua Exa. o Governador da Colónia, Sr. Comandante Albano Rodrigues de Oliveira.   
O Aviso “Pedro Nunes”, logo que o Aviso “João de Lisboa” amarrou, içou o distintivo de “navio-chefe”, pois o Sr. Comandante Joaquim José da Costa é o oficial mais antigo, embora da mesma patente. Ao fim da tarde, oficialidade, sargentos e marinheiros desembarcaram dando uma nota alegre às ruas da cidade. Muita já aí estiveram, em anteriores missões, enquanto que outros, a maioria, pisa pela primeira vez este torrão português do Extremo Oriente.  Encontram-se, presentemente, no porto de Macau, duas unidades da nossa gloriosa Marinha de Guerra, onde flutua a bandeira verde-rubra, marcando, como um traço de união entre a Metrópole e estas distantes terras do Ultramar, a presença perene de Portugal. 
A população desta terra portuguesa, que recebe sempre com júbilo a vinda de qualquer navio português rejubilou-se com a chegada do Aviso “João de Lisboa”, que, ao lado do Aviso “Pedro Nunes” no Quadro de navios de Guerra, até parecem dois irmãos gêmeos.
A guarnição do Aviso “João de Lisboa” é de 141 homens, entre oficiais, sargentos e marinheiros. Damos a seguir os nomes dos Srs. Comandante, Imediato e demais oficialidade do bordo, que nos foram amavelmente cedidos pelo Tenente Sr. Sousa e Costa, a quem não podemos deixar de agradecer a gentileza e bem assim a forma cativante com que se dignou receber a bordo o representante do nosso jornal, na ausência dos Srs. Comandante e Imediato. Comandante – Capitão-tenente Sr. João Xavier Ramalho Rosa; Imediato – 1o. Tenente Sr. António Benard da Costa Pereira; Os. Tenentes – Sr. António Rodrigo Salema e Santos, Alfredo José Estevam Sousa e Costa, Francisco José de Oliveira Seixas, Rui do Carmo Fernandes e António Egídio de Sousa Leitão, 2o. Tenente-médico Sr. Rúben Lopes Louvara; Tenente-maquinista-naval – Sr. José Alberto da Silva Mendes; 2o. Tenente da Administração Naval, Sr. Cupertino Ferreira Guerra; Guarda-marinha-maquinista naval, Sr. Júlio Antunes Lopes. 
Por intermédio do Sr. 2o. Tenente Sousa e Costa, que também já esteve entre nós embarcado no “Bartolomeu Dias”, tivemos a satisfação de saber que o referido Aviso partiu de Lisboa em 7 de Março findo, com destino a esta colónia, via o Canal de Suez. Toda a viagem correu boa, com mar e vento favoráveis, com excepção no Mediterrâneo, à saída do “Port Said”, onde o navio foi colhido por um temporal, felizmente sem consequências de maior. Interpretando os sentimentos de toda a população desta terra portuguesa, o “Notícias de Macau” suda efusivamente as pessoas dos Srs. Comandante, Imediato, oficiais, sargentos e demais guarnição, e bem assim nos seus colegas do “Pedro Nunes”, os bravos Marinheiros de Portugal!"   

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Reparações na Igreja de S. Lourenço em 1844-1846

Verificou-se no Domingo 25 do mez passado a abertura da Igreja Parochial de S. Lourenço desta Cidade, que, por se achar em um perigoso estado de ruinas, carecia ser reparada; e fôra para este fim fechada em Abril de 1844. A obra, ainda que nam muito consideravel, gastou perto de 2 annos a faser-se, o que cremos se deve mais depressa attribuir á escassez de meios, para ella indispensaveis, do que á vastidam da mesma obra: mas ella conclui-se afinal, e ahy temos hoje um novo monumento da piedade e devoçam desta Christandade a cuja liberal coadjuvaçam, nam menos que ao fervoroso zelo e dedicaçam do Vigario que hoje pastores aquella Freguesia, se deve o ver-se hoje quasi arrancado de ruinas e restabelecido da voraz açam do tempo, aquelle antigo Templo ainda mais bello, mais ellegante, e mais seguro que o que foi. A solidez do tecto; a ellegancia da Nave, donde foram removidas oito grandes columnas, cujas desmedidas bases obstruiam-na consideravelmente; a bellesa e simplicidade dos altares; tudo attesta o bom gosto e inteligencia do delineador da obra, nós assim o julgamos, e a voz publica o affirma, cuja aprovaçam deve ser-lhe mais grata que quantos outros elogios. Temos dito da obra quanto cabo no curto espaço de que podemos dispôr; diremos agora duas palavras sobre a funcçam religiosa que por aquella occasion teve lugar.
Igreja de S. Lourenço desenhada por George Chinnery ca. 1830

A Bençam do Templo, que fôi feita pelo Exmo. e Rmo. Bispo Dioccsano, começou ás 9 horas da manham, e concluida ella passou S. Exa. Rma., precedido do Corpo do Illmo. Cabido, e da Confraria da N. S. dos Remedios, e seguido de um numeroso concurso para a Igreja de Sto. Agostinho, donde foi condusida em Procissam a Sta. Ambula das Sagradas Formas, para a Igreja nova onde depois de encerrado o SS. Sacramento; cantou-se uma missa solemne á musica, officiando S. Exa. Rma; no fim da qual, recitou o Rmo. Conego Vigario Geral deste Bispado, hum eloquente, o edificante discurso, accommodado ao objecto do dia; concluindo afinal com hum solemne Te-Deum em acçao de Graças ao Pay das Misericordias, que assin nos permitte em os dias do nosso desterro; a doce consolaçao, de poder-mos, unidos em caridade, e amor santo, naquelle sagrado recinto offerecer-lhe canticos de louvor pelos beneficios que de continuo sobre nós derramá, e impetrar delle remedio nas nossas affliçoēs, e necessidades.(...)

inn Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor 6.2.1846

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A primitiva bateria da Barra

Antes da construção do forte de S. Tiago da Barra começou por existir uma bateria de artilharia improvisada. Remonta aos primeiros anos do século 17 e às várias tentativas de invasão por parte dos holandeses. Ficava estrategicamente posicionada quase ao nível da água para fazer fogo rasante contra as embarcações que tentavam cruzar a barra em direcção ao Porto Interior.
A imponente Fortaleza de São Tiago da Barra foi construída entre 1626 e 1629 tornando-se uma verdadeira cidadela militar equipada com 16 canhões. Em 1745 foi alvo de uma remodelação profunda.
No "Relatorio dos trabalhos executados desde 22 de agosto de 1871 até o fim do anno de 1872" da autoria da "Direcção das obras publicas da Provincia de Macau e Timor" pode ler-se sobre a Fortaleza da Barra: "Na bateria superior d'esta fortaleza se collocou uma boca de fogo de calibre 68, em reparo de rodizio, construindo-se de boa cantaria a plataforma conveniente e reforçando-se a muralha do lado de mar com um solido muro de supporte em toda a sua altura. Reconstruiu-se a casa da palamenta, melhorou-se o alojamento do sargento que serve de fiel de fortaleza, levantou-se um espaldão, deu-se principio á reconstrucção de tres plataformas de cantaria e aos concertos e melhoramentos de que precisava o quartel do destacamento e fizeram-se mais alguns reparos e concertos." 
O forte seria desguarnecido já no final da década de 1880. Na grafia da época designava-se "S. Thiago da Barra" e tinha então "32 peças d'artilheria: 3 de bronze e as restantes de ferro."
Desenho a lápis da autoria do médico Thomas Boswell Watson 
"Planta e Perfil da Fortaleza da Barra levantada por A.E.P. em 1850" 

No final do século 19. Photogravura de P. Marinho

No final do século 19. Photogravura de P. Marinho
Ca. 1900 (antes da construção da Av. da República)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

"Nova Carreira de Vapores" em 1854

A "Companhia de Navios a Vapor Peninsular e Oriental (東藩火船公司) de Hong Kong" anuncia que a partir desta data (1.12.1854), todas as terças, quintas e sábados haverá vapores de Hong Kong para Cantão (省) e vice-versa. Aos sábados e terças os vapores passarão e ancorarão por um momento em Macau.
Como a hora da maré (水潮) muda diariamente, a hora exata da partida não é fixa e será anunciada diariamente nos jornais (新文紙內).
O preço da passagem (水脚銀) mantém-se igual. Os passageiros de convés (船面搭客) terão cobertura/toldos (遮蓋). O frete para carga pesada/grossa (粗貨) será negociado presencialmente.
Datado do dia 16 do 10º mês lunar (correspondente a 1 de dezembro de 1854). Assinado pelo Superintendente ("Taipan" - 大班) da Companhia.
NOVA CARREIRA DE VAPORES
Entre Macao, Hongkong, Vampú, e Cantão, com escalla para Camsingmun quando se offereça occazião.
A COMPANHIA Peninsular e Oriental faz saber que desde esta data, e até novo avizo, hade sahir um dos seus Vapores de Hongkong para Cantão, e outro de Cantão para Honghong todas as Terças, Quintas-feiras, e Sabbados.
O Vapor de Cantão nos Sabbados e o de Hongkong nas Terças-feiras hão de tocar em Macao.
No intento de abreviar as viagens a hora da partida dos Vapores será regulada segundo as marés, e anunciada diariamente.
Os preços da passagem serão os mesmos que até aqui.
Tem-se feito abordo dos Vapores os precisos arranjos para a boa acomodação dos passageiros de Convés.
Tendo os Vapores pequenos da Companhia bastante capacidade para conducção de fazendas grossas, os mesmos Vapores receberão Carga desta especie a fretes commodosa mediante convenções especiaes.
ROBERT S. WALKER,
Superintendente.
Compannhia P. & O. de Naveg. a Vapor,
Hongkong 1o. de Dezembro de 1854.

茲者香港東藩火船公司議定自此以
後每逢禮拜二禮拜四禮拜六日有火
輪船由香港往省由省來港禮拜六由
港過澳門與禮拜二由港往省之火
船經過澳門泊一刻然後直往省每次
行船因水潮日日不同開行之時不
能一定必候潮水日日聲明於新文紙內
〇搭客之水脚銀照舊一樣
〇船面搭客俱有遮蓋
〇裝載粗貨水脚面議
十月十六日
東藩公司大班啓

terça-feira, 27 de outubro de 2026

"Chá hysson superior (...) vindo de Macau"

Este notícia é da Revista dos Açores e referente a 1851.

"Ao Armazêm n.º 11 e 12, do largo da Misericordia velha, chegou um avultado sortimento de generos de mercearia ; de papel Nacional, amendoas mui baratas, ancoretas de azeitonas novas, e cha hysson superior, do ultimo vindo de Macau."
O largo referido ficava na ilha de S. Miguel. O chá era um famoso tipo de chá verde de alta qualidade originário da China, muito apreciado e comercializado à escala global durante os séculos XVIII e XIX.
Curiosidade:
Este chá viria a ser introduzido no cultivo da ilhas alguns anos depois, em 1878, e ainda hoje pode ser apreciado. Produzido a partir das folhas da planta Camellia sinensis faz parte das plantações de Chá Gorreana, na ilha de São Miguel, nos Açores. A sua origem remonta ao século XIX, quando agricultores chineses vindos de Macau introduziram os métodos tradicionais de cultivo e processamento na região açoriana. Na época a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense contratou o mestre de chá chinês Lau-a-Pan e o seu assistente e intérprete, Lau-a-Teng. (foto acima nos Açores em 1878)
Este chá em específico é produzido a partir da colheita da segunda e terceira folhas superiores da planta, colhidas essencialmente durante os meses de julho e agosto, período em que a forte exposição solar realça as propriedades da planta.
Após a colheita, as folhas passam por um processo de secagem a vapor e posterior enrolamento, o que resulta numa folha seca de aspeto torcido e coloração verde-escura. Quando infundido, o chá Hysson liberta um aroma delicado e um sabor fresco, intenso e marcadamente vegetal, com um toque levemente adstringente. Por ser elaborado a partir de folhas ligeiramente mais maduras do que as usadas no chá verde Encosta de Trevo, por exemplo, o Hysson apresenta um teor de cafeína mais moderado, sendo ideal para consumo ao longo de todo o dia. O seu perfil nutricional destaca-se pela elevada concentração de antioxidantes, polifenóis e taninos, substâncias que ajudam a combater o envelhecimento celular, além de conter L-teanina, um aminoácido que promove o relaxamento e a concentração sem causar sonolência. Devido ao clima e isolamento geográfico dos Açores, este chá é cultivado sem qualquer recurso a pesticidas, herbicidas ou corantes, mantendo-se como um produto totalmente natural e de grande pureza.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

"Travel trade handbook"

A primeira imagem mostra a capa e a contracapa do "Travel trade handbook MACAU", um guia turístico (ca. 70 páginas e formato A4) editado em inglês pelo Departamento de Turismo e Informação de Macau em 1981. 
A ilustração reproduzida na capa é uma gravura clássica do século XIX intitulada "The Pria Grande, Macao" (1843), desenhada por Thomas Allom a partir de um esboço do tenente Frederick D. White e gravada por W. H. Capone, retratando a Baía da Praia Grande e a Colina da Penha.
Profusamente ilustrado é acompanhado de textos sucintos e um mapa. 

Excertos:
"The best time to visit Macau throughout the year is mid-week, to avoid the weekend gambling rush from Hong Kong. During daytime hydrofoils and jetfoils depart at roughly half hour intervals from both Macau and Hong Kong. Daily services start from 7.45 am and finish at up to 6.30 pm in summer (5.15 pm in winter) Night jetfoil services to and from Macau were introduced for the convenience of the travellers and have proved popular. Jetfoils take about 50 minutes for the 40-mile trip; hydrofoils, 65 to 75 minutes." 

"For walkers who dont´t mind some step climbs this tour offers spectacular views from the old Jesuit fort on Monte hill overlooking the site of a college for missionaires and scholars going to China. St. Paul´s was the collegiate church, built 1602 with the help of Japanese Christian exiles and, except for the great façade, destroyed by fire in 1835".



Legenda do mapa (1 a 43):
Barrier Gate
Canidrome
Lin Fong Temple
Temple of Kun Iam
Camões Grotto and Garden
Luís de Camões Museum
Old Protestant Cemetery
St. Paul's Ruins
Monte Fortress
Lou Lim Ieoc Garden
Sun Yat Sen Residence
Guia Fortress
Jai Alai Stadium
Hong Kong & Macau Hydrofoil Pier
S.T.D.M. Pier
Grand Prix Stand
Hotel Estoril
Hotel Matsuya
Hotel Lisboa
Hotel Sintra
General Post Office
Leal Senado
Floating Casino
Government House
Penha Hill
Bela Vista Hotel
Temple of A-Ma
Macao-Taipa Bridge
Temple of Goddess Kun Iam
Pou Slei Hotel (In construction)
Buddhist Cemetery
Horse Trotting Track
Taipa Village
Seak Pai Wan Reservoir
Coloane Power Station
Leprosarium
Lai Chi Vun junk building village
Coloane Town
St. Francis Xavier Church
Cheoc Van Beach
Pousada de Coloane
Hac Sa Beach
Inatel Macao Village (in construction)

domingo, 25 de outubro de 2026

Transversal da San Ma Lou ca. 1970

O restaurante Golden Crown (Kam Kun) ficava no 5º e 6º andares do edifício da esquerda no nº21 da Av. Almeida Ribeiro / San Ma Lou.
Ao fundo o Pátio do Cotovelo (nº 14) e onde mais tarde surgiria o restaurante Safari 金池餐廳


sábado, 24 de outubro de 2026

Grânulos contra a cholera morbus em meados do século 19

Na edição de 15.3.1872 O Correio Médico de Lisboa publica o teor de uma "sessão ordinária" realizada na Academia Real das Sciencias a que assistiu "Sua Magestade o Imperador do Brazil" sob presidência do sr Marquez d'Avila e Bolama.
Durante a sessão o Sr. A. A. de Aguiar apresentou os resultados de uma análise química efectuada a uns grânulos medicinais remetidos da China, onde vinham sendo aplicados com bastante sucesso no combate ao cholera morbus. O impacto dessa medicação revelou-se tão expressivo que o Sr. Lúcio, médico residente em Macau, motivado pelos relatórios positivos da região, resolveu empregá-los na sua prática clínica e teceu-lhes rasgados elogios.
Na sua intervenção, o Sr. Aguiar destacou o rigor e a perfeição do fabrico desses grânulos importados, assinalando que todos apresentavam rigorosamente o mesmo peso de sete miligramas. A fórmula combinava cinábrio, almíscar, várias substâncias secundárias e, principalmente, ácido arsenioso — na proporção exata de 1,5 décimos de miligrama por grânulo —, o que garantia uma dose diária elevada de arsénico aos doentes tratados em Macau e noutras partes da Ásia.
Na sequência da discussão sobre o tratamento administrado em Macau, o Sr. A. M. Barbosa recordou que o recurso ao ácido arsenioso em altas doses já tinha antecedentes na Europa, designadamente em Paris (1865–1866), onde o Dr. Cahen obteve a cura de 20 em 24 pacientes coléricos. O Sr. Barbosa aventou a hipótese de o sucesso deste tratamento contra o cólera — que irradiava das zonas pantanosas da Índia — estar associado às propriedades anti-palúdicas do arsénico, habitualmente usado em substituição do sulfato de quinina. Em contrapartida, o Dr. Alvarenga refutou qualquer analogia entre o cólera e as febres paludosas, sustentando que, a haver semelhanças, o sulfato de quinina seria preferível.
O Dr. Lúcio referido é médico e militar português Dr. Lúcio Augusto da Silva (1825–1906). Chegou a Macau em Junho de 1860, onde desempenhou durante mais de duas décadas (até 1884) as funções de Cirurgião-Mor e chefe dos Serviços de Saúde de Macau. Esteve à frente do Hospital de S. Rafael (Hospital da Misericórdia) e era o responsável pelo acompanhamento do estado sanitário da cidade. Distinguiu-se no estudo e combate a surtos epidémicos na região, tendo inclusivamente publicado obras clínicas sobre o tema, como o Relatório sobre a epidemia de Cholera-morbus em Macau.
Artigo:
O Sr. A. A. de Aguiar expôs o resultado de uma análise química que fizera sobre uns grânulos que lhe foram remetidos da China, onde são empregados com muita vantagem contra o cholera morbus. Os resultados são tão extraordinários que o Sr. Lúcio, médico residente em Macau, se resolveu a usá-los e faz-lhes grandes elogios.
O Sr. Aguiar fez notar a perfeição com que eram feitos estes grânulos, que tinham todos rigorosamente o mesmo peso (sete miligramas) e continham ácido arsenioso, cinábrio, almíscar e outras substâncias de menos importância. Cada grânulo contém exatamente 15 décimos de miligrama de ácido arsenioso. O número de grânulos que se administra por dia para o tratamento do cólera faz com que a dose do arsénico seja elevada.
O Sr. A. M. Barbosa lembrou que já na Europa se tem tirado partido no tratamento do cólera do ácido arsenioso em alta dose. Em 1865 e 1866, quando esta doença grassava em Paris, o médico israelita Cahen tratou no Hospital Rothschild 24 coléricos, aos quais deu o ácido arsenioso em doses progressivas — desde dois miligramas até três ou quatro centigramas por dia. O resultado foi curarem-se 20 destes enfermos.
O Sr. Barbosa advertiu que, grassando o cólera endemicamente nas regiões pantanosas da Índia (de onde irradia de vez em quando para visitar epidemicamente outras regiões do globo), talvez nesta origem pantanosa se pudesse encontrar a explicação do bom resultado do ácido arsenioso. Pois é sabido que esta substância é um dos melhores sucedâneos do sulfato de quinina no tratamento das febres paludosas, como atestam os ótimos resultados obtidos por Plenciz de Viena e por Boudin, havendo milhares de casos de febre intermitente curados pela administração deste medicamento, e entre estes alguns que tinham resistido ao emprego do sulfato de quinina.
O Sr. Dr. Alvarenga disse que não acreditava que houvesse analogia entre a febre intermitente de origem paludosa e o cólera e, quando a houvesse, entendia que era preferível o emprego do sulfato de quinina.
Depois, o Sr. Dr. Alvarenga pediu a palavra para mandar para a mesa uma nota em que expunha o resultado que obteve da aplicação do termómetro no estudo da marcha da doença conhecida com o nome de beribéri. Achou nas suas observações que a temperatura se mantinha abaixo da normal e, por isso, entendia que este resultado era importante porque prova que a doença não era inflamatória.
O Sr. Silva Amado disse que, sendo o beribéri uma doença que grassa nos países quentes, o estudo desta enfermidade importa muito aos médicos das nações que possuem colónias nos países intertropicais. E se a todos os que estão neste caso interessa este estudo — como provam os importantes trabalhos dos médicos ingleses e holandeses —, a nenhuns europeus importa tanto como aos portugueses, não só pelas vastíssimas colónias que Portugal ainda possui na África e na Ásia, mas ainda pelas relações íntimas que temos com a nossa antiga colónia e hoje tão próspero Império do Brasil, onde esta doença está sendo um verdadeiro flagelo. Posto que, pela rápida exposição feita pelo Sr. Dr. Alvarenga, lhe não pareça que as observações deste consócio tenham para a determinação da natureza da doença o valor que ele lhes assinalou, contudo entendia, atendendo à importância do assunto, que esta nota devia ser remetida a uma comissão que desse um parecer que fosse objeto de uma discussão digna desta Academia.
O Sr. Dr. Alvarenga disse que o que o sócio precedente propunha era o processo usado na Academia. O Sr. Vice-Presidente, Marquês d'Ávila e Bolama, disse que com a explicação do Sr. Dr. Alvarenga deviam ficar satisfeitos os desejos do Sr. Silva Amado.
in O Correio Médico de Lisboa, 15.3.1872

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Antigos rituais funerários

Nos rituais funerários da tradição chinesa, a realização de um funeral condigno é considerada fundamental para que o falecido obtenha a força necessária para renascer no Mundo espiritual dos Antepassados e receber um novo nome. A pompa e ostentação da cerimónia são vistas como um sinal de prestígio para a família e uma demonstração de piedade e consideração filial. É também perfeitamente natural e gerador de tranquilidade para um chinês adquirir o seu próprio caixão ainda em vida, preferencialmente feito a partir de um tronco de árvore antiga revestido com secções em lúnula, e guardá-lo no seu quarto. 
 As fases rituais iniciam-se no momento do passamento, quando a família reúne o moribundo no chão, sobre uma esteira junto à porta da casa e com os pés voltados para a saída. A confirmação do falecimento é feita através do movimento de fios de seda colocados junto do rosto para recolher o último hálito. Após a morte, o filho realiza a "compra da água" num poço próximo, atirando uma moeda ao dragão guardião da nascente para proceder à lavagem do corpo (começando pelo rosto na China do Sul). 
O cadáver é depois vestido com várias cabaias sem botões, que constituem o enxoval para o outro mundo. O caixão é exposto durante pelo menos três dias na sala principal da casa, decorada com panejamentos brancos — a cor de luto que simboliza a passagem e o vazio provisório —, ou num quarto próprio. 
Consoante o grau de parentesco, os familiares envergam vestimentas específicas em ramé, burel ou canhâmo, barretinas, capuzes, faixas ou lenços alaranjados (no caso das noras). Os filhos e noras prestam vassalagem realizando o Kau tau (bater com a cabeça no chão três vezes). Durante este período, parentes e amigos visitam a casa com oferendas de tecidos e alimentos, recebendo em troca um lenço, um doce (que simboliza continuidade e longa vida) e um envelope com lai-si para afastar más influências. A família encomenda ainda a estela funerária e reproduções em papel e bambu de bens do falecido (roupas, casas, criados, veículos e até aviões) para o acompanharem no Além. 
 Exteriormente, o luto é sinalizado à porta de casa através de duas lanternas azuis e brancas e de uma placa de bambu em forma de montanha; contudo, se o falecido for um venerável ancião, a morte é motivo de alegria e utilizam-se balões vermelhos e uma cobertura de caixão em cetim vermelho com símbolos de longa vida e felicidade. Para evitar perturbar os vizinhos e impedir que a alma do morto reconheça a entrada da residência, o caixão sai de casa por uma janela, porta lateral ou escada de bambu exterior. 
Já na rua, organiza-se uma longa procissão encabeçada pela figura em papel do Deus do Inferno para afugentar espíritos perturbadores. Segue-se o neto mais velho a carregar um bambu de folha fina e a espalhar sapecas de papel de cinco cores para aplacar os espíritos kwai. Os filhos acompanham o préstito com hastes de bambu forradas de papel branco, simbolizando os bordões de apoio tradicionalmente usados após longos jejuns de filialidade. 
A procissão inclui também um longo pano com a biografia e títulos do falecido em letras douradas, andores floridos com alimentos dispostos em pirâmide, sacerdotes bonzos a murmurar orações ao som de instrumentos estridentes, padiolas com vitualhas e músicos. O cortejo fúnebre é assinalado no meio do ruído pelo soar cadenciado de dois grandes gongos de tom lúgubre.
Nota: Resumo do artigo "Rituais de Vida e Morte na China Antiga" da autoria de Ana Maria Amaro publicado na Revista de Cultura nº 18 (1994).

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Av. de Almeida Ribeiro junto ao Largo do Senado: 1986

Estes postais ilustrados foram editados pela Direcção dos Serviços de Turismo em 1986 (há 40 anos).  À esquerda, foto tirada frente ao Leal Senado destaca-se a fonte no largo e o hotel Central. à direita, uma vista nocturna, tirada do outro lado, no largo, onde se evidencia o edifício da mercearia/supermercado Soi Cheong (encerrou na década 1990).