Há 100 anos um golpe militar derrubava a 1.ª República em Portugal seguindo-se a instauração da ditadura militar e abrindo caminho ao Estado Novo. O principal líder dos revoltosos, foi Manuel Gomes da Costa (1863-1929).
Em Macau o jornal A Pátria dá conta dos eventos na edição de 31 de Maio de 1926 numa breve citando um telex de Lisboa com a data de 28 de Maio:
"À última hora
LISBOA, 28 — As comunicações com o interior estão cortadas.
O general comandante dos revoltosos em que estão incluídos a 8.ª divisão, a divisão do Porto e outras unidades declarou numa proclamação que vai marchar sôbre Lisboa."
Na edição de de Junho o jornal publica na primeira página uma série de artigos sobre os acontecimentos em Portugal:
A revolução em Portugal
Cai o ministério
Lisboa, 29. — Os chefes da revolução foram ter com o sr. Presidente da República a quem pediram que formasse um Govêrno extra-parlamentar e citasse os leaders dos partidos políticos. Num comunicado, o Govêrno declara que reina absoluto sossêgo em todo o país. Os elementos revoltosos compõem-se apenas de uma divisão aquartelada em Braga e comandada nessa cidade pelo General Gomes da Costa e no Porto pelo General Peres.
Ainda na primeira página do jornal pode ler-se:
Um govêrno sem políticos
LONDRES, 31 — O Correspondente do Daily News em Lisboa diz que o movimento revolucionário se estendeu por todo o país e que o Presidente da República conferenciou com os delegados revolucionários, consentindo em que êles governem o país.
LISBOA, 31 — A revolução acabou pelo estabelecimento de uma ditadura militar, a quinta na Europa, existindo as outras na Itália, Espanha, Grécia e Polónia. A revolução fez-se quási sem disparar um tiro. Num comunicado de sábado o Govêrno dizia que estava senhor da situação mas afinal os revolucionários marcharam sôbre Lisboa, não podendo o Govêrno opor-se-lhes por não poder dispor de transportes que lhe foram negados pelas companhias do caminho de ferro. Numa proclamação ao povo português, o General Gomes da Costa diz que o movimento revolucionário teve por fim salvar o país da ruína a que o levavam os políticos.
Mais tarde — A revolução triunfou e o Presidente da República encarregou o chefe das fôrças revolucionárias, Comandante Mendes Cabeçadas, de formar govêrno. O comandante Cabeçadas aceitou e tomou conta de tôdas as pastas provisoriamente. Entrevistado, o sr. Cabeçadas declarou que o novo Govêrno seria composto de militares e civis sem partidos e de perfeito acôrdo com os delegados das divisões militares.
Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães era então o Governador (até 1 de Agosto de 1926). Seguiu-se Hugo de Carvalho de Lacerda Castelo Branco que assumiu interinamente o cargo entre 1 de Agosto e 8 de Dezembro de 1926. Antes, em Julho, já tinha sido nomeado Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, que assumiu o cargo efectivo a 8 de Dezembro de 1926.
Na última página uma notícia informa que a informação oficial chegou ao governador de Macau no dia 31 de Maio:
Revolução em Portugal
Telegrama recebido pelo Governo de Macau, ontem de manhã
LISBOA 31-5-1926
Governador Macau
800 Circular virtude movimento militar Ministério demitiu-se ponto. Está sendo organizado novo Ministério que, comunicarei ponto. Sossêgo em todo País.
Parte da infância de Gomes da Costa e das suas irmãs, Lucrécia (1869 - ?) e Maria Amália (1871-1953), foi passada em Macau, onde o pai, recentemente promovido a tenente, se encontrava destacado.
A carreira militar de Gomes da Costa progrediu de forma fulgurante: tenente (novembro de 1889); capitão para o Ultramar (julho de 1893); capitão (janeiro de 1898); major (fevereiro de 1908); tenente-coronel (junho de 1912); coronel (junho de 1914); general graduado (maio de 1917) e marechal (setembro de 1926).
De 1893 a 1916, viveu quase ininterruptamente na Índia e em África, ao serviço do então Exército Colonial. Esteve em praticamente todas as colónias, em missões de combate, reconhecimento, inspeção e administração.
Em 1922 foi nomeado inspector Extraordinário às Colónias do Oriente e nessa qualidade esteve em Macau e no Estado da Índia. Chegou a Macau a 8 de Outubro de 1922 acompanhado do filho Carlos Nunes Gomes da Costa, como Secretário, e do Tenente Salgueiro Rego, ajudante de campo, para inspeccionar os serviços militares locais.
O jornal O Liberal informa na edição desse dia:
"É esperado hoje em Hongkong o sr. general Gomes da Costa, tendo ido áquela colonia esperalo o sr. capitão Serrão dos Reis."
Na edição de 12 de Outubro de 1922 o mesmo jornal cita o jornal O Mundo:
"O sr. general Gomes da Costa — escreve O Mundo —, cuja larga folha de serviços lhe grangeou dentro e fóra do exercito uma situação de alto prestigio, é uma das mais distintas figuras militares do nosso pais. Cooperador de Mousinho, em Moçambique, onde a sua bravura tantas vezes teve ocasião de se assinalar, o sr. Gomes da Costa tinha já um honroso e brilhante passado militar quando, com a nossa entrada na Grande Guerra, mereceu ao governo, que então geria os negocios publicos, o encargo de comandar na frente da batalha da Flandres, no sector português, o comando de uma divisão. A maneira como se houve nesse posto de enormes responsabilidades, sabem-no toda a gente e, em especial, os heroicos soldados que por ele tinham, a par de uma funda admiração, uma grande estima. Nas vesperas de uma hora, simultaneamente tragica e sublime, do 9 de Abril, o sr. general Gomes da Costa foi ainda o patriota veemente que, em tão sucessivos quanto baldados apelos, soube frizar ao governo de Sidonio Pais a critica situação das forças sob o seu comando, procurando chamar aos seus postos todos aqueles que deviam estar na linha de combate e, todavia, não estavam. A este respeito, o seu livro A Batalha do Lys, lançado á publicidade com invulgar desassombro, constitue um eloquente depoimento do seu caracter, do seu zelo militar e do seu ardente patriotismo. A missão que lhe foi recentemente cometida e que hoje o leva para longe de Portugal é mais uma distinção — e uma distinção merecida. Saudamo-lo, por isso, na certeza de que, fazendo-o, saudamos numa das suas mais brilhantes figuras o heroico exercito que se bateu na Africa e na Flandres."
Depois de um largo período de tempo em Macau - recheado de peripécias - Gomes da Costa regressaria a Lisboa em 1924.
Ficou historicamente conhecido por liderar a Revolução de 28 de Maio de 1926 e por exercer o cargo de 10.º Presidente da República Portuguesa por um curto período de tempo.

































