TOMÉ PIRES O EMBAIXADOR QUE LEVOU PORTUGAL À CHINA E A CHINA NÃO QUIS SABER
Há homens que nascem para a glória, outros para o desastre, e alguns — os mais raros — para ambos ao mesmo tempo.
Tomé Pires, boticário de Leiria, era daqueles homens que acreditavam que o universo cabia numa caixa de remédios. Se lhe dessem o mar, ele pesava-o; se lhe dessem a China, ele catalogava-a; se lhe dessem o ópio, ele cheirava-o, anotava-o e talvez — quem sabe — o experimentasse com a curiosidade científica dos que não têm medo de pecar.
Não sabemos se recebeu a famosa “caixa de ópio” que a lenda lhe atribui. Mas conhecendo o homem, não seria de espantar que algum mercador árabe, desses que fumam a vida como quem fuma um cachimbo, lhe tivesse oferecido uma amostra, dizendo:
— Leva isto, português, que cura dores e abre horizontes.
Tomé, metódico, teria respondido:
— Abre horizontes? Então é droga de boticário.
E guardava-a no inventário, entre o ruibarbo e o benjoim.
A Suma Oriental é um milagre: escrita por um homem que nunca teve tempo para ser escritor, tornou-se o primeiro grande manual do Oriente para o Ocidente.
Camilo, se a tivesse lido, teria dito:
Este boticário escreve como quem sangra um paciente: com precisão, com frieza e com uma pontinha de sadismo científico.
E não estaria errado.
Tomé descreve tudo: os portos, as gentes, as drogas, os vícios, os reis, os preços, os cheiros, as mentiras e até os sonhos dos mercadores. É um inventário do mundo antes de o mundo saber que estava a ser inventariado.
Aqui entra a tragédia com humor.
Tomé Pires acreditava, com a convicção dos ingénuos e dos profetas, que nove naus portuguesas bastavam para tomar a China.
Nove.
Nem dez, nem vinte, nem uma armada. Nove.
Camilo teria rido até às lágrimas:
Nove naus para derrubar um império que tinha mais habitantes do que Portugal tinha sardinhas.
Mas Tomé acreditava. E acreditava porque via o mundo como boticário: se uma dose cura, nove doses salvam o paciente.
O problema é que a China não era paciente. Era dragão.
A viagem para Cantão foi triunfal. A subida para Pequim, promissora. A chegada à corte Ming, desastrosa.
Os antigos senhores de Malaca, despejados pelos portugueses, já lá estavam a envenenar o ambiente. O intérprete muçulmano foi preso. As credenciais não foram aceites. Os mandarins desconfiavam de tudo, sobretudo de portugueses que falavam alto e prometiam mundos.
Tomé Pires, que sonhava apresentar-se ao Imperador como quem se apresenta a Deus, acabou numa espécie de limbo burocrático, onde cada dia era igual ao anterior e cada esperança morria antes de nascer.
A prisão de Tomé Pires não foi épica. Não houve correntes, nem torturas, nem masmorras húmidas. Houve algo pior: indiferença imperial.
Ser ignorado pela China era pior do que ser morto pela China.
Camilo teria escrito:
O pior suplício não é o cutelo, é o desprezo.
E assim foi.
Tomé desapareceu na névoa da burocracia Ming, como um papel que cai atrás de uma mesa e ninguém se dá ao trabalho de apanhar.
Há quem diga que Tomé Pires foi libertado. Há quem diga que viveu anos na China. Há quem diga que teve uma filha chinesa, vista por um jesuíta que jurava ter falado com ela.
Se é verdade? Ninguém sabe.
Mas é tão belo que devia ser verdade.
Imagino-a assim: uma mulher de olhos escuros, com um sorriso que mistura Oriente e Ocidente, dizendo ao padre:
— Meu pai era português. Um dos primeiros. Um que veio falar com o Imperador e ficou por aqui.
E o jesuíta, comovido, anotava no diário:
— Há portugueses que não voltam porque não podem. E há portugueses que não voltam porque o coração fica preso.
Tomé Pires terá morrido em Pequim. Ou terá morrido algures na China, longe de tudo o que conhecia. Ou terá morrido livre, mas exilado.
Qualquer das versões é trágica. Qualquer das versões é camiliana.
Porque Tomé Pires é daqueles homens que nascem para não regressar.
Parte do manuscrito "Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chijs compilada por Thome Pirez" existente na Biblioteca da Assembleia Nacional de França
Tomé Pires, Índia (?), c. 1515, versão copiada por Francisco Rodrigues, 1516 (c.).
[No topo da página]
Libro primeiro da summa Oriental
e discursos das tres Arabias, feliz, petrea
e deserta, egipto, persia, atee cambaya
do gram Cam e china.
Summa oriental que trata do maar roxo
utheo os chijs copilada por thome pirez
Livro primeiro repartiçam da asia
com affrica
[Texto Principal]
Asia a partam dafrica pella bamda do maar mediterramjo por alexandria e dahi por deserto e monte synay pello rio nylo e do maar oceano pello meodja segundo a opinjã e repartiçam da parte daethiopia e abipia pella arabia feliz
nacimento do nylo
Oquelle libro primeiro eujny primajrally traz dno nacimemto do cabo de boa esperamça. E tem primejro diabipia em q̃ heos nom chamjdos no fim da jndia simjlc com arabia feliz q̃ faz na navegacell pasa com ligeiro curso aegypto e vaye ao maar mediterramjo tenjdo por bãcos dy gles he principall lhe damjata pasa per uua ljnguba da cidade do cairo em julho e agost̃o q̃e he ljngua a terra e as gentes comem ea forza do nylo vem aos altos e tem em guardado e fazendas e como essga ljngua dam lugar que tomara a erguar e dentro de desembro e janejro
dizem os do egipto que este njlagre procede dy abissys gentes e para pello quall sam ffrancos em toda a terra do soldam e sam estimados a abipia entre os djsso vyolentramente e nem bebm tam na ljngua: e a comjnhã abipia
[Secção Abipia]
Abipia
Comfina abipia da bamda do maar roxo com a fabya feliz da bamda do maar oceano des guarda fuyat hetijomto como se faza nom que hayua no maar com ffromtejra ljguedas da bamda daffrica com os do nyl̃ e erem parte daethiopia. Sam fffracos tem gramde terra e senre.
quemtjza mjrcamti bell dela / ha mjamtrjmjmudo ouro em q̃ntjda. nem tem portos no maar vem faza qujs tratq̃ em zalla e hebar bora e djmtro no ffruto nos portos darabya sam estas gentes
toz mjuradas amtjgos e trjopec e dẽs sam de catoljco e de noffa ffe. vado na testa um lugar de bautjsmo / tem patrjarcas e bispos e outro religjosos vãm a jerusalẽs e a mamte synay mujtos
marias e adans / sam abridos nestas partes por vracos e ffrade e ffeos. cavalejros e mjuytos dezes e ffeos e mujdo espaçosos e vem ordem principalj mente em bem galla
[Secção Inferior]
E adem de que a parte de dalaq̃ he e naquẽ tratam com estes abespns valem na abexpja aguoa tofada fofas ffeguas e tratam mjngno pano e barros de cambaya e alguuas de prada com tas de toas sorte q̃ ysta ljno panos bramgos e tamaras e ffructos e mjffiaço
[Rodapé]
Mecaderias da bipia
ouro marfim caballos e ffrancos mamtjmentos
Tradução/Adaptação deste texto em português quinhentista
Título e Introdução]
Livro primeiro da Suma Oriental
e discursos das três Arábias: Feliz, Petreia e Deserta; do Egito, da Pérsia, até Cambaia, do Grão-Cão e da China.
Suma Oriental que trata desde o Mar Vermelho até aos Chins, compilada por Tomé Pires.
Livro Primeiro: Divisão da Ásia com a África
[A Divisão Geográfica e o Nilo]
A Ásia separa-se da África pelo lado do Mar Mediterrâneo por Alexandria e, daí, pelo deserto e Monte Sinai, pelo rio Nilo e pelo Oceano a sul, segundo a opinião e divisão da parte da Etiópia e Abissínia pela Arábia Feliz.
Nascimento do Nilo
Este livro primeiro trata inicialmente do nascimento junto ao Cabo da Boa Esperança. E tem primeiro a Abissínia, onde os homens são chamados, no fim da Índia, semelhantes aos da Arábia Feliz, que faz navegação e passa com curso ligeiro ao Egito e vai para o Mar Mediterrâneo. Tendo por bancos de areia Damietta, passa por uma língua de terra da cidade do Cairo em julho e agosto — e é por essa língua de terra que as gentes comem. E a força do Nilo vem aos altos e mantém guardadas as fazendas; e conforme essa língua de terra dá lugar, começa a baixar entre dezembro e janeiro. Dizem os do Egito que este milagre procede das gentes da Abissínia, motivo pelo qual os francos [cristãos] são respeitados em toda a terra do Sultão e são muito estimados. A Abissínia entra por estes territórios com grande força e não se bebe senão na língua [do rio]; e assim é a comunhão abissínia.
[Etiópia / Abissínia]
Abissínia
Confina a Abissínia, do lado do Mar Vermelho, com a Arábia Feliz; do lado do Mar Oceano, estende-se até à Etiópia, tal como se faz notar que não há no mar fronteiras ligadas com a África, com os do Nilo, e eram parte da Etiópia. São francos [cristãos], têm uma grande terra e senhorio. Há grande quantidade de comércio dela; há muito ouro em quantidade. Não têm portos no mar; vêm fazer o seu comércio a Zeila, Barbara e Massuá. Nos portos da Arábia estão estas gentes misturadas, antigas e prósperas. Quanto a Deus, são católicos e da nossa fé; trazem na testa uma marca de batismo. Têm patriarcas, bispos e outros religiosos. Vão a Jerusalém e ao Monte Sinai muitos "marias" e "adões" [homens e mulheres cristãos]. São respeitados nestas partes como frades e fiéis cavaleiros, muitos deles fidalgos e muito ponderados, e têm posições de grande importância, principalmente em Bengala.
[Comércio e Mercadorias]
E de Áden até à parte de Dahlak, no interior, negoceiam com estes abissínio-etíopes. Na Abissínia valem muito a água salgada, éguas, panos finos, jarros/vasilhas de Cambaia e algumas peças de prata, contas de toda a sorte que venham de lá, panos de linho brancos, tâmaras, frutos e miçangas.
Mercadorias da Abissínia:
Ouro, marfim, cavalos, cristãos [escravos/servos] e mantimentos.