segunda-feira, 19 de abril de 2021

"A secret gateway for mainland China trips"

Deng Xiaoping chega ao poder na China em 1978 e em pouco tempo as políticas que implementa vão transformar de forma radical o país - reformas económicas -  e a sua relação com o resto do mundo - abertura como nunca antes ocorrera.
No final de 1979 - ano em que Portugal e China restabeleceram relações diplomáticas - assistiu-se a uma pequena revolução no sector do turismo para quem pretendia visitar a China.
Por regra, o país não permitia a entrada a estrangeiros embora existissem excepções, ainda assim apenas permitidas em condições muito especiais e com restrições nas deslocações no interior do país sempre acompanhas por elementos das autoridades locais. Em 1965 apenas 4 mil estrangeiros foram autorizados a visitar a China. Em 1979 foram 960 mil! 
No final da década de 1970 o turismo era o sector com maior crescimento no país. Entre 1977 e 1979 o número de turistas a entrar no país triplicou. A maioria era ainda composto por cidadãos chineses a residir no estrangeiro, mas já havia norte-americanos, ingleses, australianos, japoneses e tailandeses... 
Em 1979 nas primeiras estatísticas reveladas sobre as receitas deixadas por estes turistas indicam uma subida de 54% face ao ano anterior.
Em 1980 - ano em que o governador de Macau Melo Egídio visitou a china, a primeira visita depois do reatar das relações diplomáticas - as agências de viagens escreviam nos anúncios:
"Why not combine your trip with a two or three night holiday in exotic Macau or a visit to mainland China!"
Numa primeira fase as entradas na China só eram permitidas a partir de Macau mas depois também foram autorizadas a partir de Hong Kong. 
Os chineses de Hong Kong faziam a viagem de comboio ou autocarro. No caso de Macau, bastava fazer umas escassas dezenas de metros a pé e entrava-se na China passando literalmente por baixo do arco da Porta do Cerco (o postal ilustrado acima é dessa época). As visitas à China eram apenas permitidas por um dia - não se pernoitava - e limitadas à região de Zhuhai, que acabara de ser tornada em região económica especial. 
A novidade era enorme e representava uma diferença abissal - recorde-se que nem fotografias eram permitidas na zona da porta do Cerco.  Tudo começou a 15 de Outubro de 1979 - sem anúncio formal - com um número limite de 200 estrangeiros por dia e durante um período experimental de seis meses. As visitas eram feitas em excursões de autocarros - ficaram famosos as dezenas de Isuzu com ar condicionado que passaram a circular - sempre acompanhados de guias turísticos.
Vejamos o artigo de um jornal do Canadá, o The Montreal Gazette de ‎10 de Novembro de 1979 com o título "Macao, A secret gateway for mainland China trips" / "Macau, uma porta secreta para viagens à China continental".
"One of the best kep secrets of the enigmatic Orient is out. China is now welcoming day trippers - yes, day trippers! - with open arms. Virtually all you need to slip through the Bamboo Curtain is a valid passport, the tour fee of about Cdn$30 and your sea fare to Hong kong's neighbouring Portuguese province of Macao. (...) In fact, right until the day-tours started last month, Brian Cuthbertson. who heads the Macao Information Bureau in Hong Kong wasn't too sure what visitors were going to be offered. (...)
It's been a similar story in Macao, where visitors have been unable to photograph — let alone pass through — the massive arched border gate (Portas do Cerco) for years. With the advent of the one-day junkets, all this has changed. (...)" 
"Um dos segredos mais bem guardados  do enigmático Oriente foi descoberto. A China passou a recebendo turistas - sim, turistas! - de braços abertos. Praticamente tudo que precisa para passar a chamada Cortina de Bambu é um passaporte válido, a taxa de turismo de cerca de 30 dólares do Canadá e o bilhete da passagem por via marítima para a vizinha província portuguesa de Hong Kong, Macau. (...) Na verdade, até ao início das excursões diurnas no mês passado, Brian Cuthbertson, que dirige o Gabinete de Informação de Macau em Hong Kong, não sabia muito bem o que os visitantes iriam poder ver. (...) É uma história semelhante em Macau, onde os visitantes não conseguiam fotografar - muito menos atravessar - o enorme portão em arco da fronteira (Portas do Cerco) há anos. Com a chegada destas excursões de um dia de duração, tudo isso mudou. (...) "
Dados sobre fluxo de turistas na China de 1979 a 1989* 
Artigo de 12 de Agosto de 1979

* Em 1979 Pequim permitiu que um conjunto de 30 cidades chineses pudessem ser visitadas por turistas estrangeiros. A estadia no país não poia ultrapassar os 20 dias. Era sempre feita em regime de excursão e os visitantes acompanhados por guias turísticos chineses.

domingo, 18 de abril de 2021

19th Century View of the Praya Grande from the North

A base de licitação desta pintura - Chinese School, 19th Century View of the Praya Grande from the North, Macao - num leilão em Boston (EUA) em 2004 rondava os 15.000 dólares, mas acabou por ser vendida por 35.250 dólares.
Trata-se de um óleo sobre tela (76x43 cm) de ca. 1850 não assinado (da chamada Escola Chinesa). Apresenta uma perspectiva da baía da Praia Grande vista de Norte para Sul. Nos edifícios civis destaque para um que tem hasteada uma bandeira do EUA e ainda a Sé catedral com as duas torres (lado direito). À esquerda a colina Penha e a ermida com o mesmo nome. Ancorados na baía estão várias embarcações, incluindo juncos, tancares, sampanas e ainda um navio de pás a vapor com bandeira dos EUA. As figuras humanas são apresentadas junto ao (que viria ser) jardim de S. Francisco, primeiro passeio público do território (1860).
This painting  - 17 x 30 inches - was sold in an auction in Boston in 2004 for $35.250.  It's from 19th century c. 1850 - "Chinese School" - and it shows a biew of the Praya Grande bay from the North. Unsigned. 
This oil on canvas shows a row of western style buildings with an American flag flying above one, the sweeping curve of the Praya Grande to the right, the hill Penha to the left with a church, several Chinese junks and a sidewheeler flying an American flag in the foreground. Human figures on the right, near S. Francisco garden already a green spot but built in 1860.

sábado, 17 de abril de 2021

Colonial Army of Portugal

Colonial Army of Portugal
The colonies of Portugal are quite extensive, those of Africa being of considerable importance. For administrative purposes the colonies are divided into seven governments of which five are in Africa, one in India and one in Oceania. They are Cape Verde, Guinea, St Thomas, Angola and Mozambique, India and Macao and Timor. (...) 
Macao
A battalion of infantry stationed in this district as early as 1869 constituted for a number of years the only force of the first line for Macao and dependencies but in 1876 a battalion of the Ultramar infantry regiment was sent there. In 1876 the strength of the officers at Macao and Timor was fixed at 1 colonel, 1 lieutenant colonel, 2 majors, 8 captains, 8 lieutenants and 12 ensigns and the old infantry battalion was disbanded and replaced by a police corps. When the Ultramar infantry regiment was disbanded in 1893 a company of artillery for Macao was created with a strength of 86 men, all Europeans, but the reorganization law of 1895 changed all the formation into two infantry companies at war strength.
in "Colonial Army Systems of the Netherlands, Great Britain, France, Germany, Portugal, Italy and Belgium". Vol. 34. United States. Adjutant-General's Office. Military Information Division, 1901.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

"Java, Siam, Canton: Voyage Autour Du Monde": 2ª parte

Depois dos excertos em inglês no post de ontem aqui fica o essencial da descrição relativa a Macau  (Fevereiro de 1867) numa tradução livre que fiz para português. Boa leitura!
"Chegamos ao cais (de Hong Kong) para seguir para Macau a bordo do Fire-Dart, um vapor americano de dois andares em que tínhamos como companheiros de viagem seiscentos chineses com as suas mulheres, abarrotados como anchovas num pote. De forma calma fumam ópio aconchegando-se para evitarem o frio. (...)  Três navios desta empresa já caíram nas mãos dos piratas com a cumplicidade dos passageiros que prenderam o capitão e a tripulação quando não tiveram coragem para os massacrar. (...)
Após três horas e meia de viagem, dobramos o molhe da Taipa e a península de Macau aparece-nos sob os últimos raios de sol: as cores portuguesas flutuam nos fortes. (...) Imaginem sete ou oito colinas coroadas de ameias de granito vermelho; uma aglomeração de picos que chegam até aos duzentos metros acima do nível do mar,  nas encostas uma aglomeração de casas com terraços e telhados pintadas de azul, verde e vermelho; uma dúzia de campanários de catedrais, janelas protegidas por barras de ferro, ruelas pavimentadas com dois metros de largura (...) e uma enseada circular e envolvente em que se aglomeram milhares de juncos: eis Macau. (...)
O que existe aqui de mais curioso são as casas de jogo, já que Macau é o Mónaco do Celeste Império. A maior parte dos chineses ricos de Hai-Nan, Kwang-Tong e Fou-Kien são suficientemente doidos para vir aqui perder o seu dinheiro (...). Um croupier patriarca, de trança branca, uma barbicha de quatro pontas e unhas imensamente compridas, preside à banca sobre a qual se acotovelam centenas de jogadores. (...)
(...) conduzidos n parte da manhã por D. Osório, ajudante de campo do governador, e à tarde, por Sua Excelência, D. José Maria da Ponte Horta, major de artilharia, visitámos hoje toda a possessão, o que é fácil visto ter uns cinco quilómetros de comprimento e dois de largura. Esta península tem a forma exacta de uma pegada humana em que o calcanhar está virado para o mar e o polegar termina numa língua de terra que, com quatrocentos metros de largura, liga a península a Hiang-Chan. 
O calcanhar é formado por nove colinas rochosas dominadas pelas fortalezas de Bom Parto, Barra, S. João e S. Jerónimo. A grande curva interior da planta do pé está repleta de habitações sobrelotadas de chineses que são cento e vinte cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses se concentram na parte oposta e exterior. 
Praia Grande (ilustração não incluída no livro)

A Praia Grande, esplanada marítima, é o passeio: mansões com grades sombrias, palácio do governador, capitania do porto, casas oficiais ou comerciais alinham-se, apresentando claramente a marca colorida, recurvada e monástica da mãe pátria. 
Imaginem agora que uma muralha (...) vai escalando pelo peito do pé e que todas as articulações dos dedos se crispam formando montanhas no cimo das quais estão os fortes de S. Francisco, da Guia, de S. Paulo do Monte, mais outros sete ou oito. Em baixo fica a planície cultivada pelos horticultores, a vila de Mong-Há e a muralha de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As ruas que vamos percorrendo ao longo do nosso interessante passeio são talhadas em granito com o mais belo efeito. Uma centena de canhões de grande calibre, distribuídos pelas alturas, têm o dever de defender a península. (...)
Visitámos depois a Praça da Sé, a catedral e a velha sede do Senado onde se exibe desde 1654 a seguinte inscrição: "Cidade do Nome de Deos - Não há outra mais Leal".
Percorremos as casernas, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída pelos jesuítas em 1594 e agora praticamente toda destruída por um incêndio, o Asilo dos Pobres, etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimada por cruzes, ornada de santos nos seus nichos, cobertos de frescos curiosos. Acrescente-se a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o chapéu escuro e oblongo sobre o qual caminham os frades, a corneta branca das Irmãs de Caridade, e jurar-se-ia, asseguro, estarmos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova! (...)
Depois (...) percorremos bosques (...) e chegamos à gruta de Camões! A história conta que, em 1556, o grande poeta tinha acabado de escapar a um naufrágio nestes mares pouco hospitaleiros e, tendo salvo apenas os primeiros versos de Os Lusíadas, chegou a nado à colónia que então acabara de começar. Refugiou-se nesta gruta batida pelo mar e, chorando o seu exílio, cantou as glórias da pátria. O sítio (...) isolado e selvagem (...) oferece um espaço que deve ter inspirado a sua admirável epopeia. (...)
Gruta Camões por G. Chinnery (ilustração não incluída no livro)
13 Fevereiro
Já nos vamos habituando à temperatura de Inverno e às longas caminhadas nestes lugares interessantes. (...). No alto do Monte, visitámos as ruínas de um convento de jesuítas e, depois, estudámos em detalhe a coisa mais característica de Macau: os “barracões”, entrepostos famosos da pretensa “emigração dos cules”, mais justamente conhecida por tráfico de chineses. (...)
Numa primeira impressão tudo parece magnífico. Mas (...) apercebemo-nos que, ao longo dos corredores, à direita e à esquerda, se amontoam em armazéns todos os chineses “de partida para a emigração”. Esperam a partida com os corpos de cores macilentas, vestidos de farrapos, exibindo a marca odiosa de uma miséria. (...) É totalmente deplorável esta história do tráfico de chineses. Apesar de ter surgido há apenas dezanove anos, conta já com os mais horríveis massacres, as mais infames especulações, mil vezes mais atrocidades do que as do tráfico negreiro que veio substituir. (...)
Todos os anos partem de Macau cerca de cinco mil chineses para Havana e oito mil para Callao. Certamente, se a emigração fosse dirigida por escritórios desinteressados e honestos poderia ser um imenso benefício para os países que escasseiam em víveres como para os que precisam de trabalhadores. (...)
Felicito do fundo do meu coração a colónia inglesa de Hong Kong por ter, num dos seus primeiros éditos, proibido sobre no seu solo e nas suas águas a emigração dos cules! (...)
Às seis da manhã, embarcámos no “Príncipe Carlos”, bonita canhoneira que o governador de Macau pôs ao serviço do príncipe (francês que fazia parte da comitiva) para ir a Cantão. Contornamos as partes rochosas da península e, a pouco e pouco, a Praia Grande, o forte da Guia onde foi construído o primeiro farol dos mares da China, o Monte e as colinas das fortalezas perdem-se no horizonte; dizemos adeus à colónia, o último entreposto europeu que nos foi dado ver antes de entrarmos no Celeste Império. Macau é o primeiro calcanhar que os navegadores do ocidente colocaram nos bordos da China e a sua história liga-se a todos os eventos da guerra entre a Europa e a grande potência asiática. Foi o português Perestrelo que a abordou, antes de qualquer outro, no rio de Cantão, em 1516. (...)
Mapas de uma edição a cores do livro

Macau conta cerca de 125.000 chineses e 2.000 portugueses. (...) O comércio quase se resume à importação de 7.500 caixas de ópio num valor de 16.310.000 francos e à exportação de chá no valor de 3.400.000 francos. Como podem imaginar, é sobre os chineses que habitam em Macau que caem todos os impostos e, seguindo a regra fatal dos povos asiáticos, é impondo os seus vícios que mais se ganha. Mais de 100.000 piastras (500.000 francos) provêm das casas de jogo; mais de 300.000 francos do ópio e dos barracões! E é significativo num orçamento de receitas de 1.188.000 francos apenas. Quanto às despesas, como o território é exíguo e os dispêndios modestos (18.750 francos para o governador, 11.500 francos para o juiz, 3.900 francos para o coronel, 3.000 francos para o procurador) não ultrapassam os 973.000 francos: os 215.000 francos de benefício entram nos cofres da metrópole. (...)

quinta-feira, 15 de abril de 2021

"Java, Siam, Canton: Voyage Autour Du Monde": 1ª parte

"Java, Siam, Canton: Voyage Autour Du Monde", de Ludovic marquis de Beauvoir, foi publicado original em francês no ano de 1869.  
Como o título indica trata-se do testemunho de uma viagem à volta do mundo que passou por "Australie - Java - Siam - Canton - Pékin - Yeddo - San Francisco", Hong Kong e Macau.
A obra de 3 volumes teve várias edições e traduções. A versão que escolhi para este post é a inglesa publicada em Londres em 1870.
Conde e depois marquês Ludovic Hébert assina uma obra que é considerada um dos melhores relatos de viagens da segunda metade do século 19, sendo inclusivamente premiada pela Academia de França na época.
Excerto do capítulo 27 do vol. 2 com testemunho sobre uma visita a Macau em Fevereiro de 1867.  Foi do território que a comitiva partiu rumo a várias cidades chinesas, incluindo Pequim.
O tráfico de cules é o assunto principal, mas aborda-se também o panorama do comércio e dá-se testemunho de uma visita à gruta de Camões, entre outros.


"We (...) take ship for Macao on board the Fire Dart an American two decked steamer where we have for travelling companions six hundred Chinamen with their wives packed together like anchovies. They are all peacefully smoking opium huddled up in their quilted wrappers to keep out the cold. (...) Three of this American Company's vessels have already fallen into the hands of the pirates thanks to the connivance of the passengers who secured the persons of the captain and crew when they had not courage to murder them. (...)
After a passage of three hours and half we rounded the harbour of Typa and the peninsula of Macao appeared to us lighted by the last rays of the sun the Portuguese flag floating over the steep fortifications which command this rocky country. Imagine seven or eight bold peaks crowned with red granite battlements an agglomeration of barren mounds reaching to within two hundred yards of the level of the sea succeeded by a chaos of houses with southern looking terraces for roofs and painted blue green and red a dozen church steeples windows barricaded with iron bars paved a alleys two yards wide winding through suburbs built in sugar loaf shape and below all this the circular harbour where thousands of junks are crowded together. Such is Macao. (...)
The most curious things here are the gambling houses for Macao is the Monaco of the Celestial Empire. Most of the wealthy Chinamen from Hainan, Kwang Tong and Tonkin are fools enough to come and lose their money here (...).  A patriarchal croupier with a white tail a beard consisting of four hairs well gummed together and immensely long nails presides at the table round which crowd hundreds of players. (...)
12th February 
Our courteous guides to day have been in the morning Don Osorio the Governor's aidede camp and in the afternoon His Excellency himself Don José Maria do Ponte Horta, major in the artillery, with whom we have visited the whole domain no very difficult matter as it appears to be about three miles long by one and a quarter wide.
This promontory is of the exact shape of the impression of a human footstep of which the heel is turned to the sea while the big toe meets a tongue of land some four hundred yards wide which joins it to the great island of HianShan. The heel is formed of nine high rocky hills which command the forts of Bour Parto, Barra, San João and San Jeronimo. The inner curve of the sole is crowded with the houses of the Chinese who number a hundred and twenty five thousand. (...)
We inspected the barracks the monasteries the church of St Paul built by the Jesuits in 1594 and of which three parts have been destroyed by fire, Asylos dos Pobres, etc.... In short a whole series of old Christian buildings surmounted with crosses ornamented with images of saints in niches covered with curious frescoes. Add to these the mantillas covering the women's heads the huge long black hat under whose shade the monks walk about the white caps of the sisters of charity and one might swear that one was in the shadow of the basilicas of Lisbon or Genoa. (...) 
Then we took the shore road under groves of evergreen trees washed by the waves (...) where we found ourselves in the Grotto of Camoëns. History relates how the great poet having been wrecked on these inhospitable shores only saving the first lines of the Lusiades reached by swimming the Portuguese colony then just coming into existence. He took refuge in this grotto washed by the waves and while weeping over his exiled lot sang the glories of his country. (...)
The twilight was nearly over as we came to the end of the domain of the colony and found ourselves on the narrow tongue of land which joins Macao to HiangShan. Two hundred yards from us on either hand the waves of the rising tide were breaking and the granite barrier of the Chinese Empire barred our forward way.  (...)
13th February 
We are beginning to get accustomed to the wintry weather and long walks over the most interesting ground make the time pass quickly. On the summit of the Monte we visited first the ruins of a Jesuit convent and then proceeded to study the details of the most characteristic feature of Macao the Barracons the celebrated establishments for the pretended emigration of coolies more justly branded with the name of trade in Chinamen. The first shop of these human salesmen that we entered presented the most smiling exterior terraces decked with flowers great porcelain vases mahogany furniture in the reception rooms of the officials. (...) Every year about 5000 Chinese leave Macao for Havannah and 8000 for Callao. Certes and if this emigration were conducted by honest and disinterested officials it would be an immense benefit both to the country that is short of provisions and that which is short of labourers and we should hail with the liveliest sympathy the vessels which carry off the surplus of the most prolific population in the world from this country whose soil is not everywhere fertile and which is far from sufficing to feed all the dwellers on it. (...)
Baía da Praia Grande

14th February 
At six o clock this morning we went on board the Principe Carlos a beautiful gunboat lent by the Governor of Macao to the Prince* to take him to Canton. We skirted the rocky bays of the peninsula and gradually the Praye Grande the Guia fort where the first lighthouse in the China seas was erected the Monte and the battlements of the fortifications are lost in the dim horizon and we bade farewell to this colony, the last European outpost we shall see before the Celestial Empire itself Macao was the first beacon planted on the outskirts of China by the western navigators and its history is consequently connected with all the struggles between Europe and the great Asiatic power. (...)
Macao contains about 125,000 Chinese and 2000 Portuguese. In 1865 it registered only 206 vessels clearing the harbour against the 1000 of thirty years back. Its trade resolves itself almost into the importation of 7500 chests of opium worth 652 000l. and the exportation of tea to the value of 136 000l. 
As you may easily imagine the imposts all fall upon the Chinese inhabitants and according to the fatal rule of Asiatic nations it is by taxing their vices that the largest profit is made. More than 100,000 piastres 20 000l. is drawn from the gambling licenses more than 12 000l. from opium and the Barracons and this is no small sum in a budget of receipts of only 47 500l. As regards expenses thanks to the insignificance of the place and the smallness of the salaries they only amount to 38 900l. The 8600l. of surplus flow into the coffers of the mother country where according to all accounts there is plenty of room for them. (...)
* o autor do livro acompanhou na viagem o duque Penthièvre, filho do príncipe de Joinville.
PS: imagens de ca. 1870 mas não pertencem ao livro e foram coloridas de forma digital. 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Comerciantes estrangeiros

Em 1685 o imperador da China Kangxi (governou entre 1662 e 1722) abriu o porto de Cantão ao comércio com os estrangeiros, uma abertura ainda assim parcial, já que ocorria apenas alguns meses por ano e o acesso só era permitido a partir de Macau.
Com esta medida os portugueses de Macau perdem o exclusivo do comércio com a China e passam a ter concorrência de outros países. Em 1688 as autoridades chinesas instalam no porto interior de Macau uma alfândega - o denominado hopu - para cobrança de direitos sobre as mercadorias. Outro hopu seria criado na Praia Grande em 1732. *
Macau entra assim no século 18 com uma frota comercial limitada a 25 embarcações e com maior fiscalização das autoridades chinesas sobre a actividade dos estrangeiros no território. Em 1736 é instituída a figura do Mandarim que a partir da Casa Branca superintende a governação de Macau, já de si dividida entre o Senado e o Governador.
É neste contexto que a vida no território vai mudar de forma substancial. A até então sociedade fechada passa a ter a presença constante de estrangeiros. Sobretudo britânicos, holandeses e norte-americanos.
A maior dessas comunidades era a da "Companhia Inglesa da Índias Orientais" / East India Company (E.I.C.), formada por comerciantes londrinos nos primeiros anos de 1600 baseada numa carta real de outorga de direitos, privilégios e obrigações.
O poderio era de tal ordem - milhares de homens e centenas de navios - que para além dos armazéns em Cantão arrendam (não podiam comprar) vários edifícios apalaçados na orla da baía da Praia Grande. Mais tarde chegou ainda a arrendar durante muitos anos o que hoje se conhece por Jardim Camões e Casa Garden.
Da Holanda chegou a "Companhia Holandesa das Índias Orientais" ou "Companhia Unida das Índias Orientais", resultado da fusão numa única entidade de várias pequenas companhias de comércio que tinham surgido nos Países Baixos. A V.O.C. (Verenigde Oost-Indische Compagnie) estava mandatada para agir em nome do estado holandês, não só para comércio como também para acções militares. Foram os homens da VOC que por diversas vezes, na primeira metade do século 17, atacaram Macau tentando tomar o território de asssalto. 
A China era o último ponto da expansão comercial, mas antes era preciso comerciar na Índia de modo a obter a prata necessária para comprar produtos na China. Chá, seda e porcelana, sobretudo. Não obstante a falta de experiência na região estas "companhias" vão agora sobretudo de forma autónoma.
Por Macau o comércio era feito por privados, mercadores ricos a quem a coroa portuguesa cobrava impostos e que também deixavam parte do lucro nos cofres macaenses.
Um dos comerciantes desses tempos era António José Gamboa. Há registo da actividade desde 1780 no ópio e algodão sendo proprietário de diversos navios. Por via do matrimónio conseguiu ligar-se às famílias de comerciantes reinóis locais, entrando assim no grupo restrito da rica elite macaense (che­ga a ser vereador do Senado várias vezes).
Outro dos homens era Manuel Homem de Carvalho. Com percurso semelhante, por via do matrimónio ficou a pertencer à família Vicente Rosa, uma das mais importantes da cidade, e foi tam­bém membro das vereações do Senado.
Esta situação de comerciantes estrangeiros estabelecidos em Macau - também houve a Companhia Francesa das Índias Orientais e a Companhia Sueca das Índias Orientais - durou sem grandes sobressaltos durante mais de um século. Até que a ganância por lucros maiores e a falta de prata na Europa levam à introdução na China do ópio por parte dos britânicos (pretendem a troca pelo chá). 
O imperador chinês acaba por expulsar os estrangeiros de Cantão que num primeiro momento se refugiam em Macau. A situação levaria à primeira guerra do ópio em 1839, entre chineses e ingleses, que acabaria com a vitória europeia em 1842 dando origem a Hong Kong. 
Entretanto, estas "companhias" extinguem-se dando lugar ao comércio de iniciativa particular.
Sugestão de leitura:
An East India Company Cemetery: Protestant Burials in Macao
Nota: as imagens que seleccionei para este post são desenhos da autoria de George Chinnery e mostam alguns dos edifícios que a Companhia Inglesa das Índias Orientais tinham arrendados na Praia Grande por volta de 1840.
Curiosidade: em 2010 foram comprados todos os direitos - incluindo do brasão de armas - da  The East India Company - e a empresa foi reactivada agora com outros fins, naturalmente.
* os hopus seriam banidos pelo Governador Ferreira do Amaral em 1847.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Emissão de 5 patacas em 1981 - coleccionadores

Estamos perante uma edição especial preparada para coleccionadores.  A emissão foi feita, propositadamente, por ser auspicioso na cultura chinesa, a 8.8.1981
Em 1980 a responsabilidade de emitir notas passou para o Instituto Emissor de Macau (IEM) que, entretanto, autorizou o BNU a continuar a emitir patacas.
Para os coleccionadores existe a particularidade de neste nota existirem pelo menos cinco assinaturas diferentes do "conselho de gestão".
Na frente o "templo chinês da Barra"
No verso uma ilustração da Baía da Praia Grande no século XIX 
(comum ao verso da emissão de outros valores nesse ano)

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Refugees Escape

A fuga em massa de chineses da China Continental para Hong Kong e Macau foi uma constante durantes as décadas de 1950 a 1970, fruto das convulsões políticas e sociais vividas na China na sequência da subida ao poder do partido comunista em 1949 e depois da  chamada "revolução cultural". Os jornais de todo o mundo fizeram eco desses acontecimentos como se pode verificar nalguns recortes de 1958 a 1972 que seleccionei para este post.
Macao. Wed. - One escapee from China drowned yesterday and another will be handed back to Chinese Communist authorities, police said today. The two tried to swim from China's Chungshang County to Macau, a two-mile crossing. AP.
New Straits Times, 17.10.1972
The Leader-Post 30 Jan 1967
The News-Dispatch 27 Dez 1967
The Telegraph 16 Jun 1965
Pittsburgh Post-Gazette 9 Out 1962
Lewiston Morning Tribune 3 Jul 1962
Sarasota Herald-Tribune 21 Jun 1962
Jornal do Brasil 1 Jun 1962
Lewiston Morning Tribune 21 Nov 1959
The Spokesman-Review 28.3.1958

domingo, 11 de abril de 2021

sábado, 10 de abril de 2021

Lin Kai Miu

O Lin Kai Miu (Pagode de Lin Kai) fica na Travessa da Corda (zona do Patane) junto ao antigo Cinema Alegria. 
Construído cerca de 1830, reconstruído e ampliado entre 1875 e 1908, é dedicado a várias 
divindades:  Choi Bak, Deus da Riqueza, Va Kuong, Deus do Fogo, Kun Iam, a Deusa da Misericórdia, Kuan Tai, Deus da Guerra e das Riquezas, Tai Soi, deuses do Ano, e aos Dezoito Loahans ou Arahats.
 




sexta-feira, 9 de abril de 2021

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho (1954-2021)

Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho morreu esta quarta-feira na Figueira da Foz. Nasceu em Viseu em 1954. Licenciou-se em Gestão de Empresas e estreou-se na política na UDT. Em 1982 filiou-se no Partido Socialista onde viria a ser um destacado militante. Foi ainda deputado, ministro e conselheiro de Estado.
A carreira como governante começou no cargo de chefe de gabinete do secretário de estado dos Transportes (Francisco Murteira Nabo, que viria a ser Governador interino de Macau) de 1983 a 1985. 
Em 1988 foi nomeado chefe de gabinete do secretário de estado adjunto dos Assuntos Sociais, Educação e Juventude do Governo de Macau, cargo que desempenhou até 1991.
JC em Portugal numa fotografia de Daniel Rocha

Nos dois governos liderados por António Guterres, primeiro acumulou os cargos de Ministro Adjunto e Ministro da Administração Interna e depois Ministro do Estado e do Equipamento Social, cargo do qual se demitiu em Março de 2001 após a queda parcial da ponte que liga Entre-os-Rios e Castelo de Paiva, que provocou mais de 60 mortos.
Foi ainda comentador político na televisão e desde 2008 foi Presidente da Comissão Executiva da Mota-Engil, membro do Conselho Consultivo do Banco de Investimento Global (BIG), Presidente da Assembleia Geral da Sociedade das Águas da Curia e Presidente da Assembleia Geral do Maratona Clube de Portugal.
Fernando Esteves, autor de uma biografia não autorizada de Jorge Coelho ("Jorge Coelho, o Todo-Poderoso”), mas para a qual o biografado aceitou colaborar na condição de "de não a ler previamente ou interferir na sua construção", passou por Macau em Maio de 2014 e foi entrevistado pelo jornal Ponto Final.
"Acho que a passagem dele pelo Governo de Macau não é decisiva. Apesar de tudo foi uma figura secundária. Teve numa pasta importante [secretário-adjunto para a Educação e Administração Pública], mas não essencial e esteve pouco tempo. Não acho que tenha deixado uma marca indelével no território como deixou em Portugal. Cimentou uma aura de competência e combatividade, importante para ganhar espaço no PS. Veio para cá como militante anónimo e voltou como membro do Governo [ministro-adjunto de António Guterres]."
Na entrevista o autor do livro  recordou ainda um episódio em que Jorge Coelho ficaria conhecido como "o bombeiro". A imagem ao lado é de Macau em 1990 e tem por base uma foto de Alfredo Cunha.
"Ontem passei à frente do antigo Palácio do Governador. Abro o capítulo sobre Macau com um episódio épico da passagem do Jorge Coelho por aqui, que cimentou a alcunha dele de “bombeiro”. É uma manifestação de 2500 polícias à frente do Palácio sob uma chuva tremenda. Eles manifestavam-se pelo facto de os outros funcionários públicos terem sido aumentados e eles não. O Governo entrou em pânico e ninguém teve coragem de encarar a multidão. Aquilo estava muito complicado. Os polícias ameaçavam invadir o Palácio. Entretanto as autoridades chinesas já tinham uma força de intervenção pronta a entrar no território e é Jorge Coelho que salva a situação. Ele estava a passar pelo Palácio a caminho de casa e eles falam-lhe da possibilidade de os chineses irem lá limpar aquilo [um representante dos chineses no território disse que estavam 5000 militares na fronteira à espera de avançar]. E ele diz: “No momento em que deixarmos que os chineses venham aqui, a nossa presença deixa de fazer sentido. Estamos a admitir que não somos capazes de administrar o território. Vamos ter de ser nós a resolver”. Então vai para a frente do Palácio, sobe a um carro com um megafone [e tradutor ao lado] e começa aos berros naquele estilo bélico dele e quando acabou de falar vê que a multidão dispersou."

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Rua do Peixe Salgado

Pequena rua entre a Calçada da Barra e a Rua do Almirante Sérgio, a Rua do Peixe Salgado tem fortes raízes na história de Macau. Dá ainda acesso ao Beco do Peixe Salgado.

Foto de Neves Catela: década 1930
"Productos nativos de Macau
O limitado territorio da peninsula produz apenas hortaliças, fructas e pequeno numero de animaes domesticos dos que servem de alimentação ao homem; as vitualhas que apparecem no bazar ou mercado veem das ilhas proximas. A classe pobre alimenta se as mais das vezes de arroz, carne de porco, peixe salgado e hortaliças."
"Macau", Bento da França. 1890

terça-feira, 6 de abril de 2021

Parecer sobre compra/aforamento de terrenos para estrangeiros: 1846

"[Parecer] em virtude da Portaria do Ministerio da Marinha de 5 de Setembro de 1846 sobre a pertenção de alguns Estrangeiros ácerca da compra o aforamento de terrenos para cazas em Macáu" 
Lisboa, 5 Outubro 1846
No parecer de três páginas, o Procurador-Geral da Coroa, José Cupertino de Aguiar Ottolini considera "perigosa" a proposta do Governador de Macau (Ferreira do Amaral) de se permitir aos estrangeiros a compra de prédios urbanos e o aforamento de terrenos para a sua construção.
Nota: Apresento apenas alguns excertos do documento onde incluí ainda alguns sublinhados.