domingo, 12 de abril de 2026

O órgão da Igreja de S. Paulo de Macau

Publicada em chinês pela primeira vez em 1751 a obra "Aomen Jilue/ Ou-Mun Kei-Leok: Monografia de Macau"* foi escrita por dois magistrados chineses do antigo distrito de Héong-Sán que visitaram por diversas vezes a cidade de Macau.
Uma parte menos abordada da obra inclui poemas de diversos autores. Casos de Ian Kuong Iam, Tcheong Ü Lam, Sêk Kâm Tchông, Chan Kong Yin, Leong Pai Lan, Fang Tchin Yuan e Tch'ak Tch'ak. Um deles, Léong Tekm escreve um poema onde descreve o órgão de tubos da Igreja de S. Paulo de Macau.
"Na igreja de S Paulo encontra-se um órgão colocado dentro de um caixão de couro no qual está alinhada mais de uma centena de tubos ligados e dispostos como um fio de seda. Na parte exterior há um fole que aspira ligeiramente o vento que uma vez entrado produz o som. Desse caixão saem os oito sons que se espalham harmonizando-se com as rezas e cânticos agradáveis de ouvir." 
O autor compara o órgão através do Sheng (ou sâng), um instrumento de sopro chinês milenar composto por tubos de bambu verticais inseridos numa base de madeira. Tal como o sheng, o órgão utiliza tubos e palhetas. A comparação com o alcião (um pássaro) refere-se à forma visual dos tubos dispostos em "V" ou em leque, lembrando as asas abertas do pássaro.

"O órgão português é semelhante ao sâng do alcião.
Com as suas duas asas pouco falta para se parecer com o alcião.
Os seus tubos verdes e dourados estão em lugar de pedaços de bambu.
Curtos e compridos, grandes e pequenos, alternam-se mutuamente.
A madeira substitui a cabeça e o fole é de couro.
Já levantando, já comprimindo, o vento gira sendo expelido.
Quando se produz o vento, agitam-se as palhetas, saindo os sons pelos buracos.
As teclas de marfim comprimindo o ar produzem fortes sons musicais.
Tocando a música no andar superior de S. Paulo, dentro e fora de dez lis** ouvem-se os sons.
Os sons não são semelhantes aos produzidos pelos instrumentos de cordas de seda, de madeira, mas de metal ou de pedra.
Ao entrarem são fracos mas quando saem são fortes, cheios e límpidos.
Espalham-se ouvindo-se em toda a ilha, sendo grande a sua perfeição.
É também subtil a lei que rege a construção dos órgãos. (...)"
Igreja Mater Dei representada no livro Ou Mun Kei Leok

Edificada segundo um plano rectangular, a Igreja de S. Paulo (ou de Nossa Senhora da Assunção, ou da Madre de Deus) era constituída por três naves separadas por grossas colunas de madeira, quatro de cada lado. O topo era também rectangular e o transepto estava separado da capela-mor por um arco majestoso. No primeiro andar encontrava-se o coro, com as suas três janelas abertas na fachada da Igreja e dois órgãos, o grande e o pequeno.
Na descrição que deixou do interior da igreja, o Padre Montanha escreve que o coro era "muito capaz com trez janellas rasgadas, tem dous orgaons, hum grande, e outro piqueno". Isto é, o coro alto era muito espaçoso e também muito iluminado, o suficiente para abrigar um órgão grande e um pequeno.


* Em 1751 surge a primeira edição xilográfica da Monografia de Macau (Ou-Mun Kei-Leok), por Tcheong Ú Lam e lan Kuong Iam; surgiu uma 2.ª edição em 1884. Esta obra foi traduzida e publicada em português, em 1950, por Luís Gonzaga Gomes.

** medida chinesa: cada li corresponde a 500 metros.

O órgão é um dos instrumentos musicais mais antigos da tradição musical do Ocidente, sendo considerado o primeiro instrumento de teclas. O  som é produzido pela passagem de ar comprimido através de tubos sonoros de diversos formatos, materiais e comprimentos que faz ecoar os sons. É um instrumento de sopro com a diferença de que o ar não é injectado pelo sopro humano, mas sob a forma de ar comprimido, que acumulado pelo fole, é reencaminhado para os tubos respectivos. Existem de vários tamanhos: desde uma caixa (órgão de baú) até aos que podiam ter vários andares de tamanho. Pela descrição, o da Igreja Matr Dei seria um de pequenas dimensões.

sábado, 11 de abril de 2026

Banda de Música no Passeio de S. Francisco e na Flora: 1878

 Publicado na "Parte Não Official" do Boletim Oficial de Macau na época...

Banda de musica da guarnição, destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramar

PROGRAMMA
Domingo, 26 de maio, das 5 ás 7 horas p.m., no passeio de S. Francisco
1º Passo dobrado;
2º Overtura Les Aveugles de Toledo;
3º Mazurka, Les belles Parisienes;
4º Selection Don Pasquale;
5º Quadrilha, das Estradas;
6º Grand Selection "Norma";
7º Polka, La Belle Colete;
8º Hymno de S. M. El-Rei o Sr. D. Luiz I.

Quinta-feira, 30 do corrente, das 5 ás 7 horas p.m., na Flora
1º Marcha;
2º Selection "Gerusalemme";
3º Cançoneta;
4º Valsa, Adagio;
5º Schottisch, La nuit de Noel;
6º 2.º Acto d'Opera burlesca "O Fausto Petiz";
7º Quadrilha;
8º Hymno da carta constitucional.

Em 1878 os concertos da Banda de Música "destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramarn" no Passeio de S. Francisco (perto do atual Clube Militar na altura denominado Grémio) e no Jardim da Flora (ou Flora Macaense como se dizia na época) eram os grandes eventos sociais onde a elite e a demais população se reuniam para ver e ser vista.
O programa revela um gosto musical muito alinhado com o que se ouvia em Paris ou Lisboa na mesma época. Incluía ópera Italiana e Francesa - referências a Don Pasquale (Donizetti), Norma (Bellini) e Les Aveugles de Tolède (Méhul) e danças de salão através das Mazurkas, Polkas, Valsas e Schottisch (Xote),reflectindo um ambiente festivo e sofisticado. O "Fausto Petiz" é uma referência a uma paródia ou versão reduzida da ópera de Gounod, muito comum no teatro de revista e operetas da época.
Ambos os concertos encerravam com hinos patrióticos: o Hymno de D. Luiz I (Hino Real) no domingo e o Hymno da Carta Constitucional na quinta-feira, que era o hino nacional do Reino de Portugal na altura. Os concertos ocorriam das 17h às 19h aproveitando o final da tarde, quando o calor em Macau começava a dar tréguas.
Uma banda desta natureza teria entre 20 a 30 elementos. Não disponho de elementos o possam comprovar mas na época eram habituais terem estes instrumentos: requinta, clarinetes, flautim, flauta, oboé, fagote, cornetins, trompetes, trompas, trombones, bombardinos, tuba, tarol, bombo e pratos.
Palacete da Flora com o coreto (assinalado) nos jardins 
Ilustração por IA a partir de foto da época

Locais:
O Jardim da Flora (macaense) ocupa uma área muito maior do que o actualmente existente, nomeadamente ao longo da Av. Sidónio Pais (que na época se denominava Alameda Vasco da Gama) e Estrada de Ferreira do Amaral. As origens remontam à década de 1850 quando o padre Victorino José de Sousa e Almeida - chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1832 e foi pároco de S. Lourenço de 1842 a 1852 - comprou um extenso terreno e aí construiu um palacete. Documentos da época referem a "horta do padre Almeida". 
Por volta de 1870 o Governo de Macau comprou a propriedade. O palacete foi transformado em residência de Verão do governador e o restante espaço passou a funcionar como jardim e viveiro de plantas. Nos jardins anexo ao palacete havia um coreto, o local provável da actuação da Banda de Música.
Jardim S. Francisco. Fotografia ca. 1870

O "Passeio de S. Francisco" é uma referência ao jardim com o mesmo nome, criado ca. 1865, entre a Rua do Campo (frente ao antigo Convento de Santa Clara) e o Grémio Militar (de 1870). Foi o primeiro jardim público de Macau. Neste jardim também existiu um coreto localizado perto da Rua do Campo.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

120 anos dos Salesianos em Macau

Este ano assinala-se o 120.º aniversário* da chegada dos Salesianos a Macau. A primeira expedição salesiana a chegar a Macau, em Fevereiro de 1906, era composta por seis pioneiros que lançaram as bases da obra de Dom Bosco na região. O grupo era liderado pelo Padre Luís Versiglia (director da missão) e incluía os padres Ludovico Olive e João Fergnani. Acompanhavam-nos três irmãos coadjutores, especialistas em artes e ofícios, que seriam essenciais para o ensino técnico: Feliz Borsio, Luís Carmagnola e Gaudêncio Rota. Juntos, estes seis missionários iniciaram o trabalho no Orfanato da Imaculada Conceição.
A iniciativa pertenceu ao Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, que buscava apoio especializado para a educação e formação profissional de jovens carenciados e órfãos no território.

O Pe. Joaquim Taveira da Fonseca foi um desses salesianos já na década de 1970 e é o protagonista do artigo (texto) da autoria de Raquel Fragata publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de Março/Abril de 2026. Suplemento 150 anos das Missões Salesianas - "1906, Macau, a primeira casa na China" que a seguir se reproduz:
Foram quatro frutuosos anos que o Pe. Joaquim Taveira da Fonseca trabalhou em Macau. Tinha regressado de Moçambique em 1975, onde serviu como Capelão Militar do Exército Português no período de transição para a Independência após o 25 de Abril, quando – depois de dois anos no Colégio dos Órfãos do Porto como diretor –, vai para Mogofores para completar o Curso de Matemática na Universidade de Coimbra. É o Provincial, Pe. José Maria Ferreira Maio, que o envia a seguir para Macau, onde fica como vice-diretor, professor de Matemática no Colégio Dom Bosco e professor de Filosofia na Escola Comercial de Macau, para portugueses.
Conheceu o Padre Gaetano Nicosia, o salesiano que humanizou a colónia de doentes de lepra na ilha de Coloane**. Do missionário salesiano, cujo processo de beatificação começou em 2025, o Pe. Taveira recorda “um asceta”. Diariamente, o Pe. Nicosia atendia a duas obras a seu cargo: a leprosaria em Coloane e uma creche perto do Porto de Macau. “Fiquei a saber que não comia. Não tinha tempo.” O Padre Taveira tentava fazê-lo passar pela comunidade salesiana, a pretexto de se querer confessar, e recebia-o com leite ou chá e uma sanduíche. “Um confessor fabuloso. Um homem de Deus. De uma dedicação, entrega e simplicidade absolutas”.
Nesses anos o Pe. Joaquim Taveira colabora também com uma coluna de opinião e a secção de Religião com “O Clarim”, o jornal de língua portuguesa mais antigo de Macau e ainda em circulação. O convite foi feito por D. Arquimínio Rodrigues da Costa, o último Bispo português de Macau, natural dos Açores, da ilha do Faial. Era diretor o Padre Manuel da Fonseca Moreira.
Nos quatro anos de missão, visitou Taiwan, a China, as Filipinas e o Japão. Regressou a seu pedido, devido ao estado de saúde do Pai. Antes da partida um grupo de mais de 50 amigos organizou um jantar surpresa de despedida e de agradecimento.
Leprosaria de Ka-Ho ca. 1960
Transcrição (da direita para a esquerda)
Linha superior:
典學開校學罪原無門澳日二月四年六零九一
Cerimónia de abertura da Escola da Imaculada Conceição de Macau, 2 de Abril de 1906.
Linha inferior:
照合生學與父神賀父神雷教主鮑門澳禮
Fotografia dos alunos com o Padre Horta, Padre Lei, o Bispo de Macau Dom João Paulino e outros.
Ao centro com a cruz peitoral está o bispo Dom João Paulino (1902-1918).  No topo há um retrato do Papa Pio X, pontífice na época 1903-1914. O retrato segurado por um dos alunos no centro da imagem é o de Dom Bosco, o fundador da congregação Salesiana.

* Os primeiros missionários salesianos para Meliapor e Macau partiram da Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim, a 23 de Novembro de 1905. A primeira missão salesiana em Macau iniciou-se a 13 de Fevereiro de 1906.

** Em 2025 teve oficialmente início o processo de Beatificação e Canonização do Pe. Gaetano Nicosia (1915-2017), missionário salesiano que viveu 48 anos na leprosaria da ilha de Coloane, em Macau.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

"As Origens de Macau" / "The Origin of Macao"

A obra intitulada "As Origens de Macau" / "The Origin of Macao", escrita por W. Robert Usellis, representa um resgate historiográfico de grande relevância, tendo sido publicada pelo Museu Marítimo de Macau em Dezembro de 1994. Embora a edição bilingue date de meados da década de 90, o texto original foi concebido muito antes, em dezembro de 1958, como a tese de mestrado do autor na Universidade de Chicago. Durante 36 anos este estudo permaneceu inédito, circulando apenas de forma restrita através de fotocópias entre investigadores, até que académicos como Luís Filipe Barreto, Jorge Manuel dos Santos Alves e Rui Loureiro impulsionaram a sua publicação bilingue em português e inglês.
As circunstâncias da edição de 1994 prendem-se com a necessidade de consolidar a identidade de Macau num período de transição política, destacando a singularidade desta "comunidade autónoma luso-asiática". O mérito fundamental de Usellis, conforme sublinhado na nota introdutória, foi a sua metodologia pioneira: numa época em que os estudos eram muitas vezes unilaterais, o autor realizou um esforço sistemático de comparar fontes ocidentais e orientais, cruzando manuscritos e documentos impressos em português, chinês, italiano, espanhol, japonês e malaio. A estrutura do livro percorre desde a análise dos relatos da fundação até à complexa questão da soberania, incluindo apêndices valiosos como o acordo de Lionel de Sousa de 1553-54.
O corpo principal do estudo divide-se em quatro partes fundamentais: o Capítulo II analisa os relatos portugueses e de outros ocidentais sobre a fundação de Macau; o Capítulo III estabelece a comparação entre as fontes chinesas e as ocidentais; o Capítulo IV aborda a complexa questão da soberania sobre Macau; e o Capítulo V apresenta a Conclusão do autor.
A obra inclui ainda uma secção de Apêndices com documentos históricos essenciais: o primeiro traz o relato de Lionel de Sousa sobre o acordo de 1553-54; o segundo apresenta um relato antigo sobre a fundação de Macau; o terceiro detalha uma declaração primitiva da posição portuguesa em Macau; e o quarto oferece uma visão oficial da posição portuguesa no território.
O autor, W. Robert Usellis, teve uma trajectória de vida marcada pela experiência como soldado de infantaria na Segunda Guerra Mundial e por uma carreira dedicada ao ensino secundário e à administração internacional em países como o Líbano e a Arábia Saudita. No encerramento da obra, Usellis reflete com pragmatismo sobre a história de Macau, defendendo que o respeito mútuo entre as leis e costumes de chineses e portugueses permitiu uma coexistência pacífica que serve de lição para o futuro da região no contexto global.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Luís Gonzaga Gomes: cinquentenário da morte

Em Março último assinalou-se o cinquentenário da morte de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Nome incontornável da restrita galeria dos mais ilustres macaenses do século 20 foi escritor, sinólogo, tradutor, filólogo, historiador, musicólogo e professor.
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907, filho de Joaquim Francisco Xavier Gomes e de Maria de Conceição Gonzaga Gomes. A sua formação académica e intelectual foi moldada no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde teve como professores figuras influentes como o historiador José Maria Braga (Jack Braga) e o prestigiado Camilo Pessanha, que marcaram profundamente o seu interesse pela história e pela cultura oriental.
Após concluir os estudos, iniciou a sua vida profissional em 1928 como tradutor-intérprete oficial. A sua capacidade de ligação entre comunidades permitiu-lhe, entre 1932 e 1934, atuar como interlocutor em questões sensíveis da administração colonial. Em 1949, fundou o Círculo Cultural de Macau, tornando-se um pilar da dinamização artística do território.
Como docente no Liceu de Macau (onde antes fora aluno), foi mestre de várias gerações que viriam a destacar-se na vida pública e cultural de Macau, incluindo o advogado e historiador Jorge Cavaleiro e o intelectual Henrique de Senna Fernandes, que frequentemente o recordava como um mentor rigoroso e apaixonado pela alma macaense.
Entre 1951 e 1954, dirigiu a Biblioteca Pública e o Arquivo Histórico. Em 1960, assumiu a direção do Museu Luís de Camões, cargo que ocupou até à sua morte.
Morreu a 20 de Março de 1976, deixando um legado inigualável como o "intérprete" por excelência da história luso-chinesa.
Condecorações e distinções:
1958: Grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública (Portugal, 20 de janeiro).
1962: Cavaleiro da Ordem de São Silvestre Papa (Santa Sé, pela sua dedicação à comunidade católica e ensino).
1969: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique
Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.
Postumamente: Medalha de Valor de Macau, atribuída pelo Governo de Macau (Gov. Almeida e Costa) em reconhecimento ao seu serviço excecional.
Em 1977 o seu busto foi colocado numa sala do Museu Luís de Camões e em 1984, um outro busto foi colocado no Jardim de S. Francisco. Ambos da autoria do escultor italiano Oseo Leopoldo Acconci.
Dá ainda nome a uma rua e a uma escola em Macau.
Sendo um dos autores mais prolíficos do seu tempo publicou centenas de artigos na imprensa: Notícias de Macau, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Mosaico (revista do Círculo Cultural de Macau), etc...
Algumas das principais obras:
1941: Vocabulário Português-Cantonense
1942: Vocabulário Cantonense-Português
1942: Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo — Tradução para a língua cantonense da adaptação em prosa de João de Barros.
1945–1946: Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) — Tradução para português, a partir do cantonense, da obra dos mandarins Tcheng U Lám e Jan Kuong (séc. XVIII).
1950: Contos Chineses
1951: Lendas Chinesas de Macau (também referida apenas como Lendas de Macau)
1951: A Influência Portuguesa na Civilização Chinesa
1952: Chinesices
1952: Curiosidades de Macau Antiga
1953: Festividades Chinesas
1954: Arte Chinesa
1954: Efemérides da História de Macau
1957: Páginas de História de Macau (Primeiros volumes/ensaios)
1958: Noções elementares da língua chinesa
1959: Macau: Factos e Lendas
1959: A Mensagem de Fernando Pessoa — Tradução para a língua cantonense.
1964: O Estudo do Chinês em Macau
1966: Páginas de História de Macau (Edição consolidada)
1966: A Arte Musical em Macau
1967: Festas e Tradições Chinesas
1968: Notas sobre o Teatro Chinês
1969: As Religiões e os Cultos em Macau
1971: Bibliografia Macaense
1973: Demografia de Macau através dos Tempos
1973: Bibliografia Macaense (Edição/Actualização)
1975: Macau e a sua Gente

segunda-feira, 6 de abril de 2026

IX edição da Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses

Realiza-se entre 5 e 8 de Maio próximo, em Mafra e Lisboa, a IX edição da Conferência de Lisboa sobre Música e Instrumentos Musicais Chineses.
Organizada pelo Instituto de Etnomusicologia - Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a Conferência é coordenada pelo Dr. Énio José de Souza, e conta com o patrocínio principal da Fundação Jorge Álvares.
As Conferências reúnem académicos, músicos e entusiastas da música chinesa com o objetivo de fortalecer e priorizar as seculares relações culturais entre Portugal e a China/Ásia, com especial destaque para Macau como ponte histórica e cultural entre o ocidente e o oriente, explorando o rico património cultural e as tradições em constante mudança associadas aos instrumentos musicais chineses.
PS: Portugal tem um importante acervo de instrumentos musicais chineses em colecções públicas e privadas.
Sugestão de leitura:
Instrumentos Musicais Chineses, de Veiga Jardim.
Edição (filatélica) da Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações de Macau. 1998
Edição em português, inglês e chinês.

domingo, 5 de abril de 2026

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes"

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes, alem de hu grande numero de Christãos da terra, que davaõ larga matéria ao exercicio de nossos ministerios. Frequentavaõ os Sacramentos de oyto em oyto, ou quinze em quinze dias. Nos Domingos, e dias Santos acodiaõ à doutrina perto de mil escravos, cõ os quaes se fez muyto fruto."

Relato relativo a meados do século 16 (1562) incluído no 1º volume de "Oriente conquistado a Jesus Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Goa", obra "Ordenada pelo P. Francisco de Sousa* Religioso da mesma Companhia de Jesus. Lisboa: na Officina de Valentim da Costa Deslandes, Impressor de Sua Magestade, 1710."
* Jesuíta Francisco de Sousa (1649-1712).
Igreja Mater Dei/Ruínas de S. Paulo: o 'santuário dos jesuítas em Macau
(ainda não existia na época deste relato)
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

Em português actual:
"Haveria, neste tempo, na cidade de Macau, novecentos portugueses, além de um grande número de cristãos da terra, que davam ampla matéria ao exercício dos nossos ministérios. Frequentavam os sacramentos de oito em oito, ou de quinze em quinze dias. Aos domingos e dias santos, compareciam à doutrina cerca de mil escravos, com os quais se colheu muito fruto."

sábado, 4 de abril de 2026

"Terra das nhonhas e das delicias"

Em cima um postal ilustrado publicado em Hong Kong - Graça & Co. - no final do século 19/início do século 20 (os selos são já da República). Tem como legenda "Mulheres de Dó, Macao". Tudo indica que a fotografia foi tirada na Praia Grande.
"A sahida da missa" é a legenda da fotografia publicada na "Illustração Portugueza", edição semanal do jornal O Século (Portugal), a 4.12.1908.

Excerto do artigo:
"Após uma digressão pelas casas de jogo, d´amor, d´embriaguez, traz-se a impressão cançada do goso, mas olhando n´um dealbar verão a cidade onde as nhonhas de lindas pernas, com seus trajes de dó ou com seus vestidos leves, vão passar dentro em pouco, reparando n´esses bairros adormecidos, sob a luz doce do sol e comparando-a com essa China do luxo e da mizeria onde tantos milhões de homens luctam, sente-se bem que Macau foi feito para paraizo dos mandarins, dos ricos e dos piratas e logo nos vem á mente que com esse caminho de ferro de Cantão até ali, que já temos licença para fazer, a cidade seria definitivamente o logar de regalo de todo esse Extremo Oriente se dentro de gosos, que abafa ou se regela na sua atmosfera e que ali, em Macau, encontraria a sua estancia de prazeres, fazendo correr o ouro que seria applicado em torar mais deslumbrante a linda terra das nhonhas e das delicias.
A macaísta, que mettida nos seus trajos de dó tem alguma cousa das nossas antigas damas embiocadas, talvez então se desse mais à vida da rua, talvez mergulhasse n´esse banho de luxo e perdendo a característica do trajar iria docemente, sem dar por isso, deixando o recolhimento em que vive."
Desenho por IA a partir do postal referido

No contexto do crioulo-português de Macau, "nhonha" é usado para designar uma moça, garota ou mulher nova. As nhonhonas eram as mulheres/senhoras que vestiam o traje de "dó" em certas ocasiões, como a missa. As mulheres usavam uma saia comprida e um manto largo que cobria a cabeça e os ombros. Em situações de luto fechado, o manto era puxado para a frente para esconder parcialmente o rosto, como se vê nas figuras à esquerda.
Na livro "O Traje da Mulher Macaense Da Saraça ao Dó das Nhonhonha de Macau", de Ana Maria Amaro (Instituto Cultural de Macau, 1989):
"Nos primeiros tempos da ocupação de Macau pelos portugueses as mulheres asiáticas ou euro-asiáticas que os acompanhavam usavam um trajo original que se vulgarizou em todas as cidades do Oriente onde estes se fixaram. Este trajo nem era aquele que usavam as mulheres portuguesas da Europa nem o trajo próprio de nenhuma das etnias asiáticas. Como teria nascido este trajo que, no Oriente, era conhecido por saraça-baju ou pano-quimão?"

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos)

25 de Março de 1708
"N'este dia se fez a procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos) pelos ordinarios por ordem do senhor bispo, visto acharem-se os padres Agostinhos impedidos no seu convento por causa das controversias a respeito do patriarcha. Os irmãos que acompanhavam o Senhor iam com opa branca e murça rouxa. A procissão foi até S Domingos onde ficou o Senhor."
in "Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos", António Marques Pereira, 1868.
Procissão religiosa em Macau no século 20.
Foto de autor desconhecido


quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Macao Races": 1829

 The Canton Register, 2 de Maio de 1829:

Macao Races
In noticing the Races that have lately taken place, and are now in course, at Macao, which have afforded so much rational amusement, and been the source of great gratification to the surrounding society, we hail with pleasure the return of that manly diversion, which for a time had been neglected. And while it is conducted with the gentlemanly feeling, and universal harmony, which has been so peculiarly conspicuous in every instance of its present management, we hope it will have its annual return, and meet with the most cordial support.

Corridas de Macau
Ao notar as Corridas que ocorreram recentemente, e que estão agora em curso em Macau, as quais têm proporcionado tanto entretenimento racional e sido fonte de grande satisfação para a sociedade local, saudamos com prazer o regresso desta diversão viril, que por algum tempo havia sido negligenciada. E, enquanto for conduzida com o espírito de cavalheirismo e a harmonia universal que têm sido tão peculiarmente visíveis em cada exemplo da sua atual gestão, esperamos que tenha o seu retorno anual e encontre o mais cordial apoio.

As "corridas" a que se refere a notícia eram corridas de cavalos, uma actividade que os ingleses e outros comerciantes estrangeiros desenvolviam em Macau quando não podiam estar em Cantão nos negócios. Documentos da época indicam que estas provas tinham lugar ao longo da praia da Areia Preta, muito perto da Porta do Cerco (ainda na versão chinesa). Por volta de 1840 alguns mapas referem um "Race Course" - City and Harbour of Macao. By W. Bramston. J. Wyld, London. Lithographed, 1840 - nas então várzeas junto à aldeia de Mong Ha.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Até parece mentira

Em 1933 o Ministério das Colónias (Portugal) publica o Decreto n.º 27:195 "determinando que no frontispício dos Boletins Oficiais de todas as colónias e respectivos suplementos, seja impresso, entre a palavra «Boletim» e a palavra «Oficial» o escudo nacional, que não poderá ser substituído pelo brasão da colónia ou quaisquer outros emblemas."

Esse mesmo decreto seria publicado no Boletim Oficial da Colónia de Macau nº 52 (Dezembro de 1933) mas curiosamente não é seguida a determinação, aparecendo o brasão da Colónia de Macau. Seria publicado um novo boletim de forma a corrigir o erro... 

terça-feira, 31 de março de 2026

Hotel Bela Vista 全澳最高尚最幽靜之居停

Anúncio em língua chinesa da década 1960 do Hotel Bela Vista. O texto utiliza o estilo de escrita tradicional chinesa, comum na época, recorrendo a expressões poéticas para descrever a localização e o luxo do estabelecimento. Localizado na Rua Comendador Kou Ho Neng, no início da década 1960 o Hotel Bela Vista tinha 26 quartos: "Singelos, com casa de banho, $20,00; Dobrados, com casa de banho, $30.00, $35.00 e $60.00, todos com ar condicionado."

HOTEL BELA VISTA
全澳最高尚最幽靜之居停
峯 • 景 • 大 • 酒 • 店
華麗名貴 雅潔舒適
背山面水 風景幽美
• 澳門有限公司經營 •
電話:三八二一 • 三八六五
澳門西灣竹仔室

Tradução/Adaptação

HOTEL BELA VISTA
A localização mais nobre e tranquila de Macau
Hotel Bela Vista (Literalmente: Grande Hotel da Vista do Pico)
Luxuoso e distinto — Elegante, limpo e confortável
Ancorado na montanha e voltado para o mar — Paisagem de beleza serena
• Gerido por "A Macau Limitada" (sociedade por quotas)•
Telefone: 3821 • 3865
Baía do Bom Parto (Praia Grande), Macau

segunda-feira, 30 de março de 2026

Antes e agora: antiga Escola da República nº 3 na Taipa

 100 anos separam estas imagens 

Nota: as primeiras escolas públicas nas ilhas da Taipa e de Coloane remontam a 1882

domingo, 29 de março de 2026

Duas versões do casino Macau Palace - 海門皇宮

O postal ilustrado é do início da década 1970 - nº104 - e mostra o casino flutuante Macau Palace na baía da Praia Grande com o Hotel Lisboa (inaugurado em Fevereiro de 1970) ao fundo. O casino foi inaugurado a 26 de Maio de 1962. O que está na imagem - a ser conduzido ao local de atracagem no Porto Interior - corresponde a uma nova versão. A primeira versão é a que se pode ver abaixo. Muitas diferenças... Por exemplo a nova versão tem mais um piso! Foi 'cenário' de vários filmes na década 1970. Em breve falarei de alguns...
Primeira versão do "Macau Palace"

Voltando ao postal... Nos caracteres chineses 海門皇宮. Ou seja, Palácio Macau. A estrutura no topo parece ainda não ter as luzes em neon que o identificavam (ver outro postal abaixo).

No verso do postal a legenda em três línguas:

Português:
"O novo 'Macau Palace', casino-restaurante flutuante de três pisos, com a sua exótica decoração oriental tornou-se uma das maiores atracções turísticas de Macau."

Chinês (Tradicional):
澳門海上皇宮娛樂場世界新紀元全部宮殿裝飾 內備:活動劇場、粵菜酒家、西餐廳、電動梯、酒吧。
(Tradução: Casino Palácio Flutuante de Macau, decoração palaciana de uma nova era. Inclui: teatro móvel, restaurante cantonês, restaurante ocidental, escadas rolantes e bar.)

Japonês:
マカオパレス外観娯場とに世界的な中国宮殿式設計に建築、内部では劇場、粤菜酒家、西洋餐能バー、エスカレーター等完備。
(Tradução: O exterior do Macau Palace foi construído com um design de palácio chinês de classe mundial; o interior está totalmente equipado com teatro, restaurante cantonense, bar de comida ocidental, escadas rolantes, etc.)

Inglês:
"The new Macau Palace, a floating three-deck casino-restaurant, with its exotic Oriental decoration, has become one of the biggest tourist attraction in Macau."

sábado, 28 de março de 2026

Panchões da "Yick Loong" no centenário da empresa

Chinês (da direita para a esquerda): 益隆炮竹廠 (Yì Lóng Pào Zhú Chǎng)


 Yick Loong, Iec Long e Yick Lung são alguns dos nomes para a mesma fábrica de panchões.
Tinha fábrica na Taipa e em Macau, na Estrada da Areia Preta. A sede ficava em Macau na rua Miguel Aires. Tinha ainda uma sucursal em Hong Kong.
Iec Long (益隆): Significa "Prosperidade Benéfica".
A Iec Long foi a maior e mais emblemática fábrica de panchões de Macau, operando entre os anos 20 e os anos 80 do século 10 na Vila da Taipa, época em que esta foi uma das principais indústrias do território.
Duas versões da mesma marca
Nestas duas etiquetas destaque para o facto de estarem escritas maioritariamente em português.
Fundada em 1925/25 fábrica funcionou até 1984.
O espaço na Taipa tem vindo a ser recuperado.
PS: existem inúmeras publicações sobre este tema pelo que sugiro a utilização do campo de pesquisa.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Troço da Rua de Camilo Pessanha: década 1950

Os caracteres no topo do edifício à esquerda, lidos da direita para a esquerda - como era tradicional na época - são: 德成大按 (Tak Seng Tai On). Ou seja, a Casa de Penhores Tak Seng On (Virtude e Sucesso). Fundada em 1917, foi uma das maiores e mais ricas casas de penhores da cidade. O edifício não era apenas uma loja, mas uma verdadeira "fortaleza" de armazenamento. A estrutura alta e robusta (estilo torre) servia para proteger os bens empenhados contra roubos e inundações. As paredes eram extremamente grossas e as janelas pequenas por razões de segurança. Actualmente é um museu.
Na rua com calçada/paralelepípedos, em primeiro plano, um carteiro quase passa despercebido na rua bastante movimentada e densamente comercial. Nos neons das lojas destaca-se a "On Kei Hong - Tintas e Vernizes" e "Va-Cheong Fornecedor".
Nota: Ao contrário do que é habitual, Camilo Pessanha teve o seu nome numa rua pouco tempos depois de morrer em 1926. Para o efeito deixou de existir o topónimo Rua do Mastro.
A Rua de Camilo Pessanha começa na Rua das Estalagens e termina na Avenida de Almeida Ribeiro. É nesta última que está uma das fachadas da Torre/Casa de Penhores aqui referida.

quinta-feira, 26 de março de 2026

"Caza da Pólvra"

Por estes dias, pelas piores razões, ouve-se falar com insistência de Estreito de Ormuz e Omã. Por causa disso, lembrei-me que no Museu Nacional de Omã, Palácio do Fort Muscat, Mascate, entre as várias peças expostas, está um canhão português que data do século XVII e que foi fabricado em Macau.
A peça em questão foi classificada como um falconete – um tipo de peça de artilharia muito eficaz contra a infantaria – e foi fabricado em 1643 por Manuel Tavares Bocarro, um dos mais famosos fabricantes de armas daquela época que tinha em Macau uma fundição de artilharia e um paiol de pólvora. Na arma estão inscritas as palavras "Viva el rei do Joao IV", e "Macao En Caza da Polvra 1643".
Macau era há muito o grande centro de fabrico destas peças essenciais para a manutenção da presença portuguesa na vasta região oriental. Em Fevereiro de 1629 o rei de Portugal envia uma carta ao vice-rei da Índia onde reitera a necessidade da ida de oficiais da guarnição de Macau para Goa a fim de ensinar a fundir artilharia de "ferro coado".

Manuel Tavares Bocarro (Goa, c. 1605-Macau, 1652), neto de Francisco Dias e filho de Pedro Dias Bocarro, mestre das Fundições de Goa, chegou a Macau em 1625, tendo sido o mais célebre fundidor do Oriente até 1652. Nessa qualidade fundiiu inúmeras bocas-de-fogo, sinos e estátuas (as das ruínas de S. Paulo, por exemplo). 
Quando estava em Goa o cronista António Bocarro (1594-1652) escreve a propósito de Macau em 1635 que "este lugar possui uma das melhores fundições de canhões no mundo, quer de bronze, que já tem ha muito ou de ferro, que foi feita por ordem do Vice-rei, Conde de Linhares (D. Miguel de Noronha, 4º conde 23º vice-rei, 1585-1647), e onde é fundida continuamente artilharia para todo o seu Estado (da India), a preço muito razoável". 
Duas das bocas-de-fogo feitas por Bocarro estão na Torre de Londres, outras duas, provenientes do galeão Santíssimo Sacramento (naufrágio de 1647) e do Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro,  estão na África do Sul, onde foram declaradas património nacional em 1986.
Mas há mais...
Uma outra peça de fogo, denominada "Merian Si Jagur" (Senhor da Fertilidade), é actualmente património nacional da Indonésia e pode ser vista no Museu Nacional de Djakarta. Resulta da conquista Malaca pelos holandeses em 1641. 


Mas voltemos à peça do museu de Omã...
Está decorada com quatro anéis com folhas de acantos e as 'asas' são na forma de leões.  A inscrição "MACAO / EN CAZA / DA POLVRA / 1643" está numa esfera que simboliza o mundo encimada por uma figura humana. Por cima tem a legenda: "VIVA ELREI DÕ IOÃO / 4º". 
A peça de 1643 foi fundida na “Caza da Polvra” (Pólvora) e sendo feia em bronze tem a tonalidade do ouro.
Data também de 1643 a única carta que se conhece escrita por Manuel Tavares Bocarro dirigida ao rei D. João IV. Na missiva - que terá ido juntamente com a peça oferecida ao rei -solicita o hábito de Cristo que há muito lhe havia sido prometido. Nesse ano o rei já havia sido aclamado e reconhecido em Macau. 
Na peça a figura de um guerreiro antigo com um barrete emplumado simboliza o rei. Os elementos decorativos são de facto singulares, alguns diferentes do que Bocarro costuma usar, nomeadamente a em forma de pata de ave/galinha e as faces dos munhões ornamentadas. Não aparecem as habituais 'armas' de Macau já que foi uma peça feita a título pessoal pelo fundidor para oferta. Dá-se o caso de nem D. João IV ter recebido a peça, nem Bocarro ter recebido o hábito de Cristo...

A pólvora eram um bem escasso como se pode verificar neste ofício do rei dirigido aos Oficiais da Câmara da Cidade de Macau em 1709:
"(..) Eu o Rei vos envio muito saudar, mandando vir no meu Conselho Ultramarino, a representação, que me fizestes sobre vários particulares pertencentes à conservação, e aumento desses moradores, ensinando ser conveniente, o atalhar-se o gasto, que se faz de
pólvora nas Salvas das fortalezas, o que os Capitães gerais dessa Cidade senão intrometam no governo desse Senado. Me pareceu dizer-vos que ao Capitão geral se ordena, não consinta, que se gaste pólvora em salvas particulares, e desnecessárias, por ser assim obrigado, e lhe não ser prometido o contrário, sob
pena de a pagar de sua fazenda, e que se não intrometa no governo político, económico desse Senado, deixando-vos usar livremente da jurisdição que por direito vos compete."

Sugestão de leitura:

Revista ICOMAM nº 7, 2011 (Basiliscoe Press, Leeds), uma edição especial (imagem acima) dedicada ao sultanato de Oman, onde está o artigo "Portuguese legacy".