terça-feira, 7 de abril de 2026

Luís Gonzaga Gomes: cinquentenário da morte

Em Março último assinalou-se o cinquentenário da morte de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Nome incontornável da restrita galeria dos mais ilustres macaenses do século 20 foi escritor, sinólogo, tradutor, filólogo, historiador, musicólogo e professor.
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907, filho de Joaquim Francisco Xavier Gomes e de Maria de Conceição Gonzaga Gomes. A sua formação académica e intelectual foi moldada no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde teve como professores figuras influentes como o historiador José Maria Braga (Jack Braga) e o prestigiado Camilo Pessanha, que marcaram profundamente o seu interesse pela história e pela cultura oriental.
Após concluir os estudos, iniciou a sua vida profissional em 1928 como tradutor-intérprete oficial. A sua capacidade de ligação entre comunidades permitiu-lhe, entre 1932 e 1934, atuar como interlocutor em questões sensíveis da administração colonial. Em 1949, fundou o Círculo Cultural de Macau, tornando-se um pilar da dinamização artística do território.
Como docente no Liceu de Macau (onde antes fora aluno), foi mestre de várias gerações que viriam a destacar-se na vida pública e cultural de Macau, incluindo o advogado e historiador Jorge Cavaleiro e o intelectual Henrique de Senna Fernandes, que frequentemente o recordava como um mentor rigoroso e apaixonado pela alma macaense.
Entre 1951 e 1954, dirigiu a Biblioteca Pública e o Arquivo Histórico. Em 1960, assumiu a direção do Museu Luís de Camões, cargo que ocupou até à sua morte.
Morreu a 20 de Março de 1976, deixando um legado inigualável como o "intérprete" por excelência da história luso-chinesa.
Condecorações e distinções:
1958: Grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública (Portugal, 20 de janeiro).
1962: Cavaleiro da Ordem de São Silvestre Papa (Santa Sé, pela sua dedicação à comunidade católica e ensino).
1969: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique
Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.
Postumamente: Medalha de Valor de Macau, atribuída pelo Governo de Macau (Gov. Almeida e Costa) em reconhecimento ao seu serviço excecional.
Em 1977 o seu busto foi colocado numa sala do Museu Luís de Camões e em 1984, um outro busto foi colocado no Jardim de S. Francisco. Ambos da autoria do escultor italiano Oseo Leopoldo Acconci.
Dá ainda nome a uma rua e a uma escola em Macau.
Sendo um dos autores mais prolíficos do seu tempo publicou centenas de artigos na imprensa: Notícias de Macau, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Mosaico (revista do Círculo Cultural de Macau), etc...
Algumas das principais obras:
1941: Vocabulário Português-Cantonense
1942: Vocabulário Cantonense-Português
1942: Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo — Tradução para a língua cantonense da adaptação em prosa de João de Barros.
1945–1946: Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) — Tradução para português, a partir do cantonense, da obra dos mandarins Tcheng U Lám e Jan Kuong (séc. XVIII).
1950: Contos Chineses
1951: Lendas Chinesas de Macau (também referida apenas como Lendas de Macau)
1951: A Influência Portuguesa na Civilização Chinesa
1952: Chinesices
1952: Curiosidades de Macau Antiga
1953: Festividades Chinesas
1954: Arte Chinesa
1954: Efemérides da História de Macau
1957: Páginas de História de Macau (Primeiros volumes/ensaios)
1958: Noções elementares da língua chinesa
1959: Macau: Factos e Lendas
1959: A Mensagem de Fernando Pessoa — Tradução para a língua cantonense.
1964: O Estudo do Chinês em Macau
1966: Páginas de História de Macau (Edição consolidada)
1966: A Arte Musical em Macau
1967: Festas e Tradições Chinesas
1968: Notas sobre o Teatro Chinês
1969: As Religiões e os Cultos em Macau
1971: Bibliografia Macaense
1973: Demografia de Macau através dos Tempos
1973: Bibliografia Macaense (Edição/Actualização)
1975: Macau e a sua Gente

segunda-feira, 6 de abril de 2026

IX edição da Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses

Realiza-se entre 5 e 8 de Maio próximo, em Mafra e Lisboa, a IX edição da Conferência de Lisboa sobre Música e Instrumentos Musicais Chineses.
Organizada pelo Instituto de Etnomusicologia - Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a Conferência é coordenada pelo Dr. Énio José de Souza, e conta com o patrocínio principal da Fundação Jorge Álvares.
As Conferências reúnem académicos, músicos e entusiastas da música chinesa com o objetivo de fortalecer e priorizar as seculares relações culturais entre Portugal e a China/Ásia, com especial destaque para Macau como ponte histórica e cultural entre o ocidente e o oriente, explorando o rico património cultural e as tradições em constante mudança associadas aos instrumentos musicais chineses.
PS: Portugal tem um importante acervo de instrumentos musicais chineses em colecções públicas e privadas.
Sugestão de leitura:
Instrumentos Musicais Chineses, de Veiga Jardim.
Edição (filatélica) da Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações de Macau. 1998
Edição em português, inglês e chinês.

domingo, 5 de abril de 2026

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes"

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes, alem de hu grande numero de Christãos da terra, que davaõ larga matéria ao exercicio de nossos ministerios. Frequentavaõ os Sacramentos de oyto em oyto, ou quinze em quinze dias. Nos Domingos, e dias Santos acodiaõ à doutrina perto de mil escravos, cõ os quaes se fez muyto fruto."

Relato relativo a meados do século 16 (1562) incluído no 1º volume de "Oriente conquistado a Jesus Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Goa", obra "Ordenada pelo P. Francisco de Sousa* Religioso da mesma Companhia de Jesus. Lisboa: na Officina de Valentim da Costa Deslandes, Impressor de Sua Magestade, 1710."
* Jesuíta Francisco de Sousa (1649-1712).
Igreja Mater Dei/Ruínas de S. Paulo: o 'santuário dos jesuítas em Macau
(ainda não existia na época deste relato)
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

Em português actual:
"Haveria, neste tempo, na cidade de Macau, novecentos portugueses, além de um grande número de cristãos da terra, que davam ampla matéria ao exercício dos nossos ministérios. Frequentavam os sacramentos de oito em oito, ou de quinze em quinze dias. Aos domingos e dias santos, compareciam à doutrina cerca de mil escravos, com os quais se colheu muito fruto."

sábado, 4 de abril de 2026

"Terra das nhonhas e das delicias"

Em cima um postal ilustrado publicado em Hong Kong - Graça & Co. - no final do século 19/início do século 20 (os selos são já da República). Tem como legenda "Mulheres de Dó, Macao". Tudo indica que a fotografia foi tirada na Praia Grande.
"A sahida da missa" é a legenda da fotografia publicada na "Illustração Portugueza", edição semanal do jornal O Século (Portugal), a 4.12.1908.

Excerto do artigo:
"Após uma digressão pelas casas de jogo, d´amor, d´embriaguez, traz-se a impressão cançada do goso, mas olhando n´um dealbar verão a cidade onde as nhonhas de lindas pernas, com seus trajes de dó ou com seus vestidos leves, vão passar dentro em pouco, reparando n´esses bairros adormecidos, sob a luz doce do sol e comparando-a com essa China do luxo e da mizeria onde tantos milhões de homens luctam, sente-se bem que Macau foi feito para paraizo dos mandarins, dos ricos e dos piratas e logo nos vem á mente que com esse caminho de ferro de Cantão até ali, que já temos licença para fazer, a cidade seria definitivamente o logar de regalo de todo esse Extremo Oriente se dentro de gosos, que abafa ou se regela na sua atmosfera e que ali, em Macau, encontraria a sua estancia de prazeres, fazendo correr o ouro que seria applicado em torar mais deslumbrante a linda terra das nhonhas e das delicias.
A macaísta, que mettida nos seus trajos de dó tem alguma cousa das nossas antigas damas embiocadas, talvez então se desse mais à vida da rua, talvez mergulhasse n´esse banho de luxo e perdendo a característica do trajar iria docemente, sem dar por isso, deixando o recolhimento em que vive."
Desenho por IA a partir do postal referido

No contexto do crioulo-português de Macau, "nhonha" é usado para designar uma moça, garota ou mulher nova. As nhonhonas eram as mulheres/senhoras que vestiam o traje de "dó" em certas ocasiões, como a missa. As mulheres usavam uma saia comprida e um manto largo que cobria a cabeça e os ombros. Em situações de luto fechado, o manto era puxado para a frente para esconder parcialmente o rosto, como se vê nas figuras à esquerda.
Na livro "O Traje da Mulher Macaense Da Saraça ao Dó das Nhonhonha de Macau", de Ana Maria Amaro (Instituto Cultural de Macau, 1989):
"Nos primeiros tempos da ocupação de Macau pelos portugueses as mulheres asiáticas ou euro-asiáticas que os acompanhavam usavam um trajo original que se vulgarizou em todas as cidades do Oriente onde estes se fixaram. Este trajo nem era aquele que usavam as mulheres portuguesas da Europa nem o trajo próprio de nenhuma das etnias asiáticas. Como teria nascido este trajo que, no Oriente, era conhecido por saraça-baju ou pano-quimão?"

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos)

25 de Março de 1708
"N'este dia se fez a procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos) pelos ordinarios por ordem do senhor bispo, visto acharem-se os padres Agostinhos impedidos no seu convento por causa das controversias a respeito do patriarcha. Os irmãos que acompanhavam o Senhor iam com opa branca e murça rouxa. A procissão foi até S Domingos onde ficou o Senhor."
in "Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos", António Marques Pereira, 1868.
Procissão religiosa em Macau no século 20.
Foto de autor desconhecido


quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Macao Races": 1829

 The Canton Register, 2 de Maio de 1829:

Macao Races
In noticing the Races that have lately taken place, and are now in course, at Macao, which have afforded so much rational amusement, and been the source of great gratification to the surrounding society, we hail with pleasure the return of that manly diversion, which for a time had been neglected. And while it is conducted with the gentlemanly feeling, and universal harmony, which has been so peculiarly conspicuous in every instance of its present management, we hope it will have its annual return, and meet with the most cordial support.

Corridas de Macau
Ao notar as Corridas que ocorreram recentemente, e que estão agora em curso em Macau, as quais têm proporcionado tanto entretenimento racional e sido fonte de grande satisfação para a sociedade local, saudamos com prazer o regresso desta diversão viril, que por algum tempo havia sido negligenciada. E, enquanto for conduzida com o espírito de cavalheirismo e a harmonia universal que têm sido tão peculiarmente visíveis em cada exemplo da sua atual gestão, esperamos que tenha o seu retorno anual e encontre o mais cordial apoio.

As "corridas" a que se refere a notícia eram corridas de cavalos, uma actividade que os ingleses e outros comerciantes estrangeiros desenvolviam em Macau quando não podiam estar em Cantão nos negócios. Documentos da época indicam que estas provas tinham lugar ao longo da praia da Areia Preta, muito perto da Porta do Cerco (ainda na versão chinesa). Por volta de 1840 alguns mapas referem um "Race Course" - City and Harbour of Macao. By W. Bramston. J. Wyld, London. Lithographed, 1840 - nas então várzeas junto à aldeia de Mong Ha.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Até parece mentira

Em 1933 o Ministério das Colónias (Portugal) publica o Decreto n.º 27:195 "determinando que no frontispício dos Boletins Oficiais de todas as colónias e respectivos suplementos, seja impresso, entre a palavra «Boletim» e a palavra «Oficial» o escudo nacional, que não poderá ser substituído pelo brasão da colónia ou quaisquer outros emblemas."

Esse mesmo decreto seria publicado no Boletim Oficial da Colónia de Macau nº 52 (Dezembro de 1933) mas curiosamente não é seguida a determinação, aparecendo o brasão da Colónia de Macau. Seria publicado um novo boletim de forma a corrigir o erro... 

terça-feira, 31 de março de 2026

Hotel Bela Vista 全澳最高尚最幽靜之居停

Anúncio em língua chinesa da década 1960 do Hotel Bela Vista. O texto utiliza o estilo de escrita tradicional chinesa, comum na época, recorrendo a expressões poéticas para descrever a localização e o luxo do estabelecimento. Localizado na Rua Comendador Kou Ho Neng, no início da década 1960 o Hotel Bela Vista tinha 26 quartos: "Singelos, com casa de banho, $20,00; Dobrados, com casa de banho, $30.00, $35.00 e $60.00, todos com ar condicionado."

HOTEL BELA VISTA
全澳最高尚最幽靜之居停
峯 • 景 • 大 • 酒 • 店
華麗名貴 雅潔舒適
背山面水 風景幽美
• 澳門有限公司經營 •
電話:三八二一 • 三八六五
澳門西灣竹仔室

Tradução/Adaptação

HOTEL BELA VISTA
A localização mais nobre e tranquila de Macau
Hotel Bela Vista (Literalmente: Grande Hotel da Vista do Pico)
Luxuoso e distinto — Elegante, limpo e confortável
Ancorado na montanha e voltado para o mar — Paisagem de beleza serena
• Gerido por "A Macau Limitada" (sociedade por quotas)•
Telefone: 3821 • 3865
Baía do Bom Parto (Praia Grande), Macau

segunda-feira, 30 de março de 2026

Antes e agora: antiga Escola da República nº 3 na Taipa

 100 anos separam estas imagens 

Nota: as primeiras escolas públicas nas ilhas da Taipa e de Coloane remontam a 1882

domingo, 29 de março de 2026

Duas versões do casino Macau Palace - 海門皇宮

O postal ilustrado é do início da década 1970 - nº104 - e mostra o casino flutuante Macau Palace na baía da Praia Grande com o Hotel Lisboa (inaugurado em Fevereiro de 1970) ao fundo. O casino foi inaugurado a 26 de Maio de 1962. O que está na imagem - a ser conduzido ao local de atracagem no Porto Interior - corresponde a uma nova versão. A primeira versão é a que se pode ver abaixo. Muitas diferenças... Por exemplo a nova versão tem mais um piso! Foi 'cenário' de vários filmes na década 1970. Em breve falarei de alguns...
Primeira versão do "Macau Palace"

Voltando ao postal... Nos caracteres chineses 海門皇宮. Ou seja, Palácio Macau. A estrutura no topo parece ainda não ter as luzes em neon que o identificavam (ver outro postal abaixo).

No verso do postal a legenda em três línguas:

Português:
"O novo 'Macau Palace', casino-restaurante flutuante de três pisos, com a sua exótica decoração oriental tornou-se uma das maiores atracções turísticas de Macau."

Chinês (Tradicional):
澳門海上皇宮娛樂場世界新紀元全部宮殿裝飾 內備:活動劇場、粵菜酒家、西餐廳、電動梯、酒吧。
(Tradução: Casino Palácio Flutuante de Macau, decoração palaciana de uma nova era. Inclui: teatro móvel, restaurante cantonês, restaurante ocidental, escadas rolantes e bar.)

Japonês:
マカオパレス外観娯場とに世界的な中国宮殿式設計に建築、内部では劇場、粤菜酒家、西洋餐能バー、エスカレーター等完備。
(Tradução: O exterior do Macau Palace foi construído com um design de palácio chinês de classe mundial; o interior está totalmente equipado com teatro, restaurante cantonense, bar de comida ocidental, escadas rolantes, etc.)

Inglês:
"The new Macau Palace, a floating three-deck casino-restaurant, with its exotic Oriental decoration, has become one of the biggest tourist attraction in Macau."

sábado, 28 de março de 2026

Panchões da "Yick Loong" no centenário da empresa

Chinês (da direita para a esquerda): 益隆炮竹廠 (Yì Lóng Pào Zhú Chǎng)


 Yick Loong, Iec Long e Yick Lung são alguns dos nomes para a mesma fábrica de panchões.
Tinha fábrica na Taipa e em Macau, na Estrada da Areia Preta. A sede ficava em Macau na rua Miguel Aires. Tinha ainda uma sucursal em Hong Kong.
Iec Long (益隆): Significa "Prosperidade Benéfica".
A Iec Long foi a maior e mais emblemática fábrica de panchões de Macau, operando entre os anos 20 e os anos 80 do século 10 na Vila da Taipa, época em que esta foi uma das principais indústrias do território.
Duas versões da mesma marca
Nestas duas etiquetas destaque para o facto de estarem escritas maioritariamente em português.
Fundada em 1925/25 fábrica funcionou até 1984.
O espaço na Taipa tem vindo a ser recuperado.
PS: existem inúmeras publicações sobre este tema pelo que sugiro a utilização do campo de pesquisa.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Troço da Rua de Camilo Pessanha: década 1950

Os caracteres no topo do edifício à esquerda, lidos da direita para a esquerda - como era tradicional na época - são: 德成大按 (Tak Seng Tai On). Ou seja, a Casa de Penhores Tak Seng On (Virtude e Sucesso). Fundada em 1917, foi uma das maiores e mais ricas casas de penhores da cidade. O edifício não era apenas uma loja, mas uma verdadeira "fortaleza" de armazenamento. A estrutura alta e robusta (estilo torre) servia para proteger os bens empenhados contra roubos e inundações. As paredes eram extremamente grossas e as janelas pequenas por razões de segurança. Actualmente é um museu.
Na rua com calçada/paralelepípedos, em primeiro plano, um carteiro quase passa despercebido na rua bastante movimentada e densamente comercial. Nos neons das lojas destaca-se a "On Kei Hong - Tintas e Vernizes" e "Va-Cheong Fornecedor".
Nota: Ao contrário do que é habitual, Camilo Pessanha teve o seu nome numa rua pouco tempos depois de morrer em 1926. Para o efeito deixou de existir o topónimo Rua do Mastro.
A Rua de Camilo Pessanha começa na Rua das Estalagens e termina na Avenida de Almeida Ribeiro. É nesta última que está uma das fachadas da Torre/Casa de Penhores aqui referida.

quinta-feira, 26 de março de 2026

"Caza da Pólvra"

Por estes dias, pelas piores razões, ouve-se falar com insistência de Estreito de Ormuz e Omã. Por causa disso, lembrei-me que no Museu Nacional de Omã, Palácio do Fort Muscat, Mascate, entre as várias peças expostas, está um canhão português que data do século XVII e que foi fabricado em Macau.
A peça em questão foi classificada como um falconete – um tipo de peça de artilharia muito eficaz contra a infantaria – e foi fabricado em 1643 por Manuel Tavares Bocarro, um dos mais famosos fabricantes de armas daquela época que tinha em Macau uma fundição de artilharia e um paiol de pólvora. Na arma estão inscritas as palavras "Viva el rei do Joao IV", e "Macao En Caza da Polvra 1643".
Macau era há muito o grande centro de fabrico destas peças essenciais para a manutenção da presença portuguesa na vasta região oriental. Em Fevereiro de 1629 o rei de Portugal envia uma carta ao vice-rei da Índia onde reitera a necessidade da ida de oficiais da guarnição de Macau para Goa a fim de ensinar a fundir artilharia de "ferro coado".

Manuel Tavares Bocarro (Goa, c. 1605-Macau, 1652), neto de Francisco Dias e filho de Pedro Dias Bocarro, mestre das Fundições de Goa, chegou a Macau em 1625, tendo sido o mais célebre fundidor do Oriente até 1652. Nessa qualidade fundiiu inúmeras bocas-de-fogo, sinos e estátuas (as das ruínas de S. Paulo, por exemplo). 
Quando estava em Goa o cronista António Bocarro (1594-1652) escreve a propósito de Macau em 1635 que "este lugar possui uma das melhores fundições de canhões no mundo, quer de bronze, que já tem ha muito ou de ferro, que foi feita por ordem do Vice-rei, Conde de Linhares (D. Miguel de Noronha, 4º conde 23º vice-rei, 1585-1647), e onde é fundida continuamente artilharia para todo o seu Estado (da India), a preço muito razoável". 
Duas das bocas-de-fogo feitas por Bocarro estão na Torre de Londres, outras duas, provenientes do galeão Santíssimo Sacramento (naufrágio de 1647) e do Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro,  estão na África do Sul, onde foram declaradas património nacional em 1986.
Mas há mais...
Uma outra peça de fogo, denominada "Merian Si Jagur" (Senhor da Fertilidade), é actualmente património nacional da Indonésia e pode ser vista no Museu Nacional de Djakarta. Resulta da conquista Malaca pelos holandeses em 1641. 


Mas voltemos à peça do museu de Omã...
Está decorada com quatro anéis com folhas de acantos e as 'asas' são na forma de leões.  A inscrição "MACAO / EN CAZA / DA POLVRA / 1643" está numa esfera que simboliza o mundo encimada por uma figura humana. Por cima tem a legenda: "VIVA ELREI DÕ IOÃO / 4º". 
A peça de 1643 foi fundida na “Caza da Polvra” (Pólvora) e sendo feia em bronze tem a tonalidade do ouro.
Data também de 1643 a única carta que se conhece escrita por Manuel Tavares Bocarro dirigida ao rei D. João IV. Na missiva - que terá ido juntamente com a peça oferecida ao rei -solicita o hábito de Cristo que há muito lhe havia sido prometido. Nesse ano o rei já havia sido aclamado e reconhecido em Macau. 
Na peça a figura de um guerreiro antigo com um barrete emplumado simboliza o rei. Os elementos decorativos são de facto singulares, alguns diferentes do que Bocarro costuma usar, nomeadamente a em forma de pata de ave/galinha e as faces dos munhões ornamentadas. Não aparecem as habituais 'armas' de Macau já que foi uma peça feita a título pessoal pelo fundidor para oferta. Dá-se o caso de nem D. João IV ter recebido a peça, nem Bocarro ter recebido o hábito de Cristo...

A pólvora eram um bem escasso como se pode verificar neste ofício do rei dirigido aos Oficiais da Câmara da Cidade de Macau em 1709:
"(..) Eu o Rei vos envio muito saudar, mandando vir no meu Conselho Ultramarino, a representação, que me fizestes sobre vários particulares pertencentes à conservação, e aumento desses moradores, ensinando ser conveniente, o atalhar-se o gasto, que se faz de
pólvora nas Salvas das fortalezas, o que os Capitães gerais dessa Cidade senão intrometam no governo desse Senado. Me pareceu dizer-vos que ao Capitão geral se ordena, não consinta, que se gaste pólvora em salvas particulares, e desnecessárias, por ser assim obrigado, e lhe não ser prometido o contrário, sob
pena de a pagar de sua fazenda, e que se não intrometa no governo político, económico desse Senado, deixando-vos usar livremente da jurisdição que por direito vos compete."

Sugestão de leitura:

Revista ICOMAM nº 7, 2011 (Basiliscoe Press, Leeds), uma edição especial (imagem acima) dedicada ao sultanato de Oman, onde está o artigo "Portuguese legacy".

quarta-feira, 25 de março de 2026

Primeiro aniversário do mandato do Governador Pedro Correia de Barros

No Boletim Geral do Ultramar, edição XXXIV (Março de 1958), é publicado um artigo sobre a celebração do primeiro aniversário do mandato do Governador Pedro Correia de Barros (sábado, 8 de Março de 1958). Foi governador de 8 de Março de 1957 a 17 de Setembro de 1959.
Correia de Barros em Março de 1957

1. Homenagem e Alianças Políticas
Recepção no Palácio: Antes do banquete principal, diversas figuras de relevo dirigiram-se ao Palácio da Praia Grande para felicitar o Governador, incluindo o Bispo de Macau, D. Policarpo da Costa Vaz, e o Diretor da Fazenda, Manuel Peixoto Nunes.
Representação Chinesa: A elite chinesa foi representada por Hó Yin, que falou em nome da Associação Comercial e do Hospital Kiang Wu, destacando o apoio governamental ao comércio e à beneficência.
Banquete de Gala: Cerca de quinhentos convidados participaram num banquete oferecido pela Comunidade Chinesa, reforçando os laços diplomáticos e sociais.
2. Fomento Económico e Industrial
Desenvolvimento: O Governador destacou o novo ritmo das obras de fomento e a segurança do Plano de Fomento, financiado pela "Metrópole" (Portugal Continental).
Industrialização: Um grupo de industriais chineses agradeceu publicamente as facilidades concedidas para a instalação de novos estabelecimentos fabris na província.
Medidas Fiscais: Hó Yin elogiou a redução e supressão de taxas, bem como a simplificação do licenciamento de importação e exportação para dinamizar a economia.
3. Filantropia e Cooperação
Donativo à Assistência: Como gesto de agradecimento, a comunidade chinesa ofereceu um donativo de 20 mil patacas à Comissão Central de Assistência Pública para fins de caridade.
Solidariedade Ultramarina: O Governador mencionou que Macau recebia ajuda inestimável de outras províncias do ultramar português através de isenções aduaneiras para os seus produtos.
4. Contexto de Estabilidade
Experiência de Guerra: Correia de Barros recordou a sua passagem anterior por Macau durante a Segunda Guerra Mundial, o que lhe conferia um conhecimento profundo das virtudes e necessidades da comunidade local.
Clima Social: O tom geral dos documentos de 1958 é de otimismo e "desejo de progresso",

Artigo do B. G. U.:
Informa a agência ANI que a imprensa local, tanto portuguesa como chinesa, se referiu com relevo ao primeiro aniversário da posse do senhor comandante Pedro Correia de Barros no cargo de governador de Macau.
Os jornais chineses publicaram um número especial, profusamente ilustrado, incluindo saudações de entidades da província e uma resenha dos actos governativos e dos principais acontecimentos da província no ano que passou.
Esse número especial foi distribuído aos convivas que tomaram parte no banquete que a Comunidade Chinesa de Macau ofereceu ao comandante Correia de Barros.
Foram promotores do banquete as direcções da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Sin Tong e os senhores Hó Yin, Fu Tak Iam, Y. C. Liang e Kou Fok Meng.
O banquete reuniu cerca de quinhentos convivas, entre os quais as individualidades de maior relevo na vida da província. Foram servidos numerosos pratos da cozinha chinesa e, no final, segundo a etiqueta chinesa, o governador, acompanhado pelos anfitriões, percorreu, uma a uma, todas as mesas, bebendo à saúde dos convivas.
Aos brindes, o Sr. Hó Yin, presidente da Associação Comercial e da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, proferiu um discurso, declarando:
«É com grande alegria que vimos celebrar o primeiro aniversário do hábil governo de V. Ex.ª, porque sabemos quanto se tem esforçado e trabalhado pelo progresso e desenvolvimento do comércio e indústria de Macau, perante as medidas legislativas e fiscais tão inteligente e prudentemente determinadas por V. Ex.ª, no sentido de facilitar o intercâmbio comercial entre este território e territórios tanto nacionais como estrangeiros, introduzindo modificações no sistema de licenciamento de artigos de importação e exportação, reduzindo e suprimindo taxas e, enfim, promovendo o desenvolvimento do turismo, com o alto objectivo de consolidar a situação financeira de Macau e melhorar as suas condições económicas.
Esperamos, confiadamente, que da actuação precisa de V. Ex.ª, nos diferentes sectores da administração pública, advirão os mais lisongeiros resultados, pois a notável experiência e o conhecimento directo que V. Ex.ª possui desta terra nos oferecem a mais preciosa garantia do bom êxito dos seus esforços nos campos político, económico e comercial.
E, assim, sabendo e reconhecendo os trabalhos e sacrifícios que V. Ex.ª tem feito desde a sua chegada a Macau, no exercício das suas altas funções, nós queremos neste lugar render a V. Ex.ª as nossas homenagens de admiração e deixar nas suas mãos o nosso tributo de apreço e gratidão.
E marcando a passagem desta data auspiciosa, oferecemos um donativo de 20 mil patacas à Comissão Central de Assistência Pública, para fins de beneficência e caridade, fazendo-se a distribuição do mesmo donativo pela forma que V. Ex.ª, seguindo o seu sentimento humanitário, se dignará determinar.
Bebemos pelas prosperidades do governo de V. Ex.ª e pelas felicidades pessoais de V. Ex.ª e de sua Ex.ma esposa».
Seguidamente, o presidente da Comissão Central de Assistência Pública, administrador Alberto Eduardo da Silva, recebeu das mãos do governador o sobrescrito com o donativo da comunidade chinesa de Macau.
Agradecendo, o senhor governador Correia de Barros proferiu o seguinte discurso:
«Tiveram V. Ex.as a gentileza de nos convidarem, a minha mulher e a mim, nesta data em que completo um ano de permanência na província. Muito vos agradeço e sensibiliza-me a ideia que tiveram em convidar, também, número grande dos colaboradores mais directos do Governo e da Administração.
Muito agradeço as palavras que V. Ex.ª, senhor presidente da Associação Comercial, acabou de me dirigir e é com prazer que às mesmas respondo.
O que se conseguiu neste ano de trabalho pouco será, em face de tantos problemas agudos que gostaríamos de resolver. Verifico, porém, existirem condições que lentamente poderão trazer a Macau melhores dias.
Iniciado o ano de 1957 com a visita de Sua Excelência o subsecretário de Estado do Ultramar, a série de obras de fomento atingiu novo ritmo.
A sua continuação, na segunda fase do Plano de Fomento, pode-se considerar assegurada.
É um investimento notável, feito com dinheiros da Metrópole, o que não pode deixar de influenciar a vida futura de Macau.
Ao longo deste ano, todo o ultramar português nos ajudou, recebendo alguns dos nossos produtos com isenção de direitos aduaneiros. Esta ajuda tem sido e será para nós inestimável.
Na província tenho usufruído da ajuda franca de muitos que com sacrifício dos seus afazeres me têm dado horas de trabalho dedicado.
Dentro da administração e fora dela, nunca bati a uma porta que se me não abrisse. Sem tal ajuda teria sido impossível adiantar a resolução de tão grande número de problemas.
Embora devedor de todos, estando nesta sala como convidado da Comunidade Chinesa, seja-me relevado mencionar especialmente esta. Trabalhadora activa de séculos, com virtudes de inteligência e bom senso, tem-me dado permanentemente compreensão para o dia a dia do meu governo.
Reconhecia-lhe as qualidades e virtudes quando, durante a guerra, trabalhei em Macau. Hoje, agradeço-lhe a contribuição que nos dispensa para o progresso geral desta cidade.
Sem desejo de progredir, nenhuma orientação no sentido de progresso pode trazer resultados sensíveis. Na província de Macau noto, em todos e bem nítido, esse desejo de progresso.
Termino as minhas palavras pedindo a todos os convidados que me acompanhem num brinde pela saúde de V. Ex.ª e pelas prosperidades da Comunidade Chinesa».
As palavras do Sr. Hó Yin foram traduzidas para português pelo Sr. João José Lopes, chefe da Secção Especial do Expediente Sínico, dos Serviços de Administração-Geral.
Os dois oradores foram alvo de demoradas salvas de palmas de todos os convivas.
Antes do banquete dirigiram-se ao Palácio da Praia Grande numerosas entidades, entre as quais o bispo de Macau, D. Policarpo da Costa Vaz, que, em nome das Missões Católicas, felicitou o comandante Correia de Barros, agradecendo-lhe o valioso apoio e auxílio dispensados às suas actividades; o Conselho do Governo, cujo vice-presidente, Manuel Peixoto Nunes, director da Fazenda, interpretou os sentimentos do Conselho e dos organismos e instituições nele representados; os chefes de Serviços, em nome dos quais usou da palavra o director dos C. T. T., António de Magalhães Coutinho; as direcções da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Sin Tong, em nome das quais falou o Sr. Hó Yin, presidente das duas primeiras, felicitando o governador e agradecendo-lhes o impulso dado às actividades comerciais e beneficentes; e um grupo de industriais chineses, que quiseram também associar-me à homenagem, agradecendo ao senhor governador as facilidades concedidas para a instalação de estabelecimentos fabris na província.

terça-feira, 24 de março de 2026

Em busca de Pessanha: roteiro evocativo

Na edição nº 109 da Revista Macau (Março de 2026) assino o artigo "Em Busca de Pessanha" com um "roteiro evocativo" dos lugares alusivos ao jurista e poeta a propósito da celebração do centenário da sua morte.
Aceda à versão integral da revista aqui
Nota: nesta edição da Revista Macau assino ainda a autoria do artigo sobre o centenário da inauguração do edifício-sede do BNU em Macau.

segunda-feira, 23 de março de 2026

"We Sell Kodak Film"

Esta imagem é um 'recorte' de uma fotografia que mostra o Templo de A-Ma na década 1960. Mostra uma banca de rua com publicidade à Kodak (em amarelo e vermelho) e aos cigarros Kent. Dois dos muitos produtos à venda que por certo agradariam aos turistas. Nesses tempos a Kodak fornecia rolos para fotografias e para slides (como o mostrado abaixo).
Junto à escadaria de entrada no templo, uma turista e um riquexó com a sua capota verde distintiva e estrutura metálica. 
Slide década 1970

domingo, 22 de março de 2026

Memórias do Liceu e do Complexo Escolar pelo Professor José Cordeiro

A propósito dos 40 anos passados sobre a inauguração do Complexo Escolar de Macau pedi ao professor José Cordeiro um testemunho desses tempos. Aqui fica o meu agradecimento pela sua disponibilidade. Agora, tal como então, sempre com uma enorme generosidade na sempre difícil missão de educar. Fui um dos muitos que tive o privilégio de aprender. Sobre a escola e também sobre a vida. Desses tempos ficaram para sempre impregnados valores como o respeito, a liberdade, a solidariedade, a responsabilidade, a partilha, etc...
Se a memória não me falha

"Estava eu posto em descanso quando o João  Botas me veio picar a memória acerca da passagem recente, em 6 Janeiro de 1986, do 40º aniversário da inauguração e funcionamento do Complexo Escolar de Macau, da Direcção de Serviços de Educação, Juventude e Desporto do governo de Macau, logo no reatamento do 2º período, para falar das minhas memórias daquele tempo. Ainda me dispus por a memória à disposição dele, dar-lhe umas dicas, mas ele, fino, preferiu a papa feita. Como nunca me decepcionou no seu tempo de estudante, nunca deixando que algo acontecesse por falta de voluntário, não vou deixá-lo pendurado no seu nobre  propósito. Quando mais ninguém queria, o João era “o homem para levar a carta a Garcia”. 
Estou-lhe grato pela sua disponibilidade.
Já lá vai muito tempo, que sensibilizado por uma dança do Dragão ou do Leão que vi nos documentários “ Mundo português”, que passavam nas sessões de cinema antes de passar o filme em exibição, disse para os meus botões que um dia gostaria de ver aquilo ao vivo.
Em janeiro de ´81, depois de um processo bem sucedido de candidatura, estreei-me no vetusto Liceu Nacional do Infante D. Henrique, como era então de lei chamar-se quando havia só uma escola liceal  da rede pública de ensino por distrito.
E quem se moveu por danças de leões e de dragões com a cabeça cheia de fantasias não podia ter sido melhor ocasião que a quadra festiva do Ano Novo Lunar e o Liceu se situava naquele enclave da cidade, em frente à Baía da Praia Grande, onde acontecia a chinfrineira do rebentamento dos panchões, enquanto na Baia ainda deslizavam os graciosos juncos a navegarem rumo ao Porto Interior. 
Ali trabalhei até à inauguração do dito Complexo escolar de Macau que passou a integrar a Escola Preparatória Dr José Gomes da Silva, a Escola Luso-Chinesa Luis Gonzaga Gomes e a Escola Secundária do Infante D. Henrique, também com cursos nocturnos.   
Se, olhando para um mapa antigo de Macau, o LNIDH, ficava isolado numa ponta da Península, num exclave quase no meio de nada, mas desde então já completamente integrado no coração da cidade com o Hotel Sintra, numa das pontas, agora a olhar não sei para quê, na outra ponta, diametralmente oposta, sob austera supervisão da estatua equestre do austero Governador Ferreira do Amaral montado num cavalo com as patas dianteiras bem empinadas - símbolo de morte heróica do cavaleiro - implantado em altaneiro pedestal no meio da praça com o mesmo nome e mais, do outro lado, o  Hotel Lisboa, mesmo ali ao pé de se poder entrar, a  primeira sensação que se tinha, quando se começou a falar da implantação do projectado complexo escolar foi idêntica: mas aquilo fica tão fora de mão; aquilo é um deserto; então, e os transportes e a segurança das crianças e mais isto e mais aquilo e aquele outro como se todas as novidades exigissem visto prévio de um julgamento pessoal, antes de virem a ser aprovadas oficialmente. A oriente nada de novo para o habitual pessimismo ou a prudência do Velho do Restelo, do Rio Das Pérolas daquela Velha praça portuguesa da “Cidade do Santo Nome de Deus, não há outra mais leal”. Rapidamente o exclave projectado para a construção era agora um enclave rodeado de cidade vibrante por todo lado.
Para trás ficariam as odiadas batas de cor amarelo vaticano, que só ao gineceu obrigava  e as usava como retaliação até às linhas vermelhas da provocação, e algumas eram bem frescas e arejadas, para desespero da D. Cristina que no seu posto avançado ia zelando pela moral e dos bons costumes da escola, instalado no grande hall de entrada do velhinho, mas bem conservado, Liceu.
Num terreno de hortas, ladeado pelo circuito citadino do Grande Prémio de Macau logo se imaginavam cobras e lagartos numa terra onde leões e dragões à solta eram, e ainda são, sinónimo de festa rija, projectava-se a construção de uma nova escola. Naquele, então, deserto da cidade, imagine-se!
Curiosamente, aquilo começou tão auspiciosamente que, na cerimónia da cravação da 1ª estaca, com pompa e circunstância e fanfarra da Policia, quando o martelo pneumático se preparava para dar a primeira martelada, não é que, segundo constou, a estaca se enfiou do terreno adentro, mole que nem  faca em manteiga? Se o resto for assim tão fácil teremos obra, logo falou a vox populi de uma terra onde os sinais são mensageiros…Disto, confesso que não fui testemunha ocular, mas é património que se me cravou à minha revelia na memória de tanto ter ouvido da boca de tanta gente ter dito que viu.
Bom, o terreno consolidou, muitas estacas ou pilares, se preferirem, foram cravadas à custa de tanta martelada, a obra começou, concluiu-se, foi tomada de assalto e ocupada entre o Natal/ 85 e os Reis/ 86. Depois, com pequenos ajustes, próprios de casa nova, lá o barco largou as amarras e zarpou à procura de fazer a sua própria História. Cedo lhe deram outras funções e a história do CEM - Complexo Escolar de Macau - foi o que cada um levou consigo no pouco tempo em que foi um estabelecimento de ensino. Para alguns, na flor da idade, foi muito tempo em idade de gente sempre apressada.
Durante as ditas férias de Natal procedeu-se á mudança do que era património administrativo, porque todo o resto lá estava instalado. Laboratórios, oficinas, piscina aquecida, um ginásio e um pavilhão desportivo com vários campos exteriores, balneários amplos e um edifício administrativo - a torre de comando operacional - com sala de professores e de trabalho, que albergava os serviços administrativos e os de direcção e de gestão escolar.
Mas nem tudo o que é novo é bom ou, pelo menos, sabe bem para toda a gente. E, se tinha sido abolido o uso das malfadadas batas para as meninas, agora o mal havia-se generalizado: toda a cambada teve que se apresentar na parada da cerimónia de abertura  da nova escola publica trajada a preceito com calça azul ferrete vincada e camisa xadrez de vermelho pálido, que mais parecia as toalhas de mesa do Restaurante Fernando, e um pulôver a condizer com as calças, para os mais friorentos.  O uniforme foi decaindo de uso apagando suavemente, como quem não quer dar por isso, o premonitório sinal do fim do dito Império Português do Oriente, se considerarmos que as escolas do Velho Liceu eram as únicas que não usavam uniforme no universo das escolas do Território. Com a farda tudo se igualava na tradição local e no respeito pela diferença dos uniformes!
Entretanto, e só por curiosidade, em 1987, como reforço da ideia de premonição, Anibal Cavaco Silva, então 1º ministro, no seu périplo pelo Oriente visitava Pequim, no que foi o formal pontapé de saída no jogo da reintegração de Macau na Mãe Pátria Chinesa. Há quem diga que foi o inicio do “Acordo de Desconsentimento” - há quem prefira “O Desacordo de Consentimento” -  de um longo e histórico comodato, até que a mutua conveniência tácita desde a instalação ditasse em concreto a separação amigável. Por curiosidade,  recordo-me de alunos da Escola Secundária do Infante D. Henrique, em viagem de finalistas pela Tailândia, se terem cruzado em trânsito, em Banguecoque, com a comitiva de Cavaco Silva, a caminho  da Embaixada Portuguesa, vizinha do Rio Chao Phraya e do icónico Wat Arun.
Entretanto, a inevitável D. Cristina, novamente instalada no seu posto de operações no grande hall da cantina escolar, muito senhora da sua função, que, como sempre, tanto zaragateava com os alunos, como era a sua  primeira e mais acérrima defensora, quando lhe cheirava a procedimentos disciplinares. Não havia testemunha mais abonatória do que ela, que, qual mãe severa para prevenir, os chamava à razão, mas era uma autêntica mãe galinha a defender os seus pintos quando os sentia ameaçados. Nem eles suspeitavam.
E pronto, João, não sei se era bem isto que querias, mas como deves entender, andamos todos na mesma escola, mas não podemos ter todos as mesmas memórias, não é?
Um pouco como as daquela  instituição, a um tempo cosmopolita e ecuménica de tanta desvairada e santa gente que a ela recorria -  e a mais inocente era matar a sede insaciável - , no fim da avenida do velho Liceu que dava pelo nome de “ A esplanada”, que era  a “Las Vegas” da Avenida da Amizade, onde o que acontecia lá devia ficar. 
Lá no começo da avenida, fronteiriço ao tribunal, Jorge Alvares nos contemplava, sem nada dizer.
 Ah, se as estátuas falassem… 
Grande abraço  para todos, com saudades.
Cascais, 11.03.2026
José António Cordeiro
Liceu, hotel Lisboa e a 'esplanada' à direita

Liceu na Praia Grande visto do Hotel Lisboa
 
Início das obras do Complexo Escolar
Inauguração do Complexo Escolar
* Inauguração a 4.1.1986 (sábado); as aulas começaram a 6.1.1986 (segunda-feira)
** As obras começaram a 2 de Setembro de 1982.