terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Istmo Taipa-Coloane: 1964 a 1968

As obras do istmo de 2200 metros de comprimento e 7 metros de largura que ligou as ilhas da Taipa e Coloane - onde fica actualmente a zona denominada Cotai - começaram a 1 de Junho de 1964. Ao fim de quatro anos - e de serem conquistados ao mar cerca de 400 hectares de terras - a empreitada ficou concluída. A inauguração oficial esteve marcada para 28 de Maio de 1968 (uma data simbólica para o Estado Novo) mas o artigo abaixo refere 2 de Junho.
Artigo publicado no Boletim Geral do Ultramar ( XLIV- 516) de Junho de 1968:
O governador de Macau, brigadeiro Nobre de Carvalho, procedeu, em 2 de Junho, no meio do maior entusiasmo das populações locais, à inauguração da estrada de ligação entre as ilhas de Taipa e Coloane, empreendimento de grande envergadura e da máxima projecção no futuro económico dos dois territórios. A estrada, com um comprimento de 2225 metros, assenta numa estrutura trapezoidal, com uma base inferior de 37 metros e base superior de 10,06 metros, e com a altura de 7 metros. 
A obra importou em 22 150 contos*. Assistiram à cerimónia personalidades do maior relevo na vida oficial e particular da Província, portuguesas e chinesas, registando-se, também, a presença de muito público. Num gesto pleno de simbolismo, o casal mais idoso do concelho das Ilhas, depois da inauguração oficial, deu os primeiros passos na nova estrada, no meio dos maiores aplausos da assistência. As populações das duas ilhas ficam, assim, mais estreitamente irmanadas, podendo ajudar-se, mutuamente, no desenvolvimento dos seus recursos naturais que oferecem incontestável abundância, sendo a primeira vantagem desta ligação a possibilidade de Coloane fornecer água potável à Taipa, onde ela escasseia. 
Falou o director das Obras Públicas, Eng.º Tomás Siu, e depois o brigadeiro Nobre de Carvalho que proferiu um discurso em que começou por prestar homenagem aos governadores seus antecessores que, de qualquer maneira, intervieram no empreendimento, agora tornado realidade. Mais adiante, o orador acentuou que este melhoramento estava perfeitamente dentro da política da Revolução Nacional, a propósito do que lembrou o nome do prestigioso estadista, Professor Doutor Oliveira Salazar, que vem presidindo com tanta dignidade e patriotismo aos destinos da Nação portuguesa. O governador de Macau rendeu, igualmente, homenagem ao Presidente da República a quem a Nação deve tantos e assinalados serviços. Por fim, o orador acentuou que o Ministro do Ultramar muito se tem preocupado com os complexos problemas da Província, dando o maior apoio às iniciativas do Governo de Macau. As cerimónias tiveram a presença de representantes de todos os órgãos da Informação pública locais, incluindo a Rádio, uma equipa da televisão de Hong-Kong e representantes da Imprensa estrangeira.
* cerca de 4 milhões de patacas.

Do Desenho à Litografia: O Processo e os Intervenientes

Esta "Vue génerale de Macao" foi publicada na edição de 6 de Fevereiro de 1858 da publicação francesa "L'Illustration - Journal Universel". Tem como legenda "Vue génerale de Macao d'aprés un déssin envoyé par M. E. Roux"
Seria depois publicada em outros jornais um pouco por todo o mundo e com ligeiras diferenças. E isto porque no século 19 o processo de composição para impressão assumia-se como uma reinterpretação artística do desenhador original. Em alguns casos a 'gravura' também podia ser colorida. Como se pode verificar neste exemplo, parecem iguais mas não são...

Do Desenho à Estampa: O Processo e os Intervenientes

1. O Desenhador (O Autor)
Profissional: Artista ou Desenhador 
Função: É quem faz o levantamento visual no local. Produz o original em papel (lápis ou aguarela). 

2. O Gravador (O Artífice Polivalente)
Técnico especializado que traduz o desenho para uma matriz que pode ser de diferentes suportes:
Sobre Madeira (Xilogravura): Se a imagem fosse para um jornal (como o Arquivo Pitoresco em Portugal), o gravador esculpia um bloco de madeira. Ele criava as hachuras em relevo para que pudessem ser impressas juntamente com o texto metálico.
Sobre Pedra (Litografia): Se o objetivo fosse uma estampa de maior qualidade, o gravador (aqui chamado de litógrafo) desenhava sobre uma pedra calcária com materiais gordurosos. É um processo químico, mas a mão que define o traço é a do gravador.
Sobre Metal (Calcografia): Para edições de luxo, o gravador utilizava o buril ou ácidos para abrir sulcos em chapas de cobre ou aço.

Nota: O gravador era tão importante que, muitas vezes, o seu nome aparece gravado na base da imagem (ex: "Gravado por..."), pois era ele quem decidia como interpretar as sombras e as texturas do desenho original.

3. O Impressor (O Mestre da Prensa)
O Impressor é o responsável pela oficina. Ele prepara as tintas, molha o papel (para que este aceite melhor a tinta) e opera as prensas. O seu domínio sobre a pressão da máquina é o que evita que as linhas finas (as hachuras) fiquem empastadas.

4. O Iluminador ou Colorista (O Acabamento)
Profissional: Colorista (frequentemente artistas anónimos em oficinas).
Este profissional aplicava a cor à mão, exemplar a exemplar, usando aguarela. Ele não gravava nada; apenas acrescentava valor estético à impressão a preto e branco que saía da prensa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

John MacDonald: 1936-2026

Morreu John Macdonald o lendário piloto britânico de automóveis e motociclos, sediado em Hong Kong, frequentemente apelidado de "Rei de Macau". É o único piloto a vencer as três principais categorias no Circuito da Guia em quatro e duas rodas: o Grande Prémio de Macau (1965, 1972, 1973, 1975), a Corrida da Guia (1972) e o Grande Prémio de Motociclismo (1969).
O anúncio da morte foi feito nas redes sociais pelo amigo Eli Solomon, historiador e escritor radicado em Singapura: "É com profunda tristeza que informo o falecimento de John Macdonald no domingo, 25 de Janeiro, aos 89 anos, após uma longa doença." 
Ainda segundo Eli, "a sua mente permanecia tão lúcida como sempre, e ele e Angus Lamont continuaram a trabalhar em King of Macau até ao final do ano passado", pelo que espera-se que o livro "King Of Macau" seja publicado nos próximos meses.
Nascido em 1936 em Inglaterra, John MacDonald começou por correr em motos em 1957 no Circuito de Silverstone . Em 1962 participou no Rali da África Central e no ano seguinte no Rali Internacional da Escócia, num Land Rover. Nesse ano de 1963 mudou-se para Hong Kong tendo ingressado na polícia local.  Na então colónia britânica foi proprietário da Camlex Garage, em Kowloon.
Em 1964, participou pela primeira vez no Grande Prémio de Macau (automóveis) terminando em 6º lugar. No ano seguinte voltou a participar e saiu vitorioso. Em 1967 o Grande Prémio de Motos de Macau passou a fazer parte do GP e MacDonald alinhou numa Yamaha tendo desistido na segunda volta com o motor partido. Em 1972 conquistou a vitória na prova rainha do GP e na primeira edição da Corrida da Guia.  Emm 1973 volta a vencer o Grande Prémio de Macau ao volante de um Brabham BT40. Em 1975 ganhou o seu quarto e último Grande Prémio de Macau conduzindo um Ralt RT1. A última participação ocorreu em 1976.
XVI GP 1969. Brabham FVA 

Em 1983 J. M. deixou Hong Kong e mudou-se com a mulher para Andorra. Em 1992, no 25º aniversário do GP Motos, John regressou a Macau fazendo parte da parada comemorativa ao volante da ‘velhinha’ Yamaha 250. Os últimos anos foram vividos nas Maurícias.
Em 12 anos de carreira John Macdonald venceu mais de 100 corridas e mais de uma dezena de Grandes Prémios: para além das vitórias em Macau, foi vencedor na Malásia, Filipinas, Singapura e Indonésia.
Macau é a grande montra da sua carreira como piloto. Foi o primeiro e único a ganhar tanto o Grande Prémio de Macau de duas como de quatro rodas e é também o único piloto que venceu o Grande Prémio de Macau, o Grande Prémio de Motos de Macau e a Corrida da Guia.
John MacDonald (born May 27, 1936 in Worcester) is a racing car driver and a motor-cycle racer of Hong Kong. He was originally from England, where he started his career racing motorcycles, then cars until he served at the National service. He then lived in Hong Kong and raced as a competitor of Hong Kong, where he owned a garage business. 
He is only person who won all international races of Macau; Macau Grand Prix (1965, 1972, 1973, 1975), Macau Motorcycle Grand Prix (1969) and Guia Race (1972). Also he is the most Macau Grand Prix winner with 4 wins and the first winner of the Guia Race in 1972. 
John Macdonald no Grande Prémio de Macau:
Estreia e Primeiros Sucessos: Estreou-se em 1964, conquistando a primeira vitória absoluta em 1965, ao volante de um monolugar Lotus 18.
Versatilidade (Motos): Participou na primeira edição do GP de Motos (1967), vindo a vencer a prova em 1969.
Domínio em 1972: Venceu o Grande Prémio com 30 segundos de vantagem e conquistou também a primeira edição da Corrida da Guia (Mini Cooper S).
Recordista: Em 1973, tornou-se o primeiro piloto a somar três vitórias no Grande Prémio, estabelecendo o recorde da volta.
Despedida: Alcançou a sua quarta e última vitória no GP em 1975, despedindo-se do circuito em 1976.
No total, MacDonald somou seis vitórias no Circuito da Guia, cimentando o seu nome na história do automobilismo em Macau.
Espaço "John MacDonald" no Museu do Grande Prémio de Macau: estátua de cera, réplica do Austin Mini Cooper S com que venceu a Corrida da Guia em 1972, e da Yamaha TD2C.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Antiguidades de Macao"

Sob o título "Antiguidades de Macao" o jormal "O Macaista Imparcial" publicou uma série de artigos da autoria de J. B. de Miranda de Lima, desde o primeiro número - 9 Junho 1836 - e ao longo de várias edições (nº 1, 3 e 6 por exemplo). Os textos eram sobre a história de Macau. O primeiro artigo aborda os primeiros tempos dos missionários jesuítas...
Reprodução dos artigos publicados na edição 1 e 3 do jornal:
D. Belchior Carneiro nomeado Bispo de Nicea em 1558, e Sagrado com este titulo para ir para a Ethiopia, naõ podendo entrar lá, recebeo ordem para passar á China, e ao Japaõ para exercer o cargo de Pastor nestas igrejas erectas de novo, e separadas da Diocese de Malacca, e partio da India para Macaó em Maio de 1568. Aqui exerceo com grande zelo o seu cargo Pastoral; instituio o Hospital de S. Lazaro para os pobres, e a caza da Mizericordia; morreo em 19 de Agosto de 1583, e jaz sepultado no meio da Capella mór da Igreja de SAÕ PAULO em sepultura rasa, cuberto de campa de marmore com epitaphio em Latim.
Em 1685 apportaraõ a Macaó 12 Japoens em uma embarcaçaõ, dizendo que navegando de Yente para Ixe, portos de Japaõ, arrabatados de huma tempestade vierão demandar aquella barra, sem haverem visto outra terra, couza, que parecia incrivel aos intelligentes da navegaçaõ. Derão por novas, que o Imperador do Japão não passava de 40 annos de idade, e que tinha hum filho unico de quinze annos, e que sabendo como havia Christãos no seu Imperio, dissimulava, e não tratava de inquirir delles.
(Continuar-se-ha.)
O Capitaõ deste navio era recebedor dos tributos Imperiaes. Inexplicavel foi o alvoroço, que cauzáraõ os novos hospedes na Cidade de Macáo, pela parte dos seculares taõ dezejosos de se tornarem a introduzir no commercio Japonez, cuja prata era antigamente o nervo principal da sua riqueza, e pela parte dos Religiozos taõ desvelados em acudir ao dezamparo de tantos milhares de Christaõs, que eraõ a flor, e o exemplo de toda esta Igreja Oriental. Discorriaõ, que estes Japoens vinhaõ mandados de propozito a explorar, se havia ainda Portuguezes no Oriente, ou para nos admittirem ao seu commercio, e lançar fora os Hollandezes, ou por algum occulto designio do Jmperador sobre a restauraçaõ do Christianismo. Fundava-se este discurso em ser novidade nunca vista vir-se do Japaõ a Macáo arrojado da furia das tormentas: e no grande desejo, que o Capitaõ mostrava de voltar em vaso Portuguez estando-nos prohibida esta viagem com taõ rigorozos decretos, e de taõ inviolavel observancia, cujas penas se haviaõ de executar em huns e outros. Mas ou elles fossem espias, ou viessem lançados da tempestade, a Cidade os hospedou com extraordinario amor, e magnificencia, e logo se apprestou hum barco, Capitaõ Manoel de Aguiar Pereira, concorrendo os Padres da Companhia com a terça parte dos gastos, para o que foi necessario empenhar a prata da Igreja, e tomar dinheiro emprestado.
Partiraõ em Junho Portuguezes, e Japonezes no barco preparado, e de proposito naõ quizeraõ levar droga alguma, para que se naõ imaginasse, que o interesse do commercio, e naõ a benevolencia da nação, era o unico motivo de tão custozo obzequio. Naõ respondeo o successo ás esperanças, porque chegando a Nangazaquy, antigo theatro de illustrissimos martirios, o Governador da terra tornou a mandar os Portuguezes para Macaó, com ordem expressa de que não intentassem mais aquella viagem.
(Continuar-se-ha.)

sábado, 31 de janeiro de 2026

A "Markwick's Tavern" na Praia Grande

Na extremidade da Praia Grande (perto da zona que corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a Rua do Campo - Jardim de S. Francisco) Richard Markwick tinha um estabelecimento comercial denominado "Markwick's Tavern" ou "British Tavern". 
Relatos de viajantes na época descrevem o estabelecimento como um edifício de dois pisos. No piso térreo funcionava a taberna propriamente dita, o armazém de provisões e o escritório. No piso superior, onde os hóspedes podiam desfrutar da brisa marítima e observar o movimento dos navios na baía, estavam disponíveis quartos.
O médico inglês Charles Toogood Downing passou por Macau em 1836 e segundo ele "o único hotel inglês no local é grande e mantido por um homem chamado Markwick, que tem outro ainda maior em Cantão. A maioria dos visitantes do sexo masculino reúne-se aqui e diverte-se à noite jogando bilhar, à moda russa."
Era o refúgio principal para oficiais, sobrecargas e passageiros que, enquanto não podiam subir o rio até Cantão, aguardavam em Macau o desenrolar dos negócios ou a chegada das monções. Numa época em que não havia serviço oficial de correio, esta taberna funcionava também como posto de correspondência.
Detalhe de gravura de Thomas Allom (1843) a partir de desenho de outro autor
Assinalei a localização da "Markwick's Tavern"

Da pouca informação que existe sobre Richard sabe-se que era inglês tendo nascido em 1791. Chegou à China acompanhando o pai que era comerciante. Por volta de 1825 demitiu-se da EIC (Companhia Inglesa das Índias Orientais) em Cantão e estabeleceu-se por conta própria. 
Em 1830 era sócio da Markwick & Lane, Co. (com Edward Lane), empresa que funcionava como agente da escuna Sylph, que transportava passageiros e correspondência entre Cantão e Macau. 

No "A COMPANION TO THE CHINESE KALENDAR FOR THE YEAR OF OUR LORD 1832", impresso em Macau, ficamos a saber a localização da Taberna e também do Armazém:

The TAVERN Macao Mr C MARKWICK. Near the east end of the beach two doors to the right of the Chop hose or Custom house station to which Chinese boats generally pull up. 

A TABERNA Macau – Sr. C. MARKWICK Próximo à extremidade leste da praia, duas portas à direita da Chop House (o Hopu - Alfândega), onde os barcos chineses geralmente encostam.

Com esta descrição tão detalhada assinalei na gravura de Thomas Allom - acima - o edifício da Taberna. Aquele mastro com bandeira é o símbolo do Hopu, a alfândega chinesa na Praia Grande. 

Vejamos agora a localização do Armazém de acordo com a descrição na obra referida.

The EUROPEAN WAREHOUSE, Macao. Messrs MARKWICK & LANE. On the Franciscan Green at the east and of the beach.

O ARMAZÉM EUROPEU, Macau – Srs. MARKWICK & LANE. No Campo de São Francisco na extremidade leste da praia. 
A possível localização do armazém de acordo com a descrição
Detalhe de uma pintura ca. 1830 (autor anónimo)

Com a morte do sócio Edwad Lane em 1831, Richard cria uma empresa em nome próprio em 1833, a Markwick & Co. 
Nesta altura já era casado com a macaense Maria Quitéria Ângela Vidal (viúva) com quem teve 3 filhos. Richard morreria vítima de doença prolongada a 30 de Janeiro de 1836. Quem ficou a tomar conta do negócio foi o irmão Charles pelo menos até 1846 quando se mudou para Hong Kong. Morreu em 1857. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick & Co's"

Neste detalhe da primeira página da edição do The Canton Register de 27 de Maio de 1834 assinalei um anúncio:
"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick' & Co.'s"
(As Cartas de Horsburgh sempre à venda na R. Markwick & Co.).
As "Horsburgh's Charts" eram cartas náuticas criadas pelo hidrógrafo escocês James Horsburgh (1762-1836), consideradas as mais credíveis na época para quem pretendia navegar  entre a Índia, o Sudeste Asiático e a China. Uma espécie de "Bíblia" dos Mares...
James Horsburgh, hidrógrafo da Companhia das Índias Orientais desde 1810, compilou décadas de dados sobre ventos, correntes e recifes.
As cartas eram indispensáveis para atravessar locais traiçoeiros como o Estreito de Malaca, o Mar da China Meridional e as aproximações de Macau. Sem elas, o risco de naufrágio em recifes não mapeados era altíssimo.
Na época o Porto de Cantão era o único acessível aos comerciantes estrangeiros na China, após uma paragem obrigatória em Macau onde tinha de obter autorização para prosseguir até Cantão.
Detalhe de carta náutica James Horsburgh. 1815

A firma R. Markwick & Co. - onde se vendiam estas cartas - constituía um pilar logístico fundamental para a comunidade estrangeira em Macau e Cantão na década de 1830, operando como uma espécie de "balcão único" para as necessidades práticas da frota mercante internacional. 
Richard Markwick, o fundador, era um empresário britânico que se posicionou estrategicamente no mercado chinês pré-Guerras do Ópio, não como um negociante de mercadorias como o chá ou o ópio, mas como um facilitador técnico e de serviços. 
Para além de cartas náuticas comercializava outros instrumentos essenciais na navegação como o cronómetro, bens alimentares, material para reparação das embarcações (lonas, cordas, etc...). Actuava ainda como casa de leilões para mercadorias danificadas ou bagagens abandonadas, fornecia alojamento em Cantão e em Macau e assegurava uma ligação marítima com alguma regularidade entre as duas cidades.
PS: no próximo post mais detalhes sobre a estalagem de Markwick em Macau.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Recibo da Yick Loong Fireworks Company: 1971

Recibo em papel timbrado da Yick Loong Fireworks Company, fábrica de panchões na Taipa.
Cabeçalho (Impresso em Vermelho)
O cabeçalho está escrito em chinês tradicional (lido da direita para a esquerda) e inglês.
Chinês: 益隆炮竹公司用箋
Transliteração: Yik Loong Pau Chuk Gung Si Yung Chin
Tradução: Papel de carta da Empresa de Panchões Yick Loong.
Menciona a sede em Macau, a fábrica na Taipa e a filial em Hong Kong.

Conteúdo Manuscrito (Pincel)
O texto está escrito em caligrafia cursiva chinesa. A leitura das colunas verticais faz-se da direita para a esquerda:
Coluna 1: 莊續傲 (Zhuang Xu Ao - Provavelmente um nome ou referência de conta).
Coluna 2: 帳事信知施紅赤掛皮殼灯并 (Uma nota técnica sobre mercadorias, mencionando "invólucros" e "lanternas/iluminação").
Coluna 3: 此致 (Expressão formal similar a "Atenciosamente").
Coluna 4: 均益壳廠 皿 (Endereçado à Fábrica de invólucros Kwan Yick).

3. Data (Extrema Esquerda)
A data utiliza o calendário sexagenário chinês e o calendário lunar:
辛亥年 八月 廿五日 - Ano de Xinhai, 8º mês lunar, dia 25.

Um carimbo azul pequeno indica "1971". No ciclo de 60 anos, o ano Xinhai corresponde a 1971. Portanto, a data é 15 de Outubro de 1971.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Occorrencias policiaes" em Outubro de 1877

Policia de Macau
Relatorio das occorrencias policiaes de 19 a 25 de outubro de 1877
Foram mandados para o tribunal da procuratura os chinas abaixo mencionados.
Dia 19 - Lam-Assam (mendigo), por ser encontrado a dormir nos bambues do rio de Sa-cóng.
Dia 22 - Tai-Afú, ratoneiro e vadio de profissão, e por haver furtado quatro patos á mulher china Li-Amon.
Houve fogo defronte da Flora Macaense pela 1 1/4 hora da tarde — arderam oito barracas pequenas.
Dia 23 - Lam-Áhon, vadio e ratoneiro de profissão, por tentar roubar uma gaiola com passaros e uma colcha.
Van-Apó, por querer illudir o china de menor idade Chiu-Angui para emigrar — e por roubar um filho ao china Cheong-Peng-Chong.
Dia 24 - Li-Atang, por ter maltratado e ferido sua mulher a china Chang-Assang.
Dia 25 - Fom-Achom, por ser ratoneiro de gallinhas.
Quartel em Santo Agostinho, em Macau, 26 de outubro de 1877.
O commandante interino, Francisco Augusto Ferreira da Silva, Tenente coronel.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

D. Frei Hilário de Santa Rosa

Em ano de jubileu da Diocese de Macau (1576-2026) recordo D. Frei Hilário de Santa Rosa, o 13º Bispo de Macau (1739-1752).
Nascido em Lisboa a 1 de Março de 1693, D. Frei Hilário de Santa Rosa professou na Ordem Menor de S. Francisco (Arrábida), sendo nomeado pelo rei D. João V bispo de Macau a 11 de Fevereiro de 1739 e confirmado no cargo a 19 de Dezembro de 1740. 
Só a 14 de Março de 1742 embarca em Lisboa na nau S. Pedro e S. João - comandada pelo Capitão de mar-e-guerra João Pereira de Carvalho - juntamente com 4 jesuítas (um deles o Padre Montanha) e dois franciscanos, Fr. Albino de Assunção e Fr. José de Jesus Maria, este último autor da obra Azia Sinica e Japonica. Chegou a Macau no final de 1742 e no ano seguinte foi nomeado provedor da Santa Casa da Misericórdia da cidade. Consta que do rei terá recebido meios para "comprar residência" pois "os seus antecessores as não tinham". 
O novo bispo chegou a Macau a 5 de Outubro (ou Novembro consoantes as fontes) de 1742. 
Na "Relação dos Bispos de Macau", da autoria de Gabriel Fernandes, publicado em 1886 no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, afirma-se que "entrou em Macau a 5 de outubro de 1742 tomando posse em 17 do mesmo mez  (...) e foi provedor da santa casa da misericordia da dita cidade em 1743. Governou o bispado com muita prudencia sabedoria e zêlo apostolico."
Igreja e convento de S. Francisco: 1ª metade do século 19
Aguarela da autoria de George Chinnery

Num documento da época pode ler-se: "De bordo em distancia de sete legoas, tendo a Nau dado fundo com vento contrario defronte da Ilha dos Ladroens, escreve S. Exa. ao guardião de S. Francisco avizando-o que no seu Convento inteiramente se dezejava recolher, e como chegasse primeiro a bordo hum escaler, ou escucha dos Padres da Companhia a buscar para terra quatro Padres seus que vinhão no mesmo navio, persuadido por elles S. Exa. se embarcou também, e por ser ja tarde quando chegarão pernoitamos todos no Collegio de São Paulo, adonde S. Excia. foi com todo o applauzo recebido, sem que a tarde e a noite fosse impedimento para o Governador desta Praça, Manuel Pereira Coutinho (1738-1743), lhe ter prevenido na praia uma companhia de soldados, e o seu Palanquim que não aceitou por hir com os Padres; ao mesmo tempo se deu salva de artelharia. No dia seguinte e sedo se recolheu occulto ao Convento de S. Francisco, adonde foi comprimentado de todas as Relligioens, Clero, Senado e Nobreza desta Cidade. Esteve nelle perto de três semanas primorosamente assistido, em quanto se lhe preparavão casas para residir".
Retrato de Frei Hilário de  Santa Rosa 
Portugal, c. 1740/42 (autor desconhecido)
Óleo sobre tela 147 x 103 cm 
Museu de São Roque (Lisboa) 

Durante a sua prelatura destacou-se pelo restauro da Catedral de Macau, pela criação de um fundo para o funcionamento do Cabido da Sé e pela defesa dos direitos das comunidades chinesas e timorenses, insurgindo-se contra o negócio das muichais, crianças chinesas retidas como criadas, conhecidas como "Atai" (rapaz) e "Amui" (rapariga).
Numa representação ao rei em 1747 dá conta que os habitantes de Macau tinham na sua posse "timores furtados, enganados, comprados e trocados por fazendas, fazendo-os escravos" (...) e o mesmo "com as chinas suas naturais, comprando-as em pequenas por limitado preço (dizem que para as fazer cristãs) e depois de baptizadas e adultas as cativam e reputam suas escravas por 40 anos, sem lei que permita, comprando-as, vendendo-as e dando-lhes (ainda com ferros) como escravas, bárbaros castigos". A abolição desta escravatura só ocorreria em 1758.
D. Frei Hilário partiu de Macau para Lisboa em 1749 e pediu resignação no ano seguinte tendo esta sido aceite em 1752. Retirou-se para o Convento de Mafra onde veio a morrer a 30 de Março de 1764, jazendo em campa rasa na Capela do Campo Santo, no referido convento. 
Na colecção do Palácio de Mafra existe o seu anel episcopal, em ouro, com ametista oval facetada, guarnecida por 24 minas nova. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Rodrigo Leal de Carvalho: 1932-2026

Em comunicado de dia 24 último o Supremo Tribunal de Justiça anunciou a morte de Rodrigo Leal de Carvalho, 93 anos, personalidade que viveu cerca de 40 anos em Macau onde se destacou no desempenho de várias funções e como autor de vários romances cuja acção decorre no território na primeira metade do século 20
Nascido na Praia da Vitória, na Ilha Terceira, Açores, a 20 de Novembro de 1932, Rodrigo Leal de Carvalho viveu parte da infância também em Trás-os-Montes e no Algarve. Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa, em 1956, ingressando de seguida na magistratura. Começou por trabalhar como delegado-interino na Ilha do Pico e depois em S. Tomé. Em 1959 foi para Macau - como Delegado do Ministério Público - "data da minha primeira chegada à Ponte 16 do Porto Interior, no Ferry Tai Loy". Ali viveu até 1963 quando colocado na Guiné como Juiz de Direito. Nessa função regressaria a Macau, onde viveu até 1971. Passou depois por Angola e Moçambique sendo promovido a Desembargador.
Evento em Macau: dança do dragão

De volta a Lisboa fez parte da Direção dos Assuntos Jurídicos do Ministério do Ultramar e em 1976 regressou mais uma vez a Macau como Procurador da República, cargo que entretanto tinha sido criado no âmbito do Estatuto Orgânico do Território (Procurador-Geral Adjunto).
Em 1995 foi nomeado Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e no ano seguinte tornou-se Presidente do Tribunal de Contas de Macau, cargo que ocupou até à transferência da Administração de Macau para a República Popular da China, regressando a Portugal em 1999.
Na vila Tay Yip (pousada) em 1965.
No grupo para além de RLC, está Henrique de Senna Fernandes
"(...) julgo reconhecer tratar-se de um almoço na Villa Tay Yip de saudosa memória, a quando da visita do Inspector Judicial Ferreira Semedo" . RLC em e-mail de 2011


Em Macau Rodrigo Leal de Carvalo foi ainda curador da Fundação Macau e membro do Conselho Universitário de Macau.
Em 1986 foi agraciado pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito. Em 1993 foi galardoado pelo IPOR com o Prémio Camilo Pessanha ("Requiem por Irina Ostrakoff" que seria publicado em chinês em 1999). Em 1998 recebeu a Medalha de Valor do Governador de Macau.

Excertos de uma entrevista que fiz a RLC - quando este morava nos Açores - publicada no JTM a 9.10.2009:

- Como surge a oportunidade de rumar até Macau?
Por Vontade própria. Depois de servir em São Tomé e Príncipe, como Delegado do Procurador da República, pedi a transferência para Macau.

- Esteve quase 40 anos em Macau, de 1959 a 1999, com alguns interregnos. Como era Macau quando chegou?
Não é possível, nos limites de uma simples resposta em âmbito de entrevista, dar uma ideia de Macau nessa época. Era uma cidade serena, meio sonolenta, com o aspecto físico misto de Oriente e Ocidente, de sabor quase mediterrânico – o que teria imediatamente a seguir à IIª guerra mundial. A par de algumas Avenidas novas e bem traçadas (Av. Da República, Horta e Costa, Ouvidor Arriaga, Sidónio Pais) com vivendas caras, algumas de luxo, mantinha-se a cidade antiga, a “cidade cristã”, com amplos casarões de godão e sobrado, a par de outras mais modestas. E, espalhando-se entre as vertentes norte das colinas da Barra/Penha, e do Monte e o Porto Interior, o casario pobre do Bazar – o bairro predominantemente chinês. E entre árvores de pagode seculares os templos chineses ombreavam sem conflito com as igrejas católicas.
O mosaico demográfico e social era, pelo seu lado, colorido e heterogéneo. A par de uma comunidade chinesa predominante (calculada em 98% da população) proveniente de várias regiões da China (Kwangtung, Fukien e outras); os restantes 2% dividiam-se entre portugueses de Macau, portugueses da Metrópole (ou reinois) e com menor expressão demográfica ou social, elementos de outras etnias, origens ou nacionalidades – ingleses, americanos, russos “brancos” (refugiados da Revolução bolchevique ) paquistaneses e indianos, australianos, filipinos, malaios, indonésios, etc. etc.
A vida económica, então de reduzida expressão, estava essencialmente na mão de chineses; a vida político-administrativa era feudo dos portugueses – os lugares de chefia, na sua maioria, preenchidos por reinois, os quadros médios e inferiores por reinois e macaenses.
As relações sociais eram no geral harmoniosas e desenvolviam-se, em regra, adentro das respectivas comunidades. Em resultado das dificuldades da língua, o relacionamento entre a população portuguesa metropolitana (que não dominava o chinês) e a chinesa que não falava português, era muito reduzido – limitava-se quase só a contactos de ocasião em cerimónias oficiais, com ajuda de intérpretes, a menos que falassem inglês que era na verdade a língua franca da região. Já os contactos entre chineses e macaenses eram possíveis e quotidianos.
Não obstante estas limitações, a vida social era muito animada quer entre os portugueses (macaenses e metropolitanos) quer entre a população chinesa, seguindo todavia, modelos diferentes: enquanto os portugueses gostavam de receber nas próprias casas, os chineses e um considerável número de macaenses preferiam reunir-se em restaurantes, à volta de um Yam-cha ou de jantar, precedido de intermináveis jogos de ma-cheok. (...)

- Caracterize, comparando, as décadas de 60, 70, 80 e 90...
Anos 60:
1ª Metade: A sonolência e o preguiçoso despertar de Macau; e para mim, a surpresa e o encantamento da descoberta do Oriente.
2ª Metade. O choque traumático da Revolução Cultural.
Anos 70:
O reajustamento político às novas realidades sociais e políticas; O desenvolvimento económico e início da descaracterização da cidade. Gradual diminuição da importância das comunidades portuguesas no panorama social de Macau.
Anos 80:
Consolidação do desenvolvimento económico e destruição de grande parte do património arquitectónico de Macau. Globalização social. Conturbação política entre a Administração e a comunidade portuguesa macaense. Início dos grandes empreendimentos.
Anos 90:
A reposição da paz social. Consolidação dos grandes empreendimentos e intenso desenvolvimento turístico e económico de Macau. Inquietação da população portuguesa – e não só - sobre o seu e sobre o futuro político de Macau. A preparação para a despedida. O adeus a Macau.

Obras literárias:
Requiem por Irina Ostrakoff (1993); Os Construtores do Império (1994); A IV Cruzada (1996); Ao Serviço de Sua Majestade (1996); O Senhor Conde e as suas Três Mulheres (1999); A Mãe (2000); O Romance de Yolanda (2005); As Rosas Brancas de Surrey (2007).

domingo, 25 de janeiro de 2026

Um "pai fong" especial em Outubro de 1945

A fotografia - encontrada numa pesquisa aleatória na internet - retrata o quotidiano em Macau em Outubro de 1945 (embora não estivesse datada). Sobre a data e o que mostra a imagem é o que trata esta publicação...
Ao centro destaca-se um um "pai-fong" (arco comemorativo) erguido para celebrar a vitória da China na Guerra de Resistência contra o Japão por via do fim da II Guerra Mundial. 
Entre os vários elementos visuais no arco está a bandeira do Kuomintang (da República da China) - ainda não tinha sido proclamada a República Popular de 1949 - e a cruz que simboliza a vitória aliada. 
Após a rendição do Japão em Agosto de 1945, os arcos comemorativos incorporaram frequentemente o símbolo "V" ou cruzes - vê-se uma do lado direito - para representar a vitória dos Aliados e o fim da II Guerra Mundial. O arco assinala também as festividades do "Duplo Dez", alusivas ao 10 de Outubro de 1911, data da proclamação da República na China.  A Revolução Xinhai derrubou a dinastia Qing pondo fim a mais de dois mil anos de regime imperial e estabelecendo a República da China.
Em 1945 as festividades foram particularmente grandiosas já que se celebrava também o fim da ocupação japonesa na China. Os arcos deste ano incluíam frases como 世界和平 "Paz Mundial" e 光復祖國 "Restauração da Pátria".
Ao fundo vislumbra-se parte da fachada do edifício do Leal Senado. Podem ainda ver-se transeuntes - civis e militares cujas indumentárias de tempo mais frio ajudam a datar a foto - e riquexós (do lado direito). A fotografia foi tirada do Largo de S. Domingos. Entre as placas comerciais do lado esquerdo está a Garage Popular (chegou a estar na Av. Almeida Ribeiro), a Livraria Po Man Lau 寶文新圖書局 (esteve noutros locais nesta zona), um consultório médico 大醫師 e uma mercearia 民平. Do lado direito a placa toponímica do Largo de S. Domingos. 
Livraria Po Man Lau vista do outro lado

sábado, 24 de janeiro de 2026

O vício de Du Beloy em 1648

Jean-Baptiste Tavernier (1605-1689) foi um dos mais extraordinários viajantes e comerciantes do século XVII, ganhando fama mundial como o pioneiro do comércio de pedras preciosas entre a Europa e a Ásia. Ao longo de quarenta anos, Tavernier realizou seis grandes expedições que totalizaram mais de 120.000 milhas percorridas, focando-se principalmente na Pérsia e no Império Mogol, na Índia. Ele é reconhecido como o homem que trouxe para o Ocidente um diamante azul de 115 quilates, vendido ao rei Luís XIV de França, que mais tarde seria lapidado e conhecido mundialmente como o Diamante Hope. 
Diferente de outros exploradores da sua era, que viajavam por motivações religiosas ou políticas, Tavernier era movido pelo pragmatismo comercial, documentando detalhadamente as rotas de comércio, as minas de diamantes de Golconda e os costumes das cortes orientais.
Tavernier nunca chegou a visitar Macau. Embora tivesse o desejo de alcançar a China e o Japão, o ponto mais a leste que atingiu foi Batávia, a actual Jacarta, na Indonésia. A sua progressão para o Extremo Oriente foi interrompida tanto pelas severas restrições comerciais impostas na época quanto pela sua relação frequentemente conflituosa com a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC). Toda esta vasta experiência e os detalhes das suas jornadas foram imortalizados no livro "Les Six Voyages de Jean-Baptiste Tavernier" (As Seis Viagens de Jean-Baptiste Tavernier), publicada pela primeira vez em 1676. E traduzido para inglês logo em 1678.
Nesta obra, Jean Baptiste Tavernier conta um episódio passado em Macau em 1648 e que envolve um tal "Du Beloy" que gostava muito de jogar...

Excerto da versão inglesa:

Du Belloy desir'd leave that he might go to Macao, which was granted him. For he understood that the greatest part of the Portugal-Gentry retir'd to that place, after they had got Estates by Merchandizing; that they were very courteous to strangers, and withal extremely addicted to play, which was Du Belloy's chief delight. He liv'd two years at Macao, very much to his content; for when he wanted Money, the Gentry lent it him freely. One day he had won above six-thousand Crowns; but going to play again, he was so unfortunate as to lose it all, besides a good sum of Money which his friends had lent him. Being thus at a loss, and finding that no-body would lend him any more Money, he began to swear against a Picture that hung in the room, which was the Portraiture of some Papistical Saint; saying in his passion, that it was an usual thing with them that plaid, that if they saw a Saints Picture hang in their sight, it made them lose; and that if that Picture had not been there, he had certainly won. Immediately the Inquisitor was inform'd of this, (for in every City in India under the Jurisdiction of the Portuguezes there is one. However his power is limited; having no other authority than to seize the person of him that says or acts any thing against their Religion, to hear the Witnesses, and to send the Offender with the examinations to Goa in the first Ship which is bound thither: where the Inquisitor-General has an absolute Power either to absolve him, or to put him to death. Thereupon Du Belloy was put aboard a small Vessel of ten or twelve Guns loaded with Irons; with a strict charge to the Captain to keep him safe, and some threats that he should be answerable for him if he escap'd. But so soon as the Ship was out at Sea, the Captain, who was of a noble disposition, and knew Du Belloy to be of a good Family, took off his Irons, and made him sit at his own Table; giving him also Linnen, and other convenient Apparel necessary for the Voyage, which was to continue forty days. They put into Goa the nineteenth of February 1649; and the Ship was no sooner come into Harbour, but St. Amant came a-board by the Governor's order, as well to receive his Letters, as to hear what news in China. But his surprize was very great, to see Belloy in that condition, and that the Captain would not let him go, before he had surrender'd him up into the hands of the Inquisitor. Nevertheless, in regard that St. Amant was a person of great credit, he obtain'd of the Captain, that Belloy should go along with him into the City. As for Belloy he immediately and for the nonce shifted himself into his old Cloaths, which were all to tatters and full of Vermin; and St. Amant, who knew there was no dallying with the Inquisition, took that season to present him to the Inquisitor ; who seeing a Gentleman in such a sad condition, had some compassion upon him, and allow'd him the whole City for his Prison; on condition he should surrender his body upon demand, when he underftood what was inform'd against him. In the interim St. Amant brings Du Belloy to my Lodging just as I was going to visit the Arch-Bishop of Mira, whom I formerly knew at Constantinople, when he was Prior of the Franciscans at Galata. I desir'd them to stay a while and to dine with me, which they did; after which I proffer'd my House and Table to Du Belloy, who liv'd with me; and for whom I also bought two new Suits of Apparel, and Linnen convenient. However, all the while that I stay'd at Goa, which was ten or twelve days, I could not persuade the Sieur Du Belloy to put on those new Cloaths, not knowing the reason, though he promis'd me every day. But being upon my departure, I told him I was going to take leave of the Vice-Roy; whereupon he desir'd me to procure leave for him also; which I did. We departed toward evening in the same Vessel wherein I came, and about midnight the Sieur Belloy began to shift himself, and when he had done he threw his old raggs into the Sea, swearing against the Inquisition like a mad man ; I understanding nothing all this while of the business. When I heard him swear in that manner, I told him we were not yet out of the Portugals hands; neither were he and I with five or six Servants, able to defend our selves against forty Sea-men that belong'd to the Ship. I ask'd him then, why he swore so heartily against the Inquisition; he reply'd, that he would tell me all the circumstances of the story; which he did when we came to Mingrela, which was about eight a Clock in the morning. When we landed we met certain Hollanders with the Commander, who were eating Oysters and drinking Sack upon the Shoar. Immediately they ask'd me who that person was with me. I told them it was a Gentleman who attending the French Ambassador into Portugal, had taken Shipping there for India, together with four or five more whom he had left at Goa; but that neither the scituation of the place, nor the humour of the Portugals pleasing him, he had desir'd my assistance in his return for Europe. Three or four days after, I bought him an Oxe to carry him to Surat ; and I gave him a Servant to assist him, together with a Letter to Father Zenon, a Capuchin, wherein I desir'd him to speak to my Broker to pay him ten Crowns a month for his subsistence, and to desire of the English President to embark him for Europe with the first opportunity. But it fell out contrary to my intentions; for Father Zenon carri'd him back again along with him to Goa, where he had some business to do for Father Ephraim his Companion; of whom I shall speak in the next Chapter. Father Zenon without doubt believ'd, that Du Belloy making his appearance to the Inquisition, and desiring his pardon, might have easily obtain'd it. 'Tis very true he did obtain it, but it was after he had been two years in the Inquisition, from which he was not discharg'd but with a Sulphur'd Shirt, with a St. Andrews Cross upon his Stomack. There was with him another Gentleman, call'd Lewis de Bar upon the Seine, who was us'd in the same manner ; and they always put them to accompany those who were put to death. The Sieur Du Belloy did very ill to return to Goa, and worse to appear afterwards again at Mingrela, where the Hollanders, who understanding he had formerly revolted out of their service, by the intelligence they receiv'd from their Commander at Surat, seiz'd his person, and sent him away in a Ship that was going for Batavia. They pretended that they sent him to the General of the Company, to do with him as he should think fitting. But I am in part assur'd, that as soon as the Vessel was out at Sea, they put the poor Gentleman into a Sack, and threw him into the Sea. This was the end of the Sieur Du Belloy."

Du Belloy desejou permissão para poder ir a Macau, o que lhe foi concedido. Segundo ele entendia, a maior parte da fidalguia portuguesa retirava-se para aquele lugar após terem obtido fortunas através do comércio; que eram muito corteses com estrangeiros e, além disso, extremamente viciados em jogos, que era o principal deleite de Du Belloy.
Ele viveu dois anos em Macau, muito satisfeito; pois quando precisava de dinheiro, os fidalgos emprestavam-lhe livremente. Um dia, ele havia ganhado mais de seis mil coroas; mas, ao voltar a jogar, teve o azar de perder tudo, além de uma boa soma de dinheiro que seus amigos lhe haviam emprestado. Vendo-se em tal perda e descobrindo que ninguém mais lhe emprestaria dinheiro, ele começou a praguejar contra um quadro que estava pendurado na sala, que era o retrato de algum santo católico; dizendo, em sua fúria, que era coisa comum entre os que jogavam que, se vissem o quadro de um santo diante de seus olhos, isso os fazia perder; e que, se aquele quadro não estivesse ali, ele certamente teria vencido.
Imediatamente o Inquisidor foi informado disso (pois em toda cidade na Índia sob a jurisdição dos Portugueses existe um). No entanto, seu poder é limitado; não tendo outra autoridade senão a de prender a pessoa que diga ou faça qualquer coisa contra a religião deles, ouvir as testemunhas e enviar o infrator com os exames para Goa no primeiro navio que partisse para lá: onde o Inquisidor-Geral tem poder absoluto tanto para absolvê-lo quanto para condená-lo à morte.
Dito isto, Du Belloy foi colocado a bordo de uma pequena embarcação de dez ou doze canhões, carregado de ferros; com uma ordem rigorosa ao capitão para mantê-lo seguro, e algumas ameaças de que ele seria responsabilizado caso o prisioneiro escapasse. Mas assim que o navio saiu ao mar, o capitão, que era de nobre disposição e sabia que Du Belloy vinha de uma boa família, retirou-lhe os ferros e fê-lo sentar-se à sua própria mesa; dando-lhe também roupas de linho e outros trajes convenientes necessários para a viagem, que deveria durar quarenta dias. Chegaram a Goa a 19 de Fevereiro de 1649; e mal o navio entrou no porto, St. Amant veio a bordo por ordem do Governador, para receber o correios, bem como para ouvir as novidades da China. Mas a sua surpresa foi muito grande ao ver Belloy naquela condição, e ao saber que o Capitão não o deixaria partir antes de entregá-lo às mãos do Inquisidor. No entanto, considerando que St. Amant era uma pessoa de grande prestígio, ele obteve do Capitão a permissão para que Belloy o acompanhasse até a cidade. Quanto a Belloy, ele imediatamente e para a ocasião vestiu suas roupas velhas, que estavam todas em farrapos e cheias de vermes; e St. Amant, que sabia que não se devia brincar com a Inquisição, aproveitou o momento para apresentá-lo ao Inquisidor. Este, vendo um cavalheiro em tão triste condição, teve alguma compaixão dele e permitiu-lhe toda a cidade como prisão, sob a condição de que ele entregasse seu corpo mediante solicitação, quando soubesse do que fora informado contra ele. Nesse entretanto, St. Amant traz Du Belloy ao meu alojamento, justamente quando eu estava saindo para visitar o Arcebispo de Mira, a quem conheci anteriormente em Constantinopla, quando ele era Prior dos Franciscanos em Gálata.
Pedi que ficassem um pouco e jantassem comigo, o que fizeram; depois do que ofereci minha casa e mesa a Du Belloy, que viveu comigo, e para quem também comprei dois novos trajes de roupa e linhos adequados. No entanto, durante todo o tempo em que estive em Goa, que foram dez ou doze dias, não consegui persuadir o senhor Du Belloy a vestir aquelas roupas novas, sem saber o motivo, embora ele me prometesse todos os dias. Mas, estando para partir, disse-lhe que ia me despedir do Vice-Rei; ao que ele me pediu que conseguisse licença para ele também, o que eu fiz. Partimos ao entardecer na mesma embarcação em que vim, e por volta da meia-noite o senhor Belloy começou a trocar de roupa e, quando terminou, jogou seus trapos velhos ao mar, praguejando contra a Inquisição como um louco; eu, até então, nada entendia do assunto.
Quando o ouvi praguejar daquela maneira, disse-lhe que ainda não estávamos fora das mãos dos portugueses; nem ele e eu, com cinco ou seis servos, seríamos capazes de nos defender contra quarenta marinheiros que pertenciam ao navio. Perguntei-lhe então por que ele praguejava tão fervorosamente contra a Inquisição; ele respondeu que me contaria todas as circunstâncias da história, o que fez quando chegamos a Mingrela, por volta das oito horas da manhã. Quando desembarcamos, encontramos certos holandeses com o Comandante, que estavam comendo ostras e bebendo vinho na costa. Imediatamente perguntaram-me quem era aquela pessoa comigo. Respondi que era um cavalheiro que, acompanhando o embaixador francês a Portugal, havia embarcado lá para a Índia, juntamente com outros quatro ou cinco que deixara em Goa; mas que, não lhe agradando nem a situação do lugar nem o humor dos portugueses, ele solicitara a minha assistência no regresso à Europa.
Três ou quatro dias depois, comprei-lhe um boi para carregá-lo até Surate; e dei-lhe um servo para auxiliá-lo, junto com uma carta ao Padre Zenon, um capuchinho, na qual pedia que falasse com meu corretor para pagar-lhe dez coroas por mês para seu sustento, e que solicitasse ao presidente inglês que o embarcasse para a Europa na primeira oportunidade. Mas tudo ocorreu de forma contrária às minhas intenções; pois o Padre Zenon levou-o de volta consigo para Goa, onde tinha alguns negócios a tratar para o Padre Ephraim, seu companheiro, de quem falarei no próximo capítulo. O Padre Zenon, sem dúvida, acreditava que, se Du Belloy comparecesse perante a Inquisição e pedisse perdão, poderia facilmente obtê-lo. É verdade que ele o obteve, mas foi após ter passado dois anos na Inquisição, de onde não foi liberado senão com uma camisa de enxofre e uma cruz de Santo André sobre o peito. Estava com ele outro cavalheiro, chamado Lewis de Bar no Sena, que foi tratado da mesma maneira; e eles sempre os colocavam para acompanhar aqueles que eram levados à morte.
O Senhor Du Belloy fez muito mal em regressar a Goa, e pior ainda em aparecer depois novamente em Mingrela, onde os holandeses, sabendo que ele anteriormente havia desertado do serviço deles, pela inteligência que receberam de seu comandante em Surate, detiveram a sua pessoa e enviaram-nos num navio que ia para Batávia. Fingiram que o enviavam ao General da Companhia, para que fizesse com ele o que achasse conveniente. Mas estou em parte seguro de que, assim que a embarcação saiu ao mar, colocaram o pobre cavalheiro num saco e o jogaram no mar. Este foi o fim do Senhor Du Belloy."

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O "Canton System"

Em 1684 o imperador Kangxi (康熙) da dinastia Qing (清朝) levantou a proibição do comércio marítimo e abriu quatro portos da China ao comércio externo. São assim criados os postos alfandegários, os Hopu. Na região de Macau (a partir de 1688) existiam quatro postos alfandegários - dois deles na cidade: Porto Interior e Praia Grande - responsáveis ​​pela cobrança de tarifas, inspecção de embarcações estrangeiras e emissão de autorizações de entrada.
Ao longo do século 18 o cada vez maior interesse de potências ocidentais, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos, em negociar com a China levou o imperador a criar regras.
O "Sistema de Cantão" - do inglês Canton System - consistia numa série de regulamentos para governar as interações entre chineses e estrangeiros em Cantão. Foi criado em 1757 pelo imperador Qianlong que emitiu um édito proibindo os navios europeus de negociarem em qualquer outro porto chinês que não fosse o de Cantão.
Praia Grande de Macau por G. Chinnery ca. 1825/30

Os supercargueiros (supercargos) estrangeiros que desejassem comercializar em Cantão solicitavam uma licença em Macau antes de contratar um piloto local para navegar a embarcação pelo estuário do Rio das Pérolas até à estação alfandegária de Bocca Tigris. Após as autoridades inspeccionarem a licença, um “prático interno” assumia o comando do navio e guiava-o rio acima, passando por uma série de
bacias de areia e bancos de areia traiçoeiros, até à ancoragem designada em Whampoa, já muito perto de Cantão. 
Um membro do grémio de mercadores “Co Hong” (hang 行) autorizado pelas autoridades chinesas era então recrutado para garantir a segurança do navio, assumir a responsabilidade pela conduta da sua tripulação, fiscalizar o pagamento de diversas taxas portuárias e direitos aduaneiros e comercializar com a embarcação estrangeira. 
Era também contratado um 'comprador' para abastecer o navio enquanto este estivesse atracado em Whampoa, e um linguista ou intérprete licenciado pelo Estado ajudava a supervisionar as transacções comerciais entre o supercargo estrangeiro e o seu parceiro comercial chinês. 
Em Cantão, junto ao rio, foi criado um espaço onde estavam instaladas treze "feitorias" (factory em inglês). Ficava fora das muralhas da cidade onde o estrangeiros não podiam entrar. Os edifícios serviam de alojamento e armazém para os comerciantes estrangeiros enquanto estes permaneciam em Cantão e conduziam os seus negócios.
No fim de cada temporada de comércio (Março a Setembro), os comerciantes tinham de sair de Cantão, residindo em Macau os restantes meses do ano, onde também estavam as famílias e, por vezes, escritórios das empresas de maior dimensão.
O sistema gerou enorme frustração nos britânicos (liderados pela Companhia das Índias Orientais), que o consideravam humilhante e comercialmente limitador. O desequilíbrio comercial - o Ocidente comprava chá e seda, mas a China apenas aceitava em troca a prata - levou os britânicos a introduzirem o ópio no mercado chinês para equilibrar a balança.
Em 1802 e 1808 os ingleses tentaram ocupar Macau mas não lograram os objectivos. Estas intenções seriam mal vistas pelas autoridades chinesas que entretanto emitem éditos a proibir o comércio do ópio. 
Aguarelas de meados do séc. 19

Após o parlamento inglês ter revogado o monopólio da Companhia das Índias Orientais, em 1834, William John Napier foi nomeado superintendente-chefe do comércio britânico na China. Tentou negociar com as autoridades de Cantão em pé de igualdade, mas estas interpretaram o seu comportamento como contrário às relações sino-estrangeiras estabelecidas. A sua missão fracassou e Napier viria a morrer nesse ano em Macau. Foi substituído em 1836 por Charles Elliot.
Em Pequim, uma proposta de 1836 para aliviar as restrições ao ópio obteve um amplo apoio, mas o imperador Daoguang nomeou um patriota radical, Lin Zexu, como comissário imperial para uma campanha antiópio. Os esforços chineses contra o ópio, de facto, começaram a obter avanços consideráveis ​​no controlo do lado chinês do contrabando no final de 1838 e início de 1839. O lado estrangeiro crucial do comércio de ópio, no entanto, estava fora do alcance directo do Comissário Lin. Após chegar a Cantão, em Março de 1839, Lin confiscou e destruiu mais de 20.000 caixas de ópio. Em setembro, começaram as escaramuças entre os chineses e os britânicos.
Era o desencadear da primeira Guerra do Ópio (1839-1842). O "Sistema de Cantão" foi oficialmente abolido com o Tratado de Nanking, que pôs fim à Primeira Guerra do Ópio e forçou a China a abrir ao estrangeiro cinco novos portos - "Portos de Tratado" / Teatry Ports - e a ceder Hong Kong.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quadro do pessoal da Polícia de Segurança Pública: 1937

Publicado no Boletim Oficial nº 29 a 17.7.1937 o diploma nº 533 estabelece no Art. 15.º O quadro do pessoal da Polícia de Segurança Pública de Macau.
O efetivo total da corporação é composto por diversas categorias distribuídas por várias secções. O Comando conta com 1 Comandante (Capitão ou tenente do exército metropolitano com curso da arma), 3 Oficiais subalternos (tenentes do exército metropolitano), 1 Amanuense chinês, 2 Chefes, 4 Sub-chefes, 71 Agentes, 3 Apalpadeiras e 1 primeiro-cabo reformado.
Na Secretaria, encontram-se 1 Escrevente, 1 Chefe e 2 Agentes. O Conselho é constituído por 2 Sargentos, 1 Chefe, 2 Sub-chefes e 2 Agentes. A maior concentração de pessoal está nas Esquadras, Central, Secção Móvel e Secção de Trânsito, que somam 4 Sargentos, 1 Chefe, 17 Sub-chefes, 378 Agentes e 10 Serventes. A Secção Fiscal dispõe de 2 Chefes, 4 Sub-chefes, 90 Agentes e 2 Apalpadeiras. Por fim, a Secção das Ilhas integra 1 Sargento, 2 Sub-chefes e 24 Agentes.
No total geral o quadro fixa-se em: 1 Comandante, 3 Oficiais subalternos, 1 Escrevente, 1 Amanuense chinês, 7 Sargentos, 7 Chefes, 29 Sub-chefes, 567 Agentes, 5 Apalpadeiras, 10 Serventes e 1 primeiro-cabo reformado.
Observações e Notas do Quadro:
O Comandante será um "Capitão ou tenente do exército metropolitano, com o curso da arma".Já os "oficiais subalternos" serão "Tenentes do exército metropolitano".
As categorias de Escrevente e Amanuense chinês serão extintas conforme as vagas ocorram. No Conselho, existe um encarregado da arrecadação entre as patentes de Chefe e Sub-chefe. Relativamente aos Agentes das Esquadras, o número inclui uma ordenança e quatro impedidos do serviço pessoal; na Secretaria e no Conselho, estão previstas, respetivamente, duas e uma ordenança.
É especificado que o pessoal assinalado no Comando (Amanuense, Chefes, Sub-chefes, Agentes, Apalpadeiras e o cabo reformado) presta serviço no Comissariado, nas Polícias Administrativa e de Investigação Criminal enquanto não houver recrutamento directo para essas unidades. Por último, nota-se que as Apalpadeiras estão incluídas no número de auxiliares de 4.ª classe.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Fábrica de Cimento da Ilha Verde: 1886-1936

A 7 de Maio de 1886 celebrou-se o contrato entre o Seminário de S. José (proprietário) e Creasy Ewens que estabelecia, na Ilha Verde, a "Green Island Company Limited",a primeira do género na China. 
Quatro dias depois, a 11 de Maio, era concedido alvará pelo governador (1883-1886) Tomás de Sousa Rosa (1844-1918) ao solicitador judicial de Hong Kong, Creasy Ewens para o estabelecimento da referida fábrica.
"(...) "Faço saber aos que este meu alvará virem que tendo o subdito inglez, mr. Creasy Ewens, requerido licença para estabelecer uma fabrica de cimento na Ilha Verde, e não havendo inconveniente algum em se lhe conceder tal licença por isso que esta fabrica, apezar de ser um estabelecimento comprehendido na 2.ª classe mencionada no decreto de 21 de outubro de 1863, pretende instituir-se em logar despovoado, aonde nenhum damno pode causar;
Concedo, em conformidade com o artigo 4.º do citado decreto, a licença requerida, que caducará nos casos seguintes:
1.º Se a fundação do estabelecimento não começar dentro de seis mezes da data d'esta licença;
2.º Se a sua laboração não principiar dentro de dois annos, depois da mesma data;
3.º Se a laboração se interromper por mais de dois annos;
4.º Se a fabrica fôr transferida para local differente do que por este alvará é auctorisado;
5.º Se forem introduzidas no estabelecimento modificações de tal ordem, que mudem as condições designadas n'este alvará.
As auctoridades, a quem o cumprimento do presente alvará pertencer, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo de Macau, 13 de maio de 1886."
O jornal O Independente publicou a notícia a 22 de Maio de 1886.

Durante muitos anos a empresa 青洲英坭
 prosperou - e até abriu uma nova fábrica em Hong Kong - mas no início da década de 1930 as autoridades da província de Guangdong impuseram um embargo à importação de cimento e, com a perda de sua principal fonte de receita, a Green Island Cement foi forçada a fechar portas em Macau em 1936.
Postal com a legenda errada. Mostra a fábrica de Hong Kong e não a de Macau.