terça-feira, 29 de setembro de 2026

Templo Pou Tai Un (菩提禪院) na Taipa

Este postal ilustrado da década 1980 mostra o Templo Pou Tai Un (菩提禪院) na ilha da Taipa.
Década 1980

Do final da década de 1980 recupero este texto inserido numa brochura em português e chinês sobre os templos da Taipa:
"Se quiser passar um dia agradável, venha à Taipa pela ponte velha e antes de chegar ao hotel Hyatt, vire à direita e no fim desta estrada, Lou Lim Ieok, está o templo. Construído em 1925, é um mosteiro budista com um templo dedicado aos Três Budas Preciosos e a Kun Iam. De visita obrigatória, nele se encontram Jardins com estátuas, viveiros de carpas e um conjunto de santuários ou lugares de oração onde se confraternizam os deuses do panteão indu, taoista e budista chinês. Neste lugar, com mesas e bancos espalhados pelos jardins, fazem-se belos piqueniques e  come-se boa comida vegetariana dos monges que ainda aí vivem num andar destinado a mosteiro, no pavilhão central. Neste pavilhão, de varandas e beirados ricamente trabalhados encontra-se no andar superior uma estátua, diga de ser vista, de mais de 9 metros de altura, do fundador do budismo, Saquiamuni, o Buda Iluminado que pode ver e compreender todo o universo."
菩提園   
如果你想愉快地過一天,請由舊澳氹大橋到氹仔來菩提園吧!當到達凱悅酒店前應往右轉,再走進盧廉若馬路的盡頭就可以見到菩提園。它建於一九二五年,內有供奉三尊珍貴佛像和觀音像的殿堂,是遊人必到的一座佛教禪院。院內設有一些鑲有石像、養有鯉魚的池塘的庭園,並有一列供參拜中國佛教、道教和印度教等諸神用或唸經用的空間。這裡的庭園均備有枱、櫈,可讓遊人在此野餐,又或品嚐僧侶所做的美味素菜,他們都住在中央寺院的禪房內。在這座經精工修建並附有陽台和屋檐的中央寺院的最高一層內,有一尊高九米、十分值得參觀的佛教始祖釋迦牟尼像,他是一位能看透及洞悉整個宇宙的智者。
Na década 1990

Lá dentro está uma estátua dedicada ao Buda Saquiamuni. Feita de bronze tem a altura de 5,4 metros e um peso de 6.5 toneladas
Altar a estátua de Buda no Templo de Pou Tai Un
氹仔菩提園大佛像

No "Roteiro das Ilhas – Ilha da Taipa. Câmara Municipal das Ilhas", de 1996, pode ler-se:
"O templo chamava-se originalmente mansão (ou jardim) Pou Tai e foi construído pela família Lo em 1927.Um dos seus membros chamava-se Lo Pou San, e era então um dos pintores mais famosos da província de Guangdong, da Escola de Pintura de Lignan, morando na mansão com a sua mãe. O espaço total da mansão foi registado oficialmente em 1933 com uma área tão espaçosa que incluía ainda uma parte da terra onde ficava a Fábrica de Panchões “Him Son” e a terra onde ficava o edifício contíguo da “Wa Seng”. Depois da morte de Lo Pou San, seu filho Lo Vai Chong mudou de residência para Hong Kong e vendeu os terrenos da mansão Pou Tai, que foram comprados por cinco entidades. No dia 16 de Julho de 1964, uma destas entidades, Mestre-Monge Sik Chi Un, comprou a parte principal da mansão, que incluía um pequeno templo que se chamava Palácio Lok Chou, e a maior parte do jardim com a área de 3330 m2.
O mestre Sik Chi Un introduziu o ramo do budismo Cheng Tou (Terra Limpa/Pura) em Macau. Nasceu na província de Zhejiang na China. Tornou-se monge no templo Chiu Heng na cidade de Hangzhou em 1928, e começou a difundir a doutrina budista, pregando no distrito de Zhongshan na província de Guangdong durante alguns anos. No período da guerra entre o Japão e a China, mudou-se para Macau e estabeleceu o ramo Budista Chi Sam. No mosteiro Pou Tai encontram-se actualmente deuses do Budismo e do taoísmo."

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Oculista no hotel Hing Kee em 1888

Na edição de 31 de Julho de 1888 do jornal O Independente é publicado um anúncio e uma 'notícia' sobre a presença em Macau de um oculista.
O anúncio em inglês sob o título "Notice", dirige-se a todos os que valorizam a sua visão ("To All Who Value Their Sight") e confirma os detalhes divulgados na notícia do jornal em português. Através dele, informa-se que o Sr. Laurence, representante da conceituada firma de óticos Laurence & Mayo - com presença em Londres, Calcutá e Bombaim, visitará Macau na segunda-feira, dia 6 de agosto de 1888. Durante a sua breve passagem de apenas dois ou três dias, dará consultas no Hotel Hing-Kee Hotel* (referido na notícia em português como Heng-kee).
Graficamente, a publicação destaca-se por uma ilustração central de uns óculos com olhos desenhados nas lentes, uma técnica de design tipográfico bastante comum no final do século XIX para atrair o olhar do leitor. Como estratégia de promoção e garantia de credibilidade, a peça inclui ainda uma declaração de apoio assinada por A. G. Romano, Cônsul-Geral de Portugal e do Brasil em Hong Kong. Datada de 25 de Julho de 1888, a nota consular atesta a elevada qualidade dos óculos do especialista, sublinhando que estes permitiam ler durante várias horas seguidas sem cansar a vista.
Notícia do jornal:

Oculista - Na secção competente publicamos um annuncio enviado pelo sr. F. Laurence, da acreditada firma de Laurence & Mayo de Londres, Calcutta e Bombaim, oculista de grande reputação. O sr. Laurence deve chegar a esta cidade no dia 6 do proximo agosto e demorar-se-á no hotel de Heng-kee dois ou tres dias, onde dará consultas ás pessoas que queiram aproveitar seu valioso serviço. O attestado do sr. A. G. Romano consul geral de Portugal e Brazil em Hongkong, que vem publicado em seguida ao annuncio do sr. Laurence, é um documento que torna recommendavel o serviço do insigne oculista.
O Hotel Hing Kee no final do século 19. Ficava na Praia Grande, onde está actualmente o Hotel Metrópole



sábado, 26 de setembro de 2026

Leong Veng Heng (梁永馨香莊): Incenso e óleos medicinais

Fundada em 1875* pelo comerciante Leong Sau Ting, natural de Xinhui, a Leong Veng Heng (梁永馨香莊) foi uma das mais importantes fábricas de pivetes/incenso (神香) do território. 
Nesse ano a empresa estabeleceu-se junto ao Porto Interior na Rua do Pagode do Bazar 康公廟大街 - e mais tarde no Pátio das Palmas, na Calçada de S. Francisco Xavier, muito perto das Ruínas de São Paulo e do Templo de Na Tcha.


Segundo anúncios do início do século 20 a empresa também desenvolveu as suas próprias fórmulas de unguentos e óleos medicinais, como o famoso óleo Wui Chun, que era vendido na drogaria com o mesmo nome.
Gravura em cobre para publicidade da loja de incensos Leong Veng Heng
Rua do Pagode do Bazar /zona do Porto Interior
Museu de Macau

A par dos panchões (fogo-de-artifício) e dos fósforos, o fabrico de incenso foi uma das três grandes indústrias artesanais que sustentaram a economia de Macau entre o final do século 19 e meados do século 20 chegando a existir no tempo áureo da produção cerca de 40 unidades de fabrico. Entre as mais importante estava não só esta como também a Chan Luen Heng e a Leong Dai Heng.
Algumas das fábricas chegaram a instalar a produção também na vizinha província de Cantão e até em Hong Kong. Foi o caso da Leong Veng Heng cuja marca ainda hoje existe e tem fábrica na China continental.
No livro de 1929 "Macau: a mais antiga colónia europeia no Extremo-Oriente", Jaime do Inso refere que "Há em Macau 20 firmas de pivetes das quais a mais importante é a Leong-Veng-Heng , fundada em 1815*, que dispõe de duas fabricas com cerca de 800 operários de ambos os sexos , sendo o valor da sua produção anual superior a $120.000 patacas".
Nessa época - primeiro quartel do século 20 - José Neves Catela fotografou a loja que tinha ao centro da fachada os caracteres 梁 永 馨 . 
Lê-se da direita para a esquerda: Liáng Yǒngxīn - Leung Wing Hing em cantonense): 梁 (Leung / Liang): apelido da família fundadora; 永 (Wing / Yong): Eterno / Perpétuo; 馨 (Hing / Xin): Fragrância distante / Perfume suave, referência direta ao fabrico de incenso. 
Numa placa suspensa no lado direito está a inscrição 專辦各國金銀香燭 que significa "Especialistas na venda de incenso, velas, papéis de ouro e prata", utilizados em rituais/oferendas tradicionais.
Do mesmo lado uma pequena placa tem escrito em português "LeongueVeng Heng Drogaria Chinesa" seguida dos caracteres chineses 梁永馨老丹膏散 que significa "Antigos remédios, elixires, unguentos e pós de Leung Wing Hing".

Dessa fábrica que funcionou durante cerca de três décadas (até 1908) junto à antiga muralha que circundava a denominada "cidade cristã" resta hoje o portão de entrada onde estão inscritos os caracteres chineses que correspondem ao nome Leong Veng Heng.
Páteo das Palmas
A estrutura apresenta sinais de degradação e o governo vai avançar com obras de restauro. Num muro lateral (um pouco mais acima do lado direito da fotografia) estão grandes caracteres chineses 梁 (Liáng) 永 (Yǒng) 馨 (Xīn) 香 (Xiāng) 莊 (Zhuāng).
梁永馨 (Leung Wing Hing) é o nome da família e do estabelecimento. O apelido é "梁" (Leung) e o nome comercial "永馨" (Wing Hing) significa "Fragrância Eterna". Já 香莊 (Heung Chong) significa "Fábrica de Incenso".
* 1875 é o ano indicado pelo Instituto Cultural enquanto a data 1815 é a referida por Jaime do Inso.

Sequência de fotografias tiradas em 2024 por Chi Fai Lei




sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Feliz Festival do Meio de Outono / 中秋節快樂

中秋节 / Festival do Meio do Outono / Festival da Lua / Mid-Autumn Festival / Moon Festival são os vários nomes pelos quais é conhecida esta importante festividade da cultura chinesa que, claro, se celebra em Macau.
É verdade que o Outono ainda não começou mas aqui o que conta é o calendário lunar tradicional chinês, e não calendário solar (gregoriano) usado no Ocidente.
No calendário lunar, o ano é dividido em quatro estações fixas de três meses cada. O outono corresponde aos meses 7, 8 e 9, e a festividade celebra-se no 15.º dia do 8.º mês lunar, a meio do outono lunar e na noite de lua cheia de colheita.
Tradicionalmente comparado ao Dia de Ação de Graças ocidental, este dia junta gerações à volta da mesa para jantares festivos e para a partilha dos famosos bolos lunares, doces redondos com ricos recheios como pasta de lótus ou gema de ovo salgada que representam a plenitude e a harmonia. Ao cair da noite, as famílias apreciam a lua e acendem lanternas coloridas de papel que iluminam os espaços públicos e privados, enquanto recordam mitos ancestrais como a lenda de Chang'e, a deusa que reside na Lua.
Habitualmente o feriado oficial estende-se por três dias consecutivos para permitir as viagens e reuniões familiares.
Das memórias de juventude recordo as idas nocturnas à Praia de Hac Sa (Coloane) e à escadaria das Ruínas de S. Paulo para celebrar a festividade.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Carta do Comodoro Perry escrita em Macau em Outubro de 1853

Em Outubro de 1853, o comodoro Matthew C. Perry ancorou perto de Macau, no âmbito da sua missão de abertura do Japão ao comércio com os Estados Unidos. Pouco tempo antes, em Julho, Perry tinha entrado na Baía de Edo (atual Baía de Tóquio) com uma frota de navios para entregar uma carta do presidente Millard Fillmore, exigindo que o Japão abrisse os seus portos ao comércio americano. Após este contacto inicial, Perry deixou o Japão para dar tempo ao governo japonês para considerar o pedido e preparar-se para o seu regresso. Durante este intervalo, Perry ancorou nas proximidades de Macau e noutros locais da região, preparando-se para regressar ao Japão, um regresso que culminaria com a assinatura do Tratado de Kanagawa, em Março de 1854.
Nas imagens uma carta escrita em Macau pelo Comodoro Perry a 20 de Outubro de 1853. Na época Perry e a comitiva encontraram-se algumas vezes com Sarah, mulher de um comerciante dos EUA e que deixou um diário recentemente descoberto.
Na carta escrita a bordo do US Flagship Mississippi, o Comodoro Matthew C. Perry dirige-se aos reverendos Dr. House e Dr. S. Mattoon para sondarem a possibilidade de uma futura missão diplomática ao Sião (actual Tailândia). Tendo em vista a conclusão da sua missão no Japão, Perry pretende modificar e expandir o tratado existente entre os Estados Unidos e o reino do Sião, mas procura agir com prudência para evitar uma rejeição que prejudique as relações entre os dois países, tal como aconteceu numa tentativa anterior liderada por Mr. Ballestier. Para esse efeito, o Comodoro solicita aos missionários que auscultem discretamente a disposição do Rei do Sião e dos seus conselheiros. Esta sondagem deve ser apresentada como uma iniciativa pessoal dos próprios missionários, informando as autoridades locais de que Perry possui plenos poderes para negociar, mas que só viajará até Banguecoque com as suas fragatas a vapor se tiver garantias de uma recepção favorável.  Perry sugere ainda a ideia de incentivar o Rei a enviar um dos seus melhores navios aos Estados Unidos com oficiais para estudar as instituições americanas, citando os exemplos bem-sucedidos do Sultanato de Mascate e do Império Otomano. O Comodoro conclui explicando que enviou o documento em duplicado por correios diferentes para garantir a sua chegada, esperando que um convite oficial do Rei viabilize o início formal das negociações. 
Transcrição:

US Flagship Mississippi
Macao October 20th 1853.
Rev.d Dr House.
Rev.d Dr S Mattoon

Dear sirs
Our friend the Rev.d Dr Parker of Canton informs me of his having written to you, with reference to a contemplated visit of mine to Siam, after I shall have accomplished my Japan mission.
He has doubtless intimated to you my desire to obtain some accurate information, as to the probability of a favorable reception by the King of Siam of any propositions, I might make, for modifying and enlarging the Stipulations of the present Treaty, between the United States and that Kingdom; and of inducing the King to send one of his finest ships to the United States, in charge of some of the most intelligent of his officers, that they might examine into our institutions, religious, civil, military, and commercial, and take back with them an account of what they shall have seen, as furnishing evidence of the advantages, that Siam would derive from a free and mutually liberal intercourse with us.
I am well aware of the impolicy of taking any steps in this business, until I can learn of a certainty, whether the King and his advisers would receive my proposition with favor, and be disposed to enter into friendly negotiation.
Another failure following that of Mr Ballestier, would put our relations on a worse footing than they now are, and this is the object of my addressing myself to You, to ask as a particular favor, that You would, if it be at all practicable, ascertain the feelings and disposition of the King and his Counselors, with respect to any diplomatic visit, I might make to Bankok.
These inquiries should be made, as if emanating directly from Yourselves as Americans, and well wishers of a more friendly understanding between the two Countries; You might say, that You have been credibly informed, that Commodore Perry has been charged with full powers to negotiate with Japan, Siam, Cochin China, and other Eastern Nations, but he is not disposed to make any advances towards Siam, until he is well assured, that such friendly demonstrations would be met in the same frank and liberal spirit, that the United States as a Nation is very powerful, and any rejection of proffers made by an accredited Ambassador of that Country, would if treated cooly, give great offence, that a reciprocal treaty with a nation of such vast commercial resources must result to the advantage of the weaker power; and if Commodore Perry could have sufficient proof from any authentic source, that a visit from him with one or more of the splendid Steam Frigates, he has under his command, would be favorably received, he would doubtless go to Siam, and pay his respects to the King. —
When at Galle in Ceylon in March last, I saw a Siamese Sloop of war at that Port, and was visited by her Captain, and some Buddhist Priests, who were on a pilgrimage to a Temple near by; I sent the Second King of Siam, the one who speaks English so well, a trifling present; since then a Siamese vessel at Whampoa has at the request of her Captain, been assisted by one of my Ships; these little acts are proofs of our friendly disposition towards the Siamese; and I feel assured, that if the King would send one of his Ships whether with cargo or not to the United States, the result would be most gratifying to him. —
The Sultan of Muscat sent some years ago a sloop of war to our Country, and her officers were treated with great kindness and distinction, the same with respect to an officer, sent a short time ago by the Sultan of Turkey to the United States.
If the King of Siam determines on despatching one of his ships, whether on a voyage for observation, or commerce, or both, it will give me pleasure to offer my services in every possible way, to facilitate so desirable an object. —
You will, my dear Sirs, readily understand the motives which actuate me in this delicate business, and whilst You are acting seemingly to effect some object desirable to Your own wishes, You may be the means of obtaining such information, as will make a visit of mine of great advantage to both Nations. If it were possible to bring about an invitation from the King, that I should visit Siam, negotiation would follow as a matter of course. —
I send a copy of this letter to each of you gentlemen; and by different mails in the possibility of the miscarriage of one of them.
Very respectfully
Your obedient Servant
M. C. Perry
Commander in Chief U.S. Naval Forces

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Vinhos de arroz, de sorgho, etc."

Loja de vinho chinês em Macau: meados do séc. 20

Vinhos de arroz, de sorgho, etc.
Sam-chú, que significa litteralmente vinho queimado, é uma aguardente, muito forte e com um cheiro empyreumatico, que se obtem pela distillação das sementes de algumas gramineas e principalmente do arroz. E' usada em todo o imperio. Segundo Debeaux (de quem tiro estes dados) fabrica-se o Sam-chú molhando o arroz em agua quente, até que os grãos estejam completamente inchados, que é quando se deitam em agua na qual se dissolveu o Péká, preparação composta de farinha de arroz, de raiz de chicorea e alho. O Péká accelera a fermentação do arroz, mas communica-lhe um cheiro particular a empyreuma. Em seguida distille-se o mixto. O Sam-chú é por assim dizer a primeira preparação do excellente Arrack das Indias, que, segundo o mesmo auctor, é distillado em grandes alambiques quer em Java, quer em Goa (sic) ou misturando-se previamente o Sam-chú com xarope de assucar ou com a agua do coco. Segundo o viajante Osbeck, para se obter a aguardente de arroz, ajuntava-se aos liquidos destinados á distillação hastes frescas ou verdes do Holcus saccharatus (Lin), planta cultivada no centro e no norte da China. Os chins tambem usam o vinho de arroz ou d'outros cereaes, fermentado, mas sem ser distillado; emquanto o de uvas é quasi desconhecido, apesar de haver a vinha em muitas provincias do Imperio, cultivada desde a mais remota antiguidade e se referirem os annaes chinezes ao uso d'este vinho. O vinho de cereaes, não distillado, é fabricado por meio do kiu-tzé ou semente de vinho, que é a borra dos toneis em que fermentaram o arroz e outras sementes gramineas. Mistura-se uma pequena porção d'esse kiu-tzé á farinha de arroz (ou de trigo, de milho, de cevada, etc.) que se deita n'umas grandes jarras ou kangs, onde se deixa fermentar tudo. Ao vinho assim fabricado, e especialmente ao de arroz, chama-se Cha-sin-kiú. De maneira que é conveniente não confundir este vinho com a aguardente propriamente dita, que é o sam-chú. Com o sumo do sorgho assucarado, tambem se fabrica vinho e aguardente que contem um oleo essencial, que lhe dá um gosto sui generis. O liu-pun de Macau é uma especie de vinho aguardentado de arroz, muito usado por toda a população china, que tambem tem os deliciosos vinhos de ameixas, de rosas, etc., que são uns verdadeiros licores.

Excerto de "Asia Sinica e Japonica" do frei José de Jesus Maria. Esteve em Macau em meados do século 18. O original é um manuscrito da época dado a conhecer pela primeira vez na publicação "Ta-ssi-yang-kuo: archivos e annaes do Extremo-Oriente portuguez" já no final do século 19. Na década de 1930 Charles Boxer encontrou uma cópia do manuscrito à venda em Lisboa e publicou-o em livro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Centenário do Sporting Clube de Macau: 1926-2026

Na edição de 11.9.2926 o jornal A Pátria informava que "Em portaria provincial, datada de 9 do corrente, foram aprovados os estatutos dêste novo clube. Os nossos parabens". Seria a 25.ª filial do Sporting Clube de Portugal. Da primeira direcção fizeram parte Henrique Nolasco da
Silva (Presidente), Francisco Borralho e Ângelo do Rosário.
A Portaria nº 172 tem a data de 8 de Setembro e foi publicada no dia seguinte no Boletim Oficial do governo da Província de Macau.
O Governador interino da Província de Macau, ouvido o Conselho Executivo, aprova, para os devidos efeitos, os Estatutos da Sociedade Desportiva «Sporting Club de Macau», que baixam assinados pelo Secretário Geral do Govêrno e fazem parte integrante desta portaria. Cumpra-se. Palácio do Govêrno em Macau, 8 de Setembro de 1926. — O Governador interino, Hugo de Lacerda. Estatutos da Sociedade Desportiva «Sporting Club de Macau» CAPÍTULO I Fins e organização 1. A sociedade «Sporting Club de Macau», organizada com o fim de desenvolver a educação física dentro desta Colónia, proporcionará aos seus sócios toda a instrução ginástica, quer individual ou colectiva, quer aplicada, e bem assim a prática de todos os jogos e desportos físicos. 2. A parte de educação física será dividida em quatro secções, regidas por um regulamento interno: 1.ª Secção — Ginástica Suéca e aplicada.
2.ª Secção — Desportos atléticos.
3.ª Secção — Jogos e desportos individuais e colectivos.
4.ª Secção — Náutica. 3. A autoridade soberana da sociedade reside na assemblea geral, reunida conforme as prescrições dêstes estatutos. (...)
Imagem criada por IA de acordo com regulamentos de 1926

De acordo com os estatutos (Cap. 17 e 18) as bandeiras e equipamentos do clube ("pavilhão e uniformes") eram:
Os pavilhões serão os seguintes:
N.º 1 — Do Club — Verde, rectangular, tendo no centro o leão do Club inferiormente semi-circundado pelas iniciais S. C. M. em branco. 
 N.º 2 — Dos teams de foot-ball — Rectângulo branco com duas faixas verdes em diagonal, tendo no meio do rectângulo, junto à tralha, o leão do Club. 
 N.º 3 — Da equipe de desportos atléticos e jogos — Rectângulo branco com o leão do Club junto à tralha. 
 § 1.º O pavilhão n.º 1 será hasteado na sede da sociedade e nos campos onde o Club concorra, em dias de festa nacional, domingos e dias de assemblea geral. Será hasteado em funeral, na sede, durante três dias, quando falecer algum sócio. 
 § 2.º Os pavilhões n.º 2 e 3 serão hasteados sempre e onde oficialmente esteja representado o Club, quer em provas de foot-ball, quer em desportos atléticos, quer em jogos individuais ou colectivos.
Imagem criada por IA de acordo com regulamentos de 1926

18. Os uniformes do Club serão: 
 1. Para foot-ball — Camisa de algodão com frente e costas alternadamente partida em duas metades, uma verde e outra branca.
colarinho e punhos pretos, bolso preto no lado esquerdo, e neste o leão do Club semi-circundado pelas iniciais S. C. M. Calção preto e meias pretas com o canhão verde e branco. 2.º Para tennis, cricket e similares — Calça, meias, sapatos e camisa branca tendo sobre o bolso o leão do Club. Quando se jogar com sweter deverá esta ser branca, sem gola, com fecho verde e preto e o leão no peito. 
3.º Para desportos atléticos, remo, ciclismo, etc. — Calção preto e camisola branca de mangas curtas e sem gola, decotada e debroada a verde, tendo no peito o leão do Club. 
4.º Para natação — Maillot preto debroado de branco tendo no peito o leão do Club semi-circundado pelas iniciais S. C. M., tudo em branco igualmente. 
 49.º O distintivo do Club será um leão em campo verde circundado por uma faixa negra com as iniciais S. C. M. 
 50.º O uso dos uniformes é obrigatório em todas as provas oficiais, em dias de festa do Club e sempre que a direcção o entenda conveniente. 
 51.º É absolutamente vedada a prática de qualquer sport, sem o uniforme apropriado. 
 52.º Os directores, membros da comissão revisora de contas, membros da assemblea geral, directores técnicos e médico, e bem assim os capitães de equipe e dos teams, usarão sobre o leão, quando na efectividade, uma estrela de cinco bicos, em ouro ou dourada.
Bandeira do "Foot-ball" segundo os regulamentos
ilustração criada por IA não garantido ser totalmente fiel ao original

Pouco mais de um mês depois, a 24 de Outubro, era "inaugurado solenemente este novo Clube que tem a sua sede na Av. Conselheiro Ferreira de almeida nº 27", segundo notícia do jornal A Pátria a 22 de Outubro de 1926.
PS:
Sugiro a leitura do artigo publicado no jornal Ponto Final de 22.9.2026 sobre o centenário do SCM. Quando joguei nos júniores do SCM no final da década de 1980 o equipamento já tinha as tradicionais listas horizontais verdes e brancas. Eram camisolas de tecido 'pesado' provavelmente da década de 1960/70. Curiosamente este equipamento surgiu também 1926. Em finais desse ano, ao assistir a uma partida de râguebi em que participava o Racing de Paris, Salazar Carreira ficou tão impressionado com as camisolas usadas por esta equipa, que levou uma para Lisboa e adaptou-a às cores do Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Postal da "Se Cathedral" enviado para Cuba em 1923

Na imagem um postal ilustrado da Sé Catedral de Macau durante o início da década de 1920, exibindo a fachada lateral e a torre sineira equipada com o seu relógio. A estrutura representada corresponde à versão neoclássica do edifício edificada em meados do século XIX, anterior à remodelação que teve lugar em 1937 e que alterou em parte a traça exterior. Na margem inferior da imagem, uma legenda impressa a vermelho "Se Cathedral, Macao".
Do ponto de vista da história postal, atente-se à clareza das marcas de circulação. No canto inferior direito encontra-se afixado um selo de 6 avos obliterado pelo carimbo octogonal do CORREIO CENTRAL - MACAU com a data de 23 de Agosto de 1923. A acompanhar a estampilha, destaca-se um carimbo circular de trânsito e chegada com a inscrição HABANA, CUBA, datado de 22 de Setembro de 1923, o que comprova que esta correspondência demorou exactamente um mês a viajar entre Macau e as Caraíbas.

sábado, 19 de setembro de 2026

Memórias da comissão militar de José Rosa (1969-1971)

José Rosa tinha 21 anos quando chegou a Macau como militar. Numa rendição individual partiu de Lisboa a bordo do navio Timor - Companhia Nacional de Navegação - a 26 de Dezembro de 1969, uma sexta-feira. Atracado no cais da Rocha Conde de Óbidos, o Timor impressionava com 131 metros de comprimento, 7656 toneladas de arqueação bruta e lotação para 387 passageiros e 120 tripulantes.
A bordo seguiam mais cerca de 200 militares. A maioria ficou alojada no porão. Uns iam para Macau outros para Timor, o destino final (Dili). Desde 1967, com o encerramento do Canal do Suez, passou a seguir para o Oriente pela rota do Cabo da Boa Esperança (África) com escalas em Angola e Moçambique. José Rosa fez escala no Lobito (onde visitou a irmã), Luanda, Beira e Lourenço Marques. Ao fim de 48 dias o Timor lançou âncora em Hong Kong. Da então colónia britânica quem tinha como destino Macau podia viajar nos novos hydrofoils ou nos mais velhinhos ferries a vapor, como o Fat Shan, o Tai Loy ou o Tak Shing. A viagem demorava cerca de 3 a 4 horas. Os militares seguiam nos mais baratos e mais lentos ferries. 
Troço final da Av. Almeida Ribeiro nos anos 1970
ilustração criada por IA a partir de fotografia

Quando atracou no Porto Interior, já era noite cerrada daquela quinta-feira 12 de Fevereiro de 1970. Ainda deu para ver o bem iluminado casino flutuante denominado "Casino de Macau".
José Nobre de Carvalho era o governador promovido a general em Novembro de 1970. Os trabalhos para construção da ponte, a primeira a ligar Macau à Taipa, estavam prestes a começar. Uma ponte que haveria de receber o nome do governador... Mas isso seria apenas em Outubro de 1974. Em 1970 ainda pairava no ar a tensão dos momentos quentes da Revolução Cultural chinesa vividos de forma mais intensa entre 1966 e 1967.
Dos tempos de serviço José Rosa recorda fazer rondas com os carregadores vazios, dos corpos de chineses que surgiam junto à costa, afogados, ao tentarem entrar em Macau a nado.
J. Rosa frente ao Hotel Lisboa onde se destaca o trabalho artístico de Francisco Borboa
À chegada o Hotel Lisboa ainda cheirava a novo. Tinha sido inaugurado poucos dias antes, a 3 de Fevereiro, a tempo de aproveitar os festejos do Ano Novo chinês (Ano do Cão). O Lisboa dava também para matar saudades da metrópole, como se dia na altura. Havia comida portuguesa e por vezes sessões de fado. Na gastronomia portuguesa o Lisboa podia ser novidade mas a qualidade a preços mais acessíveis conseguia-se no Ruby, Belo, Safari, Fat Siu Lau, Solmar... No casino os militares não estavam autorizados a entrar, mas podiam ver e jogar nas máquinas de diversão e no bowling. Ou então assistir às corridas de galgos no Canídromo, na época muito concorridas.
O novo e majestoso edifício contrastava com uma urbe que mais parecia uma pequena vila onde as diferentes comunidades pouco conviviam e os militares, não sendo hostilizados, eram olhados com desconfiança. No Porto Exterior, depois da curva dos pescadores, junto ao Reservatório, ainda havia as "barracas de banho".
Um maço de cigarros custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. As marcas eram muitas. Muita oferta tal como nas salas de cinema: Apollo, Nam Van, Vitória, Lido, Capitol, etc...
Na baía a Praia Grande ainda abundavam os pontos de pesca artesanal (umas canas de bambú compridas e com redes agarradas), nomeadamente junto ao Hotel Caravela, na Av. da República.
As saudades de Portugal podiam ser atenuadas em momentos como os que ocorreram em Agosto de 1970 quando no Jardim de Camões actuou (dia 16) a Tuna Académica de Coimbra e a Orquestra de Câmara Carlos Seixas, sob a direcção de Tobias de Lurdes Cardoso... ou quando a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica fez dois jogos (dias 20 e a 22) no Campo 28 de Maio (Canídromo) tendo vencido a selecção local por 4 golos e a selecção de Hong Kong por 7 golos sem resposta. Num jornal da Companhia de Polícia Militar da época pode ler-se:
"Tu vieste a esta pequena parcela do Território Nacional, modificar-lhe a sua maneira de viver durante cinco dias. Tu, Benfica, foste um verdadeiro embaixador da Mãe Pátria. Vieste aqui e todos te reconhecem como um grande no desporto. na correcção e na socialidade. Esse abraço que trouxeste, a nós militares, de todos os portugueses - que tão longe se encontram de nós - não será facilmente esquecido. A nós, militares, foi uma alegria e honra ver a tua atenção para connosco e mesmo procurar a nossa companhia. Nunca nos esqueceremos da fantástica lição de futebol e correcção que deram. Saíste vitorioso do campo, depois de teres feito abrir a boca de espanto e admiração à grande maioria da assistência. Aquele aceno amigo que fizeste no princípio do jogo também não será esquecido... Por tudo, Benfica, por nos teres dado a grande alegria de ver o teu futebol, pela tua correcção, pela tua socialidade e pelas atenções que tiveste com todos os militares, o nosso Obrigado."
Em plena guerra colonial no Ultramar, a José Rosa coube cumprir o Serviço Militar Obrigatório em Macau, um território pacífico, exótico e isolado no Extremo Oriente, escapando à mobilização para a frente de combate em África. Talvez por ser Operador de Rádio, função que ocupou integrado no destacamento de manutenção instalado nas denominadas "Barracas Metálicas" do Quartel de Mong Ha tendo como comandante o capitão Alberto Pereira.

Ao fim dos dois anos de comissão José Rosa regressaria de avião a Portugal em 1971. De Macau ainda levou a recordação de ter participado no Grande Prémio, prova onde os militares serviam por exemplo como 'bandeirinhas' de pista.
PS: Artigo escrito depois do filho de José - Pedro Jorge Rosa - ter-me contactado. Com 78 anos e alguns problemas de saúde, o pai, embora queira - e muito - já não se recorda de muita coisa. Este artigo visa o reavivar da memória e também encontrar antigos militares que tenham estado em Macau na mesma época para troca de impressões com José Rosa. Quem o pretender basta usar os contactos do blogue que reencaminharei a mensagem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On

A Tung On Steamship Company foi uma importante empresa de navegação marítima criada em Hong Kong na década de 1920, tendo a sede em Queen's Road Central e um cais próprio na zona de Sheung Wan. Em 1925 a companhia operava navios a vapor emblemáticos no transporte de passageiros e mercadorias, como o SS Tung On e o SS Sai On, que asseguravam as rotas comerciais regionais entre Hong Kong, Cantão e Macau. A 25 de Julho de 1925 era publicado este anúncio na imprensa macaense dando conta do início da "Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On.
Anúncio de 25.7.1925

A grande rival de capitais britânicos nesta rota era a prestigiada Hongkong, Canton & Macao Steamboat Company, fundada ainda no século XIX, que dominava o transporte regular de passageiros e carga com navios a vapor emblemáticos como o SS Fatshan, o SS Sui An e o SS Kinshan. Ao lado desta, gigantes coloniais britânicos como a China Navigation Company (da Swire) e a Indo-China Steam Navigation Company (da Jardine Matheson) estendiam as suas vastas redes comerciais costeiras e fluviais a estas mesmas águas.
A Tung On Steamship Company operou de forma independente até ao início da Segunda Guerra Mundial, momento em que a sua frota foi destruída ou confiscada devido à invasão japonesa. O fim da atividade da empresa deu-se em Dezembro de 1941, durante a Batalha de Hong Kong. Para evitar que os navios caíssem nas mãos das forças japonesas que avançavam sobre a colónia britânica, o principal navio da companhia, o SS Tung On, foi afundado deliberadamente. O outro navio icónico da frota, o SS Sai On, acabou por sobreviver à guerra, mas o negócio original da Tung On desmoronou-se com o conflito. Capturado durante a ocupação japonesa e rebaptizado como Sean Maru, o Sai On continuou a navegar. Já depois do fim da segunda guerra mundial, após um grave incêndio em 1947 a carcaça foi comprada pela companhia Tai Yip Co. Ltd. e o navio foi inteiramente restaurado e modernizado nos estaleiros de Cheoy Lee regressando à rota Macau-Hong Kong em 1950 com o nome de SS Tak Shing. Em 1968 voltaria a mudar de nome - Tung Shan - e em 1974 foi vendido para sucata.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Procissão de Nossa Senhora dos Remédios é Património Cultural Imaterial

A procissão e a devoção a Nossa Senhora dos Remédios passaram a integrar a lista do Património Cultural Imaterial de Macau segundo o boletim Oficial de 15 de Setembro último.
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios é promovida pela paróquia de São Lourenço e a procissão realiza-se anualmente em Outubro.
Entre as manifestações católicas já reconhecidas como Património Cultural Imaterial de Macau contam-se a procissão de Nossa Senhora de Fátima, realizada anualmente a 13 de maio, e do Senhor dos Passos, celebrada no primeiro fim de semana da Quaresma.
Na fotografia uma procissão religiosa tendo à frente D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo de Macau de 1954 a 1960. Atrás, de fato claro e gravata escura, o Almirante Joaquim Marques Esparteiro, Governador de Macau entre 1951 e 1957. Ao lado, de fato escuro e chapéu branco a mulher, Laurinda Marques Esparteiro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Fortaleza do Monte / 大 炮 台: 400º aniversário

Na imagem a pedra de armas da Fortaleza do Monte (Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de São Paulo) colocada sobre a porta de entrada.
O frontão triangular tem esculpida a figura de S. Paulo, patrono da fortaleza. A pedra rectangular por baixo inclui um escudo de Portugal, encimado por uma coroa rematada com cruz. O escudo é flanqueado por dois querubins de pé. O anjo do lado esquerdo ostenta a Cruz de Cristo, e o anjo da direita a esfera armilar rematada por uma estrela. Em baixo tem a inscrição ANNO DNI 1626, ou seja, "No Ano do Senhor de 1626", a data da conclusão da fortaleza cujos primórdios vou abordar de forma sucinta.
A estrutura nasceu originalmente como uma casa forte (cofre) construída pelos jesuítas impulsionados pela organização político-institucional do bispo D. Melchior Carneiro para proteger a fortuna do comércio da seda e da prata com o Japão financiado a uma taxa de 1%.
Na segunda década do século XVII (crê-se que a partir de 1617), ergueu-se a estrutura inicial (paredes de 1,10 m, porta dupla), construída por padres e pelos seus escravos. Com a obra ainda inacabada, em Junho de 1622 quando os holandeses tentaram invadir Macau foi daqui que foi disparado o tiro certeiro que levou à derrota holandesa.
Em 1623 o novo governador de Macau tomou a fortaleza aos jesuítas, recorrendo a um destacamento militar vindo de Manila (Espanha), transformando-a oficialmente em bastião e residência do governador.
Quando concluída em 1626 as muralhas ficaram com cerca de 9 metros de altura, sendo a espessura das paredes na base com 3.7 metros e no topo com 2.7 metros.
Ao longo dos tempos a fortaleza teve múltiplas utilizações. Foi quartel militar, presídio, albergou os serviços de meteorologia (década 1960), foi depósito de vestígios arqueológicos... Com o fim da presença militar em 1975 a fortaleza passou a estar aberta ao público e no final da década de 1990, após obras, foi ali instalado o Museu de Macau (1998), situação que ainda se mantém.
Neste ano de 2026 celebra-se o 400.º aniversário de conclusão da construção da Fortaleza do Monte.
PS: para consultar mais publicações sobre a Fortaleza do Monte utilizar o campo de pesquisa.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural