terça-feira, 14 de julho de 2026

O funeral de Tamagnini Barbosa em Julho de 1940

Retrato a óleo (oficial) 
Imagem restaurada com a recurso a IA

A morte do governador (pela terceira vez) Artur Tamagnini Barbosa a 10 de Julho de 1940 ocupou toda a primeira página da edição desse dia do jornal A Pátria.
O padre Manuel Teixeira assina o artigo "Preito de Saudade" onde escreve ter acompanhado o governador nos últimos momentos de vida no Palacete de Santa Sancha, a residência oficial.
"Rodeado por quase todos, senão todos os Chefes de Repartição, assistido pelos médicos do corpo e da alma, amparado pelos amigos e tendo á cabeceira o seu filho estremecido, ás 7.25 horas da manhã*, S. Exa. o Governador* da Colónia, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, expirou plácidamente no ósculo do Senhor, com a cabeça inclinada para o lado direito."
A grande mancha da capa do jornal tem como título "O Governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa, faleceu ás 7.25 horas de hoje" e inclui uma fotografia.

"Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o governador predilecto de Macau, deixou hoje de viver nêste mundo de misérias e amarguras. De meia em meia hora a voz da artilharia está anunciando a todos a morte do preclaro cidadão.
Nesta mimosa e serena cidade de Macau, a que ele tanto se afeiçoou, berço de entes queridos, irmãos e filhos, nesta parcela de Imperio Colonial Português a que sempre dedicou cuidados especiais e pela qual, pelo muito que lhe queria, não hesitou em abandonar a situação culminante a que o seu mérito o guindára, para, sem olhar á saude, á categoria e aos proventos, vir ocupar o mesmo lugar com que iniciára quasi, há bem longos anos, a sua notavel carreira politica, Artur Tamagnini exalou o seu ultimo alento, após um prolongado e cruciante sofrimento, de que afectuosas dedicações não conseguiram salvá-lo.
Neste tão decantado e mimoso torrão português findou a existencia de Artur Tamagnini Barbosa, longe dos entes queridos — apenas o acompanhava um filho, Marco Antonio — sem conseguir vêr coroado do completo exito que desejava o seu esfôrço patriotico e desassombrado em prol de Macau.
Cidadão honesto, sincero, patriota, a sua vida, toda de trabalho, de honradêz, de lealdade e de dedicação pode sêr exposta á luz clara do dia, para exemplo dos que queiram seguir, sem tergiversar, a estrada do Dever.
O grande, imenso prestigio que carinhosamente cercava a inconfundivel figura de Tamagnini Barbosa, a admiração e o respeito que lhe tributavam as autoridades inglesas e chinesas e outras das circunvisinhanças desta Colónia, revelam bem o aprêço em que era tido o distinto colonialista nestas melindrosas paragens do Extremo-Oriente, hoje mais que nunca o ponto nevrálgico do mundo.
Estimado de longa data por tôda a comunidade chinesa e população macaense e europeia, era o perfeito colonizador e o mais excelente representante da civilização portuguesa. As manifestações de consideração e amizade de que foi alvo durante todos os periodos do seu govêrno em Macau são o melhor testemunho de quanto valia Sua Excelencia, que com lhaneza e refinado trato sabia manter a estima e o respeito de todos.
Artur Tamagnini de Sousa Barbosa foi nomeado a primeira vez governador de Macau por decreto de 1 de Junho de 1918, tomando posse em 12 de Outubro do mesmo ano. Uma mudança de ministério alguns mêzes depois originou o seu regresso a Portugal.
Por decreto de 19 de Junho de 1926 foi, pela segunda vez, nomeado governador da Colónia, o primeiro governador que para Macau foi nomeado pelo governo da Ditadura, tomando posse em 8 de Dezembro do mesmo ano, cargo que deixou em 1931 aureolado de invulgar prestigio nos meios estrangeiros, cujas autoridades frequentemente o visitavam.
Nomeado pela terceira vez governador de Macau, por decreto de 12 de Dezembro de 1936, cargo de que tomou posse em 11 de Abril de 1937, a morte abruptamente lhe interrompeu a carreira, hoje, ás 7.25 horas, contando 59 anos de idade.
A seus queridos filhos e irmãos e mais familia enlutada apresenta A Voz de Macau sentidas condolencias."
Aspecto do cortejo fúnebre a 11 de Julho de 1940
entre o Largo do Senado e o Largo de S. Domingos
Foto colorida com recurso a IA.
Original muito provavelmente da autoria de Neves Catela

Nota: Devido à Segunda Guerra Mundial o caixão forrado de zinco ficou muitos anos depositado na igreja da Sé. O corpo do governador só foi transladado para Portugal a 7 de Dezembro de 1946 a bordo do paquete Quanza que chegou a Lisboa a 21 de Janeiro de 1940 tendo nesse dia sido realizado um novo funeral no cemitério do Alto de S. João.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Brasão de Armas na Porta do Cerco

Entre a ideia e a concretização do Museu Camões passaram tantas décadas que muitas peças do património arquitectónico - que pelas mais diversas razões tiveram de ser retiradas dos locais originais - foram sendo depositados em espaços como as traseiras das Ruínas de S. Paulo e a Fortaleza do Monte.
Aquando da Implantação da República em 1910 (Portugal) muitos dos símbolos monárquicos que estavam em edifícios/monumento foram retirados*. Foi o caso do escudo heráldico português que estava ao centro no topo do arco da Porta do Cerco. Tudo indica que foi removido para a Fortaleza do Monte. De uma fotografia de 1987 ali tirada identifiquei o que me parece ser o referido brasão. Tem a bordadura com os castelos e o interior preenchido com as "quinas". 
O escudo está danificado, apresentando uma fractura horizontal proeminente na rocha que pode ter ocorrido aquando da remoção e/ou transporte. A fotografia maior é do período anterior a 1910 vendo-se a bandeira da monarquia.

 

A disposição heráldica apresentada (quinas laterais na vertical e não inclinadas) foi fixada em Portugal no final do século XV (reinado de D. João II, em 1481). No entanto, o estilo da pedra, a textura e os elementos decorativos esculpidos na parte superior sugerem que se trata de uma obra produzida entre os séculos XVIII e XIX (períodos barroco e neoclássico). Ora a Porta do Cerco foi construída em 1870/71 pelo que considero a hipótese provável. Mas poderá ter tido outra origem...
* No caso da toponímia a Rua Nova Del Rei passou a denominar-se Rua Cinco de Outubro.

domingo, 12 de julho de 2026

Mercado Vermelho/紅街市

Desenhado em 1934 pelo arquitecto macaense Júlio Alberto Basto, o que viria a ficar conhecido como Mercado Vermelho, foi construído para dar resposta ao crescente aumento populacional nomeadamente para zonas longe do centro da cidade. O local escolhido era então bastante amplo e com poucos edifícios.
Trata-se de um edifício típico do estilo art deco. Tem três pisos, desenho simétrico, uma torre do relógio ao centro e uma torre de vigia em cada esquina. Entrou em funcionamento em Julho de 1936.
Desenho/Planta de 1934

De acordo com a arquitecta Ana Tostões o edifício "
representa a primeira construção claramente devedora das correntes do movimento moderno internacional""desenvolve‐se em três pisos, definindo o quarteirão a partir das quatro torres situadas em cada esquina. Desenhado segundo dois claros eixos de simetria, com a torre do relógio no centro, enquadrando a entrada principal, e as restantes em cada esquina. A entrada principal é marcada por uma ampla abertura, que se conjuga com o corpo da torre do relógio, mais alta e recuada em relação ao plano da fachada. A estrutura em betão, formada pelo sistema de pilar‐viga, é assumida como gramática formal marcando o ritmo, desenhando-se as aberturas das janelas nos espaços intersticiais da estrutura portante."
Apesar de ser conhecido desde cedo como "Mercado Vermelho" 紅街市 (Hung Kai Si em cantonense) devido à cor dos tijolos, o nome formal foi Mercado Municipal da Avenida Horta e Costa. Fica localizado na esquina desta avenida com a  Avenida Almirante Lacerda.
Oficialmente receberia a designação: Mercado Municipal Almirante Lacerda (提督街市), uma homenagem a Hugo de Lacerda Castelo Branco (Almirante Lacerda), figura proeminente em Macau, responsável por importantes obras portuárias e aterros na zona no início do século XX.
O Mercado Vermelho está inscrito na Lista do Património de Macau sendo classificado como "edifício de valor arquitectónico".
O mercado abriu ao público em Julho de 1936
Na altura da construção o mercado é referido como estando localizado na Av. Horta e Costa.
Jornal A Voz de Macau em Julho de 1936

Na edição de 7.7.1936 o jornal A Voz de Macau refere que o edifício seria inaugurado em breve:
"O edificio, com dois pavimentos, afóra o terraço, construção em cimento armado, é amplo, majestoso, podendo dizêr-se que é o melhor existente em tôdo o Extremo Oriente. Os seus compartimentos, muito claros, são espaçosos e higienicos, havendo um espaço destinado a frigorifico e junto á escada que conduz ao pavimento superior um outro espaço reservado a elevadôr."


sábado, 11 de julho de 2026

怡神你令最

Na imagem um anúncio da Coca-Cola para o ano de 1964 em Macau (do Anuário desse ano). A bebida era produzida pela "Macau Industrial Limitada" a "engarrafadora autorizada" da bebida denominada em chinês 可 口 可 乐.
 A marca chegou ao território em 1949 e só depois foi criada uma fábrica.
A imagem da campanha publicitária era igual para todo o mundo mas adaptada a cada mercado. Em Macau o mote da campanha estava expresso com os caracteres 怡神你令最 que significam "Mais refrescante e revigorante".

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas, da autoria do chantre António André Ngan.

Nas imagens 6 livros (de poucas páginas) de edições entre 1963 e 1982 da Imprensa Nacional de Macau.



quarta-feira, 8 de julho de 2026

Companhia "Tai-Sang" dos vapores de carreira Macau-Hongkong

Anúncio de 1939 da Companhia "Tai-Sang" - 泰商 - dos vapores de carreira Macau-Hongkong.
Companhia "Tai-Sang" dos vapores de carreira Macau-Hongkong

Os vapôres "Kau-Tung" e "Macau", com explendidas acomodações, dotados com as mais aperfeiçoadas e higienicas acomodações e tendo um pessoal esmerado fazem as carreiras entre esta cidade e Hongkong, com o seguinte horario, e por preços muito convidativos:

Vapor "Macau"
De Hongkong para Macau Ás 8.15 horas
De Macau para Hongkong Ás 16 horas.

Vapor "Kau-Tung"
De Hongkong para Macau Ás 14,30 horas.
De Macau para HongkongÁs 3.30 horas da madrugada

1a. classe = $3.00; ida e volta = $5.00; 2a. classe = $2.00; 3a. classe = $1.40.
Os passageiros do deck pagam $0,70, e no porão $0,30.

As passagens de Macau para Hongkong são pagas em notas chinêzas só nas 2a., 3a. classes e no porão, e de Hongkong para Macau em notas europeias.

Quaisquer informações são prestadas pelo telefone No. 2353 a bordo dos referidos vapores,ou pelo telefone da Companhia "Tai-Sang", No. 973, Avenida Almeida Ribeiro (Hotel Central, 1.º andar)


Um dos vapores da empresa na ponte-cais nº10

Os vapores Macau (澳門) e Kau-Tung (九江) eram gémes. Foram construídos em 1903 e tinham1.665 toneladas. Transportavam carga e centenas de passageiros, incluindo no "porão", o bilhete com o preço mais baixo.
Note-se a regra de pagamento: passagens baratas podiam ser pagas em "notas chinesas" (da província de Guangdong), mas as classes altas ou viagens a partir de Hong Kong exigiam "notas europeias" (como os dólares de Hong Kong emitidos por bancos britânicos ou as patacas de Macau), reflectindo a complexidade monetária da região antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
A empresa tinha o escritório no 1º andar do Hotel Central.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Uma placa toponímica especial

É uma das artérias mais conhecidas de Macau. A placa toponímica reflecte as especificidades de alguns nomes de ruas no território. Neste caso, o nome em português nada tem a ver com o nome em chinês.

Transcrição dos Caracteres (da direita para a esquerda, de cima para baixo):
Coluna da direita: 亞美打利庇盧 (À-měi-dǎ-lì-bì-lú)
Coluna da esquerda: 大馬路(新馬路) (Dà mǎlù (Xīn mǎlù))

Tradução e Significado:
亞美打利庇盧 (Àmei dǎlì bìlú): Transliteração fonética para chinês do nome "Almeida Ribeiro" 
大馬路 (Dà mǎlù): Significa literalmente "Grande Avenida" ou "Estrada Principal".
(新馬路) (Xīn mǎlù): Significa "Estrada Nova" ou "Avenida Nova". É o nome popular e mais comum pelo qual os habitantes de Macau conhecem esta famosa avenida.

PS: esta placa é recente; antigamente não existia a transliteração fonética para chinês de "Almeida Ribeiro".

segunda-feira, 6 de julho de 2026

"A Medicina Tradicional Chinesa em Macau"

"A Medicina Tradicional Chinesa em Macau" é o título de um longo artigo publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Série 83.ª Jan/Mar e Abr/Jun de 1965, da autoria de António Scarpa, Professor da Universidade dos Estudos de Milão.
O autor esteve em Macau onde contou com a colaboração das autoridades locais, dos padres Salesianos do Colégio Yuet Wah e do padre António Carlos Kirchner que "com o seu profundo conhecimento do idioma chinês, da história e dos costumes locais, lhe serviu de valioso e sapiente guia". Na época existiam 34 farmácias chineses na cidade.
Excerto:
Na cidade de Macau, a medicina tradicional chinesa é amplamente praticada, assim como a medicina europeia. São muito numerosas as farmácias que vendem apenas medicamentos tradicionais, entre os quais os mais importantes são o caríssimo ginseng, o chifre de veado, o chifre de rinoceronte, os ossos de tigre e os de tartaruga, etc. Também são vendidos com muita frequência medicamentos obtidos de acordo com as fórmulas da antiga farmacopeia chinesa. Os farmacêuticos chineses não frequentam nenhum curso preparatório; toda a sua aprendizagem é realizada nas farmácias, onde começam como chaiyuk e terminam como kwai min (diretor).
Os médicos tradicionais chineses, pelo contrário, são oriundos de uma família de médicos ou frequentam uma verdadeira escola com duração de 5 anos, chamada Chung i Hók Uén. O ensino baseia-se nas teorias da antiga medicina da dinastia Han. Ao final do curso, obtêm um diploma que os permite exercer a profissão. Existem 4 classes de médicos, a saber: os «herboristas», os que realizam a picada da agulha [acupuntura], os ortopedistas-massagistas e os que praticam o qigong (chih-gong), ou seja, exercícios, geralmente respiratórios, para o tratamento de doenças e para proporcionar longevidade. 
Muito importante é também a medicina popular, baseada na terapia mágico-religiosa.
Em Macau já não existe nenhum hospital verdadeiro de medicina tradicional chinesa, mas apenas departamentos ambulatórios entre os quais os mais importantes, devido à sua organização, são os da associação Tong Sin Tong. No geral, pode-se observar que, no distrito de Macau, cerca de 40% da população chinesa ainda segue a medicina de seus pais [a medicina tradicional].

domingo, 5 de julho de 2026

"Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques"

C. J. Caldeira assina um artigo sobre Macau na edição nº8 de 1864 do "Archivo Pittoresco: semanario illustrado" (Portugal). É acompanhado de uma gravura da autoria de João Pedrozo com a legenda "Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques".
"A estampa representa a casa e cêrca do sr. Lourenço Marques, em Macau, na qual está a celebre gruta de Camões. O mirante que a corôa divisa-se por entre o arvoredo acima da casa que tem frontão triangular, que é a da residencia do proprietario, cercada de jardins, horta e bosque, que a tornam uma das mais pitorescas da cidade, como se póde julgar pelo desenho.
Ao lado direito se vê parte da povoação chineza de Patane, já fóra dos muros da cidade, proxima da porta de Santo Antonio e da egreja e freguezia da mesma invocação, que ficam na parte occulta á esquerda do espectador.
A casa vasta e elegante, que está á esquerda do desenho, pertence e é occupada por irmãos e outros parentes do mesmo sr. Marques, e foi habitação de seu pae. Atraz d'esta divisam-se em grupo os mastros e velas de algumas embarcações chinezas, que costumam fundear proximo á povoação de Patane, ao sopé do monticulo, e que o circunda quasi todo.
O fundo representa o porto interior de Macau, vendo-se sobre a esquerda a ilha da Lapa, antigamente denominada dos Padres, e mais ao longe as alturas da chamada ilha, ou antes peninsula Heang-shan, d'onde corre um canal ou pequeno braço do rio de Cantão, denominado Passagem de Macau, que vem desembocar no dito porto interior. (...)"
A personagem referida é Lourenço Maria Pereira Marques (1852-1911). Um dos 10 filhos do comendador Lourenço Caetano Marques (1811-1902) e Maria Ana Josefa Cortela Pereira (1825-1901) - que era prima - tendo casado a 7 de Agosto de 1838 tendo ela apenas 13 anos.
Esta era filha de Manuel Pereira, o proprietário da referida casa construída ca. de 1770. Casaram em 1838 pouco tempo depois dos ingleses da EIC terem saído de Macau e daquela propriedade que arrendaram entre 1780 e 1838.
Lourenço Pereira Marques, tal como os irmãos, nasceu na propriedade representada na ilustração. Estudou no Seminário de S. José de Macau e depois foi estudar para Lisboa. Fez a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e depois ingressou na Universidade de Dublin graduando-se em 1877 no College of Physicians and Surgeons e em 1881 no Royal College of Physicians". Fez ainda estágios em hospitais em Londres e em Paris antes de regressar a Macau. No final do século 19 estabelece-se em Hong Kong onde chega a dar aulas a Sun Iat Sen...
Dará um contributo decisivo para o que hoje se conhece como gruta de Camões, nomeadamente mandando construir um busto do poeta.
Em 1885 o governo de Macau comprou a propriedade que pouco depois transformou em jardim público, situação que ainda hoje se mantém.
O médico macaense viria a aposentar-se em 1895 em Hong Kong e regressou a Macau passando a a dar consultas médicas gratuitas à população mais carenciada.
Dono de uma erudição invulgar, reuniu uma vasta coleção de arte chinesa. Em 1899, doou cerca de mil objectos etnográficos e históricos à Sociedade de Geografia de Lisboa. Morreu em 1911 com apenas 59 anos na sua casa sita no Largo de Camões (junto à Casa Garden, portanto). Tal como o irmão nunca chegou a casar. Na toponímia macaense existe a Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques (比厘喇馬忌士街)  - no Porto Interior - em sua homenagem.
Dez anos passado sobre a referida ilustração, em 1874, Macau é assolado por um tufão que deixa uma rasto destruição imenso. A fotografia acima - provavelmente da autoria de Lai Afong - documenta os efeitos na igreja de Santo António e num edifício que Caldeira descreve no artigo de 1864. (assinalei a vermelho). Terá sido demolido posteriormente. Quando o governo de Macau compra a propriedade em 1885 e transforma o espaço num jardim público este edifício já não aparece. Corresponde ao actual Largo/Praça de Camões, à entrada do jardim tendo do lado direito o acesso à chamada Casa Garden.
O edifício denominado Casa Garden remonta a ca. de 1770. Em 1794 é abundantemente registado na primeira embaixada de Inglaterra à China. Por essa altura já o edifício e propriedade envolvente tinha sido arrendado à East India Company que ali colocara a morar os mais altos quadros da EIC. Os restantes viviam em também edifícios arrendados na Praia Grande.

sábado, 4 de julho de 2026

竹灣海灘 / Praia de Cheok Van

Por estes dias o tempo convida a uma visita à praia. Aqui ficam alguns registos fotográficos da segunda metade do século 20 da 竹灣海灘 / Praia de Cheok Van, na ilha de Coloane. Ainda antes da construção da piscina pública... A última fotografia mostra a Pousada em 1973. Na ilha de Coloane havia ainda a Praia de Hác-Sá (Praia da Areia Preta).


Curiosidade:
A tradução literal é: Praia da Baía dos Bambus (竹 zhú = bambu; 灣 wān = baía; 海灘 hǎitān = praia)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Viúvo macaense" procura "solteira ou viúva não menos de 25 anos"

Na edição de 1 de Novembro de 1919 do jornal O Macaense é publicado este anúncio:
VIUVO MACAENSE, empregado no commercio em Shanghai, salario $350 mensais, achando-se inabilitado de visitar Macau, deseja corresponder com uma solteira ou viuva não menos de 25 anos de idade, natural de Macau, com o fim de matrimonio. Dirigir-se inclusando fotografia a “VIUVO” c/o. British P. O. Box 162, Shanghai.
Na época o "casamento por correspondência" (antecessor dos modernos sites de encontros) era uma ferramenta legítima e comum para quem queria casar dentro do seu grupo étnico/cultural mas vivia longe da terra natal.
Em Xangai existia uma importante comunidade macaense: empregados no comércio, tradutores, escriturários, bancários, etc... O valor do salário era considerado bastante acima da média na época.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Best resort for holiday & honey moon"

Em meados da década de 1960 o Hotel Caravela - localizado na Av. da República, 62-64 - afirmava-se como o melhor refúgio para "férias e luas de mel". O slogan surge numa série de postais ilustrados publicados na altura. 
葡屬澳門明信片-1960年代葡屬澳門西灣金舫酒店Hotel Caravela四景明信片
HOTEL CARAVELA
best resort for HOLIDAY & HONEY MOON famous for its Beautiful Harbour View Luxurious Accommodation & Excellent Service. 
H.K. Booking Tel: K-670265
AVENIDA DE REPUBLICA NO. 62-64,
MACAU
TEL: 5151
HOTEL CARAVELA
o melhor refúgio para FÉRIAS E LUA DE MEL famoso pela sua excelente vista sobre a baía, Alojamento Luxuoso & Excelente Serviço. 
Tel. para Reservas em H.K. [Hong Kong]: K-670265
AVENIDA DA REPÚBLICA Nº 62-64,
MACAU
TEL: 5151
O Hotel Caravela, a Baía da Praia Grande, um dos quartos e o restaurante

O edifício foi construído originalmente em 1933 para residência de Bernardino da Senna Fernandes. Poucos anos depois sofreu obras de remodelação e ampliação. Em 1965 passou a funcionar como hotel com um total de 18/22 quartos. O restaurante de comida portuguesa era bastante apreciado. Os proprietários tinham ainda uma agência de viagens, a Caravela Travel Service. Com recurso a uma pequena frota de autocarros proporcionavam visitas guiadas aos turistas, a maioria de Hong Kong e do Japão. 
Num anúncio do ano da abertura - 1965 - destaca-se:
"Bela situação, paisagem admirável, conforto, comodidade e asseio, a par de tratamento esmerado. Todos os quartos possuem ar condicionado, quartos de banho privativos, rádio e telefone."
Em anúncios em inglês da década 1960 pode ler-se:
"Your entire visit to Macau — guide service, sightseeing, accomodation — can be so simple. Our fleet of buses is ideal for large groups, our cars "just right" for small parties. Ask your Hongkong travel agent to arrange your entire Macau visit with Caravela."
O Caravela encerrou a actividade em 1978 e pouco depois o edifício foi demolido.
Com marcas da arquitectura neo-clássica uma das características especiais eram os azulejos pintados sob os beiras. Localizado numa zona também denominada de 'meia-laranja', originalmente o edifício era branco.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Residência campestre dos governadores"

No final do século 19 Bento da França escrevia assim: "Nos arrabaldes da cidade encontram se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas."
A ilustração reproduz uma fotografia do final do século 19 que mostra o Palacete da Flora. Era aqui a "residência campestre", assim referida porque bastante longe do centro da cidade. Comprado pelo governo na década 1870 era habitualmente usada pelos governadores como residência de Verão. Foi construído originalmente em 1848 pelo Padre Vitorino José de Sousa e Almeida e desenhado pelo arquiteto José Tomás de Aquino. Em redor havia uma extensa área de terreno. Tão extensa que o espaço viria a ser usado como um viveiro de árvores e arbustos. Estão aqui as origens do Jardim da Flora, ainda que numa área muito menor que a original.
O palacete foi destruído em Agosto de 1931, juntamente com várias casas nos arredores, devido a uma violenta explosão num paiol de munições próximo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

As várias 'vidas' do S. S. Tung Shan

O Tung Shan foi um navio a vapor clássico de três andares que operou na rota entre Hong Kong e Macau durante as décadas de 1960 e 1970.
Originalmente construído em 1924 com o nome Sai On, esta embarcação de 1.950 toneladas e 71 metros de comprimento teve vários nomes e utilizações.
Atracado no Porto Interior

Como SS Sai On (1924 - 1943) começou a operar na rota Hong Kong–Cantão (Guangzhou) pela Woo & Mok Ltd. Em 1936, foi vendido à Tung On Steamship Co..

Como Seian Maru (1943 - 1945): Durante a Segunda Guerra Mundial e a ocupação japonesa de Hong Kong, o navio foi confiscado pelo Governo Imperial Japonês. Foi rebaptizado e usado como navio de transporte.

Regresso como Sai On (1945 - 1950): Devolvido aos donos originais após a guerra, o navio sofreu o seu pior dia a 4 de fevereiro de 1947. Enquanto estava atracado em Hong Kong, um incêndio massivo deflagrou a bordo, transformando o navio num inferno. Cerca de 300 passageiros morreram queimados ou sufocados. Foi um dos piores acidentes marítimos de Hong Kong no século XX.

SS Takshing (1950–1968): O casco carbonizado foi submetido a uma reconstrução em Ngau Chi Wan. Foi rebatizado como Takshing (ou Tak Shing), voltando ao serviço activo - pela empresa Tai Yip - totalmente modernizado. Ian Fleming viajou nele até Macau em 1959.

Em 1968 recebeu o seu último nome, Tung Shan. Operou desde esse ano e até Janeiro de 1974 na rota Macau-Hong Kong. Foi retirado de circulação em Janeiro desse ano e desmantelado.
Demorava cerca de quatro horas para completar a viagem. A bordo do Tung Shan, os passageiros tinham à disposição lugares em três decks e desfrutavam de um um cruzeiro cénico de 4 horas pelo Delta do Rio das Pérolas. Estava equipado como camarotes privados confortáveis, salas de jantar e um bar.
O escritor James Kirkup descreveu estas cabines de primeira classe como o "último grito do luxo requintado", decoradas com espelhos, palmeiras e pelúcia rosa, onde se serviam jantares finos
No porão e no convés inferior, os bilhetes eram baratíssimos mas com piores condições. Havia ainda toldos de lona listrada no convés para relaxar e tomar bebidas.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

"Fugir do medico e da pharmacia"

Até meados do século 19, o mar era visto com medo (associado a naufrágios e monstros) e a sociedade em geral (particularmente a aristocracia) valorizava a pele extremamente pálida, já que o bronzeado era sinal de trabalho manual e pobreza.
A viragem para o que conhecemos hoje aconteceu no final do século 19, impulsionada por uma combinação de avanços médicos, transformações sociais da Revolução Industrial e uma grande mudança cultural.
Com o crescimento caótico e poluído das cidades industriais, os médicos começaram a defender o higienismo — a ideia de que o ar puro, a luz solar e a água limpa eram os melhores remédios contra doenças urbanas como a tuberculose e o raquitismo.
Os médicos começaram a receitar banhos de mar frios porque acreditavam que o impacto da água salgada "chocava" e revigorava o sistema nervoso, limpando o organismo. Descobriu-se ainda que a exposição solar combatia bactérias e fortalecia os ossos. A palidez aristocrática começou, lentamente, a perder espaço para o ideal do corpo activo e bronzeado.
Desta forma, actividades ao ar livre como o os passeios a pé ou de bicicleta, e desportos como o ténis e o futebol ganham enorme popularidade
Na península de Macau - marcada ainda por inúmeras enseadas - existiam várias praias. Desde a praia da Boa Vista na Areia Preta (a mais afastada da cidade) à de Cacilhas, da Guia, do Bom Parto, do Bispo (frequentada pelos ingleses, hóspedes do Hotel Bela Vista) e a do Tanque dos Mainatos.
Praia da Areia Preta

A 2 de julho de 1899 o jornal Echo Macaense publicava a notícia "Livro Novo":
"Noções de hygiene e medicina pratica, para uso dos alumnos do seminario diocesano de Macau," acaba de sahir do prelo do seminario, um livro utilissimo para a vida pratica.
Consta-nos que o seu author é o sr. dr. José Gomes da Silva, chefe do serviço de saude, e professor do seminario. Podemos apenas dar uma vista d'olhos ao livro, cuja leitura reservamos para quando tivermos mais vagar. O author, sendo medico, recommenda, como aphorismo hygienico, fugir do medico e da pharmacia.
Eis o que elle diz:
Tudo o que fica dicto nos capitulos anteriores e o mais que poderia dizer-se sobre a hygiene individual, pode synthetisar-se nos seguintes aphorismos:
Comer bem e a tempo. Manter justa proporção entre o exercicio e o alimento. Conservar a pelle sempre limpa e agasalhada. Respirar bom ar. Evitar os excessos de qualquer natureza.
Respeitar os habitos adquiridos. Saber ser feliz.
Fugir do medico e da pharmacia."

domingo, 28 de junho de 2026

Carta para um guarda-marinha da Corveta D. João I no século 19

No canto superior direito (abreviatura de cortesia):
Illmº. Sr. (Ilustríssimo Senhor)
Nome do destinatário (ao centro):
Gonçalo Ayres da Costa Campos
Cargo e localização (em baixo):
Guarda Marinha embarcado
a bordo da corveta D. João em Macao
Embora não existam elementos que permitem datar esta carta, deduzo que seja de meados do século 19. Porquê?
A corveta referida é a D. João I da Marinha Portuguesa. Foi construída em Damão por Jadó Simogi, aproveitando os materiais (madeira teca) da corveta "Infante D. Miguel" (inutilizada) sendo lançada ao mar em 1828.
Com 45,54 m de comprimento de fora a fora; 10,56 m de boca; 6,27 m de pontal; 6027 m de calado a vante e 516 toneladas tinha de armamento: 2 peças de bronze de calibre 18; 1 peça de calibre 3; 16 caronadas de ferro de calibre 32; Armamento portátil: 60 espingardas de fuzil; 20 pistolas de fuzil; 4 bacamartes de canos de bronze; 45 espadas e respetivos cinturões; 60 baionetas e respetivos cinturões; 20 chuços; 90 cartucheiras de cinto.
Em 1842 a lotação era de 161 homens. Navegou até final do século 19 sendo o último registo em Angola.
No século XIX ficou célebre pelas suas missões em vários pontos do mundo: Brasil, Timor, Japão, Angola. Destaco apenas as efectuadas no Extremo Oriente. Entre 1850 e 1860, operou no delta do Rio das Pérolas e desempenhou um papel vital nas relações luso-asiáticas. Aqui ficam algumas das missões em que esteve envolvida:
- Em 1850 largou do Rio de Janeiro para Macau conduzindo o novo Governador Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha.
 - Esteve envolvida em operações de resgate após a trágica explosão da fragata D. Maria II em Macau, em 1850.
- Em Janeiro de 1851 largou de Macau para Hong-Kong, conduzindo o novo Governador, Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco António Gonçalves Cardoso.
- Em 1854, conduzindo o Governador da província e o ministro plenipotenciário francês, largou de Macau para Ning-Pó, fazendo escala por Hong-kong e Amoy.
- Em Julho de 1854 travou combate com os piratas chineses.
- Em 1855, transportou os restos mortais do antigo governador João Maria Ferreira do Amaral de volta para Goa. 
- Ajudou no combate a incêndios devastadores na cidade de Macau em 1856.
Transportou o Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, até ao Japão em 1860, missão que resultou no Tratado de Paz e Comércio entre Portugal e o Japão. Feliciano António Marques Pereira, Capitão de Fragata era o comandante da corveta D. João I. 
- Em 1861, largou em segunda viagem ao Japão, com escala por Xangai, para se proceder ali à ractificação do tratado do comércio luso-japonês, não chegando ao destino devido ao mau tempo.
PS: outras cartaz dirigidas ao mesmo destinatário aqui e aqui.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Estátua de Ferreira do Amaral, uma acácia-rubra e o Liceu em 1968

O Comandante António José de Matos Nunes da Silva exerceu o cargo de Comandante da Defesa Marítima Territorial de 1966 a 1968, acumulando ainda as funções de Capitão dos Portos durante este período. Nesses anos fez centenas de fotografias e slides de Macau que partilhou inúmeras vezes comigo dando-me autorização para as usar em prol da divulgação da história de Macau.
Neste registo em concreto recorri à IA para 'retirar' elementos pessoais e melhorar a qualidade. O enquadramento privilegia o tamanho e beleza proporcionada pela acáçia-rubra. Do lado esquerdo a estátua em bronze do Governador Ferreira do Amaral (hoje pode ser vista nos Olivais, perto do aeroporto de Lisboa). Ao fundo o edifício do Liceu Nacional Infante D. Henrique - inaugurado 10 anos antes - tendo por trás (vista parcial) o edifício residencial Rainha D. Leonor. Do lado direito vê-se uma parte da esplanada que ali existia. A poucas dezenas de metros estava em construção o Hotel Lisboa (inaugurado em Fev. de 1970).