Na edição de 15.3.1872 O Correio Médico de Lisboa publica o teor de uma "sessão ordinária" realizada na Academia Real das Sciencias a que assistiu "Sua Magestade o Imperador do Brazil" sob presidência do sr Marquez d'Avila e Bolama.
Durante a sessão o Sr. A. A. de Aguiar apresentou os resultados de uma análise química efectuada a uns grânulos medicinais remetidos da China, onde vinham sendo aplicados com bastante sucesso no combate ao cholera morbus. O impacto dessa medicação revelou-se tão expressivo que o Sr. Lúcio, médico residente em Macau, motivado pelos relatórios positivos da região, resolveu empregá-los na sua prática clínica e teceu-lhes rasgados elogios.
Na sua intervenção, o Sr. Aguiar destacou o rigor e a perfeição do fabrico desses grânulos importados, assinalando que todos apresentavam rigorosamente o mesmo peso de sete miligramas. A fórmula combinava cinábrio, almíscar, várias substâncias secundárias e, principalmente, ácido arsenioso — na proporção exata de 1,5 décimos de miligrama por grânulo —, o que garantia uma dose diária elevada de arsénico aos doentes tratados em Macau e noutras partes da Ásia.
Na sequência da discussão sobre o tratamento administrado em Macau, o Sr. A. M. Barbosa recordou que o recurso ao ácido arsenioso em altas doses já tinha antecedentes na Europa, designadamente em Paris (1865–1866), onde o Dr. Cahen obteve a cura de 20 em 24 pacientes coléricos. O Sr. Barbosa aventou a hipótese de o sucesso deste tratamento contra o cólera — que irradiava das zonas pantanosas da Índia — estar associado às propriedades anti-palúdicas do arsénico, habitualmente usado em substituição do sulfato de quinina. Em contrapartida, o Dr. Alvarenga refutou qualquer analogia entre o cólera e as febres paludosas, sustentando que, a haver semelhanças, o sulfato de quinina seria preferível.
O Dr. Lúcio referido é médico e militar português Dr. Lúcio Augusto da Silva (1825–1906). Chegou a Macau em Junho de 1860, onde desempenhou durante mais de duas décadas (até 1884) as funções de Cirurgião-Mor e chefe dos Serviços de Saúde de Macau. Esteve à frente do Hospital de S. Rafael (Hospital da Misericórdia) e era o responsável pelo acompanhamento do estado sanitário da cidade. Distinguiu-se no estudo e combate a surtos epidémicos na região, tendo inclusivamente publicado obras clínicas sobre o tema, como o Relatório sobre a epidemia de Cholera-morbus em Macau.
Artigo:
O Sr. A. A. de Aguiar expôs o resultado de uma análise química que fizera sobre uns grânulos que lhe foram remetidos da China, onde são empregados com muita vantagem contra o cholera morbus. Os resultados são tão extraordinários que o Sr. Lúcio, médico residente em Macau, se resolveu a usá-los e faz-lhes grandes elogios.
O Sr. Aguiar fez notar a perfeição com que eram feitos estes grânulos, que tinham todos rigorosamente o mesmo peso (sete miligramas) e continham ácido arsenioso, cinábrio, almíscar e outras substâncias de menos importância. Cada grânulo contém exatamente 15 décimos de miligrama de ácido arsenioso. O número de grânulos que se administra por dia para o tratamento do cólera faz com que a dose do arsénico seja elevada.
O Sr. A. M. Barbosa lembrou que já na Europa se tem tirado partido no tratamento do cólera do ácido arsenioso em alta dose. Em 1865 e 1866, quando esta doença grassava em Paris, o médico israelita Cahen tratou no Hospital Rothschild 24 coléricos, aos quais deu o ácido arsenioso em doses progressivas — desde dois miligramas até três ou quatro centigramas por dia. O resultado foi curarem-se 20 destes enfermos.
O Sr. Barbosa advertiu que, grassando o cólera endemicamente nas regiões pantanosas da Índia (de onde irradia de vez em quando para visitar epidemicamente outras regiões do globo), talvez nesta origem pantanosa se pudesse encontrar a explicação do bom resultado do ácido arsenioso. Pois é sabido que esta substância é um dos melhores sucedâneos do sulfato de quinina no tratamento das febres paludosas, como atestam os ótimos resultados obtidos por Plenciz de Viena e por Boudin, havendo milhares de casos de febre intermitente curados pela administração deste medicamento, e entre estes alguns que tinham resistido ao emprego do sulfato de quinina.
O Sr. Dr. Alvarenga disse que não acreditava que houvesse analogia entre a febre intermitente de origem paludosa e o cólera e, quando a houvesse, entendia que era preferível o emprego do sulfato de quinina.
Depois, o Sr. Dr. Alvarenga pediu a palavra para mandar para a mesa uma nota em que expunha o resultado que obteve da aplicação do termómetro no estudo da marcha da doença conhecida com o nome de beribéri. Achou nas suas observações que a temperatura se mantinha abaixo da normal e, por isso, entendia que este resultado era importante porque prova que a doença não era inflamatória.
O Sr. Silva Amado disse que, sendo o beribéri uma doença que grassa nos países quentes, o estudo desta enfermidade importa muito aos médicos das nações que possuem colónias nos países intertropicais. E se a todos os que estão neste caso interessa este estudo — como provam os importantes trabalhos dos médicos ingleses e holandeses —, a nenhuns europeus importa tanto como aos portugueses, não só pelas vastíssimas colónias que Portugal ainda possui na África e na Ásia, mas ainda pelas relações íntimas que temos com a nossa antiga colónia e hoje tão próspero Império do Brasil, onde esta doença está sendo um verdadeiro flagelo. Posto que, pela rápida exposição feita pelo Sr. Dr. Alvarenga, lhe não pareça que as observações deste consócio tenham para a determinação da natureza da doença o valor que ele lhes assinalou, contudo entendia, atendendo à importância do assunto, que esta nota devia ser remetida a uma comissão que desse um parecer que fosse objeto de uma discussão digna desta Academia.
O Sr. Dr. Alvarenga disse que o que o sócio precedente propunha era o processo usado na Academia. O Sr. Vice-Presidente, Marquês d'Ávila e Bolama, disse que com a explicação do Sr. Dr. Alvarenga deviam ficar satisfeitos os desejos do Sr. Silva Amado.
in O Correio Médico de Lisboa, 15.3.1872






































