O DIA DE PORTUGAL foi assinalado nesta Província com várias festividades entre as quais GRANDIOSO DESFILE MILITAR, eloquente romagem à gruta de Camões E SESSÃO CULTURAL NO TEATRO D. PEDRO V
a todas presidindo Sua Exa. o Governador da Província ALMIRANTE JOAQUIM MARQUES ESPARTEIRO
O Dia de Portugal revestiu-se, este ano, de grande esplendor. Quer no Portugal metropolitano quer no Portugal ultramarino como nos agregados portugueses no estrangeiro, o Dia de Portugal foi comemorado, por ser consagrado à lusitanidade espalhada pelo mundo e, também, em homenagem a Camões esse imortal cantor das glórias nacionais, no dia do aniversário do seu falecimento.
Prestaram, assim os portugueses, no mundo a mais eloquente e mais patriótica homenagem ao poeta máximo da Lusitanidade e, especialmente, nesta terra, onde segundo reza a tradição Camões escreveu parte do seu imortal poema — os Lusíadas.
O programa das grandiosas festividades do dia 10 foi rigorosamente cumprido, tendo presidido a todas S. Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
O dia 10 de Junho foi de sol radioso e temperatura amena, associando-se assim o tempo a tão esplendorosa homenagem, dando-lhe maior brilho.
Amanheceu e ao som dos clarins em marchas de continência ergueu-se no topo dos mastros dos quartéis e fortalezas a Bandeira Nacional. Em todos os edifícios públicos foi também hasteada a Bandeira de Portugal.
A parada militar
O desfile de forças militares e militarizadas, em parada, é sempre um espectáculo grandioso que faz vibrar os corações portugueses pois, isso basta para, em pensamento, evocar esses heróis que outrora em "perigos e guerras esforçados" deram novos mundos ao mundo, levando a bandeira portuguesa às mais longínquas paragens. E os soldados que vemos agora marchar são descendentes desses portugueses que Camões cantou nos poemas mais belos que, no dizer dum distinto escritor, por si só, vale uma literatura inteira.
A parada militar estava anunciada para às 10 horas. Mas, muito antes, milhares de pessoas ocupavam lugares ao longo do trajecto anunciado para o desfile.
Nas proximidades do Palácio do Governo da Praia Grande, em talhados especiais, tomaram lugar funcionários civis e militares, comerciantes, clero, escolas portuguesas e chinesas e os seus professores, colégios, praças do exército e da armada, etc..
Na varanda do rés-do-chão do Palácio assistiram ao desfile, a convite do governo, o Conselho do Governo, Corpo Consular, Chefes de Serviços, membros dos mais categorizados da comunidade chinesa e estrangeira, e oficiais do Exército e da Armada. Nas varandas superiores, a Exma. Sra. Dra. Da. Laurinda Marques Esparteiro e muitas outras senhoras portuguesas, chinesas e estrangeiras.
Em frente ao Palácio erguia-se a tribuna de honra decorada com as cores nacionais e vasos com viçosos arbustos. À esquerda da tribuna estava formada a guarda de honra que era constituída por um grupo de castelos da Mocidade Portuguesa com bandeira e banda de música, sob o comando de Franklin Barnes. Em frente da guarda de honra estava formada a guarda de honra da banda Musical da Polícia de Segurança Pública com o vistoso fardamento de gala, capacete e dólman branco e calça azul escuro.
Poucos minutos antes das 10 horas estavam formadas alas compactas de povo ao longo da Rua da Praia Grande e imediações, que a Polícia de Trânsito, superiormente dirigida pelo sr. tenente Henrique Fontes, auxiliado por chefes e subchefes, continha o povo dentro dos lugares marcados, a fim de não estorvar o desfile.
Momentos depois um breve toque de clarim e a introdução do Hino Nacional anunciaram a chegada de Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro, que vinha acompanhado de seu ajudante de campo sr. capitão José Vaz Dias da Silva. Sua Exa. envergava o uniforme branco de almirante, ostentando a banda de seda verde, insígnia da grã-cruz de Ordem Militar de Avis.
Acompanhado agora pelo Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa sr. Intendente José Peile da Costa Pereira, Sua Exa. o Governador passou revista à guarda de honra, dirigindo-se depois à tribuna, onde assistiu ao desfile, ladeado pelos srs. Brigadeiro João Carlos Quinhones Portugal da Silveira, Comandante Militar da Província e capitão-de-fragata José Coutinho Garrido, Capitão dos Portos. Na mesma tribuna assistiram ao desfile os srs. Dr. Edmundo de Senna Fernandes, Juiz da Comarca, substituto, e D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo da Diocese, ajudantes e secretário.
A's 10.05 horas chegou um carro militar do qual se apeou o comandante das forças em parada, tenente-coronel Silva Carvalho, pedindo licença para se iniciar o desfile, ordem que foi imediatamente transmitida por uma estafeta-motociclista.
As forças em parada desfilaram pela seguinte ordem: Bandeira Nacional, coluna apoiada sob o comando do sr. major Marques de Carvalho, banda de corneteiros, comando da coluna apeada, batalhão de caçadores 1, a três companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Veiga, batalhão de caçadores 2, a quatro companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Cambraia Duarte, companhia independente de caçadores, uma companhia de atiradores sob o comando do sr. capitão Tamegão.
Seguiu-se a coluna motorizada sob o comando do sr. major Barata da Cruz, constituído pelo comando da coluna, 1 pelotão de canhões anti-carro e o agrupamento de baterias de artilharia; 1 bateria de artilharia ligeira 8,8 sob o comando do sr. capitão Mendes, uma bateria de artilharia anti-aérea de 4 e uma bateria de artilharia anti-aérea de 7,5.
Desfilou depois o esquadrão de cavalaria motorizado com dois pelotões de reconhecimento e um pelotão auto-transportado; uma companhia de engenharia com um pelotão de sapadores e um pelotão de transmissões, comandadas, respectivamente, pelos srs. capitães Abrantes da Silva e Mesquita Borges, fechando o desfile das forças militares com um destacamento sanitário e uma equipa de desempenagem.
As forças militarizadas desfilaram pela seguinte ordem:
Uma coluna apeada das forças da polícia marítima, a um pelotão, sob o comando do sr. chefe Luz, uma coluna apeada da polícia de segurança pública, a uma companhia a quatro pelotões, sob o comando do sr. tenente Correia Marques, uma coluna motorizada, com um pelotão de motos e viaturas especiais, sob o comando do sr. tenente Palma Viçoso.
Fechava o desfile uma coluna motorizada de viaturas especiais dos bombeiros municipais, sob o comando do sr. ajudante Assis.
Por último desfilou a guarda de honra da Mocidade Portuguesa e a banda musical da polícia de segurança pública.
A patriótica romagem à Gruta de Camões
Finda a parada, as mesmas entidades que referimos e milhares de pessoas acorreram ao velho jardim de Camões, onde se ergue a secular gruta, um altar evocativo do grande Vate, nestas longínquas paragens onde a velha lenda afirma, que Camões escreveu parte do seu poema e o formoso soneto "Alma minha gentil". Muito antes das 11 horas, já se encontravam no jardim milhares de crianças e jovens do liceu, das escolas secundárias e primárias católicas portuguesas e chinesas, com os seus estandartes e muitos jovens, de ambos os sexos, sobraçando viçosos ramos de flores naturais. Acompanhavam-nos os seus professores, padres, leigos e religiosas de vários colégios da colónia.
O jardim sempre belo, estava mais florido naquela manhã de sol.
A chegada de Sua Exa. o Governador da Província, as escolas saudaram o primeiro magistrado, que se dirigiu para a tribuna erguida em frente do busto de Camões, assistindo à cerimónia evocativa do aniversário da morte do poeta, ladeado pelos srs. José Peile da Costa Pereira, Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa e António de Magalhães Coutinho, Presidente do Leal Senado da Câmara. Por detrás e ao lado, em lugares especiais, o Prelado da Diocese, o Juiz da comarca, Comandante Militar, a esposa de Sua Exa. o Governador, outras senhoras portuguesas e estrangeiras e chinesas, individualidades mais representativas da província, e oficiais do exército e da marinha. Flutuavam na tribuna, ao centro, a Bandeira Nacional e dos lados os pavilhões de Nuno Álvares, da Mocidade Portuguesa e do Governador da Província.
Proferiu uma alocução interessante, oportuna e repassada de patriotismo, o sr. António Augusto da Canhota, professor da escola comercial "Pedro Nolasco da Silva" alocução a que se podia chamar, com mais propriedade "conferência", pelo que a publicaremos na íntegra, oportunamente.
Portugal vive integralmente nos "Lusíadas"
— disse o orador
Seguiu-se uma palestra em língua chinesa, dirigida aos jovens das escolas chinesas, alusiva a Camões, pelo rev. Padre Lei Chông U, director da escola secundária chinesa "Mong Tak".
Findas as palestras, Sua Exa. o Governador e comitiva, dirigiu-se para o lado esquerdo da gruta, assistindo ao desfile da Mocidade Portuguesa, dos jovens estudantes de ambos os sexos, das crianças das escolas primárias portuguesas e chinesas que depunham flores junto do busto, flores naturais, viçosas e lindas, em homenagem ao grande poeta Camões — edificante exemplo de respeito e veneração pelo grande português, de portugueses e chineses, de muçulmanos e caenses, irmanados no mesmo fervor espiritual e profundo respeito por Portugal eterno.
Era meio dia quando se ouviu o primeiro tiro de canhão, da salva de 21 tiros que a fortaleza do Monte disparou assinalando nestas paragens o Dia de Portugal.
A recepção e cumprimentos no Palácio do Governo da Praia Grande
Foi cerca das 12,30 horas, que se aglomeraram inúmeras pessoas no átrio do Palácio, a fim de apresentar cumprimentos a Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, na pessoa do seu legítimo representante em Macau, Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
De acordo com o protocolo desta cerimónia, foi feita a chamada das entidades indicadas na Reforma de Administração Ultramarina, pelo sr. tenente Lopes da Costa, oficial às ordens de Sua Exa. o Governador. E além dessas entidades, funcionalismo, oficialidade do exército e da armada, apresentaram cumprimentos membros dos mais categorizados da comunidade chinesa, associações, comerciantes, industriais, médicos, engenheiros, advogados, e inúmeras pessoas em número muito superior a um milhar.
Sua Exa. o Governador estava ladeado pelo Juiz da Comarca, Prelado da Diocese, Comandante Militar, Vice-presidente do Conselho de Governo, ajudantes e secretário do Prelado, a todos estendendo a mão com o seu peculiar sorriso.
No Hospital de S. Rafael
Findos os cumprimentos, registou-se uma surpresa, extra-programa. Soubemos que Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, resolveram, assinalando dia tão festivo, inaugurar, embora numa breve visita, novos e importantes melhoramentos no Hospital de S. Rafael da Santa Casa da Misericórdia. E fomos ver, também esses melhoramentos.
Na antiga dependência destinada a quarto das enfermeiras de serviço, no primeiro andar, foi instalada uma "incubadora eléctrica", aparelho gem do mais moderno fabrico americano, o qual, com acessórios, importou em cerca de cinco mil patacas. O aparelho não só regula electricamente a temperatura e grau de humidade necessários, como o fornecimento de oxigénio, numa combinação técnica admirável, e que é a última palavra no género e único em Macau. Assim um recém-nascido que careça desses cuidados, será salvo em tão útil como "humano" aparelho E, numa volta pelo primeiro andar, vimos também que quase tudo está pintado de novo, especialmente na maternidade; na sala de trabalhos substituíram as antigas "banheirinhas" por lavatórios de porcelana, com instalações apropriadas para aquecimento de água; marmorites nos pavimentos e paredes; divisórias envidraçadas, aquecimento, lavatórios de lavagem de bebés, mais crescidinhos, junto da enfermaria das parturientes e muitos outros arranjos em obediência às exigências dos mais modernos apetrechamentos tendo em vista a higiene e o conforto nos hospitais.
Notava-se em Sua Exa. o Governador e em Sua Exma. Esposa incontida satisfação por verificar o crescente progresso daquele hospital.
Os ilustres visitantes foram recebidos à entrada do Hospital e acompanhados na visita aos novos melhoramentos pelo dr. Barros Lopes, seu Director, pelo Provedor, sr. dr. Damião Rodrigues, e pelos srs. 1.º Tenente Lourenço Pereira, mordomo, e pelos mesários Mário Pereira, Joas Lopes, Alfredo Silva e pela farmacêutica do hospital sra. dra. D. Maria José da Cruz Neves, e pelos srs. drs. Edmundo e Henrique Senna Fernandes.
À já na despedida, a uma pergunta nossa, disse-nos um mesário a origem da verba despendida naqueles melhoramentos, tendo alguns beneméritos oferecido alguns materiais de construção.
E quem havia de dizer, que o produto da festa dos santos populares do mercado de S. Domingos, do ano passado, iniciativa louvável a todos os títulos da Exma. Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, viria a transformar-se em obra tão útil e de tão elevado alcance social, em benefício do Hospital de S. Rafael, em suma, da população de Macau-ricos, remediados e pobres.
Nos salões do Palácio do Governo da Praia Grande
Houve recepção das 18 às 20 horas, onde mais uma vez se apreciou a franca hospitalidade portuguesa. Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa foram duma extrema amabilidade para os seus convidados, portugueses, chineses e estrangeiros, numerosas senhoras que emprestaram ao ambiente a graciosidade das suas "toilettes" vaporosas e coloridas.
Foi servido um delicado "cocktail", executando a orquestra Vila Verde escolhidas músicas.
Esta recepção deixou gratas recordações a todas as pessoas que assistiram à requintada festa.
Assistiram, também, as mesmas entidades e individualidades a que já nos referimos.
No Teatro de D. Pedro V a sessão cultural dedicada ao imortal Camões
Eram 21,45 horas, quando começou. Na primeira fila tomaram lugar Sua Exa. o Governador e Exma. Esposa, o Venerando Prelado da Diocese, Juiz Substituto, Comandante Militar e noutras filas, várias pessoas e entidades portuguesas e estrangeiras.
A sessão iniciou-se com o Hino da Mocidade Portuguesa, cantado pelo orfeão da M.P., seguindo-se as canções populares portuguesas pelo mesmo orfeão "A nossa terra", "O mendigo" e "O trevo". O orfeão, com boa afinação de todos os seus naipes foi dirigido pelo assistente eclesiástico da Mocidade Portuguesa rev. Padre Barcelos Mendes, sendo muito aplaudido.
Seguiu-se uma notável conferência pelo sr. Dr. José Tertuliano Cabral, vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, subordinada ao título "Camões, o príncipe dos poetas portugueses", conferência em que versou os temas "A síntese da lírica medieval", "Glória da poesia renascentista" e "Fonte de inspiração para as correntes poéticas posteriores".
O seu trabalho prendeu a assistência, pelo real valor da tese que apresentou em que comprovou, demonstrando profunda análise de Camões e das suas obras, da sua época e da influência das obras de Camões até nossos dias.
Na sua conferência disse o orador, na sua modéstia tantas vezes demonstrada, como o seu valor: "um infinitamente pequeno, vai falar dum infinitamente grande".
Podemos dizer sem receio de desmentido que o conferencista estava à altura do seu trabalho, do seu profundo conhecimento da Obra de Camões e da literatura portuguesa de que é distinto professor.
Dado o tamanho da sua notável conferência não cabe nesta ligeira reportagem impressiva, pelo que oportunamente será publicada na íntegra. Os trabalhos que o fazer-se deles um resumo é quase um crime.
A sessão cultural que foi promovida, como a romagem patriótica à gruta de Camões, pelo Conselho de Instrução Pública, de Macau, terminou com o Hino Nacional, cantado pelo Orfeão da Mocidade Portuguesa, regido pelo Rev. Padre Barcelos Mendes e acompanhado ao piano pelo Rev. Padre Lancelote, ouvido no mais profundo e emocionante silêncio, de pé por toda a assistência.
Iluminações de gala
Assinalaram a noite festiva de 10 de Junho — Dia de Portugal, apresentando feérico aspecto as fachadas dos edifícios, nomeadamente o Palácio do Governo da Praia Grande, das Repartições, dos Correios, e Leal Senado, quartéis e fortalezas, esquadras da polícia, etc.
Artigo publicado nas páginas 1 e 6 do Notícias de Macau de 12.6.1956
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| Na capa da edição de 12.6.1956 do "Notícias de Macau" |