quarta-feira, 8 de abril de 2020

"Pearls from Macao"

Na edição de Julho de 1933 da revista Magic Carpet - dedicada à literatura de aventura - o destaque era um conto intitulado "Pearls from Macao" da autoria de H. Bedford-Jones (1887-1949). Uma "emocionante história de assassinato e mistério nos mares do sul da China".

Nascido no Canadá, Henry James O'Brien Bedford-Jones notabilizou-se como escritor  de romances de aventuras, ficção científica e crime. Naturalizou-se norte-americano em 1908.

terça-feira, 7 de abril de 2020

John Thomson: fotógrafo, geógrafo e viajante


Nascido na Escócia, John Thomson (1837-1921) foi um dos primeiros fotógrafos a viajar para o leste da Ásia. 


Por volta de 1850 torna-se aprendiz junto de um fabricante de instrumentos ópticos tem o primeiro contacto com os princípios da fotografia. Em 1861 torna-se membro da Royal Scottish Society of Arts e, no ano seguinte, decide juntar-se ao irmão que estava em Singapura. Deixa Edimburgo rumo a Singapura em Abril de 1862, o início de uma viagem que iria durar uma década. Primeiro dedicou-se a tirar retratos de comerciantes europeus, mas depressa desenvolveu um grande interesse pelos povos e costumes locais, podendo considerar-se um pioneiro do foto-jornalismo.

Em 1864, Thomson viajou até ao Sião (Tailândia), onde fotografou o rei e membros da família real. Ao fim de pouco mais de um ano, seguiu para o Cambodja, visitando Angkor, as florestas e Phnom Penh, onde também fotografou a família real. Regressa entretanto a Londres onde dá palestras e publica um livro
Em 1868 estabelece-se em Hong Kong viajando na região durante 4 anos. Foi nesta altura que visitou e fotografou Macau (em 1870), Cantão, Amoy, Fukien, Pequim e Formosa, etc.
Dos mendigos urbanos aos camponeses das áreas rurais passando pelos mandarins dos palácios imperiais, Thomson registou centenas de momentos únicos na história.
Regressa Inglaterra onde instala um estúdio, dá palestras e escreve livros, mas ainda passa pelo Chipre em 1878, ates de assentar de forma definitiva em Londres.
Em 1921, Henry Wellcome adquiriu uma colecção de mais de 600 negativos originais em placa de vidro de Thomson. 
Em Macau Thomson tirou mais de uma dezena de registos feitos com a tecnologia mais recente na época. Uma câmara de colódio húmido e vários equipamentos adicionais que obrigavam a ter sempre consigo pessoas e animais que auxiliam no transporte. Bem preservadas, muitas das placas de vidro, seriam 'reveladas' e digitalizadas mais de 150 anos depois e com uma excelente definição.
Thomson morreu em 1921 aos 84 anos de ataque de coração. Em homenagem à obra que deixou o seu nome foi atribuído a um dos picos do Kilimanjaro, o chamado Point Thomson.
Entre as várias obras que escreveu destaco uma de 1898 intitulada  Through China with a Camera de onde retirei este excerto - e a imagem abaixo - sobre Macau.

Macao is interesting as the only Portuguese settlement to be found on the coast of China. It may be reached by steamer either from Hongkong or Canton, and it is a favourite summer resort for the residents of our own little colony. In that pretty watering-place we may enjoy the cool sea-breezes, and almost fancy, when promenading the broad Praya Grande, as it sweeps round a bay truly picturesque, that we have been suddenly transported to some ancient continental town. 

Macao is a magnificent curiosity in its way. The Chinese say it has no right to be there at all; that it is built on Chinese soil; whereas the Portuguese, on their part, allege that the site was ceded to the King of Portugal in return for services rendered to the Government of China. These services, however, cannot have been properly appreciated, for the Chinese in 1573, built a barrier-wall across the isthmus on which the town stands, to shut out the foreigners. 
The place has had a chequered history since the time of its original foundation, sometimes being under its own legitimate Government, and at others being claimed and ruled by the Chinese. But its history, however important to the parent country, had better be left alone, more especially as there are passages in it which reflect no great lustre on the nation whom Camoens adorned. 
The main streets in Macao are deserted. The houses there are painted in a variety of strange colours, some of the windows being fringed with a rim of red, which gives them the look of inflamed eyes in the painted cheeks of the dwellings. But there are magnificent staircases, wide doorways and vast halls, though the inmates for the most part are a very diminutive race; they are called Portuguese, but they suffer by comparison with the more recent arrivals from the parent land, being darker than the Portuguese of Europe, and darker even than the native Chinese. 
Praia Grande vista da Penha em 1870 por J. Thomson
There is trade going on the streets, but it is of a very languid kind, and the gambling-houses, or the cathedral are the chief places of resort. The forts are, of course, garrisoned with troops from Europe. At 4 p.m. or thereabouts, the settlement wakes up; carriages whirl along the road; sedan chairs struggle shorewards, that their occupants may taste the sea-breeze; and the mid-day solitudes of the Praya Grande have been converted into a fashionable promenade. Ladies are there too, attired in the lightest costumes and the gayest colours; some of them pretty, but the majority sallow-faced and uninteresting, and decked out with ribbons and dresses, whose gaudy tints are so inharmoniously contrasted, that one wonders how Chinnery the painter could have spent so many of his days among a community so wanting in artistic tastes. 
The young men - for there seem to be no old men here, at least all dress alike, quite irrespective of years - are a slender race, but not more slender than diminutive. But if Macao is interesting as a Portuguese settlement, and the only one which now remains to Portugal of those which her early traders founded in China, it can also boast of historic associations, giving it a special and independent attraction. Here the poet Camoens found a retreat, and here too, Chinnery produced a multitude of sketches and paintings, which have really had some influence on art in the south of China.
A placa de vidro antes da revelação (imagem anterior)
O colódio surgiu depois do daguerreótipo. O colódio - espécie de verniz - era aplicado nas placas fotográficas de vidro e depois sensibilizado com nitrato de prata. Dizia-se húmido porque a placa devia permanecer húmida durante todo o procedimento, desde a captação à revelação das imagens. Na prática os fotógrafos transportavam um laboratório fotográfico (quase sempre uma pequena carroça). A sujidade, o riscar e o partir das placas eram os inconvenientes, mas em contrapartida o tempo de exposição foi muitíssimo reduzido.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Grafonolas: década 1930

Neste anúncio de imprensa a Agência Mercantil Económica - na Av. Almeida Ribeiro, 1 a 11 - dá a conhecer ao público os modelos de grafonola portáteis da marca Columbia - "Boas Bonitas e Baratas" - do ano 1930.

domingo, 5 de abril de 2020

Sede da Fábrica de Panchões Yick Loong Co.


Em cima imagem da sede da Fábrica de Panchões Yik Loong no nº 14 da Rua de Miguel Aires (junto ao Porto Interior), em Macau. O prédio foi demolido recentemente.
O nome completo em chinês é: 益隆炮竹工場 Yik Lung Pau Juk Gung Cheung. 工場 / Gung Cheung significa fábrica.
Rótulo de uma das muitas marcas da fábrica
Em português pronuncia-se Iec Long, daí também termos esta designação. 
Foi fundada pela família Tang na década 1920
Nome no muro da  fábrica (Rua Fernão Mendes Pinto, Taipa): 1928 a 1984.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Annuncio: Corridas de Cavallos": 1883

Este anúncio de Fevereiro de 1883 foi publicado na imprensa de Macau - no caso "O Correio de Macau" - e Hong Kong. As corridas cavalos anunciadas disputavam-se no hipódromo de Happy Valley na vizinha colónia britânica. 
Este tipo de corridas, curiosamente, até começou em Macau, muitos anos antes... Peter Mundy, por exemplo, refere corridas em 1637 junto à igreja de S. Domingos.
 O hipódromo e o cemitério de Happy Valley

Na época, Harriet Low (1809-1877) era das poucas mulheres estrangeiras a viver no território (entre 1829 e 1834). No seu Diário escreveu assim a 5 de Novembro de 1829: 
"(...) O campo de corridas está no lugar chamado a Barreira, que impede todos os estrangeiros de passarem além. O campo mede cerca de três quartos de milha. Havia lá uma casa provisória de bambú construída para as senhoras, e posso afiançar-te, minha querida irmã, que era muito interessante contemplar o matizado grupo abaixo de nós. Chineses de todas as descrições, enfarpelados nos seus trajos muito singulares, alguns com os chapéus da forma dum cesto, muitos de cabeça descoberta, mas empunhando uma ventoinha que os protege do sol. Alguns tinham sacos nas costas medindo cerca de meia jarda quadrada, nos quais metem os bebés. Estes pobrezinhos apanhavam chocadelas em toda a roda, no meio da multidão, como se fossem pedaços de madeira.
Portugueses e lascares andavam de mistura com chineses e, ao ouvir esta mistura de línguas – das quais nada compreendi, fez-me pensar na confusão de Babel, o que me levou a desejar que esta doida gente tivesse na terra tanto tempo quanto lhe fosse permitido. Algumas das corridas foram muito boas e fizeram-se grandes apostas.
Regressámos cerca das sete horas e tivemos uma longa discussão sobre os méritos dos ingleses. (...)

Antes da construção do hipódromo era na zona da Praia da Areia Preta
que se realizavam as corridas de cavalos. 


As corridas de cavalos em Macau não passaram naturalmente despercebidas e a 28 de Abril de 1829 o Mandarim de Heong San enviou um ofício às autoridades de Macau “ordenando-lhe que proibisse imediatamente as corridas de cavalos com que, por divertimento, os estrangeiros residentes em Macau (ingleses) assustavam os viandantes, junto às Portas do Limite, o que constituía uma grave ofensa às leis do Império”
Nesta época eram realizadas uma ou duas vezes por ano tendo as primeiras remontado a 1798. Há também registo de corridas perto de Casa Garden (na época arrenda à Companhia holandesas das Índias Orientais). 
Na toponímia um dos registos mais antigos destas corridas é muito provavelmente a Rampa dos Cavaleiros. Há ainda a Avenida do Hipódromo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Chine ancienne et nouvelle

No último ano do século XIX o francês, G. Weulersse (1874-1950), antigo aluno da Escola Normal Superior, agregado de História e Geografia e bolseiro de viagem da Universidade de Paris passou pela China numa viagem à volta do mundo.
Em 1901 escreveu as impressões e reflexões pessoais da viagem e um ano depois publicou-as em Paris num livro  de 366 páginas intitulado "Chine ancienne et nouvelle: Impressions et Réflexions" 
O terceiro capítulo - pág. 63 a 79 -  é dedicado a Macau onde o autor esteve em Abril de 1900.

Neste post apresento alguns excertos da edição original em francês e a tradução dos mesmos onde são abordados os mais diversos temas, desde a arquitectura a hábitos locais, passando pelos templos e igrejas (Ruínas de S. Paulo e Sé Catedral), a gruta de Camões, a população cristã e chinesa, o comércio, o ópio e o jogo do fantan.


"Avec sa fraîche polychromie de murailles blanches, jaunes, mauves et roses, ornées de volets verts et vêtues de verdure, sous le ciel bleu, au grand soleil Macao a un air de jeunesse et de gaîte"

Com a sua fresca policromia de muralhas brancas, amarelas, malvas e rosadas, enfeitadas com postigos verdes e vestidas de verdura, sob o céu azul e o sol escaldante, Macau tem um ar jovial e alegre.

"La 'Praya Grande' est l'orgueil de Macao. C'est un boulevard qui se développe avec ampleur en croissant sur la grande baie. La vue sur le large est très belle: la mer vient battre les enrochements du quai, et quelquefois rejaillit par-dessus les parapets de granit. Ce n'est plus ici l'atmosphère étouffée d'Hong-Kong: on respire à pleins poumons la brise. L'ombre est délicieuse des banians aux branches basses, au feuillage serré, que l'âpre vent de mer a noués et tordus. Enfin ce grandfront de vérandas décorées des plus fraîches couleurs, ces étages de colonnes, ces frontons, ces terrasses: tout cela forme unjoli décor. (...)La Praya est soignée comme une allée de parc: on n 'a rien négligé pour l'embellir; même les poteaux télégraphiques sont décorés, peints en bleu et rouge, et surmontés de boules dorées. C'est l'élé-gance, le 'fini' minutieux d'une ville que le mouvement de la vie ne trouble plus, et qui se pare elle-même comme une relique" 


A Praia Grande é o orgulho de Macau. É uma grande avenida que se desenvolve ao longo da baía. A vista sobre o conjunto é muito bela: o mar bate nas rochas do cais e, por vezes, ultrapassa os resguardos de granito. Aqui já não há a atmosfera abafada de Hong-Kong: respira-se livremente a brisa. É deliciosa a sombra das figueiras de ramos baixos, folhagem serrada, que o rude vento do mar enredou e retorceu. Esta grande frente de varandas pintadas de cores alegres, estes prédios coloniais, estas fachadas, terraços, formam um cenário bonito. (...) A Praia está cuidada como se fosse uma alameda de parque: o seu embelezamento é muito cuidado. Até os postes telegráficos foram decorados, pintados de azul e vermelho, com um globo dourado no topo. É a elegância, o acabamento minucioso de uma cidade que não é afectada pelo movimento normal e que se enfeita a si própria como uma relíquia.

"Plus vivante que l'arrière-ville, la Praya manque cependant d'animation. Les pousse-pousse sont de longues heures oisifs à leur station; et à certains moments la Praya serait désert sans les ratisseurs et balayeurs continuellement occupés à ramasser les feuilles tombées des banians" 

Mais viva que a parte interior da cidade, mesmo assim a Praia tem falta de animação. Os riquexós permanecem estacionados durante horas nas suas estações. Por vezes, a Praia fica deserta, sem os raspadores e varredores que se ocupam da limpeza das folhas caídas das figueiras.

"Au-dessous de l'arsenal, vaste bâtiment blanc aux volets verts dont le badigeon s'est écaillé, au pied d'une muraille de pierres sèches, s'étend le jardin où furent achevées les 'Lusiades'. Des haies de jeunes bam-bous; un taillis clairsemé de grands banians àcaoutchouc dont les racines comme des serpents se glissent dans les fissures des roches, et comme des tentacules de poulpe les enserrent; des dessins de rocaille, mais recouverts de mousse; des allés élégantes, mais envahies par les herbes: tout respire un air de demi-abandon, de nature douce et libre. Quel contraste avec le somptueux, l'impérial jardin de Hong-Kong: mais c"est bien ainsi qu'on imagine la retraite du poète!

Voici son observatoire: il tombait en poussière, on a dû le reconstruire. Mais du haut de la colline la vue ne descend plus sur une campagne paisible comme alors! Au pied même de la terrasse s'étend un quartier chinois. De petites maisons aux toits de tuiles brunes, si pressées les unes contre les autres qu'à peine aperçoi-ton de rares coins de façades blanches, bleues ou roses: au-dessus s 'élèvent les tours des Monts-de-Piété, l'arête des grands murs bordée d'une sorte de fresque blanche et noire. Et le guide me donne des détails positifs: ces Chinois paient 3 cents par an et par mètre carré au gou-vernement de Macao.
El là-bas cette île au nom poétique - 'Green Is-land', l'Ile Verte - est maintenant rattachée à la terre, gâtée par les cheminées et les fumées d'une fabrique de ciment anglaise: cela rapporte 400 piastres par an au gouvernement de Macao, plus 10 cents par tonneau de ciment; — si seulement Camoëns les avait eus pour revenu! Le monument du moins est digne du poète. Entre deus énormes blocs de granit qui, en s'appuyant l'un contre l'autre, forment une arche naturelle, le buste de bronze est placé sur un socle de granit, et sur l'héroїque mélancolie de ce visage où l'soeil droit est éteint, descendent comme des lauriers toujours nouveaux des bran-ches defeuillage vert."


Na parte inferior do arsenal, um grande edifício branco com postigos verdes cuja tinta se lascou, na base de uma muralha de pedras secas, desenvolve-se o jardim onde foram terminados Os Lusíadas. Fileiras de bambus novos, uma mata com grandes figueiras cujas raízes serpenteiam por entre as fendas das rochas e, como tentáculos de polvo, as abraçam; desenhos de conchas cobertas de musgo; alamedas elegantes, mas invadidas por plantas: tudo tem um ar de semi-abandono, de natureza doce e livre. Que contraste com o sumptuoso jardim imperial de Hong-Kong. No entanto, é neste ambiente que se imagina o retrato do poeta!
Eis o seu observatório: cheio de pó, era preciso reconstruí-lo. Mas do alto da colina a vista já não abrangia um campo agradável como então! Perto do terraço, estende-se um bairro chinês. Pequenas casas com tectos de telhas castanhas, apertadas umas contras as outras, azuis ou cor de rosa: por cima, elevam-se as rodas dos Montes-da-Piedade, a aresta dos grandes muros bordados de preto e branco. O guia dá-me informações: estes chineses pagavam 3 centavos por ano e por metro quadrado ao governo de Macau.
Lá em baixo, uma ilha de nome poético - Ilha Verde - que já está ligada à terra, corrompida pelas chaminés e fumos de uma fábrica inglesa de cimento que paga ao governo de Macau 400 piastras por ano e 10 cêntimos por tonelada de cimento; como seria bom se Camões pudesse ter usufruído de tal rendimento.
Pelo menos, o monumento é digno do poeta. Entre dois blocos enormes de granito que, apoiando-se um contra o outro, formam um arco natural, o busto de bronze está colocado sobre um pedestal de granito e, sobre a melancolia heróica desta imagem com o olho direito tapado, ramos de folhagem verde caem como coroas de louros.

"Ces rues étroites, ces 'calçadas' grimpantes et tournantes, sans trottoirs, pavées de têtes de chat ro-cailleuses ou glissantes, rappellent le siècle passé. Les grands vitrages de coquilles vaguement translucides montées sur un treillis en bois, aussi étranges à nos yeux que les carreaux de papier des Chinois, nous transportent encore plus loin, dans le Moyen Age. En plein jour ces rues sont presque désertes. Dans la plupart la pente est trop raide même pour des pousse-pousse. Le visiteur y peut errer et rêver sans être dérangé, troublé même par le bruit: dans quelque endroit un peu plus large il trouvera peutêtre la chaussée transformée en atelier par de petits artisans chinois qui y étanlent, pour sécher, des fleurs artificielles ou bien des cheveux. Beaucoup des rues ou ruelles serpentent entre de grands murs aveugles, sans fenêtres et même sans portes, par-dessus lesquels parfois débordent des verdures tombantes dont la luxuriance même dit l'abandon; entre lesquels résonnent clair les pas solitaires sur le pavé de galets. Quand ce ne sont pas des murs de couvents, ce sont les murs de soutènement des maisons en terrasse."


As ruas estreitas, as calçadas trepadoras e enleantes, sem passeios, calcetadas com pedras ásperas ou escorregadias, fazem lembrar o século passado. As grandes vidraças vagamente translúcidas postas sobre um engradado de madeira, tão estranhas para nós como os ladrilhos de papel dos chineses, fazem-nos recuar até à Idade Média.
Durante o dia, estas ruas estão quase desertas. Na maioria dos casos, o declive é demasiado íngreme mesmo para os riquexós. O visitante pode aí vaguear e sonhar sem ser incomodado ou perturbado pelos ruídos: nas ruas mais largas encontrará talvez a calçada transformada em oficina, com os pequenos artesãos chineses aí instalados, secando as flores artificiais ou até cabelos.
Muitas ruas ou ruelas serpenteiam entre os grandes muros cegos, sem janelas e até sem portas, por cima dos quais cai por vezes uma vegetação luxuriante, sinal de abandono. Aqui, os passos solitários ressoam claramente sobre o pavimento de calhaus. Quando não se tratam de muros de convento, são muros de apoio de casas com terraço.

"Presque toutes les fenêtres d'ailleurs sont défendues par de forts barreaux qui donnent aux habita-tions un aspect de prisons: précaution utile contre les voleurs qui sont nombreux à Macao; protection éven-tuelle contre un coup de main de la population chinoise, très mêlée et assez turbulente!" 


Quase todas as janelas exteriores são defendidas por barras fortes que dão às habitações um ar de prisão: precaução útil contra os ladrões que são numerosos em Macau; protecção contra um eventual golpe de mão por parte da população chinesa, muito intrometida e deveras turbulenta.
"Les plus riches habitations privées sur la Praya Grande sont celles de gros commerçants chinois qui, après fortune faite, ont trouvé ici un refuge contre les exactions des mandarins; ils y ont trouvé aussi un air plus sain que celui de Hong-Kong, et des terrains moins chers" 

As habitações privadas mais ricas da Praia Grande pertencem a corpulentos comerciantes chineses que, depois de conseguida a fortuna, aqui encontraram refúgio contra as imposições dos mandarins; aqui encontraram igualmente um ar mais puro do que em Hong-Kong e terrenos mais baratos.
Ruínas de S. Paulo: Imagem não incluída no livro
"Le véritable monument de l'ancien Macao est une ruine, le portail de 'San Paulo'. Les escaliers qui y montent sont imposants: ils montent, montent, comme vers les nuages, semblables aux escaliers célèbres du Japon; mais larges comme des terrasses, ils ont encore plus de grandeur; l'herbe a beau pousser sur leurs marches de pierre. La façade seule restée debout se détache en plein ciel comme un grand portique triangulaire à trois étages."

O verdadeiro monumento da antiga Macau é uma ruína, a fachada de S. Paulo. As suas escadas são imponentes, não param de subir, até parecem as célebres escadas do Japão; mais largas que terraços, têm ainda uma grandeza maior. A erva cresce por entre os seus degraus de pedra. A fachada fica no topo, destaca-se em contraste com o céu, como um grande pórtico triangular de três andares.

"L'incurie des Portugais a laissé la saleté chinoise souiller cette ruine. Ce qui fut l'intérieur de la nef n'est qu'un amas de décombres et d'ordures où les porcs se promènent. Au moment où je lis l'inscription sculptée sous la grande arcade du milieu: 'Mater Dei...' une énorme truie paraît dans l'ouverture; et des immondices sont accu-mulées devant la 'première pierre', jadis posée en grande pompe, où se lit encore une inscriptions mémorable:
VIRGINI MAGNAE MATRI CIVITAS MACAENSIS LIBENS POSUIT AN. 1602."


A incúria dos portugueses deixou a sujidade chinesa estragar esta ruína. O que tinha sido o interior da nave é agora um monte de escombros e imundície onde os porcos se passeiam. Na altura em que leio a inscrição esculpida sob a grande arcada do meio Mater Dei... aparece uma grande porca na entrada. A imundície acumula-se à frente da "primeira pedra", lançada com grande pompa, onde se pode ler uma inscrição memorável.

"L'intérieur de la cathédrale est très gai, tout blanc, vivement éclairé par de larges fenêtres ouvrant sur des vérandas; les lustres sont chargés de cristaux; jusqu'aux verres des lampes qui sont ondulés et teints en bleu: c'est une salle élégante. Point de mystère, point d'envolée: l'arc du plafond est surbaissé, et des filets d'or relèvent la corniche blanche, comme dans un salon Louis XVI. La chaire est de belle laque noire dorée; et les boiseries des 'loges' reluisent également de laques et d'ors. Les chapelles latérales sont décorées en bleu foncé et en rouge vif. Le grand autel est tout blanc, mais étincelant d'orfèvreries; au-dessus une Vierge en blanc trône sous un dais bleu tendre" 

O interior da catedral é muito alegre, todo branco, iluminado pelas largas janelas abrindo sobre varandas; dos lustres carregados de cristais, até aos vidros das lâmpadas, ondulados e azulados, é na verdade uma sala elegante. O arco do tecto é rebaixado e filetes de ouro realçam a cornija branca, como num salão do estilo Luís XVI. O púlpito é feito de laca preta dourada e os forros reluzem também com lacas e ouros. As capelas laterais estão decoradas com azul escuro e vermelho vivo. O grande altar é todo branco, mas decorado com joalharia. Por cima, está uma Virgem num trono branco sob um pálio azul suave.
"Macao est remplie de religieux et fait montre de ses soldats. Mais ce sont justement des soldats de parade: c'est à peine s'ils savent tenir leur arme; et au moindre défilé on les voit tous: ils sont deux cents. Macao est défendue par sept forts: cela fait à peine trente hommes par fort, à peine de quoi garder les priso-nniers. Et ces forts sont des antiquités: la plupart des canons sont des canons de bronze. Macao contre une attaque sérieuse ne tiendrait pas une heure!" 

Macau está repleta de religiosos e faz alarde dos seus soldados, mas são somente soldados de parada: é com muito custo que sabem pegar numa arma e no mais pequeno desfile vêem-se logo todos pois são só duzentos. Macau está defendida por sete fortes e é com muito custo que cada um tem uma guarnição de trinta homens e é também com dificuldade que os presos são guardados. Estes fortes são antiguidades: a maioria dos canhões é feita de bronze. Perante um ataque a sério, Macau não durava mais do que uma hora.

terça-feira, 31 de março de 2020

O Diário de Auguste Borget: Península e Largo do Senado

Macau, 10 de Janeiro de 1839

A Península de Macau faz parte da grande Ilha do mesmo nome, à qual se liga por um istmo de trezentos a quatrocentos metros de largura, inteiramente atravessado por uma muralha pouco elevada, no meio da qual deixaram uma porta que nenhum europeu pode atravessar, porque do outro lado é um posto de mandarins. A certa distância desta barreira, do lado da península, fica um templo bastante bonito, no meio de um espaço murado. Em frente, e do lado do Porto Interior, entra-se num pátio cercado por uma bela balaustrada aberta em dois lados, de modo a deixar uma passagem, a qual é muito frequentada. Nunca consegui entrar no templo, apesar de vários esforços que fiz para tal, pois o mistério deste lugar tinha para mim forte atracção. Cada vez que atravesso o pátio ouço o ladrar de cães que não deixam nunca sair e que vejo através das grades. Este templo encosta-se à esquerda a uma colina guarnecida de alguns pinheiros e na qual há um outro templozinho, tão perfeitamente dissimulado sob as árvores magníficas que o rodeiam que, a primeira vez que vim desenhar ali muito perto, não suspeitei da sua existência. Chega-se lá por uma escada em mau estado; depois de entrar a porta, sobre a qual ainda se vêem distintamente as inscrições de que estava coberta outrora, apenas vi um telhado sustentado por quatro colunas de madeira, debaixo do qual não resta nem altar, nem ornamentos de qualquer espécie. Nunca encontrei, nesta ruína, senão chineses miseráveis, sem rabicho, o que me fez saber que era um lugar de asilo onde os culpados estão em segurança; isto explica a deterioração e o abandono do templo que nada mais conservou da antiga personalidade e serve agora de cozinha aos malfeitores que nele se vêm refugiar.
O Largo do Senado num mapa do final do século 19
Macau, 22 de Fevereiro de 1839
O Largo do Senado, que é o maior de Macau, separa a cidade chinesa da portuguesa e é aí onde os estrangeiros mais se misturam com os locais. O Senado ocupa uma das suas extremidades; na outra, e num recanto, encontra-se a Igreja de São Domingos, junto da qual desemboca uma rua chinesa. É precisamente aqui que venho de manhã para desenhar os grupos chineses, porque estou mais à vontade que no bazar onde há sempre multidão, o que me tira a possibilidade de trabalhar, enquanto que neste canto assisto ao espectáculo que quero pintar, e vejo os meus actores agitarem-se sem ser incomodado pelo seu movimento. Uns não mudam de lugar; são os serralheiros, os barbeiros, os sapateiros, os vendedores de comestíveis e os de comida feita; mas os fregueses vão e vêm sem cessar, aos encontrões e acotovelando-se; algumas senhoras portuguesas, cabeça embiocada num xaile de algodão colorido e seguidas de um moleque que transporta a sombrinha aberta, vêm diversificar esta multidão. 
Os serralheiros batem o ferro, enquanto o fogo é atiçado pelo fole cilíndrico, cujo êmbolo se move horizontalmente; ao lado faz-se bicha à volta do barbeiro que rejuvenesce todo o que lhe passa pelas mãos: nada mais curioso de ver que um chinês a quem se acaba de rapar a cabeça, se entrançou o rabicho cuidadosamente e se limpou tudo o que ele próprio negligencia; ainda todo húmido da completa ablução a que foi submetido, põe-se ao sol e estende-se aos seus raios ardentes com uma volúpia que nós não saberíamos compreender, nós europeus a quem tais delícias trariam uma terrível constipação ou mesmo uma congestão cerebral; mas têm o crânio para o sol que têm. Será mais espesso do que o nosso, ou o hábito ter-lhe-á tirado a susceptibilidade? Não saberei dizê-lo; mas decerto que a Providência nunca se descuida.
Ao lado, o sapateiro deixa o sapato que faz, para atender a um trabalho mais premente: calçado levemente avariado que pede reparação imediata; mas é à volta dos vendedores de comestíveis e sobretudo dos de comidas que há o maior movimento. É aqui que se deve estudar a fisionomia chinesa, observando os compradores e os vendedores, a vigiarem com atenção a balança romana que serve para pesar os artigos, uns para terem melhor peso, os outros para tentarem dar o menos possível, e todos discutindo os preços com vivacidade. Um pouco mais longe, uma figurinha bem alimentada, sentada à vontade, saboreia o cheiro das especialidades que o cozinheiro acaba de pôr na sua frente em pratinhos pequenos, enquanto o seu vizinho pobre calcula, antes de pedir o jantar, se lhe restará dinheiro para o dia seguinte; num canto, um outro homem disputa, e muitas vezes em vão, algumas folhas, alguns pedaços desdenhados, aos enormes porcos que formigam por toda a parte. Assim, sempre o antagonismo do pobre e do rico, e o triunfo das instituições que imprime em cada um o respeito da propriedade.(...)
Excertos dos diários de Auguste Borget, pinto francês que viveu em Macau em meados do século 19.

segunda-feira, 30 de março de 2020

domingo, 29 de março de 2020

"Um cantinho português na China"

"Um Cantinho Português na china" é o título do artigo de página inteira da autoria de Lima Figueirêdo publicado na edição de 31 de Maio de 1941 da "Revista da Semana: publicação de arte, literatura e modas" (Brasil). O autor esteve no território e escreve em português do Brasil.

Depois de desvendarem terras e mais terras, cujos mistérios deixaram de existir para a gente branca, os portugueses se viram, de um momento para outro, despojados de quase tudo que haviam conquistado com energia e valor. Ingleses e bátavos sempre é alheta dos descobridores, procuravam inverter, em favor dos seus pavilhões, as regiões ferazes que iam topando pelo mundo fora. E, como sucedeu no Brasil, lutas heróicas foram travadas na defensão do chão em que Vasco da Gama, Cabral, Afonso de Albuquerque, Rafael Perestrelo, Fernão Peres de Andrade e muitos outros cravaram a bandeira lusitana. 
À força das armas quase nada conseguiram, porém com o tempo, galgando com mais facilidade o aclive do progresso, conseguiram tudo, ou melhor quase tudo, que vinham há séculos desejando. Portugal sentiu seu império minguar sem ter forças para defendê-lo, como outrora fizeram seus impávidos avoengos. 
E hoje? O perigo se acentua. Moçambique e Angola na África, Macau, Timor, Timorlau e Goa na Ásia continuam, pela fraqueza da metrópole, a desafiar cobiças dos povos fortes que querem a hegemonia do mundo, ou das raças prolíficas e de notável engenho empreendedor, as quais procuram novas terras sob o argumento da necessidade de um lugar ao sol.

Macau, outrora conhecida por Amagau e chamada Ngaomen pelos chins, foi por estes cedida em 1557, mercê dos auxílios recebidos dos portugueses, para pôr um paradeiro nas ações ousadas dos piratas que infestavam aquelas ínvias paragens. Há quem afirme que o nome Amagau veio de Ma Kok Miu ou "Templo da Deusa Ama", sob a proteção da qual ficaram os lusos com aquele cantinho o guisa de entreposto de compra e venda. Dia a dia Macau crescia de importância pelo montante das transações que nela eram levadas a efeito. O britânico, entretanto, não gosta de ficar longe de any part onde esteja jorrando ouro, e por fas ou por nefas conseguiu dos chins - Hong Kong, com um porto profundo, capaz de relegar como relegou o porto luso a uma secundária importância. 
Ultimamente Macau cresceu de vulto aos olhos daqueles que visitam o longínquo oriente, por haver Portugal permitido que a linha aérea transpacífica americana tivesse em suas terras seu ponto final. 
A colônia portuguesa é uma aglomeração chinesa, na qual em 160.000 almas quiçá-se contem apenas 4.000 peninsulares. Os nomes das ruas e demais vias publicas são lusos todavia nas fachadas das casas comerciais só se vêem berrantes letreiros em caracteres chineses. A não ser uma ou outra nuance portuguesa que se lobriga de longe em longe o restante é completamente chinês. A língua normal é o cantonês, porém entre gente culta fala-se o inglês que é - pode-se dizer - o idioma oficial. Os macauistas, isto é, gente de sangue híbrido, falam com certa perfeição o português e têm prazer em dizer que são portugueses, se bem que não possam, negar, pelo amendoado dos olhos, a parcela asiática. Como os nossos mamelucos não toleram o chim e miram o ocidental, maximé o britânico, através de um mixto de ódio e inveja. 
Informaram-me que em Macau é obrigatório o ensino da língua de Camões Não sei atá que ponto irá a verdade deste fato, contudo posso afirmar que na montra de uma livraria avistei livros didáticos em nosso idioma.
Ao contemplar aquela vitrine mal arrumada lembro-me que esbocei um sorriso de satisfação - lá estava uma obra de autor brasileiro - O Príncipe de Nassau, de Paulo Setúbal. Dos nossos jornais, somente "A Noite" consegue chegar até lá uma vez ou outra. Seu representante foi solicito em proporcionar-me sobejas amabilidades.
Em todo o Extremo-Oriente não encontrei um negro. Já estava mesmo com vontade de 
ver um creoulo. Tive meu desejo satisfeito. O português não pode viver longe da gente de Chan - leva-la para onde quer que esteja, é o seu lema. E lá estão as com panhias de negros de Moçambique: altos, fortes, de basta carapinha e beiçolas caídas, fardados de caqui, com calças curtas, meias de foot-ball e casquete de fuzileiros navais. 
Que tipo saírá da fusão do negro com o amarelo? A maior parte da população entrega-se à pesca que produz a principal fonte de renda, avaliada em quase cinco milhões de escudos por ano. Os biscoutos de Macau também são famosos e largamente conhecidos, constituindo-se em excelente fonte de receita. Pelo gracioso e atraente das suas embalagens, graças à proverbial habilidade dos chinas, compradores, o chá, o tabaco, o fubá de arrôz e o ópio adquirem bem importante número de compradores.
Nos tempos nunca olvidados de paz no Extremo-Oriente, muitos estrangeiros endinheirados procuravam aquele recanto, de Outubro a Março, para gozar o "bon air" do seu clima mediterrâneo. O Hotel Riviera enchia-se de novos Cresos e a pequenina e bombeante cidade ficava faceira, quando lhe davam o título de "Monte Carlo do Oriente".

Entre as curiosidades de Macau está a pedra de engomar - pesa cerca de meia tonelada e e manejada pelos pés de dois operadores. Qual cabeça teria produzido tal invento?
Visitando-se a colônia, não merecem ser esquecidos três logradouros públicos: a gruta de Camões, a estátua de Vasco da Gama e as ruínas da igreja de São Paulo. A gruta fica no meio de garrido vergel. Nela, segundo dizem, o formidável vate compôs parte do seu imortal poema. A estátua do Senhor Vasco da Gama - consoante o linguajar local - não tem a imponência que o grande vulto merece. A frontaria da igreja de S. Paulo é de fato uma maravilha. Fui informado de que fora construída pelos católicos japoneses fugitivos de Nagasaki, quando da perseguição religiosa no Japão.
Um dos edifícios mais importantes é o Leal Senado, onde se acha a sede do Governo* e o Museu de Camões, no qual foi reunido tudo que rememorasse a ação dos primeiros tempos da colônia - inscrições rupestres, alfaias, vestes sacerdotais e mil outras cousas. Orgulhavam-se os portugueses de não terem arriado o vexilo nacional durante os sessenta anos do domínio espanhol e por isso uma inscrição foi feita no alto da escadaria da entrada principal: «Cidade do Santo Nome de Deus de Macau não há nenhuma mais leal. Em nome do rei Nosso Senhor, Dom João IV, o Governador e Capitão General João de Souza Pereira, mandou que se fizesse esta inscrição ao  testemunho da extrema lealdade de seus habitantes, 1654».


Fracas são as extensões de terra da colónia. A pequenina península de Macau mede 4km200 metros por 1 km200 metros. As ilhas de Taipa e Coluane também não são grandes. A ilha da Lapa, muito próxima, está nas mãos dos chineses, se bem que tudo façam os lusos para provar que têm direito a ela. Lá está um leprosário que me fez lembrar uma pagina de Wenceslau de Morais, em seu magnífico "Paisagens da China e do Japão", constituído de crônicas escritas ao dealbar do nosso século. O titulo é sugestivo - Amores... O cenário formado pelas águas escuras e soturnas que banham as ilhas sino lusitanas. Entrecho horripilante: O sexo dos leprosos em revolta. Reuniam-se aqueles párias para vencer a tortura que os devorava - a posse da mulher. Em barcos repelentes, nas horas solitárias da noite, agrupavam-se magotes de infelizes. Alapardavam-se como podiam para surpreender as mulheres que, nos seus tankas, transportavam de um lugar a outro os retardatários. 
"Quando era chegado o bom momento, então - ó delírio supremo! - num ímpeto de remadas e desejos, o barco voava, dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as vítimas indefesas. Hábeis no ataque, com as mãos sem dedos sufocavam os gritos das mulheres, e murros, ou premindo num relance pelo faro distinguiam das velhas as moças afastavam dos ossos duros a carne fofa e tenra, e com fome de hienas, as bocas pestilentas comiam, devoravam beijos as pobres raparigas que em vão se debatiam na luta tremenda duns instantes.... Após, o barco dos leprosos seguiam serenamente à margem chinesa, e eles dispersavam, mudos, quase felizes, indiferentes por momentos ao prurido das chagas, e semanas depois reuniam-se novamente. No tanka, as moças ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de desespero, de vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina que é assim, por um beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se multiplica de corpo a corpo."
* Imprecisão do autor; não há registo de que a sede do governo tenha alguma vez sido no edifício do Senado, que era um órgão executivo municipal.

sábado, 28 de março de 2020

Prato de porcelana "Palácio do Governo de Macau"

Durante o reinado de D. Luís I, foram encomendados vários serviços de porcelana chinesa para uso nos palácios dos Governos da Índia, de Timor e de Macau. No caso de Macau admite-se que uma das encomendas tenha sido feita por volta de 1880.
Prato de louça com 24 cm de diâmetro com as armas reais portuguesas e a legenda "Palácio do Governo de Macau" do período da Dinastia Qing e do reinado do imperador Guangxu (1875-1908).
As armas reais têm o escudo do tipo designado por francês, com cinco escudetes postos em cruz, e cada escudete carregado de cinco besantes. A bordadura tem sete castelos. 
Peça do espólio do Metropolitan Museum of Art (Nova Iorque, EUA).

sexta-feira, 27 de março de 2020

"Macao is worth seeing"

Macao is worth seeing on many accounts although fallen from the position it once held Its churches and public buildings are numerous and handsome its streets well paved and cleanly, and the Praya Grande, a crescent of goodly well constructed houses facing the sea, to be coveted as a place of residence in this monsoon. Its trade has much declined since our merchants removed their business to Hong Kong and the finishing blow was given by the late Governor Amaral who, in turning out the Hoppo or head Chinese Custom house official, put a stop to the most lucrative portion of the junk trade.
Formerly numbers of junks arrived annually with cargoes from Singapore and the Straits for transhipment to other ports on the coast and on the rivers, in the interior, now they are obliged to go elsewhere to get the necessary chop or permission to unload Amoy.
I was told was reaping much benefit from this change and unless the Hoppo be reestablished Macao may never recover the commerce thus injudiciously driven away.
In common with all Portuguese colonies and possessions the church has the lion share of the good things here and the lady in scarlet revels in her abominations.
The people, if a few miserable, half castes from Goa and other places can be dignified with the appellation are priest ridden and superstitious; no heretical place of worship is permitted to pollute by its presence the abode of the faithful and it seems almost incredible that although the English for so many years ruled paramount here as regards wealth and intelligence and that Macao might be considered in the light of a suburban villa residence attached to to the factory at Canton; no Protestant church or chapel has ever been erected nor to my knowledge has any provision been made for the spiritual requirements of our countrymen in this remote region.
Vista final séc. 19 (imagem não incluída na obra referida)
There is however a very pretty spot consecrated as a cemetery in which many gallant heroes belonging to our noble service are taking their rest among them Sir Humphrey Senhouse and Lord John Churchill. This burial ground adjoins the gardens of Senhor Marques which are liberally thrown open to the public by the proprietor here is shown the cave sacred to the memory of the great Lusitanian poet Camoens a pretty spot embosomed in the shade of some magnificent lychee trees here in cool grot the bard passed much of his time and on a tablet erected to his memory two verses of his immortal poem the Lusiad are inscribed.
In its military position Macao resembles Gibraltar a narrow sandy isthmus about two miles in length connects it with the mainland or what may be considered the main in the centre of this neutral ground stood the barrier a stout stone wall extending across the strip the arch thrown over the road is all that now remains of this Chinese post the rest is a heap of ruins. The spot where poor Amaral was assassinated is about two hundred yards on the Macao side of this barrier.
Since his death the Portuguese have claimed that portion of the neutral ground as part of their territory have constructed forts to command it and the amis of Portugal are deeply engraved on a large stone forming part of the boundary of the building where formerly the Mandarin nominally master of Macao had his official residence. The garrison is very small consisting of about five hundred every one included a large proportion being officers Many of the men are military delinquents answering to the description of those unhappy beings who composed our African corps at Sierra Leone in former days with few exceptions they seem a wretched lot.
There was a ghost of a military band which played for a few minutes at morning parade in front of the windows of the hotel at which I was staying the Albion on the Praya Grande. The harbour of Macao is reported to be fast filling up and is little used except by junks and lorchas two men of war brigs were however in it apparently unseaworthy.
The Typa, a snug anchorage, is the rendezvous for vessels drawing more than 12 feet but ships must lighten to 15 feet to get in even at springs. The Donna Maria frigate and US corvette Marion were moored there and the place is seldom left without an American man of war this being now the head quarters of their navy the Mahon of the east.
The holding ground in the outer roads is good but a ship might as well and better be at sea as in the outer roads of Macao in blowing weather a heavy ground swell sets in and all communication with the shore is cut off.
The Amazon was at anchor here full six miles out she sailed on the 27th for Manila and I returned to Hong Kong in the Canton, a fine iron steamer of 160 horse power belonging to the Peninsular and Oriental Company; the distance is forty two miles which she did in a minute or two over four hours. 
I must not forget to mention a visit I paid to the studio of Chinnery the artist whose reputation is famous throughout the East indeed it may be said to be still almost European although so many years have elapsed since he left his native land Mr C cannot now be far short of eighty years of age he left England for Madras in 1801 and has been settled at Macao since the year 1825. (...)
Praia Grande ca. 1850. Pintura anónima do período China Trade.
Excerto do artigo "Notes on a Voyage to China in her Majesty's late Screw Steamer Reynard, P. Cracroft Commander" publicado na The Nautical Magazine and Naval Chronicle, Londres, Janeiro 1853. 
A passagem por Macau deu-se em 1852. Entre as várias curiosidades deste testemunho destaco a visita ao estúdio do pintor George Chinnery, o hotel Albion, na Praia Grande e ainda a banda.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Romagem à Gruta de Camões: Josef Lehnert

O austríaco Josef Lehnert fez parte da viagem à volta do mundo levado a cabo pela corveta imperial do Arquiduque Frederico na primeira metade da década de 1870. Nesse périplo passou por Cantão, Hong Kong e Macau. Na deslocação ao território português visitou a gruta de Camões, o que classificou como uma peregrinação. 
O excerto que se segue é a tradução da obra de Josef Lehnert intitulada "Um die Erde. Reiseskizzen von der Erdumseglung mit S.M. Corvette Erzherzog Friedrich in den Jahren 1874, 1875 und 1876 II.", publicada em Viena de Áustria em 1878.


"Foi apenas interesse histórico que nos levou a realizar uma excursão a Macau, na verdade poder-se-ia falar de uma peregrinação, uma vez que era o de visitar uma cidade cujo bairro europeu apenas podia apresentar ruas vazias de população e muitos edifícios e casas caídas ou arruinadas.
(...) por todo o lado via-se destruições feitas pelo último tufão* - montes de dejetos e ruínas - que não foram retirados, pois os habitantes encontram-se empobrecidos e, como nos disseram, são lânguidos. (...) De tempos melhores data o manifesto orgulho, que, perante as condições deprimentes, necessariamente causa impressão trágico-cômica no estrangeiro. A aparência dos colonizadores portugueses, em geral, não é simpática; os vultos secos e enfraquecidos com a cor de pele amarela combinam bem com a cidade desertificada.
A única lembrança sorridente da época florescente de Macau é certamente o monumento a Camões num jardim situado no término leste da cidade. Caminhos cobertos de musgo cortam uma mata romântica que cobre a descida de uma colina; já há muito esse parque sente falta da mão de um jardineiro. Um ou outro visitante que, imerso em pensamento nos magníficos poemas do imortal Camões, tomou a gosmenta picada para a gruta e ali se encontrou estarrecido, viu-se, despertado de suas contemplações, de repente caído no sujo chão. Tais surpresas poderiam ser evitadas com poucos recursos, de outra forma a peregrinação ao monumento do poeta tornar-se-á perigosa demais.
No ponto mais elevado do jardim encontra-se a assim-chamada gruta, uma pequena cavidade numa rocha saliente. Ali se encontra sobre um pedestal de pedra o busto de Camões. Alguns versos do Lusíadas encontram-se gravados nas superfícies laterais do pedestal.
A vista da cidade e do mar que a envolve, cheio de vida com os seus numerosos juncos, é encantadora. Também se pode ver uma grande parte do labirinto de ilhas que se estende à frente e na desembocadura do rio Pérola. Sem querer pensa-se no canto de Camões."
Pintura de G. Chinnery em meados do século 19
Curiosidade: No capítulo intitulado "Cantão e Macau" surge uma ilustração com a legenda "Uma casa de apostas em Macau", tema que ficará para um próximo post.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Manuais de "língua sínica"

Lições progressivas para o estudo da lingua Sinica fallada e escripta: vertidas em portuguez para uso dos alumnos da Escola Central de Macau.
Typographia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, 1890 
Trata-se de uma tradução - de Pedro Nolasco da Silva - de uma obra original em francês.

Edição de 1895
Pedro Nolasco da Silva (1842-1912) é o responsável da maior parte dos manuais escolares de língua chinesa publicados em Macau no final do século 19 e início do século 20. Foi ele o chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico entre 1885 e 1892.
Os manuais tinham essencialmente três objectivos: dotar as repartições públicas locais de meios para se poderem relacionar com a população chinesa; ajudar o trabalho dos intérpretes/tradutores da língua chinesa, nomeadamente os que trabalhavam nos consulados portugueses de Pequim, Cantão e Xangai; suscitar nos mais jovens o interesse para se tornarem intérpretes/tradutores da língua chinesa (sínica).
Obras de Pedro Nolasco da Silva:
1884 - Círculo de Conhecimentos em Português e China; Fábulas; Phrases Usuaes dos Dialectos de Cantão e Peking; 
1886 - Grammatica Pratica da Lingua Chinesa;
1889 - Vocabulário e Phrases dos Dialectos de Cantão e Peking para uso dos Alumnos da Escola Central de Macau; 
1894 - Compilação de Phrases Usuaes e de Diálogos nos Dialectos de Peking e de Cantão para uso dos Alumnos da Escola Central de Macau; 
1895 - Os Rudimentos da Lingua Chinesa para uso dos Alumnos da Escola Central do Sexo Masculino; 
1901 - Manual de Lingua Sinica Escripta e Fallada: 2.a Parte Lingua Sinica Fallada. Vocabulário; 
1902 - Manual de Lingua Sinica Escripta e Fallada: 1.a parte. Língua Sinica Escripta. Noções Preliminares e Lições progressivas; 
1903 - Lingua Sinica Escripta. Tradução da Amplificação do Santo Decreto; Manual de Língua Sinica Escripta e Follada: 2.a Parte. Língua Sinica Fallada. Phrases Usuaes. Diálogos e Formas de Conversação; 
1911 - Bussula do Dialecto Cantonense; 
1912 - Bussula do Dialecto Cantonense adptado para as Escolas Portuguesas de Macau; Livro para o Ensino da Literatura Nacional - Kuok Man Kau Fo Shu.
Edição de 1902

terça-feira, 24 de março de 2020

"Batalhão de Artilheria de primeira linha": 2ª parte

Resumindo o post anterior...

Com o batalhão foi criada uma Escola de Instrução Primária, regida pelo capelão, tendo por ajudante um Oficial Inferior, e uma aula elementar de matemática, para instrução dos Oficiais Inferiores e mais Praças do Corpo, regida por um oficial subalterno do Batalhão.
Estas escolas eras públicas e gratuitas para os “meninos e mancebos macaenses” que pretendessem frequentar.
Havia ainda uma Escola Prática para exercícios de artilharia sob a direcção dos oficiais, que para tal função eram nomeados pelo Comandante do Corpo.
O Comandante do Batalhão exercia, sob as ordens do Governador de Macau, as funções de Inspector de todo o material de artilharia, munições e mais apetrechos de guerra, tendo a seu cargo a visita das fortalezas; era igualmente Inspector das Obras Públicas Militares.
Toda a pólvora para consumo das fortalezas e das tropas da guarnição era exclusivamente remetida pela Fábrica Nacional de Goa.
A Cidadela do Monte, ou seja, a Fortaleza do Monte, passou a ser o Quartel do Batalhão, sendo comandado pelo responsável do Batalhão. 
Existiam ainda a Fortaleza da Barra, os Fortes de S. Francisco, do Bom Parto (ou Bom Porto) e Guia que ficaram sem comando efectivo. Segundo o Decreto, em cada uma destes estruturas haveria um militar com as funções de Fiel encarregado do material de artilharia, sob as ordens do Comandante do Batalhão Inspector da Artilharia.
Com este decreto o Hospital Regimental de Macau foi extinto criando-se no Hospital da Misericórdia uma enfermaria militar.
O armamento, correame e demais equipamento do batalhão era fornecido pelo Arsenal do Exército de Lisboa e pago pelo governo de Macau. 
Vejamos agora os salários e uniformes previsto no decreto da Secretaria d Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar de treze de Novembro de 1845.

1. Os Soldados artifices vencerão além do respectivo pret a gratificação de cento e vinte reis diarios somente nos dias em que trabalharem no exercicio do seu oficio. 
2. Cada uma das praças de pret vencerá diariamente quarenta réis para pão e vinte réis para a massa do fardamento. 
3. Todos os vencimentos serão em moeda da Provincia. 
4. Fica abolida a gratificação para o aluguel de casas que até agora se pagava aos Oficiaes os quaes serão alojados em Edificios Nacionaes dos que existem disponiveis fazendo se lhes para esse fim os arranjos necessarios os que não quizerem acceitar esse alojamento pagarão casas á sua custa.
Localização do Forte de S. Francisco numa pintura anónima d emeados do séc. 19
Tabella nº 2
Grande uniforme para os Oficiaes
1. Farda de panno azul ferrete abotoada com oito pares de botoes abas compridas gola encarnada com uma granada bordada de  ouro em cada extremo carcella virados das abas e vivos côr da gola botão amarello com as Armas Reaes. 
2. Calça de panno igual ao da farda ou branca conforme a estação a de panno com uma lista côr da gola na costura exterior de cada perna. 
3. Barretina de pelo com tampo de prato envernizado palla preta redonda tambem envernizada pennacho de pennas encarnadas tendo um palmo de comprido oliva e rozeta dourada com o laço nacional chapas e escamas tambem douradas como as da Artilheria do Exercito de Portugal e no centro da chapa a letra M em relevo de prata. 
4. Luvas brancas em toda a estação. 
5. Espada talim banda dragonas e mais distinctivos correspondentes a cada Patente tudo como no Exercito de Portugal usam os Oficiaes de Artilheria.
As pastas dos Oficiaes montados terão a letra M dourada na face exterior.
Capitão em "grande uniforme" e soldado
Pequeno uniforme para os Oficiaes 
1. Sobrecazaca de panno côr da farda abotoada com oito pares de botões gola direita de panno encarnado com uma granada bordada de ouro em cada extremo. 
2. Calça como a do grande uniforme. 
3. Barretina preta de oleado como se usa na Artilheria e Infanteria do Exercito de Portugal. 
4. Charlateiras de panno côr da farda avivadas de encarnado e guarnecidas de galão de ouro com meias luas de metal dourado e os distinctivos correspondentes a cada patente. 
Chapa da barretina
Grande uniforme para as praças de pret 
O grande uniforme para os inferiores e mais praças de pret será regulado pelo fardamento estabelecido para os Oficiaes no que corresponder a cada praça seguindo se geralmente o que se acha determinado para os corpos do Exercito de Portugal.
Pequeno uniforme para as praças de pret 
1. Fardeta de panno cór da farda abotoada com uma só ordem de botões gola encarnada com granadas de panno azul ferrete cm cada extremo canhão carcella como na farda. 
2. Calça de cor correspondente á farda ou branca na estação competente. 
3. O Bonet de panno azul ferrete sem palla com uma risca de panno encarnado e na frente um DI de latão e coberto com capa de oleado preto no tempo das chuvas.

Nota: Ilustrações de Rui Belo inseridas no livro "400 anos de Organização e Uniformes Militares de Macau" (1999), da autoria de Manuel A. Ribeiro Rodrigues.