sexta-feira, 13 de março de 2026

Memórias de Manuel Cotovio (1970-1971)

Manuel Cotovio prestou serviço militar em Macau entre Fevereiro de 1970 e Dezembro de 1971 pertencendo ao esquadrão de cavalaria nº 4 criado em 1967 e extinto por volta de 1974 quando foi adstrito ao PPM8275.
À semelhança de outros ex-militares, desafiei-o a recordar Macau do início da década de 1970 e o que se segue é o relato na primeira pessoa após várias trocas de emails. Algumas das imagens são de MC outras são da época e pretendem ilustrar a Macau que Manuel Cotovio conheceu. Depois de o ter feito pessoalmente, deixo aqui publicamente o meu agradecimento - e as desculpas pela publicação tardia - por mais este testemunho inédito e exclusivo do blogue Macau Antigo.
Quando fui mobilizado dissera-me que ia para Angola e só quando cheguei aos adidos é que soube que ia para Macau. A viagem começou com o embarque em Lisboa no dia 26/12/1969 no navio Timor. Como era soldado e não havia camarotes era passageiro de 3ª no porão. Eramos quase 200, uns iam para Macau outros para Timor. Fizemos escala em Lobito, Luanda e Beira Lourenço Marques. Mas desembarquei em Hong Kong, apanhei o barco para Macau onde cheguei às 22 horas de 12 de Fevereiro de 1970.
Fui colocado no EC4 (Esquadrão de Cavalaria) que ficava junto ao Jardim da Flora e do Quartel da Policia. O comandante nessa altura era o capitão Casquilho, e o Governador de Macau o Nobre de Carvalho. No inicio fez-me muita confusão quando ia fardado na rua ver as pessoas a desviarem-se e algumas até punham o lenço a tapar a cara, nos autocarros não  se sentavam ao nosso lado, e no cinema com certeza que tinham um código porque os lugares eram marcados quando adquirimos o bilhete e lá dentro nunca tínhamos vizinhos. Mais tarde depois soube que eram restos da rebelião de 1966. Felizmente que isso foi quase logo ultrapassado.
A inauguração do Hotel Lisboa foi nessa altura. Ia lá todos os dias beber um cafezinho no coffee shop e ainda lá ouvi uns faditos. Também gostava do Estoril que ficava perto do quartel. Ao Macau Palace (casino flutuante no Porto Interior) também fui algumas vezes. Havia música. Tenho saudades do Restaurante Belo na Av. Almeida Ribeiro, faziam uns cachorros que era de comer e chorar por mais. Havia ainda o Ruby e o Safari.
À praia a Coloane só fui dois fins-de-semana. Foi também num fim de semana que fui à Taipa. Não havia ponte e a viagem era de barco. Ao Canídromo é que fui mais vezes. Gostava muito do espectáculo e das peripécias que envolviam as corridas de galgos mas era raro jogar. O dinheiro não era muito e tinha de dar para os cigarros.  Um maço custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. Por vezes ia ao cinema. Lembro-me do Apollo onde vi o filme Woodstock e já aqui no blog veio-me à memória o Nam Van. Outra coisa que já não me lembrava mas ao ver as fotos recordei muito bem era aquela técnica de pesca com redes e bambús. O quanto eu fiquei admirado com aquilo...

O EC4 estava aquartelado num edifício tipo pré-fabricado revestido a chapa ondulada de alumínio parecido com os que os americanos usavam no Vietname. As traseiras estavam mesmo junto ao jardim da flora. Do lado esquerdo, num nível inferior, era  uma escola.
Um soldado recebia de pré 100 patacas ora não me dava para grandes aventuras por isso hotéis só ia a esses três que anteriormente referi, e muitas vezes era para ver jogar bowling e nas máquinas que estavam cá fora porque não tínhamos autorização para entrar no salão nobre dos casinos.
Quanto aos soldados éramos 13 mas só me lembro de um nome, foram outros para o Quartel General; não sei se chegamos aos 50. Tinha uma agenda com alguns apontamentos onde tinha nomes e endereços de todos do EC4 e de outros que vieram no barco só que quando chegamos a Lisboa desembarcamos quase madrugada e no quartel dos 'adidos' com a confusão de entregar o espólio perdi uma malita com algumas coisas sem valor material mas com interesse sentimental.
Ir ao SPM (Serviço Postal Militar) era uma das minhas funções: buscar e levar correio. Tinha um cartão de livre trânsito para andar na rua, mas a maior parte das vezes apesar de não ser muito longe ia no jipe com o condutor de dia.
Entrada para o antigo paiol (fotos séc. 21)
Nos primeiros seis meses cheguei a prestar serviço ao paiol da estrada de Cacilhas. Fiz umas guardas nessa guarita frente ao paiol. Nesse espaço, a casa da guarda, dormíamos e tomávamos as refeições. Numa outra guarita fazíamos reforços à noite. Havia aí um túnel que diziam atravessar o monte da guia e ligar à parte sobranceira ao nosso quartel. Não sei se tinha fundamento mas as entradas ou saídas estavam lá.
Uma vez na parte de Cacilhas tentei entrar lá com um cão que era o nosso companheiro nas noites de reforço, mas só andamos uns metros pois o cão começou a ganir e ladrar e a recuar. Eu também tive medo e voltei para traz já que a visibilidade também era pouca."

quinta-feira, 12 de março de 2026

Retrato a óleo de Camilo Pessanha por Pedro Barreiros

Retrato a óleo da autoria de Pedro Barreiros, 1976
No canto superior direito o "ex-libris" do poeta
 
A obra serviu como ilustração da capa do livro "Homenagem a Camilo Pessanha", editado pelo Instituto Português do Oriente - Instituto Cultural de Macau, com "Organização, prefácio e notas de Daniel Pires".

quarta-feira, 11 de março de 2026

Dois professores do Lyceu de Macau

Fotografia impressa pelos estúdios "Man-Fook Photographer", localizado no nº 1 e 2 "near the Steam Wharf", ou seja, junto ao Cais dos Vapores no Porto Interior, no Largo da Caldeira.
No cartão fotográfico o texto no topo está escrito da direita para a esquerda, como era tradicional na época.
Chinês: 萬福影相 Transcrição (Pinyin): Wàn fú yǐng xiàng
Tradução: Fotografia Man-Fook (ou "Mil Felicidades")
Na parte inferior 舖在澳門火船頭門牌第二號
Tradução: Loja situada no número 2 do Cais dos Vapores de Macau. (não refere o nº1)

Na fotografia tirada ca. 1899 estão Camilo Pessanha e João Pereira Vasco, na época dois professores do Lyceu de Macau. Tudo indica que se trata do pátio da residência de Pessanha na Praia Grande, junto à Calçada de S. João. Pessanha tem ao seu lado o cão Arminho.

Os dois fizeram parte do primeiro corpo docente do Liceu de Macau inaugurado em 1894 juntamente com Horácio Poiares, Mateus de Lima, Wenceslau de Moraes, entre outros. Em cima, a lista do pessoal docente do Lyceu em 1896.
Pereira Vasco, chegou a partilhar casa com Pessanha, era professor de Geografia e História, a 7ª cadeira do curso do Liceu. Desembarcou em Macau a 12 de Maio de 1894, tendo com ele viajado dois residentes de Macau que regressavam de Lisboa: João Nolasco da Silva, filho de Pedro Nolasco da Silva e Carlos Cabral, filho de João Albino Ribeiro Cabral.
Há outro registo fotográfico dos dois no mesmo local (parte dessa fotografia acima), sabendo-se que chegaram a viver na mesma residência. Pereira Vasco teve um papel muito activo no jornal O Lusitano. Na época existiam outros jornais como o Echo Macaense e A Voz do Crente.

terça-feira, 10 de março de 2026

O "escritor de cartas"

Esta fotografia é um registo de meados do século 20. Numa rua de Macau um "escritor de cartas" protegido do sol por um chapéu de chuva atende uma cliente. No cartaz está escrito em chinês tradicional 寫信. Significa "Escreve-se cartas".
Exemplo de uma antiga profissão que era habitual ver-se na cidade pelo menos até à década de 1980 como pude testemunhar. Fruto dos baixos índices de alfabetização, nomeadamente dos mais velhos, estes profissionais montavam bancas na rua e em troca de algumas patacas redigiam correspondências, preenchiam formulários oficiais ou liam cartas recebidas.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Companhia de Caçadores 2761

Um leitor de Hong Kong enviou-me este fim de semana esta foto - tirada há poucos dias - intrigado sobre o que queria dizer a inscrição em cimento "C.CAÇ 2761". Trata-se de uma 'marca' deixada pela Companhia de Caçadores 2761 (Exército) à entrada da Fortaleza de Mong-Ha onde os militares desta companhia foram colocados no início da década de 1970.

A Companhia de Caçadores - formada por cerca de uma centena de militares do Regimento de Infantaria 1 (Amadora) e 8 (Braga) - desembarcou em Macau a 12 de Dezembro de 1970* - no navio Timor - sob o comando do capitão de infantaria António Ribeiro Laia. A companhia regressou a Lisboa em Janeiro de 1973.
* nesse dia chegou também a Companhia de Caçadores 2760 que ficou aquartelada na Ilha Verde.

domingo, 8 de março de 2026

sábado, 7 de março de 2026

Dois documentos com a assinatura de Camilo Pessanha

Requerimento de 1903
(na qualidade de professor)
 

Requerimento de 1903
(na qualidade de Conservador do Registo Predial)

sexta-feira, 6 de março de 2026

O jerinxá/riquexó de Camilo Pessanha

No mês em que se assinala o centenário da morte de Camilo Pessanha aqui fica mais post alusivo ao poeta.
Desaconheço o actual paradeiro do jerinxá/riquexó de Camilo Pessanha, meio de transporte utilizado pelo poeta na sua vida, incluindo segundo consta, nas deslocações até ao Liceu juntamente com o pequeno cão Arminho - no Largo de Santo Agostinho, no antigo Hotel Boa Vista ou no Tap Seac - onde foi professor durante muitos anos e por norma chegava atrasado às aulas. Ensino história e geografia, por exemplo. Terá também sido um riquexó como este usado pelo poeta à chegada a Macau, transportando-o do cais dos vapores Porto Interior, até ao hotel Hing Kee, na Praia Grande, a sua primeira morada no território.

O mesmo riquexó, página de um artigo da revista Macau em 1988.

Após a morte do poeta em 1926, o riquexó viria a fazer parte do espólio do Museu Luís de Camões. Em 1979 o riquexó foi exibido em Lisboa, no âmbito na iniciativa Quinzena de Macau, organizada pelo Fundação Calouste Gulbenkian.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Fotografias de Georg Oddner em 1956

Georg Oddner (1923-2007) foi um dos mais reconhecidos fotógrafos suecos do século 20. Começou por ser músico de jazz e estudante de publicidade na década de 1940 quando teve seu primeiro contacto com a fotografia através de John Melin, director de arte da Svenska Telegrambyrån em Malmö, a maior agência de publicidade da Escandinávia. A partir daí, Oddner começou a trabalhar em diversas áreas da publicidade, incluindo indústria, arquitectura e vestuário, além de trabalhar para a companhia aérea SAS. 
Em meados da década de 1950, Oddner viajou pela Califórnia, América do Sul, União Soviética e Extremo Oriente. Passou por Macau em Abril de 1956 onde fotografou a preto e branco. Recorrendo às máquinas favoritas da Hasselblad e Leica obteve dezenas de registos onde capta essencialmente cenas da vida do quotidiano. Mais do que a paisagem ou os edifícios nota-se a preferência pelo elemento humano. O jornal Notícias de Macau assinalou a chegada dos "jornalistas suecos Georg Mirskij Oddner e Hok Wickman Marianne*, do jornal suéco Vecko Jouralen."
* Marianne Höök Bergström (1918-1970)
Notícias de Macau: 4.4.1956

Oddner fez parte do grupo "Tio Fotografer" ('Dez fotógrafos'), formado em 1958, e da conceituada agência fotográfica Tiofoto. Muitas das suas fotografias fazem parte do espólio do Malmo Museer.
Edifício Skyline e Praça Ferreira do Amaral com a Penha ao fundo

Fotos tiradas da Fortaleza do Monte

Escadaria das ruínas de S. Paulo e Hotel Central

No Porto Interior

Ruas e comércio

quarta-feira, 4 de março de 2026

Postal "Esculturas Contemporâneas": década 1990

Projectado pela artista Dorita Castel Branco (1936-1996), este "conjunto escultórico" foi inaugurado em  Dezembro de 1985. Consiste num paredão, no cimo do qual está um miradouro. O monumento de 300 metros de altura é composto por 6 muralhas com 12 lajes que constituem um enorme painel onde os altos-relevos temáticos abordam diferentes aspectos da vida quotidiana e costumes locais.

Postal de 9 de Outubro de 1999

"(...) a obra foi encomendada pelo Governador Almeida e Costa à escultora Dorita Castel Branco, para representar a amizade luso-chinesa. Macau vivia então um tempo de “vacas magras” pelo que os milhões gastos na encomenda criaram grande polémica, até porque para a acomodar, foi necessário destruir parte da colina até então verdejante. A “Tribuna”, então semanário, divulgou os primeiros desenhos da escultora, e o “Jornal de Macau” chamou-lhe “os calhaus da Taipa”, nome que ficou na comunidade portuguesa e fez com que estivesse abandonado durante alguns anos. Com a chegada do Governador Rocha Vieira, o monumento passou a ter destaque, através de uma iluminação adequada." 
Texto de José Rocha Dinis, director do JTM, num editorial de 23-02-2009
Foto de Lei U Veng

"As Esculturas de Relevo de Taipa, com autoria da escultora portuguesa Dorita Castel-Branco, foram inspiradas na Grande Muralha da China. Este monumento representa a vivência da população de Macau ao longo de cerca de quatro séculos e meio e os pontos de interesse do Território. Utilizando o jogo de luzes, a autora provoca uma sensação tridimensional."
Texto do ICM
 Postal de 1994 a partir de uma fotografia de Ho Kuok Man
A escultura na colina da ilha da Taipa, no final da ponte.

Texto de um roteiro turístico da década 1980:
"(...) O monumento em ziguezague consiste em seis trabalhos de alto-relevo. O mais alto é um astrolábio. A vida quotidiana, a indústria e os costumes de Macau são os temas principais desta obra escultórica. Vêem-se ainda representados em alto relevo os pontos históricos e turístico mais famosos e do leão de Macau: as Ruínas da Igreja de S. Paulo, o Casino do Hotel Lisboa e Monte da Guia. Faz ainda alusão aos meios de transporte mais utilizados antigamente em Macau, como os triciclos, os sampan, os juncos e os barcos de formato ocidental. Os elementos decorativos do monumento representam, para além da animação das festas tradicionais coma as danças do dragão e do leão e a queima de panchões, duas meninas com trajes tradicionais a dançar em frente do Templo de A Má, mostrando aspectos culturais e as festas que animam a população de Macau. Quanto ao Miradouro, dispõe de uma escadaria para subir até ao alto, donde se podia (na altura da inauguração) desfrutar uma panorâmica da península de Macau e era o local privilegiado para ver as duas pontes (então existentes) que fazem a ligação entre Macau e Taipa."

terça-feira, 3 de março de 2026

Instalações da Estação Radiotelegráfica de Dona Maria II

A Estação Radiotelegráfica de Dona Maria II representa o início da era das telecomunicações modernas em Macau. Inaugurada formalmente a 12 de Junho de 1924, a estação foi instalada no topo da colina de Dona Maria II - junto ao forte com o mesmo nome - para garantir uma melhor propagação das ondas de rádio. 

Inicialmente operada pela Radio Communication Co. do Oriente, a sua entrada em funcionamento permitiu a desactivação da antiga estação de São Francisco, centralizando as comunicações sem fios do território num equipamento mais avançado para a época.
Um dos momentos mais emblemáticos da sua história ocorreu precisamente no dia da inauguração, quando o Governador de Macau, Rodrigo Rodrigues, utilizou as instalações para comunicar com os aviadores portugueses Brito Paes e Sarmento de Beires. Os pilotos encontravam-se então em Kowloon (Hong Kong), na fase final da histórica travessia aérea entre Lisboa e Macau, e a ligação rádio serviu para coordenar a recepção triunfal dos aviadores no território. 
 Torres de Transmissão da Estação Radiotelegráfica Dona Maria. 
Fotógrafo Mei Iun 

Pouco tempo depois, em Fevereiro de 1926, o Governo de Macau adquiriu formalmente todos os equipamentos e antenas da empresa privada, transformando a estação num serviço público essencial.

Ao longo dos anos 30, a estação foi o pilar da radiodifusão local, servindo de base para o que viria a ser o Rádio Clube de Macau. O local não era apenas um centro técnico, mas também um ponto de importância estratégica e militar. A infraestrutura sofreu danos severos durante a Segunda Guerra Mundial, quando a fortaleza foi bombardeada pela aviação norte-americana em Janeiro de 1945, num ataque que visava alvos estratégicos na região. Actualmente a fortaleza é um monumento preservado e um ponto turístico.

segunda-feira, 2 de março de 2026

"Carreiras de Camionetas" em 1948

Na imagem abaixo um bilhete de autocarro do final da década 1940. A viagem começava no cais dos vapores (Poto Interior, junto à ponte-cais nº12) seguia pela Rua da Barra, depois pela Av. da República e Rua da Praia Grande até chegar ao "Aterro da Praia Grande" onde no cruzamento junto ao Jardim de S. Francisco, virava à esquerda para a Rua do Campo, até chegar ao destino final, o Bairro Tamagnini Barbosa (Toi San). 
Companhia de Auto-Ómnibus de Macau
澳門公共汽車公司
UA 7777 20 c. (20 avos)
Cais de vapores de Hongkong e Macau
港澳碼頭
Rua da Barra
媽閣
Avenida República
西灣
Aterro da Praia Grande
游泳場
Portas do Cerco
關閘
Bairro T. Barbosa
台山 
Este bilhete é válido só para uma viagem e é intransmissível
此票祇用壹次不得轉給別人

Terminada a segunda guerra mundial foi reactivado o serviço de transporte público na cidade de Macau. O Leal Senado lançou o concurso ganho pelo Companhia de Auto-Ónibus de Macau (com sede na Rua das Lorchas). Ficou com o exclusivo da operação a partir de 2 de Julho de 1947 e por um período de seis anos. Na prática o serviço só começou no final de Março de 1948 e com dois itinerários, segundo um anúncio publicado no dia 24 desse mês no jornal Notícias de Macau:
Carreiras de Camionetas da "Companhia de Auto-Omnibus de Macau"
com sede na Rua das Lorchas, No. 43
Seguem por enquanto 2 itinerários:
1.º  Partida na Rua Visconde Paço d'Arcos (ao Cais dos vapores), seguindo pela Av. Almeida Ribeiro, Praia Grande, Rua do Campo, Av. Conselheiro Ferreira de Almeida, Av. Horta e Costa e regresso ao ponto de partida pela Avenida Marginal.*
2.º  Partida do mesmo ponto, seguindo as camionetas em sentido inverso do anterior.
As carreiras funcionam todos os dias das 7 às 24 horas, sendo os intervalos entre duas camionetas entre 8 a 12 minutos.
Preço dos bilhetes — 20 avos para qualquer distância dentro dum itinerário.

Na década de 1950 a empresa tinha 25 viaturas ao serviço e cinco itinerários custando cada viagem 20 avos por pessoa. 
* A Avenida Marginal referida é o troço ao longo do Porto Interior: desde a Av. do Almirante Lacerda passando pela Rua da Ribeira do Patane até ao Cais dos Vapores, onde ficava o ponto de partida e de chegada dos autocarros, uma zona muito movimentada por ser a ligação de Macau com o exterior. Em cima uma fotografia da época onde assinalei a paragem dos autocarros, junto à ponte-cais nº 12.

domingo, 1 de março de 2026

1 de Março de 1926

Há 100 anos, a 1 de Março de 1926, uma segunda-feira, morria na sua casa na Rua da Praia Grande às 8 da manhã, o poeta português Camilo Pessanha (1867-1926), que, em Macau, foi durante muitos anos advogado, juiz, professor do liceu e coleccionador de obras de arte.
Duas horas depois parte substancial da sociedade macaense, ainda sem saber da notícia, comparecia para a inauguração do edifício sede do BNU, muito perto da casa onde vivia Pessanha. A cerimónia contou com a presença do governador de Macau, Maia de Magalhães, do bispo D. José da Costa Nunes, "e tudo quanto Macau conta de mais distinto", segundo uma notícia do jornal "A Pátria".
Imagem criada por IA

PS: Existem em arquivo várias publicações sobre os dois temas - basta utilizar o campo de pesquisa - e em breve publicarei mais.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Geographica: El hombre y la tierra": 1973

"Geographica: El hombre y la tierra" é uma enciclopédia de 10 volumes publicada pela Plaza & Janés em Barcelona, em 1973. Esta obra, profusamente ilustrada e escrita em espanhol, oferece uma cobertura detalhada da geografia mundial, incluindo mapas e fotografias, sendo um material de consulta clássico da época. Macau está referido na parte dedicada à Ásia (Volume 5).
Legendas das duas fotografias (agência Salmer):

Sampanes en la bahía de Macao, colonia portuguesa desde el siglo XVI y cuyo mayor esplendor ostentó durante el siglo XVIII, eclipsado más tarde por el puerto de Hong Kong. La principal riqueza de esta actual provincia de ultramar se basa en la pesca, habiendo surgido una serie de industrias para la conserva y salazón del pescado.

Desde los primeros tiempos de la colonización portuguesa, Macao fue un centro misionero de jesuítas, cuya labor aún puede verse en los edificios religiosos que se encuentran en la parte europea de la ciudad, entre los que destaca, como monumento del pasado, la fachada de la antigua catedral de San Pablo.
Sampanas na baía de Macau, colónia portuguesa desde o século XVI e cujo maior esplendor ostentou durante o século XVIII, eclipsado mais tarde pelo porto de Hong Kong. A principal riqueza desta actual província de ultramar baseia-se na pesca, tendo surgido uma série de indústrias para a conserva e salga do peixe.

Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, Macau foi um centro missionário de jesuítas, cujo trabalho ainda pode ser visto nos edifícios religiosos localizados na parte europeia da cidade, entre os quais se destaca, como monumento do passado, a fachada da antiga catedral de São Paulo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O Zodíaco chinês e o Cavalo de fogo

No contexto das celebrações do Ano Novo Lunar, o Zodíaco Chinês, conhecido como Shengxiao, assume um papel central na cultura e na espiritualidade do país. Diferente do sistema ocidental baseado em constelações mensais, este horóscopo assenta num ciclo de doze anos, onde cada ano é representado por um animal específico: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco. Segundo a tradição, a ordem destes animais foi determinada por uma mítica corrida organizada pelo Imperador de Jade. Mais do que uma simples contagem do tempo, acredita-se que o animal regente do ano de nascimento influencia profundamente a personalidade, a sorte e a compatibilidade social de cada indivíduo.

O Cavalo no Zodíaco Chinês
O Cavalo ocupa a sétima posição no ciclo e é tradicionalmente associado a características como o entusiasmo, a independência e uma energia inesgotável. As pessoas nascidas sob este signo são frequentemente vistas como o "alma da festa", possuindo uma natureza comunicativa e um desejo intrínseco de liberdade. No entanto, o sistema chinês é ainda mais complexo, combinando estes doze animais com os cinco elementos essenciais: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água.

O Cavalo de Fogo: fenómeno raro e intenso
Quando o signo do Cavalo se cruza com o elemento Fogo - o que acontece apenas uma vez a cada 60 anos - surge o Cavalo de Fogo (Wu Wu). Este é considerado um dos signos mais poderosos e, simultaneamente, mais temidos da astrologia chinesa. Enquanto um Cavalo comum já é energético, o elemento Fogo amplifica essa força para níveis vulcânicos, resultando em personalidades extremamente inteligentes, carismáticas e audazes, mas também impulsivas e teimosas. 
O último ano do Cavalo de Fogo ocorreu em 1966, ano da Revolução Cultural na China marcado pelo movimento dos Guardas Vermelhos e pela purga ideológica de Mao Tsé-Tung.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ano Novo Chinês em 1837: Galo de fogo

O Ano Novo Chinês de 1837 - começou a 5 de Fevereiro - foi o Ano do Galo (Galo de Fogo).

Letter from Macau, by Henrietta Shuck (1817-1844), the First American Female Missionary to China, to her father

"Jan. 27, 1837
In a few days from this time the Chinese new year will commence. Precisely at the beginning of the New Year’s Day, they bathe their bodies in perfumed water, dress in their nicest clothes, and, remaining at home, worship their household gods, and fire off crackers. After they have concluded family worship, they go to worship the gods at the temples. All mercantile business is stopped for eight or ten days, during which time visits of rejoicing are made to their friends and relations, that are all returned; and they invite each other to indulge in the joy of the Chuntseu — ‘the wine of spring.’ From the ‘Yuetan,’ or New Year’s Day, to the fifteenth of the month, they choose lucky days to suspend flower lanterns on the houses and temples. Those days are lucky, they consider, when the wind blows from the north, west, east-north, or north-east. I expect the place will be quite in an uproar, and we shall have nothing but noise and bustle for a number of days."

Carta de Macau, de Henrietta Shuck (1817-1844), a primeira missionária americana na China, para o pai.

"27 de Jan. de 1837
Dentro de poucos dias, a partir desta data, terá início o ano novo chinês. Precisamente ao romper do Dia de Ano Novo, eles banham os corpos em água perfumada, vestem as suas melhores roupas e, permanecendo em casa, prestam culto aos seus deuses domésticos e rebentam panchões. Depois de concluírem o culto familiar, dirigem-se aos templos para adorar os deuses. Toda a actividade comercial é interrompida por oito ou dez dias, período durante o qual são feitas visitas de celebração a amigos e parentes, as quais são todas retribuídas; e convidam-se uns aos outros para desfrutar da alegria do Chuntseu — ‘o vinho da primavera’. Desde o ‘Yuetan’, ou Dia de Ano Novo, até ao décimo quinto dia do mês, escolhem dias de sorte para pendurar lanternas de flores nas casas e nos templos. Consideram que esses dias são de sorte quando o vento sopra de norte, oeste, leste-nordeste ou nordeste. Prevejo que o lugar fique num alvoroço total e que não teremos nada além de ruído e azáfama durante vários dias."

Retrato incluído no livro de J. B. Jeter de 1849:
"Memoir of Henrietta Shuck First American Female Missionary to China"

The title of the first American female missionary to China belongs to Henrietta Hall Shuck, a native of Virginia who felt a profound religious calling from a very young age. In 1835, at the age of only 18, she married the Baptist missionary Jehu Lewis Shuck and set sail for the East under the Baptist Board of Foreign Missions. After spending time in Singapore they arrived in Macau in 1836. The missionaries worked there about six years, until the end of the first Opium War (1839–1842). Henrietta established a small boarding school, with two to eight pupils at a time. She also bore another son, Ryland, and a delicate daughter, Henrietta. In 1842 the couple eventually settled in Hong Kong in 1842, following the conclusion of the First Opium War.
Unlike many women of her era who were viewed merely as "assistant missionaries" to their husbands, Henrietta took a leading and highly active role in her work. She established some of the first schools for Chinese children in Hong Kong, focusing on literacy and education while raising her own children in often difficult and precarious conditions. Her letters home were widely published in the United States, providing many Americans with their first detailed—though Western-centric—glimpses into Chinese life and culture. Tragically, her journey was cut short in 1844 when she died following the birth of their fifth child, at the age of 27. Despite her brief life, her legacy became a cornerstone for the women's missionary movement, proving that women could endure the rigors of international service and paving the way for future pioneers.
Ilustração criada por IA a partir do retrato

Natural da Virgínia e fervorosa na sua fé baptista, Henrietta Hall Shuck, partiu para o Oriente em 1835, com apenas 18 anos, logo após casar com o também missionário Jehu Lewis Shuck. O casal chegou a Macau em 1836 onde Henrietta fundou um pequeno colégio interno, com turmas de dois a oito alunos. Teve ainda outro filho, Ryland, e uma filha, Henrietta.
Em 1842 mudaram-se para Hong Kong, logo após a fundação da colónia britânica na sequência da Primeira Guerra do Ópio.
Ao contrário de muitas esposas de missionários da época, que eram vistas apenas como acompanhantes, Henrietta assumiu um papel protagonista e muito activo. Fundou uma das primeiras escolas para crianças chinesas em Hong Kong, dedicando-se à alfabetização e ao ensino religioso, enquanto criava os seus próprios filhos em condições muitas vezes precárias. As suas cartas para os Estados Unidos foram amplamente publicadas e serviram como uma das principais fontes de informação para o público americano sobre a vida e a cultura na China naquele período. Morreu a 26 de Novembro de 1844, com apenas 27 anos, devido a complicações no parto do quinto filho. Apesar da sua curta vida, o seu legado tornou-se um pilar para o movimento missionário feminino, provando que as mulheres podiam suportar os rigores do serviço internacional e abrindo caminho para futuras missionárias.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Novas notas de 500 e 1000 patacas

Já está em circulação uma nova série de notas de 1.000 e 500 patacas, completando assim a mais recente emissão do BNU-Macau que nos últimos dois anos contemplou também as notas de 10, 20, 50 e 100 patacas.
Imagens do BNU - Macau
Tal como nas anteriores, também nestas o design tem como inspiração a história reproduzindo mapas que mostram a forma como o território se transformou com os aterros. 
As novas notas incluem características de segurança que incluem padrões cintilantes que mudam de cor ao inclinar a nota, filamentos de segurança de metal e marcas de água em forma de flor de lótus. Foram ainda incorporadas características para invisuais, como marcas tácteis e marcas em braille.
Em tons de verde a nota de 500 patacas tem na frente uma flor de lótus bem como as fachadas antiga e nova do edifício da sede do Banco Nacional Ultramarino. No verso a flor de lótus, uma árvore e uma mapa de Macau em 1986. Seguindo o mesmo design a nota de 1000 patacas é em tons laranja mudando o mapa que é de 2022.
O BNU foi o primeiro banco emissor de papel-moeda em Macau, logo no início do século 20 e é actualmente um dos bancos emissores para o Governo da RAEM. As notas da primeira emissão entraram em circulação em 19 de Janeiro de 1906 e tinham os valores de 1, 5, 10, 20, 50 e 100 patacas.
PS: A emissão mais recente do Bando da China segue a mesma lógica. No caso da de 500 patacas na frente está o edifício sede do banco e no verso o templo de A-Ma. A nota de 1000 patacas apresenta um junco chinês no verso.