"(...) Contrariamente aos ervanários, as farmácias chinesas, conhecidas por iéok chói pou [yao cai pu 藥材 鋪], eram amplas e bem iluminadas, embora também sem janelas laterais, mas abertas para a rua em toda a extensão da sua fachada. Dentro dos grandes balcões envidraçados encontravam-se os simples mais preciosos, encerrados, muitas vezes, em verdadeiros estojos, cheios de algodão, ou forrados de seda: chifres de veado e de rinoceronte, mandrágoras e ginseng, patas de urso e hipocampos ressequidos (mas perfeitamente conservados) e certas pedras-bezoares. Em prateleiras, geralmente dispostas ao longo da parede fronteira ao balcão, sucediam-se grandes boiões de vidro, ou porcelana cara, com tisanas já preparadas. Nas paredes ou nos lintéis das portas estavam gravados ou pintados o nome ou o reclame da firma, enquadrados em molduras, geralmente de talha, a par de grandes espelhos, tradição antiga para afastar más infl uências e espíritos malfazejos, que podiam entrar com os doentes. Guarnecendo as paredes, sucediam-se fi las de gavetinhas em madeira preciosa, muitas vezes em pau-rosa ou teca, para melhor conservar as numerosas ervas secas, geralmente importadas. Estas gavetas distinguiam-se imediatamente das que se encontravam nas lojas dos ervanários pelos seus mais ou menos vistosos lavores, muitas vezes em preciosa obra de talha. Por toda a vasta sala, além dos espelhos decorativos, com inscrições e, por vezes, desenhos gravados dispunham-se pinturas, baixos-relevos ou caquemonos, primorosamente bordados a matiz, representando os patronos da medicina chinesa, antigos médicos ou imortais tauistas, alguns semilendários, com fama de milagrosos e, ainda, fi guras alegóricas ou emblemáticas de saúde e longevidade, como pêssegos, cabaças, cidras, gatos e borboletas, garças sobre pinheiros, densos maciços da bambu, a deusa Má Ku [Magu 麻姑] ou Sau Seng Kong [Shou Xing Gong 壽星公], bem como, em diferentes estilizações, o carácter sau [shou 壽], ideograma que significa “longa vida”. (...)
A mais antiga farmácia chinesa de Macau era na altura o Pavilhão da Longa Primavera (Chéong Chön Tong) [Chang Chun Gong 長春宮]. Fundada em meados do século XIX anos, na sequência da morte do seu proprietário vem a perder na década de 80 do século XX toda a sua riquíssima decoração em talha dourada, vendida, ao que se disse então, a um comprador de Hong Kong. Situada perto do Largo de S. Domingos, o seu nome estava perfeitamente da acordo com a sua actividade, já que Longa Primavera corresponde, metaforicamente, a longa juventude e, portanto, a longa vida, conceito básico da medicina tauista, e que leva a pensar nas vantagens dos bons remédios, quando bem escolhidos e bem preparados. (...)
Excerto de "Farmácias e Ervanários Tradicionais Chineses em Macau", de Ana Maria Amaro publicado na Revista de Cultura, nº 26, 2008.
"Pock Vo Tong Pharmacia China"
Fotografias de Neves Catela ca. 1930




































