C. J. Caldeira assina este artigo publicado na "Parte Não Official" do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor de 28 de Junho de 1851.
Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recordação para Macao. Ha 229 annos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella,—um punhado de valentes repellio o formidavel attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d'armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d'Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o mencionam, mas sem maior individuação, e no Macuista Imparcial de 23 de Junho de 1836, lemos tambem algumas noções deste facto.
É por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma noticia sobre este successo, colhida de alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.
Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciais a varios portos, como usavam fazer naquella estação do anno,—vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della tres outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empreza, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.
Surgiram pois sós em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia,—tentaram neste mesmo dia o attaque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porem lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no emtanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Naquelle tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas, e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557; como Republica, somente pelo Senado: só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.
Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escachas, e catraias, desembarcaram uns 800 homens hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barulhento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.
Antonio Rodrigues Cavalhinha assistia então em uma de suas cazas, no campo que fica fronteiro á ellevação onde está hoje a fortaleza da Guia, e sahiu com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Hollandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma como o seu chefe Cornelis Reyers, (ou Kornelis Reyerszoon segundo Ljungstedt) que era tambem o Commandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo ao logar ónde existia o moinho do Padre Almeida, e onde existe um simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradição, recorda este successo.
Alli ficaram sós, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dispararam da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma peça bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia assistiam na mesma Fortaleza, porque no seu Convento proximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao,—e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, incendiando-o e abrazou alguns Hollandezes.
Elles desconfiando de não verem mais gente, e temendo que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinham á vista, receavam de passar quando quizessem penetrar na Cidade.
Reunio-se a gente pelo monte da Guia, onde estava uma peça de ferro (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha d'afóra da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com outro Portuguez, e mais vinte filhos da terra, e alguns moços captivos e todos cobertos entre os rochedos que alli havia, viam d’alto d'este modo os inimigos, fazendo-os vacilar e parar na subida.
Dividiram os Capitães os Cabos que dirigiam as baterias aos postos do Forte de S. Francisco e da Baim porto, contra as forças dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte de terra, deram ordem a que João Soares se expedisse com cincoenta mosqueteiros no posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mór da viagem do Japão, e reconhecendo o medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rosto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se desordenaram, e puzeram em fuga, largando bandeiras, armas, e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deu logar ao povo miudo para ir seguindo-o á sombra dos Portuguezes, e com tanto impeto que uma cafra (negra) fez neste dia de Parseira d'Aljubarrota, asseverando uns que matára alguns Hollandezes com o espeto da cozinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda; assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar precipitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram formalos de novo, para se não perderem todos pela confusão.
Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 300 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, dos quaes até ao seguinte dia só viveram sete.
Nesta occasião aquelles Portuguezes, e alguns Hespanhoes que se acharam aqui, obraram maravilhas, principalmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se póde deixar de admirar a resolução e cometimento de tão poucas contra tantos.
Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser soccorrida, e de se ver depois em grandes apuros,—ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.
Consta que o Regulo de Cantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes approximadamente) de arroz, para os moços que ajudaram a defender a terra, que ficaram forros, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.
Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sugeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros nem baluartes alguns; e tambem delli vieram algumas bombardas.
A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.
A Fortaleza de N. S. da Guia tambem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha á porta da mesma Fortaleza:
"Este forte mandou fazer a Cidade á sua custa pelo Capitão d'Artelharia Antonio Ribeiro d'Raia começou-se em Setembro de 1637 acabou se em Março de 1638 sendo Geral da Camara (d'Noronha)."
A piedade de nossos maicanes não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que esteve de ser presa dos Hollandezes, á especial protecção da Providencia, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.
Procuramos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquelle voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontrámos copia; mas no mesmo Senado existe uma antiga boki onde se lê o seguinte:
"A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S João Baptista — Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespers, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta á Missa Solemne na Sè Cathedral, como tambem as Vesperas.
N. B.
"Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Camara, junta em Conselho no anno de 1622: Isto em reconhecimento da distincta mercê, que Deus Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas, que na Praia de Cassi-lhas desembarcarem de bordo de treze (13) Navios, de que os Moradores alcançaram Victoria no Campo de Moha, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.
Alem desta Festa por voto solemne ficou-se dizendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armava, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.
Esta Missa se chamava da Victoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macao e suas familias, indo as creanças com flores e bandeiras: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n'uma especie de festa d'arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.
São estas as noticias que em pouco tempo podémos colligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem rellação com os factos da nossa historia nacional.
C. J. Caldeira
PS: Há uns tempos 'descobri' um relato desta batalha escrito em Macau meados do século 18; vou analisar - nomeadamente averiguar se Charles Boxer, a autoridade máxima neste assunto, menciona este documento - e depois publico.













