quinta-feira, 11 de junho de 2026

Códice Casanatense

O Códice Casanatense (ou Codex Casanatense 1889), datado do século XVI (1540), é um conjunto de 76 aquarelas indo-portuguesas - com legendas - que documentam os povos, costumes e trajes da rota marítima da seda, indo da África à China. Não se conhece o autor, muito provavelmente indiano.
O valioso documento está guardado na Biblioteca Casanatense, em Roma, com o seguinte nome oficial: “Álbum de desenhos ilustrando os usos e costumes das pessoas da Ásia e África com uma breve descrição em língua portuguesa”. Por volta de 1628 o documento ainda esteve em Lisboa sendo dos primeiros com registos iconográficos do Oriente a chegar à Europa. Simão Rodrigues (c. 1560-1644), importante pintor maneirista português teve na sua posso o códice e inspirou-se nele. Era um dos pintores preferidos da Companhia de Jesus em Portugal e criou obras que ajudaram a construir o imaginário visual das missões jesuítas no Oriente, cujos missionários partiam frequentemente de Macau.
Sem uma referência explícita a Macau, o Códice Casanatense, tem no entanto uma aguarela que se pode intitular "Gente da China".
Transcrição (Português Arcaico)
"Jente de terra da china chamão-se chinas sua lei he de jintios esta terra da china he m̃to rica mais bem piriguosa hanaueguaçam peracla porque se perdem m̃tos nauios"

Tradução/Adaptação:
"Gente da terra da China, chamam-se chineses; a sua religião é de gentios (não cristãos). Esta terra da China é muito rica, mas a navegação para lá é muito perigosa, porque se perdem muitos navios."

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Comemorações do Dia de Portugal em 1956

O DIA DE PORTUGAL foi assinalado nesta Província com várias festividades entre as quais GRANDIOSO DESFILE MILITAR, eloquente romagem à gruta de Camões E SESSÃO CULTURAL NO TEATRO D. PEDRO V
a todas presidindo Sua Exa. o Governador da Província ALMIRANTE JOAQUIM MARQUES ESPARTEIRO

O Dia de Portugal revestiu-se, este ano, de grande esplendor. Quer no Portugal metropolitano quer no Portugal ultramarino como nos agregados portugueses no estrangeiro, o Dia de Portugal foi comemorado, por ser consagrado à lusitanidade espalhada pelo mundo e, também, em homenagem a Camões esse imortal cantor das glórias nacionais, no dia do aniversário do seu falecimento.
Prestaram, assim os portugueses, no mundo a mais eloquente e mais patriótica homenagem ao poeta máximo da Lusitanidade e, especialmente, nesta terra, onde segundo reza a tradição Camões escreveu parte do seu imortal poema — os Lusíadas.
O programa das grandiosas festividades do dia 10 foi rigorosamente cumprido, tendo presidido a todas S. Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
O dia 10 de Junho foi de sol radioso e temperatura amena, associando-se assim o tempo a tão esplendorosa homenagem, dando-lhe maior brilho.
Amanheceu e ao som dos clarins em marchas de continência ergueu-se no topo dos mastros dos quartéis e fortalezas a Bandeira Nacional. Em todos os edifícios públicos foi também hasteada a Bandeira de Portugal.

A parada militar
O desfile de forças militares e militarizadas, em parada, é sempre um espectáculo grandioso que faz vibrar os corações portugueses pois, isso basta para, em pensamento, evocar esses heróis que outrora em "perigos e guerras esforçados" deram novos mundos ao mundo, levando a bandeira portuguesa às mais longínquas paragens. E os soldados que vemos agora marchar são descendentes desses portugueses que Camões cantou nos poemas mais belos que, no dizer dum distinto escritor, por si só, vale uma literatura inteira.
A parada militar estava anunciada para às 10 horas. Mas, muito antes, milhares de pessoas ocupavam lugares ao longo do trajecto anunciado para o desfile.
Nas proximidades do Palácio do Governo da Praia Grande, em talhados especiais, tomaram lugar funcionários civis e militares, comerciantes, clero, escolas portuguesas e chinesas e os seus professores, colégios, praças do exército e da armada, etc..
Na varanda do rés-do-chão do Palácio assistiram ao desfile, a convite do governo, o Conselho do Governo, Corpo Consular, Chefes de Serviços, membros dos mais categorizados da comunidade chinesa e estrangeira, e oficiais do Exército e da Armada. Nas varandas superiores, a Exma. Sra. Dra. Da. Laurinda Marques Esparteiro e muitas outras senhoras portuguesas, chinesas e estrangeiras.
Em frente ao Palácio erguia-se a tribuna de honra decorada com as cores nacionais e vasos com viçosos arbustos. À esquerda da tribuna estava formada a guarda de honra que era constituída por um grupo de castelos da Mocidade Portuguesa com bandeira e banda de música, sob o comando de Franklin Barnes. Em frente da guarda de honra estava formada a guarda de honra da banda Musical da Polícia de Segurança Pública com o vistoso fardamento de gala, capacete e dólman branco e calça azul escuro.
Poucos minutos antes das 10 horas estavam formadas alas compactas de povo ao longo da Rua da Praia Grande e imediações, que a Polícia de Trânsito, superiormente dirigida pelo sr. tenente Henrique Fontes, auxiliado por chefes e subchefes, continha o povo dentro dos lugares marcados, a fim de não estorvar o desfile.
Momentos depois um breve toque de clarim e a introdução do Hino Nacional anunciaram a chegada de Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro, que vinha acompanhado de seu ajudante de campo sr. capitão José Vaz Dias da Silva. Sua Exa. envergava o uniforme branco de almirante, ostentando a banda de seda verde, insígnia da grã-cruz de Ordem Militar de Avis.
Acompanhado agora pelo Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa sr. Intendente José Peile da Costa Pereira, Sua Exa. o Governador passou revista à guarda de honra, dirigindo-se depois à tribuna, onde assistiu ao desfile, ladeado pelos srs. Brigadeiro João Carlos Quinhones Portugal da Silveira, Comandante Militar da Província e capitão-de-fragata José Coutinho Garrido, Capitão dos Portos. Na mesma tribuna assistiram ao desfile os srs. Dr. Edmundo de Senna Fernandes, Juiz da Comarca, substituto, e D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo da Diocese, ajudantes e secretário.
A's 10.05 horas chegou um carro militar do qual se apeou o comandante das forças em parada, tenente-coronel Silva Carvalho, pedindo licença para se iniciar o desfile, ordem que foi imediatamente transmitida por uma estafeta-motociclista.
As forças em parada desfilaram pela seguinte ordem: Bandeira Nacional, coluna apoiada sob o comando do sr. major Marques de Carvalho, banda de corneteiros, comando da coluna apeada, batalhão de caçadores 1, a três companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Veiga, batalhão de caçadores 2, a quatro companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Cambraia Duarte, companhia independente de caçadores, uma companhia de atiradores sob o comando do sr. capitão Tamegão.
Seguiu-se a coluna motorizada sob o comando do sr. major Barata da Cruz, constituído pelo comando da coluna, 1 pelotão de canhões anti-carro e o agrupamento de baterias de artilharia; 1 bateria de artilharia ligeira 8,8 sob o comando do sr. capitão Mendes, uma bateria de artilharia anti-aérea de 4 e uma bateria de artilharia anti-aérea de 7,5.
Desfilou depois o esquadrão de cavalaria motorizado com dois pelotões de reconhecimento e um pelotão auto-transportado; uma companhia de engenharia com um pelotão de sapadores e um pelotão de transmissões, comandadas, respectivamente, pelos srs. capitães Abrantes da Silva e Mesquita Borges, fechando o desfile das forças militares com um destacamento sanitário e uma equipa de desempenagem.

As forças militarizadas desfilaram pela seguinte ordem:
Uma coluna apeada das forças da polícia marítima, a um pelotão, sob o comando do sr. chefe Luz, uma coluna apeada da polícia de segurança pública, a uma companhia a quatro pelotões, sob o comando do sr. tenente Correia Marques, uma coluna motorizada, com um pelotão de motos e viaturas especiais, sob o comando do sr. tenente Palma Viçoso.
Fechava o desfile uma coluna motorizada de viaturas especiais dos bombeiros municipais, sob o comando do sr. ajudante Assis.
Por último desfilou a guarda de honra da Mocidade Portuguesa e a banda musical da polícia de segurança pública.

A patriótica romagem à Gruta de Camões
Finda a parada, as mesmas entidades que referimos e milhares de pessoas acorreram ao velho jardim de Camões, onde se ergue a secular gruta, um altar evocativo do grande Vate, nestas longínquas paragens onde a velha lenda afirma, que Camões escreveu parte do seu poema e o formoso soneto "Alma minha gentil". Muito antes das 11 horas, já se encontravam no jardim milhares de crianças e jovens do liceu, das escolas secundárias e primárias católicas portuguesas e chinesas, com os seus estandartes e muitos jovens, de ambos os sexos, sobraçando viçosos ramos de flores naturais. Acompanhavam-nos os seus professores, padres, leigos e religiosas de vários colégios da colónia.
O jardim sempre belo, estava mais florido naquela manhã de sol.
A chegada de Sua Exa. o Governador da Província, as escolas saudaram o primeiro magistrado, que se dirigiu para a tribuna erguida em frente do busto de Camões, assistindo à cerimónia evocativa do aniversário da morte do poeta, ladeado pelos srs. José Peile da Costa Pereira, Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa e António de Magalhães Coutinho, Presidente do Leal Senado da Câmara. Por detrás e ao lado, em lugares especiais, o Prelado da Diocese, o Juiz da comarca, Comandante Militar, a esposa de Sua Exa. o Governador, outras senhoras portuguesas e estrangeiras e chinesas, individualidades mais representativas da província, e oficiais do exército e da marinha. Flutuavam na tribuna, ao centro, a Bandeira Nacional e dos lados os pavilhões de Nuno Álvares, da Mocidade Portuguesa e do Governador da Província.
Proferiu uma alocução interessante, oportuna e repassada de patriotismo, o sr. António Augusto da Canhota, professor da escola comercial "Pedro Nolasco da Silva" alocução a que se podia chamar, com mais propriedade "conferência", pelo que a publicaremos na íntegra, oportunamente.
Portugal vive integralmente nos "Lusíadas"
— disse o orador
Seguiu-se uma palestra em língua chinesa, dirigida aos jovens das escolas chinesas, alusiva a Camões, pelo rev. Padre Lei Chông U, director da escola secundária chinesa "Mong Tak".
Findas as palestras, Sua Exa. o Governador e comitiva, dirigiu-se para o lado esquerdo da gruta, assistindo ao desfile da Mocidade Portuguesa, dos jovens estudantes de ambos os sexos, das crianças das escolas primárias portuguesas e chinesas que depunham flores junto do busto, flores naturais, viçosas e lindas, em homenagem ao grande poeta Camões — edificante exemplo de respeito e veneração pelo grande português, de portugueses e chineses, de muçulmanos e caenses, irmanados no mesmo fervor espiritual e profundo respeito por Portugal eterno.
Era meio dia quando se ouviu o primeiro tiro de canhão, da salva de 21 tiros que a fortaleza do Monte disparou assinalando nestas paragens o Dia de Portugal.

A recepção e cumprimentos no Palácio do Governo da Praia Grande
Foi cerca das 12,30 horas, que se aglomeraram inúmeras pessoas no átrio do Palácio, a fim de apresentar cumprimentos a Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, na pessoa do seu legítimo representante em Macau, Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
De acordo com o protocolo desta cerimónia, foi feita a chamada das entidades indicadas na Reforma de Administração Ultramarina, pelo sr. tenente Lopes da Costa, oficial às ordens de Sua Exa. o Governador. E além dessas entidades, funcionalismo, oficialidade do exército e da armada, apresentaram cumprimentos membros dos mais categorizados da comunidade chinesa, associações, comerciantes, industriais, médicos, engenheiros, advogados, e inúmeras pessoas em número muito superior a um milhar.
Sua Exa. o Governador estava ladeado pelo Juiz da Comarca, Prelado da Diocese, Comandante Militar, Vice-presidente do Conselho de Governo, ajudantes e secretário do Prelado, a todos estendendo a mão com o seu peculiar sorriso.

No Hospital de S. Rafael
Findos os cumprimentos, registou-se uma surpresa, extra-programa. Soubemos que Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, resolveram, assinalando dia tão festivo, inaugurar, embora numa breve visita, novos e importantes melhoramentos no Hospital de S. Rafael da Santa Casa da Misericórdia. E fomos ver, também esses melhoramentos.
Na antiga dependência destinada a quarto das enfermeiras de serviço, no primeiro andar, foi instalada uma "incubadora eléctrica", aparelho gem do mais moderno fabrico americano, o qual, com acessórios, importou em cerca de cinco mil patacas. O aparelho não só regula electricamente a temperatura e grau de humidade necessários, como o fornecimento de oxigénio, numa combinação técnica admirável, e que é a última palavra no género e único em Macau. Assim um recém-nascido que careça desses cuidados, será salvo em tão útil como "humano" aparelho E, numa volta pelo primeiro andar, vimos também que quase tudo está pintado de novo, especialmente na maternidade; na sala de trabalhos substituíram as antigas "banheirinhas" por lavatórios de porcelana, com instalações apropriadas para aquecimento de água; marmorites nos pavimentos e paredes; divisórias envidraçadas, aquecimento, lavatórios de lavagem de bebés, mais crescidinhos, junto da enfermaria das parturientes e muitos outros arranjos em obediência às exigências dos mais modernos apetrechamentos tendo em vista a higiene e o conforto nos hospitais.
Notava-se em Sua Exa. o Governador e em Sua Exma. Esposa incontida satisfação por verificar o crescente progresso daquele hospital.
Os ilustres visitantes foram recebidos à entrada do Hospital e acompanhados na visita aos novos melhoramentos pelo dr. Barros Lopes, seu Director, pelo Provedor, sr. dr. Damião Rodrigues, e pelos srs. 1.º Tenente Lourenço Pereira, mordomo, e pelos mesários Mário Pereira, Joas Lopes, Alfredo Silva e pela farmacêutica do hospital sra. dra. D. Maria José da Cruz Neves, e pelos srs. drs. Edmundo e Henrique Senna Fernandes.
À já na despedida, a uma pergunta nossa, disse-nos um mesário a origem da verba despendida naqueles melhoramentos, tendo alguns beneméritos oferecido alguns materiais de construção.
E quem havia de dizer, que o produto da festa dos santos populares do mercado de S. Domingos, do ano passado, iniciativa louvável a todos os títulos da Exma. Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, viria a transformar-se em obra tão útil e de tão elevado alcance social, em benefício do Hospital de S. Rafael, em suma, da população de Macau-ricos, remediados e pobres.

Nos salões do Palácio do Governo da Praia Grande
Houve recepção das 18 às 20 horas, onde mais uma vez se apreciou a franca hospitalidade portuguesa. Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa foram duma extrema amabilidade para os seus convidados, portugueses, chineses e estrangeiros, numerosas senhoras que emprestaram ao ambiente a graciosidade das suas "toilettes" vaporosas e coloridas.
Foi servido um delicado "cocktail", executando a orquestra Vila Verde escolhidas músicas.
Esta recepção deixou gratas recordações a todas as pessoas que assistiram à requintada festa.
Assistiram, também, as mesmas entidades e individualidades a que já nos referimos.
No Teatro de D. Pedro V a sessão cultural dedicada ao imortal Camões
Eram 21,45 horas, quando começou. Na primeira fila tomaram lugar Sua Exa. o Governador e Exma. Esposa, o Venerando Prelado da Diocese, Juiz Substituto, Comandante Militar e noutras filas, várias pessoas e entidades portuguesas e estrangeiras.
A sessão iniciou-se com o Hino da Mocidade Portuguesa, cantado pelo orfeão da M.P., seguindo-se as canções populares portuguesas pelo mesmo orfeão "A nossa terra", "O mendigo" e "O trevo". O orfeão, com boa afinação de todos os seus naipes foi dirigido pelo assistente eclesiástico da Mocidade Portuguesa rev. Padre Barcelos Mendes, sendo muito aplaudido.
Seguiu-se uma notável conferência pelo sr. Dr. José Tertuliano Cabral, vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, subordinada ao título "Camões, o príncipe dos poetas portugueses", conferência em que versou os temas "A síntese da lírica medieval", "Glória da poesia renascentista" e "Fonte de inspiração para as correntes poéticas posteriores".
O seu trabalho prendeu a assistência, pelo real valor da tese que apresentou em que comprovou, demonstrando profunda análise de Camões e das suas obras, da sua época e da influência das obras de Camões até nossos dias.
Na sua conferência disse o orador, na sua modéstia tantas vezes demonstrada, como o seu valor: "um infinitamente pequeno, vai falar dum infinitamente grande".
Podemos dizer sem receio de desmentido que o conferencista estava à altura do seu trabalho, do seu profundo conhecimento da Obra de Camões e da literatura portuguesa de que é distinto professor.
Dado o tamanho da sua notável conferência não cabe nesta ligeira reportagem impressiva, pelo que oportunamente será publicada na íntegra. Os trabalhos que o fazer-se deles um resumo é quase um crime.
A sessão cultural que foi promovida, como a romagem patriótica à gruta de Camões, pelo Conselho de Instrução Pública, de Macau, terminou com o Hino Nacional, cantado pelo Orfeão da Mocidade Portuguesa, regido pelo Rev. Padre Barcelos Mendes e acompanhado ao piano pelo Rev. Padre Lancelote, ouvido no mais profundo e emocionante silêncio, de pé por toda a assistência.
Iluminações de gala
Assinalaram a noite festiva de 10 de Junho — Dia de Portugal, apresentando feérico aspecto as fachadas dos edifícios, nomeadamente o Palácio do Governo da Praia Grande, das Repartições, dos Correios, e Leal Senado, quartéis e fortalezas, esquadras da polícia, etc.
Artigo publicado nas páginas 1 e 6 do Notícias de Macau de 12.6.1956

Na capa da edição de 12.6.1956 do "Notícias de Macau"


"Como nos anos anteriores foi o DIA DE PORTUGAL aqui festejado com brilho e acentuado espírito patriótico no dia 10 do corrente, dia consagrado ao imortal Poeta Luís de Camões. Nesta cidade revestem-se essas comemorações de especial significado por, segundo a tradição, ter o Poeta escrito em Macau parte do seu imorredoiro Poema. Para festeja esta grande Festa Nacional foi elaborado o seguinte programa que se cumpriu integralmente:
1- Às 8.00 horas – Hastear da Bandeira Nacional nos edifícios das Repartições Públicas, Quartéis e Fortalezas.
2- Às 10.00 horas – Parada militar com desfile das forças diante da tribuna colocada em frente ao Palácio da Praia Grande, no qual tomarão parte contingentes da força do Exército da Polícia de Segurança Pública, da Polícia Marítima e do Corpo de Bombeiros Municipais, sendo a guarda de honra a Sua Exa. o Governador prestada pela Milícia da Mocidade Portuguesa.
3- Às 11.00 horas – Cerimónia pública no Jardim da Gruta de Camões em que farão alocuções os Srs. António da Canhota, professor da Escola Comercial “Pedro Nolasco” e Lei Chêng U, director da escola chinesa “Meng Tak”, depois do que desfilarão os alunos das escolas e da Mocidade Portuguesa, perante o busto do poeta.
4- Às 12.00 horas – Salva de 21 tiros na Fortaleza do Monte.
5- Às 12.30 horas – Recepção na Residência do Governo às corporações oficiais, funcionários e cidadãos desta província que desejem apresentar cumprimentos.
6- Das 18.00 às 20.00 horas – Recepção no Palácio do Governo da Praia Grande.
7- Às 21.45 horas – Sessão cultural no Teatro “D. Pedro V”, promovido pelo Conselho de Instrução Pública, ao qual o vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. José Tertuliano Cabral, proferirá uma conferência subordinada ao título: “Camões, o príncipe dos poetas portugueses”. Cooperará no sarau o Orfeão da Mocidade Portuguesa.
8- Das 21.00 às 24.00 horas – Iluminação de gala nos edifícios públicos e quartéis que o possam fazer."
Artigo “Comemorações do Dia de Portugal.” 
publicado no Boletim Informativo da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral – Secção de Propaganda e Turismo. Ano III, nº 60, 15.6.1956

terça-feira, 9 de junho de 2026

Antigos "Cruzeiros"

A presença de cruzeiros (grandes cruzes de pedra ou madeira) no adro ou em frente às igrejas é uma tradição profundamente enraizada na Europa e muitos países espalharam esse hábito pelos então territórios conquistados um pouco por todo o mundo. Portugal não foi excepção. Em Macau embora muitos já tenham desaparecidos, ainda existem alguns.
Entre os que desapareceram pela voragem do tempo contam-se o do Largo do Senado junto à Igreja de Misericórdia e o que ficava junto à Igreja e Convento de S. Francisco. A cruz é o elemento simbólico do cristianismo. Sendo o seu elemento mais universal assinala o sagrado sobre o profano. Para além da função religioso tinham também um função Social e de identidade, assumindo-se como "ponto de encontro" por excelência de um determinado local. Eram o centro da vida social da aldeia ou vila (em frente à igreja principal) e era ali que se discutiam negócios, que se davam novidades e se tomavam decisões comunitárias.
Entre os cruzeiros que ainda hoje se podem encontrar em Macau estão os do Largo da Sé (embora numa versão moderna pois o anterior estava danificado), junto à igreja de S. Lázaro, da igreja do Carmo (Taipa), Igreja S. Francisco Xavier (Coloane), Ermida da Penha, Igreja de Santo António, etc...
No adro da igreja de Santo António com a inscrição "1638"

O do adro da Igreja de Santo António afere que a construção da igreja na actual localização é datável de 1638, data inscrita no cruzeiro de pedra existente no adro. Embora a primitiva construção seja anterior. É mesmo a mais antiga de Macau remontando ao final do século 16.
A referida construção de pedra e cal e estilo neoclássico sofreu inúmeras remodelações, nomeadamente, em 1810 e 1876

A razão da sua construção resulta da combinação de funções religiosas, sociais e até práticas, funcionando como a sagração do espaço público. O cruzeiro funcionava como uma extensão do altar para o exterior. Marcava o limite entre o mundo profano (a rua) e o mundo sagrado (a igreja). Ao colocar uma cruz na frente do edifício, toda a praça ou adro passava a ser considerada solo sagrado, preparando o fiel espiritualmente antes de ele cruzar o umbral da porta.
Cruzeiros assinalados num 'mapa' do século 17

Muitas vezes, as igrejas eram pequenas demais para acolher multidões em festas populares. Assim os padres pregavam junto ao cruzeiro - púlpito ao ar livre - para que todos na praça pudessem ouvir. Eram também usados em procissões e vias-sacras com uma escala, uma "estação" onde se rezava e entoavam cânticos.
Cruzeiro junto à Igreja/Convento de S. Francisco: pintura 1812

Assumindo a função de protecção espiritual acreditava-se que a cruz protegia a comunidade contra pestes, tempestades e "más energias". Alguns exemplares foram erguidos enquanto "marcos de piedade", fruto de promessas de famílias ricas ou por ordens religiosas (como os Franciscanos ou a Ordem de Cristo) para incentivar a oração dos transeuntes.
Em tempos antigos, os cemitérios situavam-se junto aos adros das igrejas e aí o cruzeiro servia como um monumento central de oração pelas almas ali enterradas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os "religiosos de Santo Agostinho" e os 'frescos' da Ermida da Guia

22 de Agosto de 1589
Os religiosos de Santo Agostinho tomaram n'este dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça, em Macau, que já antes haviam fundado os padres hespanhoes da mesma ordem, os quaes o cederam por determinação d'el rei D. Fellipe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no anno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo.
in Commemorações da historia de Macau e das relações da China com os póvos christãos
Curiosidade:
A ermida da Guia é dedicada a Nossa Sra. das Neves. Durante trabalhos de restauro em 1996 foram descobertos alguns 'frescos', incluindo o desenho de uma águia bicéfala. Ainda hoje continua por esclarecer a origem deste 'fresco'. A águia bicéfala é frequentemente associada à Igreja Ortodoxa ou a impérios do Leste Europeu. No entanto, a sua presença na Capela de Nossa Senhora da Guia pode ser explicada por três hipóteses principais que os historiadores têm debatido:
Hipótese Agostiniana: Esta é a mais provável e encontra paralelo numa pedra gravada com um símbolo semelhante e pode ser visto do antigo Leal Senado. A águia bicéfala é um símbolo da Ordem de Santo Agostinho. Embora a capela não fosse formalmente gerida pelos agostinhos, a influência visual desta ordem na Ásia era imensa no século XVII, e o símbolo representa a elevação espiritual e a visão divina.
União Ibérica (1580–1640): O período em que as pinturas foram feitas coincide com a época em que os reis de Espanha (Habsburgo) também eram reis de Portugal. A águia bicéfala era o símbolo heráldico dos Habsburgos. Apesar de Macau manter a bandeira portuguesa, a presença do símbolo imperial em edifícios daquela época era uma forma de reconhecimento da autoridade monárquica global.
Pista Arménia: C. A. Montalto de Jesus sugeriu a presença de comerciantes arménios em Macau como a causa. Para os arménios, a águia bicéfala é um símbolo nacional e religioso antigo. Provas documentais Montalto admitiu não ter encontrado.

domingo, 7 de junho de 2026

"Leitura" de um dos pavilhões do Templo de A-Ma

Este é um dos vários pavilhões do Templo de A-Ma. À semelhança dos demais a actual configuração remonta a 1828. Para esta 'leitura' subjectiva recorri a ilustrações - aguarelas -feitas por IA e partir de fotografias.

As inscrições são em escrita Lishu (escrita oficial/clerical), o que lhes confere uma aparência mais quadrada e monumental.

1. Dístico da Direita
Transcrição: 春風靜秋水明貢士波臣知中國有聖人伊母也力
Tradução Comentada: "A brisa da primavera é calma e as águas do outono são límpidas. Os oficiais e os súbditos do mar reconhecem que na China existe uma Santa; isto deve-se ao poder de protecção divina da Mãe (Mazu)."

2. Dístico da Esquerda
Transcrição: 海日紅江天碧樓船艘艚涉大川如平地唯德之休
Tradução Comentada: "O sol do mar é rubro e o céu sobre o rio é azul-safira. Grandes navios e embarcações atravessam os vastos oceanos como se caminhassem em terra plana; isto é a glória da sua virtude."
Os cantos do beiral terminam com figuras de dragão com a boca aberta. São os Chiwen, um dos nove filhos do Dragão, que, por gostarem de engolir fogo, são colocados nos telhados para proteger a estrutura contra incêndios e raios.

Painel Central (Superior)
Este é o relevo mais dinâmico e situa-se logo abaixo do telhado principal.
Três figuras principais: À esquerda e ao centro, dois Qilins (quimeras chinesas com corpo de escamas e cascos) que parecem estar a interagir ou a "brincar" com elementos circulares. À direita, uma ave de grande porte (provavelmente uma fénix ou um pavão mitológico) com as asas abertas, voltada para os Qilins.
Significado: Esta composição representa a "Harmonia Universal". O Qilin simboliza a paz e a benevolência, enquanto a ave mitológica representa a virtude. Juntos, indicam que este portal é um lugar onde a energia celestial está em equilíbrio.

Painel Lateral Esquerdo (acima da janela)
 Um cenário naturalista focado em aves pernaltas, identificadas como Garças (Xianhe). Elas aparecem integradas num cenário de rochas e vegetação (provavelmente pinheiros ou ameixeiras).
Significado: A garça é o símbolo máximo da Longevidade e da elevação espiritual. Estar no lado esquerdo reforça a ideia de uma vida longa e estável para quem entra.

Painel Lateral Direito (acima da janela)
Outra cena de fauna e flora, mas aqui a figura central é uma ave com plumagem exuberante e cauda longa, uma Fénix (Fenghuang) ou um faisão ornamental, pousada num ramo florido.
Significado: A fénix representa a Beleza, a Graça e a Prosperidade. Enquanto no lado esquerdo o enfoque é longevidade, o lado direito destaca a prosperidade.

sábado, 6 de junho de 2026

Novos edifícios residenciais nas décadas 1960 e 1970

Nas décadas de 1960 e 1970 a cidade de Macau assistiu a uma forte crescimento urbanístico, nomeadamente com a construção de inúmeros edifícios residenciais.
Detalhe da capa de um catálogo de vendas

Entre os novos prédios construídos surgem o Capitol, Veng Lei, apollo, Iou Kuan, Lai Un, Po Lei, Tung Heng, Fu Va, Keng Va, etc... Alguns destes prédios ainda existem...
Edifício Fu Va - Av. Dr. Rodrigo Rodrigues

Facto inovador na época foi o surgimento dos catálogos imobiliários como ferramenta de marketing usada para a promoção e venda dos apartamentos. Um apartamento no edifício Capitol em 1964 custava entre 22 a 25 mil patacas.
Ainda por construir, coube a artistas como Kam Cheong Leng, criar as ilustrações de como iriam ser os edifícios.
Um dos construtores que de destacou nessas décadas foi a empresa Yau Vo e um dos maiores promotores imobiliários foi a Tai On.

Ilustração com uma vista panorâmica a partir da Fort. do Monte em meados da década 1970
Ao fundo a ilha da Taipa: pode ver-se o Hospital, Hotel Lisboa, Ponte Nobre de Carvalho

No catálogo de vendas acima:
Transcrição (Chinês Tradicional)
萬成發展有限公司
洽購處: 
萬年企業有限公司 
奇珍銀號 
建成(澳門)有限公司 
地址:板樟堂街16號H式樓
電話:3426
板樟堂街15號電話:4345
地址:南灣羅理基博士大馬路25號式樓 電話:5334

Tradução: 
Empresa de Desenvolvimento Imobiliário Man Seng, Lda. (Wan Shing)
Local de Vendas / Contacto para Compra:
Empresa de Empreendimentos Man Nin, Lda.
Ourivesaria/Casa de Câmbio Kei Chan (Hei Chan)
Kin Seng (Macau) Empresa, Lda.
Contactos e Moradas:
Endereço: Rua de S. Domingos, n.º 16, Edifício Tipo H.
Telefone: 3426
Rua de S. Domingos, n.º 15, Telefone: 4345
Endereço: Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, n.º 25, Praia Grande. Telefone: 5334
Curiosidade: No Largo da Sé foi construído um edifício denominado Apollo mas que em chinês se designa Ping On. Tal como o cinema como o mesmo nome junto ao Largo do Senadomas construído cerca de 30 anos antes. Também se chama Apollo mas o nome em chinês é Ping On. Os dois edifícios, outra curiosidade, tinham cor verde na fachada.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Estação para Jerinxás" na Rua de S. Paulo

Nesta fotografia da Rua de S. Paulo, já perto do Largo da Companhia de Jesus, destaco a placa do Leal Senado, localizada no lado esquerdo e onde se pode ler: "Leal Senado - Estação para Jerinxás".
Um olhar mais atento permite perceber que no registo fotográfico foram captados dois momentos distintos da evolução deste meio de transporte público. À esquerda está dois jerinxá, variante fonética macaense de "jinrikisha", veículo de duas rodas puxado por um homem que foi um dos principais meios de transporte em Macau desde o final do século 19 e até meados do século 20, quando aos poucos foi sendo substituído pelo triciclo, de que se pode ver um exemplar do lado direito.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Aspectos do Cais dos Vapores no primeiro quartel do século 20

Nesta fotografia dos primeiros anos do século 20 o antigo Largo da Caldeira já surge ocupado nomeadamente por um edifício onde na fachada está uma anúncio de grandes dimensões:
"COLGATE & CO. / NEW YORK / U.S.A. / ESTABLISHED 1806"
A azáfama neste troço da Rua das Lorchas é notória, nomeadamente o elevado número de jerinxás. Entre os vários elementos arquitectónicos visíveis destaco uma vista parcial da torre Prestamista na Rua do Bocage.

O topónimo Largo da Caldeira já não existe mas ficaram a Rua e a Travessa da Caldeira que permite situar este local nos dias de hoje. O prédio do anúncio da Colgate corresponde à actual Travessa 5 de Outubro.
Sendo uma zona de muito movimento em redor existiam vários restaurantes, casas de chá, hospedarias, pensões, hotéis, etc...
Junto ao muro inúmeras sampanas, pequenas embarcações vitais para a vida comercial e o transporte de mercadorias no porto interior

quarta-feira, 3 de junho de 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Placas toponímicas da Rua dos Mercadores

Este é mais um exemplo da especificidade e riqueza da toponímia local em termos históricos. Três diferentes designações em chinês para a mesmo nome em português, a Rua dos Mercadores. Antigamente foi das mais importantes por ser a que permitia a entrada no chamado Bazar chinês a partir do centro histórico da cidade.
Placa 1
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 大街
Tradução literal: Rua Principal.

Placa 2 
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 大街 (營地大街)
Tradução literal: "Rua Principal do Bazar" ou "Grande Rua do Mercado

Placa 3
Português: RUA DOS MERCADORES
Chinês: 買賣街
Tradução literal: Rua de Compra e Venda (Rua do Comércio).

segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Primeiro navegador que aportou à China"

 

O escultor Euclides Vaz foi o autor desta estátua de Jorge Álvares inaugurada a 16 de Setembro de 1954 e que ainda hoje pode ser vista em Macau frente ao antigo Edifício das Repartições Públicas/Tribunal.
O projecto nasceu após a visita do Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, no Verão de 1952. Euclides Vaz viria a ganhar o concurso público em Setembro de 1953. Enviados para Macau no paquete "Índia" os vários elementos da estátua chegaram ao território em Maio de 1954 sendo a instalação dos mesmos ficado a cargo da empresa Va San entre Julho e Agosto desse ano.

domingo, 31 de maio de 2026

Dicionário Chinês-Português /中 葡 字 典 : 1964

Impresso na Imprensa Oficial de Macau entre 1962 e 1964 este "Dicionário Chinês-Português /  中 葡 字 典" tem a particularidade de ser dedicado pelo Governo de Macau a Sun Iat Sen e incluir uma breve história de Macau.


中 葡 字 典
中 (Zhōng): Abreviação para China ou língua chinesa.
葡 (Pú): Abreviação para Portugal ou língua portuguesa (derivado de 葡萄牙).
字 典 (Zì diǎn): Significa literalmente Dicionário




sábado, 30 de maio de 2026

Restauro do Farol da Guia depois do tufão de 1874

Construído no tempo do Gov. Coelho do Amaral em 1865 o Farol da Guia teve primeiramente uma secção octogonal.
Severamente afectado no tufão de 1874 o farol foi substituído pela actual versão, de secção circular. Esta versão só concluída em 1910 seria escolhida entre várias propostas na época.
A 11 de Janeiro de 1910 a Capitania dos Portos informa "que tendo de se proceder á montagem de um novo pharol de rotação na torre do antigo pharol da Fortaleza da Guia, será esta luz substituida, a partir do dia 14 do corrente, inclusivé, por uma luz branca fixa, d'uma lanterna montada ao lado da torre, em barraca de ola, á altura da antiga luz, com o alcance approximado de 6 milhas, em boas condições atmosphericas."

O anúncio é publicado em português e chinês:

大西洋澳門船政廳 為 (Repartição Marítima de Macau)
通 知 事 照 得 現 因 (Faz-se saber que, tendo presentemente...)
東 望 洋 燈 塔 改 換 (a substituição do Farol da Guia...)
新 轉 燈 自 西 本 月 (por um novo farol de rotação, a partir de...)
十 四 日 起 將 轉 燈 (dia 14 deste mês, o farol de rotação...)
暫 行 不 用 特 在 該 (será temporariamente suspenso, e especificamente naquela...)
塔 旁 邊 蓋 搭 小 竹 (torre, ao lado, foi montada uma pequena barraca de bambu/palha...)
棚 懸 竪 白 色 定 燈 (onde se hasteou uma luz branca fixa...)
一 枝 其 高 照 舊 一 (à mesma altura da antiga...)
式 若 在 晴 天 可 以 (que, em dias de tempo limpo, pode...)
望 見 燈 光 合 就 通 (ser vista a luz. Pelo que se faz este comunicado...)
告 各 人 知 悉 (para conhecimento de todos.)
P. N. da Silva Jr.
己 酉 年 十 二 月 (Ano de Ji-you, 12.º mês lunar)
初 一 日 (1.º dia)
Está conforme.


Em Junho de 1910 a Capitania dos Portos de Macau - era capitão L. Leitão Xavier - publica um "Aviso aos Navegantes" onde informa que "Começa a funccionar no dia 28 de junho de 1910, na torre do antigo pharol da Fortaleza da Guia, da peninsula de Macau, um novo pharol de rotação de 3.ª ordem, de luz branca de grupos de relampagos de 10 em 10 segundos de tempo, e com o alcance de 25 milhas."

Guia Lighthouse, which was built adjacent to Nossa Senhora da Guia Chapel in 1865, is the oldest lighthouse on China's coast. Standing at 13 meter tall, first it was an octagonal structure. The lighthouse was damaged by a typhoon in 1874 and remained out of service until its restoration - becoming a cylindrical structure - and reopening on June 29th 1910.

Década 1980 versus década 1910


sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Macao Ice Company"

OLHAE BEM
A "MACAO ICE COMPANY" participa ao respeitavel publico que acaba de estabelecer um deposito para a venda de gêlo, na Rua dos Mercadores n.º 51.
O gêlo é feito na nova fabrica, na AREIA PRETA, com agua de fonte distillada e pelos systêmas mais modernos; sendo portanto a sua salubridade e pureza garantidas.
O proprietario d'esta fabrica convida o publico de Macau a visitar a dita fabrica para assim verificar pessoalmente a limpeza com que o gelo é feito.
O preço por libra é de um avo de pataca; havendo preço especial para a venda em grande quantidade.
Os livretes para a compra do gelo podem ser pedidos nas officinas da mesma; Rua da Sé, n.º 10.
PEDRO L. HINGKEE,
Proprietario.
Este anúncio foi publicado em Abril de 1909 no jornal Vida Nova. Poucos anos antes, em 1903, Pedro Leong Hing Kee vendera o hotel que tinha na Praia Grande e nesta altura dedicava-se a uma novo negócio - uma fábrica de gelo - que seria seguido pelo filho. Este por sua vez também se iria dedicar à venda de automóveis.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

"Revolução em Portugal": Maio de 1926

Há 100 anos um golpe militar derrubava a 1.ª República em Portugal seguindo-se a instauração da ditadura militar e abrindo caminho ao Estado Novo. O principal líder dos revoltosos, foi Manuel Gomes da Costa (1863-1929).
Em Macau o jornal A Pátria dá conta dos eventos na edição de 31 de Maio de 1926 numa breve citando um telex de Lisboa com a data de 28 de Maio:
"À última hora
LISBOA, 28 — As comunicações com o interior estão cortadas.
O general comandante dos revoltosos em que estão incluídos a 8.ª divisão, a divisão do Porto e outras unidades declarou numa proclamação que vai marchar sôbre Lisboa."
Na edição de de Junho o jornal publica na primeira página uma série de artigos sobre os acontecimentos em Portugal: 
A revolução em Portugal
Cai o ministério
Lisboa, 29. — Os chefes da revolução foram ter com o sr. Presidente da República a quem pediram que formasse um Govêrno extra-parlamentar e citasse os leaders dos partidos políticos. Num comunicado, o Govêrno declara que reina absoluto sossêgo em todo o país. Os elementos revoltosos compõem-se apenas de uma divisão aquartelada em Braga e comandada nessa cidade pelo General Gomes da Costa e no Porto pelo General Peres.

Ainda na primeira página do jornal pode ler-se:
Ditadura militar em Portugal
Um govêrno sem políticos
LONDRES, 31 — O Correspondente do Daily News em Lisboa diz que o movimento revolucionário se estendeu por todo o país e que o Presidente da República conferenciou com os delegados revolucionários, consentindo em que êles governem o país.
LISBOA, 31 — A revolução acabou pelo estabelecimento de uma ditadura militar, a quinta na Europa, existindo as outras na Itália, Espanha, Grécia e Polónia. A revolução fez-se quási sem disparar um tiro. Num comunicado de sábado o Govêrno dizia que estava senhor da situação mas afinal os revolucionários marcharam sôbre Lisboa, não podendo o Govêrno opor-se-lhes por não poder dispor de transportes que lhe foram negados pelas companhias do caminho de ferro. Numa proclamação ao povo português, o General Gomes da Costa diz que o movimento revolucionário teve por fim salvar o país da ruína a que o levavam os políticos. 
Mais tarde — A revolução triunfou e o Presidente da República encarregou o chefe das fôrças revolucionárias, Comandante Mendes Cabeçadas, de formar govêrno. O comandante Cabeçadas aceitou e tomou conta de tôdas as pastas provisoriamente. Entrevistado, o sr. Cabeçadas declarou que o novo Govêrno seria composto de militares e civis sem partidos e de perfeito acôrdo com os delegados das divisões militares.
Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães era então o Governador (até 1 de Agosto de 1926). Seguiu-se Hugo de Carvalho de Lacerda Castelo Branco que assumiu interinamente o cargo entre 1 de Agosto e 8 de Dezembro de 1926. Antes, em Julho, já tinha sido nomeado Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, que assumiu o cargo efectivo a 8 de Dezembro de 1926.

Na última página uma notícia informa que a informação oficial chegou ao governador de Macau no dia 31 de Maio:
Revolução em Portugal
Telegrama recebido pelo Governo de Macau, ontem de manhã
LISBOA 31-5-1926
Governador Macau
800 Circular virtude movimento militar Ministério demitiu-se ponto. Está sendo organizado novo Ministério que, comunicarei ponto. Sossêgo em todo País.
Parte da infância de Gomes da Costa e das suas irmãs, Lucrécia (1869 - ?) e Maria Amália (1871-1953), foi passada em Macau, onde o pai, recentemente promovido a tenente, se encontrava destacado.
A carreira militar de Gomes da Costa progrediu de forma fulgurante: tenente (novembro de 1889); capitão para o Ultramar (julho de 1893); capitão (janeiro de 1898); major (fevereiro de 1908); tenente-coronel (junho de 1912); coronel (junho de 1914); general graduado (maio de 1917) e marechal (setembro de 1926).
De 1893 a 1916, viveu quase ininterruptamente na Índia e em África, ao serviço do então Exército Colonial. Esteve em praticamente todas as colónias, em missões de combate, reconhecimento, inspeção e administração.
Em 1922 foi nomeado inspector Extraordinário às Colónias do Oriente e nessa qualidade esteve em Macau e no Estado da Índia. Chegou a Macau a 8 de Outubro de 1922 acompanhado do filho Carlos Nunes Gomes da Costa, como Secretário, e do Tenente Salgueiro Rego, ajudante de campo, para inspeccionar os serviços militares locais.
O jornal O Liberal informa na edição desse dia:
"É esperado hoje em Hongkong o sr. general Gomes da Costa, tendo ido áquela colonia esperalo o sr. capitão Serrão dos Reis."
Na edição de 12 de Outubro de 1922 o mesmo jornal cita o jornal O Mundo:
"O sr. general Gomes da Costa — escreve O Mundo —, cuja larga folha de serviços lhe grangeou dentro e fóra do exercito uma situação de alto prestigio, é uma das mais distintas figuras militares do nosso pais. Cooperador de Mousinho, em Moçambique, onde a sua bravura tantas vezes teve ocasião de se assinalar, o sr. Gomes da Costa tinha já um honroso e brilhante passado militar quando, com a nossa entrada na Grande Guerra, mereceu ao governo, que então geria os negocios publicos, o encargo de comandar na frente da batalha da Flandres, no sector português, o comando de uma divisão. A maneira como se houve nesse posto de enormes responsabilidades, sabem-no toda a gente e, em especial, os heroicos soldados que por ele tinham, a par de uma funda admiração, uma grande estima. Nas vesperas de uma hora, simultaneamente tragica e sublime, do 9 de Abril, o sr. general Gomes da Costa foi ainda o patriota veemente que, em tão sucessivos quanto baldados apelos, soube frizar ao governo de Sidonio Pais a critica situação das forças sob o seu comando, procurando chamar aos seus postos todos aqueles que deviam estar na linha de combate e, todavia, não estavam. A este respeito, o seu livro A Batalha do Lys, lançado á publicidade com invulgar desassombro, constitue um eloquente depoimento do seu caracter, do seu zelo militar e do seu ardente patriotismo. A missão que lhe foi recentemente cometida e que hoje o leva para longe de Portugal é mais uma distinção — e uma distinção merecida. Saudamo-lo, por isso, na certeza de que, fazendo-o, saudamos numa das suas mais brilhantes figuras o heroico exercito que se bateu na Africa e na Flandres."
Depois de um largo período de tempo em Macau - recheado de peripécias - Gomes da Costa regressaria a Lisboa em 1924.
Ficou historicamente conhecido por liderar a Revolução de 28 de Maio de 1926 e por exercer o cargo de 10.º Presidente da República Portuguesa por um curto período de tempo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Recepção em Santa Sancha na década 1950

Recepção no Palacete de Santa Sancha - residência oficial do governador - na década de 1950. No jardim o governador Joaquim Marques Esparteiro fala com os convidados. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

"Chal fundo e chal Grande"

De acordo com o Glossário do Dialecto Macaense e outros registos do português na Ásia:
Chal (ou Chale): É um termo de origem indo-portuguesa (do marata chāl ou guzerate chāl). Designa um edifício comprido e estreito, geralmente dividido em várias habitações ou compartimentos independentes, frequentemente ocupado por artífices ou trabalhadores.
Em contextos urbanos antigos (como em Bombaim ou partes de Goa e Macau), os chals eram estruturas comunitárias com um corredor ou varanda comum.
Detalhe de "Planta Topographica da Cidade de Macáo. Levantada em 1831 e Reformada em 1838 por Candido Antonio Ozorio", oficial de infantaria e engenheiro.

Neste mapa referem-se o "Chal fundo" e o "Chal Grande". Outras referências neste detalhe do mapa:
a) Casa de D. Antónia
b) Campo de Santo António
c) Gruta de Camões
d) Horta do Pereira
e) Igreja de Santo António
f) Tarrafeiro
k) Horta da Companhia (holandesa)
j) Casa da Companhia (holandesa)
u) Cemitério britânico
h) Hospital britânico
V) Povoação de Patane
H) Chal fundo