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sexta-feira, 10 de abril de 2026

120 anos dos Salesianos em Macau

Este ano assinala-se o 120.º aniversário* da chegada dos Salesianos a Macau. A primeira expedição salesiana a chegar a Macau, em Fevereiro de 1906, era composta por seis pioneiros que lançaram as bases da obra de Dom Bosco na região. O grupo era liderado pelo Padre Luís Versiglia (director da missão) e incluía os padres Ludovico Olive e João Fergnani. Acompanhavam-nos três irmãos coadjutores, especialistas em artes e ofícios, que seriam essenciais para o ensino técnico: Feliz Borsio, Luís Carmagnola e Gaudêncio Rota. Juntos, estes seis missionários iniciaram o trabalho no Orfanato da Imaculada Conceição.
A iniciativa pertenceu ao Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, que buscava apoio especializado para a educação e formação profissional de jovens carenciados e órfãos no território.

O Pe. Joaquim Taveira da Fonseca foi um desses salesianos já na década de 1970 e é o protagonista do artigo (texto) da autoria de Raquel Fragata publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de Março/Abril de 2026. Suplemento 150 anos das Missões Salesianas - "1906, Macau, a primeira casa na China" que a seguir se reproduz:
Foram quatro frutuosos anos que o Pe. Joaquim Taveira da Fonseca trabalhou em Macau. Tinha regressado de Moçambique em 1975, onde serviu como Capelão Militar do Exército Português no período de transição para a Independência após o 25 de Abril, quando – depois de dois anos no Colégio dos Órfãos do Porto como diretor –, vai para Mogofores para completar o Curso de Matemática na Universidade de Coimbra. É o Provincial, Pe. José Maria Ferreira Maio, que o envia a seguir para Macau, onde fica como vice-diretor, professor de Matemática no Colégio Dom Bosco e professor de Filosofia na Escola Comercial de Macau, para portugueses.
Conheceu o Padre Gaetano Nicosia, o salesiano que humanizou a colónia de doentes de lepra na ilha de Coloane**. Do missionário salesiano, cujo processo de beatificação começou em 2025, o Pe. Taveira recorda “um asceta”. Diariamente, o Pe. Nicosia atendia a duas obras a seu cargo: a leprosaria em Coloane e uma creche perto do Porto de Macau. “Fiquei a saber que não comia. Não tinha tempo.” O Padre Taveira tentava fazê-lo passar pela comunidade salesiana, a pretexto de se querer confessar, e recebia-o com leite ou chá e uma sanduíche. “Um confessor fabuloso. Um homem de Deus. De uma dedicação, entrega e simplicidade absolutas”.
Nesses anos o Pe. Joaquim Taveira colabora também com uma coluna de opinião e a secção de Religião com “O Clarim”, o jornal de língua portuguesa mais antigo de Macau e ainda em circulação. O convite foi feito por D. Arquimínio Rodrigues da Costa, o último Bispo português de Macau, natural dos Açores, da ilha do Faial. Era diretor o Padre Manuel da Fonseca Moreira.
Nos quatro anos de missão, visitou Taiwan, a China, as Filipinas e o Japão. Regressou a seu pedido, devido ao estado de saúde do Pai. Antes da partida um grupo de mais de 50 amigos organizou um jantar surpresa de despedida e de agradecimento.
Leprosaria de Ka-Ho ca. 1960
Transcrição (da direita para a esquerda)
Linha superior:
典學開校學罪原無門澳日二月四年六零九一
Cerimónia de abertura da Escola da Imaculada Conceição de Macau, 2 de Abril de 1906.
Linha inferior:
照合生學與父神賀父神雷教主鮑門澳禮
Fotografia dos alunos com o Padre Horta, Padre Lei, o Bispo de Macau Dom João Paulino e outros.
Ao centro com a cruz peitoral está o bispo Dom João Paulino (1902-1918).  No topo há um retrato do Papa Pio X, pontífice na época 1903-1914. O retrato segurado por um dos alunos no centro da imagem é o de Dom Bosco, o fundador da congregação Salesiana.

* Os primeiros missionários salesianos para Meliapor e Macau partiram da Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim, a 23 de Novembro de 1905. A primeira missão salesiana em Macau iniciou-se a 13 de Fevereiro de 1906.

** Em 2025 teve oficialmente início o processo de Beatificação e Canonização do Pe. Gaetano Nicosia (1915-2017), missionário salesiano que viveu 48 anos na leprosaria da ilha de Coloane, em Macau.

domingo, 22 de março de 2026

Memórias do Liceu e do Complexo Escolar pelo Professor José Cordeiro

A propósito dos 40 anos passados sobre a inauguração do Complexo Escolar de Macau pedi ao professor José Cordeiro um testemunho desses tempos. Aqui fica o meu agradecimento pela sua disponibilidade. Agora, tal como então, sempre com uma enorme generosidade na sempre difícil missão de educar. Fui um dos muitos que tive o privilégio de aprender. Sobre a escola e também sobre a vida. Desses tempos ficaram para sempre impregnados valores como o respeito, a liberdade, a solidariedade, a responsabilidade, a partilha, etc...
Se a memória não me falha

"Estava eu posto em descanso quando o João  Botas me veio picar a memória acerca da passagem recente, em 6 Janeiro de 1986, do 40º aniversário da inauguração e funcionamento do Complexo Escolar de Macau, da Direcção de Serviços de Educação, Juventude e Desporto do governo de Macau, logo no reatamento do 2º período, para falar das minhas memórias daquele tempo. Ainda me dispus por a memória à disposição dele, dar-lhe umas dicas, mas ele, fino, preferiu a papa feita. Como nunca me decepcionou no seu tempo de estudante, nunca deixando que algo acontecesse por falta de voluntário, não vou deixá-lo pendurado no seu nobre  propósito. Quando mais ninguém queria, o João era “o homem para levar a carta a Garcia”. 
Estou-lhe grato pela sua disponibilidade.
Já lá vai muito tempo, que sensibilizado por uma dança do Dragão ou do Leão que vi nos documentários “ Mundo português”, que passavam nas sessões de cinema antes de passar o filme em exibição, disse para os meus botões que um dia gostaria de ver aquilo ao vivo.
Em janeiro de ´81, depois de um processo bem sucedido de candidatura, estreei-me no vetusto Liceu Nacional do Infante D. Henrique, como era então de lei chamar-se quando havia só uma escola liceal  da rede pública de ensino por distrito.
E quem se moveu por danças de leões e de dragões com a cabeça cheia de fantasias não podia ter sido melhor ocasião que a quadra festiva do Ano Novo Lunar e o Liceu se situava naquele enclave da cidade, em frente à Baía da Praia Grande, onde acontecia a chinfrineira do rebentamento dos panchões, enquanto na Baia ainda deslizavam os graciosos juncos a navegarem rumo ao Porto Interior. 
Ali trabalhei até à inauguração do dito Complexo escolar de Macau que passou a integrar a Escola Preparatória Dr José Gomes da Silva, a Escola Luso-Chinesa Luis Gonzaga Gomes e a Escola Secundária do Infante D. Henrique, também com cursos nocturnos.   
Se, olhando para um mapa antigo de Macau, o LNIDH, ficava isolado numa ponta da Península, num exclave quase no meio de nada, mas desde então já completamente integrado no coração da cidade com o Hotel Sintra, numa das pontas, agora a olhar não sei para quê, na outra ponta, diametralmente oposta, sob austera supervisão da estatua equestre do austero Governador Ferreira do Amaral montado num cavalo com as patas dianteiras bem empinadas - símbolo de morte heróica do cavaleiro - implantado em altaneiro pedestal no meio da praça com o mesmo nome e mais, do outro lado, o  Hotel Lisboa, mesmo ali ao pé de se poder entrar, a  primeira sensação que se tinha, quando se começou a falar da implantação do projectado complexo escolar foi idêntica: mas aquilo fica tão fora de mão; aquilo é um deserto; então, e os transportes e a segurança das crianças e mais isto e mais aquilo e aquele outro como se todas as novidades exigissem visto prévio de um julgamento pessoal, antes de virem a ser aprovadas oficialmente. A oriente nada de novo para o habitual pessimismo ou a prudência do Velho do Restelo, do Rio Das Pérolas daquela Velha praça portuguesa da “Cidade do Santo Nome de Deus, não há outra mais leal”. Rapidamente o exclave projectado para a construção era agora um enclave rodeado de cidade vibrante por todo lado.
Para trás ficariam as odiadas batas de cor amarelo vaticano, que só ao gineceu obrigava  e as usava como retaliação até às linhas vermelhas da provocação, e algumas eram bem frescas e arejadas, para desespero da D. Cristina que no seu posto avançado ia zelando pela moral e dos bons costumes da escola, instalado no grande hall de entrada do velhinho, mas bem conservado, Liceu.
Num terreno de hortas, ladeado pelo circuito citadino do Grande Prémio de Macau logo se imaginavam cobras e lagartos numa terra onde leões e dragões à solta eram, e ainda são, sinónimo de festa rija, projectava-se a construção de uma nova escola. Naquele, então, deserto da cidade, imagine-se!
Curiosamente, aquilo começou tão auspiciosamente que, na cerimónia da cravação da 1ª estaca, com pompa e circunstância e fanfarra da Policia, quando o martelo pneumático se preparava para dar a primeira martelada, não é que, segundo constou, a estaca se enfiou do terreno adentro, mole que nem  faca em manteiga? Se o resto for assim tão fácil teremos obra, logo falou a vox populi de uma terra onde os sinais são mensageiros…Disto, confesso que não fui testemunha ocular, mas é património que se me cravou à minha revelia na memória de tanto ter ouvido da boca de tanta gente ter dito que viu.
Bom, o terreno consolidou, muitas estacas ou pilares, se preferirem, foram cravadas à custa de tanta martelada, a obra começou, concluiu-se, foi tomada de assalto e ocupada entre o Natal/ 85 e os Reis/ 86. Depois, com pequenos ajustes, próprios de casa nova, lá o barco largou as amarras e zarpou à procura de fazer a sua própria História. Cedo lhe deram outras funções e a história do CEM - Complexo Escolar de Macau - foi o que cada um levou consigo no pouco tempo em que foi um estabelecimento de ensino. Para alguns, na flor da idade, foi muito tempo em idade de gente sempre apressada.
Durante as ditas férias de Natal procedeu-se á mudança do que era património administrativo, porque todo o resto lá estava instalado. Laboratórios, oficinas, piscina aquecida, um ginásio e um pavilhão desportivo com vários campos exteriores, balneários amplos e um edifício administrativo - a torre de comando operacional - com sala de professores e de trabalho, que albergava os serviços administrativos e os de direcção e de gestão escolar.
Mas nem tudo o que é novo é bom ou, pelo menos, sabe bem para toda a gente. E, se tinha sido abolido o uso das malfadadas batas para as meninas, agora o mal havia-se generalizado: toda a cambada teve que se apresentar na parada da cerimónia de abertura  da nova escola publica trajada a preceito com calça azul ferrete vincada e camisa xadrez de vermelho pálido, que mais parecia as toalhas de mesa do Restaurante Fernando, e um pulôver a condizer com as calças, para os mais friorentos.  O uniforme foi decaindo de uso apagando suavemente, como quem não quer dar por isso, o premonitório sinal do fim do dito Império Português do Oriente, se considerarmos que as escolas do Velho Liceu eram as únicas que não usavam uniforme no universo das escolas do Território. Com a farda tudo se igualava na tradição local e no respeito pela diferença dos uniformes!
Entretanto, e só por curiosidade, em 1987, como reforço da ideia de premonição, Anibal Cavaco Silva, então 1º ministro, no seu périplo pelo Oriente visitava Pequim, no que foi o formal pontapé de saída no jogo da reintegração de Macau na Mãe Pátria Chinesa. Há quem diga que foi o inicio do “Acordo de Desconsentimento” - há quem prefira “O Desacordo de Consentimento” -  de um longo e histórico comodato, até que a mutua conveniência tácita desde a instalação ditasse em concreto a separação amigável. Por curiosidade,  recordo-me de alunos da Escola Secundária do Infante D. Henrique, em viagem de finalistas pela Tailândia, se terem cruzado em trânsito, em Banguecoque, com a comitiva de Cavaco Silva, a caminho  da Embaixada Portuguesa, vizinha do Rio Chao Phraya e do icónico Wat Arun.
Entretanto, a inevitável D. Cristina, novamente instalada no seu posto de operações no grande hall da cantina escolar, muito senhora da sua função, que, como sempre, tanto zaragateava com os alunos, como era a sua  primeira e mais acérrima defensora, quando lhe cheirava a procedimentos disciplinares. Não havia testemunha mais abonatória do que ela, que, qual mãe severa para prevenir, os chamava à razão, mas era uma autêntica mãe galinha a defender os seus pintos quando os sentia ameaçados. Nem eles suspeitavam.
E pronto, João, não sei se era bem isto que querias, mas como deves entender, andamos todos na mesma escola, mas não podemos ter todos as mesmas memórias, não é?
Um pouco como as daquela  instituição, a um tempo cosmopolita e ecuménica de tanta desvairada e santa gente que a ela recorria -  e a mais inocente era matar a sede insaciável - , no fim da avenida do velho Liceu que dava pelo nome de “ A esplanada”, que era  a “Las Vegas” da Avenida da Amizade, onde o que acontecia lá devia ficar. 
Lá no começo da avenida, fronteiriço ao tribunal, Jorge Alvares nos contemplava, sem nada dizer.
 Ah, se as estátuas falassem… 
Grande abraço  para todos, com saudades.
Cascais, 11.03.2026
José António Cordeiro
Liceu, hotel Lisboa e a 'esplanada' à direita

Liceu na Praia Grande visto do Hotel Lisboa
 
Início das obras do Complexo Escolar
Inauguração do Complexo Escolar
* Inauguração a 4.1.1986 (sábado); as aulas começaram a 6.1.1986 (segunda-feira)
** As obras começaram a 2 de Setembro de 1982.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Camões no Oriente"

"Camões no Oriente" é o mais recente título da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (ilustrações de Rui Sousa) a integrar a Biblioteca Digital da Fundação Jorge Álvares.
Da colecção "Portugueses no Oriente", vocacionada para o público juvenil, fazem ainda parte os títulos "Missão Impossível", "A Nau do Trato" e "Encontros na Cidade Proibida" – "os quais, além de animadas aventuras dos seus jovens intervenientes, contêm muita Informação histórica de fácil leitura e aprendizagem. Estas edições, não comerciais, foram especialmente encomendadas pela Fundação Jorge Álvares às autoras, tendo sido distribuídos vários exemplares pelas bibliotecas que integram a Rede de Bibliotecas Escolares nacional. A Nau do Trato foi por sua vez traduzida para chinês numa iniciativa do então Embaixador de Portugal em Pequim, José Augusto Duarte."

Excerto:
"No ano 1562 o vice ‑rei, que era D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, nomeou Luís de Camões Provedor dos Defuntos em Macau. Este cargo era muito apetecido por ser bem pago pela coroa portuguesa e não só. O Provedor de Defuntos tinha como missão fazer o inventário de todos os bens deixados por portugueses que morressem em Macau. Devia vendê‑los em leilão e guardar o dinheiro que obtivesse para o entregar aos herdeiros ou à coroa, mas tinha o direito de ficar com uma percentagem. Só podia exercer o cargo quem soubesse ler, escrever, interpretar leis. E, naturalmente, convinha que fosse honesto para não dar informações erradas aos herdeiros e à coroa e para não se apropriar daquilo que não lhe pertencia. Já viviam então muitos portugueses em Macau e praticamente todos se dedicavam ao comércio. A exceção era os padres. O imperador da China tinha autorizado os portugueses a instalarem ‑se em Macau para comerciarem em 1557. 
A partir de então a cidade, que fica situada na foz do rio das Pérolas começou a desenvolver‑se não só devido à presença dos portugueses mas também porque muitos chineses foram atraídos pelos negócios que ali podiam fazer. Naquele porto o movimento era cada vez mais intenso. Naus vindas de Goa transportavam produtos europeus, ouro da costa oriental da África, tecidos da Índia especiarias das ilhas Molucas e outros produtos de outras regiões da Índia e do Pacífico. Em Macau tudo isso se vendia com lucro e por lá se compravam porcelanas e sedas da China. A partir de certa altura, passou a haver também comércio com o Japão, onde as naus se dirigiam sobretudo para comprar prata. De modo que, quem fosse corajoso, hábil e tivesse sorte, conseguia enriquecer. Quanto mais trocas se fizessem, mais a coroa lucrava porque as naus tinham de pagar taxas alfandegárias em todos os portos dominados pelos portugueses. (...)
Segundo a tradição, o poeta subia com frequência a colina de Patane e sentava ‑se a escrever no interior de uma formação rochosa, que passaria à história como «penedo de Camões ou gruta de Camões». Ninguém sabe se realmente teria escrito naquele lugar ou não, mas se o fez escolheu bem porque naquele tempo, sem construções em volta, podia desfrutar de uma bela vista e porque em dias de calor e humidade desfrutaria também de sombra e frescura. Quem hoje visita Macau, se passar pela dita «gruta» ali encontrará um busto do poeta em bronze.(...)" 
Todas as obras desta colecção podem ser acedidas e descarregadas no site da FJA. 


No site está ainda disponível informação sobre o concurso "Vale a Pena Ler" para o ano lectivo 2025/26 e que tem como destinatários, nesta edição, as escolas de Portugal Continental e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Para esta iniciativa a Fundação Jorge Álvares "convida todos os alunos e professores a mergulharem nos fascinantes conteúdos da sua Biblioteca Digital e a participarem num concurso único, onde o conhecimento, a imaginação e a criatividade se encontram para dar vida a novas ideias!"
O concurso destina-se a alunos do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, sendo a participação individual, mas sempre no contexto escolar, com o acompanhamento de um(a) professor(a) responsável.
O período de candidaturas decorre entre 15 de Março e 23 de Abril de 2026.

sábado, 13 de dezembro de 2025

100º aniversário do Colégio Yuet Wah - 粵華中學 - Yuet Wah College

O Colégio Yuet Wah College (粵華中學) foi fundado em Cantão em 1925 por duas senhoras cristãs - Liu Fong Kei e Tam Kai Man - sendo transferido para Macau três anos depois.
No livro "A Educação em Macau" (DSEC, 1981) o padreManuel Teixeira escreve:
"A 12 de Setembro de 1927, foi registado no Serviço Provincial da Educação de Cantão, que lhe deu a sua aprovação. Nesse ano deram-se distúrbios políticos nessa cidade e Miss Liu transferiu a sua escola para Macau em 1928, para um prédio da Estrada da Vitória. Miss Liu tratou de construir ali um novo edifício para a educação da juventude de ambos os sexos. O Governo Português cedeu gratuitamente o terreno e ela promoveu uma subscrição na China e no Estrangeiro, sobretudo Estados Unidos, conseguindo inaugurar o novo edifício em 1935. (...)"
Uma emissão filatélica alusiva ao 100º aniversário - design de Tiago Lei - foi disponibilizada no início deste mês pelos Correios de Macau:
"O conjunto de quatro selos desta emissão apresenta a imagem de São João Bosco ao lado do lema do colégio (do latim In Virtute Scientia); o antigo portão da escola; as instalações escolares Edifício Versiglia e Complexo Jubileu; e o Edifício Dom Bosco." 

sábado, 4 de outubro de 2025

Um "Avizo" em esperanto

Escrito em esperanto* este anúncio foi publicado no jornal O Liberal a 12 de Novembro de 1922 por George H. Rainer.
AVISO
AULA PRÁTICA DE LÍNGUA INGLESA
Desejo formar uma turma para ensinar a Língua Inglesa, somente para senhores, reunindo-se quatro vezes por semana, pelo preço de dez patacas e notas por mês.
Usarei um método incomum, sem tradução e dando conversas e exercícios de memorização.
George H. Rainer
Pátio da Penha, Macau.
Diretor da Escola Comercial “Pedro Nolasco”.

Ou havia uma comunidade de falantes de esperanto em Macau na época ou esta solução visava centrar as atenções no anúncio. George Haworth Rainer vivia no Páteo da Penha e para além de professor de inglês e director da Escola Comercial foi também secretário da APIM e colaborador na imprensa da época. Das poucas informações que disponho posso adiantar que no final década de 1930 ainda vivia em Macau e continuava a ser professor.

* O esperanto é uma língua internacional artificial criada em 1887 por Lázaro Luís Zamenhof (polaco), com o objetivo de facilitar a comunicação entre pessoas de diferentes nacionalidades, sem favorecer uma língua nacional em particular. A gramática e vocabulário são baseados em línguas europeias (principalmente latinas, mas com influências germânicas e eslavas). Actualmente há uma comunidade global de falantes estimados entre 100 mil e 2 milhões.

sábado, 23 de agosto de 2025

Estudantes do Colégio de Santa Rosa de Lima: 1908

 

Estudantes do Colégio de Santa Rosa de Lima em 1908. 
Entre os fotografados está a filha de Manuel da Silva Mendes, cuja família cedeu a fotografia.


domingo, 20 de julho de 2025

Primórdios do "Campo de Jogos Escolar"

Assinado por Fernando de Lara Reis, "Professor do Lycey Central" - era a classificaão do Liceu de Macau na época - este "Projecto dum Campo de Jogos Escolar" data de Novembro de 1922.

A Caixa Escolar de Macau foi criada em 1919 por iniciativa de Fernando de Lara Reis, professor do Liceu Nacional Infante D. Henrique. Tinha por objectivo para dar apoio aos alunos mais carenciados das escolas do território. Seria extinta apenas em 1973.

Em Novembro de 1922, Fernando de Lara Reis, professor da Escola Li Xiao de Macau, propôs que, para proporcionar um local adequado para todos os alunos de Macau praticarem desporto, sugeriu que o campo de jogos do Tap Seac (Campo de Tap Seac) fosse planeado como um campo desportivo padrão (Campo de Deportivo), com um campo de futebol e três campos de ténis, bem como um campo de croquet e uma pista de gelo, com uma área total de cerca de 10.000 metros quadrados, e foi planeada a planta do campo desportivo. 

No início de 1923, a Sociedade de Ajuda de Macau recebeu 3.100 quilos de cimento doados pela Fábrica de Cimento da ilha Verde de Macau para construir o campo desportivo do Tap Seac, que foi concluído e posto em uso nesse ano. A 25 de Março de 1925 o Governo de Macau concedeu o terreno do Campo Desportivo do Tap Seac à Sociedade de Ajuda de Macau (Caixa Escolar de Macau) para livre administração e nomeou-o Estádio da Sociedade de Ajuda (Campo de Caixa Escolar). Com o processo de urbanização da Península de Macau, o estádio localizado no centro da península começou a ser convertido em praça da cidade em Maio de 2005, para uso dos cidadãos e turistas.

Durante as obras

Antes das obras

Depois das obras





 O edifício da Caixa Escolar de Macau - projecto do condutor de Obras Públicas Gastão Borges - foi inaugurado a 20.12.1925

1922年11月澳門利宵學校老師李愛禮(Fernando de Lara Reis)提出為了提供適當的場地予全澳學生進行體育運動,因此建議將塔石操場(Campo de Tap Seac)規劃成符合標準的運動場(Campo de Desportos),規劃中有一個足球場和三個網球場,還有一個槌球場和一個溜冰場,土地總面積約1萬平方米,並規劃了該運動場的平面圖。1923年初澳門助學會獲得澳門青洲水泥廠捐贈3,100公斤水泥以建造塔石的運動場,該運動場於當年建成使用。1925年3月澳門政府將塔石運動場的土地免費批予澳門助學會(Caixa Escolar de Macau)管理,並命名為助學會球場(Campo da Caixa Escolar)。隨著澳門半島的城市化進程,位于半島中心的球場於2005年5月開始改建為城市廣場供市民和遊客使用。

quarta-feira, 14 de maio de 2025

"Collegio de Santa Rosa de Lima": Estatutos de 1875

Os estatutos e regulamento para o Collegio de Santa Rosa de Lima como casa de educação para o sexo feminino (meninas orfãs), foram publicados em 1875 pelo governador José Maria Lobo d´Ávila - portaria nº 23 de 18.2.1875 publicada a 20.2.1875 - após a extinção do mosteiro de Santa Clara. Faz agora 150 anos...
O "Recolhimento de Santa Rosa de Lima" estava anexado ao Mosteiro de Santa Clara desde 1856. Fundado em 1633 o convento foi encerrado em 1835. Ficava no mesmo local onde está actualmente o colégio de Santa Rosa de Lima, embora ocupando uma área muito maior. Na década de 1920/30, com os aterros a rua que dá acesso ao local foi denominada rua de Santa Clara.

As "disciplinas e trabalhos" incluíam "leitura, escripta, quatro operações arithméticas em números inteiros e fraccionários, catcismo e doutrina christã, grammatica portugueza e exercicíos de redacção, rudimentos de história de Portugal, noções geraes de geographia e chorographia de Portugal e suas possessões, arithmética elementar e systema legal de pesos e medidas, desenho linear  aplicado à vida comum, educação physica e preceitos hygiénicos, línguas franceza e ingleza, música de canto e piano, lavores próprios do sexo feminino, preceitos de economia doméstica".
O ensino ministrado nesse colégio era o elementar, ou instrução secundária que compreendia: línguas portuguesa, francesa e inglesa; história sagrada; desenho; música de canto e piano; educação física; higiene e economia doméstica.
Tinha uma regente, 4 mestras, 1 capelão, 6 serventes, 1 sacristão, 1 jardineiro, 1 secretário, 1 facultativo e duas perfeitas.
Década 1950 versus década 2010
Desde 1889 o Colégio era gerido pelas Filhas Canossianas da Caridade. A partir de 1903 ficou sob a direcção das Franciscanas Missionárias de Maria.
De uma publicação em chinês de 1963
No ano lectivo de 1955/1956 estavam inscritas 929 alunas: secção portuguesa com 220; secção chinesa com 355 e secção inglesa com 354. Havia ainda uma escola gratuita primária para meninas pobres chinesas num total de 158.
Curiosidade: o ano lectivo 1992-1993 foi o último ano do ensino em português no colégio.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

"Escola Pública de primeiras letras no Collégio de S. Jozé"

São raros os momentos em que os bens mais preciosos são oferecidos, principalmente a quem deles mais necessita. Por entre todas as riquezas que mais ambicionamos talvez encontremos a arte de ler e escrever.
Consta que, no início do século XIX, o Colégio de S. José, em Macau, tinha falta de mestres, estando assim impedido de cumprir uma das suas mais nobres missões. Ao mesmo tempo, na mesma época, do outro lado do mundo, alguém criava um novo método de ensino, sem professores, e a pensar em todas as crianças que poucos meios possuíam para além dos que garantiam a sua mínima subsistência, fazendo da escola uma miragem.
Joseph Lancaster, na longínqua Bretanha, lançava as sementes de um novo método de ensino que germinava em diferentes terras espalhadas pelo mundo, incluindo a pequena península de Macau.
O Colégio de S. José fez publicar um breve aviso nas últimas linhas, da última página, do jornal de 30 de maio de 1823. Era quase uma breve nota de rodapé que A Abelha da China transportava pela Cidade, um jornal que poucos saberiam ler e muitos, quando o miravam, apenas vislumbravam linhas indecifráveis e colunas que se confundiam com manchas negras sem significado. Eram as últimas linhas de um conjunto de notícias sobre Macau, dirigidas aos que, também no último degrau, aguardavam a oportunidade, quiçá única, de serem os primeiros.
Com este aviso, o Colégio anunciava mais uma tentativa para cumprir a sua missão de ensinar e Joseph Lancaster oferecia o caminho que haveria de ser seguido. No dia 2 de junho, daquele ano de 1823, Macau iria conhecer uma segunda-feira diferente, por certo mais iluminada. Avisavam-se os habitantes da Cidade que iria abrir uma Escola Publica de primeiras letras, recorrendo ao methodo de Ensino Mutuo: um professor ensinava um conjunto de alunos que, por sua vez, levavam a lição a outros alunos, dando origem a uma aprendizagem em cadeia, que procurava chegar a um número, sempre crescente, de crianças.
A escola era aberta a todos os meninos da Cidade, e sem nada contribuir para o Professor, porque o Governo disso se encarregaria. Excecionalmente, cada aluno apenas tinha de contribuir com uma simples pataca no início de cada trimestre, a começar no mês de julho, para suportar as despesas como cartas, papel, &a.. Mas, porque esta simples pataca significava riqueza para muitos, esta exceção tinha, também ela, uma outra exceção: Dos meninos pobres nada se exigirá.
Seguindo os ventos que sopravam do ocidente, aportava a Macau o ensino das primeiras letras, que iria agora chegar a todas as crianças da Cidade. Era o momento que lhes iria oferecer a possibilidade de lerem a sua terra, interpretarem a sua vida e escreverem a sua página no livro do mundo, daquele mundo que as aguardava num futuro próximo.
Texto de Alfredo Gomes Dias publicado na Newsletter de Maio de 2025 da Fundação Jorge Álvares.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Centenário do nascimento de Graciete Batalha

A 30 de Janeiro último assinalou-se o centenário do nascimento de Graciete Batalha. No blog podem ser consultadas várias publicações - usar campo de pesquisa. 
Aqui fica um resumo da vida e obra da professora nascida em Leiria num artigo do Dicionário Temático de Macau, Volume I, Universidade de Macau, 2010, p.172. e sobre a qual, em 1992, aquando da morte, monsenhor Manuel Teixeira, na coluna "Grãozinhos de Bom Senso" que publicava na Tribuna de Macau escreveu: "esta terra perdeu alguém que amava Macau, conhecia Macau, vivia para Macau, trabalhava por Macau e honrou Macau".
"Língua de Macau", INM, 1974

Graciete Agostinho Nogueira Batalha nasceu em Leiria, em 30 de Janeiro de 1925. Concluiu, em 1949, o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O facto de, em 1949, ter casado com José Marcos Batalha, natural de Macau, determinou que a sua actividade profissional se desenvolvesse em Macau, inicialmente, na Escola Primária Oficial. De 1958 a 1959, foi leitora Honorária de Português, no Department of Modern Languages, da Universidade de Hong Kong, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesas. A partir de 1962, trabalhou como professora no Liceu Nacional Infante D. Henrique, em Macau. Exerceu ainda a função de Directora da Escola do Magistério Primário. Para além da actividade docente, colaborou em diversos periódicos de Macau, jornais e revistas, sobre temas de literatura portuguesa, educação e ensino do Português. Toda a sua actividade, principalmente a actividade docente, aparece reflectida no seu livro de memórias Bom Dia S’tôra (1991), pelo qual lhe foi concedido o prémio IPOR (Instituto Português do Oriente). 
 O português falado e escrito pelos chineses de Macau. ICM, 1995

Foi sobretudo ao dialecto macaense que dedicou a maior parte da sua investigação, exposta em conferências, comunicações e em diversos artigos publicados: “Aspectos da sintaxe macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “Aspectos do vocabulário macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “A contribuição malaia para o dialecto macaense” (Boletim do Instituto Luís de Camões, 1965); “Língua de Macau: o que foi e o que é” (Revista de Cultura, 1994); “Situação e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Ásia Oriental (Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia)”, (Actas – Congresso sobre a Situação Actual da Língua Portuguesa no Mundo [Lisboa, 1985-1987]); “Estudo actual do dialecto macaense” (Revista Portuguesa de Filologia, 1958). No Glossário do Dialecto Macaense: notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) e no Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense: novas notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) reuniu a herança linguística dos portugueses de Macau. 
No Glossário, Batalha inclui os termos macaenses “de criação ou importação recente, as palavras antigas, mas ainda usuais, as que se ouvem apenas a determinada geração, a mais idosa, e finalmente as que nem mesmo os mais velhos já empregam, que por vezes inteiramente desconhecem, ou de que só se recordam, nem sempre com exactidão, por as terem ouvido aos seus avós”. 
Para a recolha de termos antigos, Batalha valeu-se dos textos em crioulo, nomeadamente de Marques Pereira, publicados na revista Ta Ssi-yan Kuo (Daxiyangguo 大西洋國) e de Danilo Barreiros, publicados na revista Renascimento, e ainda de conversas ocasionais com pessoas idosas, e através de inquéritos. O Glossário evidencia os termos usados no crioulo macaense, os termos arcaicos da língua portuguesa, a influência malaia, indiana, japonesa, a influência chinesa e inglesa mais recentes, e que estão presentes no falar macaense.
Nota: imagens não incluídas na obra referida

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Uma "Escola Cultural" em 1941

Maria Gomes assina este anúncio como directora da "Escola Cultural" publicado ao longo da várias edições de 1941 do jornal A Voz de Macau. A referida escola funcionava no número 6 da Rua do Campo com os seguintes cursos: Corte e Costura, Culinária Industrial, Culinária Doméstica, Fabrico de Cosméticos, Dança clássica, Instrumentos de Corda e Teoria da Música, Desenho e Pintura a Óleo. Cada curso custava duas patacas por mês.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Orfanato/Instituto Helen Liang

O edifício foi concebido por Manuel Vicente entre 1963 e 1964 como um convento construído à volta de um pátio quadrado que resulta do limite espacial definido pelas ruas envolventes. O espaço interior é assim recuperado, com as árvores promovendo uma atmosfera de recolhimento e claustro.
A capela ergue‐se como um volume exemplar, cúbico, localizado no gaveto mais significativo do terreno, assumindo‐se nessa expressão que atinge o mundo público e urbano. Para além disso, a descoberta da singularidade e do sentido misterioso de Macau parece tomar forma no modo como Manuel Vicente manipula a entrada de luz através de dispositivos que deixam passar a luz e a sombra. Um sistema de brise‐soleils exteriores constitui o filtro dos longos e esguios vãos que se abrem ritmadamente na fachada para buscar a luz do dia.
Texto de Ana Tostões, arquitecta.
Nota: Actualmente o edifício - na Rua do Chunambeiro - funciona como Creche diocesana Helen Liang.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Pequenos Cantores de D. Bosco: 1962

 

Audição de Música pelos Pequenos Cantores (Grupo Coral do Colégio D. Bosco) no ginásio do Liceu em Maio de 1962. Era regente o padre César Brianza.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Escola de "primeiras letras"

Em 1841 um total de 13 estudantes frequentavam a "Real Aula das Primeiras Letras" cujo "mestre" era Joaquim Gil da Costa Pereira.
Estavam divididos em três classes e aprendiam Grammatica Portugueza, Arithmetica, Latim, Doutrina Christã/Cathecismo, escrita, leitura e contas.
Na época não havia ensino oficial (surgiu no últimos quartel do século 19) e, para além da educação dada nas instituições religiosas - no Seminário de S. José havia por exemplo a Aula Nacional de Gramática Portuguesa e Latina - havia os professores privados. Veja-se este anúncio de 1846:
"O abaixo assignado anuncia ao Público, que elle vai pôr huma aula de primeiras letras como ler, escrever, e contar, na feitoria que foi do deffuncto Francisco António Pereira Thovar, e terá princípio em 1º do mês vindouro; qualquer Sr. que queira utilizar-se do pequeno préstimo do ditto abaixo asignado, pode dirigir-se a elle, ou mandar os seus pequenos com seu bilhete; a aula de manhã principiará às 8,30 horas e acabará às 11 e meia, de tarde às 3 athé 5 e meia; pelo seu trabalho hé uma pataca por mês, ou conforme a possibilidade da pessoa. Macau, 25 de Fevereiro de 1846. Francisco X. H. Rebello Freire".

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

A "Nova Escola Macaense"

Em 1861 Alexandrino António de Melo (1809-1877), Barão do Cercal projectou fundar uma escola para o ensino das línguas "portugueza" e "ingleza" - como se escrevia na época - para o sexo masculino. A escola ficaria sob direcção do fundador coadjuvado por uma "commissão consultiva" composta de pessoas da sua escolha.
Para este fim o Barão do Cercal dirigiu a varias pessoas uma circular (15.2.1861) convidando-as a subscrever com donativos para a concretização do projecto e obteve do governador  de Macau autorização para fazer anualmente uma ou mais loterias isentas do pagamento de imposto de selo e cujo capital total não excedesse 12 000 patacas.
O Governo de Macau contribuiu para o fundo com dois contos de reis. A loteria começou a ser vendida em 1861. 
Em Macau os "subscriptores da eschola" - mais de uma centena - reuniram cerca de 18  mil patacas. Os maiores contribuidores foram o próprio Barão do Cercal com duas mil patacas, James B. Endicott* com 1.700 patacas e João Joaquim dos Remedios com mil patacas. Estavam reunidas as condições para contratar os professores, dois em Portugal e um em Inglaterra, segundo Leoncio A. Ferreira: "Inaugurou-se esta escola com o nome de Nova Escola Macaense em 5 de janeiro de 1862". Ficava na Rua Central sendo António Marques Pereira o secretário da Comissão Directora da Escola. No dia da inauguração o barão ofereceu um almoço e depois tocou a banda do Batalhão de Linha, segundo informa o Boletim do Governo na edição de 11 de Janeiro de 1862 (imagem abaixo). A escola seria encerrada em 1867.
Na edição de 15.6.1862 o jornal Echo do Povo dava notícia da "inauguração de duas novas escolas". A Nova Escola Macaense e o Colégio de S. José (após reorganização):
"O anno de 1862 será sempre lembrado nos fastos da historia macaense como uma epocha de feliz recordação para a nossa cara patria. A inauguração de duas novas escolas a que tivemos a satisfação de assistir n'este anno vae naturalmente crear uma nova éra para Macáo, éra de renascimento da educação para a juventude macaense depois de tantos annos de um total olvido d'esta necessidade vital da nossa patria.
O interessante espectaculo que presenceamos hontem no local do collegio de S José de tantos pais de familia abdicando uma parte importante do poder paternal a favor dos dignos padres do seminario ainda pouco conhecidos mostra claramente a necessidade de haver em Macão um estabelecimento como o que acaba de crear-se que receba alumnos internos e deve ser ao mesmo tempo um espectaculo bem consolador para as almas generosas que teem contribuido já com dinheiro já com sua influencia já com seus escriptos para promover a educação da juventude macaense n'estes ultimos tempos.
Se as nossas esperanças teem sido em parte frustradas, se o resultado não tem correspondido cabalmente ao que se podia e devia esperar da creação da Nova Escola Macaense que tinha começado debaixo de tão bons auspicios por eventualidade não dependente da vontade dos promotores d'ella ao menos a creação d'aquella escola tem trazido a nossa patria varios uteis resultados sendo o primeiro e o mais importante certamente o de ter concorrido poderosamente por diversas circumstancias a activar a remessa dos mestres para o collegio de S José que o governo tinha feito esperar por tantos annos promessa que nunca acabava de cumprir e de que tinhamos perdido as esperanças.
Tendo a final visto que uns particulares cá n'este canto do mundo por uma subscripção particular puderam mandar vir mestres de Portugal e Inglaterra não podia já o governo deixar de tratar seriamente de cumprir uma promessa tantas vezes e tão solemnemente feita da remessa de mestres para o seminario diocesano que estava inaugurado sim já ha alguns annos mas que não era mais que um simulacro pela inteira falta do pessoal aquella empreza motivou tambem que os mesmos homens que mais opposição fizeram á creação da Nova Escola Macaense servissem d'esta vez muito bem por aquella mesma rivalidade aos interesses do paiz porque vendo que ia avante o projecto da escola apezar de tanta opposição e não tendo elles querido contribuir para aquella escola concorreram tambem para levar a effeito o estabelecimento de um collegio recebendo alumnos internos como era o desejo geral mas que já ninguem se atrevia a esperar depois de tantos annos de uma esperança sempre frustrada.
Outro bom resultado que Macáo obteve com a creação da Nova Escola Macaense foi o de ter mandado vir um bom mestre da lingua ingleza que é ao mesmo tempo da religião catholica e natural de Londres para poder ensinar com perfeição e verdadeira pronuncia a lingua ingleza. Uma circumstancia que deve ser de um resultado immenso é a escola particular que os mestres da Nova Escola Macaense dão ás meninas tanto da lingua ingleza como da portugueza e franceza pois, por uma carencia absoluta de mestras tem-se achado necessario empregar mestres para ensino de meninas. Além d'isto, quanto mais meios de instrucção houver tanto mais utilidade é para o paiz.
Fazemos sinceros votos pela prosperidade do novo estabelecimento d'ensino como tambem pela conservação da Nova Escola Macaense temos já bastantes motivos para ficarmos bem satisfeitos dos nossos esforços á vista dos bons resultados que temos obtido esperando agora que o tempo venha realisar os nossos ardentes desejos no melhoramento da educação moral e intellectual da nossa cara patria. Macáo 9 de junho de 1862" 

* James Bridges Endicott

Publicado no "Boletim do Governo de Macao" a 8 de Junho de 1863:

Ministério da Marinha e Ultramar
Tendo o Barão do Cercal projectado fundar em Macao um Estabelecimento de Instrucção Primaria e Secundaria e requerendo que para auxiliar a sustentação do mesmo Estabelecimento fosse confirmada a concessão já feita pelo Governador de Macao de uma Loteria annual cujo capital não deverá exceder as doze mil patacas e que igualmente se lhe desse um subsidio annual de 1,500 000 reis
S. Magestade El Rei Dezejando auxiliar todos os estabelecimentos de utilidade publica e particularmente os de instrucção e educação e Tendo em consideração o disposto nas leis a este respeito e especialmente no Decreto de 14 de Agosto de 1845
Ha por bem conformando-se com o parecer do Conselho Ultramarino Determinar o seguinte
1º É confirmada a concessão feita ao Barão do Cercal para fazer annualmente uma ou mais loteria em beneficio da Escolla por elle fundada em Macao com tanto que o capital total em cada anno não exceda a doze mil patacas
2º Em quanto durar a mesma concessão se dará no mencionado estabelecimento ensino gratuito aos que appresentarem attestado legaes de pobreza
3º Esta concessão cessará logo que seja reorganisada a Instrucção publica em Macao
O que pela Secretaria de Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar se participa para os convenientes effeitos ao mencionado Governador o qual deverá estar na intelligencia de que a escolla de que se trata deve ser inspeccionada e superintendida pela Authoridade publica na conformidade das leis bem como que S Magestade Houve por bem indeferir a pertenção da concessão de um subsidio annual prestado pela Fazenda Publica
Paço em 27 de Fevereiro de 1862 José da Silva Mendes Leal

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Exames de Admissão aos Liceus: 1940

O edital é de Maio de 1940. Os exames realizaram-se em Junho no Liceu Nacional Infante D. Henrique e incluíam provas de Desenho, Aritmética, Geometria, Geografia, História, Língua Portuguesa. Aplicavam-se aos que depois de terminar o ensino primário pretendiam prosseguir os estudos.
 
clicar na imagem para ver em tamanho maior

quinta-feira, 9 de março de 2023

"Sto. Nome de Deus de Macau"

"Macau Terra de Lendas", da autoria de Hermengarda Marques Pintos, foi editado em 1955 pela Companhia Nacional de Educação de Adultos. Fazia parte do Plano de Educação Popular (contra o analfabetismo).
Inclui este 'mapa' com o título "Santo Nome de Deus de Macau"

Para além do Brasão (esquerda) e de uma caravela portuguesa, assinalam-se as ilhas da Taipa e Coloane e a península de Macau (Porta do Cerco, Pagode da Barra e Farol da Guia). Noutra cor, as ilhas da Lapa, D. João e Montanha, nesta altura já sob domínio da China.

quarta-feira, 1 de março de 2023

João Pereira Vasco, Pessanha e Moraes

No dia em que se assinalam 97 anos sobre a morte de Camilo Pessanha (1827-1926), recordo o seu amigo João Pereira Vasco, que também fez parte do primeiro corpo docente do Liceu de Macau inaugurado em 1894 juntamente com nomes como Horácio Poiares, Mateus de Lima, Wenceslau de Moraes. 
Pereira Vasco, chegou a partilhar casa com Pessanha, era professor de Geografia e História, a 7ª cadeira do curso do Liceu. Desembarcou em Macau a 12 de Maio de 1894, tendo com ele viajado, de regresso da metrópole, João Nolasco da Silva, filho de Pedro Nolasco da Silva e Carlos Cabral, filho de João Albino Ribeiro Cabral.
Pereira Vasco e Camilo Pessanha em duas fotos tiradas por Man Fook ca. 1899
Em 1895 João Pereira Vasco é exonerado do cargo de professor do Liceu. Em 1900, na véspera de partir para Portugal, Pessanha dedica-lhe o poema "A Boémia não Morreu". Na obra Paisagens da China e do Japão Wenceslau de Moraes escreve: "Nos baldões da vida boémia, na confusa sucessão dos dias e das cenas, acontece que os factos, as coisas, os indivíduos, invocados pela pobre memória exausta, vão perdendo pouco a pouco as suas qualidades intensivas, as suas cores, os seus contornos, a sua feição própria, emancipando-se do real, como uma página de aguarela desmerece, solta e perdida no espaço e voando com as brisas; diluindo-se por fim n’uma emoção genérica, vaga, indefinível, – a saudade. – A essas duas grandes saudades, Camilo Pessanha e João Vasco, dedico hoje este livro."
Pereira Vasco colaborou ainda nos jornais "Único", "O Lusitano" e "Eco Macaense".

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O ensino da "língua sínica" no início do séc. XX

Escola Comercial Pedro Nolasco fundada em 1878
O mesmo edifício no século 21
Em 1906, uma comissão composta por Manuel da Silva Mendes, Pedro Nolasco da Silva, Carlos Augusto d’Assumpção, José Vicente Jorge e o Pe. António José Roliz foi nomeada pelo governador Martinho Montenegro, por portaria provincial n° 57 de 24 de Outubro, "para estudar e fazer um projecto de organização do ensino da língua sínica nesta cidade".
Depois de ponderadas e discutidas todas as questões relacionadas com o ensino/aprendizagem do chinês, a comissão apresentou em Novembro do mesmo ano um relatório final acompanhado de uma proposta de programa de ensino, documentos aprovados pela Portaria n°30 de 22 de Março de 1907.
Esse programa previa um Curso de Língua Chinesa dividido em três períodos, ao longo de sete anos, desde a Escola Primária ao público adulto do Expediente Sínico. O primeiro período, para os alunos da Escola Central, tinha 2 anos; o segundo período, para os alunos do 1°ciclo da instrução secundária, abrangia 3 anos e um terceiro período, para os alunos do Curso Comercial, tinha a duração de 2 anos.
O programa tinha como objectivos: "ministrar um conhecimento elementar da lingua sinica, escripta e fallada, quanto sufficiente para uso commum da vida, inclusivé o do commercio" e "servir de base para ulteriores estudos da literatura classica chineza áquelles que pretenderem levar longe o conhecimento d’essa lingua". 

Sendo a maioria da população de Macau de origem chinesa, a administração do território obrigava a especiais preocupações, nomeadamente o nível da língua e da justiça. É neste contexto que logo no século 17 foi criada a Procuratura dos Negócios Sínicos. Nela trabalharam portugueses, macaenses e chineses que ao longo dos séculos permitiram o entendimento entre portugueses e chineses. 
Eis, a título de curiosidade, alguns exemplos de personalidades que se destacaram neste domínio:
- A bordo da primeira nau portuguesa que chegou a Tanegashima (Japão) ia um intérprete chinês: "Quando a primeira nau portuguesa chegou a Tanegashima, diz-se que um chinês chamado Goshô servia de intérprete".
Fonte: Portugal e o Japão, Tokyo, Kokusai Bunka Shinkokai, 1940.
- Matteo Ricci, S. J.(1552-1610), jesuíta italiano, foi co-autor do primeiro dicionário português-chinês. Chegou a Macau em 7 de Agosto de 1582, permanecendo na China a trabalhar, entre os mandarins e os letrados, até à morte em 1610. Ficou também conhecido pela iniciação, na Europa, dos estudos chineses que vieram a ser conhecidos por Sinologia. Começou por traduzir de Chinês para Latim.
- Michele Ruggieri (1543-1607) jesuíta italiano, foi o primeiro a chegar a Macau, em 20 de Julho de 1579, para aprender Mandarim.
- O missionário Robert Morrison foi o primeiro tradutor da Bíblia para chinês. Viveu em Macau na década de vinte do séc. XIX.
- António Feliciano Marques Pereira foi Superintendente da Emigração Chinesa e Procurador dos Negócios Sínicos em Macau e Secretário da Legação Portuguesa junto à Corte de Pequim. Foi ainda autor da "Relação acerca das attribuições da Procuratura dos Negocios Sinicos da Cidade de Macau" (1867), e das "Ephemerides Commemorativas da História de Macau e das Relações da China com os Povos Christãos" (1868).
- Camilo Pessanha, poeta do Simbolismo português, foi para Macau em 1894 como professor do Liceu, tendo iniciado, de imediato, o estudo da língua e cultura chinesas. Traduziu para português três cartas, dois ensaios em prosa e oito elegias, (apesar de só conhecer 3500 caracteres) com a ajuda do seu amigo José Vicente Jorge, com quem traduziu ainda "Kuok Man Kan Fo Shú Leituras Chinesas". Numa carta dirigida a Carlos Amaro, datada de 1912, Pessanha refere que "Desde que deixei a Vara de Juíz, é decorar letras chinas. Bem desejaria publicar um dia meia dúzia de pequenas traduções, mas a empresa, a ser a coisa como eu a tenho esboçado, é cheia de dificuldades."
- Manuel da Silva Mendes (1867-1931), contemporâneo de Pessanha e também professor do liceu, destacou-se como advogado e ainda como estudioso da cultura chinesa, nomeadamente da filosofia, religião e arte. A ele devem-se os primeiros estudos sobre o taoismo em português.
 José Vicente Jorge
José Vicente Jorge (sentado na imagem de grupo acima). Nasceu em 1872. Foi Chefe da Repartição do Expediente Sínico, vice-cônsul e intérprete-tradutor no Consulado de Xangai, secretário intérprete-tradutor da legação portuguesa em Pequim, no tempo do império e escolhido para secretariar o diplomata que representou Portugal nos funerais do Imperador Guang Xu em 1909. Foi tradutor e anotador do San-Tok-Pun, método adoptado para o ensino de chinês em escolas de Macau e autor de Novo Methodo de Leitura (1907). Foi ainda Professor de Língua Sínica no Instituto Comercial e fez parte da Comissão encarregada de estudar e de elaborar os programas para o ensino da "lingua sinica ministrado na Escola Central do sexo masculino e Instituto Commercial annexo ao Lyceu Nacional", era, então, sub-chefe da Repartição do Expediente Sinico. Pessanha chamava-o de "o meu mestre".