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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A 'febre' das bicicletas no início do século 20

Data de 1899 a criação da primeira empresa dedicada à construção, venda e conserto de bicicletas e riquexós. Denominada Macao Cycle Depôt, pertencia a L. A. da Silva e estava localizada nos números 97 e 99 da Praia Grande.
No início do século 20 era Carlos Ayres o proprietário da empresa que importava marcas como a "Raleight" de Inglaterra . O entusiasmo pela nova modalidade de passeio foi tal na sociedade macaense que nessa altura já existiam cerca de uma dezena de estabelecimentos onde era possível alugar bicicletas.
Num anúncio da empresa em 1910 podia ler-se:
MACAO CYCLE DEPOT
Esta conhecida e antiga loja de bicycletas acaba de receber de Londres uma remessa de bicycletas para homens e senhoras e de varios outros accessorios, taes como: cornetas acusticas, lanternas, travões, gomma, tinta, rodas, borracha interna e externa, presilhas para calças, etc. etc. Vão ser postas á disposição do respeitavel publico para aluguel muitas bicycletas novas. Pede-se aos amantes do sport de bicycletas uma visita a este estabelecimento onde se encontram á venda todos os accessorios de bicycletas e machinas completas por preços convidativos.
Macau, 28 de março de 1910.
Carlos Ayres.
Num relatório da polícia local de 1920 descreve-se o número de bicicletas como um "formigueiro perigoso" registando-se inúmeros acidentes, nomeadamente com peões e os primeiros carros que circulavam na cidade.
Perante este cenário de caos, o Leal Senado viria a criar três espaços (com diferentes horários) para se aprender a andar de bicicleta: no Campo de Mong-Há, na Avenida da República (desde o Tanque dos Mainatos até à Fortaleza da Barra) e na Avenida Vasco da Gama.
Ao mesmo tempo no Código de Posturas da cidade os agentes de autoridade tinham responsabilidade de fiscalizar com mais afinco a circulação de bicicletas e aplicar multas. Bicicleta sem campainha dava lugar a uma coima de duas patacas. A falta de lanterna custava uma pataca de multa.

domingo, 9 de agosto de 2026

Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro / 盧伯德圓形地

A Rotunda Tenente P. J. da Silva Loureiro fica junto à Fortaleza da Taipa e não é por acaso...
盧伯德圓形地
盧伯德: Transliteração fonética de Loureiro
圓形地: significa terreno circular/rotunda


Filho de José da Silva de Loureiro (1745-1820) e de Genoveva Flora Joaquina da Cunha (1753-1833) ambos nascidos e falecidos em Ponta Delgada, Pedro José da Silva Loureiro nasceu em Ponta Delgada (Açores) a 29 de Junho de 1792.
Chegou pela primeira vez a Macau, como guarda marinha, acabando por fazer quase toda a sua carreira militar no Oriente. Em 1824 foi promovido a 2.º tenente da Armada e a 1.º tenente em 1853, sendo reformado em capitão de fragata da Armada de Goa.
Foi durante alguns anos capitão do porto de Macau sendo encarregado pelo Governador Ferreira do Amaral de construir o Forte da Taipa, facto que marcou a ocupação definitiva daquela ilha. Foi também comerciante, sendo eleito almotacé da Câmara em 1827. Casou em Macau (S. Lourenço) a 12-04-1826 com Ana Rosa Inocência do Espírito Santo Pereira de Almeida. Tiveram 16 filhos. Quatro deles, Luís, Pedro, Francisco e Eduardo frequentaram o Seminário de S. José em 1840.
Morreu a 16 de Setembro de 1855 de "uma apoplexia fulminante". Era 1.º tenente da armada. Foi sepultado no Cemitério de S. Miguel.
Notícia no Boletim da Província de Macau, Timor e Solor a 22 de Setembro de 1855:
Necrologia.
No dia 16 do corrente ás 5 horas da manhã falleceu o 1o. Tenente da Armada Pedro José da Silva Loureiro, Capitão do Porto de Macau. Uma apoplexia fulminante o roubou a este mundo, e cobrio em um instante de pesado luto a sua extremosa e inconsolavel familia.
Era um portuguez estabelecido ha muitos annos em Macau onde o prendeu o amor, que sempre consagrou a sua carinhosa e triste esposa.
Excellente pai, empregou todos os meios ao seu alcance para educação de seus filhos, objecto de seus disvellos e do seu orgulho, e morreu aos 63 annos de idade, legando-lhes essa riquesa que nenhuma das vicissitudes do mundo pode jamais tirar.
Numeroso concurso de pessoas entre os quaes se viam as mais notaveis da Provincia, tanto nacionaes como estrangeiras, acompanharam o enterro ao cemiterio de S. Miguel, e uma guarda do Batalhão de Artilheria com a banda de musica do mesmo corpo, e commandada por um official de patente igual á do fallecido, lhe fez as honras funebras do estilo.
Foi sepultado as 6 horas da tarde.
Deos lhe conserve a alma em sua santa gloria, e seu corpo descance em paz.
Na edição de 6 de Outubro desse ano na mesma publicação a família publica:
D. ANNA ROSA LOUREIRO e suas filhas e filho agradecem a todas as pessoas, a quem o não tenham feito mais particularmente, a bondade, que tiveram, de assistir no funeral de seu muito presado esposo e pai Pedro José da Silva Loureiro, e esperam que esta falta de lembrança se considere unicamente devida ao estado de afflicção e desgosto em que ficaram por tam triste e inesperado acontecimento.
Macao 6 de Outubro de 1855.
Fortaleza da Taipa no séc. 21

A primeira filha do casal, Genoveva Rosa Joaquina do Espírito Santo Loureiro (1827-?) casou na capela da Residência do Governador com Isidoro Francisco Guimarães (1808-1863), governador de Macau (1851-1863), capitão de mar-e-guerra, do Conselho de S. M. F., e visconde da Praia Grande de Macau.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

"Nova Paderia Nacional" em 1873

Em Outubro de 1873 surgia em Macau uma "Nova Paderia Nacional". O proprietário J. Bernardino publica este anúncio onde informa que "Sob esta denominação o abaixo assignado abre no dia 1 de novembro proximo a sua paderia, para a qual pede uma parte do patrocinio publico. O abaixo assignado, tendo no seu serviço empregados de reconhecida aptidão e experiencia, e empregando a melhor farinha americana na confeição de tudo que sae de seu novo estabelecimento, espera deixar satisfeitos aos que o queiram honrar com a sua freguezia. A Nova Paderia Nacional acha-se estabelecida nas cazas n.ºˢ 15 e 17 sitas na rua d'Albarda, a S. Lourenço."
A referida rua há muito que não existe... A Freguesia de São Lourenço, na zona sul/sudoeste da península era historicamente residencial e comercial, habitada por muitas famílias de matriz portuguesa e burguesia comercial, incluindo comerciantes estrangeiros o que justificaria a abertura de uma padaria de estilo ocidental neste perímetro.
Note-se o uso de "paderia" em vez de "padaria", uma variante comum no português oitocentista. O mesmo se aplica a palavras como "assignado", "confeição" (confecção), "sae" (sai), "cazas" (casas) e o acento agudo em "Macáo".

Anúncio publicado no jornal O Independente

sábado, 1 de agosto de 2026

Um "explendido baile" em 1867

"Começaremos o noticiario d'esta semana registrando o explendido baile offerecido na noite de 22 do corrente mez a S. Exa. o Governador da colonia pelo sr. Maximiano dos Remedios, negociante muito abastado d'esta cidade. A festa foi brilhante, e os salões onde se reunio uma mui selecta e luzida sociedade estiveram radiantes de luz e alegria desde o principio do baile até ao fim. Á ceia que foi servida alta noite, e a que não faltou nem a profusão nem o bom gosto, trocaram-se diversos brindes, mui apropriados ás circumstancias, e que foram devidamente recebidos e correspondidos.
A entrada da casa do sr. Remedios estava illuminada com intencional primor. Via-se ali uma estrella e umas letras que explicavam brilhantemente qual a pessoa em cuja honra a festa era dada. — S. Exa. o Governador da colonia ficou muito penhorado com semelhante obzequio e soube bem fazel-o sentir n'um brinde affectuoso que dirigiu a toda a familia Remedios n'um dos momentos da ceia, quando lhe coube responder áquelle que lhe endereçou um dos Patriarchas da familia. A festa dos srs. Remedios foi tão agradavel como sympathica a todos aquelles que tiveram a fortuna de tomar parte n'ella."
Foto de John Thomson ca. 1870

A notícia foi publicada a 28.10.1867 no Boletim da Província de Macau e Timor. O governador homenageado neste baile era José Maria da Ponte e Horta (1866-1868).
Filho de António dos Remédios e de Rita de Sousa Peres - casaram em 1791 e tiveram 16 filhos* - Maximiano António dos Remédios (1808-1875) foi de facto um rico negociante e proprietário, fazendo parte em 1871 da lista dos 40 maiores contribuintes de Macau. Ou seja, dos que mais impostos pagava devido às propriedades que possuía.
A residência da família Remédios ficava na colina da Penha onde a família Remédios tinha várias chácaras**, incluindo uma denominada S. José (junto a Santa Sancha) e aquela onde viria a 'nascer' o hotel Boa Vista (em 1890). Tudo indica que a que é referida nesta notícia de 1867 era esta última.
No livro de 1867 "Os Chins de Macau" Manuel de Castro Sampaio escreve que "Uma das primeiras povoações fica próxima da fortaleza da Barra e é por isso chamada Povoação da Barra. A outra acha-se na encosta outeiro da Penha, onde está a fortaleza do Bom Parto, e onde se encontram as mais lindas chácaras de Macau. Esta é conhecida pelo nome de Tanque-Mainato, nome derivado de um tanque de lavadeiros ou mainatos, como lhes chamam no paiz. As outras três povoações são denominadas de Patane, de Mong-ha e de S. Lázaro."

** na toponímia local ainda hoje existe na zona a Calçada das Chácaras.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A morte de um agente de emigração chinesa

LEILÃO
POR ordem do ill.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Bernardino de Sena Fernandes, encarregado do consulado de Perú, os abaixo assignados venderão em hasta publica, no dia sexta-feira 3 de fevereiro, ao meio dia, nas casas n.º 53, sita na Praia Grande, toda mobilia do defunto Eᴅᴜᴀʀᴅᴏ M. Dɪ-Nᴇɢʀᴏ, constando de guarnição de sala, sofás, espelhos, piano, magnificas estampas em molduras, candieiros de augmento de pendurar, cadeiras, mesas de marmore, camas, commodas, lavatorios, armarios, mesas de jantar, e varios outros artigos, segundo o catalogo que se publicará.
E TAMBEM, Uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos, &c., &c., &c.
MARQUES & C.ᵃ Macau, 30 de janeiro de 1871.

Eduardo M. Dinegro era cidadão peruano e morreu a 24 de Janeiro de 1871 em Hong Kong. A existência de um consulado do Perú em Macau deve-se ao comércio/tráfico de cules/coolies (trabalhadores chineses contratados, muitas vezes sob condições de quase escravatura) entre 1851 e 1874. O Perú era um dos principais destinos para onde estes trabalhadores eram enviados para trabalhar nas plantações agrícolas e nas minas.
Com a abolição progressiva da escravatura negra no Perú (concluída na década de 1850), a elite proprietária de terras deparou-se com uma grave escassez de mão-de-obra. A importação de trabalhadores chineses sob contratos de servidão surgiu como a alternativa económica para sustentar a agricultura e a exploração mineira.
Macau transformou-se no principal porto de embarque devido às proibições impostas pelos britânicos noutras regiões da costa chinesa. Agentes privados e firmas locais (como a Dinegro & Landabaso) implantaram-se em Macau servindo de intermediários e operando os chamados "barracões", onde os trabalhadores eram reunidos (quando chegavam da China continental), os contratos eram assinados e os embarques eram organizados.

O inventário dos bens a leilão revela que Eduardo M. Di-Negro pertencia à elite abastada de Macau. Tal como a localização da residência, no nº 53 da Praia Grande, a maio da baía semi-circular. Desde o "piano" às "magnificas estampas em molduras" passando pelas "Mesas de marmore", espelhos, "sofás", "candieiros de augmento de pendurar" e, por fim, mas não menos importante, "uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos".
Ter uma carruagem e cavalos na Macau oitocentista era um sinal claro de imensa riqueza. Manter cavalos e carruagem era um sinal de ostentação já que nas estreitas e íngremes ruas da cidade este meio de transporte era altamente desaconselhável sendo usadas habitualmente as chamadas liteiras (ou palanquins), cadeiras de braços compridos à frente e atrás, que eram levadas por homens.

domingo, 5 de julho de 2026

"Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques"

C. J. Caldeira assina um artigo sobre Macau na edição nº8 de 1864 do "Archivo Pittoresco: semanario illustrado" (Portugal). É acompanhado de uma gravura da autoria de João Pedrozo com a legenda "Casa e Cêrca do Sr. Lourenço Marques".
"A estampa representa a casa e cêrca do sr. Lourenço Marques, em Macau, na qual está a celebre gruta de Camões. O mirante que a corôa divisa-se por entre o arvoredo acima da casa que tem frontão triangular, que é a da residencia do proprietario, cercada de jardins, horta e bosque, que a tornam uma das mais pitorescas da cidade, como se póde julgar pelo desenho.
Ao lado direito se vê parte da povoação chineza de Patane, já fóra dos muros da cidade, proxima da porta de Santo Antonio e da egreja e freguezia da mesma invocação, que ficam na parte occulta á esquerda do espectador.
A casa vasta e elegante, que está á esquerda do desenho, pertence e é occupada por irmãos e outros parentes do mesmo sr. Marques, e foi habitação de seu pae. Atraz d'esta divisam-se em grupo os mastros e velas de algumas embarcações chinezas, que costumam fundear proximo á povoação de Patane, ao sopé do monticulo, e que o circunda quasi todo.
O fundo representa o porto interior de Macau, vendo-se sobre a esquerda a ilha da Lapa, antigamente denominada dos Padres, e mais ao longe as alturas da chamada ilha, ou antes peninsula Heang-shan, d'onde corre um canal ou pequeno braço do rio de Cantão, denominado Passagem de Macau, que vem desembocar no dito porto interior. (...)"
A personagem referida é Lourenço Maria Pereira Marques (1852-1911). Um dos 10 filhos do comendador Lourenço Caetano Marques (1811-1902) e Maria Ana Josefa Cortela Pereira (1825-1901) - que era prima - tendo casado a 7 de Agosto de 1838 tendo ela apenas 13 anos.
Esta era filha de Manuel Pereira, o proprietário da referida casa construída ca. de 1770. Casaram em 1838 pouco tempo depois dos ingleses da EIC terem saído de Macau e daquela propriedade que arrendaram entre 1780 e 1838.
Lourenço Pereira Marques, tal como os irmãos, nasceu na propriedade representada na ilustração. Estudou no Seminário de S. José de Macau e depois foi estudar para Lisboa. Fez a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e depois ingressou na Universidade de Dublin graduando-se em 1877 no College of Physicians and Surgeons e em 1881 no Royal College of Physicians". Fez ainda estágios em hospitais em Londres e em Paris antes de regressar a Macau. No final do século 19 estabelece-se em Hong Kong onde chega a dar aulas a Sun Iat Sen...
Dará um contributo decisivo para o que hoje se conhece como gruta de Camões, nomeadamente mandando construir um busto do poeta.
Em 1885 o governo de Macau comprou a propriedade que pouco depois transformou em jardim público, situação que ainda hoje se mantém.
O médico macaense viria a aposentar-se em 1895 em Hong Kong e regressou a Macau passando a a dar consultas médicas gratuitas à população mais carenciada.
Dono de uma erudição invulgar, reuniu uma vasta coleção de arte chinesa. Em 1899, doou cerca de mil objectos etnográficos e históricos à Sociedade de Geografia de Lisboa. Morreu em 1911 com apenas 59 anos na sua casa sita no Largo de Camões (junto à Casa Garden, portanto). Tal como o irmão nunca chegou a casar. Na toponímia macaense existe a Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques (比厘喇馬忌士街)  - no Porto Interior - em sua homenagem.
Dez anos passado sobre a referida ilustração, em 1874, Macau é assolado por um tufão que deixa uma rasto destruição imenso. A fotografia acima - provavelmente da autoria de Lai Afong - documenta os efeitos na igreja de Santo António e num edifício que Caldeira descreve no artigo de 1864. (assinalei a vermelho). Terá sido demolido posteriormente. Quando o governo de Macau compra a propriedade em 1885 e transforma o espaço num jardim público este edifício já não aparece. Corresponde ao actual Largo/Praça de Camões, à entrada do jardim tendo do lado direito o acesso à chamada Casa Garden.
O edifício denominado Casa Garden remonta a ca. de 1770. Em 1794 é abundantemente registado na primeira embaixada de Inglaterra à China. Por essa altura já o edifício e propriedade envolvente tinha sido arrendado à East India Company que ali colocara a morar os mais altos quadros da EIC. Os restantes viviam em também edifícios arrendados na Praia Grande.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Residência campestre dos governadores"

No final do século 19 Bento da França escrevia assim: "Nos arrabaldes da cidade encontram se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas."
A ilustração reproduz uma fotografia do final do século 19 que mostra o Palacete da Flora. Era aqui a "residência campestre", assim referida porque bastante longe do centro da cidade. Comprado pelo governo na década 1870 era habitualmente usada pelos governadores como residência de Verão. Foi construído originalmente em 1848 pelo Padre Vitorino José de Sousa e Almeida e desenhado pelo arquiteto José Tomás de Aquino. Em redor havia uma extensa área de terreno. Tão extensa que o espaço viria a ser usado como um viveiro de árvores e arbustos. Estão aqui as origens do Jardim da Flora, ainda que numa área muito menor que a original.
O palacete foi destruído em Agosto de 1931, juntamente com várias casas nos arredores, devido a uma violenta explosão num paiol de munições próximo.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

"Fugir do medico e da pharmacia"

Até meados do século 19, o mar era visto com medo (associado a naufrágios e monstros) e a sociedade em geral (particularmente a aristocracia) valorizava a pele extremamente pálida, já que o bronzeado era sinal de trabalho manual e pobreza.
A viragem para o que conhecemos hoje aconteceu no final do século 19, impulsionada por uma combinação de avanços médicos, transformações sociais da Revolução Industrial e uma grande mudança cultural.
Com o crescimento caótico e poluído das cidades industriais, os médicos começaram a defender o higienismo — a ideia de que o ar puro, a luz solar e a água limpa eram os melhores remédios contra doenças urbanas como a tuberculose e o raquitismo.
Os médicos começaram a receitar banhos de mar frios porque acreditavam que o impacto da água salgada "chocava" e revigorava o sistema nervoso, limpando o organismo. Descobriu-se ainda que a exposição solar combatia bactérias e fortalecia os ossos. A palidez aristocrática começou, lentamente, a perder espaço para o ideal do corpo activo e bronzeado.
Desta forma, actividades ao ar livre como o os passeios a pé ou de bicicleta, e desportos como o ténis e o futebol ganham enorme popularidade
Na península de Macau - marcada ainda por inúmeras enseadas - existiam várias praias. Desde a praia da Boa Vista na Areia Preta (a mais afastada da cidade) à de Cacilhas, da Guia, do Bom Parto, do Bispo (frequentada pelos ingleses, hóspedes do Hotel Bela Vista) e a do Tanque dos Mainatos.
Praia da Areia Preta

A 2 de julho de 1899 o jornal Echo Macaense publicava a notícia "Livro Novo":
"Noções de hygiene e medicina pratica, para uso dos alumnos do seminario diocesano de Macau," acaba de sahir do prelo do seminario, um livro utilissimo para a vida pratica.
Consta-nos que o seu author é o sr. dr. José Gomes da Silva, chefe do serviço de saude, e professor do seminario. Podemos apenas dar uma vista d'olhos ao livro, cuja leitura reservamos para quando tivermos mais vagar. O author, sendo medico, recommenda, como aphorismo hygienico, fugir do medico e da pharmacia.
Eis o que elle diz:
Tudo o que fica dicto nos capitulos anteriores e o mais que poderia dizer-se sobre a hygiene individual, pode synthetisar-se nos seguintes aphorismos:
Comer bem e a tempo. Manter justa proporção entre o exercicio e o alimento. Conservar a pelle sempre limpa e agasalhada. Respirar bom ar. Evitar os excessos de qualquer natureza.
Respeitar os habitos adquiridos. Saber ser feliz.
Fugir do medico e da pharmacia."

domingo, 28 de junho de 2026

Carta para um guarda-marinha da Corveta D. João I no século 19

No canto superior direito (abreviatura de cortesia):
Illmº. Sr. (Ilustríssimo Senhor)
Nome do destinatário (ao centro):
Gonçalo Ayres da Costa Campos
Cargo e localização (em baixo):
Guarda Marinha embarcado
a bordo da corveta D. João em Macao
Embora não existam elementos que permitem datar esta carta, deduzo que seja de meados do século 19. Porquê?
A corveta referida é a D. João I da Marinha Portuguesa. Foi construída em Damão por Jadó Simogi, aproveitando os materiais (madeira teca) da corveta "Infante D. Miguel" (inutilizada) sendo lançada ao mar em 1828.
Com 45,54 m de comprimento de fora a fora; 10,56 m de boca; 6,27 m de pontal; 6027 m de calado a vante e 516 toneladas tinha de armamento: 2 peças de bronze de calibre 18; 1 peça de calibre 3; 16 caronadas de ferro de calibre 32; Armamento portátil: 60 espingardas de fuzil; 20 pistolas de fuzil; 4 bacamartes de canos de bronze; 45 espadas e respetivos cinturões; 60 baionetas e respetivos cinturões; 20 chuços; 90 cartucheiras de cinto.
Em 1842 a lotação era de 161 homens. Navegou até final do século 19 sendo o último registo em Angola.
No século XIX ficou célebre pelas suas missões em vários pontos do mundo: Brasil, Timor, Japão, Angola. Destaco apenas as efectuadas no Extremo Oriente. Entre 1850 e 1860, operou no delta do Rio das Pérolas e desempenhou um papel vital nas relações luso-asiáticas. Aqui ficam algumas das missões em que esteve envolvida:
- Em 1850 largou do Rio de Janeiro para Macau conduzindo o novo Governador Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha.
 - Esteve envolvida em operações de resgate após a trágica explosão da fragata D. Maria II em Macau, em 1850.
- Em Janeiro de 1851 largou de Macau para Hong-Kong, conduzindo o novo Governador, Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco António Gonçalves Cardoso.
- Em 1854, conduzindo o Governador da província e o ministro plenipotenciário francês, largou de Macau para Ning-Pó, fazendo escala por Hong-kong e Amoy.
- Em Julho de 1854 travou combate com os piratas chineses.
- Em 1855, transportou os restos mortais do antigo governador João Maria Ferreira do Amaral de volta para Goa. 
- Ajudou no combate a incêndios devastadores na cidade de Macau em 1856.
Transportou o Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, até ao Japão em 1860, missão que resultou no Tratado de Paz e Comércio entre Portugal e o Japão. Feliciano António Marques Pereira, Capitão de Fragata era o comandante da corveta D. João I. 
- Em 1861, largou em segunda viagem ao Japão, com escala por Xangai, para se proceder ali à ractificação do tratado do comércio luso-japonês, não chegando ao destino devido ao mau tempo.
PS: outras cartaz dirigidas ao mesmo destinatário aqui e aqui.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

"Um dia de gloriosa recordação para Macao"

C. J. Caldeira assina este artigo publicado na "Parte Não Official" do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor de 28 de Junho de 1851.

Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recordação para Macao. Ha 229 annos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella,—um punhado de valentes repellio o formidavel attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d'armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d'Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o mencionam, mas sem maior individuação, e no Macuista Imparcial de 23 de Junho de 1836, lemos tambem algumas noções deste facto.
É por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma noticia sobre este successo, colhida de alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.
Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciais a varios portos, como usavam fazer naquella estação do anno,—vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della tres outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empreza, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.
Surgiram pois sós em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia,—tentaram neste mesmo dia o attaque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porem lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no emtanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Naquelle tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas, e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557; como Republica, somente pelo Senado: só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.
Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escachas, e catraias, desembarcaram uns 800 homens hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barulhento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.
Antonio Rodrigues Cavalhinha assistia então em uma de suas cazas, no campo que fica fronteiro á ellevação onde está hoje a fortaleza da Guia, e sahiu com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Hollandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma como o seu chefe Cornelis Reyers, (ou Kornelis Reyerszoon segundo Ljungstedt) que era tambem o Commandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo ao logar ónde existia o moinho do Padre Almeida, e onde existe um simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradição, recorda este successo.
Alli ficaram sós, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dispararam da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma peça bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia assistiam na mesma Fortaleza, porque no seu Convento proximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao,—e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, incendiando-o e abrazou alguns Hollandezes.
Elles desconfiando de não verem mais gente, e temendo que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinham á vista, receavam de passar quando quizessem penetrar na Cidade.
Reunio-se a gente pelo monte da Guia, onde estava uma peça de ferro (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha d'afóra da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com outro Portuguez, e mais vinte filhos da terra, e alguns moços captivos e todos cobertos entre os rochedos que alli havia, viam d’alto d'este modo os inimigos, fazendo-os vacilar e parar na subida.
Dividiram os Capitães os Cabos que dirigiam as baterias aos postos do Forte de S. Francisco e da Baim porto, contra as forças dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte de terra, deram ordem a que João Soares se expedisse com cincoenta mosqueteiros no posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mór da viagem do Japão, e reconhecendo o medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rosto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se desordenaram, e puzeram em fuga, largando bandeiras, armas, e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deu logar ao povo miudo para ir seguindo-o á sombra dos Portuguezes, e com tanto impeto que uma cafra (negra) fez neste dia de Parseira d'Aljubarrota, asseverando uns que matára alguns Hollandezes com o espeto da cozinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda; assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar precipitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram formalos de novo, para se não perderem todos pela confusão.
Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 300 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, dos quaes até ao seguinte dia só viveram sete.
Nesta occasião aquelles Portuguezes, e alguns Hespanhoes que se acharam aqui, obraram maravilhas, principalmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se póde deixar de admirar a resolução e cometimento de tão poucas contra tantos.
Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser soccorrida, e de se ver depois em grandes apuros,—ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.
Consta que o Regulo de Cantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes approximadamente) de arroz, para os moços que ajudaram a defender a terra, que ficaram forros, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.
Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sugeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros nem baluartes alguns; e tambem delli vieram algumas bombardas.
A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.
A Fortaleza de N. S. da Guia tambem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha á porta da mesma Fortaleza:
"Este forte mandou fazer a Cidade á sua custa pelo Capitão d'Artelharia Antonio Ribeiro d'Raia começou-se em Setembro de 1637 acabou se em Março de 1638 sendo Geral da Camara (d'Noronha)."
A piedade de nossos maicanes não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que esteve de ser presa dos Hollandezes, á especial protecção da Providencia, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.
Procuramos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquelle voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontrámos copia; mas no mesmo Senado existe uma antiga boki onde se lê o seguinte:
"A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S João Baptista — Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespers, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta á Missa Solemne na Sè Cathedral, como tambem as Vesperas.
N. B.
"Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Camara, junta em Conselho no anno de 1622: Isto em reconhecimento da distincta mercê, que Deus Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas, que na Praia de Cassi-lhas desembarcarem de bordo de treze (13) Navios, de que os Moradores alcançaram Victoria no Campo de Moha, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.
Alem desta Festa por voto solemne ficou-se dizendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armava, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.
Esta Missa se chamava da Victoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macao e suas familias, indo as creanças com flores e bandeiras: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n'uma especie de festa d'arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.
São estas as noticias que em pouco tempo podémos colligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem rellação com os factos da nossa historia nacional.
C. J. Caldeira

PS: Há uns tempos 'descobri' um relato desta batalha escrito em Macau meados do século 18; vou analisar - nomeadamente averiguar se Charles Boxer, a autoridade máxima neste assunto, menciona este documento - e depois publico.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Clube Militar distinguido com Menção Honrosa no Platinum Clubs of the World

O Clube Militar de Macau foi distinguido com uma menção honrosa na lista Platinum Clubs of the World para o biénio 2026-2027 em Junho último.
A instituição fundada em 1870 com a designação Grémio Militar foi reconhecida entre os melhores clubes privados globais na categoria de "Clube de Cidade", de uma lista que inclui clubes de Golfe e Iatismo, num processo de selecção que envolveu especialistas de 22 países.
Vista panorâmica ca. 1875/1880

A menção honrosa coloca o Clube Militar de Macau a par de instituições de renome internacional, como o Harvard Club of New York City, nos Estados Unidos, o Bangkok Club, na Tailândia, e o Royal Selangor Club, na Malásia.
A lista Platinum Clubs of the World é actualizada bienalmente e inclui 300 clubes nas categorias de golfe, cidade e iatismo.
Grémio Militar em construção num detalhe de uma fotografia ca. 1868/69 por John Thomson


terça-feira, 26 de maio de 2026

"Chal fundo e chal Grande"

De acordo com o Glossário do Dialecto Macaense e outros registos do português na Ásia:
Chal (ou Chale): É um termo de origem indo-portuguesa (do marata chāl ou guzerate chāl). Designa um edifício comprido e estreito, geralmente dividido em várias habitações ou compartimentos independentes, frequentemente ocupado por artífices ou trabalhadores.
Em contextos urbanos antigos (como em Bombaim ou partes de Goa e Macau), os chals eram estruturas comunitárias com um corredor ou varanda comum.
Detalhe de "Planta Topographica da Cidade de Macáo. Levantada em 1831 e Reformada em 1838 por Candido Antonio Ozorio", oficial de infantaria e engenheiro.

Neste mapa referem-se o "Chal fundo" e o "Chal Grande". Outras referências neste detalhe do mapa:
a) Casa de D. Antónia
b) Campo de Santo António
c) Gruta de Camões
d) Horta do Pereira
e) Igreja de Santo António
f) Tarrafeiro
k) Horta da Companhia (holandesa)
j) Casa da Companhia (holandesa)
u) Cemitério britânico
h) Hospital britânico
V) Povoação de Patane
H) Chal fundo

domingo, 24 de maio de 2026

Farol da Guia "provisório de madeira"

Inaugurado em 1865 o Farol da Guia foi o primeiro do género na China revelando-se essencial no apoio à navegação. Estando no topo da colina da Guia, o ponto mais elevado de Macau, a luz do farol ficava a 101,5 metros acima da superfície do mar em marés altas.
No livro de 1887 "A Description and List of the Lighthouses of the World", Alexander G. Findlay descreve assim o farol:
"Macao 22 11 - 113 33.5 N 
One rev br lt 1 min  
White tower 45 ft high on Fort Nossa Senhora da Guia on the Macao Peninsula. 
Faint light visible within 12 miles. A buoy with a green lt. on N.E. end of Macao Fort Rock and a buoy with a red light on SW edge of Haeshin Rock."

Macau 22 11 - 113 33.5 N (coordenadas geográficas)
Uma luz branca rotativa, 1 min.
Torre branca com 13.5 metros de altura na Fortaleza de Nossa Senhora da Guia, na Península de Macau.
Luz ténue visível num raio de 12 milhas. Uma boia com luz verde na extremidade N.E. da Rocha da Fortaleza de Macau e uma boia com luz vermelha na extremidade S.O. da Rocha de Haeshin.

Menos de 10 anos depois de entrar ao serviço seria destruído pelo tufão que assolou Macau em Setembro de 1874. 
Nesta fotografia podem ver-se os efeitos destruidores do tufão na zona da Praia Grande e Colina da Guia (sem o farol), onde o hospital, inaugurado nesse ano, também foi bastante afectado.
Com data de 14 de Setembro de 1874 - e publicado dois dias depois - um aviso assinado pelo secretário-geral do Governo informa sobre a "Interrupção do Pharol da Guia":
"Avisa-se, para conhecimento dos navegantes, que o pharol da Guia á entrada do porto de Macau, deixou de funccionar desde a noite de 22 do corrente, em virtude dos estragos causados pelo tufão, e será feito novo aviso quando estiver competentemente reparado.
Secretaria do governo de Macau, 24 de setembro de 1874. O secretario geral, Henrique de Castro."
Poucos meses depois, em Janeiro de 1875, seria construído no mesmo local uma farol provisório feito de madeira.
No anúncio do Boletim Oficial de Janeiro de 1875 pode ler-se:
"Foi mandado construir na plataforma da fortaleza da Guia um farol provisorio, de madeira, aproveitando o apparelho de illuminação do antigo farol."
Seria preciso esperar até 1910 para que fosse construído de raiz um novo farol.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Passeio de lages de pedra"

 

Publicado no Boletim da Província de Macau e Timor com a data de 24 de Abril de 1870 este "annuncio" da Repartição D'Obras Públicas informa que na "Segunda-feira 9 de maio p.v., ao meio dia, se arrematará em hasta publica, a quem menor preço offerecer, a continuação do passeio de lages de pedra, igual ao que já está feito, desde o fim da praia grande até ao Bom Parto. A licitação terá lugar na sala da repartição de obras publicas, no edificio do extincto convento de S. Domingos."

Nesta fotografia feita ca. 1870 pode ver-se o referido "passeio de lages de pedra" no que era então "o fim da Praia Grande", perto do então Palácio do Cercal (onde está actualmente o Palácio do Governo). A extensão do passeio até ao Bom Parto (onde começa a actual Av. da República) era apenas mais uma etapa... A ligação por estrada desde o início da Praia Grande (Junto ao Jardim de S. Francisco) até à entrada do Porto Interior - circundando toda a baía da Praia Grande - só ficaria concluída na década de 1910. Daí que esse troço final tivesse recebido o nome de Av. da República, o regime político entretanto implantado em Portugal.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Curiosidades históricas VI - Bocage"

Gabriel Fernandes assina uma coluna intitulada "Curiosidades Históricas" no jornal "O Conimbricense" em 1895. Localize uma sobre Camões e outra sobre Bocage (1765-1805), que viveu em Macau entre Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, oriundo da Índia de onde desertou do cargo de guarda-marinha.  É a número VI que a seguir se transcreve:

"Curiosidades históricas VI - Bocage"
Manoel Maria de Barbosa Hedois du Bocage («Elmano Sadino»), vindo de Goa, por via de Surrate, (porto então de muito commercio) chegou a Macau em Julho de 1789.
Durante a sua estada nesta cidade, além da elegia feita á memoria do principe do Brazil D. José, fallecido em 11 de Setembro de 1788, e á qual se refere Rebello da Silva (a) compoz diversas poesias satyricas, taes como: O canto da Beba, Os sonetos contra certos moradores de Macau, etc., que ainda se acham ineditos*.
Deparando-lhe um protector no ouvidor Lazaro da Silva Ferreira e membro do conselho governativo, por morte do capitão geral Francisco Xavier de Mendonça Côrte Real, pôde o insigne poeta regressar a Lisboa, onde desembarcou em Agosto de 1790, vindo a fallecer em 21 de Dezembro de 1805 com 40 annos de edade incompletos.
Despachado guarda-marinha para o estado da India, por decreto de 4 de Fevereiro de 1786, entrou em Goa em 29 de Outubro subsequente, sendo nomeado tenente de infanteria da 5.ª companhia do regimento da praça de Damão em virtude da portaria do governador da India, Francisco da Cunha Menezes, de 25 de Fevereiro de 1789.
O seu poema satyrico a Monteigui, presume o escriptor indiano Filippe Nery Xavier ter sido feito ou na viagem para Macau, ou em Surrate, theatro das façanhas da sua heroina Anna Jacques Mondteigui ou Monteigui, natural da cidade de Damão e casada com o alferes Jacques Filippe, do mesmo appellido, por entre 1775 a 1782.
O referido escriptor Rebello da Silva, ignora a época em que o poeta naufragára, se foi á ida ou á volta de Macau, salvando a nado e recolhendo algumas poesias, estampadas depois no 1.º tomo das suas Rythmas. (b)
Lisboa. Gabriel Fernandes.
(a) Vide Memoria biographico-litteraria ácerca de M. M. B. du Bocage..., por Luiz Augusto Rebello da Silva.
(b) Ibidem Diccionario Bibliographico Portuguez (na parte respectiva).
Ilustração criada por IA a partir de desenho de 1850 de Joaquim Pedro de Sousa

O autor do artigo é José Gabriel Bernardo Fernandes*, nascido a 29 de Dezembro de 1848 em Macau (na Sé). Formou-se em Direito em Coimbra no ano de 1875. Empregado no Ministério dos Negócios da Fazenda, foi Conservador do Registo Predial em Angola e Juíz de Direito em Moçambique. Foi também jornalista e historiador, autor dos «Apontamentos para a história de Macau» (Lisboa, 1883), da «Relação dos bispos de Macau» (1884) e de «Jornalismo em Macau». Colaborou no «Jornal de Coimbra», no «Conimbricense» e no «Impulso às Letras», de Hong Kong. Morreu em 1914.
O pai era João Gabriel Fernandes, nascido em Bardez, Goa. Com os preparatórios do Seminário de Chorão e estudos preliminares da época, após Exame de Estado obteve Carta de Advogado junto da Relação de Goa (1845), com a provisão para advogar nas possessões da Ásia (1863) fixando-se em Macau onde foi Juíz da Paz e Síndico da Misericórdia e do Colégio de São José, bem como das Missões do vasto Padroado Português de Pequim, Nanquim e Singapura. Foi ainda Auditor de Guerra e Vogal do Conselho do Governo de Macau e Secretário do Governo. Em Macau foi um dos fundadores do semanário histórico e literário «Ta-Ssi-Yang-Kuo – Semanário macaense d´interesses publicos locaes, litterario e noticioso» e autor de um esboço biográfico sobre o macaense A.J. de Miranda. Retirou-se para Coimbra (1870/83) onde viria a morrer.
Sobre pai e filho basta utilizar o campo de pesquisa para procurar artigos publicados no blog.

* o poema sobre Macau é um retrato fiel de como era o território na época em que Bocage ali viveu (e onde tem o nome numa rua). Em breve publico.

sábado, 11 de abril de 2026

Banda de Música no Passeio de S. Francisco e na Flora: 1878

 Publicado na "Parte Não Official" do Boletim Oficial de Macau na época...

Banda de musica da guarnição, destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramar

PROGRAMMA
Domingo, 26 de maio, das 5 ás 7 horas p.m., no passeio de S. Francisco
1º Passo dobrado;
2º Overtura Les Aveugles de Toledo;
3º Mazurka, Les belles Parisienes;
4º Selection Don Pasquale;
5º Quadrilha, das Estradas;
6º Grand Selection "Norma";
7º Polka, La Belle Colete;
8º Hymno de S. M. El-Rei o Sr. D. Luiz I.

Quinta-feira, 30 do corrente, das 5 ás 7 horas p.m., na Flora
1º Marcha;
2º Selection "Gerusalemme";
3º Cançoneta;
4º Valsa, Adagio;
5º Schottisch, La nuit de Noel;
6º 2.º Acto d'Opera burlesca "O Fausto Petiz";
7º Quadrilha;
8º Hymno da carta constitucional.

Em 1878 os concertos da Banda de Música "destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramarn" no Passeio de S. Francisco (perto do atual Clube Militar na altura denominado Grémio) e no Jardim da Flora (ou Flora Macaense como se dizia na época) eram os grandes eventos sociais onde a elite e a demais população se reuniam para ver e ser vista.
O programa revela um gosto musical muito alinhado com o que se ouvia em Paris ou Lisboa na mesma época. Incluía ópera Italiana e Francesa - referências a Don Pasquale (Donizetti), Norma (Bellini) e Les Aveugles de Tolède (Méhul) e danças de salão através das Mazurkas, Polkas, Valsas e Schottisch (Xote),reflectindo um ambiente festivo e sofisticado. O "Fausto Petiz" é uma referência a uma paródia ou versão reduzida da ópera de Gounod, muito comum no teatro de revista e operetas da época.
Ambos os concertos encerravam com hinos patrióticos: o Hymno de D. Luiz I (Hino Real) no domingo e o Hymno da Carta Constitucional na quinta-feira, que era o hino nacional do Reino de Portugal na altura. Os concertos ocorriam das 17h às 19h aproveitando o final da tarde, quando o calor em Macau começava a dar tréguas.
Uma banda desta natureza teria entre 20 a 30 elementos. Não disponho de elementos o possam comprovar mas na época eram habituais terem estes instrumentos: requinta, clarinetes, flautim, flauta, oboé, fagote, cornetins, trompetes, trompas, trombones, bombardinos, tuba, tarol, bombo e pratos.
Palacete da Flora com o coreto (assinalado) nos jardins 
Ilustração por IA a partir de foto da época

Locais:
O Jardim da Flora (macaense) ocupa uma área muito maior do que o actualmente existente, nomeadamente ao longo da Av. Sidónio Pais (que na época se denominava Alameda Vasco da Gama) e Estrada de Ferreira do Amaral. As origens remontam à década de 1850 quando o padre Victorino José de Sousa e Almeida - chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1832 e foi pároco de S. Lourenço de 1842 a 1852 - comprou um extenso terreno e aí construiu um palacete. Documentos da época referem a "horta do padre Almeida". 
Por volta de 1870 o Governo de Macau comprou a propriedade. O palacete foi transformado em residência de Verão do governador e o restante espaço passou a funcionar como jardim e viveiro de plantas. Nos jardins anexo ao palacete havia um coreto, o local provável da actuação da Banda de Música.
Jardim S. Francisco. Fotografia ca. 1870

O "Passeio de S. Francisco" é uma referência ao jardim com o mesmo nome, criado ca. 1865, entre a Rua do Campo (frente ao antigo Convento de Santa Clara) e o Grémio Militar (de 1870). Foi o primeiro jardim público de Macau. Neste jardim também existiu um coreto localizado perto da Rua do Campo.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Macao Races": 1829

 The Canton Register, 2 de Maio de 1829:

Macao Races
In noticing the Races that have lately taken place, and are now in course, at Macao, which have afforded so much rational amusement, and been the source of great gratification to the surrounding society, we hail with pleasure the return of that manly diversion, which for a time had been neglected. And while it is conducted with the gentlemanly feeling, and universal harmony, which has been so peculiarly conspicuous in every instance of its present management, we hope it will have its annual return, and meet with the most cordial support.

Corridas de Macau
Ao notar as Corridas que ocorreram recentemente, e que estão agora em curso em Macau, as quais têm proporcionado tanto entretenimento racional e sido fonte de grande satisfação para a sociedade local, saudamos com prazer o regresso desta diversão viril, que por algum tempo havia sido negligenciada. E, enquanto for conduzida com o espírito de cavalheirismo e a harmonia universal que têm sido tão peculiarmente visíveis em cada exemplo da sua atual gestão, esperamos que tenha o seu retorno anual e encontre o mais cordial apoio.

As "corridas" a que se refere a notícia eram corridas de cavalos, uma actividade que os ingleses e outros comerciantes estrangeiros desenvolviam em Macau quando não podiam estar em Cantão nos negócios. Documentos da época indicam que estas provas tinham lugar ao longo da praia da Areia Preta, muito perto da Porta do Cerco (ainda na versão chinesa). Por volta de 1840 alguns mapas referem um "Race Course" - City and Harbour of Macao. By W. Bramston. J. Wyld, London. Lithographed, 1840 - nas então várzeas junto à aldeia de Mong Ha.