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terça-feira, 10 de março de 2026

O "escritor de cartas"

Esta fotografia é um registo de meados do século 20. Numa rua de Macau um "escritor de cartas" protegido do sol por um chapéu de chuva atende uma cliente. No cartaz está escrito em chinês tradicional 寫信. Significa "Escreve-se cartas".
Exemplo de uma antiga profissão que era habitual ver-se na cidade pelo menos até à década de 1980 como pude testemunhar. Fruto dos baixos índices de alfabetização, nomeadamente dos mais velhos, estes profissionais montavam bancas na rua e em troca de algumas patacas redigiam correspondências, preenchiam formulários oficiais ou liam cartas recebidas.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Memórias da pesca artesanal

Memórias de uma técnica muito especial de pesca artesanal que desapareceu de Macau no final do século 20. Pode ver um pequeno vídeo aqui.
Imagens das décadas 1940, 1950 e 1960 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Travessa dos Vendilhões

“Viu as lojas e as caras morenas dos 'mouros', ladeou de perto os vendilhões ambulantes, ouviu vozes, risadas, gesticulações dos transeuntes e ninguém se referia a ela. Espreitou o poço público perto da escadaria para a igreja, donde se tirava uma água cristalina. (...)

Na apertada artéria, onde se atravancavam vendilhões de comidas, acepipes e fritos, penteadeiras com os seus apetrechos, o barbeiro e o dentista ambulantes, com as suas clássicas cadeiras de ofícios, riquexós aos gritos dos condutores e muito povo que ia e vinha nas compras nas lojecas e nos recantos da rua, ou a caminho do Mercado.” (...)
"Da janela subiam os ruídos do tardoz da casa. Gorjeios e risada de criançada, vozes de mulherio em palreio fiado, alguém a soprar num trombone, em desconjuntado esforço de harmonia. Galos crocitavam na vizinhança, e das janelas vinha o ruído de uma rua calma, vozes esparsas e pregões de vendilhão de comidas.”

Excertos do romance "Os Dores", de Henrique de Senna Fernandes, publicado postumamente em 2012.

Vendedor ambulante de patos. Fotos Neves Catela: Década 1930

Em 2012 existiam em Macau 1089 licenças de vendilhão de acordo com dados do Instituto para Assuntos Cívicos e Municipais, menos 560 em relação ao ano de 1999.
Actualmente em declínio, as origens da actividade de vendilhão remontam aos tempos em que a estrutura das sociedades e da economia era rudimentar.
Uns ambulantes outros estacionados, os vendilhões tinham em comum o facto de exercerem a actividade na rua, ao ar livre. E vendem de tudo a um pouco: desde os produtos alimentares, como o peixe, a carne, a fruta, legumes, os ovos, os chás e as bebidas, aos gelados e outras guloseimas, bem como utensílios para a casa, livros, ou roupas.
Vendilhões no século 19 em Macau. Pintura de George Chinnery
Vendedor de "palitos de mel"

A Travessa dos Vendilhões, topónimo que reflecte a importância da actividade na história do território, fica entre a Rua do Almirante Sérgio e a Rua da Praia do Manduco, perto do Porto Interior.
Sugestão de leitura: "Vendilhões", Isabel Nunes, ICM, 1998

A 11 de Novembro de 2016 o Jornal Tribunal de Macau publicou um artigo sobre o tema onde se pode ler: "O presidente da Associação de Auxílio Mútuo de Vendilhões, O Cheng Wong, sublinha que o número de membros da associação caiu dois terços em comparação com 2004, ano em que o Governo aplicou um conjunto de medidas de apoio ao sector. “O número de membros da associação diminuiu de três mil para menos de mil”, revelou."

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Pátio do Abridor / 吳家圍 / Ng Ká Wâi

Abridor remete para antiga profissão de artesão. Também conhecida por gravador ou burilador (que grava a buril, instrumento de aço que tem ponta cortante, usada para gravar em metal ou madeira). Em Macau existiam, por exemplo, os abridores de caracteres chineses.

Em Macau o Pátio do Abridor é hoje um beco e a designação em chinês é Pátio da Família Ng. Está situado entre a Avenida de Almeida Ribeiro e a Rua do Matapau, sendo o acesso feito pela Rua dos Mercadores.

domingo, 31 de março de 2019

Concurso para "Chefe de Posto"

Anúncio publicado no Boletim Oficial em Fevereiro de 1957 onde se informa sobre as "provas práticas do concurso para chefe de posto do quadro administrativo" da província de Macau. Inclui provas de "língua indígena, noções de construção civil, política indígena, serviços dos postos e agricultura e pecuária coloniais".
Frente ao edifício onde estas provas eram prestadas (o Palácio das Repartições, ao lado do actual hotel Metrópole) os candidatos tinham ainda de fazer "demonstrações de ciclismo e fotografia".

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Cartazes de cinema pintados

A propósito de uma prática que já há muito desapareceu em Macau, os gigantes cartazes dos cinemas, publico um excerto de um artigo da BBC que refere a também extinção da actividade em Taiwan...
Yan Jhen-Fa has never met a film star, but he’s painted so many he can’t remember them all. Nearly every day for the last 48 years, the 66-year-old artist shuffles onto the pavement across from the Chin Men Theater in Taiwan’s oldest city, Tainan, holding a small image and five buckets of paint.
For the next eight hours, he squats on a plastic stool and kneels on the ground in his makeshift outdoor studio, using deft brush strokes to depict film legends in surreal, film noir-like friezes of suspense, passion or pride. When he finishes, he clambers up the scaffolding and uses rope to hoist the 20-sq-m canvases three storeys into the air to hang them on the theatre’s facade.
Today, the Chin Men is the only remaining theatre in Taiwan to continue the age-old tradition of displaying hand-painted film posters. And in an era of digital printing and computerised billboards, Yan is one of the last artists in the world carrying on a craft that’s on the verge of extinction. (...)
As long as there have been movies, there have been movie posters. When silent films became popular in the 1910s, theatres around the world hired artists to convey the excitement of new releases and capture an audience’s attention before they even stepped into the theatre. By the 1940s, Hollywood studios began printing and shipping their painted posters around the globe. But in many places where skilled labour remained cheaper than billboard-sized prints, handmade paintings continued to adorn cinemas for decades to come.

Artigo BBC, Novembro 2018

sábado, 11 de agosto de 2018

Aguadeira na Travessa da Paixão

Imagem 'clássica' de Macau de outros tempos... uma 'aguadeira' transportando latas com água - sistema pinga - na Travessa da Paixão vendo-se ao fundo a fachada da Igreja Mater Dei.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Riquexós em vias de extinção

São uma das imagens de marca de Macau. Nem sempre tiveram esta configuração e foram durante décadas uma forma de transporte público no território. 
Após o final da segunda guerra mundial eram cerca de mil (com a configuração de apenas duas rodas). Na década de 1960 existam cerca de 300. Hoje são pouco mais de 60 e praticamente só utilizados pelos turistas correndo o risco de extinção. Já não se fabricam e são cada vez menos os que se interessam pela profissão.
Existe uma associação de profissionais do sector e o Turismo de Macau tem feito algum investimento para que os triciclos não desaparecem por completo.
J. Dyer Ball escreveu sobre os jerinxás de Macau nos primeiros anos do século XX (1905):“Jinrickshas There are a number of these useful little vehicles plying for hire and the gradients of most of the streets are not sufficiently steep, as in Hongkong, to prevent them going up and down hill. The fares of these licensed vehicles, unless altered of late, are as follows: An hour, or anything short of it, within the walls of the city: 5 cts. Outside of the city walls for an hour: 10 cts. And for each extra half-hour: 5 cts If two get into the same rickshaw, the price to be arranged with the coolie."

quinta-feira, 19 de março de 2015

"Vendilhões": Fotografias de Carlos Alberto dos Santos Nunes (2ª parte)

(...) Não faltam os vendedores dos diversos lèong-tch´á (chás refrigerantes e diuréticos), dos tái-tch´ói-kou (gelatinas), uns encarnados feitos com essências de rosas outros amarelados feitos com açucar-cândi, todos triangularmente cortados.
Porém, para o gosto dos Chineses, nada rivaliza ao seu lèong-fán, de cor negra e que se apresenta em grande bloco por ter tomado o feitio do alguidar em que foi preparado. (...)
Como a população duma cidade não necessita somente de comestíveis, circulam também pelas ruas da cidade os mái-fá-pou com vários cortes de fazendas e de garridos estampados, nos seus enormes e chatos cestos; os mái-tch´áu que levam ao ombro grandes fardos de vários rolos de seda, embrulhados em forte pano cru; as bibliotecas volantes com esfarrapadas novelas e livros de canções, para alugar, etc.
Entretanto, porque as donas de casa precisam sempre de adquirir peças isoladas de baixela que, por serem feitas de frágil porcelana, se partem constantemente, à hora certa, passará pelas suas portas o pó-lêi-pui com completo sortimento de copinhos, taças de porcelana, pires, colherinhas e tudo quanto é possível fazer-se em cerâmica.
Em Macau, porém, chamam impropriamente de pó-lêi-pui aos homens que vendem botões, linhas de coser, sabonetes, rede para o cabelo, molas para a roupa, baralhos de cartas, naftalinas e a mais disparatada mistura de objectos (...).
Temos assim, os vendedores de fogões e de panelas de barro; os homens dos iáu-tchi-sin (leques de papel oleado) e k´uâi-sin (leques feitos de folhas de palmeira, isto é, se for no Verão); os im-máu-lou (castradores de gatos); os vendedores de ovos; de galinhas, com os papos cheios de areia para ganharem mais peso; de achares e de diversas gulodices.
No entanto, os pregões mais familiares são dos que vociferam incomodamente sáu-tchêng t´áng-i (consertam-se cadeiras de verga) e (...) sâu-tchên-kuâi-só, tchên-t´óng-kau (consertam-se fechos e arranjam-se visagras de cobre); pôu-uók (remendam-se caçarolas); mó káu tchín (amolam-se tesouras e facas); hón-t´ông, hón-sèak (soldam-se objectos de cobre), etc. (...)
Os tin-tins passam, então, a toda a hora, batendo desalmadamente com um prego os discos de metal (...).
Juntam-se a estes pregoeiros, os cegos que agitam «slacslacqueando» várias varetas, num cilindro de bambu, e que por insignificante quantia, se prestam a revelar, por meio da sua rabdomântica ciência, os segredos daqueles que vivem inquietos com o futuro.
De vez em quando aparece também quem venda o môk-sât-kuân (pauzinhos para percevejos), (...) ao anoitecer, aparecem diversos vendilhões com as suas canastras carregadas de ostras, camarões, caranguejos frescos e peixes para os gatos, bem como os que vendem petróleo e azeite. 
Mas o pregão mais característico é sem dúvida o do siu-áp-lou (homem que vende pato assado) (...).
As mulheres chinesas não desgostam de se entreter jogando o má-tchèok (...) e, como este passatempo costuma estender-se até altas horas da noite, lá aparece o homem de mou-ü tch´á kai-Tán (chá mou-ü com ovo cozido); háng ián-tch´á (chá de amêndoas) e os empregados das casas de pasto a apregoarem a ementa da noite para receberem as encomendas da ceia.
Os residentes mais modestos satisfazem-se com o uán-t ´ân-min, a conhecida sopa de fitas, cujo segredo de preparação Marco Polo não descurou de levar para a Europa (...), foi assim que o min veio originar os macarrões (...). Os uán-t´ân, ou sejam os camarões embrulhados com a mesma massa do min, gozaram também de grande popularidade em Veneza e, com o tempo, foram transformados nos deliciosos ravióis. 
in Chinesices de Luís Gonzaga Gomes

quarta-feira, 18 de março de 2015

"Vendilhões": Fotografias de Carlos Alberto dos Santos Nunes (1ª parte)

Em 1996 o ICM editou duas colecções de postais (24 no total) a que deu o título "Vendilhões de Macau". São postais feitos a partir de fotografias de Carlos Alberto dos Santos Nunes. Inclui os vendedores ambulantes de: fruta, chá, louça, legumes, peixe, livros, fósforos, roupa, comida, guloseimas, etc...
Desde tempos imemoriais que nas cidades chinesas se instituiu o hábito de os negociantes levarem às residências dos particulares as mercadorias que lhes são mais necessárias e tal costume devia ter sido motivado pelo facto de ser inibida às mulheres a frequência das lojas, por ser considerada um procedimento altamente escandaloso a sua ausência do lar. Daí a praga de vendilhões ambulantes que, a fim de conseguirem angariar a indispensável malgazinha de arroz para o seu quotidiano sustento e o da sua família se vêem obrigados a valerem-se de todos os meios destinados a atrair o interesse do público para as suas mercadorias. 
Criou-se, então, um sistema tradicional de reclamo com o intuito de vencer a resistência do comprador, sistema este cuja evolução se foi aperfeiçoando com o tempo e integrando-se no progresso urbanístico de cada cidade de forma a constituir um elemento imprescindível da vida social chinesa. Assim, uns exploram todas as possibilidades das suas cordas vocais para que as suas estentóreas vozes possam atingir com sucesso os mais recônditos recantos das casas; outros usam de engenhosos instrumentos sonoros, como as charmelas de palhetas reforçadas (...).
Em Macau, como em todas as cidades da China, não faltam vendilhões ambulantes, devendo mesmo existir alguns milhares e, assim, logo pela manhã, os pacatos burgueses são sacudidos para fora das suas mornas camas, pela vibrante gritaria dos garotos dos jornais que, com invejável fôlego, disparam, em rápida sucessão, os títulos das notícias, dos acontecimentos mundiais, excedendo-se cada um na forma de impressionar melhor o público e causando-lhe tal sensação que o sucesso da venda é alcançado num instante. (...)
Nisto, surgia a voz do I-T´ái e como a clientela chinesa o interessava pouco, apregoava em português, merenda! merenda! (...) o bom do I-T´ái entrava em casa e pousava no chão da entrada, os seus dois enormes cestos, envernizados a castanho. Enquanto encostava a pinga, ou seja, a vara de que se servia para os transportar aos ombros, I-T´ái ia dispondo à sua volta os diversos ternos e enunciando, em voz fanhosa e cantada, todo o seu conteúdo. Eram natas; bolinhos de chocolate; bolos-meninos; bolos estrelas; pãezinhos recheados; coqueiras; tijelinhas do conde; chilicotes de massa de coco; em folhados; ou de rábano e envoltos em folhas de bananeira; pastelinhos diversos; muchis cobertos de pó de feijão torrado; mamas-de-freiras; barquinhos de coco revestidos com cabelos de noiva; diversas variedades de bebincas; e, nas proximidades do Natal, não faltavam aluares, pinhões, fartes, coscorões, empadinhas, etc. Nos últimos ternos estavam guardados os pães de casa, uns simples, outros com recheio de carne picada, e um suculento recipiente de madeira cheio de indigestos seák-tchók, ou sejam, os afamados apa-bicos, nome por que são conhecidos localmente. (...)
Assim, é à esquina das travessas, ponto estratégico de alta importància, porque é daí que se pode acorrer às chamadas dos fregueses de várias vias adjacentes, que se encontram diversas cozinhas ambulantes, onde se servem as tchü-iôk-tchôk e as pák-kuó-tchôk, maravilhosas canjas de porco e de ginco, que se ingerem acompanhadas das indispensáveis iâu-tchâ´kuâi (fruturas). (...)
À medida que o dia vai avançando, vão-se animando as ruas da cidade com uma infinidade de pregões. São os vendilhões de frutas que gritam, uns t´im-lâu-tch´áng-a, iâu tchèng t´im-lâu-tch´ áng mái-a (laranjas doces, há laranjas autenticamente doces à venda) outros; tch´iu-tchâu-kâm, tai-kó tch´iu-tchâu mât-kâm-á (tangerinas de Tch´iu-Tchâu, grandes tangerinas de Tch´iu-Tchâu, doces como o mel); outros (...).
No Verão, logo depois do meio-dia, lá aparecem os homens dos süt-kou (sorvetes), com os seus baldes, um com um cilindro de folha-de-flandres onde se conserva o sorvete, cilindro que é isolado do contacto da madeira do balde por uma camada de bocados de gelo misturados com salitre; outro, com água e copinhos de vidro para servir avulsamente os transeuntes sequiosos e atormentados pelo calor.
Não há muitos anos que a população não chinesa aguardava pacientemente a noite, pois era só nessa ocasião que aparecia o A-Loi, sem dúvida o melhor preparador dos sorvetes de chocolate, de café e de manga, antes de ser moda em Macau o servirem-se nos restaurantes. (continua)
in "Chinesices" de Luis Gonzaga Gomes

domingo, 14 de outubro de 2012

Antigas profissões

A partir de uma foto de Carlos A. Dias. Década 1970
Tancareiras: postal de 1989
Adivinho
Transporte de gelo. foto de Lei Chiu Vang. Década 1960.

Fabricando panchões
Vendedor de bonecos de farinha
Vendedor de tau fu
Carregador de pinga


Barbeiro de rua
Vendilhões. foto de José Neves Catela
Selos de 1991


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Penteadeira

Esta fotografia é de meados da década de 1960. Representa uma penteadeira "numa das ruas marginais do Porto Interior" segundo me confidenciou a autora da fotografia, a Drª Ana Maria Amaro.
Tal como as penteadeiras, também os barbeiros exerciam a sua profissão na rua um pouco por toda a cidade, com destaque para zonas como a Estrada do Arco, a Travessa das Galinholas, a Rua Cinco de Outubro, o Pátio do Piloto, entre outras.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Barbeiros de Macau - parte 2

No Pátio do Piloto, junto à Rua Praia do Manduco
idem
Próximo da Av. Almirante Sérgio (Mercado Vermelho)
Numa travessa da Rua Cinco de Outubro
 Preçário do corte de barba ou cabelo
Barbeiro de rua fazendo limpeza de ouvidos a um cliente, na Estrada do Arco do Bairro Iao Hon
Cortando o cabelo a uma criança, na Travessa das Galinholas
Jovens barbeiros, emigrados da China nas últimas décadas, numa travessa da Estrada do Arco, no Bairro Iao Hon.