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domingo, 22 de março de 2026

Memórias do Liceu e do Complexo Escolar pelo Professor José Cordeiro

A propósito dos 40 anos passados sobre a inauguração do Complexo Escolar de Macau pedi ao professor José Cordeiro um testemunho desses tempos. Aqui fica o meu agradecimento pela sua disponibilidade. Agora, tal como então, sempre com uma enorme generosidade na sempre difícil missão de educar. Fui um dos muitos que tive o privilégio de aprender. Sobre a escola e também sobre a vida. Desses tempos ficaram para sempre impregnados valores como o respeito, a liberdade, a solidariedade, a responsabilidade, a partilha, etc...
Se a memória não me falha

"Estava eu posto em descanso quando o João  Botas me veio picar a memória acerca da passagem recente, em 6 Janeiro de 1986, do 40º aniversário da inauguração e funcionamento do Complexo Escolar de Macau, da Direcção de Serviços de Educação, Juventude e Desporto do governo de Macau, logo no reatamento do 2º período, para falar das minhas memórias daquele tempo. Ainda me dispus por a memória à disposição dele, dar-lhe umas dicas, mas ele, fino, preferiu a papa feita. Como nunca me decepcionou no seu tempo de estudante, nunca deixando que algo acontecesse por falta de voluntário, não vou deixá-lo pendurado no seu nobre  propósito. Quando mais ninguém queria, o João era “o homem para levar a carta a Garcia”. 
Estou-lhe grato pela sua disponibilidade.
Já lá vai muito tempo, que sensibilizado por uma dança do Dragão ou do Leão que vi nos documentários “ Mundo português”, que passavam nas sessões de cinema antes de passar o filme em exibição, disse para os meus botões que um dia gostaria de ver aquilo ao vivo.
Em janeiro de ´81, depois de um processo bem sucedido de candidatura, estreei-me no vetusto Liceu Nacional do Infante D. Henrique, como era então de lei chamar-se quando havia só uma escola liceal  da rede pública de ensino por distrito.
E quem se moveu por danças de leões e de dragões com a cabeça cheia de fantasias não podia ter sido melhor ocasião que a quadra festiva do Ano Novo Lunar e o Liceu se situava naquele enclave da cidade, em frente à Baía da Praia Grande, onde acontecia a chinfrineira do rebentamento dos panchões, enquanto na Baia ainda deslizavam os graciosos juncos a navegarem rumo ao Porto Interior. 
Ali trabalhei até à inauguração do dito Complexo escolar de Macau que passou a integrar a Escola Preparatória Dr José Gomes da Silva, a Escola Luso-Chinesa Luis Gonzaga Gomes e a Escola Secundária do Infante D. Henrique, também com cursos nocturnos.   
Se, olhando para um mapa antigo de Macau, o LNIDH, ficava isolado numa ponta da Península, num exclave quase no meio de nada, mas desde então já completamente integrado no coração da cidade com o Hotel Sintra, numa das pontas, agora a olhar não sei para quê, na outra ponta, diametralmente oposta, sob austera supervisão da estatua equestre do austero Governador Ferreira do Amaral montado num cavalo com as patas dianteiras bem empinadas - símbolo de morte heróica do cavaleiro - implantado em altaneiro pedestal no meio da praça com o mesmo nome e mais, do outro lado, o  Hotel Lisboa, mesmo ali ao pé de se poder entrar, a  primeira sensação que se tinha, quando se começou a falar da implantação do projectado complexo escolar foi idêntica: mas aquilo fica tão fora de mão; aquilo é um deserto; então, e os transportes e a segurança das crianças e mais isto e mais aquilo e aquele outro como se todas as novidades exigissem visto prévio de um julgamento pessoal, antes de virem a ser aprovadas oficialmente. A oriente nada de novo para o habitual pessimismo ou a prudência do Velho do Restelo, do Rio Das Pérolas daquela Velha praça portuguesa da “Cidade do Santo Nome de Deus, não há outra mais leal”. Rapidamente o exclave projectado para a construção era agora um enclave rodeado de cidade vibrante por todo lado.
Para trás ficariam as odiadas batas de cor amarelo vaticano, que só ao gineceu obrigava  e as usava como retaliação até às linhas vermelhas da provocação, e algumas eram bem frescas e arejadas, para desespero da D. Cristina que no seu posto avançado ia zelando pela moral e dos bons costumes da escola, instalado no grande hall de entrada do velhinho, mas bem conservado, Liceu.
Num terreno de hortas, ladeado pelo circuito citadino do Grande Prémio de Macau logo se imaginavam cobras e lagartos numa terra onde leões e dragões à solta eram, e ainda são, sinónimo de festa rija, projectava-se a construção de uma nova escola. Naquele, então, deserto da cidade, imagine-se!
Curiosamente, aquilo começou tão auspiciosamente que, na cerimónia da cravação da 1ª estaca, com pompa e circunstância e fanfarra da Policia, quando o martelo pneumático se preparava para dar a primeira martelada, não é que, segundo constou, a estaca se enfiou do terreno adentro, mole que nem  faca em manteiga? Se o resto for assim tão fácil teremos obra, logo falou a vox populi de uma terra onde os sinais são mensageiros…Disto, confesso que não fui testemunha ocular, mas é património que se me cravou à minha revelia na memória de tanto ter ouvido da boca de tanta gente ter dito que viu.
Bom, o terreno consolidou, muitas estacas ou pilares, se preferirem, foram cravadas à custa de tanta martelada, a obra começou, concluiu-se, foi tomada de assalto e ocupada entre o Natal/ 85 e os Reis/ 86. Depois, com pequenos ajustes, próprios de casa nova, lá o barco largou as amarras e zarpou à procura de fazer a sua própria História. Cedo lhe deram outras funções e a história do CEM - Complexo Escolar de Macau - foi o que cada um levou consigo no pouco tempo em que foi um estabelecimento de ensino. Para alguns, na flor da idade, foi muito tempo em idade de gente sempre apressada.
Durante as ditas férias de Natal procedeu-se á mudança do que era património administrativo, porque todo o resto lá estava instalado. Laboratórios, oficinas, piscina aquecida, um ginásio e um pavilhão desportivo com vários campos exteriores, balneários amplos e um edifício administrativo - a torre de comando operacional - com sala de professores e de trabalho, que albergava os serviços administrativos e os de direcção e de gestão escolar.
Mas nem tudo o que é novo é bom ou, pelo menos, sabe bem para toda a gente. E, se tinha sido abolido o uso das malfadadas batas para as meninas, agora o mal havia-se generalizado: toda a cambada teve que se apresentar na parada da cerimónia de abertura  da nova escola publica trajada a preceito com calça azul ferrete vincada e camisa xadrez de vermelho pálido, que mais parecia as toalhas de mesa do Restaurante Fernando, e um pulôver a condizer com as calças, para os mais friorentos.  O uniforme foi decaindo de uso apagando suavemente, como quem não quer dar por isso, o premonitório sinal do fim do dito Império Português do Oriente, se considerarmos que as escolas do Velho Liceu eram as únicas que não usavam uniforme no universo das escolas do Território. Com a farda tudo se igualava na tradição local e no respeito pela diferença dos uniformes!
Entretanto, e só por curiosidade, em 1987, como reforço da ideia de premonição, Anibal Cavaco Silva, então 1º ministro, no seu périplo pelo Oriente visitava Pequim, no que foi o formal pontapé de saída no jogo da reintegração de Macau na Mãe Pátria Chinesa. Há quem diga que foi o inicio do “Acordo de Desconsentimento” - há quem prefira “O Desacordo de Consentimento” -  de um longo e histórico comodato, até que a mutua conveniência tácita desde a instalação ditasse em concreto a separação amigável. Por curiosidade,  recordo-me de alunos da Escola Secundária do Infante D. Henrique, em viagem de finalistas pela Tailândia, se terem cruzado em trânsito, em Banguecoque, com a comitiva de Cavaco Silva, a caminho  da Embaixada Portuguesa, vizinha do Rio Chao Phraya e do icónico Wat Arun.
Entretanto, a inevitável D. Cristina, novamente instalada no seu posto de operações no grande hall da cantina escolar, muito senhora da sua função, que, como sempre, tanto zaragateava com os alunos, como era a sua  primeira e mais acérrima defensora, quando lhe cheirava a procedimentos disciplinares. Não havia testemunha mais abonatória do que ela, que, qual mãe severa para prevenir, os chamava à razão, mas era uma autêntica mãe galinha a defender os seus pintos quando os sentia ameaçados. Nem eles suspeitavam.
E pronto, João, não sei se era bem isto que querias, mas como deves entender, andamos todos na mesma escola, mas não podemos ter todos as mesmas memórias, não é?
Um pouco como as daquela  instituição, a um tempo cosmopolita e ecuménica de tanta desvairada e santa gente que a ela recorria -  e a mais inocente era matar a sede insaciável - , no fim da avenida do velho Liceu que dava pelo nome de “ A esplanada”, que era  a “Las Vegas” da Avenida da Amizade, onde o que acontecia lá devia ficar. 
Lá no começo da avenida, fronteiriço ao tribunal, Jorge Alvares nos contemplava, sem nada dizer.
 Ah, se as estátuas falassem… 
Grande abraço  para todos, com saudades.
Cascais, 11.03.2026
José António Cordeiro
Liceu, hotel Lisboa e a 'esplanada' à direita

Liceu na Praia Grande visto do Hotel Lisboa
 
Início das obras do Complexo Escolar
Inauguração do Complexo Escolar
* Inauguração a 4.1.1986 (sábado); as aulas começaram a 6.1.1986 (segunda-feira)
** As obras começaram a 2 de Setembro de 1982.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Restauração da independência, Eduardo Brazão e Escola Camões em Hong Kong

Em mais um aniversário da Restauração da Independência (1640) - data relevante tb para Macau * onde existem duas ruas da Restauração (em Macau e na Taipa) - ocorreu-me o nome de Eduardo Brazão (1907-1987), proeminente diplomata e historiador português com forte ligação ao Oriente e a Macau, tendo sido Cônsul de Portugal em Hong Kong entre 1946 (chegou em em Abril de 1947) e 1951.
The  China Mail 4.4.1947

Sabia que actualmente existe a "Escola Camões" em Hong Kong? Na sua origem está Eduardo Brazão. Diplomata, académico e historiador considerado um visionário. Neste aspecto, uma das ideias que preconizou foi a criação de uma Universidade em Macau na década de 1940. O projecto acabou por não vingar. O mesmo não aconteceu com a criação da Escola Camões em Macau e do Instituto Português, também na então colónia britânica.
Imagens fornecidas por antigos alunos da Escola Camões em Hong Kong
Fundada em 1947, começou por funcionar no nº 7 da Cox's Road (Tsim Sha Tsui) e abrangia os primeiros anos de escolaridade, da creche ao ensino primário. Embora se destinasse a alunos portugueses/macaenses, depressa passou a aceitar alunos de outras nacionalidades, incluindo chineses. De início teve apoio do Governo de Macau e posteriormente do Governo de Hong Kong e da comunidade portuguesa local. Em 1957 há registo de mais de 200 alunos inscritos.
A primeira director da escola foi a macaense - nasceu em Shameen, Cantão - Maria Lourdes de Oliveira Sales (1926-2022).
No início da década de 1950 o jornalista Armando de Aguiar (Correio da Manhã, do Brasil) visitou Macau e Hong Kong, tendo-se encontrado com Eduardo Brazão. Aqui fica o seu testemunho:
"Num dos navios do magnate macaense Sr. Fu Tak Iam fiz-me transportar a Hong-Kong. O braço amigo do Dr. Eduardo Brasão levou-me a visitar a cidade e os arredores, incluindo Kowloon, que em chinês quer dizer ‘nove dragões’, de Kow (nove) e Lung ou Loon (dragões). E levou-me também a transpor as páginas da história pátria no que diz respeito à presença de Portugal no ‘Porto Perfumado’. Numa das barulhentas e policromas ruas da cidade chamou-me a atenção uma casa revestida de azulejos de aspecto português. Dei- me à curiosidade de investigar a sua origem e apurei serem, realmente, de origem nacional, fabricados em Aveiro. O Clube de Recreio, em Kowloon, é uma afirmação do espírito social da comunidade portuguesa, assim como o Clube Lusitano, fundado em 1866, marca um lugar do mais alto relevo entre as instituições culturais que exaltam e prestigiam o nome de Portugal em países estrangeiros. Pois foi dentro das veneráveis paredes daquela patriótica instituição que o actual secretário nacional da Informação fundou, em Novembro de 1947, o douto Instituto Português de Hong-Kong, destinado à divulgação da nossa cultura naquela colónia britânica, onde, graças ao fecundo impulso que desde o início lhe foi dado por aquele brilhante diplomata, têm sido versados os principais problemas relacionados com a obra da inteligência em Portugal, no passado e no presente. O Instituto Português de Hong-Kong deve ser considerado o remate da obra de defesa da língua de Camões naquela colónia inglesa, onde vivem cerca de mil portugueses. O Instituto e a Escola de Camões, também patriótica iniciativa do Dr. Eduardo Brasão, constituem dois instrumentos onde vibra a alma de Portugal."
Em 1996 os destinos da escola para Po Leung Kuk, adoptando o nome "Camões Tan siu Lin Primary School" e mudando de instalações. Acualmente proporciona esporádicamente cursos de português.
Da vasta obra que Eduardo Brazão deixou publicada destaco:
- "Macau, Cidade do Nome de Deus na China, Não Há Outra Mais Leal",1957
* Macau manteve-se fiel à coroa portuguesa durante o período de união ibérica (1580-1640) e, como recompensa pela "lealdade", o rei D. João IV concedeu-lhe o título de "Não há outra mais leal" em 1654. A aclamação de D. João IV como rei ocorreu em Macau dois anos após a restauração em Portugal, em 1642. 

Sugestão de leitura:
A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos) da autoria  de José Frazão de Vasconcellos publicado em Separata do N.º 53 do Boletim da Agência Geral das Colónias em 1929.

domingo, 27 de julho de 2025

Anúncio "Lições de Pintura"

Este anúncio de "Lições de Pintura para damas e cavalheiros" foi publicado em 1919. É o ano da chegada a Macau de Manuel Antunes Amor. Um homem de muitos talentos. Foi professor - chegou a Macau nessa qualidade com a missão de reformular o sistema de ensino local - fotógrafo, pintor e cineasta. 
PS: por razões técnicas não foi possível disponibilizar este post ontem. 

quarta-feira, 7 de maio de 2025

"Escola Pública de primeiras letras no Collégio de S. Jozé"

São raros os momentos em que os bens mais preciosos são oferecidos, principalmente a quem deles mais necessita. Por entre todas as riquezas que mais ambicionamos talvez encontremos a arte de ler e escrever.
Consta que, no início do século XIX, o Colégio de S. José, em Macau, tinha falta de mestres, estando assim impedido de cumprir uma das suas mais nobres missões. Ao mesmo tempo, na mesma época, do outro lado do mundo, alguém criava um novo método de ensino, sem professores, e a pensar em todas as crianças que poucos meios possuíam para além dos que garantiam a sua mínima subsistência, fazendo da escola uma miragem.
Joseph Lancaster, na longínqua Bretanha, lançava as sementes de um novo método de ensino que germinava em diferentes terras espalhadas pelo mundo, incluindo a pequena península de Macau.
O Colégio de S. José fez publicar um breve aviso nas últimas linhas, da última página, do jornal de 30 de maio de 1823. Era quase uma breve nota de rodapé que A Abelha da China transportava pela Cidade, um jornal que poucos saberiam ler e muitos, quando o miravam, apenas vislumbravam linhas indecifráveis e colunas que se confundiam com manchas negras sem significado. Eram as últimas linhas de um conjunto de notícias sobre Macau, dirigidas aos que, também no último degrau, aguardavam a oportunidade, quiçá única, de serem os primeiros.
Com este aviso, o Colégio anunciava mais uma tentativa para cumprir a sua missão de ensinar e Joseph Lancaster oferecia o caminho que haveria de ser seguido. No dia 2 de junho, daquele ano de 1823, Macau iria conhecer uma segunda-feira diferente, por certo mais iluminada. Avisavam-se os habitantes da Cidade que iria abrir uma Escola Publica de primeiras letras, recorrendo ao methodo de Ensino Mutuo: um professor ensinava um conjunto de alunos que, por sua vez, levavam a lição a outros alunos, dando origem a uma aprendizagem em cadeia, que procurava chegar a um número, sempre crescente, de crianças.
A escola era aberta a todos os meninos da Cidade, e sem nada contribuir para o Professor, porque o Governo disso se encarregaria. Excecionalmente, cada aluno apenas tinha de contribuir com uma simples pataca no início de cada trimestre, a começar no mês de julho, para suportar as despesas como cartas, papel, &a.. Mas, porque esta simples pataca significava riqueza para muitos, esta exceção tinha, também ela, uma outra exceção: Dos meninos pobres nada se exigirá.
Seguindo os ventos que sopravam do ocidente, aportava a Macau o ensino das primeiras letras, que iria agora chegar a todas as crianças da Cidade. Era o momento que lhes iria oferecer a possibilidade de lerem a sua terra, interpretarem a sua vida e escreverem a sua página no livro do mundo, daquele mundo que as aguardava num futuro próximo.
Texto de Alfredo Gomes Dias publicado na Newsletter de Maio de 2025 da Fundação Jorge Álvares.

sábado, 17 de agosto de 2024

Início da construção do Liceu Nacional Infante D. Henrique

 

Estas duas imagens são de meados da década de 1950 onde pode ver-se o início da construção do edifício do Liceu Nacional Infante D. Henrique na Praia Grande. Seria inaugurado em Outubro de 1958.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Uma "Escola Cultural" em 1941

Maria Gomes assina este anúncio como directora da "Escola Cultural" publicado ao longo da várias edições de 1941 do jornal A Voz de Macau. A referida escola funcionava no número 6 da Rua do Campo com os seguintes cursos: Corte e Costura, Culinária Industrial, Culinária Doméstica, Fabrico de Cosméticos, Dança clássica, Instrumentos de Corda e Teoria da Música, Desenho e Pintura a Óleo. Cada curso custava duas patacas por mês.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Escola de "primeiras letras"

Em 1841 um total de 13 estudantes frequentavam a "Real Aula das Primeiras Letras" cujo "mestre" era Joaquim Gil da Costa Pereira.
Estavam divididos em três classes e aprendiam Grammatica Portugueza, Arithmetica, Latim, Doutrina Christã/Cathecismo, escrita, leitura e contas.
Na época não havia ensino oficial (surgiu no últimos quartel do século 19) e, para além da educação dada nas instituições religiosas - no Seminário de S. José havia por exemplo a Aula Nacional de Gramática Portuguesa e Latina - havia os professores privados. Veja-se este anúncio de 1846:
"O abaixo assignado anuncia ao Público, que elle vai pôr huma aula de primeiras letras como ler, escrever, e contar, na feitoria que foi do deffuncto Francisco António Pereira Thovar, e terá princípio em 1º do mês vindouro; qualquer Sr. que queira utilizar-se do pequeno préstimo do ditto abaixo asignado, pode dirigir-se a elle, ou mandar os seus pequenos com seu bilhete; a aula de manhã principiará às 8,30 horas e acabará às 11 e meia, de tarde às 3 athé 5 e meia; pelo seu trabalho hé uma pataca por mês, ou conforme a possibilidade da pessoa. Macau, 25 de Fevereiro de 1846. Francisco X. H. Rebello Freire".

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

A "Nova Escola Macaense"

Em 1861 Alexandrino António de Melo (1809-1877), Barão do Cercal projectou fundar uma escola para o ensino das línguas "portugueza" e "ingleza" - como se escrevia na época - para o sexo masculino. A escola ficaria sob direcção do fundador coadjuvado por uma "commissão consultiva" composta de pessoas da sua escolha.
Para este fim o Barão do Cercal dirigiu a varias pessoas uma circular (15.2.1861) convidando-as a subscrever com donativos para a concretização do projecto e obteve do governador  de Macau autorização para fazer anualmente uma ou mais loterias isentas do pagamento de imposto de selo e cujo capital total não excedesse 12 000 patacas.
O Governo de Macau contribuiu para o fundo com dois contos de reis. A loteria começou a ser vendida em 1861. 
Em Macau os "subscriptores da eschola" - mais de uma centena - reuniram cerca de 18  mil patacas. Os maiores contribuidores foram o próprio Barão do Cercal com duas mil patacas, James B. Endicott* com 1.700 patacas e João Joaquim dos Remedios com mil patacas. Estavam reunidas as condições para contratar os professores, dois em Portugal e um em Inglaterra, segundo Leoncio A. Ferreira: "Inaugurou-se esta escola com o nome de Nova Escola Macaense em 5 de janeiro de 1862". Ficava na Rua Central sendo António Marques Pereira o secretário da Comissão Directora da Escola. No dia da inauguração o barão ofereceu um almoço e depois tocou a banda do Batalhão de Linha, segundo informa o Boletim do Governo na edição de 11 de Janeiro de 1862 (imagem abaixo). A escola seria encerrada em 1867.
Na edição de 15.6.1862 o jornal Echo do Povo dava notícia da "inauguração de duas novas escolas". A Nova Escola Macaense e o Colégio de S. José (após reorganização):
"O anno de 1862 será sempre lembrado nos fastos da historia macaense como uma epocha de feliz recordação para a nossa cara patria. A inauguração de duas novas escolas a que tivemos a satisfação de assistir n'este anno vae naturalmente crear uma nova éra para Macáo, éra de renascimento da educação para a juventude macaense depois de tantos annos de um total olvido d'esta necessidade vital da nossa patria.
O interessante espectaculo que presenceamos hontem no local do collegio de S José de tantos pais de familia abdicando uma parte importante do poder paternal a favor dos dignos padres do seminario ainda pouco conhecidos mostra claramente a necessidade de haver em Macão um estabelecimento como o que acaba de crear-se que receba alumnos internos e deve ser ao mesmo tempo um espectaculo bem consolador para as almas generosas que teem contribuido já com dinheiro já com sua influencia já com seus escriptos para promover a educação da juventude macaense n'estes ultimos tempos.
Se as nossas esperanças teem sido em parte frustradas, se o resultado não tem correspondido cabalmente ao que se podia e devia esperar da creação da Nova Escola Macaense que tinha começado debaixo de tão bons auspicios por eventualidade não dependente da vontade dos promotores d'ella ao menos a creação d'aquella escola tem trazido a nossa patria varios uteis resultados sendo o primeiro e o mais importante certamente o de ter concorrido poderosamente por diversas circumstancias a activar a remessa dos mestres para o collegio de S José que o governo tinha feito esperar por tantos annos promessa que nunca acabava de cumprir e de que tinhamos perdido as esperanças.
Tendo a final visto que uns particulares cá n'este canto do mundo por uma subscripção particular puderam mandar vir mestres de Portugal e Inglaterra não podia já o governo deixar de tratar seriamente de cumprir uma promessa tantas vezes e tão solemnemente feita da remessa de mestres para o seminario diocesano que estava inaugurado sim já ha alguns annos mas que não era mais que um simulacro pela inteira falta do pessoal aquella empreza motivou tambem que os mesmos homens que mais opposição fizeram á creação da Nova Escola Macaense servissem d'esta vez muito bem por aquella mesma rivalidade aos interesses do paiz porque vendo que ia avante o projecto da escola apezar de tanta opposição e não tendo elles querido contribuir para aquella escola concorreram tambem para levar a effeito o estabelecimento de um collegio recebendo alumnos internos como era o desejo geral mas que já ninguem se atrevia a esperar depois de tantos annos de uma esperança sempre frustrada.
Outro bom resultado que Macáo obteve com a creação da Nova Escola Macaense foi o de ter mandado vir um bom mestre da lingua ingleza que é ao mesmo tempo da religião catholica e natural de Londres para poder ensinar com perfeição e verdadeira pronuncia a lingua ingleza. Uma circumstancia que deve ser de um resultado immenso é a escola particular que os mestres da Nova Escola Macaense dão ás meninas tanto da lingua ingleza como da portugueza e franceza pois, por uma carencia absoluta de mestras tem-se achado necessario empregar mestres para ensino de meninas. Além d'isto, quanto mais meios de instrucção houver tanto mais utilidade é para o paiz.
Fazemos sinceros votos pela prosperidade do novo estabelecimento d'ensino como tambem pela conservação da Nova Escola Macaense temos já bastantes motivos para ficarmos bem satisfeitos dos nossos esforços á vista dos bons resultados que temos obtido esperando agora que o tempo venha realisar os nossos ardentes desejos no melhoramento da educação moral e intellectual da nossa cara patria. Macáo 9 de junho de 1862" 

* James Bridges Endicott

Publicado no "Boletim do Governo de Macao" a 8 de Junho de 1863:

Ministério da Marinha e Ultramar
Tendo o Barão do Cercal projectado fundar em Macao um Estabelecimento de Instrucção Primaria e Secundaria e requerendo que para auxiliar a sustentação do mesmo Estabelecimento fosse confirmada a concessão já feita pelo Governador de Macao de uma Loteria annual cujo capital não deverá exceder as doze mil patacas e que igualmente se lhe desse um subsidio annual de 1,500 000 reis
S. Magestade El Rei Dezejando auxiliar todos os estabelecimentos de utilidade publica e particularmente os de instrucção e educação e Tendo em consideração o disposto nas leis a este respeito e especialmente no Decreto de 14 de Agosto de 1845
Ha por bem conformando-se com o parecer do Conselho Ultramarino Determinar o seguinte
1º É confirmada a concessão feita ao Barão do Cercal para fazer annualmente uma ou mais loteria em beneficio da Escolla por elle fundada em Macao com tanto que o capital total em cada anno não exceda a doze mil patacas
2º Em quanto durar a mesma concessão se dará no mencionado estabelecimento ensino gratuito aos que appresentarem attestado legaes de pobreza
3º Esta concessão cessará logo que seja reorganisada a Instrucção publica em Macao
O que pela Secretaria de Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar se participa para os convenientes effeitos ao mencionado Governador o qual deverá estar na intelligencia de que a escolla de que se trata deve ser inspeccionada e superintendida pela Authoridade publica na conformidade das leis bem como que S Magestade Houve por bem indeferir a pertenção da concessão de um subsidio annual prestado pela Fazenda Publica
Paço em 27 de Fevereiro de 1862 José da Silva Mendes Leal

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Escola Stella Matutina: origens

A Portaria nº 5968 de Fevereiro de 1957, assinada pelo Encarregado do Governo, João Carlos Guedes Quinhones Portugal da Silveira, concedeu à Diocese de Macau a concessão gratuita a favor da Missão do Padroado Português no Extremo Oriente de dois terrenos com uma aéra bruta na ordem dos 5 mil m2 situados junto à Av. Dr. Rodrigo Rodrigues "destinados à construção de uma escolar dirigida pelas Religiosas Franciscanas Missionárias de Maria". 
Estava dado o primeiro passo para o que viria a chamar-se Escola Stella Matutina
Actualmente o edifício alberga a secção inglesa do Colégio de Santa Rosa de Lima.

Década 1950/60


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Escolas particulares no século 19

Muito antes de existirem escolas sob a alçada do governo - a chamada instrução pública - o ensino fazia-se ou nos colégios religiosos ou a título particular e era acessível apenas aos mais abastados. Assim, na primeira metade do século 19 por vezes surgiam anúncios como este - de uma "escolla que ensine a meninas ler, escrever, cozer, bordar..." - publicado em 1836 no jornal o Macaísta Imparcial.
"No dia 27 de Abril de 1847, o Padre Jorge António Lopes da Silva aceita, perante o Leal Senado, o convite para reger a recém-estabelecida Escola Primária Municipal, sendo também mestre de primeiras letras, com o ordenado de 350 patacas por ano. Levará, porém, e isso é condição que apresenta, os meninos que até aí estudavam em sua casa. A escola ficou instalada em parte do Recolhimento de Sta. Rosa de Lima, mudando-se para o Convento de S. Francisco em 1849 mas, no mesmo ano, e porque chegou tropa auxiliar de Goa, voltou ao Recolhimento. 
No dia 16 de Junho foi inaugurada a Escola Principal de Instrução Primária, fundada pelo Senado, por meio duma subscrição e uma lotaria que renderam 4.000 patacas e com o donativo de 5.000 patacas que o negociante inglês James Matheson ofereceu, por ocasião da sua retirada para a Europa. O currículo era o já anteriormente pensado mais o ensino de inglês e francês. A escola foi apoiada, desde Setembro deste ano, por proventos de uma lotaria, visto ter muitos órfãos que recebiam instrução gratuita e o encargo ser demasiado para o Senado. A iniciativa de um “Bazar de obras curiosas”, com o mesmo fim, nasceu também neste ano, em Dezembro, e a primeira “edição” deste bazar rendeu $1073,83 patacas. A escola dispunha ainda dos fundos de um legado, como já vimos, e não pagava direitos. Foi seu primeiro director o Pe. Jorge António Lopes da Silva, natural de Macau."
in Cronologia da História de Macau, vol. 2, 2015, de Beatriz B. da Silva
"Aula de primeiras letras como ler, escrever e contar"
in Boletim da Província de Macao, Timor e Solor, 1846

A 5 de Janeiro de 1862 começou a funcionar a “Nova Escola Macaense” por iniciativa do Barão de Cercal que te autorização para obter fundos através de uma lotaria anual e ainda um subsídio do governo para auxiliar a fundação dum estabelecimento de instrução primária e secundária, cujo ensino deveria ser gratuito para os pobres. A escola funcionou até 1867 e com os fundos deste instituto e com o produto das acções subscritas fundou-se a “Associação Promotora da Instrução dos Macaenses”.
Em 1863 Bernardino de Sena Fernandes foi autorizado a estabelecer uma escola particular de meninas, dirigida por mestras francesas, irmãs do Instituto de S. Paulo, que em 1875 foi substituído pelo Colégio de Santa Rosa de Lima.
Em 1878 a taxa de analfabetismo entre os portugueses oriundos de Portugal era de 51% enquanto entre os portugueses locais era de 25%. Nesse ano, escreve João de Andrade Corvo nos "Estudos sobre as provincias ultramarinas", "além das escolas publicas ha 16 escolas particulares frequentadas por 407 alumnos sendo 245 do sexo masculino e 162 do feminino."
A 1 de Setembro de 1882 foi inaugurada a Escola Municipal de Instrução Primária, no nº 17 da Rua de S. Domingos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

A "Carta de Lei" de 27 de Julho de 1893

Em 1893 dá-se uma reformulação do ensino em Portugal com a criação do Regulamento da Instrução Pública, tanto primária como secundária, seguindo a Carta de Lei, de 27 de Julho desse ano. Através deste regulamento, em Macau, o ensino primário fica a cargo do Leal Senado, sendo ainda fundado o "Lyceu de Macau", tendo como anexos um Gabinete de Física e Química e História Natural e uma biblioteca designada por Biblioteca Nacional de Macau. Ao mesmo tempo é extinta Escola de Pilotagem.
Edição do Echo Macaense de 18.7.1893

Na Portaria nº 92, de 14 de Abril de 1894, publicada já em Macau, podia ler-se: "Tendo sido posta em vigor na província por portaria provincial n.º 89 desta data a carta de lei de 27 de Julho de 1893 que criou o Lyceu Nacional de Macau: Hei por conveniente determinar que o edifício do extincto convento de Santo Agostinho seja entregue ao reitor do mesmo Lyceu para alli serem devidamente instalados os estabelecimentos criados pela citada carta de lei". O Liceu seria inaugurado a 28 de Setembro de 1894.
 
Disciplinas do Liceu em 1897

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Escola de Sam Iok / Sam Yuk

Quando foi criada, em Setembro de 1953, a Escola Sam Yuk (dos aventistas do 7º dia) estava localizada na cidade de Macau no nº 5 da Rua Sanches de Miranda, na zona do bairro de S. Lázaro. A rua, que recebeu o nome em homenagem ao governador, tal com o edifício, datam de 1925.
Detalhe da entrada do edifício pela Calçada da Igreja de S. Lázaro
Nos primeiros tempos era uma escola primária, sucursal de uma escola com o mesmo nome em Hong Kong. Em 1961 autonomizou-se face a Hong Kong e em meados de 1967, na sequência da conturbação política e social nas então duas colónias a escola acabou por encerrar  e o governo de Macau utilizaria o edifício anos mais tarde para albergar os serviços de acção social.
Professores e Alunos no primeiro ano lectivo (1953): Chung Wai Poh era o director.
A reabertura aconteceria em 1986, na zona do Fai Chi Kei, apenas em regime nocturno e o nome passa a ser Colégio de Sam Yuk. Em 1994 passa a operar na Taipa onde em 1996 é construído um edifício de raiz e a rua passa a chamar-se Rua do Colégio. é nesta morada que está actualmente a Escola Secundária Sam Yuk de Macau - 澳门三育中学.
Foto acima é da década de 1980 antes do edifício ter sido alvo de obras de restauro.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O "Programma de Instrucção Primária" em meados do século 19

Os 4 "annos" lectivos da "Instrucção Primária" em 1877 eram compostos por sete disciplinas:
Leitura (do 1º ao 4º anno); Escripta (do 1º ao 4º anno); Arithmética (do 1º ao 4º anno); Ensino Religioso e Moral (1º ao 4º anno); Grammatica (3º e 4º anno); Rudimentos da História de Portugal (4º anno); Noções de Geographia e chorographia de Portugal (3º e 4º anno).

Nesta época o ensino primário oficial (em português) ainda não estava sistematizado e existiam várias pequenas escolas - a par dos tutores privados - espalhadas pelas várias freguesia (total de 7) da cidade de Macau. 
Atente-se neste "Aviso" de 1876:
“Para conhecimento daqueles a quem possa interessar e dos pais e tutores das meninas, se publica que a professora da extinta escola da instrução primária da freguesia da Sé, D. Astéria Coelho dos Santos, foi transferida para a de S. Lourenço, e que o funcionamento da respectiva escola, terá começo em 1º de junho próximo futuro, na casa nº 51, sita na Praia Grande. 
Secretaria do Governo de Macau, 31 de Maio de 1876.”

Por volta de 1878, além das escolas públicas havia ainda 16 escolas privadas que tinham 407 alunos, dos quais 245 eram do sexo masculino e 162 do sexo masculino. 
Segundo o regulamento interno do Colégio de Santa Rosa de Lima, em 1875 o ensino primário dividia-se em duas classes; a primeira tinha 4 disciplinas: Leitura, Escrita, Operações Fundamentais de Aritmética (números integrais e fracções) e Religião Católica e Catecismo. A Leitura dividia-se em seis: Introdução à Gramática e Princípios de Análise, História de Portugal, Resumos de Geografia e Geografia das Províncias Ultramarinas de Portugal, Base do Protocolo, Aritmética e Uso e Explicação dos Sistemas de Pesos e Medidas e Desenho e Sua Aplicação Eficaz na Vida Diária.
A 3 de Setembro de 1883 era inaugurada a Escola Central do Sexo Masculino, fundada pelo Leal Senado, sendo-lhe anexadas as Escolas Primárias do Governo (3) e do Seminário (1). Tinha 4 professores e 175 alunos.

sábado, 19 de setembro de 2020

Real Colégio de S. José

Real Colégio de S. José é o nome pelo qual era conhecida a instituição - que mais vulgarmente se conhece como Seminário - quando foi fundada em 1747 no âmbito da missionação católica e do Padroado Português, iniciado no século XV.
Nas imagens o "Diccionario Portuguez-China" de Joaquim Afonso Gonçalves, sacerdote da Missão M. H. R. S. A. "No estilo vulgar Mandarim e Clássico geral", impresso no "Real Collegio de S. Jose" em 1831.
A imprensa/tipografia do Real colégio de S. José (Seminário) foi fundada em 1818. A edição acima, de 1831, é tida como sendo o primeiro dicionário do género a ser impresso. Mas já antes tinham sido impressas outras obras do género, nomeadamente gramáticas de língua chinesa.


Joaquim Afonso Gonçalves, nasceu em Cerva a 23 de Março de 1781, foi uma grande figura na importância das relações entre Portugal, Macau e China.
Entrou no Seminário de Rilhafoles, Lisboa a 17 de Maio de 1799 e tomou os votos em 18 de Maio de 1801.
Partiu de Lisboa em 1812 com o objectivo de fundar o Observatório Astronómico de Pequim. Chegou a Macau a 28 de Junho de 1813 mas devido à conjuntura política que se vivia na corte imperial não pôde prosseguir. 
Entrou então no Real Colégio de S. José ensinando português aos alunos chineses. Foi também assim que aprendeu mandarim e contribuiu para que se abrisse o ensino gratuito a toda mocidade. Em S. José ensinou gramática portuguesa, latina, francesa e inglesa, retórica, lógica e teologia para os eclesiásticos; aritmética, álgebra e geometria.
Publicou várias obras com a chancela do Real Colégio tais como “Grammatica Latina Ad Usum Juvenum” em 1828, “Arte China Constante Alphabeto e Grammática em 1829 (custava quatro patacas), “Diccionário Portuguez-China” em 1831 e “China-Portuguez” em 1833, “Vocabularium Latino-Sinicum” em 1837, “Lexicon Manuale Latino-Sinicum” em 1839, “Lexicon Magnum Latino-Sinicum” em 1841, e os volumes “Versão do Novo Testamento em Língua China”.
Joaquim Afonso Gonçalves foi membro da Real Sociedade Asiática de Calcutá, da Academia de Ciências de Lisboa e também Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
O seu corpo foi sepultado no cemitério de S. Paulo e depois transladado para um túmulo na Igreja de S. José, que ostenta um epitáfio latino, cuja tradução é: 
“A Deus Ótimo e Máximo. Aqui Jaz o Reverendo Sr. Joaquim Afonso Gonçalves, Português, Sacerdote da Congregação da Missão, exímio professor Real Colégio de São José, membro estrangeiro da Real Sociedade Asiática. Solicito pelo bem das missões chinesas, compôs e publicou obras muito úteis nas línguas sínica, latina e portuguesa; foi de costumes irrepreensíveis e exímios pela doutrina, sendo de vida ilibada; cheio de dias, descansou no Senhor, em 3 de Outubro de 1841, aos 60 anos de idade. Os seus amigos e discípulos dedicaram esta lápide em memória de tão ilustre Varão”.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Primeiras noções de hygiene: 1888

"Primeiras noções de hygiene postas ao alcance das crianças" por Madame Pape Carpantier 
para os alunos do grau elementar da Escola Central de Macau
 
Macau : Typographia Mercantil, 1888
Neste livro de 38 páginas estão resumidas algumas das 'lições' de Marie Pape-Carpantier (1815-1878). A par de Friederich Froebel, no século 19 ,esta francesa foi a educadora que revolucionou os métodos de ensino na escola primária sendo a sua obra traduzida para várias línguas.
Desta autora foi publicado no mesmo ano o livro "Primeiras Noções de História Natural postas ao alcance das crianças". 
Nesta época a Escola Central (fundada em 1883 pelo Leal Senado) ensinava apenas os rapazes. As raparigas frequentavam principalmente a Escola Santa Rosa de Lima. Na altura existiam inúmeras pequenas escolas que com o decorrer dos tempos foram sendo agrupadas. As várias escolas para meninas seriam agrupadas por volta de 1895.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Professora Maria Manuel Machado, a "Madame": 1921-2020

Morreu esta semana (dia 5) a professora (do Liceu e da Comercial) Maria Manuel Pereira Sanches Pimenta de Castro Machado, conhecida carinhosamente por Madame e cuja história pode ser vista neste post.
Nascida em 1921 casou com um Oficial do Exército, José Luís de Azevedo Ferreira Machado com quem teve 4 filhos. Desenvolveu toda a sua carreira profissional como professora de francês, tendo leccionado em três continentes: na Europa (Lisboa), em África (Luanda) e na Ásia (Macau).
A estadia em Macau ocorreu primeiro entre 1954 e 1960 e depois entre 1967 e 1973, acompanhando o marido nas suas comissões de serviço. Ensinou no Liceu Nacional Infante D. Henrique e na Escola Comercial, para além de ter dado explicações a inúmeros jovens macaenses de diversas gerações, tendo ficado conhecida por “Madame”, nome pelo gostava de ser tratada pelos seus alunos.

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

"Escola para os Chinas"


Somos informados que alguns chinas offereceram ao governo a quantia de oitocentas patacas para construcção d'uina casa d'escola destinada para o ensino de portuguez aos chinas. 
Sam mui dignos de encomios os chinas que fizeram a offerta, e sel-o-á também o governo, se a essa pequena quantia ajuntar o que for necessário para a construcção d'um edifício decente e apropriado para esse fim. 
Será esta a primeira casa d'escola destinada para os chinas; e por mais modesta e pequena que seja, honrará altamente o governador que a mandar construir, porque representará uma ideia nobre e patriótica, bem como também o reconhecimento d uma obrigação estricta que até agora o governo não tem cumprido.
Os chinas que constituem a maioria dos contribuintes, têem pleno direito de exigir que o governo lhes forneça escolas para instrucçáo dos seus filhos, mas infelizmente as authoridades nunca se importaram d'isso. Fazemos, por tanto, votos para que essa pequena doação dos chinas possa despertar a attenção do governo, e leval-o a tomar este assunto na mais seria consideração.
Os antigos portuguezes, imitando os romanos, procuravam espalhar o conhecimento da sua lingua, onde quer que fossem, porque juntamente com a lingua e com a litteratura se espalhava também a influencia moral e politica.
Em Macau, onde temos uma população chineza, avida d'estudar, quando d'esse estudo lhe pode provir algum lucro, devia o governo, desde muito tempo, ter procurado espalhar o ensino da lingua portugueza, principalmente entre os chinas abastados, que achariam no conhecimento d'essa lingua grandes vantagens nas suas relações com as authoridades e com as repartições publicas. Desejaríamos que o governo não perdesse de vista este elemento de grande alcance para cimentar o domínio portuguez n'este paiz.