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terça-feira, 5 de março de 2019

Edital sobre o Carnaval... há 100 anos

Publicado no Boletim Oficial em Fevereiro de 1919 este edital da Administração do Concelho de Macau (leia-se Leal Senado) diz respeito às proibições declaradas para os dias 2, 3, e 4 de Março de 1919. Entre outras, proíbe-se "atirar das casas, ruas e outros lugares, objectos que possam molestar, sujar ou incomodar os indivíduos ou deteriorar as suas propriedades". Os mascarados estavam ainda proibidos de "divagar" no bairro chinês; os grupos carnavalescos não podiam solicitar "esmolas ou dádivas"; as "danças, músicas, paródias e grupos carnavalescos" tinham de ter autorização prévia da Secretaria Geral do Governo.

sábado, 2 de março de 2019

Uma "soirée" carnavalesca em 1896

O relato que se segue é de uma "Soireé no Palácio do Governo de Macau" no Carnaval de 1896 publicado no jornal Echo Macaense. Foi uma noite bem animada com as "salas do palácio vestidas de gala" onde se destacou a mulher do governador Horta e Costa que "ostentava um rico vestido de seda branco com finos ramos bordados a fio d’oiro" e onde  a última valsa "dançou-se às 6 horas da manhã"...
Baía da Praia Grande numa pintura do século 19. Autor anónimo
Sempre que esta colónia tem occasião demostrar a s. exa. o sr. governador Horta e Costa o quanto o estima e como bem avalia o seu carácter alevantado e correcto, corre pressurosa a manifestar lhe a sympathia que lhe dedica e o respeito que lhe consagra. Teve s. exa. occasião de tal apreciar, quando em Outubro, por occasião do seu anniversario natalício, recebeu de toda a cidade a ovação mais sincera e espontânea que jamais se fez em Macau; no primeiro de Janeiro, quando, apezar de não haver recepção official, toda a colónia correu ao palácio a apertar, n’um impulso de sympatia, a mão leal que dirige os destinos da província; na noite de 15 do corrente, quando tudo o que havia de importante na colónia, quer portuguez, quer estrangeiro, accorreu ao palácio a cumprimentar o sr. Horta e Costa e sua Esposa.
Os salões regorgitavam de convidados, e o sr. Horta e Costa e a sra. D. Adelaide Horta e Costa, tendo para cada um as attenções mais delicadas, a todos deixaram gratíssimos pela maneira como bizarramente foram recebidos e acolhidos no palacio do governo.
As salas do palácio vestiam de gala e estavam requintada e luxuosamente guarnecidas, offerecendo um aspecto deslumbrante. Muita flor, muita luz, aqui e além por entre macissos de verdura, um quadro de fino gosto, colchas de seda de cores delicadamente combinadas, cloisonées artisticamente trabalhadas, etc. O gabinete causerie ornado de plantas tropicais, iluminando discretamente, offerecia os seus sophas voltaireanos cómodo descanso aos valsistas offegantes.
Às 11 horas a soireé estava no seu maior deslumbramento e mal se podia valsar, tantos eram os pares que se entre-chocavam nas duas amplas salas de baile… Às duas horas foi servida uma opípara ceia na casa de jantar, que estava elegantemente ornamentada.
As senhoras (quasi 100) trajavam ricas e elegantes toilletes, havendo muitas dellas que vestiam lindos costumes, destinguindo-se a esposa de s. exa. o governador que elegantíssima no seu costume – Margarida de Vallois – ostentava um rico vestido de seda branco com finos ramos bordados a fio d’oiro.
A ultima valsa dançou-se ás 6 horas da manhã aos primeiros raios de sol, que curioso espreitava por entre as nuvens pardacentas os bustos dos elegantes valsistas, que offegantes principiavam a sentir saudades de uma noite que jamais esquecerão.
in Echo Macaense, 23.2.1896

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

"Macau - Sa Carnaval"


Brincando ao Carnaval: Macau, 1925

Versão portuguesa de “Macau - Sa Carnaval” (“O Carnaval de Macau”), da autoria de Adé:

A nossa Avozinha, noutros tempos,
Mascarava-se em todos os carnavais.
Em grupinhos, com senhoras conhecidas,
Deixando os maridinhos em casa,
Elas adoravam sair à rua mascaradas,
Perfiladas atrás da tuna musical
Para fazer toda a casta de diabruras
E dizer coisas com imensa piada.
Recordar o carnaval doutros tempos
É para a Avozinha sentir saudades.
Carnaval era tempo de ladú,
Massa guisada e pudim de nabo.
Havia hora para cantar e dançar
E hora para os mascarados divertirem a gente.
Ninguém dava cavaco,
Quando eles se metiam com as pessoas.
Um mês antes do entrudo
A paródia começava em vários lugares.
Os mascarados, acompanhados da tuna,
ʻAssaltavamʼ casas de amigos,
Para dançar, cantar e alegrar o coração.
Os donos da casa não se preocupavam...
Os ʻassaltantesʼ que iam para se divertir
Levavam consigo ceia farta.
Chegado o carnaval, o Clube de Macau,
Clube dos Sargentos e Grémio Militar
Davam animados bailes.
A gentinha dançava até doer os pés,
Desde a noitinha até ao amanhecer.
Chegada a hora, serviam canja de galinha
E uma porção de iguarias,
Que todos comiam até se fartar.
Depois do carnaval, havia comédias
No dialecto antigo de Macau,
Para todos rirem às bandeiras despregadas.
Passados uns dias, vinha a ʻmicaremeʼ,
Com mais bailaricos nos clubes.
A tuna tornava a sair
Com os mascarados a fazer-lhe cauda,
Para ʻassaltarʼ mais alguns casarões.
Agora, o carnaval, chegada a hora
Vem e depressa se vai embora,
Ninguém sentindo a sua presença.
Gente entretida com a política
Não tem pachorra para se mascarar.
Para se verem por aí bobos,
Com a boca cheia de baboseiras,
Não é preciso esperar pelo carnaval.”

Hoje em dia, as festas de Carnaval (assaltos/desfiles/bailes) já não são nada do que foram, embora ainda se realizem. A sua importância foi-se perdendo ao longo da segunda metade do século XX.

José Silveira Machado, no livro “Macau na Memória do Tempo”, (2002) escreve a este propósito:

“Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando e galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais”.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Carnaval no ginásio do Liceu: décadas 1930-40

Na parede, o lema do patrono do Liceu, o Infante D. Henrique: "Talent de Bien Faire". O espaço era utilizado não só pelos alunos e docentes da escola como também pela sociedade civil, realizando-se ali algumas festas populares.
Este ginásio foi construído (inaugurado em 1934) já depois do Liceu ter sido transferido do antigo hotel Boa Vista para o antigo Asilo das Inválidas no início da av. Cons. Ferreira de Almeida ao Tap Seac, no início da década de 1920. O Liceu Nacional Infante D. Henrique funcionaria aqui desde essa altura até ao mês de Outubro de 1958.
Imagem do início da década de 1960

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Soirée no Palácio do Governo: Carnaval de 1896

Sempre que esta colónia tem occasião demostrar a s. exa. o sr. governador Horta e Costa o quanto o estima e como bem avalia o seu carácter alevantado e correcto, corre pressurosa a manifestarlhe a sympathia que lhe dedica e o respeito que lhe consagra. Teve s exa. occasião de tal apreciar, quando em Outubro, por occasião do seu anniversario natalício, recebeu de toda a cidade a ovação mais sincera e espontânea que jamais se fez em Macau; no primeiro de Janeiro, quando, apezar de não haver recepção official, toda a colónia correu ao palácio a apertar, n’um impulso de sympatia, a mão leal que dirige os destinos da província; na noite de 15 do corrente, quando tudo o que havia de importante na colónia, quer portuguez, quer estrangeiro, accorreu ao palácio a cumprimentar o sr. Horta e Costa e sua Esposa.
Em 1960
Os salões regorgitavam de convidados, e o sr. Horta e Costa e a sra. D. Adelaide Horta e Costa, tendo para cada um as attenções mais delicadas, a todos deixaram gratíssimos pela maneira como bizarramente foram recebidos e acolhidos no palacio do governo. As salas do palácio vestiam de gala e estavam requintada e luxuosamente guarnecidas, offerecendo um aspecto deslumbrante. Muita flor, muita luz, aqui e além por entre macissos de verdura, um quadro de fino gosto, colchas de seda de cores delicadamente combinadas, cloisonées artisticamente trabalhadas, etc.
O gabinete causerie ornado de plantas tropicais, iluminando discretamente, offerecia os seus sophas voltaireanos cómodo descanso aos valsistas offegantes. A’s 11 horas a soireé estava no seu maior deslumbramento e mal se podia valsar, tantos eram os pares que se entre-chocavam nas duas amplas salas de baile… A’s duas horas foi servida uma opípara ceia na casa de jantar, que estava elegantemente ornamentada.
As senhoras (quasi 100) trajavam ricas e elegantes toilletes, havendo muitas dellas que vestiam lindos costumes, destinguindo-se a esposa de s. exa. o governador que elegantíssima no seu costume – Margarida de Vallois – ostentava um rico vestido de seda branco com finos ramos bordados a fio d’oiro.
A ultima valsa dançou-se ás 6 horas da manhã aos primeiros raios de sol, que curioso espreitava por entre as nuvens pardacentas os bustos dos elegantes valsistas, que offegantes principiavam a sentir saudades de uma noite que jamais esquecerão.
Jornal "Echo Macaense" de 23.02.1896

terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval: décadas 1920-40

Conforme relatos de épocas passadas e testemunhos que foram sendo transmitidos até aos nossos dias, sabemos que o Carnaval foi das festas mais alegres e mais amplamente participadas da comunidade portuguesa de Macau. Os “assaltos”, os bailes, as tunas, as máscaras e as brincadeiras dos foliões quebravam completamente a rotina da vida citadina durante alguns dias, mas os preparativos eram feitos, pelo menos, com semanas de antecedência. Foi assim no dealbar e nas primeiras décadas do século XX, perdendo definitivamente a importância a partir da Guerra do Pacífico, não obstante os esforços feitos por agremiações várias para o revitalizar.
Tuna na casa de Lara Reis (hoje Cruz Vermelha) na Av. da República. Foto da Pou Man Lau. Data: ca. 1935
Este curioso relato do Carnaval, cujo autor apenas utilizou a letra “Z” para se identificar, foi publicado na revista “Renascimento”, de Fevereiro de 1944, centrado nos festejos promovidos pelo vetusto Clube de Macau e pelo Grémio Militar (nome antigo do Clube Militar), onde se concentrava a alta sociedade local:
“(...) Ora eu quero dizer-te, Leitor Amigo, (...), o que era esta época de festa, há muitos anos, quando eu era menino e moço, nesta cidade de Macau.”
No sábado gordo, grandes eram os preparativos para o “baile masquée”que começava às 22 horas nos salões do Clube de Macau. Por volta da hora marcada começavam a chegar os convivas em ar festivo, exibindo os mais luxuosos trajes. O salão, primorosamente ornamentado, era um mar de luz: grandes caraças encimavam os espelhos onde, por mão de mestre, eram desenhadas figurinhas alusivas aos trajes dos grupos que, previamente anunciados, viriam exibir-se em danças de conjunto, à hora marcada, que nunca ia além das 24.
O baile era obrigado a casaca ou a traje carnavalesco e, assim, as pessoas idosas apresentavam-se num rigor de “toilette” impecável, capaz de dar assunto para um jornal de modas e ilustrar um manual de etiqueta.
A gente nova cobria-se de brocados, sedas, cetins, tules, gases, crepes variados, em trajes estranhos e imprevistos, policromando o ambiente de modo estonteante.
Baile de Carnaval no Teatro D. Pedro V ca. 1935 - foto de Neves Catela

Uma numerosa orquestra, vinda expressamente de Hong Kong para tocar no chamado baile de gala, colocada a um canto do salão, oferecia aos bailarinos as mais alegres e variadas músicas de dança.
Os decotes, ligeiramente atrevidos, descobriam colos de alabastro esculpidos por mão de grande artista.
No bar, quatro grandes poncheiras de louça da China, ofereciam aos sequiosos os mais variados e primorosos ponches. As serpentinas e os “confetti” polvilhavam o chão dum colorido estranho e perturbador. O baile decorria na maior animação até à 1 hora em que era servida na plateia do Teatro D. Pedro V uma admirável ceia. Um primoroso caldo era como que o rescaldo do incêndio que o bem provido bar provocara até aí. “Maionnaises” de vários mariscos; “galantines de pâté de foie-gras”; carnes frias como capões, faisões, perús, carneiro, vaca, porco, fiambre, língua salgada, veado, caças variadas; croquetes de toda a espécie, pastéis de massa folhada com recheios variados; pastelinhos de massa fina recheados a primor; bolos, doces, pudins e cremes variados; vinho do Porto à descrição, etc.
Ouvia-se então pelas mesas o desarrolhar das garrafas de “champagne” “Pommerie”, “Mum”, “Coquelicot”, etc. e, nesse salão imenso, todo ornamentado a primor com ricas colchas de seda e brocados encantadores, a alegria reinava sem que a mais pequena nota discordante prejudicasse a distinção, que sempre caracterizava tão faustoso baile.
Finda a ceia, as senhoras, pelo braço dos cavalheiros, dirigiam-se ao salão, e o baile continuava até altas horas da madrugada. Domingo gordo rompia sempre alegre, como a noite da véspera. Tunas, organizadas por rapazes foliões, percorriam as ruas da cidade seguidas de mascarados, não sem que uma certa rivalidade existisse no capricho, em que se colocavam, de oferecer a melhor música em marchas escolhidas.
Os mascarados, que seguiam as tunas, eram uma espécie de bonecos de trapos, empenhando-se cada qual em vestir o mais ridiculamente possível. Pequenos grupos isolados de mascarados percorriam as ruas da cidade cantando e brincando, sem que a ordem pública fosse ao de leve perturbada.
As tunas invadiam então as casas das pessoas conhecidas, e tudo era pretexto para tocar, dançar, rir, comer e beber. Na noite desse gordo Domingo, realizava-se o baile de gala no Grémio Militar. Empenhava-se, então, a direcção do Grémio em oferecer aos sócios um baile tão animado e rico como o do Clube de Macau. Tal finalidade, porém, raras vezes era alcançada, e isto devido apenas à pequenez do salão e ao facto de não haver tão grande número de sócios.
Era, no entanto, o baile do Grémio um rico baile de gala, “masquée” também e — oh vaidade feminina! — não se via nele um único traje dos exibidos na véspera, apesar das senhoras serem as mesmas.
Após a rica e opípara ceia, que era servida na sala de leitura, especialmente arranjada e decorada para esse fim, dançava-se até altas horas da madrugada, sempre na maior animação.
Quer no Clube de Macau, quer no Grémio Militar, organizavam-se “matinées” para crianças, festas que constituíam o encanto das mamãs e das crianças, que brincavam loucamente, rasgando e sujando os ricos trajes variados, que exibiam em manifesta competição, afim de alcançarem o lindo prémio, que era oferecido à criança mais bem vestida.
Desfile de tuna no final da década de 1930: foto do espólio de Maria Augusta de Garcia e Figueiredo publicada pelo projecto Memória Macaense
E pelas ruas continuavam as tunas enchendo os ares dos trinados dos bandolins e a passo marcado pelo ferir violento dos bordões dos violões. A segunda-feira de Carnaval era reservada para os assaltos às várias casas particulares, que recebiam principescamente oferecendo aos convidados e aos assaltantes ricas e abundantes ceias regadas com os mais caros e variados vinhos.
Nestas ceias familiares, ceias verdadeiramente pantagruélicas, apareciam sempre os doces próprios da época, à cabeça dos quais figuravam o “ladú” e a “barba”. A alegria parecia não ter fim, e todos viviam felizes. Na terça-feira continuava a folia pelas ruas e as tunas tocavam sem cessar os seus vastos reportórios.
À noite realizava-se no Clube de Macau a “soirée masquée” de despedida, quase sempre por subscrição entre os sócios.
Era esta a festa mais popular e menos cerimoniosa, sendo recebidas as tunas, que eram sempre acompanhadas de mascarados, na maioria muitíssimo desengraçados, ou então extremamente inconvenientes. Era, porém, pouco duradoura a sua passagem pela “soirée”, e a noite seguia alegre e despreocupada até o romper do dia. Bastante à vontade, os sócios apresentavam-se com trajes exóticos e extremamente ridículos, aparecendo alguns que focavam personalidades de destaque, que nunca se davam por achadas. Geralmente era dada tolerância de ponto nas repartições públicas, na parte da manhã de quarta-feira, porque tanto os chefes como os subordinados não estavam em condições de poder trabalhar, devido ao cansaço. (...)”.
Nas décadas de 50 e 60, nos clubes atrás referidos, em escolas e em algumas outras agremiações recreativas, com destaque para o já extinto Clube 1.º de Junho, que tinha boas instalações e localização privilegiada, entre a Rua do Campo e o Jardim de Vasco da Gama, ainda se organizavam animadas festas de Carnaval, mas o seu impacto na comunidade foi sendo, progressivamente, reduzido. Perduraram, porém, na memória de quantos nelas tomaram parte e nos relatos, escritos e orais, que foram sendo passados às novas gerações.
Artigo de Jorge Rangel, pres. do IIM,  publicado no JTM de 7-3-2011