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sábado, 1 de agosto de 2026

Um "explendido baile" em 1867

"Começaremos o noticiario d'esta semana registrando o explendido baile offerecido na noite de 22 do corrente mez a S. Exa. o Governador da colonia pelo sr. Maximiano dos Remedios, negociante muito abastado d'esta cidade. A festa foi brilhante, e os salões onde se reunio uma mui selecta e luzida sociedade estiveram radiantes de luz e alegria desde o principio do baile até ao fim. Á ceia que foi servida alta noite, e a que não faltou nem a profusão nem o bom gosto, trocaram-se diversos brindes, mui apropriados ás circumstancias, e que foram devidamente recebidos e correspondidos.
A entrada da casa do sr. Remedios estava illuminada com intencional primor. Via-se ali uma estrella e umas letras que explicavam brilhantemente qual a pessoa em cuja honra a festa era dada. — S. Exa. o Governador da colonia ficou muito penhorado com semelhante obzequio e soube bem fazel-o sentir n'um brinde affectuoso que dirigiu a toda a familia Remedios n'um dos momentos da ceia, quando lhe coube responder áquelle que lhe endereçou um dos Patriarchas da familia. A festa dos srs. Remedios foi tão agradavel como sympathica a todos aquelles que tiveram a fortuna de tomar parte n'ella."
Foto de John Thomson ca. 1870

A notícia foi publicada a 28.10.1867 no Boletim da Província de Macau e Timor. O governador homenageado neste baile era José Maria da Ponte e Horta (1866-1868).
Filho de António dos Remédios e de Rita de Sousa Peres - casaram em 1791 e tiveram 16 filhos* - Maximiano António dos Remédios (1808-1875) foi de facto um rico negociante e proprietário, fazendo parte em 1871 da lista dos 40 maiores contribuintes de Macau. Ou seja, dos que mais impostos pagava devido às propriedades que possuía.
A residência da família Remédios ficava na colina da Penha onde a família Remédios tinha várias chácaras**, incluindo uma denominada S. José (junto a Santa Sancha) e aquela onde viria a 'nascer' o hotel Boa Vista (em 1890). Tudo indica que a que é referida nesta notícia de 1867 era esta última.
No livro de 1867 "Os Chins de Macau" Manuel de Castro Sampaio escreve que "Uma das primeiras povoações fica próxima da fortaleza da Barra e é por isso chamada Povoação da Barra. A outra acha-se na encosta outeiro da Penha, onde está a fortaleza do Bom Parto, e onde se encontram as mais lindas chácaras de Macau. Esta é conhecida pelo nome de Tanque-Mainato, nome derivado de um tanque de lavadeiros ou mainatos, como lhes chamam no paiz. As outras três povoações são denominadas de Patane, de Mong-ha e de S. Lázaro."

** na toponímia local ainda hoje existe na zona a Calçada das Chácaras.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Best resort for holiday & honey moon"

Em meados da década de 1960 o Hotel Caravela - localizado na Av. da República, 62-64 - afirmava-se como o melhor refúgio para "férias e luas de mel". O slogan surge numa série de postais ilustrados publicados na altura. 
葡屬澳門明信片-1960年代葡屬澳門西灣金舫酒店Hotel Caravela四景明信片
HOTEL CARAVELA
best resort for HOLIDAY & HONEY MOON famous for its Beautiful Harbour View Luxurious Accommodation & Excellent Service. 
H.K. Booking Tel: K-670265
AVENIDA DE REPUBLICA NO. 62-64,
MACAU
TEL: 5151
HOTEL CARAVELA
o melhor refúgio para FÉRIAS E LUA DE MEL famoso pela sua excelente vista sobre a baía, Alojamento Luxuoso & Excelente Serviço. 
Tel. para Reservas em H.K. [Hong Kong]: K-670265
AVENIDA DA REPÚBLICA Nº 62-64,
MACAU
TEL: 5151
O Hotel Caravela, a Baía da Praia Grande, um dos quartos e o restaurante

O edifício foi construído originalmente em 1933 para residência de Bernardino da Senna Fernandes. Poucos anos depois sofreu obras de remodelação e ampliação. Em 1965 passou a funcionar como hotel com um total de 18/22 quartos. O restaurante de comida portuguesa era bastante apreciado. Os proprietários tinham ainda uma agência de viagens, a Caravela Travel Service. Com recurso a uma pequena frota de autocarros proporcionavam visitas guiadas aos turistas, a maioria de Hong Kong e do Japão. 
Num anúncio do ano da abertura - 1965 - destaca-se:
"Bela situação, paisagem admirável, conforto, comodidade e asseio, a par de tratamento esmerado. Todos os quartos possuem ar condicionado, quartos de banho privativos, rádio e telefone."
Em anúncios em inglês da década 1960 pode ler-se:
"Your entire visit to Macau — guide service, sightseeing, accomodation — can be so simple. Our fleet of buses is ideal for large groups, our cars "just right" for small parties. Ask your Hongkong travel agent to arrange your entire Macau visit with Caravela."
O Caravela encerrou a actividade em 1978 e pouco depois o edifício foi demolido.
Com marcas da arquitectura neo-clássica uma das características especiais eram os azulejos pintados sob os beiras. Localizado numa zona também denominada de 'meia-laranja', originalmente o edifício era branco.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Praya Grande from the North" e "Praya Grande from the South" a lápis e carvão

"Praya Grande from the North."
"Praya Grande from the South" 

Estes dois desenhos a "pencil and crayon" (lápis e carvão) com 20 x 35 cm fazem parte do espólio do Peabody Essex Museum (EUA). Estão referidos no livro "The marine paintings and drawings in the Peabody Museum" - de M. V. and Dorothy Brewington, publicado em 1981 - como tendo sido ofertas ao museu por Richard B. Holman em 1956. A autoria é atribuída a "TA" e datam de cerca de 1887.
TA poderá ser referência a Thomas Allom (1804-1872) uma hipótese que inviabiliza a data aproximada referida no catálogo (ca. 1887). 
Richard B. Holman (1903-1983) foi um conceituado negociante de gravuras raras e desenhos em Boston, colaborador próximo de curadores do Peabody Museum (agora Peabody Essex Museum), como Marion Brewington, que organizou as coleções de arte marítima do museu.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Passeio de lages de pedra"

 

Publicado no Boletim da Província de Macau e Timor com a data de 24 de Abril de 1870 este "annuncio" da Repartição D'Obras Públicas informa que na "Segunda-feira 9 de maio p.v., ao meio dia, se arrematará em hasta publica, a quem menor preço offerecer, a continuação do passeio de lages de pedra, igual ao que já está feito, desde o fim da praia grande até ao Bom Parto. A licitação terá lugar na sala da repartição de obras publicas, no edificio do extincto convento de S. Domingos."

Nesta fotografia feita ca. 1870 pode ver-se o referido "passeio de lages de pedra" no que era então "o fim da Praia Grande", perto do então Palácio do Cercal (onde está actualmente o Palácio do Governo). A extensão do passeio até ao Bom Parto (onde começa a actual Av. da República) era apenas mais uma etapa... A ligação por estrada desde o início da Praia Grande (Junto ao Jardim de S. Francisco) até à entrada do Porto Interior - circundando toda a baía da Praia Grande - só ficaria concluída na década de 1910. Daí que esse troço final tivesse recebido o nome de Av. da República, o regime político entretanto implantado em Portugal.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Nas Praias de Iwo Jima / Sands of Iwo Jima / 硫磺島浴血戰

Nesta fotografia um grupo de jovens está frente a um cartaz - feito de bambú - em inglês, português e chinês - nos aterros da Praia Grande - de promoção ao filme "Nas Praias de Iwo Jima / Sands of Iwo Jima / 硫磺島浴血戰", de 1949, protagonizado por John Wayne.
Tudo indica que os edifícios ao fundo são os primeiros edifícios residenciais ali construídos, já na zona aterrada frente ao Jardim de S. Francisco. O filme teve em exibição nos cinemas Vitória, Capitol, ou Apollo.

Cartaz do filme na época

Assinalei a amarelo o que foram os primeiros edifícios residenciais ali construídos, já na zona aterrada frente ao Jardim de S. Francisco.

domingo, 15 de março de 2026

Mansão na Praia Grande na década 1960

Na imagem uma mansão na Rua da Praia Grande na década de 1960.
Seria demolida em 1972. Mais imagens dessa época aqui

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco

sábado, 31 de janeiro de 2026

A "Markwick's Tavern" na Praia Grande

Na extremidade da Praia Grande (perto da zona que corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a Rua do Campo - Jardim de S. Francisco) Richard Markwick tinha um estabelecimento comercial denominado "Markwick's Tavern" ou "British Tavern". 
Relatos de viajantes na época descrevem o estabelecimento como um edifício de dois pisos. No piso térreo funcionava a taberna propriamente dita, o armazém de provisões e o escritório. No piso superior, onde os hóspedes podiam desfrutar da brisa marítima e observar o movimento dos navios na baía, estavam disponíveis quartos.
O médico inglês Charles Toogood Downing passou por Macau em 1836 e segundo ele "o único hotel inglês no local é grande e mantido por um homem chamado Markwick, que tem outro ainda maior em Cantão. A maioria dos visitantes do sexo masculino reúne-se aqui e diverte-se à noite jogando bilhar, à moda russa."
Era o refúgio principal para oficiais, sobrecargas e passageiros que, enquanto não podiam subir o rio até Cantão, aguardavam em Macau o desenrolar dos negócios ou a chegada das monções. Numa época em que não havia serviço oficial de correio, esta taberna funcionava também como posto de correspondência.
Detalhe de gravura de Thomas Allom (1843) a partir de desenho de outro autor
Assinalei a localização da "Markwick's Tavern"

Da pouca informação que existe sobre Richard sabe-se que era inglês tendo nascido em 1791. Chegou à China acompanhando o pai que era comerciante. Por volta de 1825 demitiu-se da EIC (Companhia Inglesa das Índias Orientais) em Cantão e estabeleceu-se por conta própria. 
Em 1830 era sócio da Markwick & Lane, Co. (com Edward Lane), empresa que funcionava como agente da escuna Sylph, que transportava passageiros e correspondência entre Cantão e Macau. 

No "A COMPANION TO THE CHINESE KALENDAR FOR THE YEAR OF OUR LORD 1832", impresso em Macau, ficamos a saber a localização da Taberna e também do Armazém:

The TAVERN Macao Mr C MARKWICK. Near the east end of the beach two doors to the right of the Chop hose or Custom house station to which Chinese boats generally pull up. 

A TABERNA Macau – Sr. C. MARKWICK Próximo à extremidade leste da praia, duas portas à direita da Chop House (o Hopu - Alfândega), onde os barcos chineses geralmente encostam.

Com esta descrição tão detalhada assinalei na gravura de Thomas Allom - acima - o edifício da Taberna. Aquele mastro com bandeira é o símbolo do Hopu, a alfândega chinesa na Praia Grande. 

Vejamos agora a localização do Armazém de acordo com a descrição na obra referida.

The EUROPEAN WAREHOUSE, Macao. Messrs MARKWICK & LANE. On the Franciscan Green at the east and of the beach.

O ARMAZÉM EUROPEU, Macau – Srs. MARKWICK & LANE. No Campo de São Francisco na extremidade leste da praia. 
A possível localização do armazém de acordo com a descrição
Detalhe de uma pintura ca. 1830 (autor anónimo)

Com a morte do sócio Edwad Lane em 1831, Richard cria uma empresa em nome próprio em 1833, a Markwick & Co. 
Nesta altura já era casado com a macaense Maria Quitéria Ângela Vidal (viúva) com quem teve 3 filhos. Richard morreria vítima de doença prolongada a 30 de Janeiro de 1836. Quem ficou a tomar conta do negócio foi o irmão Charles pelo menos até 1846 quando se mudou para Hong Kong. Morreu em 1857. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick & Co's"

Neste detalhe da primeira página da edição do The Canton Register de 27 de Maio de 1834 assinalei um anúncio:
"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick' & Co.'s"
(As Cartas de Horsburgh sempre à venda na R. Markwick & Co.).
As "Horsburgh's Charts" eram cartas náuticas criadas pelo hidrógrafo escocês James Horsburgh (1762-1836), consideradas as mais credíveis na época para quem pretendia navegar  entre a Índia, o Sudeste Asiático e a China. Uma espécie de "Bíblia" dos Mares...
James Horsburgh, hidrógrafo da Companhia das Índias Orientais desde 1810, compilou décadas de dados sobre ventos, correntes e recifes.
As cartas eram indispensáveis para atravessar locais traiçoeiros como o Estreito de Malaca, o Mar da China Meridional e as aproximações de Macau. Sem elas, o risco de naufrágio em recifes não mapeados era altíssimo.
Na época o Porto de Cantão era o único acessível aos comerciantes estrangeiros na China, após uma paragem obrigatória em Macau onde tinha de obter autorização para prosseguir até Cantão.
Detalhe de carta náutica James Horsburgh. 1815

A firma R. Markwick & Co. - onde se vendiam estas cartas - constituía um pilar logístico fundamental para a comunidade estrangeira em Macau e Cantão na década de 1830, operando como uma espécie de "balcão único" para as necessidades práticas da frota mercante internacional. 
Richard Markwick, o fundador, era um empresário britânico que se posicionou estrategicamente no mercado chinês pré-Guerras do Ópio, não como um negociante de mercadorias como o chá ou o ópio, mas como um facilitador técnico e de serviços. 
Para além de cartas náuticas comercializava outros instrumentos essenciais na navegação como o cronómetro, bens alimentares, material para reparação das embarcações (lonas, cordas, etc...). Actuava ainda como casa de leilões para mercadorias danificadas ou bagagens abandonadas, fornecia alojamento em Cantão e em Macau e assegurava uma ligação marítima com alguma regularidade entre as duas cidades.
PS: no próximo post mais detalhes sobre a estalagem de Markwick em Macau.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os passeios de Harriet Low

A estadia de Harriet Low (1809-1877) em Macau, entre 1829 e 1833, é um dos registos históricos mais fascinantes da presença estrangeira em Macau na primeira metade do século XIX. Harriet viajou de Salem, nos Estados Unidos, para acompanhar o tio, o comerciante William Henry Low - e a tia - que trabalhava para a firma Russel & Co. Na época os comerciantes estrangeiros só podiam viver cerca de seis meses em Cantão, pelo que a restante parte do ano, viviam em Macau em casas arrendadas. Os Low viveramn o nº 2 do Pátio da Sé, ao alto da Calçada de S. João. Na altura as mulheres estrangeiras estavam proibidas de entrar em Cantão. Ainda assim, Harriet desafiou a proibição... 
Os dias em Macau ficaram marcada por bailes, visitas sociais e a constante observação das dinâmicas entre as comunidades chinesa, portuguesa e inglesa.

Vista parcial de uma pintura de G. Chinnery em 1833

Harriet passava grande parte do tempo em visitas sociais - era habitual trocar visitas com outras famílias de mercadores ingleses e americanos - para tomar chá, refeições, bailes...; passeios por Macau, em especial na Praia Grande, ao fim da tarde, quando o calor diminuía, a elite estrangeira passeava pela marginal (a Praia Grande) para apanhar ar fresco. Sendo protestante Harriet também frequentava os cultos do missionário Robert Morrison.
Também teve algumas aulas de pintura com Chinnery para quem pouso para um retrato finalizado em 1833.
Em casa Harriet lia e escrevia cartas à família e o diário. Estes dois tipos de registos permitem fazer uma retrato físico e social de Macau na época. Em 1829 Harriet tinha apenas 20 anos...
imagem criada por IA

Algumas 'entradas' do diário de H. L. que traduzi/adaptei para português...

30 Setembro 1829, quarta-feira (chegada a Macau)

"Macao from the sea looks beautiful, with some most romantic spots. We arrived there about ten o'clock, took sedan chairs and went to our house, which we liked the looks of very much. The streets of Macao are narrow and irregular, but we have a garden in which I anticipate much pleasure." 

"Macau vista do mar é linda, com alguns pontos muito românticos. Chegamos lá cerca das dez horas, pegamos nas cadeirinhas e fomos para nossa casa, de cuja aparência gostamos muito. As ruas de Macau são estreitas e irregulares, mas temos um jardim no qual prevejo muito regozijo."  

18 Outubro 1829, domingo (Passeio na Praia Grande)

"I forgot to tell you of the walk we had yesterday afternoon. We went out with the coolie, and he took us all round the Praya Grande, over a great hill, and back through the town, — a monstrous walk, and for the first one it was terrible. It is so long since we have walked that it overcame us all. The streets here are intolerable, — hilly, irregular, and horribly paved. We met no one but Portuguese and Chinamen, who annoyed us very much by their intent gaze. On our way, however, we saw two of their women with small feet. I was perfectly astonished, although I had heard so much of them; but I never believed it, and always supposed I must be deceived. (...)"

"Esqueci-me de te contar da caminhada que fizemos ontem tarde. Saímos com o coolie, e ele levou-nos pela Praia Grande, ao longo de um grande colina, e de volta pela cidade, - um monstruoso passeio, e para primeiro foi terrível. Há muito tempo que não andávamos e ficámos arrasados. As ruas aqui são intoleráveis, acidentadas, irregulares, e horrivelmente pavimentadas. Não vimos ninguém a não ser portugueses e chineses, que nos incomodavam muito com a forma fixa com que nos olhavam. No passeio vimos ainda duas mulheres chinesas com pés pequenos. Fiquei totalmente surpreendida, embora já tivesse ouvido muito sobre elas, nunca acreditei, e sempre supus não ser possível"
A Praia Grande na época de Harriet
Guache sobre papel - autor anónimo

27 Outubro 1829, terça-feira (Passeio no Campo - zona do Tap Seac)

"We went to the Campo, a beautiful place. The Campo is out of the town some way, is between two high hills, and the sea washing up on side. I ascended one of the hills, which is very high, and on looking round, found my party at great distance below. They had not followed my rash steps, but I was not sorry. It was a perfect spot and I shall try it again."  

"Fomos ao Campo, um lugar lindo. O Campo fica a alguma distância fora da cidade, entre duas colinas altas, com o mar a bater-lhe de lado. Subi uma das colinas, que é muito elevada, e ao olhar em volta, encontrei o grupo com quem passeava a uma grande distância mais abaixo. Eles não tinham acompanhado os meus passos precipitados, mas mão me arrependi. Era um local perfeito e eu vou lá voltar."

Visita à Casa Garden /Jardim Camões (na altura arrendado a uma empresa estrangeira)

"Tuesday we were invited to Mrs. F. 's, to take tea and walk in the garden. It is the most romantic place, is very extensive, and abounds in serpentine walks. There is a beautiful view of the sea, and immense rocks and trees, and several temples in the garden. In another part there is a cave in the rocks where the celebrated Camoens wrote his "Lusiad. " A bust of him stands in the cave. It is a wild and delightful spot." 

"Na terça-feira, fomos convidados para a casa da Sra. F. para tomar chá e passear pelo jardim. É um lugar extremamente romântico, muito extenso e repleto de caminhos sinuosos. Há uma bela vista para o mar, rochas e árvores imensas, e vários templos no jardim. Numa outra parte, há uma gruta nas rochas onde o célebre Camões escreveu os seus "Lusíadas". Um busto dele está na gruta. É um lugar selvagem e encantador."

sábado, 3 de janeiro de 2026

Baía da Praia Grande num óleo sobre latão

 

Pintura a óleo sobre latão de pequenas dimensões (11x15cm) mostrando a baía da Praia Grande ca. 1800. De autor desconhecido é mais um exemplo da chamada "escola chinesa".
Detalhe do lado direito:
Fort. do Monte, Fortaleza e Ermida da Guia; Convento e Forte de S. Francisco, etc
..

Detalhe do lado esquerdo:
Fort. N. Sra. Bom Parto, Ermida da Guia, Seminário S. José, Igreja Mater Dei, etc..

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Repartição do Correio

A 1 de Março de 1884 é finalmente criada a Repartição do Correio em Macau. Os serviços eram até então prestados a título individual por um cidadão* e estavam dependentes dos correios de Hong Kong. 
Correio de Macau
AVISO
Para conhecimento do publico se faz saber que nos dias em que se fechar a mala para a India e Europa se observará n'este correio o horario seguinte:
Dia da mala Ingleza:
Recebem-se correspondencias ordinarias das 11 horas da manhã até ás 9 horas da noute.
Registam-se as correspondencias das 11 horas A.M. até as 5 horas da tarde.
Correspondencias da ultima hora recebem-se no dia seguinte desde ás 6 1/2 até ás 7 da manhã na repartição do correio.
No dia da mala franceza:
Correspondencias ordinarias e registadas recebem-se nas mesmas horas como no dia da mala ingleza.
Correspondencia da ultima hora recebem-se no dia seguinte até ás 6 horas da manhã na repartição do correio.
Macau, repartição do correio, 1 de março de 1884.
R. de Sousa, Director interino.

A nova repartição e respectiva "Estação" passam a funcionar em edifício próprio na Praia Grande sendo a a repartição constituída por um director - Ricardo de Sousa* -  e três carteiros. O edifício onde sobressaem as colunas clássicas tinha do lado direito o Hotel Hing Kee e do lado esquerdo o Palácio das Repartições.
Na origem desde novo serviço está o diploma nº 11 assinado pelo governador Thomaz de Souza Roza e publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 27.2.1884:
"Considerando que a província de Macau e Timor, como colónia portuguesa, faz parte da "união postal universal", como foi expressamente declarado na convenção assignada em Paris em 1 de junho de 1878;
Considerando que, apesar de decorridos mais de cinco annos, ainda esta província não entrou de facto na "união", por se não haver estabelecido convenientemente a respectiva repartição postal;
Considerando que n'uma colónia tão importante não deve continuar o serviço postal a ser feito por uma succursal do correio de Hongkong e por meio de sellos de franquia estrangeiros;
Considerando que o regulamento a que se mandou proceder não pode desde já ser posto em vigor em todas as suas partes, por conter disposições que carecem da approvação do governo da metrópole e de previo accordo com as direcções postaes de diversos paizes;
Considerando porém a conveniencia de providenciar de modo que se dê regular expediente ao serviço do correio, emquanto não fôr approvado o referido regulamento;
Tendo ouvido o conselho do governo e a junta da fazenda:
Hei por conveniente determinar que, a contar do 1.º do proximo mez de março, se ponham em circulação os sellos de franquia portuguezes que, por ordem do governo de S. M., foram enviados para esta província, e que o serviço do correio se regule pelas instrucções provisorias que baixam assignadas pelo secretario geral do governo e fazem parte integrante d'esta portaria.
As auctoridades, a quem o conhecimento e execução d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram. (...)"
Poucos dias depois, a 12 de Março o jornal O Independente publica uma pequena notícia com o título "Correio":
"Desde o 1.º do corrente ficou instituida a estação do correio de Macau em harmonia com o convenio da União postal. Não regatearemos a s. exa. o sr. Thomaz de Souza Roza os nossos louvores, pois se tornou credor dos applaudos de todos pela energia e boa vontade com que, removendo todos os obstaculos que, quaes teias de aranha, prenderam os seus antecessores, resolveu o problema de uma maneira satisfactoria. No regulamento, que segue de perto os regulamentos geraes dos paizes que constituem a União postal, ha alguns erros, ou antes equivocos, que é de presumir se vejam rectificados mais tarde. A nomeação para director interino do sr. Ricardo de Souza não nos entusiasma, como a outros nossos collegas."

Envelope de 1.3.1934: primeiro quinquagenário do Serviço Postal de Macau

A 5 de Abril de 1884 é publicado um "Avizo" no Boletim da Província de Macau e Timor em nome de R. de Sousa, na qualidade de Director interino da Repartição do Correio:
"Por ordem superior se faz publico que n'esta data, para conveniencia do publico, foi collocada á porta da loja do livreiro Matheus Liu, rua de Sam Domingos, n.º 2, uma caixa do correio, e que o mesmo livreiro está devidamente auctorisado para vender as estampilhas postaes do correio d'esta cidade."

PS: O edifício do Correio seria demolido em 1916. No local foi construída uma pequena moradia na década 1920 que albergou, entre outras funções, a sede da empresa Melco. Posteriormente foi também demolida dando lugar ao Hotel Metrópole que ainda hoje ali está.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal de uma missionária em 1863: "Macau é um lugar encantador"

Nascida em Inglaterra em 1842, Mary Gunson desde cedo ouviu histórias de missionários que viajaram para a China e decidiu fazer o mesmo. Depois de receber formação na Wesleyan Methodist Missionary Society (Igreja Metodista Wesleyana), a 18 de Março de 1862 partiu para Xangai onde chegou a 18 de Julho desse ano. O destino final era Cantão - chegou em Agosto - onde iria dar apoio a outros dois missionários, Joan e George Piercy.
Ao fim de menos de um ano contraiu tuberculose e acabaria por regressar a casa. Pouco tempo depois dessa derradeira viagem esteve em Macau como conta numa carta escrita à irmã em Fevereiro de 1863 e que consta no livro publicado em Londres em 1865 "Love For China: Exemplified In Memorials Of Mary Gunson" da autoria de George Piercy. A estadia em Macau deveu-se à doença já que o clima do território era considerado mais indicado.
Na carta, Mary Gunson descreve o período de férias em Macau, durante o Natal de 1862 e o Ano Novo Chinês de 1863 - Ano do Porco iniciado a 18 de Fevereiro (quarta-feira) desse ano. Na carta conta que em Macau esteve hospedada em casa do casal Williams, faz uma descrição da baía da Praia Grande e dá ainda conta de uma visita ao cemitério protestante.
O casal referido é muito provavelmente Samuel Wells Williams (1812-1884) e Sarah Simonds Walworth (1815–1881). Samuel foi missionário, sinólogo e diplomata. Na época em que a carta foi escrita já era Secretário e Intérprete da Legação dos Estados Unidos na China, com sede em Pequim. Por certo manteve a casa que tinha em Macau já que o clima de Inverno era muito mais agradável do que o de Pequim podendo estar ali apenas naquela altura a mulher.
Macao February 23rd 1863
My Dear Jamie
Really how busy you must be what with attendance on the cows writing for father and many little errands for mamma and Ellie. I am so glad you are able to assist dear father; he has always so much to do. I hope you chose the prettiest cow to bear my name. Cows are not common here but the Portuguese seem very fond of goats and wherever we turn they are running and skipping about. Their milk is drunk by the Portuguese families.
Macao is a delightful place with beautiful walks. It is a small peninsula forty miles west of Hong kong belonging to the Portuguese. Look and you will find it on the map and then you will see the place where my Christmas holidays were spent and how far we had to travel by steamer from Canton to reach it.
On our approach to the town of Macao we got quite near the place before we could see the least of it then on turning a rocky point the whole town and bay burst upon us quite suddenly.
The bay forms a beautiful curve around which the houses are built and a fort at each end to protect the place; these are garrisoned by soldiers.
There are ten Roman Catholic churches here. O, poor deluded people. I saw them in the cathedral kneeling on the floor and thought their faces looked the very picture of misery. Theirs is a cold love less religion nothing but outward show and altogether unsatisfactory to the mind in which God has planted a desire for Himself and where until He is received there remains an aching void nothing else can fill.
The priests are numerous and strange looking beings on account of their singular dress. We have generally been able to walk out before breakfast which is very refreshing and then again in the evening. These walks are such a treat to me, Dr. and Mrs Williams, with whom we are staying are exceedingly kind.
Many Chinese live here and some of them are Roman Catholics. The 18th was the Chinese new year it is a universal holiday, their only one. All the shops were closed and every one was dressed in his or her best. I was taken through the Chinese part of the town that I might see how it would look if they kept the Sabbath day. It was touching. It grieved me much though to see the people gambling. I have twice visited the Protestant burial ground where lie the remains of many devoted Christian, men and women, among them four wives of Canton Missionaries and several children. I saw Dr Morrison's grave and gathered a few leaves which I enclose you must keep them in remembrance of that great man the first Protestant Missionary to China.
Love to all at home, a large portion to dear mamma who has been so ill. I hope when this reaches you, she will be quite well. I am, dear Jamie, the same Polly who left home now almost a year ago and still loving you all, as dearly and always having in mind the prospect of returning. O, to see you all once more. Your affectionate sister
Mary Gunson
Tradução/Adaptação

Macau, 23 de Fevereiro de 1863
Meu querido Jamie,
Iagino como deves andar ocupado a tratar das vacas, a escrever para o pai e a fazer pequenos recados para a mãe e para a Ellie. Fico tão contente por poderes ajudar o nosso querido pai; ele tem sempre tanto que fazer. Espero que tenhas escolhido a vaca mais bonita para levar o meu nome. As vacas não são comuns aqui, mas os portugueses parecem gostar muito de cabras e, para onde quer que nos voltemos, elas andam a correr e a saltar. O seu leite é bebido pelas famílias portuguesas.
Macau é um lugar encantador, com belos passeios. É uma pequena península a quarenta milhas a oeste de Hong Kong, pertencente aos portugueses. Procura e encontrá-la-ás no mapa; assim verás o lugar onde passei as minhas férias de Natal e a distância que tivemos de percorrer em vapor, desde Cantão, para aqui chegar.
À medida que nos aproximávamos da cidade de Macau, foi preciso chegar muito perto antes de conseguirmos ver o que quer que fosse; depois, ao dobrar uma ponta rochosa, toda a cidade e a baía surgiram subitamente diante de nós.
A baía forma uma bela curva em redor da qual as casas são construídas, com um forte em cada extremidade para proteger o lugar; estes estão guarnecidos por soldados.
Existem aqui dez igrejas católicas romanas. Oh, pobres pessoas iludidas. Vi-as na catedral, ajoelhadas no chão, e achei que os seus rostos eram o próprio retrato da miséria. A religião deles é um amor frio e sem vida, nada mais do que exibição exterior e totalmente insatisfatória para a mente na qual Deus plantou o desejo por Si próprio e onde, até que Ele seja recebido, permanece um vazio doloroso que nada mais pode preencher.
Os padres são numerosos e seres de aparência estranha, por causa das suas vestes singulares. Geralmente temos conseguido sair para caminhar antes do pequeno-almoço, o que é muito revigorante, e depois novamente ao anoitecer. Estes passeios são um verdadeiro deleite para mim; o Dr. e a Sra. Williams, com quem estamos hospedados, são extremamente amáveis.
Muitos chineses vivem aqui e alguns deles são católicos romanos. O dia 18 foi o Ano Novo Chinês; é um feriado universal, o único que têm. Todas as lojas fecharam e todos se vestiram com as suas melhores roupas. Levaram-me a visitar a parte chinesa da cidade para que eu pudesse ver que aspeto teria se eles guardassem o dia de Sábado. Foi comovente. No entanto, entristeceu-me muito ver as pessoas a jogar. Visitei por duas vezes o cemitério protestante, onde jazem os restos mortais de muitos cristãos dedicados, homens e mulheres, entre eles quatro esposas de missionários de Cantão e várias crianças. Vi o túmulo do Dr. Morrison e colhi algumas folhas que envio em anexo; deves guardá-las em memória daquele grande homem, o primeiro missionário protestante na China.
Envio amor para todos em casa, uma grande parte para a querida mamã, que tem estado tão doente. Espero que, quando esta carta te chegar às mãos, ela já esteja completamente recuperada. Sou, querido Jamie, a mesma Polly que saiu de casa há quase um ano e que ainda vos ama a todos profundamente, mantendo sempre em mente a esperança de regressar. Oh, ver-vos a todos uma vez mais.
A tua irmã afetuosa, Mary Gunson"

Nota: Mary regressou a Inglaterra pouco depois de escrever esta carta onde morreu a 29 de Maio de 1864. Tinha 22 anos. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Macau por Gabriel Lafond de Lurcy

Tendo por base o post de ontem, aqui ficam alguns excertos sobre Macau incluídos no livro "Quinze ans de voyage autour du monde" (Paris, 1840). Destaque para a descrição do território no primeiro quartel do século 19: baía da Praia Grande, bazar chinês, Porta do Cerco, Gruta de Camões, etc...
Tradução/Adaptação:
A cidade de Macau, em chinês Ou-Moun, fica numa posição agradável e sadia, dezoito milhas a leste de Cantão, a doze da Grande Lemma, e a um pouco menos da Grande Ladrão. É a única possessão europeia no império chinês, possessão a cada dia mais precária e mais contestada pelo governo imperial. Colinas coroadas de pinheiros atrofiados circundam a cidade construída na península e que termina na ilha de Ngao-Men ao sul. Logo que parámos no canal frente a Macau, a mais de duas léguas de terra, o piloto chinês que tínhamos a bordo avisou-nos que deviamos enviar um bote a terra para pedir ao hopu, ou director da alfândega, o piloto que nos conduzirá a Wampoa. (...) 
Chegámos pelas dez horas à Praia Grande, porto metade europeu, metade asiático. As embarcações destinadas aos passageiros eram às centenas na baía e pareciam engolir-nos. A forma ligeira como navegam e a facilidade com que manobram são surpreendentes. Por vezes, eram manobradas por duas ou três jovens mulheres, algumas com traços graciosos. Uma fiada de belas casas, brancas, elegantes, de estilo europeu, alinhava-se ao longo da margem e numa extensão de cerca de uma milha: é o que se chama a Praia Grande. Os belos edifícios da Companhia inglesa destacavam-se entre todos os outros, a maior parte dos quais é habitada por comerciantes ingleses, que para aqui vêm viver quando não se pode fazer o comércio do chá na China, e por alguns ricos negociantes portugueses e de outras nações estrangeiras. (...)
Tinha vindo a terra para renovar as provisões frescas do navio e as levar a bordo, mas a tarefa acabou por ser feita por um 'comprador'. Aproveitei este tempo livre para percorrer Macau. Encaminhei-me para o bairro chinês, também chamado bazar, situado no interior da cidade sobre o braço de mar que chamam ribeira de Macau. Este bairro compõe-se de uma miríade de pequenas ruas estreitas cruzando-se em todos os sentidos, ladeadas por lojas perfeitamente decoradas e guarnecidas de uma variedade infinita de mercadorias. Uma multidão atarefada indicava que esta parte da cidade era o centro de um grande movimento comercial. Os desembarcadouros, instalados aqui e ali nas margens do rio, estavam cheios transeuntes e de uma quantidade incontável de embarcações de passageiros servindo para transportar os habitantes de um lado ao outro ou de os conduzir a bordo dos navios maiores. É aqui que se abrigam os juncos e as embarcações portuguesas, vendo-se nas margens feitorias, lojas, as alfândegas portuguesa e chinesa bem como estaleiros navais. 
Na parte portuguesa da cidade algumas igrejas têm um aspecto miserável. As ruas são, na maioria, muito íngremes e mal construídas, salvo algumas excepções. Todas vão da Praia Grande para a ribeira de Macau. Não tendo muito tempo disponível, acompanhado de um guia chinês apressei-me a afastar-me do centro da cidade para ter uma ideia dos arredores. Segui ao longo de uma muralha e reentrei por uma porta junto ao cemitério chinês, depois de dar uma vista de olhos às fortalezas portuguesas que dominam o mar. (...)
A península em que Macau está tem, no máximo, meia légua de comprimento por um quarto de légua de largura. O istmo que a reúne ou, para dizer melhor, a isola da ilha de Ngao-Men é extremamente estreito e fechado por uma muralha que nem os portugueses nem os estrangeiros podem atravessar. Nesta pequena península montanhosa dominam as colinas não muito elevadas, mas escarpadas e pitorescas. A cidade ocupa uma parte deste espaço; o resto está coberto de casas de campo cuja resplandecente brancura dá um ar risonho aos arredores da cidade. Numa das colinas, do lado do rio, fica a célebre gruta em que o autor de Os Lusíadas compôs o seu poema. Algumas das outras colinas têm fortes portugueses, cuja artilharia é limitada pelos chineses que diminuem à sua vontade o número de peças com que podem estar armadas. Mesmo para fazer reparações é preciso uma autorização.
A população de Macau e do istmo é avaliada assim: 500 europeus de sangue puro; 25 000 a 30 000 chineses; 4000 portugueses, mestiços quase todos, ou o resultado de misturas, com uma infinidade de nuances e graus, da raça europeia com as raças chinesa, indiana, timorense, malaia e africana. (...)
Excertos na língua original (Tomo I - Capítulo VII):
(...) La ville de Macao en chinois Ou Moun est dans ume position agréable et saine à dix huit milles à l'E de Canton, à douze de la Grande Lemma et à un peu moins de la Grande Ladrone; c'est l'unique possession européenne dans tout l'empire chinois, possession de jour en jour plus précaire et plus contestée par le gouvernement imperial.
Des collines couronnées de pins rabougris entourent la ville bâtie sur la péninsule dont je viens de parler et qui termine l'île de Ngao Men vers le sud. Dès que nous eûmes mouillé dans le passage, vis à vis Macao, à plus de deux lieues de terre, le pilote chinois que nous avions à bord nous prévint que nous devions envoyer un canot à terre, pour demander au Hopoo, ou directeur de la douane, le pilote qui devait nous conduire à Wampoa.
Je fus expédié dans le bateau où M Duboisviolet et son secrétaire s'étaient également embarques. Nous arrivâmes vers dix heures à Praya Grande port moitié européen moitié asiatique. Les embarcations destinées aux passagers se trouvaient par centaines dans la baie et semblaient voltiger autour de nous leur légèreté sur les eaux la facilité avec laquelle elles virent de bord sont surprenantes souvent elles étaient conduites par deux ou trois jeunes fdles dont quelques unes avaient des traits gracieux Une rangée de belles maisons blanches élégantes d une construction européenne s alignait sur le rivage sur une étendue de près d'un mille c'est ce que l on nomme la Praya Grande.
Les beaux bâtimens de la Compagnie anglaise se faisaient remarquer parmi ces édifices dont la plupart étaient habités par des négocians de cette nation qui viennent y passer le temps de la clôture de la traite du thé et par quelques riches négocians portugais ou d autres nations étrangères A notre débarquement la douane nous fit payer une piastre ou cinq francs par tête et autant par malle ou colis de marchandises impôt inique humiliant et lourd auquel les Portugais eux mêmes n osent pas se soustraire car je l'ai dit leur domination à Macao est purement nominale leur pavillon n y flotte (...)
(...) je profitai de cet intervalle de liberté pour parcourir Macao en attendant l heure du départ Je m acheminai vers le quartier chinois nommé aussi le Bazar et situé dans l intérieur de la ville sur le bras de mer appelé rivière de Macao. Ce quartier se compose d une multitude de petites rues étroites se coupant dans tous les sens bordées dé boutiques parfaitement ornées et garnies d une variété infinie de marchandises une foule affairée indiquait que cette partie de la ville était le centre d un grand mouvement commercial Les débarcadères pratiqués de distance en distance sur les bords de la rivière étaient encombrés d allans et de venans et d une quantité innombrable de bateaux de passage servant à transporter les habituas d un quartier à l autre ou à les conduire à bord des grandes embarcations du pays. 
C'est dans ce bras intérieur que se tiennent les jonques chinoises et les navires portugais et sur ses bords l on voit les factoreries les magasins les douanes portugaise et chinoise ainsi que les chantiers de construction. Dans le quartier portugais j aperçus quelques églises d une assez chétive apparence la plupart des rues sont fort montueuses et généralement mal bâties hors de rares exceptions toutes se dirigent de la Praya Grande vers la rivière de Macao.
Ayant peu de temps à ma disposition je me hâtai accompagné du Chinois que l on m avait donné pour guide de sortir de la ville pour avoir au moins une légère idée de ses environs Je longeai d abord une partie de son enceinte et rentrai par la porte voisine du cimetière chinois après avoir jeté un coup d œil sur les forts portugais qui dominent la mer A chaque porte je trouvai une garde de soldats noirs ou cipayes de l Inde commandés par des oificiers portugais ou soi disant tels.
La presqu'île sur laquelle Macao est située a tout au plus une demi lieue de longueur sur un quart de lieue de large L isthme qui la réunit ou pour mieux dire l isole de l île de Ngao Men est fort étroit et fermé par une muraille que ni les Portugais ni les étrangers ne peuvent franchir ou qu ils ne franchissent pas impunemente.
Le sol de cette petite presqu'île est montueux composé de collines peu élevées mais escarpées et pittoresques dans leurs proportions exiguës la ville occupe une partie de cet espace le reste est couvert de maisons de campagne dont l'éblouissante blancheur donne une physionomie riante aux environs de la ville. L'une de ces collines dans l'enceinte de la ville du côté de la rivière est couronnée par la célèbre grotte où l auteur de la Lusiade composa son poème et quelques autres le sont par des forts portugais dont l'artillerie est limitée par les Chinois qui diminuent à leur gré le nombre des pièces dont ils peuvent être armés même pour réparer leurs affûts il faut une autorisation expresse.
La population de la ville et de l'isthme de Macao est évaluée ainsi qu il suit cinq cents Européens pur sang vingt cinq à trente mille Chinois et quatre mille Portugais sang mêlé presque tous ou provenant du mélange à une infinité de nuances et de degrés de la race européenne avec les races chinoise indoue timorienne malaisienne et africaine Les humiliations que les Chinois font subir à cette race portugaise dégénérée sont intolérables et elle ne peut sortir de cette abjection car d un mot le gouvernement impérial pourrait affamer toute cette population et la forcer d aller chercher fortune ailleurs Les Chinois ne craignent que les noirs esclaves ou libres qui vivent à Macao et que l on a vu souvent se réunir et faire trembler les mandarins.
Le mouillage de Macao se nomme le port de la Taypa il est formé par plusieurs îles escarpées et situé en face de la ville il ya aussi la baie portugaise et Praya Pequena Au nord de l ile de Ngao Men s ouvre le grand bras du Tigre bordé au nord par la côte chinoise On nomme ce passage qui est le plus fréquenté dans la mousson du N E la passe du dehors. (...)