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| Ainda não existia a igreja S. Francisco Xavier Foi construída em 1928 Ao fundo era um orfanato dirigido pelas irmãs canossianas |
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Fotografias raras do Monumento aos Piratas em Coloane
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Conselho de Guerra no julgamento de piratas em 1910
Um monumento que existe em Coloane frente à igreja não passa despercebido mas imagino que a maioria das pessoas que por ali passa desconhece a sua origem. Remonta a 1910 quando ainda havia ataques de piratas...
A 5 de Maio de 1910 um grupo de piratas assaltou uma escola na aldeia de Tong-Hang, distrito de San-Neng, (perto de Macau) raptaram 17 alunos e um ajudante de cozinheiro e levaram-nos para Coloane, exigindo $35.000.00 de resgate. Perante o conhecimento dos factos - já em Julho - e apelos dos familiares dos sequestrados, o governador Eduardo Marques ordenou uma força militar atacar os piratas e libertar as crianças.
É assim que começa a operação militar na Ilha de Coloane. Após um contingente inicial ter sido repelido a tiro, foi mobilizada uma força composta por polícias europeus, tropas chinesas, indianas e paquistanesas, marinheiros e as lanchas-canhoneiras Pátria e Macau.
| Lancha canhoneira "Macau" na década 1910 |
Os combates tiveram início a 14 de Julho com o bombardeamento da orla de Coloane, prolongando-se por vários dias devido à dificuldade em diferenciar a população dos piratas e em localizar os reféns. A 19 de Julho, as tropas descobriram a primeira caverna, resgatando 11 crianças e detendo sete piratas. Nos dias seguintes, recorrendo ao uso de enxofre para forçar a saída dos ocupantes, foram invadidas outras cavernas, como a da praia de Hác-Sá, o que permitiu libertar mais crianças e capturar dezenas de meliantes.
No total, foram capturados cerca de 300 piratas e a maioria das crianças regressou para junto dos pais, enquanto as não reclamadas foram assistidas pela Santa Casa da Misericórdia e pelo Hospital de S. Rafael, acabando algumas por ser adoptadas na comunidade.
O desfecho deu-se a 30 de Agosto de 1910 com o julgamento em Conselho de Guerra no Quartel de S. Francisco - processo que contou com a participação do jurista e poeta Camilo Pessanha -, culminando na condenação de oito cabecilhas a 28 anos de degredo em Moçambique.
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| 1910年路環島打擊海盜行動中逮捕的海盜 |
Esta fotografia mostra cinco dos piratas presentes ao Conselho de Guerra no que parece ser o pátio do Quartel de S. Francisco em Agosto de 1910. Têm de cada lado dois militares do exército português de serviço em Macau.
terça-feira, 30 de janeiro de 2024
Vapor a pás "Spark"
Na extensa lista dos navios entrados e saídos do porto de Macau em Agosto de 1853 um dos nomes que se destaca é o do vapor "americano" Spark comandado pelo capitão Castilla. Na época a embarcação assegurava a ligação marítima de passageiros entre Macau e as cidades de Hong Kong e Cantão.
Construído em 1849 por R. B. Forbes, o Spark foi comprado pelo comerciante James Bridges Endicott (1814-1877) - natural de Salem, Massachusetts, EUA. Foi transportado em peças sendo reconstruído em Hong Kong em 1850 nos estaleiros navais denominados Whampoa (também era o nome de uma pequena ilha entre Macau e Cantão - já muito perto desta última, actual Huanpou/Pazhou).
Os estaleiros eram chefiados por Endicott que chegou ao Sul da China com apenas 15 anos -por volta de 1831 - tendo vivido em Hong Kong, Cantão e Macau até à morte em 1870. A sua ligação a Macau explica a existência de um placa na capela protestante, junto ao cemitério.
| O Spark em Cantão num detalhe de uma pintura de meados do século 19 cuja autoria é atribuída a Tingqua. |
| Anúncio de 1876 |
A seguir, o testemunho de Walter William Munday, vítima de um ataque de piratas a bordo do Spark em Agosto de 1874 numa viagem de Cantão para Macau. Este tipo de situações era muito frequente. Foi notícia no jornal The London and China Telegraph.
"I embarked on board the Spark on the 22nd of August to proceed on business to Macao. We left Canton at half past seven in the morning and were due at Macao between four and five the same afternoon. The Spark is a paddle wheeled steamer the lower deck being confined exclusively to Chinese passengers and having a winding staircase near the stern leading to the quarter deck which was for Europeans. There were a great many native passengers but I had the misfortune to be the only European. The crew consisted of about twenty men Chinese and Portuguese half casts. The captain, poor Brady, was an American and although an utter stranger to him previous to our journey it has seldom been my good fortune to have a nicer or more amiable companion. We had a capital run to Whampoa where we arrived at about nine o clock and breakfasted.
The Canton steamer to Hongkong and the return steamer from Hongkong ought to have passed us soon after leaving Whampoa but from some reason they were delayed and did not pass us till after twelve o clock which obliged the pirates to put off their attack. The river here where the outrage was perpetrated is about one mile across. So far the trip had been most delightful nothing had occurred to awaken any suspicion. I was still as wedded to the humdrum existence and safety of English life as if I were but taking a trip in the British Channel and so little thinking of any peril that I dozed over my cigar and book under the awning for ward I must have slept here some time as I certainly awoke with a start it may have been a noise it may have been instinct of danger which roused me. Which it really was I am unable to tell but I immediately perceived a man rushing up the gangway towards me with a knife in his hand and a gash across his fore head. Surprised and only half awake my first thought was that he was a madman and I rushed out to procure help to seize him. (...)"
terça-feira, 8 de novembro de 2022
Um acto de pirataria há 100 anos
A serious case of piracy occurred on 19th November (1922) on board the S.S. Sui An which runs between Hongkong and Macao. On her return journey from Macao a number of Chinese who had embarked as passengers held up the steamer killing two of the Indian guards and wounding the captain and several others. The steamer was taken to Bias Bay in Chinese territory where the pirates landed in junks which appeared to be waiting taking with them a quantity of loot. After they had left the steamer it was brought back to Hongkong by the first officer.
in Colonial Reports, Great Britain. Colonial Office
Um grave caso de pirataria ocorreu em 19 de novembro (1922) a bordo do S.S. Sui An, que circula entre Hong Kong e Macau. Na viagem de regresso de Macau, vários chineses que embarcaram como passageiros retiveram o vapor matando dois dos guardas indianos e ferindo o capitão e vários outros. O navio foi levado para a Baía de Bias, em território chinês, onde os piratas desembarcaram para juncos que pareciam estar esperando, levando consigo uma parte da pilhagem. Depois de abandonarem o vapor, ele foi levado de volta para Hong Kong pelo primeiro oficial.
Segundo relatos da época, os 65 piratas entraram fortemente armados no vapor Sui An disfarçados de passageiros. Naquele domingo o vapor transportava cerca de 400 passageiros chineses e 60 passageiros europeus.
Veja-se a notícia da agência Associated Press publicada em jornais um pouco por todo o mundo...
Hongkong, Nov. 20 (Associated Press) - Sixty-five Chinese buccaneers, who might have stepped from some ancient log of the Spanish Main, traveled as passengers aboard the British steamboat Sui-An, when she Left Macao for Hongkong yesterday afternoon. (...)
O Sui An era um dos vapores da empresa Hong Kong, Canton and Macao Steamboat Co. Ltd. que fazia o transporte de passageiros entre Macau e Hong Kong.
quarta-feira, 20 de julho de 2022
Piratas a bordo do vapor Sui An
Chinese Pirates Lose 13 Hour Fight For Ship
Hong Kong, Nov. 20 (Associated Press).
Sixty-five Chinese buccaneers who might have stepped from some ancient log of the Spanish Main traveled as passengers aboard the British steamer Sui an when she left Macao for Hong Kong yesterday afternoon. Seizing the ship a few miles out, the pirates held her for thirteen hours, and the crew and passengers made Hong Kong today, with their captors driven away in sampans, only after a fierce battle in which two were killed and several wounded, including the captain of the Sui-an, a French priest and another European passenger. The British steamer was carrying a large number of European and Chinese passengers.
The pirates, heavily armed, were disguised as first or second class passengers. When the Europeans showed resistance, the pirates threatened to beach and burn the vessel. In the fighting that followed two Indies watchmen were killed and two others of the crew were wounded. The captain's wound is serious.
The invaders then got the upper hand and locked up passengers and crew. The pirates passed Hong Kong, out at sea. and began to steam in the direction of Swatow. Finally, thirteen hours later, a European shot and wounded the pirate chief. The chief’s wife then directed that the excursion be abandoned. Midway between Hong Kong and Swatow the outlaws escaped in sampans. The Sui-an reached Hong Kong at noon today.
The Sui-an is listed as a ship of 1265 tons, owned by the The Hong Kong, Canton and Macao Steamboat Company. Ltd. Macao is across the mouth of the Canton river from Hong Kong and about fifty miles distant.
Notícia da Associated Press de 20 de Novembro de 1922
| Imagem e legenda Boletim Geral das Colónias, 1929 |
Piratas Chineses Perdem 13 Horas de Luta por Navio
Hong Kong, 20 de Novembro (Associated Press).—Sessenta e cinco piratas chineses viajaram como passageiros a bordo do navio britânico Sui an quando este partiu de Macau para Hong Kong na tarde de ontem.
Apoderando-se do navio a algumas milhas de distância, os piratas detiveram-no durante treze horas, e a tripulação e os passageiros chegaram hoje a Hong Kong, depois dos captores terem fugido em sampanas e após uma feroz batalha em que dois morreram e vários ficaram feridos, incluindo o capitão do Sui-an, um padre francês e outro passageiro europeu.
O vapor britânico transportava um grande número de passageiros europeus e chineses. Os piratas, fortemente armados, estavam disfarçados de passageiros de primeira ou segunda classe. Quando os europeus mostraram resistência, os piratas ameaçaram encalhar e queimar o navio. Nos combates que se seguiram dois vigias indianos foram mortos e outros dois tripulantes ficaram feridos. O ferimento do capitão é grave.
Os invasores chegaram a levar a melhor e prenderam passageiros e tripulantes. (...) Finalmente, treze horas depois, um europeu atirou e feriu o chefe dos piratas. A mulher do chefe acabou por ordenar o fim das hostilidades e abandonaram o navio. A meio caminho entre Hong Kong e Swatow, os bandidos escaparam em sampanas. O Sui-an chegou a Hong Kong ao meio-dia de hoje.
O Sui-an está listado como um navio de 1265 toneladas, propriedade da The Hong Kong, Canton and Macau Steamboat Company Ltd. Macau fica do outro lado da foz do rio Cantão e dista cerca de cinquenta milhas de Hong Kong.
PS: O Sui An foi construído em 1899 em Xangai. Tinha dois decks e navegava com a bandeira da então colónia britânica de Hong Kong.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Combate aos piratas em 1854
in "O Commercio", Porto, 30 de Janeiro de 1855
A 'notícia' relativa a acontecimentos ocorridos no final de 1854 - na verdade é um relatório oficial - diz respeito a uma acção conjunta de Portugal, Inglaterra e América contra os piratas.
A lorcha de guerra (seis peças) Amazona esteve ao serviço de Macau entre 1854 e 1874, sendo que desde pelo menos 1866 estava atracada no Porto Interior e servia de quartel do Corpo de Polícia de Mar. Terá depois servido nos rios de Moçambique.
As lorchas foram concebidas e construídas pela primeira vez em Macau no início do século XIX. Incorporavam características das embarcações à vela europeias (principalmente portuguesas) e chinesas, e eram feitas de madeira de teca e cânfora. Facilmente manobráveis, eram embarcações velozes sendo mais rápidas que os juncos chineses. Armadas com canhões leves, as lorchas passaram a ser contratadas como escoltas armadas, para escoltar frotas de juncos mercantis de porto em porto, quando a pirataria assumiu graves proporções na costa da China. Tinham geralmente cerca de 100 toneladas de peso bruto, mas as maiores ultrapassavam 150 toneladas e as menores tinham menos de 50 toneladas. O armamento consistia em cerca de 20 canhões no caso dos navios maiores, enquanto a tripulação era geralmente abastecida com mosquetes. Relatos da época referem que as lorchas eram pitorescas e pintadas de cores alegres.
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
“Pirates in the Waters of Macao (1854-1935)”
A propósito do post de ontem, acrescento o essencial da informação em inglês e algumas das fotos em exposição (do Arquivo de Macau) bem como o cartaz da mostra e mais alguns links para outros posts já publicados sobre o tema.
Organised by the Archives of Macao, under the auspices of the Cultural Affairs Bureau, an exhibition entitled “Pirates in the Waters of Macao (1854-1935)” wil be on display until 31 January 2021, “presenting the phenomenon of piracy in the surrounding waters of Macao and the multiple meanings it had for Macao.”
The exhibition features a selection of over 100 documents, maps and photographs from Macao Archives’ collection that addresses the issue of piracy in the Pearl River Delta, “thereby revealing the diversity and thematic amplitude of the documentation, as well as developing knowledge about the multiple meanings of the phenomenon of piracy for Macao in the second half of the 19th century to the first decades of the 20th century.”
Cartaz da exposição
Tam Kong Temple (Coloane)

Preparation to fight pirates
Military manouvres in Coloane
Gunboat "Macau" used in fights against pirates
terça-feira, 8 de setembro de 2020
"Piratas nos Mares de Macau (1854-1935)"
Macau tem patente uma exposição sobre piratas nos seus mares, uma história que remonta ao século XIX, contada com documentos na maioria dos casos escritos em português.
Durante uma visita guiada aos jornalistas, a diretora do Arquivo de Macau (AM), Lau Fong, contou que para além do fundo documental do AM, esta exposição 'Piratas nos Mares de Macau (1854-1935)' só foi possível ser feita através da consulta de jornais da época de língua portuguesa.
Pensa-se que em 1899 existiam cerca de 60.000 piratas nos mares circundantes de Macau, explicou.
O documento mais antigo é datado de 1844, em língua portuguesa, sobre "Ofícios dos comandantes da lancha Amazona, tenentes José Eduardo Scarnichia e João da Silva Carvalho tratando da "captura de piratas que infestavam o mar da China".
Durante a exposição é possível ler testemunhos de pescadores assaltados, cartas de 1920 do secretário do Governo de Macau, documentos de comissários da Polícia de Macau, como Daniel Francisco Júnior, em 1916, sobre o assalto de sete piratas a uma embarcação, cartas de resgates e várias histórias sobre a pirataria nos jornais portugueses da época.
"Roubo audacioso: Cerca das 20 horas de segunda-feira passada, um grupo de mais de dez piratas efetuou o seu desembarque no porto Interior e foi assaltar uma tenda de cambistas, estacionada à porta de uma farmácia chinesa, na Rua do Almirante Sérgio, tendo conseguido, sem dificuldade de maior, levar mais de mil patacas", pode ler-se num transcrito do jornal O Macaense, do dia 18 de julho de 1920.
Durante a visita, Lau Fong explicou ainda que dois acontecimentos, um em 1910 e outro em 1912 revelaram como Portugal e a China mantiveram o respeito pelos tratados assinados em torno da definição dos limites de Macau, através de uma expedição conjunta lusa-chinesa contra os piratas.
Em 1910, após um rapto de estudantes, as tropas portuguesas desembarcaram na ilha de Coloane. Registaram-se mortos dos dois lados, mas os portugueses conseguiram resgatar cerca de 26 crianças raptadas pelos piratas.
Em 1912, "depois de ações militares em Coloane [ilha de Macau], a atividade dos piratas continuou a fazer-se sentir em toda a região do Delta do Rio das Pérolas. Um ataque de piratas em ilhas próximas de Hong Kong desencadeou um conjunto de contactos entre governos de Cantão, Macau e Hong Kong, que culminaram com a realização de uma exposição militar de forças portuguesas e chinesas às ilhas da Montanha e D.João", pode ler-se numa das telas da exposição.
A exposição sobre os primórdios da pirataria em Macau estará patente até 31 de janeiro de 2021.
Agência Lusa: 26.8.2020
NOTA: sobre este tema sugiro um documento ainda mais antigo:
sexta-feira, 29 de maio de 2020
"We are Not Pirates: Portugal, China, and the Pirates of Coloane (Macao), 1910"
Na edição do "Journal of
World History, Volume 28" de Junho de 2017, Robert J. Anthony assina o artigo intitulado "We are Not Pirates: Portugal, China, and the
Pirates of Coloane (Macao), 1910".
Resumo:
"After pirates abducted seventeen school children and dozens of other men and women
on the island of Coloane to the south of the Portuguese enclave of Macao in the
iv journal of world history, june 2017
summer of 1910, the Portuguese government sent a military expedition to rescue the
hostages and exterminate the pirates. Although a minor footnote to the larger events
of the republican revolutions that were unfolding in both Portugal and China at this
time, this incident on Coloane nevertheless attracted local, national, and worldwide
attention and has been the subject of debate ever since.
While the Portuguese viewed
their success over the pirates as a great victory of Western civilization over barbarism,
the Chinese viewed the event as another expression of Western imperialism that
resulted in the massacre of countless innocent Chinese. Based on historical and literary
sources as well as ethnographic fieldwork, this article takes the events on Coloane
in 1910 as a point of departure to explore larger issues of Portuguese and Chinese
representations and perceptions of piracy in Asian waters and of one another over the
last four hundred years."
In 1985 the Portuguese journalist Luís Ortet interviewed residents of
Coloane regarding the Portuguese attacks against pirates and villagers
on the island in July and August 1910. One elderly Chinese lady named
Cheong Tai Lao recalled that when she was five years old she and her
family were aboard their fishing boat in the harbor when a Portuguese
gunship suddenly began firing shots at them. Her mother and auntie,
she said, screamed out “Friends! We are not pirates!” (amigos! não somos
piratas!) But too late, her fishing boat had already been hit and was on
fire. (...)
This article, which is based on historical and literary writings, as
well as fieldwork conducted in Macao between 2009 and 2015,
examines the socio-cultural ecology of piracy in Asian waters, as well as
the representations and perceptions of Chinese and Portuguese
regarding the nature of piracy and of one another over the past four
hundred years. The focus of this study, however, is on Coloane island
and Portuguese Macao at the start of the twentieth century. (...)
The years 1910 and 1911 were momentous for both Portugal and
China. Both countries experienced massive groundbreaking revolutions that overturned centuries’ old monarchies and established
republican governments, the repercussions of which were felt around
the world. The Portuguese revolution occurred in October 1910
and one year later, also in October, China had its revolution. More
specifically in China, for at least a decade before 1911, revolutionaries,
such as Sun Yat-sen, had been actively fomenting revolution in south China, and particularly in the area in and around Macao.4 In between
these two revolutions on the smallisland of Coloane, situatedjust south of
the Portuguese city-state of Macao on south China’s littoral, there
occurred a much smaller event, but nonetheless one of local and
international importance. This incident involved pirates who kidnapped
for ransom Chinese school children that they held on Coloane and the
intervention of the Portuguese military stationed in Macao in July and
August 1910. The events that unfolded attracted world-wide attention
and have been the subject of much controversy ever since.
The initial kidnapping took place in mid-June 1910, and was
unfortunately an event not out of the ordinary, as gangs of pirates for
ages in this part of the world would leave their boats and go ashore to
kidnap people to hold for ransom. In this particular instance the pirates
were based on Coloane. As they had done on other occasions, they
sailed their junks up the West River where they first plundered the
villages of Tong-hang, Pac-seac, and perhaps several others in Xinning
county. Besides robbing the villagers, however, the pirates also
abducted seventeen school children and a cook whom they brought
back to their island stronghold.
It was reported that at that time some
fifty or sixty men, women, and children were held hostage by the pirates
on Coloane.6 As publicized later in a Macao newspaper, two pirate
leaders, Leong-tai-chan and Leong-ngui-vá, wrote three ransom letters
that they sent to the lineage elders, who were surnamed Chan, of Tonghang and Pac-seac villages.
Based on the content of the letters it was
obvious that these pirates had been active in the area for some time, for
they justified the abductions as revenge against the villages that had
dared to resist them earlier in the first lunar month. The pirates, who
took the appellation Society of Perfect Justice (Ang Ngui T’ong) demanded $35,000 from the villagers to rescue their children; if the
money was not forthcoming “without delay,” they said, the children
would be mercilessly killed “without leaving any trace.”
As reported in theMacao newspaper A Verdade (The Truth) on July 21,
1910, the Portuguese government in that city got involved in this case
only after a wealthy Chinese merchant named Chan-Chat, who resided
inHongKong, requested help to rescue the children, one ofwhomwas his
own son. According to other accounts, because several of the victims
were Catholics, it was actually the bishop of Macao, after being informed
of the incident, who requested help from theMacao government.9At the
same time the events unfolding on Coloane quickly attracted world-wide
attention andwere reported almost on a daily basisinmajor newspapersin
Canton, Shanghai, Hong Kong, Europe, and the United States.10
Governor Edurdo Marques acted quickly to the request or requests,
and on July 12, he declared martial law on the two islands of Taipa and
Coloane, which were ostensibly under Macao’s administrative
jurisdiction. The Portuguese presence on both islands actually dated
back to the early nineteenth century, if not earlier. (...)
The piracy incident on Coloane provided Portugal with a reason or
excuse to fully incorporate the island into its enclave of Macao, and as a
result of the military campaigns in 1910 the Portuguese presence on the
island became more stable and permanent. Despite protests from the
Qing government, Portugal insisted that its presence on Coloane was
needed to protect the island and surrounding areas from pirates. The
Portuguese stayed and the island became a part of Macao. Today on the
island at the head of St. Francis Xavier Square is a stone monument that
was erected by the government of Macao sometime after the events of
1910 to commemorate the victory over the pirates. (...)
Conclusion
“We are not pirates.” These four words rendered both by the Portuguese
poet Camões and the Coloane boat woman Cheng Tai Lao reveal much
about how we understand and view pirates and piracy not only in its
Asian but also world context. The very fact that they uttered “we are
not pirates” presupposes the assumption that others regarded the
Portuguese explorers and Chinese boat people as pirates. Did they
deserve such a reputation? Judged by their actions it would appear that
in many cases they did act as pirates—robbing, kidnapping, and
murdering for personal gain. Their pleas of innocence simply did not
ring true to the ears of others, especially those people who were their
victims. In declaring “we are not pirates” the Portuguese envoy and
Chinese fisherwoman both implicitly acknowledged their quilt through
association.
Yet were the pirates discussed in this article villains or heroes? Much
of this answer, as I have argued, depends on one’s perspective. One man’s pirate is another man’s hero. Our conceptions and even
definitions of piracy are in constant flux, continuously changing to suit
contingent political, social, and cultural circumstances and agendas.
Certainly Vasco da Gama deserves his reputation as a hero, but should
this preclude him from also being a pirate and villain? Lam-kua-si was
certainly an unscrupulous pirate, but does this fact preclude him from
also being a hero? At home both men were heroes, men who brought
honor and some advantage to their respective countries or villages, but
to outsiders, people and areas that fell victim to their abuses and
misdeeds, they were criminals and nothing more.
The various perceptions of piracy, of the Chinese, and of the
Portuguese in one another’s eyes colored the sensitive issue of
Coloane’s sovereignty and international relations in general. These
constructed images developed over several centuries of interactions,
often marred with suspicions and misunderstandings, between Chinese
and Portuguese. Both sides bolstered their respective claims of
sovereignty not solely on political considerations, but also on claims
of intrinsic righteousness that the forces of civilization were on their
side. To many Portuguese, most residents of Coloane were viewed as
pirates, a scourge that needed to be cleansed for the preservation of the
state and sanctity of Western civilization. China was seen as a “sleeping
giant” just waiting, and needing, a “civilizing” awakening from the
West. The suppression of piracy justified imperialistic expansion. To
many Chinese, however, the Portuguese in Macao were violent
barbarians and interlopers, not any better than pirates, who encroached
on their lands and therefore should be driven away. Their violent, cruel,
and arrogant conduct violated Chinese assumptions about appropriate
civilized behavior based on respect for authority and hieratical social
relationships.
The suppression of Coloane pirates also involved larger issues
important in world history. Piracy, indeed, was a global problem, a
concern not only to China and Portugal, but to the wider international
community in Asia. Britain, France, the United States all watched very
closely the events unfolding in the waters around Macao and Coloane
at the start of the twentieth century. Careful examination of the
military campaign to suppress piracy shows that it was a fiercely
contested issue of empire in places where overlapping spheres of
influence between colonial, national, and local authorities existed. The
contest for Coloane between China and Portugal, when seen in the light of pirate suppression, marked a critical moment in a much longer
history of Sino-Western relations and imperial conquests.
Sometime after the suppression of the Coloane pirates in 1910 the
Macao Portuguese government erected a stone monument in one of the
bombarded villages on the island to commemorate their great victory
over the pirates. The monument was a tangible symbol of Portuguese
authority and superiority, as well as the triumph of law and order and of
civilization over barbarism. For many years after these momentous
events the Macao government declared July 13 a public holiday that
was celebrated on the island.
Local islanders, however,
regarded this holiday as the day when Portuguese soldiers and gunships
massacred hundreds of innocent fisherfolk and villagers. As a sort of
counter monument and remembrance of their piratical heritage (and
perhaps too of their resistance to the Portuguese gunboats and
colonizers), in Coloane village the local residents have named a narrow obscure lane (mostly known only to locals) as “Pirate Alley” (zei zai wei
賊在圍).
Street names, like monuments, are deliberate acts that
reflect the agendas of their creators and construct their perceptions and
understandings of the past.
With a certain twist of irony, today Macao, China, and Portugal
each purport a public image, often repeated in scholarly writings on the
city’s history and heritage, depicting Macao as a unique place of
multiculturalism and a bridge between East and West, a place of mutual
toleration and harmonious blending of diffuse world cultures and
civilizations. This message, however, largely ignores, indeed
obfuscates, the past experiences of Macao as a place of mutual distrust,
misgivings, misunderstandings, and confrontations between China and
Portugal. Since its inception more than 450 years ago the Portuguese
and Chinese in Macao have for the most part maintained their own
separate identities, customs, and cultures. Piracy serves as a window
through which we can observe the conflicting perceptions and
representations of the alien other not only in Macao but in other places
around the world.
sábado, 9 de maio de 2020
Corsairs of the China Seas
Corsairs of the China Seas / Corsários dos Mares da China. Corsários é sinónimo de piratas e é sobre esse tema que trata este livro cuja primeira edição é de 1936 e o autor assina sob o pseudónimo de Bok. Um outro título, Vampires of the China Seas, de 1932, é também da autoria de Bok. Estes títulos serviriam de inspiração a alguns filmes da época: "China Seas", de 1935, por exemplo.
Numa das muitas fotografias de Macau estão as Casas de Fantan e a Rua da Felicidade
Capítulo sobre a "Rua dos Bordéis" (Rua da Felicidade)
A pirataria, prostituição e o jogo do fantan são os motivos principais
deste livro muito famoso nas décadas de 1930 e 1940.
Até hoje não se conhece com certeza absoluta o nome do autor. Presume-se que se trata de Aleko E. Lilius, que editou em 1930 a obra "I sailed with Chinese Pirates" que apresenta muitas semelhanças. Aleko Lilius, jornalista e fotógrafo, é finlandês.
Neste último título, Lilius refere ter navegado com Lai Choi San, que apelida de "rainha dos piratas" e que tinha uma frota de 12 juncos.
segunda-feira, 16 de março de 2020
Captain Shot by Pirates
Captain Shot by Pirates - Portuguese Vessel Looted
The str Kwan Chau Wan, flying the Portuguese flag, was held upby pirates while on a voyage from Kwanchauwan (1) to Macao on the 9th instant. About 8.30 p.m., when the vessel was off St John's Island, a number of pirates, who had secured passages, went to the captain's cabin and awakened him. They held revolvers in their hands, and the captain immediately realized what was on foot. He appears to have made a motion as if to secure his revolver, when one of the robbers shot him twice, with fatal results. They also shot the Chinese compradore in the leg, the quartermaster and also a Chinese, but happily these were not seriously injured. The remainder of the crew were powerless, and the pirates took charge of the steamer, and left her only after they had appropriated everything worth taking, which could be conveniently conveyed away. When they left, the ship was steered by the crew to Macao. The Portuguese authorities were acquainted with what had occurred and they promptly boarded the vessel and conducted a rigorous inquiry into the affair. The unfortunate Captain, Mr J. X. Jesus was well known as a very capable officer and was much liked by all who knew him.
In The North China Herald, 20.12.1913
Até meados do século XX os actos de pirataria foram uma constante nas águas do delta do rio das Pérolas. Esta notícia é de 1913 e do ataque à embarcação Kwan Chau Wan resultou a morte de J. X. Jesus, comandante do vapor Kwan Chau Wan.
(1) - Concessão francesa na China
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
Macau na viagem de circum-navegação do S. Gabriel
Em Agosto de 1910 o cruzador "S. Gabriel" passou por Macau na viagem de circum-navegação sob o comando do Capitão António Aluízio Jervis de Atouguia Ferreira Pinto Basto. O vaso de guerra da Marinha portuguesa partiu de Lisboa em Dezembro de 1909 rumo ao Brasil. Dali seguiu para o Pacífico, visitando o Hawai, o Japão, Xangai, Hong Kong, Macau, as Filipinas e Timor, antes de regressar a Lisboa em Abril de 1911 (ver capa de publicação da época em baixo).
Curiosidade: no Japão registou-se um encontro com Venceslau de Morais.
| Durante essa viagem o oficial (aspirante de 1ª classe) Arthur Caetano Dias (tem o carimbo com o nome) enviou este postal com uma imagem panorâmica do Porto Interior de Macau (Inner Harbour) a D. Emília Narciso Costa (namorada) em Lisboa. O postal tem impresso “Inner harbor, Macao. Sold by Graça & Co., Hongkong, China” e manuscrito “Hong-Kong 18-8-910, Adeus Arthur”. |
| Edição de 30 Abril 1911 da "Occidente" |
Excerto do diário do comandante Pinto Basto sobre a passagem por Macau:
"Com muito bem tempo largámos de Hong Kong para Macau pelas 8 h da manhã do dia 2 de setembro. Ao passar pelos navios de guerra estrangeiros, tocaram as suas bandas o hymno portuguez, e foi-nos feito o signal de boa viagem. Seguimos para Macau com a velocidade de 13 milhas por hora, fundeando na rada pelas 10h45m. O governador organizou em nossa honra um passeio a Colovane, no qual tomaram parte as principaes auctoridades e famílias de Macau, talvez mais de duzentas pessoas, que para ali seguiram na lancha Macau e em três outras lanchas a vapor. A nossa visita a Colovane foi interessante, por se verem ali ainda em ruinas muitas casas contra as quaes a lancha Macau teve de fazer fogo no seu ataque aos piratas. Por essa ocasião prestou aquella lancha relevantes serviços. Démos um passeio pelas ruas da povoação e realisaram-se um lunch e uma regata de embarcações chinas.
Tivemos noticias de dois tufões que das Filipinas se dirigiam para a costa da China, o que nos obrigou a demorar a nossa partida para ali. No mez de setembro os tufões são muito frequentes e pouco dias se passa sem que os observatórios anunciem aquelles temporaes. Já foi difícil o regresso a bordo e o dia 26 amanheceu com chuva, vento, e mau aspecto, motivo pelo qual resolvemos deixar a rada para procurar melhor fundeadouro, logo que possível fosse.
Vieram para bordo n´uma lancha quatorze presos, entre eles os piratas de Colovane, que a requisição do governador da província devíamos conduzir a Timor e Moçambique. O transbordo da lorcha para o navio fez-se com dificuldade n´uma das nossas embarcações e foi impossível receber-se os volumes pesados. Ás 3h 30m suspendemos e fomos procurar o abrigo na bahia de Castle Peak, ao norte da ilha de Lantao, o melhor fundeadouro próximo, onde ancorámos pelas 6h da tarde em 5 braças de fundo com 45 m de amarra. Na tarde do dia 27 seguimos para Hong Kong, onde amarrámos às 5 horas a uma boia das docas de Kowloon, depois de ter salvado ao almirante americano. (...)
Vieram para bordo n´uma lancha quatorze presos, entre eles os piratas de Colovane, que a requisição do governador da província devíamos conduzir a Timor e Moçambique. O transbordo da lorcha para o navio fez-se com dificuldade n´uma das nossas embarcações e foi impossível receber-se os volumes pesados. Ás 3h 30m suspendemos e fomos procurar o abrigo na bahia de Castle Peak, ao norte da ilha de Lantao, o melhor fundeadouro próximo, onde ancorámos pelas 6h da tarde em 5 braças de fundo com 45 m de amarra. Na tarde do dia 27 seguimos para Hong Kong, onde amarrámos às 5 horas a uma boia das docas de Kowloon, depois de ter salvado ao almirante americano. (...)
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Memória sobre a destruição dos piratas da China: 1824 e 1835
O primeiro escrito impresso de José Inácio de Andrade foi publicado em 1817, não assinado, na liberal Mnemosine Lusitana e trata do tema do que viria a ser o seu primeiro livro: "Memória sobre a destruição dos piratas da China de que era chefe Cam Pau Sai* e o desembarque dos ingleses na cidade de Macao e sua retirada", 1824.
Este livro viria a ser revisto e aumentado pelo autor, sendo novamente impresso em 1835 sob o título de "Memória dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos ingleses na cidade de Macao."
Para se perceber o contexto destas obras importa referir o seguinte...
Em "An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China", de 1832, Anders Ljungstedt, negava que Portugal possuísse a soberania sobre Macau; era uma pedrada no charco e agitou consciências ao mais alto nível não só em Macau como em Portugal. Em 1835, José Inácio de Andrade escreve a "Memória sobre a Destruição dos Piratas da China e o Desembarque dos Ingleses na Cidade de Macau e Sua Retirada". Depois disso o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal mandou o seu embaixador na França, o Visconde de Santarém, aprofundar os estudos sobre o direito do estabelecimento dos portugueses em Macau resultando a obra «Memória sobre o Estabelecimento dos Portugueses em Macau» em 1852.
Excertos da "Memória" de José Inácio de Andrade:
Por morte de Afonso de Albuquerque, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarc, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarcações commandadas por Fernão Peres de Andrade, levar ao Imperador dos Chinezes o Embaixador Thomé Pires, como El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado.
Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte. Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.
Do meu arco possante
Hoje o famoso Andrade
Alvo será: seu nome triunfante
No porto surgirá da Eternidade.
Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros. Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a memoria do immoral Simão, para serem outra vez recebidos em seus portos.
Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; mas fizeram delle uma cidade a que deram o nome da ilha.
Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do pirata Chang-Silau.
Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo. Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos foros se confirmaram em 1709. Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a ambição dos inglezes.
De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado, que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella cidade. Com esses governadores teve prosperidade. Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas dos cidadãos. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a fim de se verem livres de tão horrendo monstro.
Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV: os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e mandaram grande donativo á capital do Rei legitimo. Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em suas prepotencias. Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada. Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto de perder-se.
Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de nossas victorias, é situada na latitude de 22 1⁄4 gráos ao Nórte do Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossos periecos; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco mais de uma legua. Do lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.a da Guia, fora dos muros da cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas. Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil individuos, a maior parte Chinezes.
O Governo é o Senado composto de dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.
Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para entrar e sair.
Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo: -Tributamos tão grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu costume; e presamos tanto a V. S.a, que para não o ferir a vara da Justiça mandamo-la segurar.
Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos são os direitos da Alfandega.
As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.Apenas dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão dignos eram de memoria eterna.
Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam. Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta época mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores? Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós. Julgo de obrigação referilas a nossos nétos.
Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande consideração naquelle imperio.
Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadra ingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de 1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do final resultado. (...)
Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte. Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.
Do meu arco possante
Hoje o famoso Andrade
Alvo será: seu nome triunfante
No porto surgirá da Eternidade.
Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros. Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a memoria do immoral Simão, para serem outra vez recebidos em seus portos.
Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; mas fizeram delle uma cidade a que deram o nome da ilha.
Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do pirata Chang-Silau.
Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo. Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos foros se confirmaram em 1709. Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a ambição dos inglezes.
De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado, que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella cidade. Com esses governadores teve prosperidade. Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas dos cidadãos. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a fim de se verem livres de tão horrendo monstro.
Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV: os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e mandaram grande donativo á capital do Rei legitimo. Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em suas prepotencias. Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada. Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto de perder-se.
Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de nossas victorias, é situada na latitude de 22 1⁄4 gráos ao Nórte do Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossos periecos; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco mais de uma legua. Do lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.a da Guia, fora dos muros da cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas. Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil individuos, a maior parte Chinezes.
O Governo é o Senado composto de dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.
Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para entrar e sair.
Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo: -Tributamos tão grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu costume; e presamos tanto a V. S.a, que para não o ferir a vara da Justiça mandamo-la segurar.
Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos são os direitos da Alfandega.
As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.Apenas dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão dignos eram de memoria eterna.
Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam. Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta época mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores? Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós. Julgo de obrigação referilas a nossos nétos.
Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande consideração naquelle imperio.
Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadra ingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de 1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do final resultado. (...)
Depois que no seculo XVI os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram seu numero e força de modo, que em 1805 estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira e mais possante coube ao celebre Apócha, que depois se chamou Cam-pau-sai, e onde sempre residio a viuva. Apau-tai foi commandar a segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de Cantão, e fez-se a convenção seguinte:
O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:
1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, combinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.
2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.
3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.
4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.
5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos.
6.º Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.
7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes.
Macáo 23 de Novembro de 1809. (...)
O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:
1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, combinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.
2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.
3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.
4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.
5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos.
6.º Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.
7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes.
Macáo 23 de Novembro de 1809. (...)
* Este pirata surge, consoante as fontes, com as mais variados nomes: Kam Pao Sai, Cang-Pau-Sai, Chang-Pau Sai, Cam-Pao-Tsai, Cam-Po-Sai, Apo-Sai, Apochai, Cam-Pau- Sai, Cam-Apó-Chá, etc...
Na edição de 1835 Inácio de Andrade reproduz a resposta do Senado ao envio da primeira edição:
“O Senado recebeo com satisfação a vossa memoria, por ver nella immortalisados os feitos macaenses, na estincção dos piratas, que infestavam o nosso arquipelago. Em verdade vós ornasteis o vosso e o nosso quadro com as flores e bellesas de Camões e dos Andrades. O Senado não perderá occasião, em que vos possa ser util em reconhecimento de tão precioso presente. Cartorio do Senado, 16 de Novembro de 1826″.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
"Piratas" no Diário de Notícias: 24 Setembro 1910
A segunda parte do despacho do correspondente do DN em Macau conta os pormenores da pequena guerra entre piratas chineses, refugiados em Coloane, e as tropas portuguesas estacionadas em Macau. Trata-se de uma narrativa cheia de peripécias, como num romance de aventuras de Emilio Salgari.
O bando de piratas dedicava-se à extorsão e raptou um grupo de estudantes de famílias chinesas ricas, exigindo resgate avultado, equivale a 18 contos, 18 milhões de reis, o que hoje seria uma verba a rondar 2 milhões de euros. Os reféns foram levados para Coloane e as autoridades organizaram uma operação militar envolvendo 40 soldados de infantaria. No entanto, a unidade caiu numa emboscada ao desembarcar. Na confusão, perdeu-se o controlo da fortaleza local, que os piratas ocuparam.
Após bombardeamento executado por duas canhoneiras, os piratas foram forçados a fugir para as montanhas, mas a situação complicou-se devido a um Tufão. O texto não menciona baixas e não explica a razão da população ter ajudado os bandidos que viviam do roubo. Finalmente, numa caverna das montanhas de Coloane, foram capturados 15 piratas, com 13 mulheres e 3 crianças. As autoridades conservavam detidos 70 chineses suspeitos.
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