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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Aniversário do Centro Histórico de Macau como Património Mundial da Humanidade

Nunca é demais recordar que a data de 15 de Julho de 2005 marca um dos momentos mais importantes da história recente de Macau. Foi o dia em que o Centro Histórico de Macau foi oficialmente inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO durante a 29.ª sessão do Comité do Património Mundial realizada em Durban, na África do Sul. Com esta distinção, tornou-se o 31.º sítio classificado como Património Mundial na China.
O que é o Centro Histórico de Macau?
Trata-se de uma zona urbana contínua que reflecte mais de 450 anos de coexistência e fusão cultural entre o Oriente (China) e o Ocidente (Portugal). O conjunto classificado é composto por 22 monumentos históricos e 8 praças (largos).

Ilustração criada por IA a partir de fotografia da década 1940

Monumentos Históricos (22)

Templo de A-Má (o edifício mais antigo de Macau)
Quartel dos Mouros 
Casa do Mandarim (residência tradicional de Zheng Guanying)
Igreja de São Lourenço (e o seu adro)
Igreja e Seminário de S. José (incluindo o adro e a escadaria)
Teatro D. Pedro V (o primeiro teatro de estilo ocidental da China)
Biblioteca Sir Robert Ho Tung
Igreja de Santo Agostinho
Edifício do Leal Senado
Sam Kai Vui Kun (Templo de Kuan Tai)
Santa Casa da Misericórdia (edifício sede)
Igreja da Sé (Catedral)
Casa de Lou Kau
Igreja de S. Domingos
Ruínas de S. Paulo (antiga Igreja da Madre de Deus, vestígios do Colégio de S. Paulo, adro e escadaria)
Templo de Na Tcha (junto às Ruínas de S. Paulo)
Troço das Antigas Muralhas de Defesa
Fortaleza do Monte
Igreja de Santo António (e o seu adro)
Casa Garden (antiga residência e actual sede da Fundação Oriente)
Cemitério Protestante (incluindo a Capela de Morrison)
Fortaleza da Guia (incluindo a Capela de Nossa Senhora das Neves e o Farol da Guia)
Ruínas de S. Paulo / Largo da Companhia de Jesus

Praças e Largos (8)

Largo da Barra (em frente ao Templo de A-Ma)
Largo do Lilau 
Largo de Santo Agostinho
Largo do Senado 
Largo da Sé
Largo de S. Domingos
Largo da Companhia de Jesus (em frente às Ruínas de S. Paulo)
Largo de Camões (junto à entrada do Jardim de Camões)


A UNESCO atribuiu este estatuto devido ao valor universal excepcional do território. Macau funcionou como um porto internacional de extrema importância onde se cruzaram tendências arquitetónicas, estéticas, religiosas, tecnológicas e gastronómicas europeias e chinesas, criando uma identidade multicultural e arquitectónica única no mundo. Um património ímpar que deve ser preservado...

quarta-feira, 24 de junho de 2026

"Um dia de gloriosa recordação para Macao"

C. J. Caldeira assina este artigo publicado na "Parte Não Official" do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor de 28 de Junho de 1851.

Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recordação para Macao. Ha 229 annos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella,—um punhado de valentes repellio o formidavel attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d'armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d'Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o mencionam, mas sem maior individuação, e no Macuista Imparcial de 23 de Junho de 1836, lemos tambem algumas noções deste facto.
É por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma noticia sobre este successo, colhida de alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.
Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciais a varios portos, como usavam fazer naquella estação do anno,—vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della tres outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empreza, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.
Surgiram pois sós em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia,—tentaram neste mesmo dia o attaque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porem lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no emtanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Naquelle tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas, e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557; como Republica, somente pelo Senado: só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.
Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escachas, e catraias, desembarcaram uns 800 homens hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barulhento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.
Antonio Rodrigues Cavalhinha assistia então em uma de suas cazas, no campo que fica fronteiro á ellevação onde está hoje a fortaleza da Guia, e sahiu com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Hollandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma como o seu chefe Cornelis Reyers, (ou Kornelis Reyerszoon segundo Ljungstedt) que era tambem o Commandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo ao logar ónde existia o moinho do Padre Almeida, e onde existe um simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradição, recorda este successo.
Alli ficaram sós, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dispararam da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma peça bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia assistiam na mesma Fortaleza, porque no seu Convento proximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao,—e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, incendiando-o e abrazou alguns Hollandezes.
Elles desconfiando de não verem mais gente, e temendo que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinham á vista, receavam de passar quando quizessem penetrar na Cidade.
Reunio-se a gente pelo monte da Guia, onde estava uma peça de ferro (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha d'afóra da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com outro Portuguez, e mais vinte filhos da terra, e alguns moços captivos e todos cobertos entre os rochedos que alli havia, viam d’alto d'este modo os inimigos, fazendo-os vacilar e parar na subida.
Dividiram os Capitães os Cabos que dirigiam as baterias aos postos do Forte de S. Francisco e da Baim porto, contra as forças dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte de terra, deram ordem a que João Soares se expedisse com cincoenta mosqueteiros no posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mór da viagem do Japão, e reconhecendo o medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rosto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se desordenaram, e puzeram em fuga, largando bandeiras, armas, e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deu logar ao povo miudo para ir seguindo-o á sombra dos Portuguezes, e com tanto impeto que uma cafra (negra) fez neste dia de Parseira d'Aljubarrota, asseverando uns que matára alguns Hollandezes com o espeto da cozinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda; assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar precipitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram formalos de novo, para se não perderem todos pela confusão.
Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 300 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, dos quaes até ao seguinte dia só viveram sete.
Nesta occasião aquelles Portuguezes, e alguns Hespanhoes que se acharam aqui, obraram maravilhas, principalmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se póde deixar de admirar a resolução e cometimento de tão poucas contra tantos.
Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser soccorrida, e de se ver depois em grandes apuros,—ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.
Consta que o Regulo de Cantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes approximadamente) de arroz, para os moços que ajudaram a defender a terra, que ficaram forros, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.
Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sugeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros nem baluartes alguns; e tambem delli vieram algumas bombardas.
A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.
A Fortaleza de N. S. da Guia tambem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha á porta da mesma Fortaleza:
"Este forte mandou fazer a Cidade á sua custa pelo Capitão d'Artelharia Antonio Ribeiro d'Raia começou-se em Setembro de 1637 acabou se em Março de 1638 sendo Geral da Camara (d'Noronha)."
A piedade de nossos maicanes não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que esteve de ser presa dos Hollandezes, á especial protecção da Providencia, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.
Procuramos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquelle voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontrámos copia; mas no mesmo Senado existe uma antiga boki onde se lê o seguinte:
"A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S João Baptista — Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespers, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta á Missa Solemne na Sè Cathedral, como tambem as Vesperas.
N. B.
"Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Camara, junta em Conselho no anno de 1622: Isto em reconhecimento da distincta mercê, que Deus Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas, que na Praia de Cassi-lhas desembarcarem de bordo de treze (13) Navios, de que os Moradores alcançaram Victoria no Campo de Moha, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.
Alem desta Festa por voto solemne ficou-se dizendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armava, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.
Esta Missa se chamava da Victoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macao e suas familias, indo as creanças com flores e bandeiras: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n'uma especie de festa d'arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.
São estas as noticias que em pouco tempo podémos colligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem rellação com os factos da nossa historia nacional.
C. J. Caldeira

PS: Há uns tempos 'descobri' um relato desta batalha escrito em Macau meados do século 18; vou analisar - nomeadamente averiguar se Charles Boxer, a autoridade máxima neste assunto, menciona este documento - e depois publico.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A "Batalha de Macau" travada entre 22 e 24 de Junho de 1622

A Batalha de Macau, travada entre 22 e 24 de junho de 1622, é considerada uma das vitórias mais improváveis e espetaculares da história militar luso-asiática. No contexto da Guerra Luso-Holandesa (durante a União Ibérica), a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) tentou conquistar Macau para arrancar de Portugal o lucrativo monopólio do comércio de seda e prata com a China e o Japão.
O que se seguiu foi um autêntico "milagre" militar, onde uma força improvisada derrotou uma armada profissional.

O Cenário e a Desproporção de Forças
A armada holandesa, comandada pelo almirante Cornelis Reijersen, surgiu ao largo de Macau com 13 navios e cerca de 1.300 homens (incluindo soldados europeus, mercenários japoneses e guerreiros de Banda).
Do lado de dentro, Macau estava quase desguarnecida. O grosso dos homens aptos tinha partido na viagem comercial anual para o Japão ou estava a lutar na China Continental contra os tártaros a pedido do Imperador Ming. O Capitão-Mor Lopo Sarmento de Carvalho contava com uma força ínfima:
Cerca de 50 a 150 soldados e moradores luso-macaenses capazes de pegar em armas.
Um contingente de escravos africanos (de Moçambique e Angola) e asiáticos.
Alguns frades e jesuítas dispostos a lutar.
A Fortaleza do Monte, que ainda estava em construção.

O Relato do Confronto
1. O Bombardeamento Inicial (23 de junho)
Os holandeses começaram por bombardear o bastião de São Francisco para criar uma distração. Os marinheiros invasores, confiantes na vitória, passavam a noite a tocar tambores e trombetas, chegando a gritar ameaças para a costa. O capitão Reijersen enviou espiões para saber se a população chinesa da cidade (cerca de 10.000 pessoas) se juntaria a eles; os espiões regressaram informando que os civis chineses tinham simplesmente fugido para o interior, permanecendo neutros.

2. O Desembarque na Praia de Cacilhas (24 de junho)
Ao amanhecer do dia de São João Batista, cerca de 800 soldados holandeses e mercenários desembarcaram na Praia de Cacilhas sob fogo cerrado de um pequeno grupo liderado pelo macaense António Rodrigues Cavalinho. Na escaramuça inicial, o próprio almirante holandês Reijersen foi baleado no ventre e teve de ser evacuado para o navio, passando o comando a Hans Ruffijn.
Os holandeses conseguiram avançar terra adentro, forçando a retirada dos portugueses, e marcharam em direção ao centro da cidade, passando pelas faldas da Colina da Guia.

3. O Tiro de Sorte dos Jesuítas
Foi neste momento que a engenharia e a sorte mudaram o destino da batalha. Na Fortaleza do Monte, o padre jesuíta Giacomo Rho (um matemático e astrónomo italiano) apontou pessoalmente um dos grandes canhões da fortaleza em direção ao corpo principal do exército holandês em avanço.
A bala de canhão atingiu em cheio o carro de pólvora e munições dos holandeses, provocando uma explosão devastadora que quebrou a linha de avanço, espalhou o pânico e deixou os invasores sem capacidade de reabastecimento.

4. A Carga dos Escravos e a Vitória Final
Aproveitando o caos provocado pela explosão, Lopo Sarmento de Carvalho gritou o famoso brado de ataque. Quem liderou a investida mais feroz e decisiva foram os escravos africanos dos moradores de Macau, armados com lanças, alabardas e mosquetes. Motivados pela promessa de alforria em caso de vitória, e os jesuítas que os incentivavam com imagens de São João Batista, os escravos investiram com tanta fúria que os holandeses, aterrorizados, começaram a recuar em debandada.
O comandante holandês substituto, Hans Ruffijn, foi morto no combate. Os invasores fugiram em pânico absoluto de volta à Praia de Cacilhas. Muitos afogaram-se nas águas de Macau quando os barcos de salvamento viraram com o excesso de peso dos soldados em fuga.
Mapa publicado no boletim da Agência Geral das Colónias em 1926


O Rescaldo do "Milagre de São João"

As perdas foram extraordinariamente desproporcionais:
Holandeses: Entre 300 a 500 mortos (incluindo 7 capitães), centenas de feridos e a perda de quase todas as suas armas e bandeiras no campo.
Portugueses: Apenas 4 europeus mortos e cerca de duas dezenas de escravos e locais falecidos.

Consequência Histórica: Impressionado com a lealdade e a eficácia da defesa da cidade (e a bravura dos escravos, muitos dos quais foram imediatamente libertados pelos seus senhores), o Rei de Portugal nomeou no ano seguinte (1623) o primeiro Governador oficial de Macau, fechando as portas a novas investidas europeias e garantindo a permanência portuguesa no território por mais de 350 anos.
São João Batista foi imediatamente declarado o Padroeiro de Macau, e o dia 24 de junho foi celebrado na cidade como o "Dia de Macau" durante séculos.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Comemorações do Dia de Portugal em 1956

O DIA DE PORTUGAL foi assinalado nesta Província com várias festividades entre as quais GRANDIOSO DESFILE MILITAR, eloquente romagem à gruta de Camões E SESSÃO CULTURAL NO TEATRO D. PEDRO V
a todas presidindo Sua Exa. o Governador da Província ALMIRANTE JOAQUIM MARQUES ESPARTEIRO

O Dia de Portugal revestiu-se, este ano, de grande esplendor. Quer no Portugal metropolitano quer no Portugal ultramarino como nos agregados portugueses no estrangeiro, o Dia de Portugal foi comemorado, por ser consagrado à lusitanidade espalhada pelo mundo e, também, em homenagem a Camões esse imortal cantor das glórias nacionais, no dia do aniversário do seu falecimento.
Prestaram, assim os portugueses, no mundo a mais eloquente e mais patriótica homenagem ao poeta máximo da Lusitanidade e, especialmente, nesta terra, onde segundo reza a tradição Camões escreveu parte do seu imortal poema — os Lusíadas.
O programa das grandiosas festividades do dia 10 foi rigorosamente cumprido, tendo presidido a todas S. Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
O dia 10 de Junho foi de sol radioso e temperatura amena, associando-se assim o tempo a tão esplendorosa homenagem, dando-lhe maior brilho.
Amanheceu e ao som dos clarins em marchas de continência ergueu-se no topo dos mastros dos quartéis e fortalezas a Bandeira Nacional. Em todos os edifícios públicos foi também hasteada a Bandeira de Portugal.

A parada militar
O desfile de forças militares e militarizadas, em parada, é sempre um espectáculo grandioso que faz vibrar os corações portugueses pois, isso basta para, em pensamento, evocar esses heróis que outrora em "perigos e guerras esforçados" deram novos mundos ao mundo, levando a bandeira portuguesa às mais longínquas paragens. E os soldados que vemos agora marchar são descendentes desses portugueses que Camões cantou nos poemas mais belos que, no dizer dum distinto escritor, por si só, vale uma literatura inteira.
A parada militar estava anunciada para às 10 horas. Mas, muito antes, milhares de pessoas ocupavam lugares ao longo do trajecto anunciado para o desfile.
Nas proximidades do Palácio do Governo da Praia Grande, em talhados especiais, tomaram lugar funcionários civis e militares, comerciantes, clero, escolas portuguesas e chinesas e os seus professores, colégios, praças do exército e da armada, etc..
Na varanda do rés-do-chão do Palácio assistiram ao desfile, a convite do governo, o Conselho do Governo, Corpo Consular, Chefes de Serviços, membros dos mais categorizados da comunidade chinesa e estrangeira, e oficiais do Exército e da Armada. Nas varandas superiores, a Exma. Sra. Dra. Da. Laurinda Marques Esparteiro e muitas outras senhoras portuguesas, chinesas e estrangeiras.
Em frente ao Palácio erguia-se a tribuna de honra decorada com as cores nacionais e vasos com viçosos arbustos. À esquerda da tribuna estava formada a guarda de honra que era constituída por um grupo de castelos da Mocidade Portuguesa com bandeira e banda de música, sob o comando de Franklin Barnes. Em frente da guarda de honra estava formada a guarda de honra da banda Musical da Polícia de Segurança Pública com o vistoso fardamento de gala, capacete e dólman branco e calça azul escuro.
Poucos minutos antes das 10 horas estavam formadas alas compactas de povo ao longo da Rua da Praia Grande e imediações, que a Polícia de Trânsito, superiormente dirigida pelo sr. tenente Henrique Fontes, auxiliado por chefes e subchefes, continha o povo dentro dos lugares marcados, a fim de não estorvar o desfile.
Momentos depois um breve toque de clarim e a introdução do Hino Nacional anunciaram a chegada de Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro, que vinha acompanhado de seu ajudante de campo sr. capitão José Vaz Dias da Silva. Sua Exa. envergava o uniforme branco de almirante, ostentando a banda de seda verde, insígnia da grã-cruz de Ordem Militar de Avis.
Acompanhado agora pelo Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa sr. Intendente José Peile da Costa Pereira, Sua Exa. o Governador passou revista à guarda de honra, dirigindo-se depois à tribuna, onde assistiu ao desfile, ladeado pelos srs. Brigadeiro João Carlos Quinhones Portugal da Silveira, Comandante Militar da Província e capitão-de-fragata José Coutinho Garrido, Capitão dos Portos. Na mesma tribuna assistiram ao desfile os srs. Dr. Edmundo de Senna Fernandes, Juiz da Comarca, substituto, e D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo da Diocese, ajudantes e secretário.
A's 10.05 horas chegou um carro militar do qual se apeou o comandante das forças em parada, tenente-coronel Silva Carvalho, pedindo licença para se iniciar o desfile, ordem que foi imediatamente transmitida por uma estafeta-motociclista.
As forças em parada desfilaram pela seguinte ordem: Bandeira Nacional, coluna apoiada sob o comando do sr. major Marques de Carvalho, banda de corneteiros, comando da coluna apeada, batalhão de caçadores 1, a três companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Veiga, batalhão de caçadores 2, a quatro companhias de atiradores sob o comando do sr. capitão Cambraia Duarte, companhia independente de caçadores, uma companhia de atiradores sob o comando do sr. capitão Tamegão.
Seguiu-se a coluna motorizada sob o comando do sr. major Barata da Cruz, constituído pelo comando da coluna, 1 pelotão de canhões anti-carro e o agrupamento de baterias de artilharia; 1 bateria de artilharia ligeira 8,8 sob o comando do sr. capitão Mendes, uma bateria de artilharia anti-aérea de 4 e uma bateria de artilharia anti-aérea de 7,5.
Desfilou depois o esquadrão de cavalaria motorizado com dois pelotões de reconhecimento e um pelotão auto-transportado; uma companhia de engenharia com um pelotão de sapadores e um pelotão de transmissões, comandadas, respectivamente, pelos srs. capitães Abrantes da Silva e Mesquita Borges, fechando o desfile das forças militares com um destacamento sanitário e uma equipa de desempenagem.

As forças militarizadas desfilaram pela seguinte ordem:
Uma coluna apeada das forças da polícia marítima, a um pelotão, sob o comando do sr. chefe Luz, uma coluna apeada da polícia de segurança pública, a uma companhia a quatro pelotões, sob o comando do sr. tenente Correia Marques, uma coluna motorizada, com um pelotão de motos e viaturas especiais, sob o comando do sr. tenente Palma Viçoso.
Fechava o desfile uma coluna motorizada de viaturas especiais dos bombeiros municipais, sob o comando do sr. ajudante Assis.
Por último desfilou a guarda de honra da Mocidade Portuguesa e a banda musical da polícia de segurança pública.

A patriótica romagem à Gruta de Camões
Finda a parada, as mesmas entidades que referimos e milhares de pessoas acorreram ao velho jardim de Camões, onde se ergue a secular gruta, um altar evocativo do grande Vate, nestas longínquas paragens onde a velha lenda afirma, que Camões escreveu parte do seu poema e o formoso soneto "Alma minha gentil". Muito antes das 11 horas, já se encontravam no jardim milhares de crianças e jovens do liceu, das escolas secundárias e primárias católicas portuguesas e chinesas, com os seus estandartes e muitos jovens, de ambos os sexos, sobraçando viçosos ramos de flores naturais. Acompanhavam-nos os seus professores, padres, leigos e religiosas de vários colégios da colónia.
O jardim sempre belo, estava mais florido naquela manhã de sol.
A chegada de Sua Exa. o Governador da Província, as escolas saudaram o primeiro magistrado, que se dirigiu para a tribuna erguida em frente do busto de Camões, assistindo à cerimónia evocativa do aniversário da morte do poeta, ladeado pelos srs. José Peile da Costa Pereira, Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa e António de Magalhães Coutinho, Presidente do Leal Senado da Câmara. Por detrás e ao lado, em lugares especiais, o Prelado da Diocese, o Juiz da comarca, Comandante Militar, a esposa de Sua Exa. o Governador, outras senhoras portuguesas e estrangeiras e chinesas, individualidades mais representativas da província, e oficiais do exército e da marinha. Flutuavam na tribuna, ao centro, a Bandeira Nacional e dos lados os pavilhões de Nuno Álvares, da Mocidade Portuguesa e do Governador da Província.
Proferiu uma alocução interessante, oportuna e repassada de patriotismo, o sr. António Augusto da Canhota, professor da escola comercial "Pedro Nolasco da Silva" alocução a que se podia chamar, com mais propriedade "conferência", pelo que a publicaremos na íntegra, oportunamente.
Portugal vive integralmente nos "Lusíadas"
— disse o orador
Seguiu-se uma palestra em língua chinesa, dirigida aos jovens das escolas chinesas, alusiva a Camões, pelo rev. Padre Lei Chông U, director da escola secundária chinesa "Mong Tak".
Findas as palestras, Sua Exa. o Governador e comitiva, dirigiu-se para o lado esquerdo da gruta, assistindo ao desfile da Mocidade Portuguesa, dos jovens estudantes de ambos os sexos, das crianças das escolas primárias portuguesas e chinesas que depunham flores junto do busto, flores naturais, viçosas e lindas, em homenagem ao grande poeta Camões — edificante exemplo de respeito e veneração pelo grande português, de portugueses e chineses, de muçulmanos e caenses, irmanados no mesmo fervor espiritual e profundo respeito por Portugal eterno.
Era meio dia quando se ouviu o primeiro tiro de canhão, da salva de 21 tiros que a fortaleza do Monte disparou assinalando nestas paragens o Dia de Portugal.

A recepção e cumprimentos no Palácio do Governo da Praia Grande
Foi cerca das 12,30 horas, que se aglomeraram inúmeras pessoas no átrio do Palácio, a fim de apresentar cumprimentos a Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, na pessoa do seu legítimo representante em Macau, Sua Exa. o Governador da Província Almirante Joaquim Marques Esparteiro.
De acordo com o protocolo desta cerimónia, foi feita a chamada das entidades indicadas na Reforma de Administração Ultramarina, pelo sr. tenente Lopes da Costa, oficial às ordens de Sua Exa. o Governador. E além dessas entidades, funcionalismo, oficialidade do exército e da armada, apresentaram cumprimentos membros dos mais categorizados da comunidade chinesa, associações, comerciantes, industriais, médicos, engenheiros, advogados, e inúmeras pessoas em número muito superior a um milhar.
Sua Exa. o Governador estava ladeado pelo Juiz da Comarca, Prelado da Diocese, Comandante Militar, Vice-presidente do Conselho de Governo, ajudantes e secretário do Prelado, a todos estendendo a mão com o seu peculiar sorriso.

No Hospital de S. Rafael
Findos os cumprimentos, registou-se uma surpresa, extra-programa. Soubemos que Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, resolveram, assinalando dia tão festivo, inaugurar, embora numa breve visita, novos e importantes melhoramentos no Hospital de S. Rafael da Santa Casa da Misericórdia. E fomos ver, também esses melhoramentos.
Na antiga dependência destinada a quarto das enfermeiras de serviço, no primeiro andar, foi instalada uma "incubadora eléctrica", aparelho gem do mais moderno fabrico americano, o qual, com acessórios, importou em cerca de cinco mil patacas. O aparelho não só regula electricamente a temperatura e grau de humidade necessários, como o fornecimento de oxigénio, numa combinação técnica admirável, e que é a última palavra no género e único em Macau. Assim um recém-nascido que careça desses cuidados, será salvo em tão útil como "humano" aparelho E, numa volta pelo primeiro andar, vimos também que quase tudo está pintado de novo, especialmente na maternidade; na sala de trabalhos substituíram as antigas "banheirinhas" por lavatórios de porcelana, com instalações apropriadas para aquecimento de água; marmorites nos pavimentos e paredes; divisórias envidraçadas, aquecimento, lavatórios de lavagem de bebés, mais crescidinhos, junto da enfermaria das parturientes e muitos outros arranjos em obediência às exigências dos mais modernos apetrechamentos tendo em vista a higiene e o conforto nos hospitais.
Notava-se em Sua Exa. o Governador e em Sua Exma. Esposa incontida satisfação por verificar o crescente progresso daquele hospital.
Os ilustres visitantes foram recebidos à entrada do Hospital e acompanhados na visita aos novos melhoramentos pelo dr. Barros Lopes, seu Director, pelo Provedor, sr. dr. Damião Rodrigues, e pelos srs. 1.º Tenente Lourenço Pereira, mordomo, e pelos mesários Mário Pereira, Joas Lopes, Alfredo Silva e pela farmacêutica do hospital sra. dra. D. Maria José da Cruz Neves, e pelos srs. drs. Edmundo e Henrique Senna Fernandes.
À já na despedida, a uma pergunta nossa, disse-nos um mesário a origem da verba despendida naqueles melhoramentos, tendo alguns beneméritos oferecido alguns materiais de construção.
E quem havia de dizer, que o produto da festa dos santos populares do mercado de S. Domingos, do ano passado, iniciativa louvável a todos os títulos da Exma. Senhora Dra. D. Laurinda Marques Esparteiro, viria a transformar-se em obra tão útil e de tão elevado alcance social, em benefício do Hospital de S. Rafael, em suma, da população de Macau-ricos, remediados e pobres.

Nos salões do Palácio do Governo da Praia Grande
Houve recepção das 18 às 20 horas, onde mais uma vez se apreciou a franca hospitalidade portuguesa. Sua Exa. o Governador e Sua Exma. Esposa foram duma extrema amabilidade para os seus convidados, portugueses, chineses e estrangeiros, numerosas senhoras que emprestaram ao ambiente a graciosidade das suas "toilettes" vaporosas e coloridas.
Foi servido um delicado "cocktail", executando a orquestra Vila Verde escolhidas músicas.
Esta recepção deixou gratas recordações a todas as pessoas que assistiram à requintada festa.
Assistiram, também, as mesmas entidades e individualidades a que já nos referimos.
No Teatro de D. Pedro V a sessão cultural dedicada ao imortal Camões
Eram 21,45 horas, quando começou. Na primeira fila tomaram lugar Sua Exa. o Governador e Exma. Esposa, o Venerando Prelado da Diocese, Juiz Substituto, Comandante Militar e noutras filas, várias pessoas e entidades portuguesas e estrangeiras.
A sessão iniciou-se com o Hino da Mocidade Portuguesa, cantado pelo orfeão da M.P., seguindo-se as canções populares portuguesas pelo mesmo orfeão "A nossa terra", "O mendigo" e "O trevo". O orfeão, com boa afinação de todos os seus naipes foi dirigido pelo assistente eclesiástico da Mocidade Portuguesa rev. Padre Barcelos Mendes, sendo muito aplaudido.
Seguiu-se uma notável conferência pelo sr. Dr. José Tertuliano Cabral, vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, subordinada ao título "Camões, o príncipe dos poetas portugueses", conferência em que versou os temas "A síntese da lírica medieval", "Glória da poesia renascentista" e "Fonte de inspiração para as correntes poéticas posteriores".
O seu trabalho prendeu a assistência, pelo real valor da tese que apresentou em que comprovou, demonstrando profunda análise de Camões e das suas obras, da sua época e da influência das obras de Camões até nossos dias.
Na sua conferência disse o orador, na sua modéstia tantas vezes demonstrada, como o seu valor: "um infinitamente pequeno, vai falar dum infinitamente grande".
Podemos dizer sem receio de desmentido que o conferencista estava à altura do seu trabalho, do seu profundo conhecimento da Obra de Camões e da literatura portuguesa de que é distinto professor.
Dado o tamanho da sua notável conferência não cabe nesta ligeira reportagem impressiva, pelo que oportunamente será publicada na íntegra. Os trabalhos que o fazer-se deles um resumo é quase um crime.
A sessão cultural que foi promovida, como a romagem patriótica à gruta de Camões, pelo Conselho de Instrução Pública, de Macau, terminou com o Hino Nacional, cantado pelo Orfeão da Mocidade Portuguesa, regido pelo Rev. Padre Barcelos Mendes e acompanhado ao piano pelo Rev. Padre Lancelote, ouvido no mais profundo e emocionante silêncio, de pé por toda a assistência.
Iluminações de gala
Assinalaram a noite festiva de 10 de Junho — Dia de Portugal, apresentando feérico aspecto as fachadas dos edifícios, nomeadamente o Palácio do Governo da Praia Grande, das Repartições, dos Correios, e Leal Senado, quartéis e fortalezas, esquadras da polícia, etc.
Artigo publicado nas páginas 1 e 6 do Notícias de Macau de 12.6.1956

Na capa da edição de 12.6.1956 do "Notícias de Macau"


"Como nos anos anteriores foi o DIA DE PORTUGAL aqui festejado com brilho e acentuado espírito patriótico no dia 10 do corrente, dia consagrado ao imortal Poeta Luís de Camões. Nesta cidade revestem-se essas comemorações de especial significado por, segundo a tradição, ter o Poeta escrito em Macau parte do seu imorredoiro Poema. Para festeja esta grande Festa Nacional foi elaborado o seguinte programa que se cumpriu integralmente:
1- Às 8.00 horas – Hastear da Bandeira Nacional nos edifícios das Repartições Públicas, Quartéis e Fortalezas.
2- Às 10.00 horas – Parada militar com desfile das forças diante da tribuna colocada em frente ao Palácio da Praia Grande, no qual tomarão parte contingentes da força do Exército da Polícia de Segurança Pública, da Polícia Marítima e do Corpo de Bombeiros Municipais, sendo a guarda de honra a Sua Exa. o Governador prestada pela Milícia da Mocidade Portuguesa.
3- Às 11.00 horas – Cerimónia pública no Jardim da Gruta de Camões em que farão alocuções os Srs. António da Canhota, professor da Escola Comercial “Pedro Nolasco” e Lei Chêng U, director da escola chinesa “Meng Tak”, depois do que desfilarão os alunos das escolas e da Mocidade Portuguesa, perante o busto do poeta.
4- Às 12.00 horas – Salva de 21 tiros na Fortaleza do Monte.
5- Às 12.30 horas – Recepção na Residência do Governo às corporações oficiais, funcionários e cidadãos desta província que desejem apresentar cumprimentos.
6- Das 18.00 às 20.00 horas – Recepção no Palácio do Governo da Praia Grande.
7- Às 21.45 horas – Sessão cultural no Teatro “D. Pedro V”, promovido pelo Conselho de Instrução Pública, ao qual o vice-reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. José Tertuliano Cabral, proferirá uma conferência subordinada ao título: “Camões, o príncipe dos poetas portugueses”. Cooperará no sarau o Orfeão da Mocidade Portuguesa.
8- Das 21.00 às 24.00 horas – Iluminação de gala nos edifícios públicos e quartéis que o possam fazer."
Artigo “Comemorações do Dia de Portugal.” 
publicado no Boletim Informativo da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral – Secção de Propaganda e Turismo. Ano III, nº 60, 15.6.1956

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Ano Jubilar da Dioecesis Macaonensis

"De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia 1576-2026" é o mote do Ano Jubilar da Diocese de Macau (Dioecesis Macaonensis), a primeira do Extremo-Oriente.
Foi estabelecida a 23 de Janeiro de 1576 pela bula "Super Specula Militantis Ecclesiae" emitida pelo Papa Gregório XIII, desligando-se da diocese de Malaca. Desde início foi consagrada a Santa Catarina de Senna e São Francisco Xavier.
Aguarela das Ruínas de S. Paulo - 1951
pelo pintor macaense Luís Demée (1929-2014)

Celebrações
Até Janeiro de 2027 um vasto programa assinala a efeméride com exposições, espectáculos musicais, competições desportivas e simpósios académicos que pretendem promover uma reflexão sobre os últimos quatro séculos e meio de missão em Macau.
A grande cerimónia comemorativa está marcada para o dia 31 de Outubro de 2026 e inclui uma recepção e uma Celebração Eucarística. Os fiéis vão unir-se em torno da Eucaristia nesta ocasião para demonstrar gratidão a Deus "pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meios" e rezar "para que Ele continue a orientar o caminho a seguir" nos anos vindouros, segundo a Diocese.
Emissão filatélica
A Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações (CTT) emitiu uma emissão filatélica especial que "integra um conjunto de quatro selos, sendo que cada um apresenta um edifício emblemático intimamente associado ao catolicismo em Macau: (...) o Paço Episcopal, a Igreja de S. Lázaro, o Seminário de S. José e a Sede da Cáritas de Macau." 
A emissão inclui ainda um bloco "com a imagem de um mapa antigo da região como fundo a contrastar com o recém-construído Centro Católico da Diocese em primeiro plano, aludindo a uma fusão entre o velho e o novo para delinear o contexto histórico e expressar ainda a importância de Macau como berço e centro da expansão do catolicismo no Oriente. A parte inferior do bloco ilustra várias igrejas listadas como património cultural de Macau, que destacam, no seu conjunto, o profundo valor histórico, cultural e social da Diocese de Macau."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Restauração da independência, Eduardo Brazão e Escola Camões em Hong Kong

Em mais um aniversário da Restauração da Independência (1640) - data relevante tb para Macau * onde existem duas ruas da Restauração (em Macau e na Taipa) - ocorreu-me o nome de Eduardo Brazão (1907-1987), proeminente diplomata e historiador português com forte ligação ao Oriente e a Macau, tendo sido Cônsul de Portugal em Hong Kong entre 1946 (chegou em em Abril de 1947) e 1951.
The  China Mail 4.4.1947

Sabia que actualmente existe a "Escola Camões" em Hong Kong? Na sua origem está Eduardo Brazão. Diplomata, académico e historiador considerado um visionário. Neste aspecto, uma das ideias que preconizou foi a criação de uma Universidade em Macau na década de 1940. O projecto acabou por não vingar. O mesmo não aconteceu com a criação da Escola Camões em Macau e do Instituto Português, também na então colónia britânica.
Imagens fornecidas por antigos alunos da Escola Camões em Hong Kong
Fundada em 1947, começou por funcionar no nº 7 da Cox's Road (Tsim Sha Tsui) e abrangia os primeiros anos de escolaridade, da creche ao ensino primário. Embora se destinasse a alunos portugueses/macaenses, depressa passou a aceitar alunos de outras nacionalidades, incluindo chineses. De início teve apoio do Governo de Macau e posteriormente do Governo de Hong Kong e da comunidade portuguesa local. Em 1957 há registo de mais de 200 alunos inscritos.
A primeira director da escola foi a macaense - nasceu em Shameen, Cantão - Maria Lourdes de Oliveira Sales (1926-2022).
No início da década de 1950 o jornalista Armando de Aguiar (Correio da Manhã, do Brasil) visitou Macau e Hong Kong, tendo-se encontrado com Eduardo Brazão. Aqui fica o seu testemunho:
"Num dos navios do magnate macaense Sr. Fu Tak Iam fiz-me transportar a Hong-Kong. O braço amigo do Dr. Eduardo Brasão levou-me a visitar a cidade e os arredores, incluindo Kowloon, que em chinês quer dizer ‘nove dragões’, de Kow (nove) e Lung ou Loon (dragões). E levou-me também a transpor as páginas da história pátria no que diz respeito à presença de Portugal no ‘Porto Perfumado’. Numa das barulhentas e policromas ruas da cidade chamou-me a atenção uma casa revestida de azulejos de aspecto português. Dei- me à curiosidade de investigar a sua origem e apurei serem, realmente, de origem nacional, fabricados em Aveiro. O Clube de Recreio, em Kowloon, é uma afirmação do espírito social da comunidade portuguesa, assim como o Clube Lusitano, fundado em 1866, marca um lugar do mais alto relevo entre as instituições culturais que exaltam e prestigiam o nome de Portugal em países estrangeiros. Pois foi dentro das veneráveis paredes daquela patriótica instituição que o actual secretário nacional da Informação fundou, em Novembro de 1947, o douto Instituto Português de Hong-Kong, destinado à divulgação da nossa cultura naquela colónia britânica, onde, graças ao fecundo impulso que desde o início lhe foi dado por aquele brilhante diplomata, têm sido versados os principais problemas relacionados com a obra da inteligência em Portugal, no passado e no presente. O Instituto Português de Hong-Kong deve ser considerado o remate da obra de defesa da língua de Camões naquela colónia inglesa, onde vivem cerca de mil portugueses. O Instituto e a Escola de Camões, também patriótica iniciativa do Dr. Eduardo Brasão, constituem dois instrumentos onde vibra a alma de Portugal."
Em 1996 os destinos da escola para Po Leung Kuk, adoptando o nome "Camões Tan siu Lin Primary School" e mudando de instalações. Acualmente proporciona esporádicamente cursos de português.
Da vasta obra que Eduardo Brazão deixou publicada destaco:
- "Macau, Cidade do Nome de Deus na China, Não Há Outra Mais Leal",1957
* Macau manteve-se fiel à coroa portuguesa durante o período de união ibérica (1580-1640) e, como recompensa pela "lealdade", o rei D. João IV concedeu-lhe o título de "Não há outra mais leal" em 1654. A aclamação de D. João IV como rei ocorreu em Macau dois anos após a restauração em Portugal, em 1642. 

Sugestão de leitura:
A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos) da autoria  de José Frazão de Vasconcellos publicado em Separata do N.º 53 do Boletim da Agência Geral das Colónias em 1929.

domingo, 24 de agosto de 2025

Ponte Nobre de Carvalho: algumas curiosidades

A primeira travessia terrestre entre Macau e Taipa, a ponte Governador Nobre de Carvalho, com cerca de três quilómetros de extensão foi considerada durante vários anos a ponte contínua em betão armado mais longa do mundo e a única a ligar a península à ilha da Taipa até 1994.
A ponte em construção em 1973. Foto de Ou Ping.
Foi projectada pelo engenheiro Edgar Cardoso (1913-2000) no final da década de 1960. A construção iniciou-se a 18 de Junho de 1970 e a inauguração ocorreu a 5 de Outubro de 1974. Inspirada nas tradicionais pontes asiáticas de bambu, a sua forma evoca o dorso de um enorme dragão, representando a cabeça o Casino Lisboa e a cauda o Monumento da Taipa.
Eng. Edgar Cardoso nas obras da ponte

Na altura da abertura ao trânsito a ponte tinha pagamento de portagens facto que só foi abolido em Dezembro de 1981.
A 25 de Novembro de 1973, por deliberação das autarquias de Macau foi atribuída a designação de Ponte Governador Nobre de Carvalho à ligação até então conhecida como Ponte Macau-Taipa, numa homenagem ao homem que levou adiante o tão sonhado projecto. José Manuel de Sousa e Faro Nobre de Carvalho era general do Exército Português e desempenhou o cargo de Governador de Macau entre 25 de Novembro de 1966 e 19 de Novembro de 1974. Nascido em Lisboa em 1910, foi mobilizado para várias comissões de serviço na Índia, Cabo Verde e Angola, onde foi Chefe de Gabinete do Governador Geral e, mais tarde, Comandante Geral da Polícia de Segurança Pública. Recebeu várias condecorações e inúmeros louvores. Morreu a 23 de Agosto de 1988, em Lisboa, aos 77 anos.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O Campo dos Arrependidos e o Dia de Macau

Nos mapas de meados do século 19 (o de cima é de 1838) a zona onde hoje está o Jardim e Monumento da Vitória (Av. Sidónio Pais) surge com a designação Campo dos Arrependidos, alusão ao facto de ser o local onde em 1622 os holandeses que participaram na invasão de Macau se renderam/arrependeram e voltaram para trás.
A zona teve ao longo dos tempos mais variadas designações: desde Campo da Victória a Praça ou Largo da VitóriaDas terraplanagens nesta área já na segunda metade do século 19  sobrou a terra utilizada depois para terraplanar a zona pantanosa do Tap Seac. (imagem abaixo). Foi também 'aberta' a Avenida Vasco da Gama por volta de 1896/98. Estava dado o primeiro passo para a disseminação da população de origem portuguesa para fora das muralhas que circundavam a chamada "cidade cristã".
A vitória sobre os holandeses a 24 de Junho de 1622 foi logo assinalada oficialmente - Dia de Macau e feriado até 1999 - nesse ano pelo Senado que instituiu a Festa de S. João que incluía procissão, missa e salva de 21 tiros na Fortaleza do Monte.
Segundo relato de Carlos Caldeira por volta de 1850, “Esta missa se chamava de Vitória, para ela dava o Senado cinco patacas de esmola e concorriam a ouvi-la muitos moradores de Macau e suas famílias, indo as crianças com flores e bandeira: passavam por ali o dia com música e folguedos, numa espécie de festa de arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim caiu em esquecimento parece que desde 1844”.
O Monumento da Vitória ergue-se no meio do Jardim da Vitória, na Avenida de Sidónio Pais, celebrando a vitória dos portugueses sobre os invasores holandeses.
Entre meados do século XVI e inícios do século XVII, os Países Baixos (Holanda) tornaram-se a potência dominante na Europa, na sequência da revolução da burguesia e iniciaram a sua expansão para oriente, seguindo as rotas pioneiras dos portugueses, cobiçando a conquista de Macau, que sofreu uma série de incursões armadas holandesas, antes da tentativa real de capturar a cidade. Em 1622 os holandeses enviaram uma esquadra com mil soldados para tentar conquistar Macau. Durante a invasão, um padre jesuíta disparou um tiro de canhão da Fortaleza do Monte – na altura apenas um simples aquartelamento – que acertou no paiol dos holandeses, causando uma tremenda explosão que desnorteou as suas forças, que bateram em retirada, salvando-se assim a cidade. Para assinalar a vitória dos portugueses foi inaugurado a 26 de Março de 1871 o Monumento da Vitória, comemorando a Vitória sobre os Holandeses e assim o jardim ficou conhecido pelo mesmo nome.
O Monumento da Vitória foi feito em Portugal por Manuel Maria Bordalo Pinheiro. É composto por um soco octogonal sobre o qual se assenta um fuste canelado, tendo nele aplicado as duas cartelas, no estilo do século XVII, e encimado por dois escudos, um com as armas de Portugal e outro com as da Cidade, ornados de carvalho e loiro. É rematado, no topo, pela coroa real portuguesa. No monumento está a seguinte inscrição:
"Para perpetuar na memória dos vindouros a vitória que os portugueses de Macao por intercessão do bem-aventurado S. João Baptista a quem tomaram por padroeiro alcançaram sobre oitocentos holandeses armados que de treze naus de guerra capitaneadas pelo Almirante Roggers desembarcaram na praia de Cacilhas para tomarem esta Cidade do Santo Nome de Deus de Macao em 24 de Junho de 1622."

Sobre este feito Montalto de Jesus assinou um longo artigo publicado em 1894 no China Review (Vol. 21 - nº3) intitulado "Macao's Deeds of Arms" (Os Feitos de Armas de Macau).
Destaco ainda o que foi publicado no vol. 24 - nº3, em 1899, intitulado "Origin of the colony of Macao". Estava dado o mote para o livro que viria a ser publicado poucos anos depois, o "Historic Macau", em 1902.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O 10 de Junho e os cartazes de Vitor Marreiros

O designer gráfico macaense Victor Hugo Marreiros (n. 1960) é o autor dos cartazes alusivos ao dia de Portugal em Macau desde 1990. Os trabalhos tem como características comuns a inclusão de símbolos nacionais, portugalidade, de Macau e aspectos alusivos ao ano em curso.
2004
2025

2017

Vitor Marreiros em entrevista ao Hoje Macau em 2017:
"Faço os cartazes do 10 de Junho desde 1990. Fiz primeiro para o Governo de Macau, quando ainda estava no Instituto Cultural (IC), e depois para a comissão organizadora das comemorações do 10 de Junho. Depois, ao fim de uns anos, voltou para o IC e passou a ser feito pelo IPOR. Ao fim de um ano, pelo facto de o IPOR ter decidido fazer um concurso, em vez de me pedir cartazes, deixei de fazer. Mas ainda assim decidi fazer sem encomenda, em 2006, quando fiz um galo de Barcelos para oferecer à comunidade portuguesa. Estava habituado. A Casa de Portugal em Macau soube da história e decidiu apadrinhar o cartaz. Até hoje."
1990
2024

Curiosidade:
A propósito de Victor Marreiros e portugalidade... No hotel MGM em Macau a "Grande Praça", com calçada à portuguesa, é uma réplica de vários edifícios da baixa lisboeta, sendo o edifício a norte, inspirado na fachada da Estação Rossio. Ainda no hotel podem ser vistas diversas obras da autoria do artista macaense, incluindo nos restaurantes de comida chinesa "North" e "South".

terça-feira, 10 de junho de 2025

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

10 de Junho de 1982: carimbo da "1ª Exposição filatélica Macau e Portugal"

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é celebrado a 10 de Junho porque essa é a data da morte do poeta Luís Vaz de Camões em 1580. O feriado remonta a 1920. Durante o Estado Novo denominava-se "Dia de Camões, de Portugal e da Raça". A partir de 1978 passou a ser "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas".
Em Macau é desde 1923 assinalada, entre outros eventos, com uma romagem à Gruta de Camões.
1983: ano da emissão deste selo (de 1 pataca) da série Edifícios e Monumentos
Postal máximo: fotografia, selo e carimbo sobre o mesmo tema


No topo do arco da Porta do Cerco a expressão "A Pátria honrai que a Pátria vos contempla", divisa da Marinha portuguesa adoptado em 1863. 

Aspecto actual

Portaria de 20.3.1863:
«Manda Sua Majestade El-Rei declarar ao conselheiro inspector do arsenal da marinha, que sendo muito conveniente estimular por todos os modos os brios patrioticos e os nobres sentimentos, ha por bem ordenar que immediatamente faça apromtar e assentar nos navios que tenham tombadilho no vau d’este, e nos outros no ponto mais visível da tolda, a seguinte inscripção em letras de metal bem visíveis A PATRIA HONRAE QUE A PATRIA VOS CONTEMPLA».
PS: só o navio escola Sagres ainda cumpre esta portaria.