Mostrar mensagens com a etiqueta guerra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta guerra. Mostrar todas as mensagens

domingo, 25 de janeiro de 2026

Um "pai fong" especial em Outubro de 1945

A fotografia - encontrada numa pesquisa aleatória na internet - retrata o quotidiano em Macau em Outubro de 1945 (embora não estivesse datada). Sobre a data e o que mostra a imagem é o que trata esta publicação...
Ao centro destaca-se um um "pai-fong" (arco comemorativo) erguido para celebrar a vitória da China na Guerra de Resistência contra o Japão por via do fim da II Guerra Mundial. 
Entre os vários elementos visuais no arco está a bandeira do Kuomintang (da República da China) - ainda não tinha sido proclamada a República Popular de 1949 - e a cruz que simboliza a vitória aliada. 
Após a rendição do Japão em Agosto de 1945, os arcos comemorativos incorporaram frequentemente o símbolo "V" ou cruzes - vê-se uma do lado direito - para representar a vitória dos Aliados e o fim da II Guerra Mundial. O arco assinala também as festividades do "Duplo Dez", alusivas ao 10 de Outubro de 1911, data da proclamação da República na China.  A Revolução Xinhai derrubou a dinastia Qing pondo fim a mais de dois mil anos de regime imperial e estabelecendo a República da China.
Em 1945 as festividades foram particularmente grandiosas já que se celebrava também o fim da ocupação japonesa na China. Os arcos deste ano incluíam frases como 世界和平 "Paz Mundial" e 光復祖國 "Restauração da Pátria".
Ao fundo vislumbra-se parte da fachada do edifício do Leal Senado. Podem ainda ver-se transeuntes - civis e militares cujas indumentárias de tempo mais frio ajudam a datar a foto - e riquexós (do lado direito). A fotografia foi tirada do Largo de S. Domingos. Entre as placas comerciais do lado esquerdo está a Garage Popular (chegou a estar na Av. Almeida Ribeiro), a Livraria Po Man Lau 寶文新圖書局 (esteve noutros locais nesta zona), um consultório médico 大醫師 e uma mercearia 民平. Do lado direito a placa toponímica do Largo de S. Domingos. 
Livraria Po Man Lau vista do outro lado

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Envelope CVP - Serviço de Prisioneiros Guerra

Envelope com carimbo de 30 de Agosto de 1943 e a inscrição da Cruz Vermelha Portuguesa - Serviço de Prisioneiros de Guerra enviado de Macau para Lisboa com carimbo da Cruz Vermelha local e dos CTT de Macau. Na vertical um carimbo em japonês que significa correio de prisioneiros de guerra. Macau manteve-se neutral durante a segunda guerra mundial mas os japoneses ocuparam Hong Kong por onde o correio tinha de passar pelo que este carimbo era vital para que a correspondência pudesse ser entregue no destinatário, por sinal, o secretário-geral da CVP em Portugal.
1943 (30 Aug) Portuguese Red Cross POW cover from Macau to Lisbon, applied with Portuguese Red Cross circular h.s. in red, vertical “POW Mails” h.s. in Japanese and hexagonal Macau d.s. Very scarce POW example from Macau which remained netural during WWII.
1943.8.30 葡國紅十字會戰俘封,由澳門寄里斯本,鈐葡國紅十字會紅色圓戳、日文“俘虜郵便”直戳及澳門六角形日戳。澳門在二戰期間為中立,故戰俘郵件極為稀罕少見。

Este tipo de correio foi criado para contactar os prisioneiros de guerra. Em Hong Kong os japoneses fizeram muitos prisioneiros, nomeadamente portugueses/macaenses que ali viviam. Nestes dois exemplos mostra-se uma correspondência, também de 1943, efectuada a partir de Macau e tendo como destinatário um desses prisioneiros.
Luiz Gonzaga Gosano (1919 Hong Kong - 2014 EUA) jogava hóquei em campo. Foi feito prisioneiro a 26 de Dezembro de 1941 (fazia parte da companhia nº 5 do Hong Kong Volunteers Defense Corps) e estava no campo de prisioneiros Shamshuipo (daí a designação S no endereço). Quem lhe escreve é Avelina Maria Gosano, a irmã mais nova (1917-2013).
Sugestão de leitura: "Macau 1939-1945: os anos da guerra", João F. O. Botas, IIM (2012).

terça-feira, 4 de julho de 2023

Transportes marítimos no início da 2ª guerra sino-japonesa

Dezembro 1938

O S.S. Macau foi construído em França em 1903 como navio de carga. Foi baptizado com o nome S.S. Paul Beau e operou na empresa Messageries Cantonaises que fazia, entre outras, as ligações entre Hong Kong e Cantão. Foi sendo adquirido por outras empresas que operavam no delta do rio das pérolas sempre com o mesmo nome até ser comprado pela Tai Sang S.S. Co. (tb conhecida por Tai Sang Steamship Company - dissolvida em 1953) em 1938 que lhe mudou o nome. Seria desmantelado em Hong Kong em 1941.
O SS Kautung foi construído em França e lançado à agua em 1903. Começou por ser um navio de carga e depois foi adaptado ao transporte de passageiros. Em 1942 foi apreendido pelas tropas japonesas que o rebaptizaram como Koun Maru. Seria destruído pela força aérea dos EUA a 13 de Junho de 1945 ao largo de Macau.
O SS Paul Beau no cais em Hong Kong

Na época existiam ainda as empresas Hongkong, Canton & Macao Steamers e a China Navigation Co. que operavam muitas das vezes em parceria, nomeadamente nas ligações entre as cidades de Cantão, Hong Kong e Macau. Em baixo dois anúncios de Dezembro, um de 1936 e outro de 1938, este último com a ligação a Cantão "suspensa temporariamente", muito provavelmente devido à invasão da China pelo Japão.

Dezembro 1938

25 Dezembro 1936 - Hong Kong Daily Press

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Portugueses no Corpo de Voluntários de Shangai (1853-1942)

Below the Portuguese Company SVC in 1906 .The SVC was largely armed and uniformed from British stocks with Australian style slouch hats, though some nationalities wore their own army uniforms with SVC insignia. 
The Shanghai Volunteer Corps (SVC) was a multinational - mostly volunteer - force that existed from 1853 to 1942. It was controlled by the Shanghai Municipal Council which governed the Shanghai International Settlement. 
The SVC was created on 12 April 1853 during the Small Swords Society's uprising. It saw action alongside British and American military units in the 1854 'Battle of the Muddy Flat', when Qing imperial troops besieging the rebel-held city ignored foreign demands to move further away from the foreign concessions. Concerned that the Qing forces were drawing rebel fire into the settlements, the foreign consuls and military commanders authorised an attack on the Qing forces to dislodge them. The operation was successful, and the battle was thereafter commemorated as an important event in the history of the SVC. The Corps was disbanded in 1855 but reestablished in 1861. In 1870 the Shanghai Municipal Council took over the running of the SVC.
The unit was mobilised in 1900 for the Boxer Rebellion and in 1914 for the First World War. In 1916 the British recruited Chinese to serve in the Chinese Labour Corps (CLC) for service in rear areas on the Western Front to free troops for front line duty. Many members of the SVC served as officers in the CLC.
Prior to 1914 some of the national contingents wore distinctive parade uniforms at their own expense, modelled on those of their respective national armies.
The badge of the SVC consisted of an eight-pointed brass Brunswick star with the motto "Shanghai Volunteer Corps" around the flags of various European nations in the centre. A variation on this badge had simply the letters SVC on a similar star.

At various times during its history the Shanghai Volunteer Corps included Scottish, American, Chinese, Italian, Austro-Hungarian, Danish, German, Filipino, Jewish, Portuguese, Japanese, White Russian and Eurasian companies, amongst others. British War Office supplied weapons and a commanding officer. The German and the Austro-Hungarian companies were disbanded in 1917 when China declared war on Germany.
The SVC was disbanded early in 1942 after the International Settlement was taken over by the Japanese. The decision was formally made by the still existing Shanghai Municipal Council who held a reception to mark the placing of the Corps' colours "in a place of dignity and honour" in the Council chambers

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Baile em benefício dos feridos da guerra na China

No dia 18 de Dezembro, pelas 21:30 nos Salões do Club de Macau realizou-se um "baile em benefício dos feridos da guerra da China". A entrada custava 3 patacas e o evento era "promovido pela Associação de Senhoras Chinesa de Macau no Socorro aos feridos da guerra na China". Década 1930.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"Dulce et decorum est pro patria mori"


O ossário–monumento dos Combatentes da Grande Guerra no Cemitério de S. Miguel no dia da inauguração em Abril de 1938.

Nas várias faces do monumento pode ler-se a expressão em latim: "Dulce et decorum est pro patria mori" - "É doce e adequado morrer pela pátria" - um dos versos da obra "Odes" do poeta romano Horácio. 
Parte da expressão - "Dulce et Decorum est" - foi também utilizada como título de um poema de Wilfred Owen sobre os efeitos de um ataque de gás sobre os soldados da primeira guerra mundial e publicado postumamente em 1920.
A expressão pode ainda ser encontrada em edifícios um pouco por todo o mundo e é também o lema de várias instituições como é o caso do Academia Militar em Portugal.
No Jardim de S. Francisco existe outro registo da Liga dos Combatentes da Grande Guerra no território, sendo Lara Reis um dos fundadores.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

"A favor dos feridos da guerra"

A propósito do centenário do armistício da primeira guerra mundial, mais um post sobre o tema e Macau com recurso a três imagens publicadas na revista "Ilustração Portugueza" em 1915.
E ainda um artigo que escrevi em 2014 publicado no Jornal Tribuna de Macau: "Marcas da Primeira grande guerra"...
1.1No final do século XIX o arquiduque austríaco Franz Ferdinand foi aconselhado pelo seu médico a mudar de ares e a viver algum tempo junto ao mar. Os problemas nos pulmões levaram-no numa volta ao mundo tendo passado por Macau em 1893. Reza a história que durante uma recepção feito pelo governador (Custódio Miguel de Borja) este perguntou ao ilustre visitante o que mais gostaria de fazer no território ao que este respondeu que adoraria assistir a uma ópera. O governador terá hesitado por alguns momentos mas pouco depois sugeriu uma visita ao Largo do Pagode da Barra onde estava em cena uma ópera cantonense intitulada 六國大封相/”Six countries conferred a Prime Minister”. Ao que parece o arquiduque não só percebeu a história (teve um tradutor ao seu lado durante a actuação) como gostou muito tendo dito até que por certo nunca mais iria ter uma oportunidade como aquela. De facto, 21 anos depois, do dia 28 de Junho de 1914, Francisco Ferdinando (herdeiro do trono austríaco) e a sua mulher, Sofia Chotek, seriam mortos num atentado na capital da província austríaca da Bósnia-Herzegovina. O episódio – que se soube logo no dia seguinte em Macau através dos serviços consulares do Império Austro-Húngaro de Hong Kong – desencadearia a “Primeira Grande Guerra”, conflito que foi de facto a primeira guerra mundial. Depois dele, o mundo mudou. Acabaram impérios, surgiram novos países…
Este ano celebra-se o centenário do início do primeiro conflito bélico à escala mundial e que causou 16 milhões de mortos.
Portugal começou por reagir à nova ordem mundial defendendo as então colónias em África, Angola e Moçambique, ameaçadas pelo exército alemão. A decisão portuguesa é publicada oficialmente em Novembro de 1914 mas só o seria no Boletim Oficial de Macau nº 5 (30 Janeiro de 1915). No texto expressa-se a autorização do Congresso da República dada ao governo português para intervir militarmente ao lado da aliada Inglaterra. Poucos meses depois do início do conflito, em Outubro o governador Carlos da Maia informa o ministro das Colónias sobre as condições de segurança, do ponto de vista militar, em que se encontrava o território.
Em 1916 entra definitivamente no conflito com o denominado Corpo Expedicionário Português responsável pelo recrutamento numa primeira fase de 30 mil soldados que viriam a ser estacionados na Flandres. Entre eles estava Lara Reis que viria a destacar-se em Macau como professor e forte impulsionador da vida cultural e artística do território nas década de 1920 e 1930. Mas do Corpo Expedicionário fizeram parte muitos soldados oriundos de Macau. A 12 de Agosto de 1914 pela Portaria nº 203 foi determinada a constituição provisória do Corpo de Voluntários de Macau. A 31 de Março de 1916 são convocadas as companhias do Corpo de Voluntários para prestarem serviço militar “em virtude da guerra com a Alemanha”.
1.2
No final da guerra estima-se que entre sete a 10 mil portugueses morreram nas trincheiras europeias, uma boa parte na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918).
Macau escapou à guerra de forma incólume mas não indiferente (por via da participação portuguesa) e ainda existem “marcas” que assinalam esses quatro anos mortíferos. Curiosamente, e ao contrário do que é comum encontrar-se nos registos toponímicos um pouco por todo o mundo, julgo que no território não existe nenhum exemplo.
As quermesses para angariar dinheiro e o envio de roupa para os combatentes foi motivo de notícia na imprensa publicada em Macau e Portugal naqueles anos. Logo a 15 de Janeiro de 1915 realiza-se a primeira “quermesse para angariar fundos”.
Na edição de 22 de Março de 1915 a revista Illustração Portugueza apresenta duas fotografias que testemunham o contributo macaense. Na primeira imagem “grupo da sociedade elegante de Macau vendo-se entre ela as senhoras que angariaram donativos a favor dos feridos da guerra”. Na segunda imagem apresenta-se a “formatura de voluntários portuguezes em Macau por ocasião do movimento patriótico em favor dos nossos soldados expedicionários”. São cerca de 200 elementos, todos fardados e armados.
1.3-Soldados portugueses na Gruta de Camões em 1906
Na edição de 10 de Maio de 1915 apresenta uma fotografia com a seguinte legenda: “Comissão de senhoras trabalhando – no Palácio do Governo – na confecção dos artigos de agasalho destinados aos feridos da 1ª Guerra Mundial”.
Em 1917 há registo da oferta de um subsídio de 100 mil libras “oferecido à metrópole por Macau para os serviços hospitalares dos feridos de guerra e para as famílias dos mobilizados” e o envio de “objectos destinados aos soldados portugueses em campanha”. Em Janeiro de 1918 o governo de Hong Kong emite um aviso sobre a existência de bombas explosivas alemãs, camufladas, em latadas de conservas de diversos tamanhos.
Em termos de património edificado que evoca a Primeira Guerra Mundial existe o ossário no cemitério de S. Miguel e o torreão no Jardim de S. Francisco a recordar esses fatídicos anos.
Em relação a estes dois últimos há um nome que se destaca. Fernando Lara Reis, professor do Liceu e antigo combatente na 1ª guerra mundial. Em 1917, tenente e adido à recém formada estrutura da aviação militar, parte para França, integrando o Corpo Expedicionário Português. Sofre um acidente com o avião militar sendo internado no Hospital Militar de Paris. As lesões sofridas incapacitam-no para o serviço activo. É promovido a Capitão e passa à reserva em 1918. No ano seguinte chega a Macau e é aqui que vai viver até à sua morte em 1950.
1.4-Cemitério de São MiguelO ossário–monumento dos Combatentes da Grande Guerra  (de Macau) no Cemitério de S. Miguel foi inaugurado em Abril de 1938. Os restos mortais de Lara Reis foram para lá trasladados em 1954.
Já o torreão foi inaugurado em Abril de 1934, servindo primeiro como casa de arrecadação do material da Repartição Técnica das Obras Públicas no Jardim de S. Francisco. Em 1938 sofreu obras para albergar a sede da Liga dos Combatentes da Grande Guerra (fundada em Portugal em 1923), sendo Lara Reis o fundador em Macau. A inauguração ocorreu a 9 de Abril de 1939. Aquela parte do jardim chamava-se “Jardim dos Combatentes da Grande Guerra 1914-18”. Tudo isto pode ser verificado in loco.
Após o falecimento de Lara Reis, o seu principal impulsionador, a sede da Liga “viu-se transformada em sapataria, depois alfaiataria, a seguir em Estação Postal Militar”. Estes serviços estavam todos na dependência dos militares. A Estação Postal Militar 3 foi inaugurada em Fevereiro de 1963 e encerrada em Outubro de 1974. Na década de 1980 serviu de sede à Associação Recreativa dos Deficientes de Macau.
 


 Ilustração Portugueza: 22.3.1915
“Grupo da sociedade elegante de Macau, vendo-se entre ela as senhoras que angarivam donativos a favor dos feridos da guerra”
“Formatura de voluntários portuguezes em Macau por ocasião do movimento patriótico em favor dos nossos soldados expedicionários(«Clichés» do fotógrafo sr. M. Mumelga, de Hong Kong)”
Ilustração Portugueza : 10.5.1915
Palácio do Governo de Macau: Comissão de senhoras trabalhando na confecção dos artigos de agasalhos destinados aos feridos da guerra («cliché» Mumeya)”

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente




A guerra: questões coloniais em questão
A guerra era uma «conflagração europeia». Era assim que os documentos de várias colónias a classificavam, mesmo que a realidade tenha ultrapassado o espaço físico desse continente e se tenha prolongado para outros lugares. A conceção de guerra europeia, na realidade, apelava à rivalidade entre as potências do Velho Continente e ao seu domínio colonial, imediatamente colocado em causa quando se desencadeou o conflito. No caso português, houve um impacto direto do conflito em Angola e Moçambique, mas ele marcou igualmente outros territórios, sob a ameaça militar ou pelas suas consequências políticas e económicas.
Também nas colónias do Oriente, Índia, Macau e Timor, se projetou o conflito, através de múltiplas incidências. Mas as circunstâncias apresentaram-se igualmente propícias à resolução de questões pendentes, particularmente à definição colonial, como conceberam os governadores de Macau e de Timor, respetivamente José Carlos da Maia e Filomeno da Câmara. Para estes dois intervenientes, exigia-se um apelo à diplomacia internacional, um acordo pelo qual as potências internacionais obrigassem a China a reconhecer as fronteiras macaenses e proporcionassem a Portugal a totalidade da ilha timorense, recebendo a Holanda, por troca, algum território que até aí tivesse pertencido à Alemanha. Os projetos ficaram pelas ideias dos governadores, todavia, o primeiro procurou, pelos meios de Macau, resolver a questão em algumas das regiões em disputa, particularmente na ilha da Lapa, com a ocupação pacífica e gradual por forças portuguesas, esperando conduzir os habitantes à aceitação da soberania portuguesa; no entanto, os chineses também ocuparam a mesma ilha, verificando-se alguns incidentes entre navios das duas nacionalidades. As definições coloniais envolvendo estas colónias não se ficaram por aqui, pois a própria Austrália as considerou, procurando obter Timor através da compensação aos portugueses com algum território perdido pelos alemães.
Antes da declaração de guerra
Para além dos projetos, e enquanto Portugal se manteve como potência neutral na sua dimensão europeia, os efeitos da guerra sentiram-se de formas diversificadas. Na sociedade macaense, as senhoras fizeram agasalhos e recolheram donativos para os soldados, entre outras atividades. Mas um outro efeito foi visível desde o início da guerra: a chegada de refugiados. Começaram por vir de Hong Kong e em setembro de 1914, o governador estimava já 120.000 habitantes na cidade, receando que entre eles se contassem muitos piratas ou revolucionários. Impunha-se então uma maior vigilância, pelo que a resposta local foi a criação do Corpo de Voluntários.
O problema de Macau encontrava-se essencialmente na China, então em profunda turbulência. À guerra civil larvar acrescentavam-se, bem problemáticos para a colónia portuguesa, os movimentos xenófobos, o que também justificou a reorganização policial, de forma a intensificar a vigilância. De Lisboa a ordem era para evitar qualquer conflito. E, de facto, houve grande preocupação em precaver incidentes, expulsando propagandistas da oposição, apreendendo panfletos, etc.
Noutra parte, no Índico, cinco cargueiros alemães (Lichtenfels, Marienfels, Brisbane, Kommodore and Numantia) e um austro-húngaro (Vorwaerts) acostaram em Mormugão logo em agosto de 1914, alegando a necessidade de abastecimento de carvão; todavia, apesar de o porto ser português, a única casa fornecedora era inglesa, tendo ordens para não abastecer os navios estrangeiros. A grande preocupação do governador passou, então, a ser a manutenção da neutralidade, quando na colónia viviam, em proximidade, britânicos e germânicos.
Impunha-se uma preocupação essencial: impedir a transmissão de informações pelos alemães, a quem ficou interdita. A utilização da TSF. Muito expressamente, de Lisboa a indicação era para vigiar, pois não se podia transigir e possibilitar qualquer «abuso» contra o país «nosso aliado»; sendo necessário, o governador português deveria concertar posições com as autoridades da colónia vizinha. Por esta razão, a uma dessas embarcações, o «Numantia», foi tirado o aparelho de comunicações.
Para além desta, as autoridades portuguesas tiveram de enfrentar diversos problemas colocados pelas suas diferentes tripulações. Assim, e como exemplo, alguns franceses do Djibouti quiseram regressar às suas terras, obrigando o governo a negociar com os franceses; um italiano queixou-se de ameaças feitas pelos alemães. Impuseram-se ainda outras questões relativas às cargas, pois muitas firmas reclamavam como suas as mercadorias transportadas, querendo reavê-las ou, pelo menos, impedir a sua venda.
Declarada a guerra
Preparava-se, entretanto, a requisição simultânea dos navios surtos nos portos portugueses, partindo de Lisboa as instruções para serem seguidas pelos diversos governadores. Os cinco navios alemães ancorados em Mormugão foram requisitados pelas autoridades portuguesas a 23 de fevereiro de 1916. No início assistiu-se a alguma tentativa de resistência, que logo cessou, sendo lavrado protestos dos respetivos comandantes
A requisição dos navios trouxe à Índia uma questão com que se debateram os responsáveis por outras colónias: que fazer das tripulações alemãs. Depois de terem passado por uma fase de liberdade, embora sob vigilância, os ingleses pressionaram o Governo local para outra solução, receando que os germânicos fugissem. Estes passaram então à situação de prisioneiros, na fortaleza da Aguada e nos quartéis militares de Bicholim e Pangim. Tendo, entretanto, caído doentes muitos deles, 48 foram transferidos para Angra do Heroísmo, em abril de 1917; alguns seguiram para a metrópole; mantinham-se os outros, com grandes dificuldades, o que fez permitir que a casa Volkart Brothers lhes enviasse mensalidades, de acordo com as convenções internacionais relativas a prisioneiros. Colocava-se igualmente o problema da sua defesa, quando a guarnição europeia era pequena e o governador não queria que os locais tivessem este serviço. Mantiveram-se na Índia até outubro de 1919, não obstante as tentativas do governador local de os fazer seguir mais cedo, o que foi impossibilitado pela falta de transportes; em junho deste ano ainda tentou que saíssem para Moçambique a bordo de um navio português.
Mas a requisição dos navios veio a acarretar outras dificuldades, pela necessidade de proceder à sua descarga, sem que localmente se encontrassem as condições necessárias. Por decisão do governo de Lisboa, e não obstante os protestos do governador, alguns acabaram por partir para Bombaim.

Breves sobre "A Guerra"
jornal A Colónia 11.5.1918

Em Macau e Timor: as ameaças vizinhas
Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal, uma possível invasão chinesa a Macau apareceu envolta numa nova perspetiva: a possibilidade de, como chegavam as informações, ser estimulada pelos alemães que se encontravam em Cantão e que intensificavam a propaganda contra os portugueses. Houve, então, que impor medidas de prevenção, proibindo a entrada no porto durante a noite, e impondo lugares e horários especiais para o fundeamento dos navios chineses. À entrada do porto foi montado um serviço de vigilância. (...)
A escassez de forças militares
Os problemas sentidos nas colónias impuseram, como é compreensível, a requisição de forças militares, que possibilitassem às autoridades locais enfrentarem as ameaças. Mas estas eram extremamente limitadas. Foi na Índia que se sentiu a situação menos problemática, menos ameaçadora. Mesmo assim o governo pretendia a chegada de praças.
Em Macau escasseavam as forças militares, dedicadas à defesa e ao policiamento. A cidade enchera-se de pessoas, a agitação sentia-se a todo o instante e os efetivos mostravam-se insuficientes para responder a qualquer ameaça. Mas Lisboa respondia que era da impossível o envio de reforços. Verificou-se então um confronto de números: para o governador faltavam elementos, enquanto os organismos ministeriais consideravam que o número dos que estavam em Macau eram suficientes para o quadro. Penso que se assistiu aqui (dezembro de 1915) como que uma tomada de consciência da Direção Geral das Colónias que considerou que mesmo com a guarnição completa não haveria capacidade para evitar uma invasão chinesa, pelo que as forças teriam de se limitar ao policiamento da cidade e a sufocar qualquer rebelião interna. Em janeiro de 1916, o ministério mandou perguntar qual era a força necessária simplesmente para manter a ordem em caso de sublevação dos chineses.
É notória, no entanto, uma preocupação sentida em Lisboa para conseguir reforços para enviar para esta colónia, o que acabou por não se concretizar. Deste modo, o Governo local transformou o Corpo de Voluntários em tropas de segunda linha e acabou por impedir a saída dos militares que já tinham terminado a sua comissão, não obstante os numerosos pedidos de licença para partirem. Antecipava assim a ordem dada pelas autoridades centrais aos governadores coloniais, no final de novembro, para permitirem o alistamento dos cidadãos portugueses residentes. Depois, no final de 1916, acabou por requisitar forças à Índia, para conseguir completar os efetivos das unidades indígenas; como esta colónia não podia, então, responder afirmativamente, acabou por se voltar para Moçambique, solicitando o envio de landins, que também não estavam disponíveis. Finalmente, no Verão de 1917, chegou um pequeno contingente indiano a Macau.
Quando o Ministério considerou seriamente a possibilidade de enviar tropas, no início de 1918, deparou-se com outra dificuldade: o seu transporte. Levadas até Moçambique pelo «Mossamedes», e estando aí à espera de nova embarcação que os conduzisse à colónia à beira da China, começaram a servir na defesa local; mais tarde, quando houve possibilidades de deslocação, foram as autoridades locais que não permitiram a sua partida até à sua substituição por novo pessoal ido da metrópole. Foram também os transportes que continuaram a ser o óbice ao envio de um contingente para Macau nos meses seguintes.
As requisições de material tiveram um percurso diferente. Neste caso, em agosto de 1915, o responsável por Macau optou por comprar munições directamente ao Japão. Alguns meses mais tarde, em Lisboa, havia também munições para serem enviadas para a colónia, mas tinham de esperar um transporte. A situação piorou e, em fevereiro de 1917, já o ministério avisava o governador que seria difícil dar resposta às solicitações, uma vez que as fábricas dos países beligerantes só trabalhavam para a sua própria defesa.
A falta de meios em Timor também motivou a sua requisição, à metrópole e a Macau, solicitando o envio da canhoneira «Pátria». Mas esta colónia necessitava dela e perante um aumento da ameaça, após um ultimato inglês à Holanda, em 1917, o recurso do governador foi reorganizar as forças para poder responder a qualquer eventual ataque. A situação era ainda mais difícil pelo isolamento em que se encontrava a colónia portuguesa, sem comunicações, impossibilitando uma verdadeira análise da situação.
Chegar ao Oriente: o problema dos transportes 
Atrás já se verificou como a falta de transportes dificultou a deslocação de tropas para o Oriente. Porém, não era apenas para este grupo que se colocavam os problemas. Deste modo, considerando que as viagens no Mediterrâneo eram «contingentes» devido aos ataques de submarinos e que a deslocação em navios de nações beligerantes naturalmente faziam acrescer o perigo, a opção do Estado português foi providenciar o transporte dos seus passageiros pela via do Cabo, aproveitando os paquetes da Companhia Nacional; os que tinham como destino a Índia seguiam até Lourenço Marques, onde obtinham lugar numa das embarcações da British India, até Bombaim, ou encontravam navios de outra empresa. (...) Esta dificuldade de deslocação constituiu um dos principais fatores que afetaram as colónias dos Oriente. O regresso das colónias, particularmente de Timor, onde as opções eram mais limitadas, ofereciam outro tipo de problemas, dado que as companhias holandesas se recusavam ao transporte de militares, mesmo a título isolado, obrigando à solicitação da intervenção do Governo de Haia. Por outro lado, pela falta de navegação, houve necessidade de autorizar a elevação do estatuto do liceu de Macau, para não prejudicar os alunos que, em circunstâncias normais, viriam para a metrópole para prosseguir os seus estudos. Por outro lado, o transporte de mercadorias, de e para a metrópole, viu-se seriamente atingida. À falta de transportes acrescia a falta de comunicações. Timor, especialmente, ficou uma colónia isolada.
Questões económicas
Noutra dimensão, tornou-se extremamente difícil a importação de produtos europeus, que eram particularmente consumidos pelos portugueses; Macau e Timor foram as colónias onde as queixas mais se fizeram sentir. À escassez destes bens aliava-se a restrição dos mercados na região de Macau, em consequência da agitação chinesa. (...)
Em Macau, em 1917, notava-se já um acréscimo de preços de 40 a 50%. Em consequência, os governantes tiveram de aumentar os vencimentos dos funcionários, civis ou militares. Timor era uma colónia deficitária, mas com uma economia baseada na exportação dos seus produtos, particularmente café e copra.
A falta de transportes para a Europa afetou de imediato a exportação do café para a Europa, tanto mais que nas Índias neerlandesas se colocavam obstáculos à sua comercialização. Com efeito, segundo o Governador, a atitude dos holandeses era hostil e o café estava retido em Surabaia e Macáçar (junho de 1916); depois, a venda tornou-se mais fácil, mas o preço era muito baixo; outros locais do Oriente também não se mostravam mercados fáceis, pela abundância do café brasileiro. Mas a situação piorou ainda no início de 1918, quando os neerlandeses recusarem qualquer transporte com destino a portos britânicos ou japoneses.
A censura
Politicamente, a vida local foi também igualmente afetada pelo estabelecimento da censura. As circunstâncias locais implicaram algumas adaptações. (...) Já em Macau, foi o Governador quem a pediu para estabelecer a censura sobre o telégrafo e correio, logo depois da declaração de guerra, para evitar os efeitos da possível propaganda alemã. As determinações gerais sobre este serviço impunham que pelo correio só transitassem documentos escritos em inglês, francês, italiano, espanhol ou português, levando a mesma autoridade a solicitar a possibilidade de se alargar a chinês, para a correspondência entre a colónia e a China. Contudo, a censura aos documentos nesta língua mostrava-se tão demorada de que foi necessário abreviá-la.
Macau e a Pátria-Mãe
Integrados numa perspetiva mais alargada, o Leal Senado e o Conselho de Governo ofereceram 1.000.000 de libras (cerca de 800 contos) à Pátria-Mãe, especialmente destinados a hospitais e famílias de soldados; o governo aceitou 30.000. Mas não foi apenas esta a contribuição, pois em outubro de 1917 foi alargada às colónias da África Ocidental e à Índia, Macau e Timor, a taxa de guerra que já existia em Moçambique, aplicada sobre a correspondência postal e telegráfica
A celebração
Terminada a guerra, o governador Sousa Gentil, em Timor, preparou a celebração através da realização de uma feira, em 1922. Quando a Macau, o respetivo Governo mandou fazer, em 1924 um opúsculo denominado «Para a História do Corpo Expedicionário Português»*, glorificando a Pátria, incluindo a transcrição das memórias do marechal Hindemburgo sobre as tropas portuguesas em La Lys.
Postal da época: 1910/20
Conclusão
Não participando diretamente na guerra em que Portugal esteve envolvido, as três colónias não africanas não deixaram de sentir as suas consequências. Inseridas em contextos geográficos diferenciados, os seus efeitos foram igualmente divergentes. Contudo, alguns pontos tornaram-se comuns. O facto de o país se encontrar envolvido no conflito deve ter sido a razão essencial para que houvesse, numa primeira fase, como que uma desistência de Macau, não se enviando os recursos humanos que pudessem fazer frente ao perigo chinês. Com efeito, em circunstâncias anteriores, a resposta tinha sido o envio de expedições militares (1900 e 1911-12); o mesmo acontecera em Timor, em 1912, com o envio de forças de Macau. Durante a Grande Guerra, no entanto, foi só numa fase tardia que as forças se destinaram a Macau, mas impedidas de prosseguir a partir de Moçambique. Era tradicional a falta de meios de transporte da metrópole para estas colónias; em circunstâncias de guerra, as dificuldades aumentaram, impossibilitando a ligação e contribuindo para a escassez militar. Nesta fase, o recurso teve de ser a reorganização de meios próprios (onde se contavam também soldados de Moçambique que já aí se encontravam anteriormente), para além de a ajuda da guarnição da Índia. Em colónias cuja ligação económica à metrópole era ténue, esta enfraqueceu-se naturalmente.
Excerto de artigo da autoria de Célia Reis - Professora IHC/FCSH-UNL: Instituto de História Contemporânea/Faculdade  de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa - "Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente", in Os Portugueses na Grande Guerra,. História e Memória / XIX Encontro Torres Vedras, coord. de Carlos Guardado da Silva, Lisboa, Colibri. 2017,
* a abordar num próximo post
Sugestão de leitura (da mesma autora):
“Macao et Timor. Le Souveraineté Portugaise et l’Incidence de Guerre de 1914-1918”, in Guerres Mondiales et Conflits Contemporains, nº 256, October 2014, pp. 69–80

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Macau during World War One

During World War One, Macau's main problem was its relationship with China. This stemmed from the consequences of its internal tensions and the lack of recognition of the Portuguese borders. However, its defence was weak, mainly based on local elements.
War in Europe and Tensions in China

The impact of the Great War on Macau was rooted in the colony’s former issues: its relationship with and vicinity to
China, involving both the indefiniteness of Macau’s borders and the political agitation in China. From the beginning of the war, many Chinese refugees came from Hong Kong to Macau. At the beginning of September 1914, the governor estimated the town’s inhabitants at 120,000, many of whom were likely pirates or revolutionaries. This required more surveillance; however, military and police forces were not enough. Thus, the governor created the Volunteer Corp, with many adhesions.
Simultaneously, there was substantial unrest in southern China due to internal problems, which also impacted the colony Macau. For instance, in October 1914 authorities caught wind of a plan intending to cause trouble that was linked to Macau. They took measures to avoid it by forbidding any type of manifestation or
propaganda. Then authorities increased surveillance in the Chinese neighbourhood, contracting Chinese police and using military troops. In December 1915, when agitation increased after the proclamation of the monarchy in China, surveillance was expanded to cover the whole town. Germany declared war on Portugal in March 1916, when China was in the midst of great turmoil as a result of the newly announced monarchy. During this time, the governor of Macau feared an invasion. Now the situation was linked with the enemies in Europe: according to his information, 400 Germans lived in Guangdong and spread propaganda against foreigners. He thought this could provoke a revolt hostile to the Portuguese, as in Hong Kong, where three conspiracies were discovered. Later, more refugees, especially from Guangdong, came to Macau. Naturally, it resulted in more intensive surveillance and increased control of people entering and leaving Macau. Meanwhile, he began censoring mail and telegraph wires. However, it proved difficult to carry out due to the necessary translation of Chinese letters.
The War as a Possible Resolution of Border Disagreement
Despite the agreement between the
Portuguese and Chinese governments in 1887, Macau’s borders were not established, and instead postponed for a future agreement. However, Chinese claims, especially in Guangdong, never permitted it. Now, in October 1914, the governor sought to resolve the issue, suggesting that since Portugal supported its ally, Great Britain, it could benefit from delimiting the territory, which would end the agitation over Macau. In 1916, there were developments in this matter: while the Portuguese authorities had plans for a Pacific occupation of Lapa, one of the contested islands, Chinese forces dominated the same; there were some problems with Chinese ships in Portuguese waters, too. After that, conversations with the Guangdong government took place and its representative went to Macau.
Necessity of Troops
This situation made it necessary to deploy more troops, since the Macanese garrison was very limited and vulnerable. In response to demands to Lisbon for more forces and military equipment, the Portuguese government asked for justifications for the request. A small contingent came from
India. Thus, the solution was to transform the Volunteer Corp into active troops. In March 1916, the governor asked permission to impose police service on all Portuguese inhabitants, but the minister refused. Only in the summer of 1917 did the ministry in Lisbon consider it essential to send troops to Macau to protect the territory. However, it was very difficult to arrange transportation; in the beginning of 1918 military forces assigned to Macau were fighting in Mozambique and authorities did not permit their transfer.
Other Aspects of Local Life
As in other warring nations, inflation made it necessary to increase salaries in Macau; local markets did not have enough goods, but other aspects of the economy and finance were maintained without significant changes. Local authorities offered 30,000 pounds to the “Mother homeland”, especially to help
hospitals and soldiers’ families. To overcome students’ inability to travel to Portugal, the local high school implemented a higher level of education.
Conclusion
At the
Paris Peace Conference following the war, Portuguese delegates tried to discuss Macau’s borders, but without success. In conclusion, in spite of its distance from the war, Macau was affected to a certain degree, but was unable to use the conflict to solve pre-existing problems, which remained largely unchanged after the war.
Artigo da autoria de Célia Reis - Professora

IHC/FCSH-UNL: Instituto de História Contemporânea/Faculdade  de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
in 1914-1918 online. International Encyclopedia of the First World War, ed. by Ute Daniel, Peter Gatrell, Oliver Janz, Heather Jones, Jennifer Keene, Alan Kramer, and Bill Nasson, issued by Freie Universität Berlin, 2016.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A China na Grande Guerra

No próximo ano assinalam-se os 100 anos passados sobre o fim da primeira guerra mundial. O conflito iniciado em 1914 terminou simbolicamente a 11 de Novembro de 1918, sendo conhecido pelo Dia do Armistício (de Compiègne), assinado entre os Aliados e o Império Alemão naquela localidade francesa, pelo fim das hostilidades na Frente Ocidental, o qual teve efeito às 11 horas da manhã, ou seja, a "undécima hora do undécimo dia do undécimo mês". Na chamada Frente Oriental as hostilidades prosseguiriam... Facto pouco conhecido foi a 'participação' da China.
Membros do CLC junto a fábrica de munições em Vonges, França
A imagem abaixo é de um mapa chinês de 1918 onde são assinaladas a diferentes cores a posição dos diferentes países face ao conflito. A vermelho estão os aliados e a azul os 'inimigos'. A bandeira de Portugal - que tal como a China também por ter uma posição neutral no conflito - está do lado direito.
A primeira guerra mundial teve início em 1914 e só terminou em 1918. Facto pouco conhecido foi a participação chinesa no conflito que oficialmente só ocorreu a partir de meados de 1917, mas antes disso, em meados de 1916, já milhares de chineses tinham chegado à Europa - provenientes sobretudo do Norte mas também de Hong Kong - para ajudar no esforço de guerra ao lado dos aliados - enterravam os mortos, cavavam trincheiras, trabalharam em fábricas de munições, como tradutores, etc - num grupo que ficou conhecido por Chinese Labour Corps (símbolo em baixo). Ao todo foram mais de 500 mil sobretudo em Inglaterra e França (e dali para os EUA), mas também na frente russa. Muitos voltariam a casa - o última contingente voltou já em 1920 - com a primeira experiência do mundo ocidental ajudando a construir a China do século XX (o partido comunista subiu ao poder em 1949). Outros, cerca de dois mil, morreram...
A China, tal como Portugal, era, na época uma jovem república. O período da dinastia imperial tinha chegado ao fim e o país vivia em guerra civil, com dois governos, um a Norte e outro a Sul. Vários países do Ocidente, mas também o Japão tinham importantes interesses comerciais e estratégicos na China com especial predominância em algumas cidades, como Xangai, Pequim ou Tsingtao. E os alemães tinha ocupado a província de Shandong em 1898.
Numa primeira fase da guerra, Sun Yat Sem, fundador da República chinesa, manifestou-se contra a participação no conflito, mas em Agosto de 1917 vir-se-ia a juntar aos aliados cojtra os japoneses e alemães. Implicitamente a ideia era, como a potencial vitória aliada, conseguir para a China alguns proveitos e o fim do que se denominava "exploração colonialista". Na prática acabou por não ser assim, após a Conferência de Paz e só no final da década de 1940 o cenário político iria mudar... Mas antes, ainda ocorreu a segunda guerra sino-japonesa (1937-1945), uma espécie de 'guerra esquecida' da segunda guerra mundial, mas que deixou marcas profundas. Dos 60 milhões de mortos registados no conflito mundial, um terço, 20 milhões, eram chineses. 
Existe abundante bibliografia em inglês sobre o tema mas muito pouca em português. Um desses raros exemplos é de 2014. Tem como título  "China na Grande Guerra - A conquista da Nova Identidade Internacional", e é da autoria de Luís Cunha com edição do IIM.
Curiosidade:
Em Hong Kong existe desde 1923 um monumento denominado - The Cenotaph - que começou por ser uma forma de homenagear os membros das forças armadas britânicas que ao serviço da então colónia britânica morreram na guerra. O memorial, réplica do que existe em Whitehall, Londres, passou também a servir para lembrar e homenagear as vítimas da segunda guerra mundial, um conflito com consequência bem mais nefastas para esta zona do mundo. Hong Kong foi invadido pelo exército japonês em Dezembro de 1941. Com uma forte comunidade portuguesa e macaense a residir na então colónia britânica foram muitos os portugueses e macaenses que sucumbiram na defesa do território. Ainda assim milhares conseguiram escapar encontrando um porto de abrigo a menos de 100 quilómetros de distância, em Macau.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Macau Between Republics: Neither War nor Peace (1914-1918)

Durante a 1ª Guerra Mundial, Macau viu agravado o clima de instabilidade que caracterizava a vida daquela colónia portuguesa no Extremo Oriente. Portugal e a China, jovens Repúblicas, projectavam as suas convulsões internas na política externa. As duas nações alimentavam um litígio antigo a propósito da delimitação territorial de Macau. Dependente da protecção da aliada britânica, via Hong Kong, a colónia portuguesa sobrevivia graças a um precário modus vivendi com os chineses. Portugal exercia em Macau uma soberania exígua, ameaçada em permanência pelo ímpeto nacionalista da China. O espectro de uma ofensiva militar chinesa contra Macau nunca cessou. Embora resguardada do conflito mundial, Macau viveu uma realidade de tensão.
Perspectiva sobre o farol da Guia
Na génese dos movimentos que conduziram à implantação das Repúblicas, em Portugal e na China, radicava uma ideologia nacionalista de sinal contrário. Na realidade, enquanto o nacionalismo português, corporizado e interpretado pela ideologia republicana, pugnava pela valorização do Império – ao abrigo de uma visão soberana do espaço colonial ultramarino –, o nacionalismo chinês opunha-se frontalmente à presença das potências coloniais na China, sustentada nos alegados tratados desiguais.
Todavia, seria este nacionalismo republicano que conduziria Portugal, primeiramente, e mais tarde a China, ao alinhamento na guerra mundial. Afectados na sua legitimidade republicana e com o espectro da restauração monárquica sempre presente, os governantes de ambas as nações optariam por projectar e fazer diluir problemas estruturais internos numa política externa de alto risco. Ainda assim, os dois países permaneceriam marginalizados pelo directório internacional resultante da Grande Guerra.
As duas nações conheceram períodos de grave instabilidade política, líderes ditatoriais, tentativas de restauração da monarquia, sucessivos governos e até conflitos armados. Em ambos os casos a instauração do regime republicano deu-se mais como reacção à fadiga monárquica e não tanto pela afirmação de uma alternativa ideológica. Portugal e China transitaram para regimes republicanos no mesmo período, sendo dos primeiros casos nos respectivos continentes. Tinham em comum a decisão sobre o futuro de Macau.
Militares portugueses em Macau: década 1920
During World War I, the Portuguese far-eastern colony of Macau underwent an intensification of the climate of instability that had hitherto characterized its life. Portugal and China, young republics both, projected their internal convulsions into their foreign policy. The two nations also nurtured an old dispute concerning the territorial delimitation of Macau. Dependent for its protection on Portugal’s traditional ally, Great Britain, via Hong Kong, the Portuguese colony survived thanks to a precarious modus vivendi with the Chinese. Portugal exercised in Macau a limited sovereignty, threatened continuously by the nationalist impetus of China. The risk of a Chinese military offensive against Macau never ceased. Although sheltered from the world conflict, Macau went through a time of great tension from 1914 to 1918.
In the years that preceded the outbreak of the Great War, the colonial authorities in Macau had attempted to find a balance between the distant (and not always well-informed) supervision from Lisbon, Imperial China’s political pressure, and the conflicting drives of an administration permeable to the influence of local and regional interests. The impunity with which pirates and opium smugglers operated in the waters and islands adjacent to Macau, which Portugal claimed as its own, completed the complex tableau that was local government, structurally precarious and resting on agreements of doubtful validity. Secret societies – Portuguese and Chinese – saw in Macau fertile ground for their machinations.
Some months before the proclamation of the Republic, Portuguese authorities in Macau were given the chance to renew the long-delayed question of the territorial delineation of Macau. Pearl River pirates, daring and used to acting with impunity, kidnapped children from Macau’s neighboring villages, taking them to their headquarters on Coloane Island. The Macau government reacted with vigor, mobilizing military and police forces, backed by heavy artillery, gun-boats, and a cruiser. The Battle of Coloane resulted in the liberation of almost all the hostages and the arrest of the surviving pirates. Conditions were created for the reaffirmation of Portuguese sovereignty over an island which, for centuries, had been at the heart of a dispute with China.
 This episode neatly illustrates the precarious nature of Portuguese colonial ambitions in this portion of the Far East, since Macau was regularly submitted to internal and external pressures. This scenario would become more serious still during the first years of the young Republics – Portuguese and Chinese – and, more specifically, during the period of the Great War. Macau would once more survive, thanks mostly to the erratic evolution of China’s foreign policy and the civil war which absorbed the various centers of power in Nationalist China. It should be noted, however, that the highly problematic political agenda which surrounded the Macau question remained unresolved in the years that followed the conclusion of a conflict which raged throughout the entire world and which involved two accidental allies – Portugal and China.
 As was the case in other Portuguese colonies, the question of borders was the most delicate issue in Macau’s political and administrative agenda. The Treaty of Friendship and Commerce concluded in Beijing on 1 December 1887 and ratified on 28 April 1888 had left open the question of Macau’s borders on land and at sea. This meant that the sovereignty claimed by the Portuguese over the islands of D. João, Montanha, and Lapa would, alongside the territory’s maritime limits, be disputed by China for a number of decades. In truth, for China the issue was never simply one of establishing precise borders; it was, instead, a full-blown territorial dispute(Saldanha, 2006, 916-917). This would remain, until the first decades of the 20th Century, the most troubling question for Portugal’s foreign policy in the Far East.
(...)
Baía da Praia Grande ca. 1900-10
Conclusion
 At the starting point of the movements that led to the formation of the Portuguese and Chinese Republics there lay a nationalist ideology that would pit them against one another. In truth, while Portuguese nationalism, embodied in and interpreted by republicanism, fought for the mise-en-valeur of the empire – in accordance with a sovereign vision of the overseas colonial space – Chinese nationalism was completely opposed to the presence of foreign powers in China, underpinned by the so-called unequal treaties. However, this republican nationalism would lead Portugal, first, and China, later, to enter the world war on the same side. Mindful of their republican legitimacy and of the ever present spectrum of a monarchical/imperial restoration, the governments of the two nations would opt to address and dilute internal structural difficulties through a high-risk foreign policy. Even so, the two countries would be kept at arm’s length by the international directory which resulted from the Great War.
 The two nations would know periods of great political instability, dictatorial leaders, attempts to restore the monarchy, short-lived governments, and even armed conflict. In both cases, the attempts to establish a republican regime were more the result of the exhaustion of the monarchical option than an affirmation of an ideological alternative. The Chinese Emperor was kept in place, still benefitting from many of his expensive privileges. The Portuguese monarch was sent into a golden exile in London. Portugal and China made the changeover to republican regimes in the same period, being among the first to do so in their respective continents. They had in common the need to reach a decision over Macau.
 Portugal and China, weak powers charged with administering vast territories, saw in their participation in the war an unmissable opportunity to acquire the respect of the international community. Among other objectives, they hoped to gain a seat at the post-war peace talks, where their wartime effort might be recognized. This hope was undone by both the reconfiguration of the international system and the actions of uneasy allies: Great Britain in the case of Portugal, the United States and Japan in the case of China. The dubious handling of the Shandong affair by President Woodrow Wilson would undermine the League of Nations. For its part, the Macau question would remain unresolved, thanks to civil war in China. The two questions would come before the Washington Conference of 1921-22.
 Macau, a diminutive Asian oasis, survived the Great War unscathed. The later unveiling of the Communist regime in China would create new difficulties for the Portuguese administered territoryin the Far East, most notably in 1955 when Premier Zhou Enlai forbade Macao’s fourth centennial celebrations and during the 1966 mutinies that resulted from the Maoist great proletariancultural revolution. Macau would eventually be handed back to China on 19 December 1999, the final day of the old Portuguese Empire.

Excertos de um artigo da autoria de Luís Cunha publicado no "e-journal of... Portuguese History" (Univ. Brown/Univ. do Porto). e-JPH, Vol. 15, number 1, June 2017 onde também é analisado o "controverso" consulado do governador Carlos da Maia.
Imagens de arquivo do blogue Macau Antigo

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

CVP: Serviço de Prisioneiros de Guerra

Quase no final da segunda guerra mundial, a 29 de Julho de 1945, este postal foi enviado de Macau para um campo de prisioneiros de guerra em Hong Kong (Camp N). Carmelina Rodrigues, refugiada em Macau oriunda de Hong Kong, recorreu aos serviços da Cruz Vermelha Portuguesa - Serviço de Prisioneiros de Guerra para fazer chegar notícias a uma familiar, muito provavelmente o marido, capitão José S. Rodrigues.

domingo, 13 de março de 2016

Macau e a primeira Grande Guerra: 2ª parte

Um dos fundadores da república (5 de Outubro de 1910), Carlos da Maia deixou o serviço activo na marinha com a patente de capitão-tenente para se dedicar por inteiro à política ocupando o lugar de deputado na Assembleia Constituinte. Depois disso passou a integrar os quadros da Direcção-Geral das Colónias, conhecendo por dentro todos os meandros da política colonial portuguesa bem como a geoestratégia internacional nessa área. Terá sido por esse facto que o governo o nomeou para o então sensível cargo de governador Macau. Saliente-se que à data da nomeação (10 de Junho de 1914) Carlos da Maia se encontrava já em oposição à corrente maioritária do regime que tinha ajudado a implantar. Essa corrente que viria a cindir a república constituiria o que veio a ser conhecido como Partido Democrático (PD) liderado por Afonso Costa e Bernardino Machado que directa, ou indirectamente, governaria o país ao longo dos 16 anos que durou a primeira república em Portugal. Carlos da Maia acusava os políticos do “PD” de se afastarem da pureza dos genuínos ideais revolucionários. No entanto o facto de à data Bernardino Machado, responsável pela nomeação de Carlos da Maia, se afirmar como chefe de um governo de “reconciliação nacional” justificou a escolha extra partidária.
Carlos da Maia chegou a Macau num momento em que todo o extremo oriente se agitava. A Norte o Japão ocupava a Manchúria e a Coreia enquanto paredes meias a China que três anos antes tinha proclamado a república via um dos seus mais prestigiados caudilhos (general Yuan-chi-kai) voltar com a palavra atrás, fazer ressuscitar o antigo regime e autoproclamar-se imperador. A China divide-se então mergulhando numa guerra civil que esfrangalha o país e que só terminará verdadeiramente em 1949 com a derrota dos nacionalistas e a proclamação da República Popular em 1 de Outubro de 1949. Nesse contexto de divisão a província de Guangdong declara-se independente e republicana deixando de obedecer a Pequim. Por seu turno Yuan-chi-kai responde enviando tropas para o sul que momentaneamente sobrelevam os republicanos cujos líderes retiram estrategicamente para os “santuários” de que dispunham nas colónias britânica e portuguesa na foz do Rio das Pérolas. Em Macau estabeleceram mesmo um dos principais quartéis-generais militares da contra ofensiva republicana. A minúscula Macau encontrava-se assim, mergulhada num caldeirão politico em ebulição que ameaçava transbordar a todo o momento. Entretanto o conflito mundial eclodia na Europa e o Japão depois de um breve período de neutralidade declarava guerra à Alemanha em 15 de Agosto de 1914 pondo cerco a Tsingtao que seria a primeira colónia germânica a cair nas mãos dos aliados da “entente”. No final do conflito a presença alemã na China e na bacia do Pacífico seria totalmente erradicada.
A declaração de guerra à Alemanha por parte de Portugal ocorreu a 10 de Março de 1916 e um dia depois a decisão seria publicada no Boletim Oficial

Nesse processo de clarificação de posições a China mergulhada na guerra civil e sem um centro político de decisão nacional tardava em pronunciar-se. Carlos da Maia chega a Macau essencialmente incumbido da missão de preparar a colónia para resistir a eventuais ameaças, ainda que militarmente pouco discerníveis e coordenar com os seus homólogos de Hong Kong e da Indochina políticas para fazer face às iniciativas estratégicas alemãs.
Para Macau o perigo decorria muito mais da anarquia em que a China se encontrava mergulhada do que da iniciativa alemã. Isto, tanto mais que, a esquadra germânica deixaria definitivamente a sua base da península de Shandong que se rendia às forças conjuntas anglonipónicas, depois de ferozes e prolongados combates, para se lançar em operações de caça às esquadras inimigas nas costas sul americanas e nos mares do Índico. Para Macau a “Grande Guerra” seria sempre um conflito longínquo. Isto ainda que todos os seus desenvolvimentos se repercutissem nas páginas da imprensa local, ainda que raramente sobrelevassem os títulos de primeira página essencialmente dedicados aos acontecimentos do quotidiano local. Macau estava demasiado longe dos teatros da guerra europeia mas demasiado perto do palco revolucionário da China. Luís Nolasco, director do jornal “O Progresso”, chamando a atenção para o facto de Macau se encontrar numa das situações mais delicadas da sua história e que teria de organizar a sua defesa para fazer face a agressões externas, ou subjugar “algum movimento insurreccional interno” sintetizava assim a situação: – “Temos de um lado a Europa empenhada nessa gigantesca e encarniçada luta fratricida despendendo milhões por dia e sacrificando milhares de vidas nessa hecatombe formidável dos campos de batalha. Por outro lado vemos nos jornais que a China está também em vésperas de uma contra revolução. O irrequieto dr. Sun-iat-sen e os seus agentes revolucionários seguiram pelos cabelos este ensejo da conflagração europeia para desfraldar novamente o pendão da revolta”. Apesar de a ameaça alemã ser vista pelos planeadores militares como bastante vaga e de difícil concretização o governo de Macau não deixou de tomar medidas, nesse âmbito, pedindo nomeadamente o envio de uma força militar para reforçar a guarnição existente considerada insuficiente , mesmo em tempos de paz. No entanto o governo de Lisboa fez “ouvidos moucos” ao pedido e em vez de mandar reforços exigiu antes o envio da quantia de “120 contos” para Angola, para onde, sim, Portugal estava a enviar consideráveis forças militares destinadas a proteger a fronteira Sul que confinava com a colónia germânica da Namíbia. A remissão de tão elevada quantia, não deixou de levantar os mais veementes protestos das forças vivas de Macau que, no entanto, não produziram qualquer efeito junto de um governo que canalizava todas as suas energias políticas e económicas para África. Do ponto de vista administrativo Macau encontrava-se num estado de desorganização patente, ainda que economicamente os monopólios do ópio e do jogo, entre outros, assegurassem ao governo elevadas receitas. Estas fontes foram aproveitadas por Carlos da Maia para pôr em marcha um plano de reorganização política e administrativa que vinha sendo adiada desde a mudança de regime em 1910. Foram igualmente essas fontes de receita que lhe permitiram modernizar com sucesso o esquema defensivo em terra e no mar.
Perante a recusa do governo da metrópole de enviar tropas, o governador toma a iniciativa de organizar um batalhão de voluntários encarregado de auxiliar a guarnição militar local. Este corpo voluntário pouco acrescentava ao dispositivo militar existente não compensando de modo algum a lacuna deixada pela recusa metropolitana, Carlos da Maia sabia-o bem, mas apesar do seu pequeno número a organização do “batalhão de voluntários” visava essencialmente um efeito político e propagandístico exaltando o moral da população de Macau. Apesar de nunca terem tido oportunidade de entrar em acção os voluntários efectuaram treino regular ao longo de todo o período da guerra sendo amiúde citados na propaganda como um exemplo de orgulho nacional na imprensa metropolitana e estrangeira.
A par do “batalhão voluntário” o governador procedeu também à reorganização dos serviços de manutenção da ordem pública com a criação da polícia civil (30-10-1915), organização estruturada segundo os conceitos mais modernos em vigor. Na área de marinha foram igualmente dados passos decisivos num sector que se encontrava em decadência e impossibilitado de efectuar uma guarda minimamente eficaz das costas de Macau e das ilhas, bem como a protecção contra a actividade dos piratas que se mostravam impunes na região do Delta e muitas vezes efectuavam assaltos em terra penetrando até aos mais movimentados bairros do interior da cidade. Para o efeito foi lançado um plano de aquisição de cinco lanchas canhoneiras que restabeleceram o sistema de defesa naval. A culminar toda a estrutura Macau e as ilhas ficaram também ligadas pelo primeiro sistema de comunicações através da telegrafia sem fios. Esta novidade tinha uma importância fundamental tendo em conta que não existiam pontes entre Macau e as ilhas sendo as ligações efectuadas por embarcações civis que efectuavam o percurso com irregularidade, ou muitas vezes, pelas próprias lanchas da marinha à falta dessas carreiras regulares. A par de tudo isto Carlos da Maia aproveitando, como disse, os plenos poderes com que vinha investido de Lisboa e a boa situação económica local interveio também noutros sectores ainda que nem sempre com o mesmo sucesso. Para além de ter levado a efeito um plano de construção de um sistema de escolas primárias (que ficaram conhecidas como “Escolas República”), no plano da educação, construiu também, na área da saúde, uma leprosaria na ilha de D. João (actual Hengqin), introduzindo igualmente um sistema de subsídios aos três principais hospitais (Kiang Wu, S. Rafael e S. Januário). A criação de uma inspecção dos incêndios comandada pelo major Craveiro Lopes (pai do antigo presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes), com a aquisição à Grã-Bretanha do mais moderno equipamento automóvel foi outro ponto importante da sua administração.
A imprensa local informava sobre a guerra na Europa
A par dos sucessos que a história lhe reconhece, Carlos da Maia também conheceu o fracasso em dois pontos importantes do seu mandato. O primeiro foi a tentativa de levar a cabo e concluir as obras de regularização do Porto Interior e o segundo a implementação uma Carta Orgânica de Macau. O plano de reorganização do Porto Interior, que já vinha de trás, voltou a confrontar-se com a hostilidade chinesa que via nele uma tentativa de expansão de Macau tendente à ocupação por Portugal da ilha da Lapa fronteira ao referido porto. Apesar do bom relacionamento de Carlos da Maia com as autoridades republicanas de Cantão, as correntes nacionalistas ali prevalecentes boicotaram todas as tentativas o que acabaria por fazer fracassar o projecto. A implementação da carta orgânica que deveria substituir o antigo estatuto que vinha de 1842 e que corria em linha com a reorganização políticoadministrativa das colónias portuguesas, foi igualmente plano que fracassou antes mesmo de ver a luz do dia. Ao que parece a principal razão do desfecho deve-se ao facto de Carlos da Maia, à semelhança do que tinha feito antes dele o governador Ferreira do Amaral (1846-49), ter proposto a extinção do Leal Senado transformando a antiga instituição numa secretaria do governo para os assuntos municipais. Esta proposta parece ter constituído uma das principais razões que levou à sua demissão. Uma demissão que Carlos da Maia contestou resolutamente mesmo depois de ter regressado a Lisboa, o que fez com que durante largos meses o governo de Macau tivesse ficado a cargo do secretário-geral Manuel Ferreira da Rocha com poderes limitados delegados pelo próprio Carlos da Maia que chegou a despachar assuntos correntes da colónia a partir de Lisboa.
Esta situação vista como anómala pelo direito administrativo era agravada pelo facto de Ferreira da Rocha ser próximo do Partido Democrático de Afonso Costa, que tinha voltado à chefia do governo e que era inimigo político confesso de Carlos da Maia.
Carlos da Maia embarcou no dia 5 de Setembro de 1916 de regresso a Lisboa, num momento em que tropas portuguesas se preparavam para atravessar em Moçambique o rio Rovuma e penetrar em território alemão uma ofensiva que viria a ter custos terríveis para o exército português. Do outro lado das Portas do Cerco Yuan-chi-kay depois de se ter autoproclamado imperador morria (6 de Junho de 1916) antes de ocupar o trono e de imediato a China mergulhou na guerra civil vendo-se dividida de facto pelos senhores da Guerra em várias províncias virtualmente independentes. Na província de Guangdong vizinha de Macau os republicanos voltaram ao poder ainda que coexistindo em frágeis alianças com os senhores da guerra. Apesar do caos o governo central sedeado em Pequim existia ainda que apenas ou quase só nominalmente já que não tinha poder sobre o país. No entanto apenas pelo facto de existir era reconhecido diplomaticamente pela comunidade internacional o que permitiu ao presidente da república general Feng Guozhang, a 14 de Agosto de 1917, acabar com o impasse que persistia e declarar guerra à Alemanha. A tomada de posição chinesa visava não só obter um lugar à mesa dos vencedores no final da guerra, mas também retomar o controlo sobre a província de Shandong ocupada pelos japoneses. Os aliados deram como bemvinda a entrada de Pequim na guerra, mas rejeitaram o envio de tropas para as frentes de combate preferindo negociar a contratação de trabalhadores para a construção e reparação das linhas de caminho-de-ferro na Europa. O contingente laboral chinês ascenderia até ao final do conflito a mais de 100 mil trabalhadores.
Terminado o consulado de Carlos da Maia, Macau voltou a perder protagonismo no seio do império e a política de maior ou menor indiferença, porque sempre se tinham pautado os governos de Lisboa, relativamente à sua colónia da China regressou. Essa atitude ficou bem patenteada no facto de Macau ter ficado entregue a administrações interinas durante quase dois anos, até à chegada de Artur Tamagnini Barbosa como governador em Outubro de 1918. Precisamente um mês antes da assinatura do armistício (11 de Novembro de 1918) que poria termo à Grande Guerra Mundial. 
Artigo da autoria de João Guedes publicado no Ponto Final de 31.12.2014
Nota do autor do blogue: Os dias 16, 17 e 18 de Novembro de 1918 foram 'feriado' em Macau.