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segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Praya Grande from the North" e "Praya Grande from the South" a lápis e carvão

"Praya Grande from the North."
"Praya Grande from the South" 

Estes dois desenhos a "pencil and crayon" (lápis e carvão) com 20 x 35 cm fazem parte do espólio do Peabody Essex Museum (EUA). Estão referidos no livro "The marine paintings and drawings in the Peabody Museum" - de M. V. and Dorothy Brewington, publicado em 1981 - como tendo sido ofertas ao museu por Richard B. Holman em 1956. A autoria é atribuída a "TA" e datam de cerca de 1887.
TA poderá ser referência a Thomas Allom (1804-1872) uma hipótese que inviabiliza a data aproximada referida no catálogo (ca. 1887). 
Richard B. Holman (1903-1983) foi um conceituado negociante de gravuras raras e desenhos em Boston, colaborador próximo de curadores do Peabody Museum (agora Peabody Essex Museum), como Marion Brewington, que organizou as coleções de arte marítima do museu.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bicentenário do nascimento de Marciano Baptista na Revista Macau - Maio 2026

Na edição de Maio 2026 da Revista Macau um artigo sobre o bicentenário do nascimento de Marciano Baptista (1826-1896), o maior vulto da arte macaense do século XIX.
Artigo pág. 58 a 66. Edição na íntegra através do link



domingo, 26 de abril de 2026

大三巴牌坊 por 李德勝

Li Dezhi / Li Desheng (李得之) é o autor desta obra a tinta da china que mostra as ruínas de S. Paulo (大三巴牌坊). Ainda que sendo receite, foi feita em 2012, remete para tempos bem antigos. Mostra a fachada da antiga igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo) vista a partir do acesso ao Pátio do Espinho (茨林圍).

Coluna da Direita (Título e Contexto):
Transcrição: 茨林圍望大三巴牌坊。壬辰年蟬聲初聞時。雨歇轉晴。撥溪李得之德勝寫生。
Tradução/Adaptação: "Vista das Ruínas de São Paulo a partir do Pátio do Espinho (茨林圍). No ano de Rénchén (2012), quando se ouvem as primeiras cigarras. A chuva parou e o tempo abriu. Pintado no local por Li Dezhi (nome artístico Desheng)."
Coluna da Esquerda (Descrição da Paisagem):
"曲徑迂迴小巷通,道廊那堂鼎其融。一堵泥墻喧市隔,對門鄰里樂相通。"
Tradução/Adaptação: "O Pátio do Espinho e as Ruínas de São Paulo parecem unir-se numa só estrutura. Caminhos sinuosos e vielas estreitas conectam-se; os corredores e a igreja fundem-se em harmonia. Uma muralha de taipa (terra/barro) isola o barulho da cidade, enquanto vizinhos de portas opostas partilham alegremente a sua convivência."
Esta outra obra do mesmo autor sobre as ruínas de S. Paulo foi feita em 2008.

Os quatro caracteres maiores no topo são escritos num estilo estilizado:
Transcrição: 澳門聖迹 (Àomén Shèngjì)
Tradução/Adaptação: "Sítio Sagrado de Macau".
A coluna de texto mais pequeno indica o momento da criação e o autor:
Transcrição: 戊子年秋月畫於濠江 李德勝
Tradução/Adaptação: "Pintado no mês de outono do ano de Wuzi, em Haojiang (Macau), por Li Desheng."
Nota: O ano de Wuzi (戊子年) no ciclo chinês refere-se, neste contexto contemporâneo, ao ano de 2008. Haojiang (Rio das Ostras) é um nome poético e histórico muito comum para designar a cidade de Macau.

李德勝, também conhecido pelo pseudónimo de Qu Beizhai, nasceu em Xiaolan, Zhongshan, em 1963. Estudou caligrafia e pintura sob a tutela de Pan Dongliang na juventude. Licenciou-se em Educação em Artes Visuais pelo Instituto Politécnico de Macau e é mestre em Ensino e Investigação de Pintura Chinesa pela Academia de Belas Artes de Cantão. Tem exposto com regularidade em Macau e na China continental.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Retrato a óleo de Camilo Pessanha por Pedro Barreiros

Retrato a óleo da autoria de Pedro Barreiros, 1976
No canto superior direito o "ex-libris" do poeta
 
A obra serviu como ilustração da capa do livro "Homenagem a Camilo Pessanha", editado pelo Instituto Português do Oriente - Instituto Cultural de Macau, com "Organização, prefácio e notas de Daniel Pires".

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em memória do pai...

Em Maio de 2019 a galeria At Light, no Pátio do Padre Narciso em Macau, acolhia a exposição "Casa das Duas Filhas - Fotos da Família de José Vicente Jorge".
As duas filhas (de José Vicente Jorge) que deram o mote à mostra eram Henriqueta* e Maria. As irmãs foram as mães dos primos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge que acabariam por casar.
Pedro e Graça são um exemplo na perpetuação da memória da história da família intimamente ligada a Macau. Basta lembrar livros como "A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô" (1992), "Danilo no Teatro da Vida" (2010), "José Vicente Jorge: Macaense ilustre" (2012), entre outros, mas também inúmeras iniciativas de índole cultural, incluindo exposições com as pinturas de Pedro Barreiros que morreu a 15 de Janeiro de 2022.
Pintura de Pedro Barreiros: exposição em 2013

Miguel Barreiros, filho de Pedro, não teve oportunidade de ver esta exposição e após a morte do pai prometeu "dar continuidade" ao seu trabalho "para preservar a memória da nossa família de Macau e do meu bisavô, José Vicente Jorge".
Por estes dias recebi um e-mail do Miguel com votos de "Kung Hei Fat Choi! 恭喜發財" onde explica que o pai "tinha a tradição de celebrar o Ano Novo Chinês partilhando um desenho do animal do zodíaco que iniciava o seu ciclo". Na ausência física do pai, Miguel decidiu "retomar esse gesto em memória dele e em honra às nossas raízes de Macau. Partilho convosco este desenho que fiz inspirado nessa tradição e pela mestria dos seus traços. É a minha forma de o homenagear e de manter viva a sua arte e o seu espírito."
Aqui fica... Kung Hei Fat Choi e um abraço Miguel!
* Henriqueta Pacheco Jorge Barreiros - filha de José Vicente Jorge e mulher de Danilo Barreiros - foi aluna de Camilo Pessanha (1867-1926) em Macau. Henriqueta ambicionava ir estudar para Portugal mas o pai não concordava. Foi Pessanha que não só o convenceu como pagou uma mesada à estudante. 
Pedro Barreiros (1943-2022), filho de Danilo Barreiros e neto de José Vicente Jorge que foi amigo de Pessanha, revelou esta história em Outubro de 1990 aquando de uma exposição em Macau com pinturas suas sobre Pessanha: "Foi Camillo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a “gentil menina” e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!"

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Marciano Baptista: do desenho a lápis à aguarela

O Forte de S. Tiago da Barra é uma das muitas aguarelas produzidas por Marciano Baptista  (1826-1896) na segunda metade do século 19. No espólio de José Maria (Jack) Braga (1897-1988) à guarda da Biblioteca Nacional da Austrália está o desenho a lápis e caneta que Marciano fez antes da aguarela. A indicação manuscrita no desenho - "S. Tiago Fort, Macao by M. Baptista" - terá sido feita por Marciano ou por Braga, quando fez a doação do seu espólio em 1966. Tal como Marciano, também Jack Braga, viveu em Hong Kong.
Uma pequena descoberta para assinalar os 200 anos do nascimento daquele que é considerado o maior nome da pintura macaense no século 19. Em baixo o resultado de uma imagem criada por IA onde solicitei a sobreposição do desenho e da aguarela.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Relatório de Macau em Janeiro de 1863 pelo governo de Portugal

O post de hoje é sobre o "Relatório dos Negócios do Ultramar apresentado à Câmara dos Deputados em sessão de 12 de Janeiro de 1863 por s. exa. o Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar."
A sessão decorreu no parlamento de Portugal que estava sob o reinado de D. Luís I e o tutelar da pasta era José da Silva Mendes Leal. Na altura o governador de Macau era Isidoro Francisco Guimarães. Terminou o seu longo mandato (iniciado em 1851) a 30 de Janeiro de 1863, sendo sucedido por José Rodrigues Coelho do Amaral, que assumiu o cargo nesse ano e governou até 1866.

Resumo dos Pontos Principais
1. Relações Internacionais e Diplomacia
O Governador de Macau é elogiado por concluir tratados com o Sião (Tailândia), Japão e, mais recentemente, com o Império Chim (China).
O tratado com a China visava estabilizar as "mal definidas relações" do estabelecimento com o império vizinho.

2. Educação e Religião
Seminário de S. José: Houve uma melhoria na instrução com a fusão da escola pública ao seminário, oferecendo cadeiras de Gramática Portuguesa, Latim, Francês, Inglês, Língua Chim e Teologia.
Recursos: O seminário é financiado por rendimentos próprios, fundos escolares (9.000 patacas) e uma loteria anual.
Educação Feminina: Realizada no Recolhimento de Santa Rosa de Lima (Convento de Santa Clara, embora considerada insuficiente para a população europeia.
Missões: Destaca-se a importância do Colégio de Sernache do Bom Jardim (em Portugal) para a preparação de professores e missionários enviados a Macau.
Nova escola estabelecida pelo Barão do Cercal a expensas particulares, destinada à instrução do sexo masculino.

3. Economia e Obras Públicas
Prosperidade Financeira: A receita (249.313 patacas) superou a despesa (180.013 patacas).
Causa da Bonança: Ironicamente, a guerra civil na China (Rebelião Taiping) impulsionou a economia local.
Infraestrutura: Investimentos em vias de comunicação, no Palácio do Governo, a construção prioritária de uma muralha (cortina) para defesa marítima e de um novo quartel (o de S. Francisco).
Segurança Marítima: Encomenda de um navio a vapor na Inglaterra por 70.000 patacas para proteger o comércio.

4. Questões Militares e Sociais
Reforço Militar: Envio de 200 praças do Exército para conter atos de insubordinação ocorridos anteriormente.
Trabalho: Menção à organização do sistema de coolies/cules (trabalhadores braçais chineses), um tema sensível na época devido às condições de trabalho.
Óleo sobre tela com uma vista da baía da Praia Grande em meados do séc. 19


Transcrição:
Macau.
Não tem este estabelecimento decaido da excellente situação em que o deixára o ultimo relatorio, que vos foi presente, e é de esperar que assim prosiga, não sobrevindo eventualidades que não é dado prever. O seu atilado e muito solicito Governador, que já com bom exito concluíra o tratado com Siam e com o Japão, de que tantas vantagens póde auferir o commercio nacional, se quizer aproveita-las, continua a mostrar-se digno de louvor por sua intelligencia e zêlo a bem do paiz. Pelo mesmo funccionario foi ultimamente negociado com o governo do Imperio chim um tratado de amisade, navegação e commercio, para assentar em bases solidas as mal definidas relações d’aquelle estabelecimento com a China, negociação a que estava auctorisado com a antecedencia conveniente, e para que fôra habilitado com os necessarios meios, a fim de aproveitar, como aproveitou, a occasião mais opportuna. D’esse tratado tomareis conhecimento quando pela repartição competente for apresentado ao vosso exame. 
Sobre o estado da instrucção tenho a satisfação de annunciar-vos que melhora sensivelmente, como era muito desejado e para desejar em cidade tão importante e populosa. Depois que ao seminario de S. José se reuniu a escola publica, estabeleceram-se alli cadeiras de grammatica portugueza, de latim, francez, inglez, de lingua chim e de theologia. Para que este estabelecimento possa porém corresponder aos seus fins é ainda indispensavel crear mais cadeiras, para as quaes hão de ir de Portugal os professores, por não haver em Macau sujeitos habilitados para as reger. O seminario, além dos rendimentos proprios, que não são escassos, administra os fundos da escola, que tendo sido de 5:000 patacas estão hoje elevados a 9:000, e recebe o producto de uma loteria que lhe dá annualmente um bonus de 900 patacas. Já vedes portanto que não faltam os recursos para desenvolver alli a instrucção, pelo menos o principal d’ella e o mais consentaneo ao estabelecimento, não se achando já absolutamente descurada a do primeiro grau, como vereis, e sendo ainda possivel, n’este e no segundo, encher lacunas sensiveis, introduzir modificações que systematisem, completar emfim uma adequada organisação. 
D’esta organisação se occupa seriamente o Governo, ouvindo e consultando as estações competentes, como pede a circumspecção em tão grave assumpto. Para a educação do sexo feminino ha n’esta cidade o recolhimento de Santa Rosa de Lima, que se acha estabelecido actualmente no convento de Santa Clara*; prestando bons serviços, mas não bastando á população europea. Estabeleceu tambem o barão do Cercal, a expensas particulares, uma escola para instrucção do sexo masculino, que se abriu ha pouco tempo, e que o Governo julgou dever efficazmente auxiliar, sem todavia prescindir de determinar a fundação de outro estabelecimento de instrucção popular, que effectivamente foi ordenada em 29 de Fevereiro ultimo. N’este logar vem a ponto mencionar-vos o collegio das missões ultramarinas, albergado em Sernache do Bom Jardim, por se tratar de assumpto que tem com elle proximas relações, e porque, recebendo de Macau subsidio annual que vem a constituir uma quota importante da sua dotação, tem com as instituições de instrucção d’aquella cidade communidade de fins e de interesses. Mandou ultimamente este estabelecimento dois professores para o referido seminario de S. José, os quaes estão já leccionando alli com grande satisfação e approvação de todos, e continua preparando diligentemente alguns aspirantes ao estado ecclesiastico, para as religiosas e elevadas funcções que o proprio nome do collegio designa. Como em differentes partes d’este relatorio deixo indicado, tem o Governo extremamente a peito tornar uma realidade as missões ultramarinas, que trata de incitar; e para isso cuida em vigiar e devidamente entender n’aquelle collegio, que, bem organisado, administrado e localisado, póde vir ainda a prestar os grandes serviços de ordem religiosa e moral, que são muito para desejar. 
O estado da Fazenda Publica em Macau prosegue em prosperidade. Tem para esta prosperidade concorrido, entre outras causas, a guerra civil no Imperio chim, guerra a que não é ainda possivel prever termo; e a administração aproveita assiduamente a opportunidade para assentar em bases solidas e permanentes a fortuna do estabelecimento. Foi a receita no anno anterior de 249:313 patacas, e a despeza de 180:013, a saber: 110:108 de despeza ordinaria, e 69:905 de despeza extraordinaria. A encommenda para Inglaterra de um vapor adequado ao serviço especial do estabelecimento, satisfaz as justas instancias do commercio local, e a construcção de um vaso que realise as desejadas condições de força, tonelagem, tirante de agua e lotação, como espero que sairá este, ha de poderosamente concorrer para a segurança do mesmo commercio, e consequentemente para o seu desenvolvimento. 
Pormenor da pintura mencionada
à esq. o fortim de S. Pedro e por trás a residência do governador

Algumas vias de communicação se têem alli construido, e muitos concertos executado no palacio do Governo, cadeia, fortalezas, etc. Fôra auctorisado o Governador a proceder á edificação de um novo quartel**, e por Carta de Lei de 5 de Junho do anno preterito, igual auctorisação foi concedida á Junta de Fazenda para despender no proximo anno economico até á quantia de 20:000$000 réis em obras publicas, entre as quaes figura em primeira linha de urgencia a cortina ou muralha que do lado do mar deve resguardar a cidade. A verba ultimamente applicada a obras publicas em Macau, sem contar a auctorisação acima referida, sobe a 30:077 patacas. O custo do vapor mencionado orçará por 70:000. 
Foram já devidamente requisitadas, e poderão embarcar no proximo Fevereiro, duzentas praças do Exercito, que vão reforçar e completar a guarnição da cidade. Confiada esta guarnição aos cuidados do estimado e experiente official superior, que o Governo ultimamente enviou, não se repetirão os deploraveis actos de insubordinação que o Governador teve recentemente de reprimir com louvavel resolução. 
Diversas providencias de outra ordem, que opportunamente examinareis, têem sido adoptadas, como instantemente convinha á nova phase em que parece destinado a entrar este estabelecimento. Outras disposições de superior importancia, como as que respeitam aos coolies, á procuratura da cidade, e ás attribuições dos consules nos paizes com os quaes foram celebrados os tratados já referidos, apressa o Governo, sem prejuizo da madureza e reflexão com que importa serem predispostas, e confia que dentro em pouco vos serão apresentadas.

* em 1875 passou a ser Colégio de Santa Rosa de Lima
** Demolido o Convento e Igreja de S. Francisco foi construído o Quartel de S. Francisco

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Do Desenho à Litografia: O Processo e os Intervenientes

Esta "Vue génerale de Macao" foi publicada na edição de 6 de Fevereiro de 1858 da publicação francesa "L'Illustration - Journal Universel". Tem como legenda "Vue génerale de Macao d'aprés un déssin envoyé par M. E. Roux"
Seria depois publicada em outros jornais um pouco por todo o mundo e com ligeiras diferenças. E isto porque no século 19 o processo de composição para impressão assumia-se como uma reinterpretação artística do desenhador original. Em alguns casos a 'gravura' também podia ser colorida. Como se pode verificar neste exemplo, parecem iguais mas não são...

Do Desenho à Estampa: O Processo e os Intervenientes

1. O Desenhador (O Autor)
Profissional: Artista ou Desenhador 
Função: É quem faz o levantamento visual no local. Produz o original em papel (lápis ou aguarela). 

2. O Gravador (O Artífice Polivalente)
Técnico especializado que traduz o desenho para uma matriz que pode ser de diferentes suportes:
Sobre Madeira (Xilogravura): Se a imagem fosse para um jornal (como o Arquivo Pitoresco em Portugal), o gravador esculpia um bloco de madeira. Ele criava as hachuras em relevo para que pudessem ser impressas juntamente com o texto metálico.
Sobre Pedra (Litografia): Se o objetivo fosse uma estampa de maior qualidade, o gravador (aqui chamado de litógrafo) desenhava sobre uma pedra calcária com materiais gordurosos. É um processo químico, mas a mão que define o traço é a do gravador.
Sobre Metal (Calcografia): Para edições de luxo, o gravador utilizava o buril ou ácidos para abrir sulcos em chapas de cobre ou aço.

Nota: O gravador era tão importante que, muitas vezes, o seu nome aparece gravado na base da imagem (ex: "Gravado por..."), pois era ele quem decidia como interpretar as sombras e as texturas do desenho original.

3. O Impressor (O Mestre da Prensa)
O Impressor é o responsável pela oficina. Ele prepara as tintas, molha o papel (para que este aceite melhor a tinta) e opera as prensas. O seu domínio sobre a pressão da máquina é o que evita que as linhas finas (as hachuras) fiquem empastadas.

4. O Iluminador ou Colorista (O Acabamento)
Profissional: Colorista (frequentemente artistas anónimos em oficinas).
Este profissional aplicava a cor à mão, exemplar a exemplar, usando aguarela. Ele não gravava nada; apenas acrescentava valor estético à impressão a preto e branco que saía da prensa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O "Canton System"

Em 1684 o imperador Kangxi (康熙) da dinastia Qing (清朝) levantou a proibição do comércio marítimo e abriu quatro portos da China ao comércio externo. São assim criados os postos alfandegários, os Hopu. Na região de Macau (a partir de 1688) existiam quatro postos alfandegários - dois deles na cidade: Porto Interior e Praia Grande - responsáveis ​​pela cobrança de tarifas, inspecção de embarcações estrangeiras e emissão de autorizações de entrada.
Ao longo do século 18 o cada vez maior interesse de potências ocidentais, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos, em negociar com a China levou o imperador a criar regras.
O "Sistema de Cantão" - do inglês Canton System - consistia numa série de regulamentos para governar as interações entre chineses e estrangeiros em Cantão. Foi criado em 1757 pelo imperador Qianlong que emitiu um édito proibindo os navios europeus de negociarem em qualquer outro porto chinês que não fosse o de Cantão.
Praia Grande de Macau por G. Chinnery ca. 1825/30

Os supercargueiros (supercargos) estrangeiros que desejassem comercializar em Cantão solicitavam uma licença em Macau antes de contratar um piloto local para navegar a embarcação pelo estuário do Rio das Pérolas até à estação alfandegária de Bocca Tigris. Após as autoridades inspeccionarem a licença, um “prático interno” assumia o comando do navio e guiava-o rio acima, passando por uma série de
bacias de areia e bancos de areia traiçoeiros, até à ancoragem designada em Whampoa, já muito perto de Cantão. 
Um membro do grémio de mercadores “Co Hong” (hang 行) autorizado pelas autoridades chinesas era então recrutado para garantir a segurança do navio, assumir a responsabilidade pela conduta da sua tripulação, fiscalizar o pagamento de diversas taxas portuárias e direitos aduaneiros e comercializar com a embarcação estrangeira. 
Era também contratado um 'comprador' para abastecer o navio enquanto este estivesse atracado em Whampoa, e um linguista ou intérprete licenciado pelo Estado ajudava a supervisionar as transacções comerciais entre o supercargo estrangeiro e o seu parceiro comercial chinês. 
Em Cantão, junto ao rio, foi criado um espaço onde estavam instaladas treze "feitorias" (factory em inglês). Ficava fora das muralhas da cidade onde o estrangeiros não podiam entrar. Os edifícios serviam de alojamento e armazém para os comerciantes estrangeiros enquanto estes permaneciam em Cantão e conduziam os seus negócios.
No fim de cada temporada de comércio (Março a Setembro), os comerciantes tinham de sair de Cantão, residindo em Macau os restantes meses do ano, onde também estavam as famílias e, por vezes, escritórios das empresas de maior dimensão.
O sistema gerou enorme frustração nos britânicos (liderados pela Companhia das Índias Orientais), que o consideravam humilhante e comercialmente limitador. O desequilíbrio comercial - o Ocidente comprava chá e seda, mas a China apenas aceitava em troca a prata - levou os britânicos a introduzirem o ópio no mercado chinês para equilibrar a balança.
Em 1802 e 1808 os ingleses tentaram ocupar Macau mas não lograram os objectivos. Estas intenções seriam mal vistas pelas autoridades chinesas que entretanto emitem éditos a proibir o comércio do ópio. 
Aguarelas de meados do séc. 19

Após o parlamento inglês ter revogado o monopólio da Companhia das Índias Orientais, em 1834, William John Napier foi nomeado superintendente-chefe do comércio britânico na China. Tentou negociar com as autoridades de Cantão em pé de igualdade, mas estas interpretaram o seu comportamento como contrário às relações sino-estrangeiras estabelecidas. A sua missão fracassou e Napier viria a morrer nesse ano em Macau. Foi substituído em 1836 por Charles Elliot.
Em Pequim, uma proposta de 1836 para aliviar as restrições ao ópio obteve um amplo apoio, mas o imperador Daoguang nomeou um patriota radical, Lin Zexu, como comissário imperial para uma campanha antiópio. Os esforços chineses contra o ópio, de facto, começaram a obter avanços consideráveis ​​no controlo do lado chinês do contrabando no final de 1838 e início de 1839. O lado estrangeiro crucial do comércio de ópio, no entanto, estava fora do alcance directo do Comissário Lin. Após chegar a Cantão, em Março de 1839, Lin confiscou e destruiu mais de 20.000 caixas de ópio. Em setembro, começaram as escaramuças entre os chineses e os britânicos.
Era o desencadear da primeira Guerra do Ópio (1839-1842). O "Sistema de Cantão" foi oficialmente abolido com o Tratado de Nanking, que pôs fim à Primeira Guerra do Ópio e forçou a China a abrir ao estrangeiro cinco novos portos - "Portos de Tratado" / Teatry Ports - e a ceder Hong Kong.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Vestígios Sagrados de Macau" por Gao Jianfu

Esta pintura das Ruínas de S. Paulo (aguarela e tinta da china - 43.5 x 46.5 cm) é uma das últimas obras da autoria do conceituado pintor Gao Jianfu (1879-1951), nome maior da pintura chinesa moderna com fortes ligações a Macau. 
Produzida ca. 1950 inclui elementos das pinturas ocidental e chinesa evidenciando-se o domínio da técnica de caligrafia chinesa e da pintura de paisagem, incluindo árvores, animais e figuras humanas.
A fachada da igreja Mater Dei é apresentada numa perspectiva pouco habitual sendo vista a partir da Calçada de S. Paulo, aparesentando-se à direita o templo de Na Tcha.
No topo os caracteres na horizontal 馬交聖蹟 significam "Vestígios Sagrados de Macau". Em baixo para além da assinatura do pintor está um poema.
O texto começa com a identificação do local: 三巴門外 que significa "Fora da Porta de São Paulo". Segue-se uma descrição da atmosfera do local evocando a passagem do tempo e a decadência da antiga glória do Colégio e Igreja de São Paulo, mencionando o contraste entre as pedras sobreviventes e a vida humilde que se instalou ao seu redor. Referem-se ainda "vendedores" e "trabalhadores" (como os carregadores que vê na pintura) que circulavam naquelas ruas estreitas em meados do século 20.

Detalhe da 'assinatura' da pintura no canto inferior esquerdo: 
Caracteres pretos na vertical 劍父 (Jiànfù) e carimbo vermelho em estilo de sinete.

Nascido em Panyu (Cantão), Gao Jianfu (em chinês: 高劍父/ "Gou Gim Fu" é reconhecido por liderar o esforço da Escola Lingnan para modernizar a pintura tradicional chinesa como uma "nova arte nacional".
Aos treze anos ingressou no atelier do artista chinês Ju Lian, em Lishan, onde serviu como seu aprendiz durante os sete anos seguintes. Durante este período, Gao Jianfu pintou num estilo semelhante ao do mestre: vibrante, colorido e realista. Os temas das suas pinturas eram sobretudo pássaros, flores e paisagens[3]. No estúdio de Ju Lian, Gao Jianfu tornou-se amigo próximo de Chen Shuren, também ele artista.
Em 1903, Gao Jianfu começou a trabalhar com o pintor e colecionador Wu Deyi tendo os primeiros contactos com a pintura tradicional chinesa.
Estudou no Canton Christian College, hoje conhecido como Universidade de Lingnan. Dois dos seus professores mais influentes foram "um professor francês de pintura conhecido apenas pelo seu nome chinês, Mai La," e Yamamoto Baigai, um dos muitos professores japoneses que então viviam na China. Profundamente inspirado pelos seus professores, Jianfu viria a viajar para Tóquio no inverno de 1906 mas seria uma curta estadia. Devido à falta de recursos regressou a Cantão para passar o verão. Em 1907 regressou a Tóquio com o seu irmão de dezanove anos, Gao Qifeng, tendo convivido com o amigo Chen Shuren.
Durante a sua estadia no Japão, os três homens foram expostos aos debates nacionalistas "que então ocorriam no mundo da arte japonesa sobre o impacto modernizador da arte ocidental nas tradições artísticas locais do Japão". Jianfu interessou-se pelas sínteses das abordagens ocidentais e tradicionais, que eram paralelas ao trabalho no mundo da arte contemporânea japonesa. Jianfu, juntamente com os seus pares da Escola Lingnan, viu esta mistura de estilos como um modelo para a arte nacional moderna. Muitos dos estudantes da Lingnan juntaram-se ao movimento anti-Manchu de Sun Yat-sen, um movimento nacionalista revolucionário. Mais tarde, Gao juntou-se ao Corpo de Assassinos Chinês, um grupo anarquista chinês.
Em 1912, após a queda dos manchus, Gao Jianfu e o seu irmão mudaram-se para Xangai. Começaram a publicar um jornal intitulado Zhen xiang huabao (O Registo Verdadeiro). A publicação apresentava artigos sobre arte e política, bem como ensaios que promoviam uma nova arte nacional modernizada na China. Embora tenha durado apenas um ano, o jornal foi um dos primeiros a levar a arte ao grande público. Os irmãos defendiam o apoio governamental às artes e abriram a primeira galeria pública do país para a exposição e venda de obras de arte, a Livraria Estética. Em 1918 saíram de Xangai e foram para Cantão onde em 1923 fundaram a Academia de Arte do Despertar da Primavera em Cantão.
Em 1929 Jianfu foi acusado de sentimentos xenófobos durante o seu período como principal organizador da primeira Exposição Nacional de Arte do governo, realizada em Nanquim. Devido à grande importância da Escola Lingnan, houve uma reação hostil à inclusão de tendências artísticas não chinesas.
Em 1936, Jianfu começou a lecionar na Universidade Sun Yat-sen. Continuou a publicar artigos, nos quais defendia o seu conceito de nova arte nacional. Sugeriu que a pintura nacional abandonasse o "elitismo" da arte tradicional e se envolvesse mais directamente com o público chinês. Com a invasão da China pelo Japão em 1937 Gao Jianfu deixou Cantão e foi para Macau em 1938 onde viveu até 1945. Regressaria a Cantão onde viveu até 1949. Com a chegado ao poder de Tsé-Tung em 1949 fugiu novamente para Macau onde fundou uma escola e viria a morrer a 22 de Maio de 1951. Gao Jianfu legou a Macau um grande número de obras que constituem um verdadeiro tesouro artístico do território e tem sido exibidas em várias exposições.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Legendas erradas em pinturas do século 19

Este conjunto de 4 aguarelas montadas com as respectivas legendas tem a autoria atribuída ao pintor chinês Youqua. Remonta a meados do século 19 e desde então quem as montou em molduras incluiu algumas informações erradas.
Segundo as legendas duas das obras são de Macau mas a informação está errada. A pintura "Macao Harbour" é uma representação do chamado estreito de Boca Tigre (a caminho de Cantão) e a pintura "Praya Grande" é na verdade a zona de Victoria Harbour em Hong Kong. Assim, os restantes dois quadros têm a legenda correcta: Cantão e o ancoradouro de Whampoa.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Obras raras de Borget

Já aqui mencionei que de vez quando surgem em leilões pinturas de Macau feitas no século 19 por pintores altamente reconhecidos, como Borget ou Chinnery. Tendo os dois produzido de forma abundante, por vezes estes leilões dão a conhecer obras que até agora não eram do conhecimento do grande público. Para este post seleccionei alguns exemplos de obras da autoria de Auguste Borget que viveu em Macau entre Outubro de 1838 e Maio de 1839.
Desenho a lápis da Praia Grande ca. 1838 (Ermida da Penha à esq.)
Uma rua em Macau. 
Guache e aguarela sobre lápis
Fiéis no templo de A-Ma.
Guache e aguarela sobre lápis
Descanso dos carregadores com a baía de Macau ao fundo
Guache e aguarela sobre lápis
Igreja/Convento e Forte de S. Francisco

Borget assina e escreve: "La bonne aventure sur le marché à Macao"
Ou seja, "Leitura da sina num mercado em Macau"

sábado, 3 de janeiro de 2026

Baía da Praia Grande num óleo sobre latão

 

Pintura a óleo sobre latão de pequenas dimensões (11x15cm) mostrando a baía da Praia Grande ca. 1800. De autor desconhecido é mais um exemplo da chamada "escola chinesa".
Detalhe do lado direito:
Fort. do Monte, Fortaleza e Ermida da Guia; Convento e Forte de S. Francisco, etc
..

Detalhe do lado esquerdo:
Fort. N. Sra. Bom Parto, Ermida da Guia, Seminário S. José, Igreja Mater Dei, etc..

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Macau por Gabriel Lafond de Lurcy

Tendo por base o post de ontem, aqui ficam alguns excertos sobre Macau incluídos no livro "Quinze ans de voyage autour du monde" (Paris, 1840). Destaque para a descrição do território no primeiro quartel do século 19: baía da Praia Grande, bazar chinês, Porta do Cerco, Gruta de Camões, etc...
Tradução/Adaptação:
A cidade de Macau, em chinês Ou-Moun, fica numa posição agradável e sadia, dezoito milhas a leste de Cantão, a doze da Grande Lemma, e a um pouco menos da Grande Ladrão. É a única possessão europeia no império chinês, possessão a cada dia mais precária e mais contestada pelo governo imperial. Colinas coroadas de pinheiros atrofiados circundam a cidade construída na península e que termina na ilha de Ngao-Men ao sul. Logo que parámos no canal frente a Macau, a mais de duas léguas de terra, o piloto chinês que tínhamos a bordo avisou-nos que deviamos enviar um bote a terra para pedir ao hopu, ou director da alfândega, o piloto que nos conduzirá a Wampoa. (...) 
Chegámos pelas dez horas à Praia Grande, porto metade europeu, metade asiático. As embarcações destinadas aos passageiros eram às centenas na baía e pareciam engolir-nos. A forma ligeira como navegam e a facilidade com que manobram são surpreendentes. Por vezes, eram manobradas por duas ou três jovens mulheres, algumas com traços graciosos. Uma fiada de belas casas, brancas, elegantes, de estilo europeu, alinhava-se ao longo da margem e numa extensão de cerca de uma milha: é o que se chama a Praia Grande. Os belos edifícios da Companhia inglesa destacavam-se entre todos os outros, a maior parte dos quais é habitada por comerciantes ingleses, que para aqui vêm viver quando não se pode fazer o comércio do chá na China, e por alguns ricos negociantes portugueses e de outras nações estrangeiras. (...)
Tinha vindo a terra para renovar as provisões frescas do navio e as levar a bordo, mas a tarefa acabou por ser feita por um 'comprador'. Aproveitei este tempo livre para percorrer Macau. Encaminhei-me para o bairro chinês, também chamado bazar, situado no interior da cidade sobre o braço de mar que chamam ribeira de Macau. Este bairro compõe-se de uma miríade de pequenas ruas estreitas cruzando-se em todos os sentidos, ladeadas por lojas perfeitamente decoradas e guarnecidas de uma variedade infinita de mercadorias. Uma multidão atarefada indicava que esta parte da cidade era o centro de um grande movimento comercial. Os desembarcadouros, instalados aqui e ali nas margens do rio, estavam cheios transeuntes e de uma quantidade incontável de embarcações de passageiros servindo para transportar os habitantes de um lado ao outro ou de os conduzir a bordo dos navios maiores. É aqui que se abrigam os juncos e as embarcações portuguesas, vendo-se nas margens feitorias, lojas, as alfândegas portuguesa e chinesa bem como estaleiros navais. 
Na parte portuguesa da cidade algumas igrejas têm um aspecto miserável. As ruas são, na maioria, muito íngremes e mal construídas, salvo algumas excepções. Todas vão da Praia Grande para a ribeira de Macau. Não tendo muito tempo disponível, acompanhado de um guia chinês apressei-me a afastar-me do centro da cidade para ter uma ideia dos arredores. Segui ao longo de uma muralha e reentrei por uma porta junto ao cemitério chinês, depois de dar uma vista de olhos às fortalezas portuguesas que dominam o mar. (...)
A península em que Macau está tem, no máximo, meia légua de comprimento por um quarto de légua de largura. O istmo que a reúne ou, para dizer melhor, a isola da ilha de Ngao-Men é extremamente estreito e fechado por uma muralha que nem os portugueses nem os estrangeiros podem atravessar. Nesta pequena península montanhosa dominam as colinas não muito elevadas, mas escarpadas e pitorescas. A cidade ocupa uma parte deste espaço; o resto está coberto de casas de campo cuja resplandecente brancura dá um ar risonho aos arredores da cidade. Numa das colinas, do lado do rio, fica a célebre gruta em que o autor de Os Lusíadas compôs o seu poema. Algumas das outras colinas têm fortes portugueses, cuja artilharia é limitada pelos chineses que diminuem à sua vontade o número de peças com que podem estar armadas. Mesmo para fazer reparações é preciso uma autorização.
A população de Macau e do istmo é avaliada assim: 500 europeus de sangue puro; 25 000 a 30 000 chineses; 4000 portugueses, mestiços quase todos, ou o resultado de misturas, com uma infinidade de nuances e graus, da raça europeia com as raças chinesa, indiana, timorense, malaia e africana. (...)
Excertos na língua original (Tomo I - Capítulo VII):
(...) La ville de Macao en chinois Ou Moun est dans ume position agréable et saine à dix huit milles à l'E de Canton, à douze de la Grande Lemma et à un peu moins de la Grande Ladrone; c'est l'unique possession européenne dans tout l'empire chinois, possession de jour en jour plus précaire et plus contestée par le gouvernement imperial.
Des collines couronnées de pins rabougris entourent la ville bâtie sur la péninsule dont je viens de parler et qui termine l'île de Ngao Men vers le sud. Dès que nous eûmes mouillé dans le passage, vis à vis Macao, à plus de deux lieues de terre, le pilote chinois que nous avions à bord nous prévint que nous devions envoyer un canot à terre, pour demander au Hopoo, ou directeur de la douane, le pilote qui devait nous conduire à Wampoa.
Je fus expédié dans le bateau où M Duboisviolet et son secrétaire s'étaient également embarques. Nous arrivâmes vers dix heures à Praya Grande port moitié européen moitié asiatique. Les embarcations destinées aux passagers se trouvaient par centaines dans la baie et semblaient voltiger autour de nous leur légèreté sur les eaux la facilité avec laquelle elles virent de bord sont surprenantes souvent elles étaient conduites par deux ou trois jeunes fdles dont quelques unes avaient des traits gracieux Une rangée de belles maisons blanches élégantes d une construction européenne s alignait sur le rivage sur une étendue de près d'un mille c'est ce que l on nomme la Praya Grande.
Les beaux bâtimens de la Compagnie anglaise se faisaient remarquer parmi ces édifices dont la plupart étaient habités par des négocians de cette nation qui viennent y passer le temps de la clôture de la traite du thé et par quelques riches négocians portugais ou d autres nations étrangères A notre débarquement la douane nous fit payer une piastre ou cinq francs par tête et autant par malle ou colis de marchandises impôt inique humiliant et lourd auquel les Portugais eux mêmes n osent pas se soustraire car je l'ai dit leur domination à Macao est purement nominale leur pavillon n y flotte (...)
(...) je profitai de cet intervalle de liberté pour parcourir Macao en attendant l heure du départ Je m acheminai vers le quartier chinois nommé aussi le Bazar et situé dans l intérieur de la ville sur le bras de mer appelé rivière de Macao. Ce quartier se compose d une multitude de petites rues étroites se coupant dans tous les sens bordées dé boutiques parfaitement ornées et garnies d une variété infinie de marchandises une foule affairée indiquait que cette partie de la ville était le centre d un grand mouvement commercial Les débarcadères pratiqués de distance en distance sur les bords de la rivière étaient encombrés d allans et de venans et d une quantité innombrable de bateaux de passage servant à transporter les habituas d un quartier à l autre ou à les conduire à bord des grandes embarcations du pays. 
C'est dans ce bras intérieur que se tiennent les jonques chinoises et les navires portugais et sur ses bords l on voit les factoreries les magasins les douanes portugaise et chinoise ainsi que les chantiers de construction. Dans le quartier portugais j aperçus quelques églises d une assez chétive apparence la plupart des rues sont fort montueuses et généralement mal bâties hors de rares exceptions toutes se dirigent de la Praya Grande vers la rivière de Macao.
Ayant peu de temps à ma disposition je me hâtai accompagné du Chinois que l on m avait donné pour guide de sortir de la ville pour avoir au moins une légère idée de ses environs Je longeai d abord une partie de son enceinte et rentrai par la porte voisine du cimetière chinois après avoir jeté un coup d œil sur les forts portugais qui dominent la mer A chaque porte je trouvai une garde de soldats noirs ou cipayes de l Inde commandés par des oificiers portugais ou soi disant tels.
La presqu'île sur laquelle Macao est située a tout au plus une demi lieue de longueur sur un quart de lieue de large L isthme qui la réunit ou pour mieux dire l isole de l île de Ngao Men est fort étroit et fermé par une muraille que ni les Portugais ni les étrangers ne peuvent franchir ou qu ils ne franchissent pas impunemente.
Le sol de cette petite presqu'île est montueux composé de collines peu élevées mais escarpées et pittoresques dans leurs proportions exiguës la ville occupe une partie de cet espace le reste est couvert de maisons de campagne dont l'éblouissante blancheur donne une physionomie riante aux environs de la ville. L'une de ces collines dans l'enceinte de la ville du côté de la rivière est couronnée par la célèbre grotte où l auteur de la Lusiade composa son poème et quelques autres le sont par des forts portugais dont l'artillerie est limitée par les Chinois qui diminuent à leur gré le nombre des pièces dont ils peuvent être armés même pour réparer leurs affûts il faut une autorisation expresse.
La population de la ville et de l'isthme de Macao est évaluée ainsi qu il suit cinq cents Européens pur sang vingt cinq à trente mille Chinois et quatre mille Portugais sang mêlé presque tous ou provenant du mélange à une infinité de nuances et de degrés de la race européenne avec les races chinoise indoue timorienne malaisienne et africaine Les humiliations que les Chinois font subir à cette race portugaise dégénérée sont intolérables et elle ne peut sortir de cette abjection car d un mot le gouvernement impérial pourrait affamer toute cette population et la forcer d aller chercher fortune ailleurs Les Chinois ne craignent que les noirs esclaves ou libres qui vivent à Macao et que l on a vu souvent se réunir et faire trembler les mandarins.
Le mouillage de Macao se nomme le port de la Taypa il est formé par plusieurs îles escarpées et situé en face de la ville il ya aussi la baie portugaise et Praya Pequena Au nord de l ile de Ngao Men s ouvre le grand bras du Tigre bordé au nord par la côte chinoise On nomme ce passage qui est le plus fréquenté dans la mousson du N E la passe du dehors. (...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Várias versões de uma pintura

Para o post de hoje selecionei uma pintura com uma vista da baía da Praia Grande nma perspectiva de Norte para Sul. A colina da Penha está à esquerda, a Sé ao centro, as fortalezas do Monte e da Guia à direita
Sem estar assinada os peritos atribuem como mais provável a autoria aos estúdios de Tingqua (tb conhecido por Guan Lianchang, n. 1809) ou de Lamqua, pintores chineses activos em meados do século 19 e dos mais reconhecidos na época. Tingqua era o irmão mais novo de Lamqua.
Quando se refere estúdios, estamos perante o facto de após uma obra ser produzida era copiada inúmeras vezes por diferentes pintores empregados nos ditos estúdios, localizado sobretudo em Hong Kong e Cantão embora também haja registo de ter havido em Macau ainda que de menor importância.
Neste caso estamos perante um dos motivos mais requisitados pelos comerciantes estrangeiros para levarem para casa como recordação da passagem pela Ásia: pinturas de cidades portuárias como Macau, Cantão, Hong Kong, Whampoa (um ancoradouro junto a Cantão), Xangai, etc...
Está assim explicado porque motivo existem pinturas que à primeira vista até parecem iguais, mas um olhar mais atento permite identificar algumas diferenças. No caso em análise, veja-se as bandeiras, as embarcações (a principal é o navio de pás a vapor) e as figuras humanas... 
Os elementos presentes nas pinturas permitem afirmar que foi feita entre 1850 e 1860.


Testemunho publicado em 1858 e que associa o nome de Lamqua a Macau:
"Some of the best shops of Shanghai city open upon the tea gardens; some resound with the buzz of imprisoned insects and the song of caged birds; there are 'curio' shops, where are to be seen antiquities of dynasties long anterior to the Christian era, carefully wrought by living hands; there are caricatures of the English barbarians, one of which I cannot refrain from buying; there are carvings in bamboo, very inferior to Canton; there are shops for fans and embroideries and silks, decidedly inferior to Ningpo. 
There is also the studio of a portrait painter, not probably a dangerous rival to Lamqua, of Macao. There is loud talking in that studio. A Yankee captain is inspecting a portrait of himself which has been painted at a contract price of some twenty dollars."
Excerto de " China, 'The Times' special correspondence from China in 1857-58. With corrections and additions", George Wingrove Cooke, 1858

Outro testemunho, este de 1844:
"One day at Macao I asked Lamqua, a well known and deservedly famous portrait painter, why he did not move over to Hong Kong where he would get so much employment. His answer was: 'No proper that all bad Chinamen there'."