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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Recensão de "Suma Oriental" de Tomé Pires por João Guedes

Com uma mestria de escrita ao alcance de poucos, o jornalista, escritor e historiador João Guedes (há mutos anos radicado em Macau - eleva o conceito de recensão literária ao patamar do sublime com uma análise crítica de clareza cristalina e sem pretensões eruditas.
Rui Manuel Loureiro é muito provavelmente o maior especialista em Tomé Pires, a par de Armando Cortesão

Deixo o exemplo da obra "Suma Oriental", o primeiro grande tratado de geografia asiática escrito por um europeu, redigido entre 1512 e 1515 pelo boticário e diplomata português Tomé Pires (ca. 1465-ca.1540). A obra descreve rotas comerciais, portos, reinos e produtos desde o Mar Vermelho até à China, sendo fundamental para conhecer a visão portuguesa do Oriente no século XV
Um dos 4 selos postais comemorativos da "Fundação de Macau"
Emitidos em 1955 nunca chegaram a circular devido à melindrosa situação política vivida na China após a implantação da República Popular em 1949

Texto de João Guedes

TOMÉ PIRES O EMBAIXADOR QUE LEVOU PORTUGAL À CHINA E A CHINA NÃO QUIS SABER
Há homens que nascem para a glória, outros para o desastre, e alguns — os mais raros — para ambos ao mesmo tempo.
Tomé Pires, boticário de Leiria, era daqueles homens que acreditavam que o universo cabia numa caixa de remédios. Se lhe dessem o mar, ele pesava-o; se lhe dessem a China, ele catalogava-a; se lhe dessem o ópio, ele cheirava-o, anotava-o e talvez — quem sabe — o experimentasse com a curiosidade científica dos que não têm medo de pecar.
Não sabemos se recebeu a famosa “caixa de ópio” que a lenda lhe atribui. Mas conhecendo o homem, não seria de espantar que algum mercador árabe, desses que fumam a vida como quem fuma um cachimbo, lhe tivesse oferecido uma amostra, dizendo:
— Leva isto, português, que cura dores e abre horizontes.
Tomé, metódico, teria respondido:
— Abre horizontes? Então é droga de boticário.
E guardava-a no inventário, entre o ruibarbo e o benjoim.
A Suma Oriental é um milagre: escrita por um homem que nunca teve tempo para ser escritor, tornou-se o primeiro grande manual do Oriente para o Ocidente.
Camilo, se a tivesse lido, teria dito:
Este boticário escreve como quem sangra um paciente: com precisão, com frieza e com uma pontinha de sadismo científico.
E não estaria errado.
Tomé descreve tudo: os portos, as gentes, as drogas, os vícios, os reis, os preços, os cheiros, as mentiras e até os sonhos dos mercadores. É um inventário do mundo antes de o mundo saber que estava a ser inventariado.
Aqui entra a tragédia com humor.
Tomé Pires acreditava, com a convicção dos ingénuos e dos profetas, que nove naus portuguesas bastavam para tomar a China.
Nove.
Nem dez, nem vinte, nem uma armada. Nove.
Camilo teria rido até às lágrimas:
Nove naus para derrubar um império que tinha mais habitantes do que Portugal tinha sardinhas.
Mas Tomé acreditava. E acreditava porque via o mundo como boticário: se uma dose cura, nove doses salvam o paciente.
O problema é que a China não era paciente. Era dragão.
A viagem para Cantão foi triunfal. A subida para Pequim, promissora. A chegada à corte Ming, desastrosa.
Os antigos senhores de Malaca, despejados pelos portugueses, já lá estavam a envenenar o ambiente. O intérprete muçulmano foi preso. As credenciais não foram aceites. Os mandarins desconfiavam de tudo, sobretudo de portugueses que falavam alto e prometiam mundos.
Tomé Pires, que sonhava apresentar-se ao Imperador como quem se apresenta a Deus, acabou numa espécie de limbo burocrático, onde cada dia era igual ao anterior e cada esperança morria antes de nascer.
A prisão de Tomé Pires não foi épica. Não houve correntes, nem torturas, nem masmorras húmidas. Houve algo pior: indiferença imperial.
Ser ignorado pela China era pior do que ser morto pela China.
Camilo teria escrito:
O pior suplício não é o cutelo, é o desprezo.
E assim foi.
Tomé desapareceu na névoa da burocracia Ming, como um papel que cai atrás de uma mesa e ninguém se dá ao trabalho de apanhar.
Há quem diga que Tomé Pires foi libertado. Há quem diga que viveu anos na China. Há quem diga que teve uma filha chinesa, vista por um jesuíta que jurava ter falado com ela.
Se é verdade? Ninguém sabe.
Mas é tão belo que devia ser verdade.
Imagino-a assim: uma mulher de olhos escuros, com um sorriso que mistura Oriente e Ocidente, dizendo ao padre:
— Meu pai era português. Um dos primeiros. Um que veio falar com o Imperador e ficou por aqui.
E o jesuíta, comovido, anotava no diário:
— Há portugueses que não voltam porque não podem. E há portugueses que não voltam porque o coração fica preso.
Tomé Pires terá morrido em Pequim. Ou terá morrido algures na China, longe de tudo o que conhecia. Ou terá morrido livre, mas exilado.
Qualquer das versões é trágica. Qualquer das versões é camiliana.
Porque Tomé Pires é daqueles homens que nascem para não regressar.

Parte do manuscrito "Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chijs compilada por Thome Pirez" existente na Biblioteca da Assembleia Nacional de França
Tomé Pires, Índia (?), c. 1515, versão copiada por Francisco Rodrigues, 1516 (c.).

[No topo da página]
Libro primeiro da summa Oriental
e discursos das tres Arabias, feliz, petrea
e deserta, egipto, persia, atee cambaya
do gram Cam e china.

Summa oriental que trata do maar roxo
utheo os chijs copilada por thome pirez

Livro primeiro repartiçam da asia
com affrica

[Texto Principal]
Asia a partam dafrica pella bamda do maar mediterramjo por alexandria e dahi por deserto e monte synay pello rio nylo e do maar oceano pello meodja segundo a opinjã e repartiçam da parte daethiopia e abipia pella arabia feliz 

nacimento do nylo

Oquelle libro primeiro eujny primajrally traz dno nacimemto do cabo de boa esperamça. E tem primejro diabipia em q̃ heos nom chamjdos no fim da jndia simjlc com arabia feliz q̃ faz na navegacell pasa com ligeiro curso aegypto e vaye ao maar mediterramjo tenjdo por bãcos dy gles he principall lhe damjata pasa per uua ljnguba da cidade do cairo em julho e agost̃o q̃e he ljngua a terra e as gentes comem ea forza do nylo vem aos altos e tem em guardado e fazendas e como essga ljngua dam lugar que tomara a erguar e dentro de desembro e janejro
dizem os do egipto que este njlagre procede dy abissys gentes e para pello quall sam ffrancos em toda a terra do soldam e sam estimados a abipia entre os djsso vyolentramente e nem bebm tam na ljngua: e a comjnhã abipia

[Secção Abipia]
Abipia

Comfina abipia da bamda do maar roxo com a fabya feliz da bamda do maar oceano des guarda fuyat hetijomto como se faza nom que hayua no maar com ffromtejra ljguedas da bamda daffrica com os do nyl̃ e erem parte daethiopia. Sam fffracos tem gramde terra e senre.
quemtjza mjrcamti bell dela / ha mjamtrjmjmudo ouro em q̃ntjda. nem tem portos no maar vem faza qujs tratq̃ em zalla e hebar bora e djmtro no ffruto nos portos darabya sam estas gentes
toz mjuradas amtjgos e trjopec e dẽs sam de catoljco e de noffa ffe. vado na testa um lugar de bautjsmo / tem patrjarcas e bispos e outro religjosos vãm a jerusalẽs e a mamte synay mujtos
marias e adans / sam abridos nestas partes por vracos e ffrade e ffeos. cavalejros e mjuytos dezes e ffeos e mujdo espaçosos e vem ordem principalj mente em bem galla

[Secção Inferior]
E adem de que a parte de dalaq̃ he e naquẽ tratam com estes abespns valem na abexpja aguoa tofada fofas ffeguas e tratam mjngno pano e barros de cambaya e alguuas de prada com tas de toas sorte q̃ ysta ljno panos bramgos e tamaras e ffructos e mjffiaço

[Rodapé]
Mecaderias da bipia
ouro marfim caballos e ffrancos mamtjmentos

Tradução/Adaptação deste texto em português quinhentista

Título e Introdução]
Livro primeiro da Suma Oriental
e discursos das três Arábias: Feliz, Petreia e Deserta; do Egito, da Pérsia, até Cambaia, do Grão-Cão e da China.
Suma Oriental que trata desde o Mar Vermelho até aos Chins, compilada por Tomé Pires.

Livro Primeiro: Divisão da Ásia com a África
[A Divisão Geográfica e o Nilo]
A Ásia separa-se da África pelo lado do Mar Mediterrâneo por Alexandria e, daí, pelo deserto e Monte Sinai, pelo rio Nilo e pelo Oceano a sul, segundo a opinião e divisão da parte da Etiópia e Abissínia pela Arábia Feliz.

Nascimento do Nilo

Este livro primeiro trata inicialmente do nascimento junto ao Cabo da Boa Esperança. E tem primeiro a Abissínia, onde os homens são chamados, no fim da Índia, semelhantes aos da Arábia Feliz, que faz navegação e passa com curso ligeiro ao Egito e vai para o Mar Mediterrâneo. Tendo por bancos de areia Damietta, passa por uma língua de terra da cidade do Cairo em julho e agosto — e é por essa língua de terra que as gentes comem. E a força do Nilo vem aos altos e mantém guardadas as fazendas; e conforme essa língua de terra dá lugar, começa a baixar entre dezembro e janeiro. Dizem os do Egito que este milagre procede das gentes da Abissínia, motivo pelo qual os francos [cristãos] são respeitados em toda a terra do Sultão e são muito estimados. A Abissínia entra por estes territórios com grande força e não se bebe senão na língua [do rio]; e assim é a comunhão abissínia.

[Etiópia / Abissínia]
Abissínia
Confina a Abissínia, do lado do Mar Vermelho, com a Arábia Feliz; do lado do Mar Oceano, estende-se até à Etiópia, tal como se faz notar que não há no mar fronteiras ligadas com a África, com os do Nilo, e eram parte da Etiópia. São francos [cristãos], têm uma grande terra e senhorio. Há grande quantidade de comércio dela; há muito ouro em quantidade. Não têm portos no mar; vêm fazer o seu comércio a Zeila, Barbara e Massuá. Nos portos da Arábia estão estas gentes misturadas, antigas e prósperas. Quanto a Deus, são católicos e da nossa fé; trazem na testa uma marca de batismo. Têm patriarcas, bispos e outros religiosos. Vão a Jerusalém e ao Monte Sinai muitos "marias" e "adões" [homens e mulheres cristãos]. São respeitados nestas partes como frades e fiéis cavaleiros, muitos deles fidalgos e muito ponderados, e têm posições de grande importância, principalmente em Bengala.

[Comércio e Mercadorias]
E de Áden até à parte de Dahlak, no interior, negoceiam com estes abissínio-etíopes. Na Abissínia valem muito a água salgada, éguas, panos finos, jarros/vasilhas de Cambaia e algumas peças de prata, contas de toda a sorte que venham de lá, panos de linho brancos, tâmaras, frutos e miçangas.

Mercadorias da Abissínia:
Ouro, marfim, cavalos, cristãos [escravos/servos] e mantimentos.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas

Método de Português para Uso das Escolas Chinesas, da autoria do chantre António André Ngan.

Nas imagens 6 livros (de poucas páginas) de edições entre 1963 e 1982 da Imprensa Nacional de Macau.



segunda-feira, 6 de julho de 2026

"A Medicina Tradicional Chinesa em Macau"

"A Medicina Tradicional Chinesa em Macau" é o título de um longo artigo publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Série 83.ª Jan/Mar e Abr/Jun de 1965, da autoria de António Scarpa, Professor da Universidade dos Estudos de Milão.
O autor esteve em Macau onde contou com a colaboração das autoridades locais, dos padres Salesianos do Colégio Yuet Wah e do padre António Carlos Kirchner que "com o seu profundo conhecimento do idioma chinês, da história e dos costumes locais, lhe serviu de valioso e sapiente guia". Na época existiam 34 farmácias chineses na cidade.
Excerto:
Na cidade de Macau, a medicina tradicional chinesa é amplamente praticada, assim como a medicina europeia. São muito numerosas as farmácias que vendem apenas medicamentos tradicionais, entre os quais os mais importantes são o caríssimo ginseng, o chifre de veado, o chifre de rinoceronte, os ossos de tigre e os de tartaruga, etc. Também são vendidos com muita frequência medicamentos obtidos de acordo com as fórmulas da antiga farmacopeia chinesa. Os farmacêuticos chineses não frequentam nenhum curso preparatório; toda a sua aprendizagem é realizada nas farmácias, onde começam como chaiyuk e terminam como kwai min (diretor).
Os médicos tradicionais chineses, pelo contrário, são oriundos de uma família de médicos ou frequentam uma verdadeira escola com duração de 5 anos, chamada Chung i Hók Uén. O ensino baseia-se nas teorias da antiga medicina da dinastia Han. Ao final do curso, obtêm um diploma que os permite exercer a profissão. Existem 4 classes de médicos, a saber: os «herboristas», os que realizam a picada da agulha [acupuntura], os ortopedistas-massagistas e os que praticam o qigong (chih-gong), ou seja, exercícios, geralmente respiratórios, para o tratamento de doenças e para proporcionar longevidade. 
Muito importante é também a medicina popular, baseada na terapia mágico-religiosa.
Em Macau já não existe nenhum hospital verdadeiro de medicina tradicional chinesa, mas apenas departamentos ambulatórios entre os quais os mais importantes, devido à sua organização, são os da associação Tong Sin Tong. No geral, pode-se observar que, no distrito de Macau, cerca de 40% da população chinesa ainda segue a medicina de seus pais [a medicina tradicional].

quinta-feira, 25 de junho de 2026

"La Belle de Macao"

Na imagem a capa do livro de romance policial "La Belle de Macao", publicado na colecção "Rafale" em 1955 pela Éditions de la Seine. A obra foi escrita por Diego Michigan.
A capa apresenta uma ilustração estilo pin-up típica dos romances policiais franceses da década de 1950. O livro é um exemplo da literatura pulp francesa com temática de crime e aventura.
Diego Michigan é um pseudónimo colectivo utilizado na época por vários autores literários - entre os quais se incluem a escritora francesa Françoise d'Eaubonne, o autor belga Gérard Prévot, Henri Certigny e André Duquesne - dedicados à produção de romances populares de gangsters para a referida editora.
Livro de bolso típico da época, estamos perante um "thriller" policial caracterizado por uma atmosfera noir, ritmo acelerado e intriga internacional. O enredo mistura crime, suspense e espionagem com o exotismo característicos da cidade de Macau.
A ilustração da capa expõe os elementos visuais característicos do género policial pulp e de espionagem do período pós-guerra, destacando uma personagem feminina com feições ocidentais com uma sombrinha oriental, sentada num riquexó tradicional, enquanto em segundo plano surgem um homem com vestes chinesas.
O género literário pulp têm origem nos EUA (incluindo em revistas) onde marcou toda a primeira metade do século 29. Distinguem-se por uma estética e uma estrutura narrativa concebidas para o consumo rápido e o entretenimento imediato. Visualmente, eram livros de bolso impressos em papel económico de polpa de madeira (daí o nome pulp...), vendidos a preços muito baixos em bancas de rua e estações de comboio. As capas eram deliberadamente provocantes, exibindo ilustrações vibrantes e exageradas que misturavam armas, violência e figuras sensuais de femmes fatales envoltas em fumo de cigarro. Para atrair o público que idolatrava o cinema policial americano, os autores europeus escreviam a um ritmo industrial e utilizavam frequentemente pseudónimos anglo-saxónicos ou exóticos, como o nome "Diego Michigan" sob o qual Françoise d'Eaubonne publicou.
No plano literário, estas obras caracterizam-se por uma escrita directa, desprovida de grandes floreados, onde o foco reside inteiramente numa acção frenética e cheia de reviravoltas. Os diálogos são curtos, cínicos e repletos de calão urbano, moldando personagens moralmente ambíguas, como detectives solitários e criminosos perigosos. Os enredos exploravam de forma ousada o submundo do crime, do jogo e do contrabando, transportando o leitor para cenários obscuros ou localizações exóticas e misteriosas que acentuavam o clima de perigo internacional.
Em Portugal este género ficou conhecido como literatura de cordel. A lendária Colecção Vampiro (lançada em 1947 pela editora Livros do Brasil) capturou perfeitamente o espírito estético e comercial do pulp noir e do hardboiled americano.
Existem dezenas de títulos deste género relacionados com Macau. Em breve retomo o tema.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

"Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau"

Composto por três volumes, "Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau", é um novo dicionário do crioulo de Macau, o patuá, da autoria do investigador português Raul Leal Gaião.
A obra foi publicada com o apoio da Universidade de Macau e apresentada no início do 2.º Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa.
O patuá é um sistema linguístico criado pela comunidade luso-descendente de Macau ao longo de 400 anos. Tem o português como base, mas mistura-o com malaio, cantonense, inglês e espanhol. Segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o patuá está "gravemente ameaçado de extinção".

terça-feira, 16 de junho de 2026

"A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau"

Ieng Weng Fat, historiador de Macau, lançou no sábado a sua obra mais recente sobre a investigação histórica da proeminente família Chio, que chegou a Macau entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, ou seja, no século XVII.
Intitulado "A Study on the Zhao Clan - the Most Prominent Family in Macau, and Reconstruction of their Mong-Há Ancestral Shrine", o livro apresenta uma análise sistemática da evolução da família Chio (ou “Zhao”, em mandarim), desde a sua mudança para a antiga aldeia de Mong Há, em Macau, envolvendo dez gerações e mais de três séculos e meio de história familiar.
De acordo com Ieng Weng Fat, o intuito da publicação é de enriquecer o estudo histórico em Macau sobre a família Chio, através de traçar, de forma abrangente e completa, as figuras proeminentes desta família, bem como o percurso do seu desenvolvimento em Macau. A obra
procura “reconstruir a memória histórica da família Chio há muito esquecida”, segundo apresentou o autor.
“No passado, as investigações sobre a família Chio limitavam-se, na sua maioria, a um estudo focado nas conquistas académicas deles. 
Neste livro pretendo delinear a história do desenvolvimento desta família, sobre a sua origem e a passagem ao longo dos séculos”, frisou o autor, no lançamento de livro que decorreu no sábado na livraria Fangsuo, no Grand Lisboa Palace.
O conteúdo do livro estende-se ainda a outras famílias chinesas centenárias em Macau que passaram também a se instalar na aldeia de Mong Há. “Espero que a minha investigação possa fornecer uma base de referência para a indústria cultural de Macau, nomeadamente para os criadores de histórias nas áreas do cinema, da televisão e da literatura”, disse o também membro do Conselho Consultivo de Desenvolvimento Cultural.
A investigação de Ieng Weng Fat para esta obra levou mais de três anos, mas a sua ligação à família Chio remonta a mais de vinte anos, quando conheceu um descendente de família e fez uma visita à Mansão da Família Chio, a segunda residência da família em Macau e agora bem imóvel classificado da RAEM.
Ieng Weng Fat detalha no livro as raízes profundas da família Chio através de uma abordagem que combina a história da arquitectura com a filologia, incluindo um registo genealógico que consta num poema de nomes de geração de 42 versos, transmitido desde a dinastia Song (960–1127).
Segundo registos históricos, a família Chio descende da família Imperial Zhao da dinastia Song, cuja 12.ª geração mudou-se para o condado de Xiangshan para seguir a carreira de alto funcionário. Entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, a 22.ª geração da família mudou-se de Xiangshan para a aldeia de Mong-Há, em Macau.
Depois, em meados do século XIX, a 28.ª geração da família Chio mudou-se de Mong-Há para a Travessa da Porta, onde está a Mansão da Família Chio.
A família Chio é conhecida de ser um clã de eruditos. Após a chegada a Macau, gerações de descendentes da família Chio estudaram com afinco e alcançaram excelentes resultados nos exames imperiais. Entre eles, as gerações 25.ª e 26.ª, da dinastia Qing, foram os mais respeitados porque o pai e o filho alcançaram a posição de ‘Juren’, ranking de pessoas que passaram o exame provincial, segundo ranking mais alto dos exames imperiais. Aqueles que detinham a posição de ‘Juren’ passavam a gozar do estatuto de nobreza e, consequentemente, de privilégios sociais, políticos e económicos.
A conquista académica do pai e filho de Chio contribuiu para uma história muito badalada em Macau na altura e a casa ostentava em tempos uma placa que celebrava as suas realizações.
“Isto marcou uma importante transição de Chio de uma família influente no plano económico para uma família influente no plano cultural”, salientou o autor.
A família Chio também operava uma escola privada numa sala lateral do templo da sua família, em Mong Há, que agora já não existe. Nessa escola ensinavam confucionismo e formaram mais académicos e artistas nessa altura. "(...)
Excerto de notícia da autoria de  Catarina Chan publicada no jornal Ponto Final 8.6.2026
Casa da família Chio nos números 24 e 26 da Travessa da Porta
Foto IC
Curiosidade: 
Apesar do nome em português ser Travessa da Porta, em chinês denomina-se 趙家巷 que significa Rua da Família Zhao (Chio). Fica na zona do antigo bazar chinês, perto da Rua dos Mercadores.
Sugestão de leitura adicional:
"Edifícios Tradicionais Chineses em Macau" de Chan Su Weng e Wong Ieng Kuan, Editora Sinofare Lda., 2002.

domingo, 31 de maio de 2026

Dicionário Chinês-Português /中 葡 字 典 : 1964

Impresso na Imprensa Oficial de Macau entre 1962 e 1964 este "Dicionário Chinês-Português /  中 葡 字 典" tem a particularidade de ser dedicado pelo Governo de Macau a Sun Iat Sen e incluir uma breve história de Macau.


中 葡 字 典
中 (Zhōng): Abreviação para China ou língua chinesa.
葡 (Pú): Abreviação para Portugal ou língua portuguesa (derivado de 葡萄牙).
字 典 (Zì diǎn): Significa literalmente Dicionário




quinta-feira, 9 de abril de 2026

"As Origens de Macau" / "The Origin of Macao"

A obra intitulada "As Origens de Macau" / "The Origin of Macao", escrita por W. Robert Usellis, representa um resgate historiográfico de grande relevância, tendo sido publicada pelo Museu Marítimo de Macau em Dezembro de 1994. Embora a edição bilingue date de meados da década de 90, o texto original foi concebido muito antes, em dezembro de 1958, como a tese de mestrado do autor na Universidade de Chicago. Durante 36 anos este estudo permaneceu inédito, circulando apenas de forma restrita através de fotocópias entre investigadores, até que académicos como Luís Filipe Barreto, Jorge Manuel dos Santos Alves e Rui Loureiro impulsionaram a sua publicação bilingue em português e inglês.
As circunstâncias da edição de 1994 prendem-se com a necessidade de consolidar a identidade de Macau num período de transição política, destacando a singularidade desta "comunidade autónoma luso-asiática". O mérito fundamental de Usellis, conforme sublinhado na nota introdutória, foi a sua metodologia pioneira: numa época em que os estudos eram muitas vezes unilaterais, o autor realizou um esforço sistemático de comparar fontes ocidentais e orientais, cruzando manuscritos e documentos impressos em português, chinês, italiano, espanhol, japonês e malaio. A estrutura do livro percorre desde a análise dos relatos da fundação até à complexa questão da soberania, incluindo apêndices valiosos como o acordo de Lionel de Sousa de 1553-54.
O corpo principal do estudo divide-se em quatro partes fundamentais: o Capítulo II analisa os relatos portugueses e de outros ocidentais sobre a fundação de Macau; o Capítulo III estabelece a comparação entre as fontes chinesas e as ocidentais; o Capítulo IV aborda a complexa questão da soberania sobre Macau; e o Capítulo V apresenta a Conclusão do autor.
A obra inclui ainda uma secção de Apêndices com documentos históricos essenciais: o primeiro traz o relato de Lionel de Sousa sobre o acordo de 1553-54; o segundo apresenta um relato antigo sobre a fundação de Macau; o terceiro detalha uma declaração primitiva da posição portuguesa em Macau; e o quarto oferece uma visão oficial da posição portuguesa no território.
O autor, W. Robert Usellis, teve uma trajectória de vida marcada pela experiência como soldado de infantaria na Segunda Guerra Mundial e por uma carreira dedicada ao ensino secundário e à administração internacional em países como o Líbano e a Arábia Saudita. No encerramento da obra, Usellis reflete com pragmatismo sobre a história de Macau, defendendo que o respeito mútuo entre as leis e costumes de chineses e portugueses permitiu uma coexistência pacífica que serve de lição para o futuro da região no contexto global.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

IX edição da Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses

Realiza-se entre 5 e 8 de Maio próximo, em Mafra e Lisboa, a IX edição da Conferência de Lisboa sobre Música e Instrumentos Musicais Chineses.
Organizada pelo Instituto de Etnomusicologia - Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a Conferência é coordenada pelo Dr. Énio José de Souza, e conta com o patrocínio principal da Fundação Jorge Álvares.
As Conferências reúnem académicos, músicos e entusiastas da música chinesa com o objetivo de fortalecer e priorizar as seculares relações culturais entre Portugal e a China/Ásia, com especial destaque para Macau como ponte histórica e cultural entre o ocidente e o oriente, explorando o rico património cultural e as tradições em constante mudança associadas aos instrumentos musicais chineses.
PS: Portugal tem um importante acervo de instrumentos musicais chineses em colecções públicas e privadas.
Sugestão de leitura:
Instrumentos Musicais Chineses, de Veiga Jardim.
Edição (filatélica) da Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações de Macau. 1998
Edição em português, inglês e chinês.

sábado, 14 de março de 2026

Concurso "Vale a pena ler"

No site da Fundação Jorge Álvares está disponível informação sobre o concurso "Vale a Pena Ler" para o ano lectivo 2025/26 e que tem como destinatários as escolas de Portugal Continental e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Para esta iniciativa a FJA "convida todos os alunos e professores a mergulharem nos fascinantes conteúdos da sua Biblioteca Digital e a participarem num concurso único, onde o conhecimento, a imaginação e a criatividade se encontram para dar vida a novas ideias!"
O concurso destina-se a alunos do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, sendo a participação individual, mas sempre no contexto escolar, com o acompanhamento de um(a) professor(a) responsável.
O período de candidaturas decorre entre 15 de Março e 23 de Abril de 2026.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Retrato a óleo de Camilo Pessanha por Pedro Barreiros

Retrato a óleo da autoria de Pedro Barreiros, 1976
No canto superior direito o "ex-libris" do poeta
 
A obra serviu como ilustração da capa do livro "Homenagem a Camilo Pessanha", editado pelo Instituto Português do Oriente - Instituto Cultural de Macau, com "Organização, prefácio e notas de Daniel Pires".

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Geographica: El hombre y la tierra": 1973

"Geographica: El hombre y la tierra" é uma enciclopédia de 10 volumes publicada pela Plaza & Janés em Barcelona, em 1973. Esta obra, profusamente ilustrada e escrita em espanhol, oferece uma cobertura detalhada da geografia mundial, incluindo mapas e fotografias, sendo um material de consulta clássico da época. Macau está referido na parte dedicada à Ásia (Volume 5).
Legendas das duas fotografias (agência Salmer):

Sampanes en la bahía de Macao, colonia portuguesa desde el siglo XVI y cuyo mayor esplendor ostentó durante el siglo XVIII, eclipsado más tarde por el puerto de Hong Kong. La principal riqueza de esta actual provincia de ultramar se basa en la pesca, habiendo surgido una serie de industrias para la conserva y salazón del pescado.

Desde los primeros tiempos de la colonización portuguesa, Macao fue un centro misionero de jesuítas, cuya labor aún puede verse en los edificios religiosos que se encuentran en la parte europea de la ciudad, entre los que destaca, como monumento del pasado, la fachada de la antigua catedral de San Pablo.
Sampanas na baía de Macau, colónia portuguesa desde o século XVI e cujo maior esplendor ostentou durante o século XVIII, eclipsado mais tarde pelo porto de Hong Kong. A principal riqueza desta actual província de ultramar baseia-se na pesca, tendo surgido uma série de indústrias para a conserva e salga do peixe.

Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, Macau foi um centro missionário de jesuítas, cujo trabalho ainda pode ser visto nos edifícios religiosos localizados na parte europeia da cidade, entre os quais se destaca, como monumento do passado, a fachada da antiga catedral de São Paulo.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Camões no Oriente"

"Camões no Oriente" é o mais recente título da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (ilustrações de Rui Sousa) a integrar a Biblioteca Digital da Fundação Jorge Álvares.
Da colecção "Portugueses no Oriente", vocacionada para o público juvenil, fazem ainda parte os títulos "Missão Impossível", "A Nau do Trato" e "Encontros na Cidade Proibida" – "os quais, além de animadas aventuras dos seus jovens intervenientes, contêm muita Informação histórica de fácil leitura e aprendizagem. Estas edições, não comerciais, foram especialmente encomendadas pela Fundação Jorge Álvares às autoras, tendo sido distribuídos vários exemplares pelas bibliotecas que integram a Rede de Bibliotecas Escolares nacional. A Nau do Trato foi por sua vez traduzida para chinês numa iniciativa do então Embaixador de Portugal em Pequim, José Augusto Duarte."

Excerto:
"No ano 1562 o vice ‑rei, que era D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, nomeou Luís de Camões Provedor dos Defuntos em Macau. Este cargo era muito apetecido por ser bem pago pela coroa portuguesa e não só. O Provedor de Defuntos tinha como missão fazer o inventário de todos os bens deixados por portugueses que morressem em Macau. Devia vendê‑los em leilão e guardar o dinheiro que obtivesse para o entregar aos herdeiros ou à coroa, mas tinha o direito de ficar com uma percentagem. Só podia exercer o cargo quem soubesse ler, escrever, interpretar leis. E, naturalmente, convinha que fosse honesto para não dar informações erradas aos herdeiros e à coroa e para não se apropriar daquilo que não lhe pertencia. Já viviam então muitos portugueses em Macau e praticamente todos se dedicavam ao comércio. A exceção era os padres. O imperador da China tinha autorizado os portugueses a instalarem ‑se em Macau para comerciarem em 1557. 
A partir de então a cidade, que fica situada na foz do rio das Pérolas começou a desenvolver‑se não só devido à presença dos portugueses mas também porque muitos chineses foram atraídos pelos negócios que ali podiam fazer. Naquele porto o movimento era cada vez mais intenso. Naus vindas de Goa transportavam produtos europeus, ouro da costa oriental da África, tecidos da Índia especiarias das ilhas Molucas e outros produtos de outras regiões da Índia e do Pacífico. Em Macau tudo isso se vendia com lucro e por lá se compravam porcelanas e sedas da China. A partir de certa altura, passou a haver também comércio com o Japão, onde as naus se dirigiam sobretudo para comprar prata. De modo que, quem fosse corajoso, hábil e tivesse sorte, conseguia enriquecer. Quanto mais trocas se fizessem, mais a coroa lucrava porque as naus tinham de pagar taxas alfandegárias em todos os portos dominados pelos portugueses. (...)
Segundo a tradição, o poeta subia com frequência a colina de Patane e sentava ‑se a escrever no interior de uma formação rochosa, que passaria à história como «penedo de Camões ou gruta de Camões». Ninguém sabe se realmente teria escrito naquele lugar ou não, mas se o fez escolheu bem porque naquele tempo, sem construções em volta, podia desfrutar de uma bela vista e porque em dias de calor e humidade desfrutaria também de sombra e frescura. Quem hoje visita Macau, se passar pela dita «gruta» ali encontrará um busto do poeta em bronze.(...)" 
Todas as obras desta colecção podem ser acedidas e descarregadas no site da FJA. 


No site está ainda disponível informação sobre o concurso "Vale a Pena Ler" para o ano lectivo 2025/26 e que tem como destinatários, nesta edição, as escolas de Portugal Continental e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Para esta iniciativa a Fundação Jorge Álvares "convida todos os alunos e professores a mergulharem nos fascinantes conteúdos da sua Biblioteca Digital e a participarem num concurso único, onde o conhecimento, a imaginação e a criatividade se encontram para dar vida a novas ideias!"
O concurso destina-se a alunos do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, sendo a participação individual, mas sempre no contexto escolar, com o acompanhamento de um(a) professor(a) responsável.
O período de candidaturas decorre entre 15 de Março e 23 de Abril de 2026.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

The principal festival with the Chinese is New Year's Day

The principal festival with the Chinese is New Year's Day. No one cares about business, and everyone is occupied in feasting. This day is considered by them as a fast day, which it is said was established in order to avoid cases of intoxication. Every man dresses in new clothes, and even those who live in extreme poverty appear on this day with something new.
Eight days before the New Year, nearly all the shops commence to decorate with new articles, such as artificial flowers, joss paper, etc., of different designs and colours, while in the streets are to be seen flowers in pots, toys, curiosities, and such-like things. These are all intended for sale. Here and there, too, are to be met with different groups of Chinese busily engaged in gambling. On the water, the boats are all gaily decorated with banners. The number of boats on this occasion is very great. Music and fire crackers are indispensable, both in the daytime and at night.
On the eve of the New Year, the concourse of people and their enthusiasm increase. The gambling multiplies proportionably, and there is no place where it is not to be seen. At night, both the marketplace and the harbour are rendered beautiful by immense illuminations, of course accompanied especially with music and the firing of crackers. The boats, when illuminated, produce a fine effect. The buying and selling are very extensive, but never fail to be accompanied, even at this happy season, by numerous thefts.
As soon as midnight of the last day of the year arrives, all the shops close and work of all kinds ceases. The festival continues for a greater or lesser number of days, generally not exceeding eight, and these are the days which the Chinese look upon as the principal ones. On the ninth day, when the shops begin to open for the ordinary business, there is again a feast which consists simply in firing crackers, burning joss paper, and so on.
The second day of the second moon is the day dedicated to the household gods. This feast is celebrated in various parts of the city by societies, and the expenses are borne by subscription. Each of these societies builds a tent in the locality chosen for the purpose, and in these tents there is always a goodly display of pictures. Music is played inside the tent and outside fire crackers are burnt at intervals. During the time of the feast, sacrifices are offered in the tent one after another. When many people meet there, a kind of firework is burnt. As soon as it falls, everyone rushes upon it, and he who picks it up first wins a prize and will be considered happy for the whole year. Some more of these fireworks or big crackers are burnt at intervals, and the parties who pick them up have the same interests as the first one.
The fireworks are all numbered and, consequently, the quality and value of each is indicated. Those who have picked them up are obliged to present similar ones for the same purpose. In order that no one of the party who has picked them up shall fail in fulfilling his obligation, the directors take and keep a memorandum of the names of the individuals. Underneath the name of each is indicated the number he has to supply. These acts are only practised by those of the common classes. The rich perform their sacrifices in their own houses, but many of them appear at the above festival as spectators.
The festival usually lasts for two or three days and ends with the burning of another kind of firework, which takes place on the night of the last day. Figures are placed on it which are moved by the fire, representing dramatic characters. The title of the piece is represented in sacred characters and the firework is composed of as many parts as there are acts in the theatrical performance which has to be imitated. The first act is represented on the lower part of the firework and, as soon as it comes to an end, the second act appears, and so on until all the acts are finished.
The feast of the goddess Kuonyn is celebrated on the nineteenth day of the same moon. This feast consists of sacrifices performed in the houses, at sea, and in joss houses; and on this occasion there is always a great quantity of food offered, in addition to small pieces of gilt and silver paper.
On the last days of the same moon, which is the beginning of Spring, the Chinese commence to make sacrifices over the gravestones of their deceased relations. These sacrifices usually last more than twenty days. Victuals are placed near the gravestones, and paper clothes and small pieces of gilt and silver paper are burnt. When the sacrifices are on the eve of terminating, a part of the food is given away to the poor, who on these occasions generally muster in great numbers.

Excerto de "Manners & Customs of the Chinese at Macao", publicado em Xangai em 1877. Trata-se da versão em inglês (tradução de Rufino Francisco Martins) da obra publicada dez anos anos em Hong Kong - "Os Chins de Macau" - da autoria de Manuel Castro Sampaio.  

Este livro é considerado um dos primeiros e mais detalhados estudos etnográficos sobre a comunidade chinesa em Macau escritos por um português. Nele, Sampaio descreve com rigor os costumes, a religião, as festividades e a organização social da população local.
O livro inclui esta "Planta Topographica do Bazar de Macau"

Manuel de Castro Sampaio nasceu no Porto a 28 de Agosto de 1827. Com uma formação académica superior, licenciou-se em Medicina, o que lhe conferiu um rigor científico e uma capacidade de observação que marcariam todo o seu percurso profissional e intelectual no Oriente. Assentou praça no Exército em 1845 e três anos depois partiu para Macau em 1848, integrando o quadro de saúde do Ultramar.
Ao longo da sua estadia em Macau, Sampaio desenvolveu uma carreira multifacetada. No plano militar e administrativo, ascendeu ao posto de capitão e exerceu cargos de grande responsabilidade, como o de Secretário da Junta da Fazenda. O seu prestígio intelectual valeu-lhe o reconhecimento internacional, tendo sido distinguido como sócio-correspondente da Real Sociedade Asiática de Londres (Royal Asiatic Society), uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo dedicadas ao estudo das culturas orientais.
No campo das letras teve um papel preponderante na imprensa de Macau sendo editor a colaborador activo do periódico Ta-Ssi-Yang-Kuo (Arquivos do Extremo Oriente), iniciado em 1863. Colaborou ainda com a Gazeta de Macau e o Echo do Povo. Ainda em Portugal fundara o Voz do Alentejo.
Entre 1871 e 1873 foi Governador de Timor, um mandato onde se empenhou na organização administrativa e na melhoria das condições de saúde pública. 
Após décadas de serviço no Oriente, Manuel de Castro Sampaio regressou a Portugal, vindo a morrer em Lisboa, a 12 de outubro de 1875.

Para além dos livros já referidos foi ainda autor de: 
Pobreza envergonhada (Valença, 1852); Ensaios Poeticos (1858); Compendio de hygiene popular – tradução livre do texto de D. Francisco Tamires Vaz, (Elvas, 1860); Victimas de uma paixão (Lisboa, 1863); Memorias dos festejos realizados em Macau no fausto nascimento de S. A. o sr. D. Carlos Fernando (Macau, 1864); Compendio de Ortographia (Macau, 1864).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)

É apresentado hoje em Lisboa o livro "Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999)". Da autoria do historiador Alfredo Gomes Dias, a obra apresenta "as grandes linhas do pensamento e da acção do último Governador de Macau, o general Vasco Rocha Vieira".

Rocha Vieira no gabinete no Palácio do Governo
Foto de capa de Rui Ochoa

De acordo com a editora Guerra & Paz, o livro é "baseado nos documentos pessoais do general Rocha Vieira e nas conversas que o autor com ele manteve, esta obra reflecte o complexo processo de transição da administração de Macau de Portugal para a China, concluído com a cerimónia da transferência em 19 de Dezembro de 1999."
Na obra revela-se "a perspectiva do Governador de Macau sobre a sua acção política, quer nas diversas áreas da administração do território quer nas relações que manteve com os órgãos da República, em Lisboa, e com as autoridades chinesas."
"Macau: A Última Transição" é desde já uma fonte documental "essencial para todos aqueles que se queiram dedicar ao estudo dos últimos anos da presença portuguesa em Macau."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Picturesque Macao: 1926

Há 100 anos era publicado "Picturesque Macao", livro da autoria de "J. Braga" (Jack M. Braga/José Maria Braga) com edição de Henrique Nolasco da Silva e impressão da Livraria Po Man Lau (Largo do Senado, 12). 
Foi escrito em inglês para atrair o público de Hong Kong e turistas que visitassem o território durante um certame que estava em preparação. A obra é ainda valorizada pelas fotografias da época que registam locais emblemáticos como a Porta do Cerco, a Gruta de Camões ou as Ruínas de S. Paulo.
Excerto:
Introduction
Actuated solely by a desire to provide an illustrated handbook with, if I may modestly say so, interesting historical references, I set myself somewhat over a year ago to collect from many sources the meagre notes which are published this day.
I claim nothing of originality in the work: it was first suggested to me by Mr. Charles Gerken, at that time editor of the “Hongkong Sunday Herald”, for publication in his paper, and I have leisurely sought for details regarding the romantic nooks of Picturesque Macao.
Early in August the publishers of this work requested me to furnish the letterpress for a number of pictures intended for exhibition at the Macao Industrial Fair in October, 1926. Though loth to present for public gaze notes but hastily assembled and necessarily incomplete, I decided to offer them for publication, despite inaccuracies and shortcomings, feeling that their deficiences would be overlooked in the practical purpose to which the writer hopes his little work of love will be applied.
There are places which once seen are never forgotten and Macao is one of them. To the jaded spirit of an over-worked body and the tortured nerves of the tired business man Macao offers its priceless possession—an unhurried quiet—an atmosphere of peace.
Tradução/Adaptação:
Introdução
Movido unicamente pelo desejo de fornecer um guia ilustrado com referências históricas interessantes — se assim posso dizer modestamente —, propus-me, há pouco mais de um ano, a reunir de diversas fontes as parcas notas que são publicadas hoje.
Não reivindico qualquer originalidade nesta obra: ela foi-me sugerida pela primeira vez pelo Sr. Charles Gerken, na altura editor do "Hongkong Sunday Herald", para publicação no seu jornal, e tenho procurado pausadamente detalhes sobre os recantos românticos da Macau Pitoresca.
No início de Agosto, os editores desta obra solicitaram-me que fornecesse o texto para uma série de fotografias destinadas a serem exibidas na Feira Industrial de Macau em Outubro de 1926.* Embora relutante em apresentar ao olhar do público notas reunidas apressadamente e necessariamente incompletas, decidi oferecê-las para publicação, apesar das imprecisões e falhas, sentindo que as suas deficiências seriam relevadas perante o propósito prático ao qual o escritor espera que o seu pequeno trabalho de amor seja aplicado.
Existem lugares que, uma vez vistos, jamais são esquecidos, e Macau é um deles. Ao espírito exausto de um corpo sobrecarregado e aos nervos torturados do homem de negócios cansado, Macau oferece a sua posse mais valiosa: um sossego sem pressas — uma atmosfera de paz.
Picturesque Macau
by J. Braga. Edited by Henrique Nolasco Da Silva
Printed and Published by
Po Man Lau, 1926

* A Exposição Industrial e Feira de Macau realizou-se de 7 de Novembro a 12 de Dezembro de 1926 numa vasta área das várzeas de Mong Ha (perto do Templo de Kun Iam Tong) atraindo 290.000 visitantes. Idealizado no governo de Carlos da Maia ocorreu já no governo de Maia Magalhães.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana (1930)

MACAO. Geog. 
Colonia portuguesa de la costa S. de China (prov. de Kwang-tung) en la desembocadura del Cantón, á 101 km. al SE. de Cantón y á 60 km. al O. de Hong-Kong, en una pequeña península, unida con la isla de Hiang-shan por medio de un pequeño istmo. Las murallas que existían en toda la long. de la frontera, y en cuyas puertas había antiguamente centinelas chinos, están totalmente derruídas. En la península, además de la ciudad de Macao, hay tres ald., á saber: Mong-ha, Patane y Lappa. También pertenecen al dominio portugués las islas Taipa y Colovane [Coloane]. Su extensión total es de 11,75 km², con 78.627 h., de ellos 3.898 portugueses y algunos españoles é ingleses que lo sano del clima atrae de Hong-Kong. Macao perteneció, hasta 1844, al gobierno general de Goa, y forma, desde 1896, un solo gobierno. El comercio, monopolizado por los chinos, es muy importante.

MACAO. (Llamada en portugués Cidade do Santo Nome de Dios de Macao.) 
Geog. Ciudad de la costa meridional de China, correspondiente á la prov. de Kwang-tung y sit., aproximadamente, á los 22º 20' N., al OSO. de Hong-Kong y á unos 100 km. de Cantón. Forma parte de la colonia portuguesa del mismo nombre y se levanta á orill. del estuario del río de Cantón ó de las Perlas, en el extremo S. de una península, cortada por numerosos esteros, que la convierten en isla. La ciudad propiamente dicha cuenta 74.866 h., de los que 3.919 son blancos, entre ellos 3.780 portugueses; 60.057 chinos, y 154 pertenecen á diversas naciones. Se divide en dos barrios, el chino y el europeo, y está rodeada de colinas con fuertes de poca importancia. En el barrio europeo, bien edificado, aunque con muchas pendientes, hay buenas casas con jardines, un paseo llamado Praia Grande, el hospital, el Senado, cinco templos, entre ellos la catedral de San Pablo; varias capillas y un muelle semicircular que mide más de 1 km. En un jardín cercano á la iglesia de San Antonio se encuentra una gruta donde, según la tradición, terminó Camoens sus Lusiadas. El barrio chino es sucio y de calles estrechas, pero muy animado y comercial. La rada, defendida por algunos islotes, tiene muy poco fondo, de manera que los buques de gran porte tienen que anclar á 9 ó 10 km. de la ciudad. El comercio, antes muy importante, ha decaído; se reduce casi todo al de tránsito y está, en su mayor parte, en manos de los chinos. En 1910 se exportaron por él mercancías consistentes en añil, arroz, azúcar, té, seda, etc., evaluadas en 6.707.360 escudos, y se importaron por valor de 7.322.040.

in Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, 1930
Inclui uma fotografia tirada da colina da Guia sobre a Fortaleza do Monte e Porto Interior


Tadução/Adaptação

MACAU. Geogr. 
Colónia portuguesa da costa sul da China (província de Kwang-tung) na foz do Cantão, a 101 km ao SE de Cantão e a 60 km ao O de Hong Kong, numa pequena península, unida à ilha de Hiang-shan por meio de um pequeno istmo. As muralhas que existiam em toda a extensão da fronteira, e em cujas portas havia antigamente sentinelas chinesas, estão totalmente destruídas. Na península, além da cidade de Macau, há três aldeias, a saber: Mong-ha, Patane e Lapa. Também pertencem ao domínio português as ilhas da Taipa e Coloane. Sua extensão total é de 11,75 km², com 78.627 habitantes, dos quais 3.898 portugueses e alguns espanhóis e ingleses que o clima saudável atrai de Hong Kong. Macau pertenceu, até 1844, ao governo geral de Goa e forma, desde 1896, um só governo. O comércio, monopolizado pelos chineses, é muito importante.


MACAU. (Chamada em português Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.) 
Geogr. Cidade da costa meridional da China, correspondente à província de Kwang-tung e situada, aproximadamente, aos 22º 20' N., ao OSO de Hong Kong e a cerca de 100 km de Cantão. Faz parte da colônia portuguesa de mesmo nome e ergue-se à margem do estuário do rio de Cantão ou das Pérolas, no extremo sul de uma península, cortada por numerosos esteiros, que a convertem em ilha. A cidade propriamente dita conta com 74.866 habitantes, dos quais 3.919 são brancos (entre eles 3.780 portugueses); 60.057 chineses, e 154 pertencem a diversas nações. Divide-se em dois bairros, o chinês e o europeu, e está rodeada de colinas com fortes de pouca importância. No bairro europeu, bem edificado, embora com muitas ladeiras, há boas casas com jardins, um passeio chamado Praia Grande, o hospital, o Senado, cinco templos, entre eles a catedral de São Paulo; várias capelas e um cais semicircular que mede mais de 1 km. Num jardim próximo à igreja de Santo António encontra-se uma gruta onde, segundo a tradição, Camões terminou os seus Lusíadas. O bairro chinês é sujo e de ruas estreitas, mas muito animado e comercial. A enseada, defendida por alguns ilhéus, tem pouca profundidade, de modo que os navios de grande calado têm de ancorar a 9 ou 10 km da cidade. O comércio, anteriormente muito importante, entrou em declínio; reduz-se quase todo ao de trânsito e está, na sua maior parte, nas mãos dos chineses. Em 1910, exportaram-se por ali mercadorias consistentes em aniz, arroz, açúcar, chá, seda, etc., avaliadas em 6.707.360 escudos, e importaram-se valores de 7.322.040.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Flora Cochinchinensis" de João de Loureiro (1717-1791)

O ananás, fruto nativo da América do Sul, nomeadamente do Brasil, foi introduzido na China pelos portugueses através de Macau no final do século XVI, sendo o ano de 1594 a data histórica mais consensual para este marco por via dos registos documentais chineses. Após terem descoberto a fruta no Brasil, os navegadores portugueses transportaram as plantas nas suas embarcações para outros destinos. Devido à resistência da planta, esta sobreviveu às longas viagens marítimas, passando primeiro por entrepostos em África e depois em Goa, na Índia, antes de chegar ao enclave de Macau. A partir deste ponto estratégico, a planta espalhou-se rapidamente pela província de Guangdong e por todo o sul da China, nomeadamente em Fujian, onde o clima subtropical favoreceu uma adaptação perfeita. Existem referências em crónicas chinesas da dinastia Ming que descrevem uma "fruta estranha com pele de escamas e uma coroa de folhas" vinda das mãos dos "estrangeiros do mar" (os portugueses). 
Em chinês, a fruta é chamada de Feng Li (鳳梨) - significa "pêra fénix", devido à semelhança da sua coroa de folhas com as penas da cauda de uma fénix e à textura da sua polpa - e também de Boluò (菠萝), nome mais habitual em Macau e que aparece em textos médicos e botânicos pouco tempo depois dessa introdução.
Além do ananás, os portugueses foram responsáveis pela introdução na China do milho, batata-doce, amendoim, malagueta, tabaco...
Planta do Ananás: ilustração criada com recurso a IA

No livro publicado em 1790 (2 volumes em latim) - "Flora cochinchinensis: sistens plantas regno Cochinchina nascentes, quibus accedunt aliae observatae Sinensi imperio, Africa Orientali, Indiaeque locis variis, omnes dispositae secundum systema sexuale Linnaeanum" o padre jesuíta João de Loureiro - viveu em Macau entre 1779 e 1782 - antes de regressar a Lisboa, classifica a planta como Bromelia ananas.
João de Loureiro nasceu em Lisboa em 1717. Aos 15 anos ingressou na Companhia de Jesus, partindo pouco depois para as missões no Oriente. Após passagens por Goa e Macau, estabeleceu-se em 1742 na Cochinchina, região que hoje corresponde ao centro e sul do Vietname, onde permaneceria durante 36 anos. A sua permanência prolongada num período de instabilidade política deveu-se ao seu valor prático para a corte local, onde serviu como matemático e, sobretudo, como médico. Foi a necessidade de curar sem acesso a fármacos europeus que o levou a estudar profundamente a flora local e a medicina tradicional, tornando-se um botânico autodidata de excecional rigor.
Em 1777/79 Loureiro retirou-se para Macau, permanecendo no território até 1781. No regresso a Lisboa ainda passa por Moçambique onde continua a recolher plantas. A espantosa colecção que reuniu despertou o interesse da comunidade científica europeia.
A sua obra principal, a Flora Cochinchinensis, foi publicada em 1790 (um ano antes de morrer)  pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Escrito em latim e organizado segundo o sistema sexual de Lineu, o livro descreve mais de mil e duzentas espécies, muitas das quais desconhecidas na Europa, como certas variedades de citrinos e plantas medicinais asiáticas. 
MONOGYNIA. GENUS I. BROMELIA.
Charact. Gener. Cal. 3 - fidus, superus. Petala 3 : squamâ nectariferâ ad basim. Bacca 3 - locularis. Lin. syst. pl. G. 427.
Sp. 1. BROMELIA ANANÁS. v. Thái Thom. Differ. spec. Brom. foliis ciliato-spinosis: spicâ comosâ. Lin. sp. 1. Hab.; & notæ. Caulis 1 - pedalis, perennis, crassus, teres, erectus, foliis ad basim imbricatus, fructu magno, solitario terminatus. Folia 3 - pedalia, subulata, margine utrâque spinosa, canaliculata, crassa, cinereo-glauca, glabra, reclinata. Bacca composita, 8 pollices longa, cylindracea, saepe sub-conica, ovata, aut subrotunda, diametro 5 - pollicari, rubra, squamosa. Flores nitidè purpurei, singulis baccae squamis singuli adnati, supra medium exerti, ante maturescentiam baccae decidui. Cal. 3 - fidus, minimus. Corolla oblonga, campanulata, 3 - petala, in acutum definens. Filamenta 6, tenuia receptaculo inserta. Stigmata 3: stylo profundè 3 - sulcato, & in tres facilè divisibili. Baccae partiales inferae, oblongae, coalitae, succosae, odorae, dulcissimae, sub-acidae, sapidissimae, salubres, 1 - loculares: seminibus tribus, longiusculis.
Habitat in magnâ copiâ in agris, & hortis Cochinchinae, ubi, quamvis optima, vili pretio venditur, praecipuè in provinciâ Doung-nai ad decimum gradum latitudinis Borealis. Anassa. Rumph. Amb. l. 8. cap. 41. tab. 81. Ananás. Tournef. Inst. p. 653. tab. 426, 427, 428. Acosta. Arom. p. 44. Virtus: fructus. Diuretica, Stomachica. Ex fermentatâ fit vinum, & hujus spiritus, sapidum quidem, sed minus salubre. Varietas Bromeliae occurrit, in Cochinchinâ dicta Thom nép, cujus fuetus sapore non inferior, in maturescentiâ permanet viridis, & pulpa alba, sed specie non differens.

MONOGYNIA (Uma só estames/estilete). GÉNERO I. BROMELIA.
Características do Género: Cálice trilobado, superior. 3 Pétalas: com escama nectarífera na base. Baga com 3 lóculos. (Ref. Linnaeus).
Espécie 1. BROMELIA ANANÁS. Nome vulgar: Thái Thom. Diferença da espécie: Bromélia de folhas com espinhos ciliados: espiga com penacho. Habitat e Notas: Caule de 1 pé de altura, perene, grosso, cilíndrico, ereto, com folhas sobrepostas na base, terminado por um fruto grande e solitário. As folhas têm 3 pés de comprimento, em forma de sovela, espinhosas em ambas as margens, sulcadas, grossas, de cor cinza-azulado, lisas e reclinadas. A baga é composta, com 8 polegadas de comprimento, cilíndrica, frequentemente subcónica, oval ou arredondada, com 5 polegadas de diâmetro, vermelha e escamosa. As flores são de um roxo brilhante, cada uma ligada a uma escama da baga, projetando-se acima do meio, caindo antes da maturação do fruto. Cálice muito pequeno. Corola oblonga, em forma de sino, com 3 pétalas terminando em ponta. 6 filamentos finos inseridos no recetáculo. 3 estigmas: estilete profundamente sulcado em 3 e facilmente divisível em três partes. As bagas parciais são inferiores, oblongas, fundidas, suculentas, perfumadas, muito doces, ligeiramente ácidas, de sabor muito agradável, saudáveis, com 1 lóculo e três sementes compridas.
Habitat: Em grande abundância nos campos e hortas da Cochinchina [atual Vietname], onde, embora de excelente qualidade, é vendido a preço baixo, especialmente na província de Dong Nai, aos dez graus de latitude Norte. 
Referências: Anassa (Rumphius), Ananás (Tournefort), Acosta (Aromatum et Medicamentorum). 
Virtudes: Do fruto: Diurético e estomacal. Do fruto fermentado faz-se vinho e um espírito (destilado), saboroso, mas menos saudável. 
Variedade: Ocorre uma variedade de Bromélia, chamada na Cochinchina de Thom nép, cujo fruto não é inferior em sabor, permanece verde na maturação e tem a polpa branca, mas não difere na espécie.

Nota: Entre as várias espécies da flora de Macau que João de Loureiro classificou, aqui ficam alguns exemplos: Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"...
Terá por certo recorrido ao Horto dos Jesuítas/Horta da Companhia de Jesus, junto ao colégio de S. Paulo. Na toponímia local chegou a a existir a Rua da Horta da Companhia, actual Rua de D. Belchior Carneiro.

Curiosidade: 
A palavra ananás deriva de "nana" - termo nativo Tupi - que significa "fruto excelente".