segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Curiosidades históricas VI - Bocage"

Gabriel Fernandes assina uma coluna intitulada "Curiosidades Históricas" no jornal "O Conimbricense" em 1895. Localize uma sobre Camões e outra sobre Bocage (1765-1805), que viveu em Macau entre Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, oriundo da Índia de onde desertou do cargo de guarda-marinha.  É a número VI que a seguir se transcreve:

"Curiosidades históricas VI - Bocage"
Manoel Maria de Barbosa Hedois du Bocage («Elmano Sadino»), vindo de Goa, por via de Surrate, (porto então de muito commercio) chegou a Macau em Julho de 1789.
Durante a sua estada nesta cidade, além da elegia feita á memoria do principe do Brazil D. José, fallecido em 11 de Setembro de 1788, e á qual se refere Rebello da Silva (a) compoz diversas poesias satyricas, taes como: O canto da Beba, Os sonetos contra certos moradores de Macau, etc., que ainda se acham ineditos*.
Deparando-lhe um protector no ouvidor Lazaro da Silva Ferreira e membro do conselho governativo, por morte do capitão geral Francisco Xavier de Mendonça Côrte Real, pôde o insigne poeta regressar a Lisboa, onde desembarcou em Agosto de 1790, vindo a fallecer em 21 de Dezembro de 1805 com 40 annos de edade incompletos.
Despachado guarda-marinha para o estado da India, por decreto de 4 de Fevereiro de 1786, entrou em Goa em 29 de Outubro subsequente, sendo nomeado tenente de infanteria da 5.ª companhia do regimento da praça de Damão em virtude da portaria do governador da India, Francisco da Cunha Menezes, de 25 de Fevereiro de 1789.
O seu poema satyrico a Monteigui, presume o escriptor indiano Filippe Nery Xavier ter sido feito ou na viagem para Macau, ou em Surrate, theatro das façanhas da sua heroina Anna Jacques Mondteigui ou Monteigui, natural da cidade de Damão e casada com o alferes Jacques Filippe, do mesmo appellido, por entre 1775 a 1782.
O referido escriptor Rebello da Silva, ignora a época em que o poeta naufragára, se foi á ida ou á volta de Macau, salvando a nado e recolhendo algumas poesias, estampadas depois no 1.º tomo das suas Rythmas. (b)
Lisboa. Gabriel Fernandes.
(a) Vide Memoria biographico-litteraria ácerca de M. M. B. du Bocage..., por Luiz Augusto Rebello da Silva.
(b) Ibidem Diccionario Bibliographico Portuguez (na parte respectiva).
Ilustração criada por IA a partir de desenho de 1850 de Joaquim Pedro de Sousa

O autor do artigo é José Gabriel Bernardo Fernandes*, nascido a 29 de Dezembro de 1848 em Macau (na Sé). Formou-se em Direito em Coimbra no ano de 1875. Empregado no Ministério dos Negócios da Fazenda, foi Conservador do Registo Predial em Angola e Juíz de Direito em Moçambique. Foi também jornalista e historiador, autor dos «Apontamentos para a história de Macau» (Lisboa, 1883), da «Relação dos bispos de Macau» (1884) e de «Jornalismo em Macau». Colaborou no «Jornal de Coimbra», no «Conimbricense» e no «Impulso às Letras», de Hong Kong. Morreu em 1914.
O pai era João Gabriel Fernandes, nascido em Bardez, Goa. Com os preparatórios do Seminário de Chorão e estudos preliminares da época, após Exame de Estado obteve Carta de Advogado junto da Relação de Goa (1845), com a provisão para advogar nas possessões da Ásia (1863) fixando-se em Macau onde foi Juíz da Paz e Síndico da Misericórdia e do Colégio de São José, bem como das Missões do vasto Padroado Português de Pequim, Nanquim e Singapura. Foi ainda Auditor de Guerra e Vogal do Conselho do Governo de Macau e Secretário do Governo. Em Macau foi um dos fundadores do semanário histórico e literário «Ta-Ssi-Yang-Kuo – Semanário macaense d´interesses publicos locaes, litterario e noticioso» e autor de um esboço biográfico sobre o macaense A.J. de Miranda. Retirou-se para Coimbra (1870/83) onde viria a morrer.
Sobre pai e filho basta utilizar o campo de pesquisa para procurar artigos publicados no blog.

* o poema sobre Macau é um retrato fiel de como era o território na época em que Bocage ali viveu (e onde tem o nome numa rua). Em breve publico.

domingo, 12 de abril de 2026

O órgão da Igreja de S. Paulo de Macau

Publicada em chinês pela primeira vez em 1751 a obra "Aomen Jilue/ Ou-Mun Kei-Leok: Monografia de Macau"* foi escrita por dois magistrados chineses do antigo distrito de Héong-Sán que visitaram por diversas vezes a cidade de Macau.
Uma parte menos abordada da obra inclui poemas de diversos autores. Casos de Ian Kuong Iam, Tcheong Ü Lam, Sêk Kâm Tchông, Chan Kong Yin, Leong Pai Lan, Fang Tchin Yuan e Tch'ak Tch'ak. Um deles, Léong Tekm escreve um poema onde descreve o órgão de tubos da Igreja de S. Paulo de Macau.
"Na igreja de S Paulo encontra-se um órgão colocado dentro de um caixão de couro no qual está alinhada mais de uma centena de tubos ligados e dispostos como um fio de seda. Na parte exterior há um fole que aspira ligeiramente o vento que uma vez entrado produz o som. Desse caixão saem os oito sons que se espalham harmonizando-se com as rezas e cânticos agradáveis de ouvir." 
O autor compara o órgão através do Sheng (ou sâng), um instrumento de sopro chinês milenar composto por tubos de bambu verticais inseridos numa base de madeira. Tal como o sheng, o órgão utiliza tubos e palhetas. A comparação com o alcião (um pássaro) refere-se à forma visual dos tubos dispostos em "V" ou em leque, lembrando as asas abertas do pássaro.

"O órgão português é semelhante ao sâng do alcião.
Com as suas duas asas pouco falta para se parecer com o alcião.
Os seus tubos verdes e dourados estão em lugar de pedaços de bambu.
Curtos e compridos, grandes e pequenos, alternam-se mutuamente.
A madeira substitui a cabeça e o fole é de couro.
Já levantando, já comprimindo, o vento gira sendo expelido.
Quando se produz o vento, agitam-se as palhetas, saindo os sons pelos buracos.
As teclas de marfim comprimindo o ar produzem fortes sons musicais.
Tocando a música no andar superior de S. Paulo, dentro e fora de dez lis** ouvem-se os sons.
Os sons não são semelhantes aos produzidos pelos instrumentos de cordas de seda, de madeira, mas de metal ou de pedra.
Ao entrarem são fracos mas quando saem são fortes, cheios e límpidos.
Espalham-se ouvindo-se em toda a ilha, sendo grande a sua perfeição.
É também subtil a lei que rege a construção dos órgãos. (...)"
Igreja Mater Dei representada no livro Ou Mun Kei Leok

Edificada segundo um plano rectangular, a Igreja de S. Paulo (ou de Nossa Senhora da Assunção, ou da Madre de Deus) era constituída por três naves separadas por grossas colunas de madeira, quatro de cada lado. O topo era também rectangular e o transepto estava separado da capela-mor por um arco majestoso. No primeiro andar encontrava-se o coro, com as suas três janelas abertas na fachada da Igreja e dois órgãos, o grande e o pequeno.
Na descrição que deixou do interior da igreja, o Padre Montanha escreve que o coro era "muito capaz com trez janellas rasgadas, tem dous orgaons, hum grande, e outro piqueno". Isto é, o coro alto era muito espaçoso e também muito iluminado, o suficiente para abrigar um órgão grande e um pequeno.


* Em 1751 surge a primeira edição xilográfica da Monografia de Macau (Ou-Mun Kei-Leok), por Tcheong Ú Lam e lan Kuong Iam; surgiu uma 2.ª edição em 1884. Esta obra foi traduzida e publicada em português, em 1950, por Luís Gonzaga Gomes.

** medida chinesa: cada li corresponde a 500 metros.

O órgão é um dos instrumentos musicais mais antigos da tradição musical do Ocidente, sendo considerado o primeiro instrumento de teclas. O  som é produzido pela passagem de ar comprimido através de tubos sonoros de diversos formatos, materiais e comprimentos que faz ecoar os sons. É um instrumento de sopro com a diferença de que o ar não é injectado pelo sopro humano, mas sob a forma de ar comprimido, que acumulado pelo fole, é reencaminhado para os tubos respectivos. Existem de vários tamanhos: desde uma caixa (órgão de baú) até aos que podiam ter vários andares de tamanho. Pela descrição, o da Igreja Matr Dei seria um de pequenas dimensões.

sábado, 11 de abril de 2026

Banda de Música no Passeio de S. Francisco e na Flora: 1878

 Publicado na "Parte Não Official" do Boletim Oficial de Macau na época...

Banda de musica da guarnição, destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramar

PROGRAMMA
Domingo, 26 de maio, das 5 ás 7 horas p.m., no passeio de S. Francisco
1º Passo dobrado;
2º Overtura Les Aveugles de Toledo;
3º Mazurka, Les belles Parisienes;
4º Selection Don Pasquale;
5º Quadrilha, das Estradas;
6º Grand Selection "Norma";
7º Polka, La Belle Colete;
8º Hymno de S. M. El-Rei o Sr. D. Luiz I.

Quinta-feira, 30 do corrente, das 5 ás 7 horas p.m., na Flora
1º Marcha;
2º Selection "Gerusalemme";
3º Cançoneta;
4º Valsa, Adagio;
5º Schottisch, La nuit de Noel;
6º 2.º Acto d'Opera burlesca "O Fausto Petiz";
7º Quadrilha;
8º Hymno da carta constitucional.

Em 1878 os concertos da Banda de Música "destacada no 3.º batalhão do regimento de infanteria do ultramarn" no Passeio de S. Francisco (perto do atual Clube Militar na altura denominado Grémio) e no Jardim da Flora (ou Flora Macaense como se dizia na época) eram os grandes eventos sociais onde a elite e a demais população se reuniam para ver e ser vista.
O programa revela um gosto musical muito alinhado com o que se ouvia em Paris ou Lisboa na mesma época. Incluía ópera Italiana e Francesa - referências a Don Pasquale (Donizetti), Norma (Bellini) e Les Aveugles de Tolède (Méhul) e danças de salão através das Mazurkas, Polkas, Valsas e Schottisch (Xote),reflectindo um ambiente festivo e sofisticado. O "Fausto Petiz" é uma referência a uma paródia ou versão reduzida da ópera de Gounod, muito comum no teatro de revista e operetas da época.
Ambos os concertos encerravam com hinos patrióticos: o Hymno de D. Luiz I (Hino Real) no domingo e o Hymno da Carta Constitucional na quinta-feira, que era o hino nacional do Reino de Portugal na altura. Os concertos ocorriam das 17h às 19h aproveitando o final da tarde, quando o calor em Macau começava a dar tréguas.
Uma banda desta natureza teria entre 20 a 30 elementos. Não disponho de elementos o possam comprovar mas na época eram habituais terem estes instrumentos: requinta, clarinetes, flautim, flauta, oboé, fagote, cornetins, trompetes, trompas, trombones, bombardinos, tuba, tarol, bombo e pratos.
Palacete da Flora com o coreto (assinalado) nos jardins 
Ilustração por IA a partir de foto da época

Locais:
O Jardim da Flora (macaense) ocupa uma área muito maior do que o actualmente existente, nomeadamente ao longo da Av. Sidónio Pais (que na época se denominava Alameda Vasco da Gama) e Estrada de Ferreira do Amaral. As origens remontam à década de 1850 quando o padre Victorino José de Sousa e Almeida - chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1832 e foi pároco de S. Lourenço de 1842 a 1852 - comprou um extenso terreno e aí construiu um palacete. Documentos da época referem a "horta do padre Almeida". 
Por volta de 1870 o Governo de Macau comprou a propriedade. O palacete foi transformado em residência de Verão do governador e o restante espaço passou a funcionar como jardim e viveiro de plantas. Nos jardins anexo ao palacete havia um coreto, o local provável da actuação da Banda de Música.
Jardim S. Francisco. Fotografia ca. 1870

O "Passeio de S. Francisco" é uma referência ao jardim com o mesmo nome, criado ca. 1865, entre a Rua do Campo (frente ao antigo Convento de Santa Clara) e o Grémio Militar (de 1870). Foi o primeiro jardim público de Macau. Neste jardim também existiu um coreto localizado perto da Rua do Campo.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

120 anos dos Salesianos em Macau

Este ano assinala-se o 120.º aniversário* da chegada dos Salesianos a Macau. A primeira expedição salesiana a chegar a Macau, em Fevereiro de 1906, era composta por seis pioneiros que lançaram as bases da obra de Dom Bosco na região. O grupo era liderado pelo Padre Luís Versiglia (director da missão) e incluía os padres Ludovico Olive e João Fergnani. Acompanhavam-nos três irmãos coadjutores, especialistas em artes e ofícios, que seriam essenciais para o ensino técnico: Feliz Borsio, Luís Carmagnola e Gaudêncio Rota. Juntos, estes seis missionários iniciaram o trabalho no Orfanato da Imaculada Conceição.
A iniciativa pertenceu ao Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, que buscava apoio especializado para a educação e formação profissional de jovens carenciados e órfãos no território.

O Pe. Joaquim Taveira da Fonseca foi um desses salesianos já na década de 1970 e é o protagonista do artigo (texto) da autoria de Raquel Fragata publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de Março/Abril de 2026. Suplemento 150 anos das Missões Salesianas - "1906, Macau, a primeira casa na China" que a seguir se reproduz:
Foram quatro frutuosos anos que o Pe. Joaquim Taveira da Fonseca trabalhou em Macau. Tinha regressado de Moçambique em 1975, onde serviu como Capelão Militar do Exército Português no período de transição para a Independência após o 25 de Abril, quando – depois de dois anos no Colégio dos Órfãos do Porto como diretor –, vai para Mogofores para completar o Curso de Matemática na Universidade de Coimbra. É o Provincial, Pe. José Maria Ferreira Maio, que o envia a seguir para Macau, onde fica como vice-diretor, professor de Matemática no Colégio Dom Bosco e professor de Filosofia na Escola Comercial de Macau, para portugueses.
Conheceu o Padre Gaetano Nicosia, o salesiano que humanizou a colónia de doentes de lepra na ilha de Coloane**. Do missionário salesiano, cujo processo de beatificação começou em 2025, o Pe. Taveira recorda “um asceta”. Diariamente, o Pe. Nicosia atendia a duas obras a seu cargo: a leprosaria em Coloane e uma creche perto do Porto de Macau. “Fiquei a saber que não comia. Não tinha tempo.” O Padre Taveira tentava fazê-lo passar pela comunidade salesiana, a pretexto de se querer confessar, e recebia-o com leite ou chá e uma sanduíche. “Um confessor fabuloso. Um homem de Deus. De uma dedicação, entrega e simplicidade absolutas”.
Nesses anos o Pe. Joaquim Taveira colabora também com uma coluna de opinião e a secção de Religião com “O Clarim”, o jornal de língua portuguesa mais antigo de Macau e ainda em circulação. O convite foi feito por D. Arquimínio Rodrigues da Costa, o último Bispo português de Macau, natural dos Açores, da ilha do Faial. Era diretor o Padre Manuel da Fonseca Moreira.
Nos quatro anos de missão, visitou Taiwan, a China, as Filipinas e o Japão. Regressou a seu pedido, devido ao estado de saúde do Pai. Antes da partida um grupo de mais de 50 amigos organizou um jantar surpresa de despedida e de agradecimento.
Leprosaria de Ka-Ho ca. 1960
Transcrição (da direita para a esquerda)
Linha superior:
典學開校學罪原無門澳日二月四年六零九一
Cerimónia de abertura da Escola da Imaculada Conceição de Macau, 2 de Abril de 1906.
Linha inferior:
照合生學與父神賀父神雷教主鮑門澳禮
Fotografia dos alunos com o Padre Horta, Padre Lei, o Bispo de Macau Dom João Paulino e outros.
Ao centro com a cruz peitoral está o bispo Dom João Paulino (1902-1918).  No topo há um retrato do Papa Pio X, pontífice na época 1903-1914. O retrato segurado por um dos alunos no centro da imagem é o de Dom Bosco, o fundador da congregação Salesiana.

* Os primeiros missionários salesianos para Meliapor e Macau partiram da Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim, a 23 de Novembro de 1905. A primeira missão salesiana em Macau iniciou-se a 13 de Fevereiro de 1906.

** Em 2025 teve oficialmente início o processo de Beatificação e Canonização do Pe. Gaetano Nicosia (1915-2017), missionário salesiano que viveu 48 anos na leprosaria da ilha de Coloane, em Macau.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

"As Origens de Macau" / "The Origin of Macao"

A obra intitulada "As Origens de Macau" / "The Origin of Macao", escrita por W. Robert Usellis, representa um resgate historiográfico de grande relevância, tendo sido publicada pelo Museu Marítimo de Macau em Dezembro de 1994. Embora a edição bilingue date de meados da década de 90, o texto original foi concebido muito antes, em dezembro de 1958, como a tese de mestrado do autor na Universidade de Chicago. Durante 36 anos este estudo permaneceu inédito, circulando apenas de forma restrita através de fotocópias entre investigadores, até que académicos como Luís Filipe Barreto, Jorge Manuel dos Santos Alves e Rui Loureiro impulsionaram a sua publicação bilingue em português e inglês.
As circunstâncias da edição de 1994 prendem-se com a necessidade de consolidar a identidade de Macau num período de transição política, destacando a singularidade desta "comunidade autónoma luso-asiática". O mérito fundamental de Usellis, conforme sublinhado na nota introdutória, foi a sua metodologia pioneira: numa época em que os estudos eram muitas vezes unilaterais, o autor realizou um esforço sistemático de comparar fontes ocidentais e orientais, cruzando manuscritos e documentos impressos em português, chinês, italiano, espanhol, japonês e malaio. A estrutura do livro percorre desde a análise dos relatos da fundação até à complexa questão da soberania, incluindo apêndices valiosos como o acordo de Lionel de Sousa de 1553-54.
O corpo principal do estudo divide-se em quatro partes fundamentais: o Capítulo II analisa os relatos portugueses e de outros ocidentais sobre a fundação de Macau; o Capítulo III estabelece a comparação entre as fontes chinesas e as ocidentais; o Capítulo IV aborda a complexa questão da soberania sobre Macau; e o Capítulo V apresenta a Conclusão do autor.
A obra inclui ainda uma secção de Apêndices com documentos históricos essenciais: o primeiro traz o relato de Lionel de Sousa sobre o acordo de 1553-54; o segundo apresenta um relato antigo sobre a fundação de Macau; o terceiro detalha uma declaração primitiva da posição portuguesa em Macau; e o quarto oferece uma visão oficial da posição portuguesa no território.
O autor, W. Robert Usellis, teve uma trajectória de vida marcada pela experiência como soldado de infantaria na Segunda Guerra Mundial e por uma carreira dedicada ao ensino secundário e à administração internacional em países como o Líbano e a Arábia Saudita. No encerramento da obra, Usellis reflete com pragmatismo sobre a história de Macau, defendendo que o respeito mútuo entre as leis e costumes de chineses e portugueses permitiu uma coexistência pacífica que serve de lição para o futuro da região no contexto global.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Luís Gonzaga Gomes: cinquentenário da morte

Em Março último assinalou-se o cinquentenário da morte de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Nome incontornável da restrita galeria dos mais ilustres macaenses do século 20 foi escritor, sinólogo, tradutor, filólogo, historiador, musicólogo e professor.
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907, filho de Joaquim Francisco Xavier Gomes e de Maria de Conceição Gonzaga Gomes. A sua formação académica e intelectual foi moldada no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde teve como professores figuras influentes como o historiador José Maria Braga (Jack Braga) e o prestigiado Camilo Pessanha, que marcaram profundamente o seu interesse pela história e pela cultura oriental.
Após concluir os estudos, iniciou a sua vida profissional em 1928 como tradutor-intérprete oficial. A sua capacidade de ligação entre comunidades permitiu-lhe, entre 1932 e 1934, atuar como interlocutor em questões sensíveis da administração colonial. Em 1949, fundou o Círculo Cultural de Macau, tornando-se um pilar da dinamização artística do território.
Como docente no Liceu de Macau (onde antes fora aluno), foi mestre de várias gerações que viriam a destacar-se na vida pública e cultural de Macau, incluindo o advogado e historiador Jorge Cavaleiro e o intelectual Henrique de Senna Fernandes, que frequentemente o recordava como um mentor rigoroso e apaixonado pela alma macaense.
Entre 1951 e 1954, dirigiu a Biblioteca Pública e o Arquivo Histórico. Em 1960, assumiu a direção do Museu Luís de Camões, cargo que ocupou até à sua morte.
Morreu a 20 de Março de 1976, deixando um legado inigualável como o "intérprete" por excelência da história luso-chinesa.
Condecorações e distinções:
1958: Grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública (Portugal, 20 de janeiro).
1962: Cavaleiro da Ordem de São Silvestre Papa (Santa Sé, pela sua dedicação à comunidade católica e ensino).
1969: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique
Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.
Postumamente: Medalha de Valor de Macau, atribuída pelo Governo de Macau (Gov. Almeida e Costa) em reconhecimento ao seu serviço excecional.
Em 1977 o seu busto foi colocado numa sala do Museu Luís de Camões e em 1984, um outro busto foi colocado no Jardim de S. Francisco. Ambos da autoria do escultor italiano Oseo Leopoldo Acconci.
Dá ainda nome a uma rua e a uma escola em Macau.
Sendo um dos autores mais prolíficos do seu tempo publicou centenas de artigos na imprensa: Notícias de Macau, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Mosaico (revista do Círculo Cultural de Macau), etc...
Algumas das principais obras:
1941: Vocabulário Português-Cantonense
1942: Vocabulário Cantonense-Português
1942: Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo — Tradução para a língua cantonense da adaptação em prosa de João de Barros.
1945–1946: Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) — Tradução para português, a partir do cantonense, da obra dos mandarins Tcheng U Lám e Jan Kuong (séc. XVIII).
1950: Contos Chineses
1951: Lendas Chinesas de Macau (também referida apenas como Lendas de Macau)
1951: A Influência Portuguesa na Civilização Chinesa
1952: Chinesices
1952: Curiosidades de Macau Antiga
1953: Festividades Chinesas
1954: Arte Chinesa
1954: Efemérides da História de Macau
1957: Páginas de História de Macau (Primeiros volumes/ensaios)
1958: Noções elementares da língua chinesa
1959: Macau: Factos e Lendas
1959: A Mensagem de Fernando Pessoa — Tradução para a língua cantonense.
1964: O Estudo do Chinês em Macau
1966: Páginas de História de Macau (Edição consolidada)
1966: A Arte Musical em Macau
1967: Festas e Tradições Chinesas
1968: Notas sobre o Teatro Chinês
1969: As Religiões e os Cultos em Macau
1971: Bibliografia Macaense
1973: Demografia de Macau através dos Tempos
1973: Bibliografia Macaense (Edição/Actualização)
1975: Macau e a sua Gente

segunda-feira, 6 de abril de 2026

IX edição da Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses

Realiza-se entre 5 e 8 de Maio próximo, em Mafra e Lisboa, a IX edição da Conferência de Lisboa sobre Música e Instrumentos Musicais Chineses.
Organizada pelo Instituto de Etnomusicologia - Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a Conferência é coordenada pelo Dr. Énio José de Souza, e conta com o patrocínio principal da Fundação Jorge Álvares.
As Conferências reúnem académicos, músicos e entusiastas da música chinesa com o objetivo de fortalecer e priorizar as seculares relações culturais entre Portugal e a China/Ásia, com especial destaque para Macau como ponte histórica e cultural entre o ocidente e o oriente, explorando o rico património cultural e as tradições em constante mudança associadas aos instrumentos musicais chineses.
PS: Portugal tem um importante acervo de instrumentos musicais chineses em colecções públicas e privadas.
Sugestão de leitura:
Instrumentos Musicais Chineses, de Veiga Jardim.
Edição (filatélica) da Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações de Macau. 1998
Edição em português, inglês e chinês.

domingo, 5 de abril de 2026

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes"

"Haveria neste tempo na Cidade de Macao novecentos Portuguezes, alem de hu grande numero de Christãos da terra, que davaõ larga matéria ao exercicio de nossos ministerios. Frequentavaõ os Sacramentos de oyto em oyto, ou quinze em quinze dias. Nos Domingos, e dias Santos acodiaõ à doutrina perto de mil escravos, cõ os quaes se fez muyto fruto."

Relato relativo a meados do século 16 (1562) incluído no 1º volume de "Oriente conquistado a Jesus Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Goa", obra "Ordenada pelo P. Francisco de Sousa* Religioso da mesma Companhia de Jesus. Lisboa: na Officina de Valentim da Costa Deslandes, Impressor de Sua Magestade, 1710."
* Jesuíta Francisco de Sousa (1649-1712).
Igreja Mater Dei/Ruínas de S. Paulo: o 'santuário dos jesuítas em Macau
(ainda não existia na época deste relato)
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

Em português actual:
"Haveria, neste tempo, na cidade de Macau, novecentos portugueses, além de um grande número de cristãos da terra, que davam ampla matéria ao exercício dos nossos ministérios. Frequentavam os sacramentos de oito em oito, ou de quinze em quinze dias. Aos domingos e dias santos, compareciam à doutrina cerca de mil escravos, com os quais se colheu muito fruto."

sábado, 4 de abril de 2026

"Terra das nhonhas e das delicias"

Em cima um postal ilustrado publicado em Hong Kong - Graça & Co. - no final do século 19/início do século 20 (os selos são já da República). Tem como legenda "Mulheres de Dó, Macao". Tudo indica que a fotografia foi tirada na Praia Grande.
"A sahida da missa" é a legenda da fotografia publicada na "Illustração Portugueza", edição semanal do jornal O Século (Portugal), a 4.12.1908.

Excerto do artigo:
"Após uma digressão pelas casas de jogo, d´amor, d´embriaguez, traz-se a impressão cançada do goso, mas olhando n´um dealbar verão a cidade onde as nhonhas de lindas pernas, com seus trajes de dó ou com seus vestidos leves, vão passar dentro em pouco, reparando n´esses bairros adormecidos, sob a luz doce do sol e comparando-a com essa China do luxo e da mizeria onde tantos milhões de homens luctam, sente-se bem que Macau foi feito para paraizo dos mandarins, dos ricos e dos piratas e logo nos vem á mente que com esse caminho de ferro de Cantão até ali, que já temos licença para fazer, a cidade seria definitivamente o logar de regalo de todo esse Extremo Oriente se dentro de gosos, que abafa ou se regela na sua atmosfera e que ali, em Macau, encontraria a sua estancia de prazeres, fazendo correr o ouro que seria applicado em torar mais deslumbrante a linda terra das nhonhas e das delicias.
A macaísta, que mettida nos seus trajos de dó tem alguma cousa das nossas antigas damas embiocadas, talvez então se desse mais à vida da rua, talvez mergulhasse n´esse banho de luxo e perdendo a característica do trajar iria docemente, sem dar por isso, deixando o recolhimento em que vive."
Desenho por IA a partir do postal referido

No contexto do crioulo-português de Macau, "nhonha" é usado para designar uma moça, garota ou mulher nova. As nhonhonas eram as mulheres/senhoras que vestiam o traje de "dó" em certas ocasiões, como a missa. As mulheres usavam uma saia comprida e um manto largo que cobria a cabeça e os ombros. Em situações de luto fechado, o manto era puxado para a frente para esconder parcialmente o rosto, como se vê nas figuras à esquerda.
Na livro "O Traje da Mulher Macaense Da Saraça ao Dó das Nhonhonha de Macau", de Ana Maria Amaro (Instituto Cultural de Macau, 1989):
"Nos primeiros tempos da ocupação de Macau pelos portugueses as mulheres asiáticas ou euro-asiáticas que os acompanhavam usavam um trajo original que se vulgarizou em todas as cidades do Oriente onde estes se fixaram. Este trajo nem era aquele que usavam as mulheres portuguesas da Europa nem o trajo próprio de nenhuma das etnias asiáticas. Como teria nascido este trajo que, no Oriente, era conhecido por saraça-baju ou pano-quimão?"

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos)

25 de Março de 1708
"N'este dia se fez a procissão do Senhor da Cruz (ou dos Passos) pelos ordinarios por ordem do senhor bispo, visto acharem-se os padres Agostinhos impedidos no seu convento por causa das controversias a respeito do patriarcha. Os irmãos que acompanhavam o Senhor iam com opa branca e murça rouxa. A procissão foi até S Domingos onde ficou o Senhor."
in "Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos", António Marques Pereira, 1868.
Procissão religiosa em Macau no século 20.
Foto de autor desconhecido


quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Macao Races": 1829

 The Canton Register, 2 de Maio de 1829:

Macao Races
In noticing the Races that have lately taken place, and are now in course, at Macao, which have afforded so much rational amusement, and been the source of great gratification to the surrounding society, we hail with pleasure the return of that manly diversion, which for a time had been neglected. And while it is conducted with the gentlemanly feeling, and universal harmony, which has been so peculiarly conspicuous in every instance of its present management, we hope it will have its annual return, and meet with the most cordial support.

Corridas de Macau
Ao notar as Corridas que ocorreram recentemente, e que estão agora em curso em Macau, as quais têm proporcionado tanto entretenimento racional e sido fonte de grande satisfação para a sociedade local, saudamos com prazer o regresso desta diversão viril, que por algum tempo havia sido negligenciada. E, enquanto for conduzida com o espírito de cavalheirismo e a harmonia universal que têm sido tão peculiarmente visíveis em cada exemplo da sua atual gestão, esperamos que tenha o seu retorno anual e encontre o mais cordial apoio.

As "corridas" a que se refere a notícia eram corridas de cavalos, uma actividade que os ingleses e outros comerciantes estrangeiros desenvolviam em Macau quando não podiam estar em Cantão nos negócios. Documentos da época indicam que estas provas tinham lugar ao longo da praia da Areia Preta, muito perto da Porta do Cerco (ainda na versão chinesa). Por volta de 1840 alguns mapas referem um "Race Course" - City and Harbour of Macao. By W. Bramston. J. Wyld, London. Lithographed, 1840 - nas então várzeas junto à aldeia de Mong Ha.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Até parece mentira

Em 1933 o Ministério das Colónias (Portugal) publica o Decreto n.º 27:195 "determinando que no frontispício dos Boletins Oficiais de todas as colónias e respectivos suplementos, seja impresso, entre a palavra «Boletim» e a palavra «Oficial» o escudo nacional, que não poderá ser substituído pelo brasão da colónia ou quaisquer outros emblemas."

Esse mesmo decreto seria publicado no Boletim Oficial da Colónia de Macau nº 52 (Dezembro de 1933) mas curiosamente não é seguida a determinação, aparecendo o brasão da Colónia de Macau. Seria publicado um novo boletim de forma a corrigir o erro...