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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cruzamento da Rua Cinco de Outubro com a Av. de Almeida Ribeiro

Tudo indica que esta fotografia é da década 1930/40. Mostra o cruzamento da Rua cinco de Outubro com a Av. de Almeida Ribeiro.
À direita destaca-se o letreiro de Wong Chan Kei Ca Quinquilharia e Cambista.
Por baixo em chinês (Tradicional) 黃珍記總行 , ou seja, Sede da companhia Wong Chan Kei.
Já o letreiro à direita em maior destaque é o Veng Heng Cambista. Logo abaixo os 4 caracteres chineses dizem o mesmo. Segue-se 找換金銀找兌保商 que se pode traduzir como "Câmbio de ouro e prata, transações comerciais garantidas".
Ainda do lado esquerdo, no pilar estão os caracteres 祥珍茶莊 que anunciam a Loja de Chá Cheung Jan (Xiangzhen). Uma placa rectangular suspensa ao fundo indica o mesmo.

Detalhe de um recibo da década 1930 da Wong Chan Kee no nº 122 da rua 5 de Outubro.
 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

"Nova Paderia Nacional" em 1873

Em Outubro de 1873 surgia em Macau uma "Nova Paderia Nacional". O proprietário J. Bernardino publica este anúncio onde informa que "Sob esta denominação o abaixo assignado abre no dia 1 de novembro proximo a sua paderia, para a qual pede uma parte do patrocinio publico. O abaixo assignado, tendo no seu serviço empregados de reconhecida aptidão e experiencia, e empregando a melhor farinha americana na confeição de tudo que sae de seu novo estabelecimento, espera deixar satisfeitos aos que o queiram honrar com a sua freguezia. A Nova Paderia Nacional acha-se estabelecida nas cazas n.ºˢ 15 e 17 sitas na rua d'Albarda, a S. Lourenço."
A referida rua há muito que não existe... A Freguesia de São Lourenço, na zona sul/sudoeste da península era historicamente residencial e comercial, habitada por muitas famílias de matriz portuguesa e burguesia comercial, incluindo comerciantes estrangeiros o que justificaria a abertura de uma padaria de estilo ocidental neste perímetro.
Note-se o uso de "paderia" em vez de "padaria", uma variante comum no português oitocentista. O mesmo se aplica a palavras como "assignado", "confeição" (confecção), "sae" (sai), "cazas" (casas) e o acento agudo em "Macáo".

Anúncio publicado no jornal O Independente

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A morte de um agente de emigração chinesa

LEILÃO
POR ordem do ill.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Bernardino de Sena Fernandes, encarregado do consulado de Perú, os abaixo assignados venderão em hasta publica, no dia sexta-feira 3 de fevereiro, ao meio dia, nas casas n.º 53, sita na Praia Grande, toda mobilia do defunto Eᴅᴜᴀʀᴅᴏ M. Dɪ-Nᴇɢʀᴏ, constando de guarnição de sala, sofás, espelhos, piano, magnificas estampas em molduras, candieiros de augmento de pendurar, cadeiras, mesas de marmore, camas, commodas, lavatorios, armarios, mesas de jantar, e varios outros artigos, segundo o catalogo que se publicará.
E TAMBEM, Uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos, &c., &c., &c.
MARQUES & C.ᵃ Macau, 30 de janeiro de 1871.

Eduardo M. Dinegro era cidadão peruano e morreu a 24 de Janeiro de 1871 em Hong Kong. A existência de um consulado do Perú em Macau deve-se ao comércio/tráfico de cules/coolies (trabalhadores chineses contratados, muitas vezes sob condições de quase escravatura) entre 1851 e 1874. O Perú era um dos principais destinos para onde estes trabalhadores eram enviados para trabalhar nas plantações agrícolas e nas minas.
Com a abolição progressiva da escravatura negra no Perú (concluída na década de 1850), a elite proprietária de terras deparou-se com uma grave escassez de mão-de-obra. A importação de trabalhadores chineses sob contratos de servidão surgiu como a alternativa económica para sustentar a agricultura e a exploração mineira.
Macau transformou-se no principal porto de embarque devido às proibições impostas pelos britânicos noutras regiões da costa chinesa. Agentes privados e firmas locais (como a Dinegro & Landabaso) implantaram-se em Macau servindo de intermediários e operando os chamados "barracões", onde os trabalhadores eram reunidos (quando chegavam da China continental), os contratos eram assinados e os embarques eram organizados.

O inventário dos bens a leilão revela que Eduardo M. Di-Negro pertencia à elite abastada de Macau. Tal como a localização da residência, no nº 53 da Praia Grande, a maio da baía semi-circular. Desde o "piano" às "magnificas estampas em molduras" passando pelas "Mesas de marmore", espelhos, "sofás", "candieiros de augmento de pendurar" e, por fim, mas não menos importante, "uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos".
Ter uma carruagem e cavalos na Macau oitocentista era um sinal claro de imensa riqueza. Manter cavalos e carruagem era um sinal de ostentação já que nas estreitas e íngremes ruas da cidade este meio de transporte era altamente desaconselhável sendo usadas habitualmente as chamadas liteiras (ou palanquins), cadeiras de braços compridos à frente e atrás, que eram levadas por homens.

domingo, 19 de julho de 2026

"Empire Baby": uma relíquia fotográfica "Made in Macau"

No universo do coleccionismo de objectos vintage, há pequenas peças que contam grandes histórias sobre a globalização e a indústria transformadora de meados do século passado. A Empire Baby, promovida na sua embalagem original como "The Wonder Camera" (A Câmara Maravilha), é um exemplo perfeito deste encanto nostálgico.
Trata-se de uma câmara de tamanho ultra-compacto (daí o nome "Baby"), feita de baquelite ou plástico moldado preto, equipada com uma lente ótica simples ("Optical Crystal Lens"). O design minimalista inclui uma pequena alça de transporte para o pescoço e um característico botão de disparo vermelho.
Este modelo foi concebido para utilizar rolos de película de formato 127 ("Standard 127 Film"), permitindo tirar até 16 fotografias por rolo. O manual de instruções que acompanha o produto convida o utilizador a divertir-se ao sol ("Fun in the sun") e garante que, com um pouco de prática, qualquer pessoa será capaz de tirar fotografias com aspecto profissional.
A inscrição "MADE IN MACAU" é bem visível tanto na caixa de cartão amarelada como no pequeno folheto de instruções. A embalagem detalha ainda que o design do produto foi registado no Reino Unido ("Design Regd No. 890884 U.K."), sob o número 731.
Refira-se que este modelo também foi amplamente fabricado em Hong Kong.
Contexto
Até meados dos anos 70, a economia de Macau era dominada pelo setor têxtil, pela pesca e pelo tradicional fabrico de panchões (os cartuchos de pólvora para festividades). No entanto, no final dessa década, tornou-se urgente diversificar a economia local através de um verdadeiro salto tecnológico.
No início da década de 1980 - época de ouro do sector dos plásticos e produtos electrónicos de Macau - existiam no território cerca de 30 fábricas dedicadas ao fabrico de brinquedos, flores artificiais e artigos electrónicos. Nesse período grandes marcas multinacionais de brinquedos estabeleceram-se ou subcontrataram produção em Macau, incluindo a prestigiada Matchbox (famosa pelos carrinhos de metal) e a Harbour Ring. Eram produzidos em fábricas como a Perfekta Toys Ltd., a Sin Nung Toys Factory, a Wing Tat Plastic Toys Factory, a Kam Long Industrial Co. Ltd. e a Ho Tin Industries Ltd.

O catálogo era vastíssimo e os produtos "Made in Macau"/ "Fabriqué a Macau" / "Fabricado em Macau" eram exportados para todo o mundo. Produziam-se em grande escala brinquedos mecânicos e de corda, binóculos, aparelhos de rádio, relógios e pequenas câmaras fotográficas analógicas de plástico.
Em 1985, os brinquedos e os produtos electrónicos já representavam 31% de todas as exportações de Macau. No auge, em 1988, existiam no território 59 fábricas de brinquedos e plásticos, que davam emprego a cerca de 7 mil trabalhadores e representavam 10% do total das exportações locais.
Era também o fim de uma época. Com a abertura económica da República Popular da China no final dos anos 80, o preço da mão de obra no continente chinês tornou-se imbatível. As fábricas de Macau acabaram por fechar as portas e deslocalizar as linhas de montagem para a província vizinha de Guangdong (Cantão).

sábado, 18 de julho de 2026

Uma viagem à "esplanada" na década 1970

O temo quente convida a mais tempo em esplanadas. Estas fotografia documenta o espaço assim conhecido em português na década de 1970. Para a comunidade chinesa era a "Casa de Chá do Cavalo de Bronze". 

Localizada sob uma fileira de figueiras-de-bengala na então denominada Av. Dr. Oliveira Salazar (frente ao Liceu) o espaço tinha esta designação por ficar próximo da estátua do governador Ferreira do Amaral, designada popularmente pelos chineses como "estátua do cavalo de bronze".

銅馬茶座:位於蘇亞利斯博士大馬路一列大榕樹下的茶座,由於在銅馬像附近,故名“銅馬茶座”(1970年代)

PS: Um outro espaço muito semelhante existiu nas décadas 1950/60 mas a construção do Hotel Lisboa 'obrigou' à deslocalização.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

"Bebida para o Verão"

No Verão de 1933 uma das cervejas que se podia beber em Macau era a Dreher Trieste. Havia ainda a Sakura, Asahi, etc...
DREHER BEER
Cerveja italiana
A melhor qualidade de bebida para verão
À venda nas lojas:«Tai Song Lee» e «Macao Store»
Unicos Agentes:The Italian Agency 
2, Connaught Road Central, HONGKONG

O rótulo da garrafa no anúncio apresenta a inscrição "Dreher Beer" e indica a sua origem em "Trieste", a cidade italiana onde a marca se estabeleceu a partir de 1869. Contudo as origens da Dreher remontam ao final do século XVIII e estão profundamente ligadas à própria evolução das cervejas modernas do tipo lager na Europa Central. Em 1796 Franz Anton Dreher - mestre cervejeiro de origem suábia - adquiriu a pequena cervejaria Klein-Schwechat, localizada perto de Viena de Áustria.
Em 1841 o seu filho, Anton Dreher, assumiu o negócio e revolucionou a indústria mundial. Após viajar e estudar técnicas em Inglaterra e na Alemanha, combinou o método britânico de maltagem com a levedura de baixa fermentação. O resultado foi a criação da Vienna Lager, a primeira cerveja lager clara e brilhante do mundo, o que lhe valeu o título de "Rei da Cerveja".
Devido ao enorme sucesso e à necessidade de expandir a produção, em 1862 Anton Dreher comprou uma cervejaria no distrito de Kőbánya, em Budapeste. A excelente qualidade da água subterrânea daquela região húngara permitiu consolidar a Dreher como uma das maiores produtoras de cerveja do Império Austro-Húngaro.
Em 1869 o filho de Anton Dreher (Anton Dreher Jr.) expandiu o império familiar em direcção ao mar Adriático, comprando uma cervejaria na cidade portuária de Trieste (a do rótulo). Trieste pertencia ao Império Austro-Húngaro na altura, mas viria a integrar o território italiano após a Primeira Guerra Mundial.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Loja "A Portugueza" na Rua do Campo

No final do século 19 e início do século 20 a Rua do Campo e a Rua Central eram as principais artérias comerciais da cidade. Refiro-me aos negócios pertencentes a ocidentais, nomeadamente portugueses, já que a zona do bazar era onde se concentrava a maioria do comércio, deste caso dominado pelos chineses. 
No caso da Rua do Campo imperavam as mercearias e botequins onde os principais atractivos eram a venda de produtos portugueses, nomeadamente vinhos correntes, licorosos e enlatados.
Na imagem acima a "Loja A Portugueza" no número 50 da Rua do Campo. Em baixo um anúncio de Abril de 1911 publicado no jornal A Pátria.

Atenção !
LOJA "A Portugueza"
RUA DO CAMPO N.º 50, MACAU.
—+:0:+—
Achando-se o proprietario d'este estabelecimento em condições de competir com qualquer outro do mesmo genero, convida o respeitavel publico a não fazer qualquer acquisição sem primeiro confrontar as qualidades e preços dos generos porque aqui se vendem.
N'este estabelecimento se encontra á venda um grande sortimento de artigos tanto nacionaes como extrangeiros.
— PREÇOS SEM RIVAL —
Francisco dos Santos Ferreira.

Na Rua do Campo havia ainda no início do século 20 - entre outros estabelecimentos - a "Loja Alto Douro" (no número 22), propriedade de António Martins da Silva que garantia que "n'esta rua não há quem venda mais barato" e o "Novo Botequim Portugal" (no número 36) de João José Pedro.

PS: Note-se que a Av. de Almeida Ribeiro só ficou concluída cerca de 1918 e só a partir de então passou a constituir-se com principal artéria comercial de Macau, pela sua extensão e pelo facto de ter comércio dos dois lados da avenida.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Macao Ice Company"

OLHAE BEM
A "MACAO ICE COMPANY" participa ao respeitavel publico que acaba de estabelecer um deposito para a venda de gêlo, na Rua dos Mercadores n.º 51.
O gêlo é feito na nova fabrica, na AREIA PRETA, com agua de fonte distillada e pelos systêmas mais modernos; sendo portanto a sua salubridade e pureza garantidas.
O proprietario d'esta fabrica convida o publico de Macau a visitar a dita fabrica para assim verificar pessoalmente a limpeza com que o gelo é feito.
O preço por libra é de um avo de pataca; havendo preço especial para a venda em grande quantidade.
Os livretes para a compra do gelo podem ser pedidos nas officinas da mesma; Rua da Sé, n.º 10.
PEDRO L. HINGKEE,
Proprietario.
Este anúncio foi publicado em Abril de 1909 no jornal Vida Nova. Poucos anos antes, em 1903, Pedro Leong Hing Kee vendera o hotel que tinha na Praia Grande e nesta altura dedicava-se a uma novo negócio - uma fábrica de gelo - que seria seguido pelo filho. Este por sua vez também se iria dedicar à venda de automóveis.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

"Fábrica de Sutate e Conservas"

Na imagem uma fotografia da "Fábrica de Sutate e Conservas Tong Iec Pak Fa Fui". Esta inscrição está sobre a porta do edifício. Ao longo do fachada estão vários caracteres chineses, lendo-se da direita para a esquerda (estilo tradicional): 同益百花魁 (Tóng Yì Bǎi Huā Kuí)
Esta fábrica fundada em 1902 estava localizada na Av. Demétrio Cinatti (zona do Patane no PortoInterior). O sutate é uma variante de molho de soja muito aromático.


Tong Yick Pak Fa Fui
PRESERVED FRUIT & SOY FACTORY
百花魁
同益醬園
專營糖菓.涼果.酸菓.果胚
◀ 歡迎定貨出口 ▶
澳行:澳門十月初五街二十四號
電話:二三四九
港行:香港皇后大道中三三八號
電話:四八五五一 四九八九一
工廠:澳門沙梨頭海邊街一八一號
電話:二六二〇

Tradução/Adaptação:
Tong Yick Pak Fa Fui: Tong Yick (同益) é o nome da empresa; Pak Fa Fui (百花魁) é a marca do produto principal que significa literalmente "A Chefe de Cem Flores", um nome poético muito famoso para as suas ameixas em conserva.

PRESERVED FRUIT & SOY FACTORY
Fábrica de Fruta Conservada e Molho de Soja.

Descrição dos Produtos e Serviços
專營糖菓.涼果.酸菓.果胚: 
Especializada em doces/rebuçados, frutas em conserva (estilo chinês), frutas em conserva azedas/vinagre e polpa/base de fruta.

歡迎定貨出口: Encomendas para exportação são bem-vindas.
Endereços e Contactos (Filiais e Fábrica)
Filial de Macau (澳行): 
Endereço: Rua de Cinco de Outubro, N.º 24, Macau (澳門十月初五街二十四號) Telefone: 2349 (二三四九)

Filial de Hong Kong (港行): 
Endereço: Queen's Road Central, N.º 338, Hong Kong (香港皇后大道中三三八號) Telefone: 48551 / 49891 (四八五五一 / 四九八九一)

Fábrica (工廠): 
Endereço: Avenida do Demétrio Cinatti, N.º 181, Macau (澳門沙梨頭海邊街一八一號)
Telefone: 2620 (二六二〇)

Curiosidade: o sabor típico do minchi (macaense) provém da adição de sutate misturado com açúcar.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Cena do quotidiano da Rua de S. Lourenço na década 1960

A imagem é um registo histórico da Macau dos anos 60, capturando a essência da vida de bairro. O cenário é a Rua de São Lourenço, onde a arquitectura de matriz europeia (notória nas janelas de persianas e no edifício ao fundo, o Instituto Salesiano) serve de moldura para uma vivência puramente asiática. Em destaque as estruturas efémeras do comércio de rua, tão típicas da cidade.
A parede do edifício funciona como um "outdoor" orgânico, revelando a penetração de marcas globais e regionais na economia local: Green Spot, Orange Crush, Vitasoy e Sunkist são alguns dos cartazes expostos.
Neste exemplo da natureza híbrida da realidade de Macau sobressai o comércio de rua improvisado servindo refeições rápidas e bebidas (incluindo chá, certamente). No letreiro de fundo vermelho os caracteres em branco indicam 內育电冻冰水, ou seja, venda de bebidas frescas e nutritivas. No armário de vidro à direita estão o que parecem ser pães e bolos. Ao lado uma um expositor dedicado à venda de cigarros, organizados meticulosamente.
Sobre a calçada de paralelepípedos uma mulher usa uma cana de bambú para transportar aos ombros duas latas (possivelmente com água). Por último, ao fundo pode ver-se um antigo marco do correio (vermelho).

quinta-feira, 19 de março de 2026

Inauguração do Café Ruby/ 紅寶石

Café Ruby
紅寶石 
Ruby
咖啡館 
Café
本館謹訂西曆七月六日正午十二時開幕
Este estabelecimento tem a honra de fixar a sua abertura para o dia 6 de Julho do calendário ocidental, ao meio-dia em ponto.
敬請 各界中西人士駕臨參觀指導曷勝榮幸
Convidamos cordialmente as individualidades chinesas e ocidentais de todos os setores a honrarem-nos com a sua visita e orientação. Será uma grande honra.
紅寶石咖啡室敬約
Atentamente, Café Ruby.
Na base do anúncio o endereço e o telefone:
Endereço: 新馬路平安戲院隔鄰 
Avenida Almeida Ribeiro, ao lado do Teatro Apollo, que em chinês se lê Ping On e significa Grande Teatro da Paz (平安大戲院)
Telefone: 電話:三六五一  3651.
Anúncio em chinês da inauguração do Café Ruby - diz-se Hong Pou Seak - nos primeiros anos da década 1950. O estabelecimento - tinha rádio, mesas de bilhar e ar condicionado - surge referido no Anuário de Macau 1953-1955, publicado em 1956. Foi fundado por um cidadão chinês oriundo de Cantão. Ficava no nº 1-M r/c da Avenida de Almeida Ribeiro, junto ao teatro/cinema Apollo, e frente à entrada lateral do edifício dos CTT. 
Para além de Café o ruby era também restaurante. Encerrou no início da década de 1970.

terça-feira, 10 de março de 2026

O "escritor de cartas"

Esta fotografia é um registo de meados do século 20. Numa rua de Macau um "escritor de cartas" protegido do sol por um chapéu de chuva atende uma cliente. No cartaz está escrito em chinês tradicional 寫信. Significa "Escreve-se cartas".
Exemplo de uma antiga profissão que era habitual ver-se na cidade pelo menos até à década de 1980 como pude testemunhar. Fruto dos baixos índices de alfabetização, nomeadamente dos mais velhos, estes profissionais montavam bancas na rua e em troca de algumas patacas redigiam correspondências, preenchiam formulários oficiais ou liam cartas recebidas.

sábado, 31 de janeiro de 2026

A "Markwick's Tavern" na Praia Grande

Na extremidade da Praia Grande (perto da zona que corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a Rua do Campo - Jardim de S. Francisco) Richard Markwick tinha um estabelecimento comercial denominado "Markwick's Tavern" ou "British Tavern". 
Relatos de viajantes na época descrevem o estabelecimento como um edifício de dois pisos. No piso térreo funcionava a taberna propriamente dita, o armazém de provisões e o escritório. No piso superior, onde os hóspedes podiam desfrutar da brisa marítima e observar o movimento dos navios na baía, estavam disponíveis quartos.
O médico inglês Charles Toogood Downing passou por Macau em 1836 e segundo ele "o único hotel inglês no local é grande e mantido por um homem chamado Markwick, que tem outro ainda maior em Cantão. A maioria dos visitantes do sexo masculino reúne-se aqui e diverte-se à noite jogando bilhar, à moda russa."
Era o refúgio principal para oficiais, sobrecargas e passageiros que, enquanto não podiam subir o rio até Cantão, aguardavam em Macau o desenrolar dos negócios ou a chegada das monções. Numa época em que não havia serviço oficial de correio, esta taberna funcionava também como posto de correspondência.
Detalhe de gravura de Thomas Allom (1843) a partir de desenho de outro autor
Assinalei a localização da "Markwick's Tavern"

Da pouca informação que existe sobre Richard sabe-se que era inglês tendo nascido em 1791. Chegou à China acompanhando o pai que era comerciante. Por volta de 1825 demitiu-se da EIC (Companhia Inglesa das Índias Orientais) em Cantão e estabeleceu-se por conta própria. 
Em 1830 era sócio da Markwick & Lane, Co. (com Edward Lane), empresa que funcionava como agente da escuna Sylph, que transportava passageiros e correspondência entre Cantão e Macau. 

No "A COMPANION TO THE CHINESE KALENDAR FOR THE YEAR OF OUR LORD 1832", impresso em Macau, ficamos a saber a localização da Taberna e também do Armazém:

The TAVERN Macao Mr C MARKWICK. Near the east end of the beach two doors to the right of the Chop hose or Custom house station to which Chinese boats generally pull up. 

A TABERNA Macau – Sr. C. MARKWICK Próximo à extremidade leste da praia, duas portas à direita da Chop House (o Hopu - Alfândega), onde os barcos chineses geralmente encostam.

Com esta descrição tão detalhada assinalei na gravura de Thomas Allom - acima - o edifício da Taberna. Aquele mastro com bandeira é o símbolo do Hopu, a alfândega chinesa na Praia Grande. 

Vejamos agora a localização do Armazém de acordo com a descrição na obra referida.

The EUROPEAN WAREHOUSE, Macao. Messrs MARKWICK & LANE. On the Franciscan Green at the east and of the beach.

O ARMAZÉM EUROPEU, Macau – Srs. MARKWICK & LANE. No Campo de São Francisco na extremidade leste da praia. 
A possível localização do armazém de acordo com a descrição
Detalhe de uma pintura ca. 1830 (autor anónimo)

Com a morte do sócio Edwad Lane em 1831, Richard cria uma empresa em nome próprio em 1833, a Markwick & Co. 
Nesta altura já era casado com a macaense Maria Quitéria Ângela Vidal (viúva) com quem teve 3 filhos. Richard morreria vítima de doença prolongada a 30 de Janeiro de 1836. Quem ficou a tomar conta do negócio foi o irmão Charles pelo menos até 1846 quando se mudou para Hong Kong. Morreu em 1857. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick & Co's"

Neste detalhe da primeira página da edição do The Canton Register de 27 de Maio de 1834 assinalei um anúncio:
"Horsburgh's Charts are always on sale at R. Markwick' & Co.'s"
(As Cartas de Horsburgh sempre à venda na R. Markwick & Co.).
As "Horsburgh's Charts" eram cartas náuticas criadas pelo hidrógrafo escocês James Horsburgh (1762-1836), consideradas as mais credíveis na época para quem pretendia navegar  entre a Índia, o Sudeste Asiático e a China. Uma espécie de "Bíblia" dos Mares...
James Horsburgh, hidrógrafo da Companhia das Índias Orientais desde 1810, compilou décadas de dados sobre ventos, correntes e recifes.
As cartas eram indispensáveis para atravessar locais traiçoeiros como o Estreito de Malaca, o Mar da China Meridional e as aproximações de Macau. Sem elas, o risco de naufrágio em recifes não mapeados era altíssimo.
Na época o Porto de Cantão era o único acessível aos comerciantes estrangeiros na China, após uma paragem obrigatória em Macau onde tinha de obter autorização para prosseguir até Cantão.
Detalhe de carta náutica James Horsburgh. 1815

A firma R. Markwick & Co. - onde se vendiam estas cartas - constituía um pilar logístico fundamental para a comunidade estrangeira em Macau e Cantão na década de 1830, operando como uma espécie de "balcão único" para as necessidades práticas da frota mercante internacional. 
Richard Markwick, o fundador, era um empresário britânico que se posicionou estrategicamente no mercado chinês pré-Guerras do Ópio, não como um negociante de mercadorias como o chá ou o ópio, mas como um facilitador técnico e de serviços. 
Para além de cartas náuticas comercializava outros instrumentos essenciais na navegação como o cronómetro, bens alimentares, material para reparação das embarcações (lonas, cordas, etc...). Actuava ainda como casa de leilões para mercadorias danificadas ou bagagens abandonadas, fornecia alojamento em Cantão e em Macau e assegurava uma ligação marítima com alguma regularidade entre as duas cidades.
PS: no próximo post mais detalhes sobre a estalagem de Markwick em Macau.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Um "pai fong" especial em Outubro de 1945

A fotografia - encontrada numa pesquisa aleatória na internet - retrata o quotidiano em Macau em Outubro de 1945 (embora não estivesse datada). Sobre a data e o que mostra a imagem é o que trata esta publicação...
Ao centro destaca-se um um "pai-fong" (arco comemorativo) erguido para celebrar a vitória da China na Guerra de Resistência contra o Japão por via do fim da II Guerra Mundial. 
Entre os vários elementos visuais no arco está a bandeira do Kuomintang (da República da China) - ainda não tinha sido proclamada a República Popular de 1949 - e a cruz que simboliza a vitória aliada. 
Após a rendição do Japão em Agosto de 1945, os arcos comemorativos incorporaram frequentemente o símbolo "V" ou cruzes - vê-se uma do lado direito - para representar a vitória dos Aliados e o fim da II Guerra Mundial. O arco assinala também as festividades do "Duplo Dez", alusivas ao 10 de Outubro de 1911, data da proclamação da República na China.  A Revolução Xinhai derrubou a dinastia Qing pondo fim a mais de dois mil anos de regime imperial e estabelecendo a República da China.
Em 1945 as festividades foram particularmente grandiosas já que se celebrava também o fim da ocupação japonesa na China. Os arcos deste ano incluíam frases como 世界和平 "Paz Mundial" e 光復祖國 "Restauração da Pátria".
Ao fundo vislumbra-se parte da fachada do edifício do Leal Senado. Podem ainda ver-se transeuntes - civis e militares cujas indumentárias de tempo mais frio ajudam a datar a foto - e riquexós (do lado direito). A fotografia foi tirada do Largo de S. Domingos. Entre as placas comerciais do lado esquerdo está a Garage Popular (chegou a estar na Av. Almeida Ribeiro), a Livraria Po Man Lau 寶文新圖書局 (esteve noutros locais nesta zona), um consultório médico 大醫師 e uma mercearia 民平. Do lado direito a placa toponímica do Largo de S. Domingos. 
Livraria Po Man Lau vista do outro lado

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O "Canton System"

Em 1684 o imperador Kangxi (康熙) da dinastia Qing (清朝) levantou a proibição do comércio marítimo e abriu quatro portos da China ao comércio externo. São assim criados os postos alfandegários, os Hopu. Na região de Macau (a partir de 1688) existiam quatro postos alfandegários - dois deles na cidade: Porto Interior e Praia Grande - responsáveis ​​pela cobrança de tarifas, inspecção de embarcações estrangeiras e emissão de autorizações de entrada.
Ao longo do século 18 o cada vez maior interesse de potências ocidentais, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos, em negociar com a China levou o imperador a criar regras.
O "Sistema de Cantão" - do inglês Canton System - consistia numa série de regulamentos para governar as interações entre chineses e estrangeiros em Cantão. Foi criado em 1757 pelo imperador Qianlong que emitiu um édito proibindo os navios europeus de negociarem em qualquer outro porto chinês que não fosse o de Cantão.
Praia Grande de Macau por G. Chinnery ca. 1825/30

Os supercargueiros (supercargos) estrangeiros que desejassem comercializar em Cantão solicitavam uma licença em Macau antes de contratar um piloto local para navegar a embarcação pelo estuário do Rio das Pérolas até à estação alfandegária de Bocca Tigris. Após as autoridades inspeccionarem a licença, um “prático interno” assumia o comando do navio e guiava-o rio acima, passando por uma série de
bacias de areia e bancos de areia traiçoeiros, até à ancoragem designada em Whampoa, já muito perto de Cantão. 
Um membro do grémio de mercadores “Co Hong” (hang 行) autorizado pelas autoridades chinesas era então recrutado para garantir a segurança do navio, assumir a responsabilidade pela conduta da sua tripulação, fiscalizar o pagamento de diversas taxas portuárias e direitos aduaneiros e comercializar com a embarcação estrangeira. 
Era também contratado um 'comprador' para abastecer o navio enquanto este estivesse atracado em Whampoa, e um linguista ou intérprete licenciado pelo Estado ajudava a supervisionar as transacções comerciais entre o supercargo estrangeiro e o seu parceiro comercial chinês. 
Em Cantão, junto ao rio, foi criado um espaço onde estavam instaladas treze "feitorias" (factory em inglês). Ficava fora das muralhas da cidade onde o estrangeiros não podiam entrar. Os edifícios serviam de alojamento e armazém para os comerciantes estrangeiros enquanto estes permaneciam em Cantão e conduziam os seus negócios.
No fim de cada temporada de comércio (Março a Setembro), os comerciantes tinham de sair de Cantão, residindo em Macau os restantes meses do ano, onde também estavam as famílias e, por vezes, escritórios das empresas de maior dimensão.
O sistema gerou enorme frustração nos britânicos (liderados pela Companhia das Índias Orientais), que o consideravam humilhante e comercialmente limitador. O desequilíbrio comercial - o Ocidente comprava chá e seda, mas a China apenas aceitava em troca a prata - levou os britânicos a introduzirem o ópio no mercado chinês para equilibrar a balança.
Em 1802 e 1808 os ingleses tentaram ocupar Macau mas não lograram os objectivos. Estas intenções seriam mal vistas pelas autoridades chinesas que entretanto emitem éditos a proibir o comércio do ópio. 
Aguarelas de meados do séc. 19

Após o parlamento inglês ter revogado o monopólio da Companhia das Índias Orientais, em 1834, William John Napier foi nomeado superintendente-chefe do comércio britânico na China. Tentou negociar com as autoridades de Cantão em pé de igualdade, mas estas interpretaram o seu comportamento como contrário às relações sino-estrangeiras estabelecidas. A sua missão fracassou e Napier viria a morrer nesse ano em Macau. Foi substituído em 1836 por Charles Elliot.
Em Pequim, uma proposta de 1836 para aliviar as restrições ao ópio obteve um amplo apoio, mas o imperador Daoguang nomeou um patriota radical, Lin Zexu, como comissário imperial para uma campanha antiópio. Os esforços chineses contra o ópio, de facto, começaram a obter avanços consideráveis ​​no controlo do lado chinês do contrabando no final de 1838 e início de 1839. O lado estrangeiro crucial do comércio de ópio, no entanto, estava fora do alcance directo do Comissário Lin. Após chegar a Cantão, em Março de 1839, Lin confiscou e destruiu mais de 20.000 caixas de ópio. Em setembro, começaram as escaramuças entre os chineses e os britânicos.
Era o desencadear da primeira Guerra do Ópio (1839-1842). O "Sistema de Cantão" foi oficialmente abolido com o Tratado de Nanking, que pôs fim à Primeira Guerra do Ópio e forçou a China a abrir ao estrangeiro cinco novos portos - "Portos de Tratado" / Teatry Ports - e a ceder Hong Kong.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Manifesto de carga da nau portuguesa Nossa Senhora do Bom Despacho: 1755

 

Lista da Carga da Na'o Portugueza chamada Nossa Senhora do Bom Despacho, que partio de Lisboa em 22. de Fevereiro de 1754, e chegou a Macão em 30. de Julho, donde sahio em 13. de Janeiro do prezente anno de 1755 e se recolheo no referido porto de Lisboa em 24 de Julho: e os referidos generos se haõ de vender em Leilaõ publico.

Coluna da Esquerda 
1267 Peças de Cabayas de 4. fios.
489 ... ditas. ... de 6. fios.
292 ... ditas. ... de 8. fios.
190 ... ditas. riscadas.
42 ... lustrinas.
50 ... riscadas.
98 Peças de Chamalotes.
298 ... Nobrezas riscadas, e flores.
45 ... ditas. de [branco]
200 Peças de meyos Gorgoroes lustrados
25 Peças de Setins.
992 ... lizos.
295 ... ditos. de [branco]
500 ... ditos. de [branco]
190 ... de duas cores, e [branco]
100 ... ditos adamafcados.
149 Peças de Damascos.
200 ... ditos. ... de [branco]
99 Peças de Gorgoroes.
503 Peças de Mellanias de flores.
343 Peças de sedas de matizes.
48 ... de Lós, e flores de ouro.
90 ... de seda
50 Lins de Nankin.
225 Cabayas pintadas.
40 ... ditas. de [branco]
68 Setins bordados.
190 Peças de lenços de 20. em peça.
7680Peças de Sedas.

150 Cortes para vestias de seda tecidos
80 Sayas de Setim bordado.
12 Mantilhas.
31 Colxas
30 ditas bordadas de sedaquinha.
14 Aventaes. (Bordadas)
14 Lenços. (Bordadas)
6 Cobertas. (Bordadas)
2000 Peças de Cangas de Nankin.

Coluna da Direita (Especiarias, Chás e Diversos)
192U321 Arrateis de Chá Boy.
215U513 ... Verde.
12U934 ... Sequim.
3U832 ... Cangubim.
17U001 ... Aiton.
1U152 ... Gobim.
3U679 ... Canfú.
1U178 ... Sevehon.
U336 ... Pego.
446U946 arrateis de Chá.
U844 Bulles de Chá de diversas qualidades.
25U516 Arrateis de concha de madre perola.
1U237 ... de Ruybarbo.
U334 ... de Goma gutta.
U256 ... Azebre.
U180 ... de Ságue de Drago.
U287 ... de Pimenta longa.
U640 ... de Aniz.
U233 ... de Trincal.
12U337 ... de Pau China.
11U330 ... de Galingalla.
49U561 ... de Páo Sapaõ.
U016 ... de Almifcar.
U023 ... de Aljofar botica.
312 Caixas, e cachões de louça de diferentes qualidades.
3 ... De cobre esmaltado
50 ... de Charões.
3 ... de Papeis pintados
2 ... de cor em pasta.
7U136 Leques de diversas qualidades.
32 Bocetas de louça.
26 ditas de cobre esmaltado.
28 ditas de Tinta de Nankin.

Esta nau descarregou em Lisboa apenas três meses antes do grande terramoto de 1 de Novembro de 1755. Muitos dos tecidos e luxos listados neste documento podem ter sido destruídos no incêndio e maremoto que se seguiram ao desastre.As minhas pesquisas indicam que pertencia a Feliciano Velho Oldemberg, o fundador da Companhia da Ásia Portuguesa, empresa de navegação com sede em Lisboa.
Uma nau portuguesa no século 18

Notas:
"U": Era utilizado em documentos comerciais portugueses do século XVIII para separar os milhares (ex: 192U321 = 192.321).
Arratel (Arrateis): Antiga unidade de peso, equivalente a aproximadamente 459 gramas.
Cabaia: Tipo de túnica ou casaco longo usado no Oriente.
Nankin: Refere-se a produtos provenientes de Nanquim, na China.
Boceta: pequena caixa ou estojo
Cabayas (Cabaias): Eram túnicas ou casacos longos, de origem oriental (muito usados na Índia e China). No documento, são listadas por "fios", o que indicava a densidade ou a qualidade da tecelagem.
Chamalotes: Um tecido luxuoso, originalmente feito de pelo de camelo ou cabra angorá misturado com seda, que apresentava um aspecto ondeado ou "furta-cor".
Nobrezas: Um tipo de seda muito fina e lustrosa, altamente valorizada para a confecção de roupas de gala.
Gorgorões: Tecidos de seda ou lã com nervuras transversais (relevos), conhecidos pela sua resistência e corpo.
Cangas de Nankin: A "canga" era um pano de algodão resistente e azul vindo de Nanquim. Era tão popular que o termo acabou por dar origem à palavra "ganga" (o denim ou jeans atual).
Chá Boy (Bohea): O termo vem das montanhas Wuyi (pronunciado Bu-yi). Na época, referia-se geralmente ao chá preto de qualidade superior.
Chá Verde: O chá não fermentado, muito apreciado pelas suas propriedades medicinais.
Chá Cangubim / Canfú: Variações de nomes chineses (como Congo ou Campoi) para diferentes graus de folhas de chá preto.
Ruybarbo (Ruibarbo): Uma das raízes mais valiosas da época, usada como purgante e para problemas digestivos. Vinha da China através de rotas perigosas.
Ságue de Drago (Sangue de Dragão): Uma resina vermelha brilhante extraída de certas palmeiras. Era usada como medicamento, verniz para madeira e até na alquimia.
Goma gutta: Uma resina amarela intensa usada como pigmento em pinturas e também como um forte laxante.
Páo Sapaõ (Pau-Sapan): Uma madeira que, ao ser fervida, soltava um corante avermelhado usado para tingir tecidos. É um "primo" botânico do Pau-Brasil.
Almifcar (Almíscar): Uma substância odorífera caríssima obtida de uma glândula do veado almiscareiro, base para os perfumes mais caros da Europa.
Charões: Refere-se a objetos de madeira ou metal revestidos com laca japonesa ou chinesa (o verniz "charão"), conhecidos pelo brilho negro profundo e decorações douradas.
Aljofar botica: "Aljôfar" refere-se a pérolas pequenas, irregulares ou moídas, que eram utilizadas em preparações farmacêuticas ("botica") da época.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

"A Voyage Round the World in 500 Days"

"A voyage round the world in 500 days, with details, compiled and arranged by G. Sutherland Dodman. Giving an account of the principal parts to be visited with a brief description of the scenery and all particulars connected with the undertaking; Illustrations and Map and Chart of the Route. Sailing from Liverpool, June, 1880"
Este longo título descreve a obra da autoria de G. Sutherland Dodman publicada pela primeira vez em Londres no ano de 1879. No título refere-se que a partida seria em Liverpool em Junho de 1880., ou seja em data posterior à publicação do livro. Estamos pois perante uma viagem programada. Na prática o autor compila todas as informações disponíveis na época e apresenta neste livro um guia para uma volta ao mundo ao longo de 500 dias.
O livro foi publicado pouco depois do grande sucesso de Júlio Verne, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873), que despertou o fascínio do público pela circum-navegação do mundo. Capitalizando o interesse que a obra de Verne suscitou, Dodman apresenta o que diz ser um plano para uma viagem "realista" de 500 dias.
Macau surge referido na obra a propósito de uma escala em Hong Kong. De uma forma geral as informações sobre a história do território são fidedignas, com algumas excepções, apresentando o contexto do que era Macau no último quartel do século 19.
Aqui fica o excerto bem como uma tradução/adaptação do mesmo:


"(...) Some 40 miles distant across the Canton river and on a peninsula of the island of Heang shang, is the Portuguese settlement of Macao, another town of considerable interest. Macao was ceded to the Portuguese during the sixteenth century as a reward for services rendered in the suppression of a noted Japanese pirate and other acts for the well being of the Chinese empire, but the present Government do not care to recognize them as the owners of the Macao peninsula.
Since the treaty ports were opened, the trade of Macao appears to have sunk into insignificance and now that the coolie traffic has been abolished and the tea trade taken to the Yang tse Kiang ports, it has become a ruined town and its only revenue is derived from the licensing of the gambling houses of which there are not a few.
Visitors are admitted to a gallery in these places to see the novel way in which the Chinese, who, by the way, are inveterate gamblers win and lose their money.
The bay is very beautiful and is surrounded by very fine scenery. The Praya Granda, a fine broad promenade running along by the beach, contains the Government House and other good buildings with a great number of elegant mansions having large gardens. These were formerly the residences of the wealthy merchants of Macao.
A most delightful view of the coast and the curiously shaped islands adjacent may be obtained.
The Cathedral is a noble looking building and its interior contains some exquisite workman ship. The Jesuit Cathedral of St Paul, built over 300 years ago, was some time back destroyed by fire but the ruins which still remain give some idea of its original grandeur. The churches,  which are numerous, are most elegant structures. The Senate House, at the head of the principal thoroughfare, is a stately building and an object of much interest. The old convents on the side of the hills are now converted into barracks but are little used.
The gardens surrounding them were at one time very beautiful. The public gardens are very pretty and attractive and from their lovely situation might if tended with proper care become a most popular resort.
The Bar Fort is a very formidable defensive work and a visit to it will prove very interesting. The markets are full of novelty and much amusement may be derived from a walk through them. The Portuguese Barracks are large and discipline is strictly maintained but the men have not the fine appearance of British soldiers owing to their irregularity in height no fixed standard appearing to be enforced.
The Cemetery is full of interest and is the resting place of many famous residents in Macao, when it was the great emporium of Portuguese commerce in the East. The monuments and tombs are somewhat peculiar in their style and are worth a visit.
The Pagoda and Chinese Temples may be visited but they fall far short of the interesting character of the temples of Japan or of others to be seen in China.
The streets, as a rule, are narrow but clean and orderly. They are however for want of the ordinary wear of traffic more or less overgrown with grass. It may in fact be said of the inhabitants of this once famous port that they are allowing the grass to grow under their feet while other places are reaping the harvest of prosperity.
One of the most interesting spots here is the gardens behind the town where the great Camoens wrote his famous Lusiad, a portion of which he composed during the time he held the high office of Portuguese Judge at Macao. There is also the cavern from which he studied the stars and their satellites in their brilliant splendour. The natural beauty of these lovely gardens is beyond description and from their elevated position they command a most delightful view of the town, the neighbouring coast and the broad expanse of ocean. Few places can equal in picturesque beauty the gardens of Camoens. The climate here is healthy and the place is a favourite resort for invalids and pleasure seekers. (...)

Panorâmica da cidade vista da Penha ca. 1880
(imagem não incluída no livro referido)

Tradução/Adaptação
A 40 milhas de distância, do outro lado do rio Cantão, e numa península da ilha de Heang shang, situa-se o território português de Macau, outra cidade de considerável interesse. Macau foi cedida aos portugueses durante o século XVI como recompensa pelos serviços prestados na supressão de um notório pirata japonês e outros actos para o bem-estar do império chinês, mas actualmente não há o reconhecimento da posse territorial.
Desde que os portos do tratado foram abertos*, o comércio de Macau parece ter afundado na insignificância e, agora que o tráfico de cules foi abolido** e o comércio de chá foi levado para os portos de Yang tse Kiang, a cidade tornou-se uma ruína e a sua única receita deriva do licenciamento das casas de jogo, que não são poucas. Os visitantes estrangeiro são admitidos numa galeria nestes locais para ver a forma como os chineses, que, aliás, são jogadores inveterados, ganham e perdem o seu dinheiro.
A baía é muito bonita e está rodeada por uma paisagem muito delicada. A Praia Grande, um amplo e belo passeio marítimo que corre junto à praia, contém o Palácio do Governo e outros bons edifícios, com um grande número de elegantes mansões com grandes jardins. Estas foram outrora as residências dos ricos comerciantes de Macau.
Da cidade conseguem-se ter vistas fantásticas vistas panorâmicas costa e das ilhas adjacentes.
A Catedral é um edifício de aspeto nobre e o seu interior contém um trabalho artesanal requintado. A igreja jesuíta de São Paulo, construída há mais de 300 anos, foi destruída por um incêndio há algum tempo ***, mas as ruínas que ainda permanecem dão uma ideia da sua grandiosidade original. As igrejas, que são numerosas, são estruturas muito elegantes. O edifício do Senado, no topo da principal artéria, é um edifício imponente e de grande interesse. Os antigos conventos na encosta das colinas estão agora convertidos em quartéis, mas são pouco usados. Os jardins que os rodeavam já foram muito bonitos. 
Os jardins públicos são muito bonitos e atraentes e, devido à sua adorável localização, poderiam, se tratados com o devido cuidado, tornar-se um resort muito popular.
O Forte da Barra é uma obra defensiva formidável pelo que que uma visita será muito interessante. Os mercados estão cheios de novidades e proporcionam um passeio muito divertido. Os quartéis portugueses são grandes e a disciplina é estritamente mantida, mas os homens não têm a boa aparência dos soldados britânicos devido à irregularidade da altura, não oferecendo um conjunto homogéneo.
O cemitério**** é um local de bastante interesse e é o local de descanso de muitos residentes famosos em Macau, quando era o grande empório do comércio português no Oriente. Os monumentos e túmulos têm um estilo um tanto peculiar e merecem uma visita.
O pagode e os templos Chineses podem ser visitados, mas ficam muito aquém do carácter interessante dos templos do Japão ou de outros que se podem ver na China.
As ruas, em regra, são estreitas, mas limpas e ordenadas. Contudo, devido à falta do desgaste normal do tráfego, estão cobertas de erva. De facto, pode-se dizer dos habitantes deste outrora famoso porto que estão a deixar a erva crescer debaixo dos seus pés enquanto outros lugares colhem a ceifa da prosperidade.
Um dos locais mais interessantes aqui são os jardins nas redondezas da cidade, onde o grande Camões escreveu o seu famoso Os Lusíadas, uma parte do qual compôs durante o tempo em que ocupou o alto cargo de juiz português em Macau. Há também a gruta de onde ele estudava as estrelas e os seus satélites no seu brilho esplendoroso. A beleza natural destes jardins encantadores está para além de qualquer descrição e, da sua posição elevada, proporcionam uma vista deslumbrante da cidade, da costa em redor e do delta do rio. Poucos lugares podem igualar em beleza pitoresca os jardins de Camões. O clima aqui é saudável e o local é um resort favorito para pessoas doentes e pessoas que procuram prazer. (...)"

*referência à década de 1860 e à segunda guerra do ópio.
** a abolição ocorreu em 1873.
*** 1835.
*** cemitério protestante junto ao Jardim Camões.